1. Introdução
Há lugares em que o tempo não se mede apenas pelos relógios, mas pelas memórias partilhadas, pelos gestos cotidianos e pelos afetos que atravessam gerações. O Monte Serrat, comunidade situada na região central de Florianópolis (Santa Catarina, Brasil), é um desses lugares em que a memória se inscreve no espaço de forma viva e contínua. Suas ruas não são apenas vias de passagem, mas trajetos marcados por experiências coletivas, por narrativas invisibilizadas e por práticas que resistem ao apagamento. Ali, o tempo assume outras formas: pulsa no presente, habita os corpos e se manifesta na oralidade, nos saberes compartilhados e nas redes de cuidado que sustentam o viver comunitário.
Nesse contexto, a memória é compreendida como um processo social, dinâmico e situado, atravessado por disputas de sentido e por práticas de resistência cultural. Ela emerge como experiência vivida e compartilhada, não se restringindo ao passado, mas se atualizando nas relações cotidianas, especialmente nas vozes femininas que mantêm vivas as memórias da comunidade. Mães, avós, educadoras, artistas e lideranças comunitárias assumem um papel central na preservação e transmissão dos saberes locais. São elas que tecem os vínculos intergeracionais, sustentam os processos de pertencimento e identidade.
A Marista Escola Social Lúcia Mayvorne, localizada no centro dessa comunidade, constitui um espaço onde o conhecimento acadêmico dialoga com os saberes populares e territoriais. A escola, frequentada majoritariamente por crianças e adolescentes do próprio morro (as comunidades das encostas historicamente habitadas por populações afro-brasileiras), torna-se lugar de encontro entre diferentes epistemologias. Os estudantes chegam à escola com bagagens culturais ricas, marcadas por histórias de luta, criatividade e resistência. Reconhecer esses saberes e incorporá-los às práticas pedagógicas é um gesto ético e político que reforça uma educação comprometida com a transformação social e rompe com modelos escolares que desconsideram as realidades locais.
No campo das artes visuais, esse diálogo se intensifica. A arte, compreendida como linguagem sensível e crítica, oferece possibilidades de expressão, escuta e construção de sentidos. Através de práticas artísticas, tornam-se visíveis as memórias silenciadas, as subjetividades apagadas e os modos de existir que desafiam os padrões hegemônicos. Assim, a arte na escola pode ser entendida como meio de afirmar identidades, de resgatar pertencimentos e de reencantar os vínculos entre sujeitos, territórios e memórias.
É nesse contexto que se insere a atuação da professora de Artes Visuais Luiza Melo que, desde 2023, desenvolve projetos junto aos estudantes da instituição. Dentre essas experiências, destaca-se neste texto o projeto interdisciplinar Mama África, que se iniciou no primeiro trimestre de 2025 e encontra-se no estágio final de desenvolvimento, realizado em conjunto com as disciplinas de Português, História, Geografia e Sociologia, e realizado com uma turma do terceiro ano do ensino médio. O objetivo do projeto foi provocar reflexões sobre ancestralidade, cultura afro-brasileira e identidade por meio do reconhecimento da importância de lideranças comunitárias femininas. Através da escuta atenta às narrativas dos alunos e da criação de imagens explorando diferentes técnicas artísticas, buscou-se abrir caminhos para a valorização das raízes afrodescendentes presentes na comunidade, bem como para a afirmação de outras possibilidades de existir e de ocupar a cidade.
Este artigo propõe, portanto, uma reflexão sobre as relações entre arte, memória e território, tendo como ponto de partida uma experiência pedagógica situada. Ao partilhar essa prática, buscamos evidenciar como a arte pode ativar memórias, gerar deslocamentos simbólicos e fortalecer processos de pertencimento e reconhecimento. Trata-se de um exercício sensível e comprometido de escuta das vozes femininas e comunitárias que falam ao morro e através dele - vozes que insistem em existir, resistir e (re)contar suas memórias no interior da escola.
