INTRODUÇÃO
As lesões musculoesqueléticas relacionadas com o trabalho (LMERT) constituem um dos principais problemas de saúde ocupacional, resultando da exposição a fatores de risco profissionais como a repetitividade, a sobrecarga e a postura adotada durante a atividade laboral (1). De acordo com o Sistema de Estatísticas da Segurança Social (2), as LMERT representam o tipo de doença profissional mais frequentemente certificada em Portugal. No entanto, a sua relação causal com o trabalho nem sempre é linear, dada a influência de fatores extralaborais.
A análise do posto de trabalho desempenha um papel crucial na identificação e avaliação de riscos ocupacionais, permitindo a implementação de medidas preventivas e corretivas. A Lista de Doenças Profissionais inclui patologias tipicamente associadas ao trabalho, especificando fatores de risco e um prazo indicativo de exposição. Alternativamente, patologias não incluídas na lista podem ser reconhecidas como doenças profissionais caso se demonstre que têm relação direta e necessária com a atividade desempenhada e que não resultem do desgaste fisiológico natural, de acordo com o artigo 283.º do Código do Trabalho.
A tenossinovite estenosante ou dedo em gatilho enquadra-se nas LMERT e caracteriza-se por um deslizamento tendinoso deficiente ao nível da polia digital A1, muitas vezes associado a movimentos repetitivos e sobrecarga mecânica (3) (4). Segundo a Lista de Doenças Profissionais, os principais fatores de risco incluem a força aplicada e o ritmo dos movimentos, com um prazo indicativo de três meses de exposição. Trabalhadores sujeitos a gestos repetitivos e rápidos, posições articulares extremas e trabalho em regime de cadência imposta estão particularmente vulneráveis a esta patologia. Clinicamente, manifesta-se por dor ou desconforto palmar na região da polia A1 do dedo afetado, nódulo palpável no respetivo tendão flexor, perda de força de preensão e crepitação, ressalto ou bloqueio do movimento digital, com casos mais graves a apresentar clínica de contratura fixa em flexão do dedo afetado. As recomendações relativas à atividade incluem evicção de esforços manuais e utilização de ortóteses para alívio dos sintomas. A injeção de corticosteroides é a opção de primeira linha, podendo ser complementada com fisioterapia e analgesia através de Anti-inflamatórios Não-Esteroides (AINEs). Nos casos refratários, deve ser ponderada a abordagem cirúrgica.
A rizartrose, por sua vez, é uma perturbação degenerativa da articulação trapeziometacárpica que pode resultar em subluxação e limitação funcional, com maior prevalência em mulheres com mais de 50 anos (4).
Embora não conste da Lista de Doenças Profissionais, pode ser reconhecida como tal se se comprovar que resulta diretamente da atividade exercida. Os fatores de risco ocupacionais incluem a realização de movimentos repetitivos e a aplicação de forças excessivas com o polegar. Outros fatores de risco não relacionados com o trabalho incluem o sexo feminino, idade superior a 40 anos, menopausa, história familiar, excesso de peso, laxidez ligamentar e antecedentes de trauma articular (5). Clinicamente, manifesta-se habitualmente por dor progressiva na base do polegar que agrava com a supinação do punho, à preensão e nos movimentos de pinça, dor e/ou crepitação à palpação da interlinha articular e rigidez articular matinal. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na sintomatologia e exame físico, sendo a radiografia da mão um exame complementar útil na identificação de alterações imagiológicas como diminuição do espaço articular, irregularidade da superfície articular, osteofitose ou deformidades ósseas. O tratamento inicial é conservador e inclui estratégias para melhorar a função e reduzir a dor, tais como a utilização de ferramentas ou instrumentos adaptados, limitação ou modificação de atividades desencadeadoras de dor e fortalecimento muscular. Podem ser utilizadas ortóteses de suporte, assim como AINEs para alívio temporário e injeções de corticosteroides quando justificado. Finalmente, reserva-se intervenção cirúrgica para os casos refratários à terapêutica conservadora e nos quais o benefício da intervenção previsivelmente supere o seu risco.
DESCRIÇÃO DO CASO CLÍNICO
Trata-se de uma trabalhadora do sexo feminino, 38 anos, técnica de análises clínicas a exercer funções no Serviço de Sangue e Medicina Transfusional de um centro hospitalar terciário de grandes dimensões, há 12 anos. Em 2014 solicitou exame ocasional de Medicina do Trabalho por queixas álgicas de ritmo mecânico, localizadas na base do primeiro polegar esquerdo, que associava ao trabalho.
No contexto da sua atividade profissional, desempenhava tarefas que exigiam um esforço significativo em preensão, particularmente para a compressão e expressão de tubuladuras após colheitas de sangue. Esta atividade (Figura 1) envolvia a preensão firme de alicate para fixar a tubuladura, exercendo forte pressão com o polegar esquerdo, mantida até à conclusão da tarefa. Simultaneamente, com a mão direita manuseava outro alicate específico para espremer e mover o conteúdo sanguíneo na tubuladura para dentro do saco de colheita. Seguidamente, procedia à abertura de tubo de análise, com consequente necessidade de preensão forte em pinça para a sua abertura, e posteriormente cortava e selava a tubuladura referida, espremendo depois o conteúdo para o respetivo tubo. Esta tarefa era repetida entre 150 a 200 vezes por turno de trabalho.
