INTRODUÇÃO
Enquadramento
O burnout é um fenómeno ocupacional, definido na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como uma síndrome resultante da má gestão de stress crónico no local de trabalho e caracterizado por sensação de exaustão emocional, negativismo ou despersonalização relativamente ao trabalho e redução da realização profissional (1).
Apesar de afetar trabalhadores de diversas profissões, é mais prevalente na área da saúde, especialmente em médicos e enfermeiros (2) (3). Antes de 2019 já se assistia a um aumento das suas taxas em profissionais de saúde, no entanto, este fenómeno foi intensificado pela pandemia COVID-19 (4) (5). Estudos recentes relatam prevalências a rondar os 11% em enfermeiros e taxas entre os 10% e os 56% em médicos e paramédicos (6).
Um estudo português de 2016 que incluiu médicos e enfermeiros de todo o país encontrou níveis moderados de burnout em 21,6% dos profissionais e níveis elevados em 47,8% (3). Outro estudo nacional de 2017, realizado pela Ordem dos Médicos, revelou que 66% dos médicos apresentavam um nível elevado de exaustão emocional e mais de 30% apresentavam patamares elevados de despersonalização e diminuição da realização profissional (7). Importa salientar que ambos os estudos foram realizados no período pré pandemia COVID-19. Após a pandemia, em 2023, foi realizado um estudo em Portugal sobre o burnout no internato médico que revelou que 24,7% dos médicos internos tinham sintomatologia grave e 55,3% estavam em risco de desenvolver esta síndrome (8).
Taxas elevadas de burnout nos profissionais de saúde são preocupantes, uma vez que se associam a inúmeras consequências graves aos níveis individual, social/familiar e laboral (7). Na esfera pessoal, esta síndrome associa-se a problemas de saúde física e mental do trabalhador; a nível familiar assiste-se a um desequilíbrio da relação trabalho/família e a um aumento dos conflitos relacionais; em termos laborais observam-se maiores taxas de absentismo laboral e maior rotatividade de pessoal, com potencial perda de profissionais de saúde experientes, e pior desempenho com maior probabilidade de erros que, em última análise, podem comprometer o cuidado prestado aos doentes (2) (3) (4) (7).
Assim, torna-se essencial descobrir e implementar formas eficazes de prevenção do burnout e redução da sintomatologia associada. A sua classificação como um fenómeno ocupacional (1) permite responsabilizar as organizações de saúde, pelo que as medidas de prevenção devem ser implementadas não só a um nível individual, mas também a nível organizacional/sistémico (2) (4) (9) (10) (11).
A Comissão para a Saúde Mental do Canadá propôs em 2022 que a implementação de medidas para melhorar a saúde psicológica dos profissionais de saúde ocorra em três níveis- organizacional (Governo/Hospital/Instituição), equipa (serviço, unidade) e individual, de forma a cobrir as várias vertentes que levam ao desenvolvimento desta síndrome (10). Também a Direção-Geral da Saúde (DGS), em 2021, emitiu o Guia Técnico nº3 para a Vigilância da Saúde dos Trabalhadores Expostos a Fatores de Risco Psicossocial no Local de Trabalho (11) onde descreve vários níveis de prevenção, referindo a implementação de medidas preventivas coletivas/transversais, para além das mais específicas para cada fator de risco psicossocial, e sugere que as intervenções para a promoção da saúde mental devem ocorrer na vertente individual, mas também no ambiente de trabalho, visando aspetos organizacionais e estruturais. Recentemente, numa revisão publicada em 2024 sobre estratégias de promoção de saúde mental e redução do risco de burnout, Collet et al. (12) sugeriram a divisão destas estratégias em três categorias, todas com responsabilidade do empregador - estratégias de coping, técnicas individuais facilitadas pelo empregador e implementadas pelo indivíduo (hábitos de vida saudáveis) e disponibilização precoce de recurso a profissionais de saúde mental para intervenções terapêuticas.
A nível individual, medidas comportamentais como a prática de exercício físico são estratégias conhecidas para prevenção e tratamento de doenças mentais como síndromes depressivas e ansiedade (5) (12) (13). Relativamente ao burnout, existe associação entre a prática de exercício físico e taxas mais baixas desta síndrome, sugerindo um grande potencial custo-efetivo na sua prevenção (6) (12). No entanto, estas técnicas devem sempre ser implementadas em conjunto com outras estratégias organizacionais/estruturais, que possibilitam a gestão por parte do trabalhador da sua vida trabalho/casa, facilitando a adoção de hábitos de vida saudáveis (10) (11) (12).