Desta forma, o presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, fundamentada na abordagem da pesquisa-ação. A metodologia adotada buscou compreender a potência da arte como ativadora de memórias no contexto escolar, desenvolvendo a participação ativa dos sujeitos envolvidos (professores, estudantes e lideranças comunitárias femininas) e a construção coletiva do conhecimento. Os procedimentos metodológicos incluíram revisão bibliográfica, observação participante das dinâmicas socioculturais do território e análise das produções artísticas desenvolvidas pelos estudantes no âmbito do projeto Mama África. Na análise dos dados referentes à experiência pedagógica, buscou-se identificar os significados atribuídos pelos estudantes às suas memórias e experiências, bem como as relações entre arte, memória e território.
Salienta-se que, no contexto do projeto Mama África, a escuta sensível das vozes femininas buscou resgatar narrativas silenciadas e valorizar o papel fundamental das mulheres na organização comunitária e no compartilhamento de saberes. Ao longo do texto, a atuação dessas mulheres é destacada como força motriz para a educação emancipadora e transformadora que se almeja. Elas são as guardiãs das memórias, as tecelãs dos vínculos intergeracionais e as protagonistas das práticas de resistência cultural que moldam a identidade do morro.
2. A Comunidade do Monte Serrat e a Escola
O Monte Serrat, também conhecido como Morro da Caixa, é uma das comunidades mais antigas de Florianópolis (Figura 1). Sua origem está diretamente ligada aos processos de exclusão urbana do início do século XX, que empurraram a população negra, recém-liberta, para os morros da cidade. Santos (2009) nos ajuda a compreender esse processo ao descrever três fases distintas de ocupação:
a primeira foi a lenta ocupação durante o século XIX, por escravos fugidos e libertos e soldados pobres que procuravam as imediações do caminho que atravessava o Morro como local de refúgio. ( ... ) A segunda fase ocorreu a partir da década de 1920, decorrente das mudanças urbanas sanitaristas que expulsaram os pobres da cidade. A terceira fase ocorreu durante as décadas de 1950 e 1960, com a imigração da população negra empobrecida de Biguaçu e Antônio Carlos que buscavam trabalho na construção civil. (p. 586)
Com o tempo, o Monte Serrat se firmou como um lugar de luta, de organização coletiva e de intensa produção cultural. Tornou-se também um dos principais redutos do samba em Florianópolis, abrigando a segunda escola de samba mais antiga da cidade, a Embaixada Copa Lord, fundada em 1955 (Figura 2). Essa história de resistência é tecida por ações comunitárias que sempre intencionavam melhorias para o coletivo, incluindo a busca por educação de qualidade.

Créditos. Luiza Melo
Figura 2. Escola de Samba Embaixada Copa Lord - Fachada da Escola de Samba Embaixada Copa Lord
É nesse movimento em direção à educação que nasce a escola Marista Escola Social Lúcia Mayvorne. Na década de 1990, lideranças comunitárias começaram a se mobilizar frente à crescente violência e à preocupação com o futuro das crianças e jovens. Em 1998, é criado o Centro Cultural Escrava Anastácia da Nossa Senhora do Monte Serrat - nome que entrelaça religiosidades africana e católica - por meio da ação de Dona Darcy, Seu Teco e o Padre Vilson Groh, figuras ativas na comunidade. Em parceria com o centro cultural, nasce o projeto que daria origem, em 2003, ao Centro Social Marista do Monte Serrat.
Já existia na comunidade a Escola Estadual Lúcia do Livramento Mayvorne, mas em situação de precariedade e sob ameaça de fechamento. Em 2011, com negociações junto à Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina, a escola passa a ser gerida pela rede Marista de educação, tornando-se a Marista Escola Social Lúcia Mayvorne (Figura 3), atendendo atualmente mais de 500 estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental ao ensino médio. A rede educacional Marista é uma instituição privada que mantém escolas particulares e escolas sociais, estas últimas recebem de forma gratuita crianças e adolescentes que vivem em regiões periféricas, como é o caso da Escola Lúcia Mayvorne.