O exame objetivo revelou dor à palpação da referida articulação, acompanhada de crepitação articular durante a mobilização. O estudo prosseguiu com ecografia da mão esquerda que revelou tenossinovite nodular do tendão do longo flexor do polegar. A radiografia da mão esquerda revelou igualmente sinais insidiosos de rizartrose. A profissional foi encaminhada para consulta de Ortopedia e, após ausência de resposta a infiltração de corticoides, foi proposta para secção da polia A1 do 1º dedo. Após intervenção cirúrgica foi seguida em consulta de fisiatria. Apesar das intervenções, houve manutenção das queixas.
Paralelamente, o Serviço de Saúde Ocupacional (SSO) interveio, recomendando inicialmente em ficha de aptidão uma maior rotação de tarefas, o que não resultou na melhoria das queixas. Procedeu-se também a análise do posto de trabalho, com realização de avaliação ergonómica detalhada através do método Assessment of Repetitive Tasks (ART). Esta avaliação estabeleceu um score de exposição de 21 para o membro superior esquerdo e de 20 para o membro superior direito, valores que equivalem a um nível que recomenda tomada de medidas (12 a 21). Os resultados desta avaliação indicaram a necessidade de automatizar certas funções com maior impacto musculoesquelético. Em resposta, foram adquiridos um torno mecânico giratório para a fixação e expressão das tubuladuras (Figura 2) e tubos de amostra de sangue com abertura em rosca, visando diminuir o nível de esforço da trabalhadora, tanto na expressão da tubuladura quanto na abertura dos tubos de amostra.
Após o diagnóstico de tenossinovite estenosante e rizartrose com suspeita de relação com o trabalho foi participada doença profissional ao Departamento de Proteção contra os Riscos Profissionais (DPRP).
Apesar da intervenção cirúrgica, da reabilitação e dos ajustes ao posto de trabalho, a trabalhadora continuou a apresentar queixas de dor e limitação funcional importante, o que levou à necessidade de elaborar uma ficha de aptidão com recomendações para afastar a trabalhadora de tarefas que envolvessem movimentos repetitivos de pinça contra resistência com os polegares.
Em 2021, a participação de doença profissional foi indeferida pelo DPRP, considerando que as doenças careciam de nexo causal com a atividade exercida. No mesmo ano, a profissional realizou Tomografia Axial Computadorizada (TAC) das mãos que evidenciou sinais de rizartrose bilateral e subluxação trapeziometacárpica bilateral. Neste contexto, foi proposta para intervenção cirúrgica à rizartrose, a qual recusou.
Entretanto, em 2022 foi recolocada no Serviço de Patologia Clínica, tendo ficado alocada ao setor de hormonologia e urgência com indicação para evitar movimentos de repetição que envolvessem os polegares. Manteve incapacidade para a realização de colheitas devido aos movimentos em pinça necessários. Neste mesmo ano, recorreu ao SSO pois pretendia recorrer da decisão do DPRP, tendo sido participada novamente doença profissional.
Em 2025, o DPRP caracterizou a rizartrose bilateral como doença profissional.
DISCUSSÃO/CONCLUSÕES
O presente caso clínico descreve a evolução de patologias musculoesqueléticas relacionadas com a atividade laboral, nomeadamente uma tenossinovite estenosante e uma rizartrose bilateral, ambas com possibilidade de serem induzidas pelos movimentos repetitivos e pela força exigida nas tarefas da profissional. A avaliação ergonómica do seu posto de trabalho, com scores elevados na ferramenta ART para ambos os braços, confirmou a significativa exposição ocupacional a fatores de risco ergonómicos.
Apesar da intervenção cirúrgica e da implementação de medidas para eliminar o fator desencadeante, a profissional manteve um quadro álgico progressivo, culminando no diagnóstico de rizartrose bilateral, o que ilustra a complexidade e dificuldade inerentes à gestão da atividade laboral e da clínica de trabalhadores com doença profissional. A persistência de sintomas e a necessidade de recolocação da trabalhadora em funções com menor exigência física sublinham o impacto que estas lesões podem ter na capacidade de trabalho e na qualidade de vida de um trabalhador. Importa salientar a atuação do SSO, tanto no encaminhamento para tratamento como na adaptação do posto de trabalho, que desempenhou um papel crucial na tentativa de limitar a progressão da doença. A substituição do fator de risco revelou-se benéfica não só para esta trabalhadora, mas também para os seus colegas e para futuros profissionais que ocupem o mesmo posto de trabalho.
Este caso clínico enfatiza, igualmente, a importância de avaliações ergonómicas regulares e abrangentes em ambientes de trabalho com tarefas manuais repetitivas. A implementação de medidas preventivas, como a automatização de tarefas de alto risco e a adaptação dos postos de trabalho, é crucial para minimizar a incidência de LMERT. Destaca-se também a importância da comunicação entre trabalhador e médico do trabalho, de forma a permitir a prevenção deste tipo de panoramas e, consequentemente, de doenças profissionais, beneficiando não só o próprio trabalhador, mas também de todos os presentes e futuros trabalhadores expostos ao mesmo risco.
O reconhecimento da rizartrose bilateral como doença profissional pelo DPRP em 2025 após uma participação inicial em 2015 realça a complexidade e, por vezes, a morosidade do processo de estabelecimento do nexo causal entre a atividade laboral e as doenças musculoesqueléticas.
Adicionalmente, reforça-se a necessidade de um acompanhamento clínico contínuo e de uma abordagem multidisciplinar na gestão de trabalhadores com queixas musculoesqueléticas, visando um diagnóstico precoce e o reconhecimento adequado como doença profissional, quando pertinente. A evolução desfavorável neste caso, apesar das diversas intervenções, serve como um alerta para a natureza cumulativa e incapacitante de algumas patologias relacionadas com o trabalho.
