Desta forma, torna-se essencial reunir a evidência existente a esse respeito para formular uma recomendação precisa e identificar possíveis lacunas de conhecimento que precisem de ser colmatadas.
Objetivos
Tendo em conta a importância e o impacto que o burnout tem tanto na própria saúde dos profissionais como no cuidado prestado aos doentes, torna-se essencial perceber o efeito das diversas medidas propostas para a sua prevenção. Assim, esta revisão tem como objetivo avaliar se a prática regular de exercício físico terá um efeito preventivo e/ou se poderá reduzir a gravidade e sintomatologia desta síndrome nos profissionais de saúde.
METODOLOGIA
Seguindo as recomendações para revisões sistemáticas, estabelecemos os critérios de inclusão com recurso ao modelo PICOs:
(P) Population: Profissionais de saúde
(I) Intervention: Prática de exercício físico (EF) regular - participação num programa de exercício físico ou prática auto-relatada mensurável, preferencialmente medida com recurso a questionários validados (como o International Physical Activity Questionnaire- IPAQ e o Godin-Shephard leisure-time physical activity questionnaire)
(C) Comparison: Sedentarismo - ausência de prática de exercício físico ou prática apenas esporádica
(O) Outcome: Incidência de Burnout - medido com recurso a escalas validadas (como o Maslach Burnout Inventory - MBI ou Copenhagen Burnout Inventory - CBI)
(s) Study design: inclusão primária de meta-análises (MA), revisões sistemáticas (RS) e ensaios clínicos controlados e randomizados (randomized controlled trials - RCTs); inclusão secundária de estudos prospetivos de coorte, estudos quase-experimentais ou pré/pós com controlo (apenas se forem encontrados <10-15 estudos de inclusão primária).
Desta forma, formulou-se a pergunta de investigação: “Em profissionais de saúde, a prática regular de exercício físico, comparada ao sedentarismo, está associada à prevenção ou diminuição do risco/gravidade de burnout?”.
Para responder a esta questão foi realizada uma pesquisa abrangente nas bases de dados PubMed, The Cochrane Library, Scopus e Web of Science, limitada a artigos publicados no período entre janeiro de 2010 e outubro de 2025, redigidos em português, inglês ou espanhol.
A estratégia de pesquisa baseou-se na utilização combinada de termos Mesh ou equivalente (("Health Personnel"[Mesh]) AND "Exercise"[Mesh]) AND "Burnout, Professional"[Mesh]) e de descritores livres (("healthcare professional" OR "healthcare workers" OR "health personnel" OR "healthcare providers" OR "medical staff") AND ("exercise" OR "physical activity") AND (burnout OR "occupational stress")). A frase completa de pesquisa para as diferentes bases de dados pode ser consultada no Quadro 1.
Foram definidos como critérios de exclusão: artigos duplicados, cartas ao editor, comentários e artigos de opinião, protocolos de estudos, revisões narrativas, estudos transversais, estudos de caso-controlo e coorte retrospetivos e estudos com avaliação de burnout sem recurso a escalas validadas. Foram ainda excluídos estudos cuja intervenção consistiu na avaliação da prática global de yoga, uma vez que não é possível distinguir o impacto individual da componente de exercício físico separando-o das outras vertentesrelaxamento muscular e mindfulness/meditação.
Três autores efetuaram a triagem e seleção dos artigos de forma independente, com revisão em duplicado e uma taxa de concordância final de 100%. Seguidamente, foi utilizada a Strength of Recommendation Taxonomy (SORT) (14), proposta pela American Academy of Family Physicians, para análise dos estudos incluídos com leitura integral e respetiva avaliação da qualidade metodológica.
RESULTADOS
Da pesquisa bibliográfica obtiveram-se 656 artigos, dos quais, após remoção de duplicados, 405 foram elegíveis para triagem. Após avaliação do título e resumo foram excluídos 385 artigos por não cumprirem os critérios de inclusão. Os restantes 20, foram alvo de leitura e avaliação integral, tendo sido excluídos 15: 10 não incluíam intervenções com exercício físico ou este era avaliado de forma combinada com outras práticas (meditação, mindfullness e outras), dois não mediram o burnout com recurso a uma escala validada, dois estudos nem avaliavam o EF isoladamente, nem tinham o burnout como desfecho e um estudo de coorte foi excluído por utilizar a mesma coorte de outro estudo que foi incluído. Assim, foram incluídos cinco estudos nesta revisão: um RCT, duas RS e dois estudos de coorte. O processo detalhado de seleção dos artigos está representado no fluxograma da Figura 1 adaptado do modelo PRISMA (15).