Créditos. Colégios Maristas (https://colegiosmaristas.com.br/#nossas-unidades)
Figura 3 Escola - Fachada da Marista Escola Social Lúcia Mayvorne
Dentro dos movimentos sociais, políticos e culturais na comunidade, incluindo os movimentos que deram origem à escola, a liderança das mulheres sempre foi intensa, sendo elas a referência de estruturação de boa parte das conquistas comunitárias. A centralidade das mulheres neste papel é analisada por Paulista (2013) que enfatiza:
as bandeiras de lutas dos movimentos sociais de moradia e dos movimentos populares como associações de bairro se relacionam de maneira bastante intrínseca com as experiências vividas pelas mulheres no espaço urbano e em seu cotidiano doméstico. Essa identificação das mulheres com as pautas é condição subjetiva imprescindível que influencia a mobilização e organização delas nesses movimentos, além das condições objetivas (como as ameaças e carências). (p. 11)
No contexto do Monte Serrat, as mulheres são as guardiãs das memórias, das tradições e dos saberes que sustentam a comunidade, tecendo redes de cuidado e solidariedade que garantem a continuidade da vida e da cultura local. O projeto Mama África buscou dar visibilidade a esse protagonismo, incentivando os estudantes a reconhecerem e valorizarem as vozes femininas que falam ao morro.
A comunidade do Monte Serrat carrega uma história rica e potente, forjada na luta e na resistência de seus moradores, marcada por personagens que desempenharam papéis fundamentais na construção desse território. A própria existência da escola é fruto dessa memória viva, que pulsa por entre as casas, as vielas e nos rostos da comunidade.
Somente pela materialidade histórica deste território já podemos perceber a importância de falar e resgatar essas memórias, mas porque utilizar o espaço da escola para isso? A autora Xakriabá (2020) contribui para a reflexão sobre este questionamento, ao falar sobre o contexto da educação escolar indígena, e aponta: “é preciso considerar o território como um importante elemento que nos alimenta, nos ensina, e constitui o nosso ser pessoas no mundo. Não podemos nos ver apartados do território, pois somos também parte indissociável dele, nosso corpo” (p. 326).
Xakriabá (2020) nos lembra sobre a importância de incorporar os elementos do território às práticas educativas, afinal, somos parte dele quando estamos na escola. A escola, em seus diferentes contextos e territórios, precisa dialogar com as narrativas do lugar que permeia, fazendo um movimento de conectar os educandos ao espaço em que vivem, mas também possibilitando que eles retornem os saberes desenvolvidos na escola para a comunidade, pois, “para fortalecer os processos educativos, é necessário alimentar as práticas tecidas na cultura, e que estão presentes na oralidade, nos rituais, na organização social, no segredo e no sagrado, naquilo que é oculto” (Xakriabá, 2020, p. 320). Assim, podemos fazer da escola um espaço para compartilhamento não somente dos conhecimentos historicamente sistematizados, mas também dos saberes populares e culturais, que são tão importantes quanto os primeiros, no entanto, muitas vezes, marginalizados.
Quando pensamos na construção de uma escola que rompe com a educação tradicional e busca trilhar caminhos através do desenvolvimento de um pensamento crítico, é crucial que coloquemos o território na centralidade dos processos pedagógicos, seja partindo dele ou relacionando-o com os saberes sistematizados historicamente.
Paulo Freire (1992) aponta que “a vida comunitária é o solo fértil onde floresce a educação como prática da liberdade. A comunidade é o lugar da escuta, do diálogo, da partilha, da luta” (p. 53). Assim, é na comunidade que construímos a educação que rompe com a lógica dominante e é junto da comunidade que podemos construir uma nova escola, que faz sentir e faz sentido para os educandos.
