INTRODUÇÃO
As lesões do nervo radial podem ocorrer em qualquer ponto do seu trajeto anatómico e a etiologia é bastante variada, desde fraturas do úmero, esporões ósseos, cistos, doenças desmielinizantes, intoxicação por chumbo ou outras substâncias neurotóxicas; até à causa mais frequente, a compressão local ao longo do seu trajeto (1). As neuropatias compressivas são caracterizadas pelo local em que o nervo é colocado sob pressão, isto é, devido à sua proximidade com a diáfise do úmero, bem como ao seu trajeto longo e tortuoso, o nervo radial é o nervo mais frequentemente lesado no membro superior. Estas lesões são geralmente diagnosticadas através de exame físico, embora estudos eletrodiagnósticos e radiológicos possam ajudar a identificar a localização exata da lesão e o grau do dano (2).
Uma das entidades mais conhecidas é a 'paralisia de sábado à noite', também conhecida como “paralisia dos amantes” (3). Estas designações baseiam-se no facto de esta compressão ocorrer, frequentemente, após ingestão excessiva de álcool, o que está associado a uma posição específica do membro superior durante o sono, nomeadamente pela colocação do braço em superfícies duras (cadeira ou mesa, por exemplo), ou depois de adormecer com a cabeça do acompanhante apoiada no braço da pessoa (4).
Esta paralisia é considerada a quarta mononeuropatia mais comum em todo o mundo, afetando cerca de 2,97 e 1,42 por cada 100.000 indivíduos dos sexos masculino e feminino, respetivamente (5).
Na avaliação de um doente com “Paralisia de sábado à noite”, deve ser realizada uma história clínica e um exame físico minuciosos para afastar outros diagnósticos diferenciais, como causas traumáticas (fraturas do úmero ou rádio, por exemplo) e lesões iatrogénicas (nomeadamente antecedentes cirúrgicos, procedimentos invasivos, fármacos). É também importante excluir comorbilidades associadas que possam aumentar a suscetibilidade à compressão, nomeadamente diabetes, consumo excessivo de álcool ou até doenças do tecido conjuntivo (4).
O tratamento da paralisia do nervo radial pode ser cirúrgico ou conservador. O tratamento não cirúrgico é gold-standart dado que muitas condições que incluem comprometimento do nervo radial são transitórias e podem ser tratadas de forma conservadora: este consiste principalmente em reabilitação fisiátrica, modificação de atividades, anti-inflamatórios não esteróides (AINEs) e um período de imobilização com tala funcional. O tratamento cirúrgico apenas está indicado nos casos em que a transecção do nervo é evidente ou quando não há melhoria clínica após período de tratamento conservador (2).
Geralmente, esta patologia não tem uma etiologia ocupacional, contudo, a Medicina do Trabalho tem o objetivo de a prevenir ou minimizar o seu impacto no desempenho profissional. No âmbito coletivo, é importante promover a ergonomia no ambiente de trabalho, com pausas regulares e orientar acerca de posturas adequadas. Já ao nível da proteção individual, é premente envolver o uso de equipamentos que assegurem a manutenção de posições corretas durante atividades prolongadas, como os apoios de antebraço, e promover a consciencialização para a importância do fortalecimento muscular e alertar para as consequências de posturas inadequadas.
CASO CLÍNICO
Homem, 44 anos, motorista de automóveis pesados de passageiros há mais de dez anos. Sem antecedentes pessoais relevantes. Nega medicação habitual. Não fumador. Refere consumo esporádico de bebidas alcoólicas, sem histórico de intoxicações. Menciona que terá adormecido no sofá no dia anterior enquanto via televisão, apoiado sob o braço em extensão e terá acordado com queda do punho direito e incapacidade de realizar a sua extensão. Recorreu ao seu médico de família que emitiu um certificado de incapacidade temporária para o trabalho e recomendou observação urgente por Medicina Física e Reabilitação.
Na consulta de Medicina Física e Reabilitação constatou-se limitação total na extensão do punho e dedos da mão direita, com força muscular grau 1/5; amplitudes articulares passivas completas, sem alterações de sensibilidade. Perante a suspeita de uma lesão no nervo radial direito, solicitou-se uma eletromiografia que mostrou sinais eletrofisiológicos compatíveis com uma lesão axomielínica aguda do nervo radial direito distal à emergência para o musculo tricipital, com sinais de abundante atividade de desnervação. Sem sinais de reinervação na musculatura atingida. Restantes nervos explorados dentro dos limites da normalidade.
O trabalhador foi integrado num programa de reabilitação fisiátrica intensiva de forma urgente e foi instruído para adoção de posturas ergonómicas, mesmo em repouso, e para a não realização de movimentos em amplitudes extremadas, como hiperextensão ou hiperflexão do membro superior afetado, com o objetivo de não agravar os défices.
Passados cerca de dois meses do início do programa fisiátrico, sem melhoria significativa dos défices, manteve-se sob Certificado de Incapacidade Temporária.
DISCUSSÃO/CONCLUSÃO
A paralisia de sábado à noite pode afetar diretamente a capacidade de um trabalhador desempenhar as suas funções, principalmente em atividades que exijam o uso intensivo dos membros superiores, como em setores dos transportes, indústria, serviços de saúde ou até trabalho de escritório, sendo que a perda temporária de força e mobilidade no braço pode comprometer a produtividade e aumentar o risco de acidentes. Na Saúde Ocupacional é crucial identificarem-se fatores de risco, como a adoção de posturas inadequadas, a realização de movimentos repetitivos com elevada cadência, sobretudo em extremos de amplitudes, a movimentação rotineira de cargas, entre outros, durante o trabalho, ou até nos períodos de descanso…
O caso clínico apresentado é um exemplo claro de como posturas inadequadas e pressão prolongada sobre o nervo radial, seja em contexto ocupacional ou fora do mesmo, compromete uma atividade laboral de uma forma global, refletindo a bibliografia existente. A literatura ainda enfatiza a importância da reabilitação intensiva, de pausas regulares e educação sobre posturas, como estratégias preventivas e terapêuticas.
Em termos de evolução, a recuperação depende da extensão da lesão: danos leves geralmente resultam em bloqueio de condução transitório, cursando frequentemente com recuperação completa. Danos maiores podem resultar numa degeneração nervosa, o que diminui as hipóteses de uma recuperação completa e implicando um longo processo de reabilitação, com a maior parte dos casos a prolongar-se para além de meio ano (6), podendo até culminar numa incapacidade permanente absoluta para o trabalho habitual.
Deste modo, e apesar de não se tratar de uma doença profissional, o Médico do Trabalho deve saber reconhecê-la e deve promover medidas preventivas que incluem a promoção de práticas de ergonomia, pausas ativas reparadoras e programas de conscientização sobre cuidados posturais, minimizando eventuais impactos nocivos para a saúde e desempenho laboral.