Apenas um estudo cumpriu os critérios de inclusão primária, pelo que se aceitou incluir outros quatro estudos de menor qualidade metodológica que se enquadravam nos critérios de inclusão secundária. As principais características dos estudos incluídos e respetivos resultados e nível de evidência SORT encontram-se resumidos no Quadro 2.
Os resultados do RCT de Boucher et al. 2023 (5) mostram uma redução significativa da Exaustão Emocional e da Despersonalização com o aumento da prática de EF. Além disso, mostrou que a redução dos níveis de burnout foi significativa logo a partir da segunda semana do estudo e mesmo com níveis de EF inferiores aos estabelecidos no protocolo (pelo menos 80 min/semana). A RS de Mincarone et al. de 2024 (9) mostrou também uma relação positiva da prática EF na redução de burnout, principalmente na redução da dimensão de Exaustão Emocional.
Ambos os estudos de coorte (13) (16) mostraram que o EF constitui um fator protetor contra o burnout, sendo que o estudo de Lindwall et al. 2014 (13) demonstrou que, para além deste efeito geral, alterações no nível de EF praticado se correlacionavam com alterações nos níveis de burnout - trabalhadores que ao longo do tempo reduzissem o nível de EF revelavam um aumento nos níveis de burnout e vice-versa, traduzindo um efeito de gradiente.
Também o RCT de Boucher et al. 2023 (5) mostrou um efeito de gradiente, reportado neste caso como um efeito dose-resposta, ao demonstrar uma incidência de burnout cada vez menor, ou uma melhoria das suas dimensões mais acentuada, quanto mais EF fosse realizado.
Assim, dos cinco estudos incluídos, quatro mostram uma relação entre a prática de EF regular e níveis mais baixos de burnout nos profissionais de saúde e, entre esses, dois mostram um efeito de gradiente nesta relação (5) (9) (13) (16).
Apenas um estudo, a RS de Martland et al. 2024 (6), apresentou resultados inconsistentes- dos três artigos incluídos nessa revisão que avaliaram o burnout como desfecho, apenas num a prática de EF mostrou uma melhoria significativa nos seus níveis.
DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão sugerem que a prática de EF regular se associa a um menor risco de desenvolver burnout e à redução da sua sintomatologia, com uma força de recomendação “B” segundo o modelo SORT, o que consiste numa recomendação de evidência moderada, centrada na pessoa e baseada em estudos de qualidade limitada ou com resultados inconsistentes.
Só foi obtido um estudo com qualidade suficiente para inclusão primária, o que constituiu uma limitação da revisão, uma vez que se teve de recorrer a estudos que cumprissem os critérios de inclusão secundária, mas de qualidade metodológica inferior. Esta dificuldade em encontrar RCTs e MA/RS mostra a necessidade de realizar mais estudos, preferencialmente RCTs, que caracterizem melhor esta relação entre o EF e o burnout, com vista a obter evidência robusta que permita eventualmente melhorar a força de recomendação.
Ainda assim, o RCT incluído de Boucher et al. 2023 (5) é um estudo robusto, com boa qualidade metodológica e demonstrou que a prática regular de EF se associou à redução dos níveis de burnout nos participantes, mesmo com níveis de EF inferiores aos estabelecidos inicialmente. Os resultados deste estudo são encorajadores, sugerindo que a prática de EF regular é eficaz mesmo quando realizada em níveis baixos e é cumulativa tanto em quantidade de EF realizado, como ao longo do tempo. Adicionalmente, não constituiu apenas um benefício a longo prazo, sendo sentida precocemente logo desde o início da sua implementação.
Este efeito cumulativo é consistente com os resultados obtidos pela coorte de Lindwall et al. 2014 (13), que tem ainda a particularidade de ter demonstrado que variações no nível de exercício físico se relacionam inversamente aos níveis de burnout, não só entre indivíduos, mas também na mesma pessoa. Isto indica que, de forma geral, a prática de EF atua como fator protetor contra o desenvolvimento desta síndrome e que este efeito pode intensificar-se ou atenuar-se consoante o indivíduo aumente ou diminua os seus hábitos de EF ao longo do tempo.
Apesar dos resultados destes dois estudos de Boucher et al. 2023 (5) e Lindwall et al. 2014 (13) sugerirem um efeito de gradiente, ou mesmo de dose-resposta no caso do RCT, não se podem excluir outras explicações alternativas. No caso do estudo de coorte, o confundimento residual e efeito de “trabalhador saudável” podem explicar parcialmente o gradiente observado. Já no RCT, a análise baseada na dose de EF realizado pode ser influenciada por adesão diferencial, potencialmente refletindo características do participante e não um efeito puro de dose-resposta.