A concepção de educação como prática da liberdade, conforme elaborada por Paulo Freire (1992), propõe um deslocamento essencial no modo como compreendemos os processos de ensino e aprendizagem. Em vez de uma ação vertical e transmissora de conteúdos prontos, essa perspectiva valoriza o diálogo, a escuta e a construção coletiva do conhecimento, reconhecendo cada sujeito como portador de saberes e experiências singulares. A educação, nesse sentido, torna-se um espaço de encontro entre memórias, afetos e mundos possíveis, em que se cultiva a consciência crítica e a potência de intervir na realidade.
Deste modo, a participação dos moradores, por meio de suas narrativas orais, práticas culturais e ações coletivas, fortalece o vínculo entre escola e território promovendo uma educação viva, que ultrapassa os limites dos conteúdos presentes nos livros didáticos. A arte transforma-se em gesto político e pedagógico contextualizado, legitimando os saberes periféricos e abrindo brechas para a construção de outros mundos possíveis.
Reconhecer o território como fonte de conhecimento é também uma forma de reparação histórica. Ao valorizar as práticas culturais da comunidade, a escola reafirma seu compromisso com a justiça social e com uma pedagogia que acolhe as diferenças. Nesse processo, a reparação histórica é compreendida como a restituição de dignidade a sujeitos e coletividades marginalizadas pelos efeitos do colonialismo, do racismo estrutural e das desigualdades sociais. Como Ventura (2021) observa, “o movimento pela reparação histórica sublinha a negação silenciosa acerca da escravização do africano e da violência colonial como elementos que fundamentam práticas de exclusão e discriminação racial contemporânea” (p. 15). No contexto do Monte Serrat, esse movimento se materializa no reconhecimento das memórias e práticas culturais cultivadas por mulheres, coletivos artísticos e lideranças comunitárias que ressignificam e mantêm vivas as tradições locais.
3. O Projeto Mama África
O projeto interdisciplinar Mama África, surgiu das reflexões sobre as relações entre a escola e o território na construção de uma escola para a liberdade. O território emergiu como um pilar central na abordagem proposta por este artigo. O título do projeto faz referência à música homônima dos cantores e compositores brasileiros Chico César e George Thomaz (Letras.mus.br, s.d.-b):
Mama África / A minha mãe é mãe solteira / E tem que fazer mamadeira / Todo dia / Além de trabalhar como empacotadeira / Nas Casas Bahia / Mama África tem tanto o que fazer / Além de cuidar neném / Além de fazer denguim / Filhinho tem que entender / Mama África vai e vem / Mas não se afasta de você. (v. 1)
A letra da música revela a luta e a força das mulheres negras na estrutura familiar, da mãe solteira que cuida dos filhos e trabalha fora, e por conta da correria do dia a dia, carrega ferimentos em seus pés. Assim, a música discute e coloca em evidência a centralidade da mulher negra na manutenção da vida familiar, e por conseguinte, de seu papel na comunidade. A escolha da referência desta composição para o projeto dialoga com o objetivo de provocar reflexões sobre ancestralidade, cultura afro-brasileira e identidade, valorizando o papel da mulher na construção e na manutenção da memória coletiva.
Cabe destacar que a interdisciplinaridade foi um elemento fundamental na concepção e execução do projeto. Ao integrar as disciplinas de Artes, Português, História, Geografia e Sociologia, o Mama África proporcionou uma abordagem holística e contextualizada do tema, permitindo que os estudantes explorassem as diversas dimensões da ancestralidade e da identidade afro-brasileira em interação com os componentes curriculares participantes. A escola foi pensada como um espaço que possibilita uma compreensão multifacetada e crítica, quando olha para a realidade tal como ela se manifesta: complexa, contraditória, plural e interligada. Compreende-se que
a escola é um espaço vivo, onde encontramos e buscamos relações interpessoais e humanas, e é nesse sentido que ela precisa contribuir para a construção do humano, buscando as relações entre o pluralismo cultural, as diferenciações sociais, o pluralismo ideológico e a relacionar o que nos “separa” e o que nos une. E é nesse sentido que ela necessita ser interdisciplinar. (Salgado, 2017, p. 72)
A prática interdisciplinar se deu através da definição do tema em reunião pedagógica com todos os professores que compõem as disciplinas, partindo da questão central do papel das mulheres na organização comunitária, especialmente no Monte Serrat, pensando justamente no número expressivo de mulheres que são líderes na comunidade. Após definições gerais, o corpo docente decidiu como cada área poderia proporcionar debates sobre o tema do projeto, bem como seriam definidas as ações coletivas. No momento da roda de conversa com os líderes comunitários as aulas foram coletivas, com os professores de todas as disciplinas presentes.
