INTRODUÇÃO
O excesso de peso e a obesidade são um importante problema de saúde a nível mundial atendendo a que se associa a outras patologias como hipertensão arterial, diabetes tipo 2, doença cardiovascular, entre outros, e leva a maiores gastos em saúde. De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), 67,6% da população portuguesa com mais de 15 anos apresenta excesso de peso ou obesidade (1). De igual modo, afeta também as entidades empregadoras por condicionar maior absentismo laboral, lesões e/ou incapacidade (2).
Na literatura, diversos autores correlacionam o trabalho por turnos com perdas em saúde. Está descrito que este afeta negativamente a duração e qualidade do sono (3), o que provoca uma disrupção dos ritmos circadianos, e associa-se a alterações da sensibilidade à insulina (4) metabolismo e homeostase lipídica, contribuindo para o ganho de peso (5). Concomitantemente, a exposição à luz artificial (especialmente a azul) durante a noite pode induzir supressão da síntese de melatonina, e consequente diminuição da secreção de leptina e aumento dos níveis de grelina (6). O trabalho por turnos também foi associado a comportamentos alimentares e estilos de vida menos saudáveis (7). Para além do impacto metabólico e/ou hormonal, está também descrito que o trabalho por turnos pode interferir negativamente com a capacidade para o exercício físico, por se associar a maior fadiga (8). Assim, todos estes fatores contribuem para o desenvolvimento de excesso de peso e obesidade nos trabalhadores (2) e, muitas vezes, agregando-se às várias caraterísticas que definem a síndrome metabólica (9).
Vários estudos publicados sugerem que o trabalho por turnos se associa ao aumento do risco de excesso de peso/obesidade (10) (11) (12) (13), embora os resultados não sejam consistentes (13), e não se conheça a realidade em Portugal, por ausência de estudos. Alguma literatura descreve uma prevalência de 35% de excesso de peso e 16% de obesidade entre trabalhadores por turnos (incluindo diurnos e noturnos) (6), sugerindo, também, que este risco é maior no trabalho noturno comparativamente a esquemas rotativos (2) (11), e que a duração do trabalho por turnos se associa a maior o risco de excesso de peso/obesidade (número de anos no turno noturno ou número de turnos noturnos por semana) (11) (12) (15) (16).
Em Portugal, considera-se trabalho por turnos qualquer organização do trabalho em equipa em que os trabalhadores ocupam sucessivamente os mesmos postos de trabalho, a um determinado ritmo, incluindo o rotativo, contínuo ou descontínuo, podendo executar o trabalho a horas diferentes num dado período de dias ou semanas. Considera-se trabalho noturno o prestado num período que tenha a duração mínima de sete horas e máxima de onze horas, compreendendo o intervalo entre as 0 e as 5 horas (17).
O envolvimento da Saúde Ocupacional na promoção da saúde e prevenção de doença nos trabalhadores, para além do controlo dos fatores de risco ocupacionais, poderá ser uma estratégia para minimizar o impacto negativo sobre a qualidade de vida e produtividade dos trabalhadores.
OBJETIVOS
Pretende-se com este estudo determinar a prevalência de excesso de peso e obesidade entre trabalhadores por turnos. Adicionalmente, pretende-se avaliar se a tipologia de trabalho por turnos (manhã, tarde ou noturno) se associa a maior prevalência de excesso de peso e/ou obesidade.
METODOLOGIA
Desenho do Estudo e Seleção da Amostra
Foi realizado um estudo observacional retrospetivo, descritivo com componente analítica, numa amostra de conveniência correspondente aos trabalhadores de uma empresa de estofos de automóveis da região norte de Portugal, em regime de trabalho por turnos, após autorização da empresa para a realização do estudo. Os dados foram recolhidos através da aplicação de um questionário (Anexo 1) de autopreenchimento, confidencial e anónimo, elaborado pelos investigadores para o efeito. O questionário foi distribuído aos trabalhadores da empresa no início dos diferentes turnos de trabalho, durante o mês de janeiro de 2024. Os trabalhadores foram esclarecidos e convidados a participar no estudo, através do autopreenchimento do questionário e respetivo consentimento informado (Anexo 2), tendo sido recolhidos e armazenados, separadamente, em caixas fechadas de modo a garantir a confidencialidade. A amostra incluiu os trabalhadores em idade ativa que desempenham atividade laboral em regime de trabalho por turnos, alfabetizados para a língua portuguesa e que aceitaram participar. Foram excluídos os questionários relativos a trabalhadores com alternância de turnos nos últimos seis meses ou que não se encontrassem na atual tipologia de turno há pelo menos meio ano, questionários sem resposta às questões relativas ao peso corporal, altura, tipologia e antiguidade no turno desempenhado, bem como questionários não acompanhados de consentimento informado livre e esclarecido devidamente preenchido. Foram recolhidos dados sociodemográficos para caraterização da amostra (idade, sexo, estado civil e escolaridade), dados para avaliação do índice de massa corporal (IMC) e informações relativas ao tipo de turno, horário de entrada e saída e antiguidade (definida pelo número de meses/anos de trabalho).