Apenas um dos estudos incluídos, a RS de Martland et al. 2024 (6), mostrou resultados inconsistentes relativamente a esta recomendação, no entanto, importa salientar algumas limitações desse estudo na avaliação do burnout como desfecho. Apesar de ter avaliado múltiplas intervenções dirigidas ao aumento da atividade física no geral e do EF em particular, apenas três dos estudos incluídos avaliaram o burnout (medido com recurso a escalas validadas) como desfecho secundário. Destes, apenas um avaliou uma intervenção baseada na prática objetiva e estruturada de EF (sessões de natação). Nos dois estudos que não demonstraram melhorias significativas, as intervenções são descritas de forma pouco clara, consistindo em programas de incentivo ao aumento da atividade física no local de trabalho, sem caracterização adequada quanto à intensidade e estrutura, dificultando a sua classificação como intervenções de EF propriamente dito. Além disso, o facto dessas intervenções terem ocorrido em contexto laboral, ao contrário dos restantes estudos incluídos na presente revisão, introduz alguma heterogeneidade no contexto da exposição, o que limita a comparação de resultados e pode contribuir para a inconsistência observada.
Uma limitação inerente a alguns estudos incluídos é o facto de serem observacionais, no caso dos estudos de coorte (13) (16), ou baseado em estudos transversais, no caso da RS de Mincarone 2024 (9), o que limita as conclusões que se podem tirar quanto a causas, efeitos e direccionalidade dos efeitos.
Outra limitação comum prende-se com a quantificação da prática de EF tendo por base questionários, que introduz um possível viés de memória e, frequentemente, sem recurso a escalas validadas, prejudicando a qualidade dos dados recolhidos e a comparação entre estudos.
Um ponto forte desta revisão refere-se à utilização de uma metodologia transparente e reprodutível: com utilização de quatro bases de dados que permitiu uma pesquisa abrangente, reduzindo o risco de não identificação de estudos relevantes; a estratégia adotada de seleção independente dos artigos por três autores, com posterior resolução de divergências por consenso, que permitiu reduzir o risco de viés de seleção; a utilização do sistema SORT para avaliação do nível de evidência e força de recomendação para a intervenção proposta.
Outro ponto forte é a inclusão de participantes provenientes de diferentes contextos geográficos e temporais, pré e pós pandemia COVID-19, com resultados consistentes entre estudos, favorecendo a recomendação da prática de EF para prevenção/redução do burnout em profissionais de saúde.
A implicação prática dos resultados obtidos é o claro benefício da implementação por parte dos profissionais de saúde de uma prática regular de EF, mesmo em níveis reduzidos. No entanto, há ainda poucos estudos de boa qualidade metodológica a demonstrar e a caracterizar este benefício. Além disso, é de notar que uma razão frequentemente apontada pelos profissionais de saúde para não praticarem EF é a falta de tempo motivada pelos horários de trabalho exigentes (17).
Assim, por um lado, tendo em conta a falta de estudos de elevada qualidade metodológica e as falhas de conhecimento ainda evidentes, percebe-se que é essencial a realização de mais estudos de elevada qualidade (RCT e estudos de coorte prolongados), e que essas futuras investigações devem tentar quantificar a dose necessária de EF, especificar que tipos de EF são mais eficazes e esclarecer se o local da prática de EF (local de trabalho versus fora) tem influência no benefício obtido, de forma a clarificar a recomendação que os trabalhadores devem implementar.
Por outro lado, também parece claro que a maior parte da responsabilidade da prevenção e redução do burnout não pode ser imputada unicamente ao trabalhadordeve ser partilhada e assumida pelas próprias equipas, serviços, unidades de saúde/hospitais e instituições governamentais, uma vez que a implementação das estratégias individuais por parte do profissional de saúde está muitas vezes dependente de inúmeros outros fatores que potenciam o aparecimento e agravamento de burnout (falta de recursos humanos, má gestão de recursos e inflexibilidade de horários/escalas) e cuja mudança não está ao alcance dos trabalhadores (10) (11) (12).
CONCLUSÕES
A evidência científica analisada mostra benefício da prática regular de EF por parte dos profissionais de saúde na prevenção e redução do burnout, com uma força de recomendação “B”.
É essencial que os profissionais de saúde implementem a prática de EF no seu dia a dia, mesmo que por curtos períodos, e que o façam de forma regular e consistente. No entanto, o sucesso na implementação desta prática também está dependente da implementação de outras medidas a nível institucional e organizacional que permitam ao trabalhador fazer uma melhor gestão do equilíbrio entre vida profissional e pessoal.