Na disciplina de Geografia, foram explorados os processos de organização da comunidade e a construção cartográfica do lugar, com o desenvolvimento de uma cartografia afetiva coletiva do Monte Serrat. Em Sociologia, a professora apresentou pesquisas e promoveu debates sobre a divisão sexual do trabalho e a economia do cuidado, com foco na centralidade das mulheres na organização social. Já na disciplina de História, o professor traçou um panorama histórico das mulheres que foram líderes políticas em diferentes países africanos e, em seguida, relacionou o conteúdo estudado com as histórias das mulheres da comunidade. Por fim, na disciplina de Língua Portuguesa, a professora abordou contos e poemas da literatura brasileira e africana que trazem perspectivas de diferentes mulheres sobre seus territórios e, após essa abordagem, concluiu com a proposta de produção de microcontos.
No que tange a participação das Artes, como salientado anteriormente, buscou-se, por meio de processos artísticos e referências visuais, abrir caminhos para a valorização das raízes afrodescendentes presentes na comunidade, bem como para a afirmação de outras possibilidades de existir e de ocupar a cidade.
Como um todo, a abordagem integrada do projeto não apenas enriqueceu o processo de aprendizagem e os laços pedagógicos entre docentes e discentes, mas também fortaleceu os vínculos entre a escola e a comunidade, promovendo uma educação que reconhece e valoriza os saberes populares e territoriais.
4. As Memórias, as Conversas e a Arte
No campo dos estudos culturais e sociais, o conceito de memória transcende a mera lembrança individual ou a cronologia factual da história. A memória é um fenômeno complexo, dinâmico e socialmente construído, que se distingue da história e da lembrança por suas características e funções específicas. Enquanto a lembrança se refere a recordações pessoais e subjetivas, e a história busca uma reconstrução crítica e objetiva do passado a partir de documentos e evidências, a memória, especialmente a memória coletiva, emerge como um processo vivo, em constante reelaboração, que se manifesta nas práticas sociais, nos rituais, nas narrativas orais e nos espaços de convivência.
Maurice Halbwachs (1950/2006), um dos pioneiros nos estudos da memória coletiva, argumenta que a memória não é um fenômeno puramente individual, mas é moldada e sustentada por quadros sociais. Para Halbwachs (1950/2006), as lembranças individuais são sempre referenciadas a um contexto social, e a memória coletiva é o que permite a coesão e a identidade de um grupo.
A psicóloga brasileira Ecléa Bosi (1987/2004), em sua obra Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, aprofunda essa compreensão ao explorar a memória como um campo de pesquisa que revela as experiências e narrativas de grupos marginalizados, dando voz a histórias que muitas vezes são silenciadas pela história oficial. Bosi (1987/2004) destaca a importância da oralidade e do testemunho como fontes primárias para a construção da memória social, enfatizando como as lembranças individuais se entrelaçam com as coletivas para formar a identidade de um povo. Sua contribuição é fundamental para compreender como a memória opera enquanto fenômeno social que transcende o individual, constituindo-se como patrimônio coletivo que se mantém vivo através das gerações.
No contexto deste artigo, a memória é compreendida como um processo ativo de (re)construção do passado no presente, que se manifesta nas vozes e práticas das mulheres do Monte Serrat. Não se trata de uma lembrança estática, mas de uma memória viva, que permeia o cotidiano da comunidade e que é ativada e ressignificada por meio da arte. Essa perspectiva permite valorizar os saberes populares e as narrativas invisibilizadas, reconhecendo a memória como um potente instrumento de resistência e transformação social.