Considerou-se o Índice de Massa Corporal (IMC) como a razão entre o peso (em quilogramas, kg) e o quadrado da altura (em metros, m), segundo a classificação preconizada pela Organização Mundial da Saúde - baixo peso (<18,5 kg/m2), peso normal (18,5 a 24,9 kg/m2), excesso de peso (25,0 a 29,9 kg/m2) e obesidade (≥ 30,0 kg/m2).
Análise Estatística
A análise estatística foi efetuada com recurso ao programa IBM Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 28.0.1. A caraterização da amostra foi efetuada através da análise descritiva do sexo, estado civil, escolaridade, tipo de turno e classificação de IMC, usando as frequências absoluta e relativa. Para a idade (em anos), peso (em kg), altura (em m), IMC (em kg/m2) e tempo no turno atual, utilizou-se a média e mediana, bem como o desvio padrão. Para avaliação da relação entre o excesso de peso/obesidade e a tipologia de turnos foi utilizado o teste do qui-quadrado. Valores de significância inferiores a 0.05 (p<0.05) foram considerados estatisticamente significativos.
RESULTADOS
Obtiveram-se um total de 234 questionários, dos quais foram excluídos seis por não cumprirem os critérios de inclusão (Figura 1). Dos 228 trabalhadores cujos questionários foram selecionados, 169 eram do sexo feminino (74,1%). As idades variaram entre os 19 e os 63 anos (mediana 35; média 36,94 anos ± 10,05). Relativamente ao estado civil, 70,6% eram casados. Face à escolaridade 44,7% concluíram o 3º ciclo do ensino básico e 32,9% o ensino secundário. A caraterização da amostra encontra-se resumida na Tabela 1.
Tabela 1 Caracterização da amostra (n=228)
| Variáveis | n (%) | ||
|---|---|---|---|
| Sexo | Masculino | 59 (25,9) | |
| Feminino | 169 (74,1) | ||
| Escolaridade | 1º Ciclo do Ensino Básico | 7 (3,1) | |
| 2º Ciclo do Ensino Básico | 38 (16,7) | ||
| 3º Ciclo do Ensino Básico | 102 (44,7) | ||
| Ensino Secundário | 75 (32,9) | ||
| Licenciatura | 6 (2,6) | ||
| Estado civil | Solteiro | 34 (14,9) | |
| Casado | 161 (70,6) | ||
| Viúvo | 1 (0,4) | ||
| Divorciado | 16 (7,0) | ||
| União de facto | 16 (7,0) | ||
| Índice de Massa Corporal (kg/m2) | Normal | 75 (32,9) | |
| Excesso de peso | 135 (59,2) | ||
| Obesidade | 18 (7,9) | ||
| [min; máx] | Mediana | Média (± DP) | |
| Idade (anos) | [19; 63] | 35,0 | 36,9 (± 10,05) |
| Peso (kg) | [45; 99] | 72,0 | 72,9 (± 9,11) |
| Altura (m) | [1,47; 1,90] | 1,7 | 1,7 (± 0,06) |
Legenda: kg - quilogramas; m - metros; min - mínimo; máx - máximo; DP - desvio padrão
O peso corporal auto reportado pelos trabalhadores variou entre os 45 e os 99 kg (mediana 72 kg; média 72,9 kg ± 9,1 kg), e altura entre 1,47 e 1,90 metros (média e mediana 1,67 m). A partir destes dados calculou-se o IMC, observando-se que 59,2% dos trabalhadores apresentavam excesso de peso e 7,9% obesidade. Relativamente ao tipo de turno, verificou-se que 29,4% realizava trabalho em regime noturno (horário de trabalho das 22h00 às 06h00) e os restantes 70,6% em regime diurno (39,0% das 06h00 às 14h00 e 31,6% das 14h00 às 22h00). No que diz respeito à antiguidade no turno desempenhado, 42,1% reportaram permanecer no mesmo turno há dez ou mais anos.
Analisou-se a distribuição do IMC por tipologia de turno (Tabela 2), verificando-se que a prevalência de excesso de peso foi de 60,7% no turno das 06:00 às 14:00 horas, 65,3% no turno das 14:00 às 22:00 horas e 50,7% no turno noturno. Relativamente à prevalência de obesidade nos tipos de turno, esta foi de 4,5% (diurno manhã), 6,9% (diurno tarde) e 13,4% (noturno).