Memórias são caminhos de retorno à identidade, à ancestralidade, à coletividade que nos forma. Somos muitos, ainda que sejamos um só, enquanto coletivo. Relembrar é também reivindicar espaço na história, compreender que nossa trajetória é tão válida quanto qualquer outra registrada nos livros oficiais.
A memória, muitas vezes associada apenas à saudade, é, na verdade, o que nos constitui como sujeitos. Não somos apenas nossas lembranças individuais, mas as coletivas, as que herdamos, as que nos contam quem fomos e quem podemos ser. Como define Célia Xakriabá (2020):
a memória nativa é aquela que guardamos dos nossos pais, avós, bisavós: são as memórias mais antigas e que trazemos ancestralmente. Já a memória ativa consiste também naquelas memórias que reativamos em matrizes do passado, mas que estão presentes e ativas ainda hoje, sendo dinâmicas e marcadas por processos de ressignificação que definirão a nossa relação com as memórias do corpo-território no futuro daqueles que ainda virão. (p. 321)
Quando falamos de memória, é ainda fundamental pensarmos sobre os seus espaços de propagação e manutenção na oralidade. É na conversa que ativamos e resistimos com as memórias. Os saberes e histórias que não são vistos como centrais para a dita “história universal” são marginalizados e não são percebidos como relevantes para estarem em livros ou obras de arte, ainda que percebamos mudanças ocorrendo na arte contemporânea a este respeito. Por isso, precisamos retomar os espaços de conversa dentro da escola.
Quando nos reunimos e partilhamos memórias, podemos construir novos saberes e narrativas para um lugar, pois, conforme aponta Bosi (1987/2004),
só o grupo pode resistir e recompor traços de sua vida passada. Só a inteligência e o trabalho de um grupo podem reconquistar as coisas preciosas que se perderam, enquanto estas são reconquistáveis. Quando não há essa resistência coletiva, os indivíduos se dispersam e são lançados longe, as raízes partidas. (p. 452)
É preciso o envolvimento coletivo e a resistência para reapropriar-se das memórias coletivas, comunitárias e de classe que ainda pulsam pelas ruas do Monte Serrat, tornando-as ferramentas, para que cada educando tenha autonomia e consciência de seu próprio processo de construção, enquanto sujeito nesta sociedade, possibilitando uma ruptura com a organização social vigente.
Mas por que as artes visuais como ativadoras das memórias? A arte, em suas múltiplas expressões, vai muito além de um registro histórico, social e cultural; ela se apresenta como um espaço singular para a construção e ressignificação do conhecimento. Ela oferece uma linguagem própria, capaz de comunicar o que muitas vezes escapa às formas convencionais de discurso, criando pontes entre o tangível e o intangível, o racional e o emocional. Por meio das imagens, das cores e das formas, as artes visuais mobilizam crenças, ideias e subjetividades, permitindo que experiências individuais e coletivas se expressem de maneira única. Diferentemente da argumentação lógica, que busca persuadir pela razão, a arte convoca o espectador a um encontro sensível com seus próprios sentimentos, despertando memórias adormecidas e, muitas vezes, expandindo-se para o universo dos afetos - esses vínculos emocionais profundos que entrelaçam o indivíduo ao seu contexto, à sua história e à sua comunidade. Assim, as artes visuais atuam como catalisadoras de processos de lembrança e pertencimento, oferecendo um espaço para que as narrativas silenciadas ganhem voz e visibilidade, contribuindo para a construção de identidades mais plurais e afirmativas. Corroborando com esta visão, Silva (2014) discorre:
como uma área do conhecimento, a arte utilizará suas propriedades para estruturar, organizar e dar significação à realidade circundante. O valor simbólico que permeia a produção artística, responde à necessidade humana de compreensão, organização e diálogo com o meio, responde a certos estímulos que dele emana, e estabelece um processo contínuo de intervenção e transformação de ambos. Dando, de uma maneira própria, uma significação ao mundo que se difere dos demais campos do saber. (pp. 38-39)
A arte, para além de sua importância enquanto campo do conhecimento e de sua linguagem própria que possibilita comunicar através de distintas materialidades e singularidades, também se apresenta como um espaço de preservação e ativação de memórias. Como quando vemos os sambas-enredos da escola de samba do Monte Serrat, a Embaixada Copa Lord, que sempre trazem elementos culturais, históricos e simbólicos da comunidade:
Na fé dos meus orixás e nossa senhora do Monte Serrat / Axé Dona Uda Gonzaga e as lições de vida que veio ensinar / Marias entre tantas Marias com raça e samba no pé / Quem você pensa que é sem a força da mulher? (Silveira, 2014, v. 4)
O refrão é do samba enredo do ano de 2014, quando a Escola de Samba Embaixada Copa Lord desenvolveu o tema “Quem Você Pensa que é, Sem a Força da Mulher? Copa Lord Saúda D. Uda, as Mulheres do Morro e as Mulheres do Mundo!”, composição de Alexandre Feijão, Leleco, Nenem do Banjo & Zinho Bom Astral, centrado na força das mulheres na sociedade e trazendo Dona Uda Gonzaga, importante matriarca da comunidade do Monte Serrat, como símbolo dessa força.
5. Partilhando Memórias Através das Artes Visuais no Projeto Mama África
Dentro da comunidade do Monte Serrat, temos muitas mulheres que são frequentemente lembradas em espaços da escola ou em alguma conversa com os estudantes, porém, é necessária uma compreensão mais complexa sobre suas lutas e papeis na organização comunitária. Assim, o projeto buscou possibilitar visibilidade e profundidade reflexiva para esta questão, pois compreende-se que
vale ressaltar o papel do feminino como guardiãs dos saberes e fazeres das comunidades, bem como na transmissão das suas práticas cotidianas nas rodas de conversa, nas trocas e cuidados com os quintais produtivos e nos rituais religiosos, e/ou nos rituais cotidianos que descrevem a lida com a/na terra como construção da identidade de ser quilombola. (Leal & Boakari, 2023, p. 7)
Compactuando com o pensamento de Leal e Boakari (2023), compreendemos a importância das mulheres do Monte Serrat não somente como organizadoras e lutadoras comunitárias, mas como guardiãs dos saberes, fazeres e memórias da comunidade.
O percurso educativo no componente de Artes, em um primeiro momento, abordou o que os educandos acreditavam ser as memórias dessas mulheres da comunidade, e, posteriormente, essas crenças foram colocadas em diálogo com as vozes destas próprias mulheres. Após a conversa com as líderes comunitárias, foi proposto o estudo de obras e artistas que refletem sobre a memória, como Rosana Paulino, Rosângela Rennó e Racionais MC’s, e por fim, a construção de um processo artístico, ativando as memórias por meio da criação de imagens.
Iniciamos a prática no projeto questionando os estudantes sobre quais mulheres da comunidade eles conheciam e quais, em suas percepções, tinham uma importância pessoal e social para o Monte Serrat. Após o levantamento dos nomes, conversamos sobre quais as possíveis influências dessas mulheres na construção da comunidade do Monte Serrat. A partir deste debate, os educandos escreveram cartas para estas mulheres, podendo ser para uma mulher que de fato conhecessem ou para uma mulher que acreditassem que existe na comunidade, sendo assim, esta última escrita, para uma figura ficcional. Para embasar artisticamente a construção das cartas, os estudantes foram apresentados a alguns artistas que trabalham com arte postal, entre eles, Paulo Bruscky e Regina Silveira. Foi partilhado, ainda, um trabalho de Luiza Melo, de arte postal, intitulado “Desaparecido” (2019). A obra consiste em uma apropriação fotográfica, uma carta manuscrita e um selo postal. A carta é de cunho ficcional, contendo a escrita de um filho para a mãe, desaparecida política no contexto da ditadura militar brasileira.