Tabela 2 Distribuição do IMC por tipologia de turno
| Turno | Peso normal (n/%) | Excesso de Peso (n/%) | Obesidade (n/%) | Total (n/%) | Valor de p |
|---|---|---|---|---|---|
| Diurno manhã | 31 (13,6) | 54 (23,7) | 4 (1,8) | 89 (39,0) | 0,19 |
| Diurno tarde | 20 (8,8) | 47 (20,6) | 5 (2,2) | 72 (31,6) | 0,19 |
| Noturno | 24 (10,5) | 34 (14,9) | 9 (3,9) | 67 (29,4) | 0,19 |
| Total | 75 (32,9) | 135 (59,2) | 18 (7,9) | 228 (100,0) | 0.41 |
Tabela 3 Associação entre IMC e tipologia de turno
| Variáveis | Pearson chi-square (p) |
|---|---|
| IMC e tipologia de turno (diurno manhã, diurno tarde, noturno) | 0,19 |
| IMC normal/IMC anormal* vs tipologia de turno (diurno/noturno) | 0,53 |
Nota - Nível de significância p < 0,05. *IMC anormal inclui excesso de peso e obesidade
Analisando os resultados em função do IMC observou-se que, entre os trabalhadores com peso normal e excesso de peso, a maioria realiza funções no turno diurno manhã (41.3% e 40% respetivamente). Por sua vez, no que respeita à obesidade, ela está presente sobretudo nos trabalhadores em regime de trabalho noturno (50%). Apesar da prevalência de obesidade ser superior no turno noturno, não se verificou associação significativa entre IMC e tipologia de turno (p=0,19). Também não se observou associação significativa entre a classificação de IMC e a tipologia de turno diurno/noturno (p=0,53).
DISCUSSÃO
Vários estudos têm associado o trabalho por turnos a excesso de peso e obesidade (9) (10) (11), não existindo até à data nenhum estudo em Portugal. A presente investigação procurou avaliar a prevalência de excesso de peso e obesidade em trabalhadores por turnos, apresentando assim resultados pioneiros da realidade portuguesa. Observou-se uma maior prevalência de excesso de peso nos trabalhadores no regime diurno tarde (65,3%), e uma maior prevalência de obesidade nos trabalhadores em regime noturno (13,4%). Na globalidade, as prevalências de excesso de peso/obesidade verificadas neste estudo são superiores às descritas, até à data, na literatura (6) (18). Esta disparidade poderá resultar de, por um lado, não existirem estudos na população portuguesa e, por outro lado, de o país apresentar prevalências mais elevadas destas duas condições (18). Além disso, diferentes metodologias dos trabalhos publicados e definições de trabalho por turnos podem dificultar esta comparação (2).
Entre os trabalhadores com peso normal e excesso de peso, a maioria realiza funções no turno diurno manhã, 41.3% e 40% respetivamente. No que respeita à obesidade, esta está presente sobretudo nos trabalhadores em regime de trabalho noturno (50%). Esta desigualdade pode dever-se a diferenças no padrão de atividade física e alimentação ao longo do dia. Segundo a evidência disponível, os trabalhadores do turno noturno apresentam maior predisposição para excesso de peso e obesidade devido à desregulação circadiana, hábitos alimentares inadequados e menor atividade física (19). Contudo, os trabalhadores do turno da manhã também podem experienciar dificuldades devido ao horário de despertar precoce, que pode interferir nos seus padrões alimentares.
Apesar deste estudo trazer os primeiros resultados da realidade portuguesa, são de destacar algumas limitações que devem ser tidas em consideração. Primeiro, a utilização de um questionário não validado e de autopreenchimento, o que pode incluir viés de memória. A natureza retrospetiva de algumas questões pode levar os participantes a recordar eventos passados de forma imprecisa ou tendenciosa. Além disso, a falta de análise de outras variáveis conhecidas por terem impacto no peso, como padrões alimentares e prática de exercício físico, bem como a amostra de conveniência utilizada neste estudo podem limitar a generalização dos resultados. Como o estudo se foca em trabalhadores de uma empresa de estofos de automóveis, cujas características ocupacionais são distintas de outras indústrias ou empresas, os resultados encontrados podem não ser extrapoláveis para outras populações de trabalhadores.
CONCLUSÃO
No presente estudo, a prevalência de obesidade foi superior nos trabalhadores em regime noturno (13.4%) quando comparada com os turnos diurno manhã (4.5%) e diurno tarde (6.9%), ainda que, na análise de resultados, não se tenha observado associação significativa entre o IMC e a tipologia de turno.
A implementação de programas de saúde no local de trabalho é descrita como uma das estratégias para combater este importante problema de saúde pública. O incentivo aos hábitos alimentares saudáveis, atividade física regular e medidas de higiene de sono são os pilares fundamentais da intervenção. A alteração e adaptação do horário de trabalho, de forma a minimizar a exposição prolongada aos turnos noturnos, poderá ser outra estratégia eficaz de fácil implementação.
A realização de um estudo prospetivo longitudinal de acompanhamento dos trabalhadores poderá ajudar a contornar algumas das limitações neste estudo. Adicionalmente, seria interessante avaliar em estudos futuros se o tempo de permanência, nomeadamente no turno noturno, poderá estar relacionado com a prevalência de obesidade/excesso de peso.

