Destacamos aqui a carta de uma educanda cuja avó é uma líder na comunidade. Nesta carta ela traz memórias pessoais, uma dimensão social e a admiração pela luta da sua avó: “tô aqui lembrando de quando eu era pequena e a senhora ia me buscar na creche, cheia de sacolas na mão, cansada, mas mesmo assim sempre ia. Naquela época eu não entendi direito, mas hoje vejo o quanto aquilo era difícil. Já passou por tanta coisa, mas nunca deixou de lutar, não só por nossa família, mas por todo mundo ao redor”. Sua carta ainda se vincula muito diretamente com a música “Mama África”, que inspirou o nome do projeto, quando relata o cotidiano sobrecarregado das mulheres que cuidam dos filhos (ou netos, no contexto da carta), além de trabalhar e lutar pela comunidade.
Após as conversas em sala de aula e a escrita de cartas com embasamento artístico, juntamente com os demais professores e articuladores que compõem o projeto, bem como com o apoio da coordenação escolar, convidamos para uma visita à escola algumas mulheres que tiveram ou têm um papel importante para a organização comunitária do Monte Serrat. Assim, realizamos uma roda de conversa para a partilha de suas memórias, momento no qual elas puderam falar sobre os seus envolvimentos sociais, políticos e culturais na construção da comunidade.
Nesta roda de conversa estiveram presentes três mulheres com atuação expressiva na comunidade: Rosângela Freitas, Dona Teresa e Sandra. Rosângela é diretora executiva do Instituto Reverbera (https://institutoreverbera.com.br), instituição social que atende jovens da comunidade para a inserção no mercado de trabalho, pensando especialmente nas questões sociais, raciais e de gênero que atravessam a comunidade. Dona Teresa é uma moradora que teve grande atuação na comunidade com a organização da construção de uma igreja na região do Alto Caieira (região parte do Maciço do Morro da Cruz). Ela também desenvolveu a luta pelo acesso à rede de distribuição de água tratada, que, em dado momento, passou por um processo de escassez na região, bem como a construção de projetos de estudo e apoio a jovens, além de vários outros processos dos quais participou ao longo do tempo. Sandra, também conhecida na comunidade como Preta, é uma das fundadoras do Viva Monte Serrat (https://vivamonteserrat.com.br), um projeto de turismo de base comunitária (TBC). O projeto desenvolvido por Sandra apresenta um modelo de visitação gerido pela própria comunidade, que promove o intercâmbio cultural, a valorização da história local e o uso sustentável do território e, assim, ao contrário do turismo tradicional, parte de ações e elaborações da comunidade, e não de uma visão externa para esta.
Além da apresentação de suas trajetórias na luta pela comunidade, estas mulheres partilharam suas memórias pessoais e coletivas. Todas as participantes trouxeram o nome de outras mulheres que foram importantes para a sua construção pessoal e para a construção da comunidade. Neste contexto, as lavadeiras foram muito citadas, pois foi a partir do trabalho e luta destas mulheres que desciam o morro para buscar as roupas das elites do centro da cidade de Florianópolis, e subiam para lavar na beira do rio, que se solidificou a importância destas trabalhadoras na comunidade. No período pós escravidão, quando pessoas negras tinham pouco acesso ao mercado de trabalho, a renda trazida pelo trabalho de lavadeira é que sustentava muitas das famílias.
Outra figura citada com ênfase pelas convidadas foi Dona Uda, que é considerada por todas a matriarca do Monte Serrat. Dona Uda (que não pode estar presente na roda de conversa por conta de sua dificuldade de mobilidade) foi a primeira mulher negra a se tornar professora na comunidade, tendo sido por muitos anos diretora da Escola Estadual Lúcia do Livramento Mayvorne, que é atualmente a escola onde realiza-se este projeto. Dona Uda também foi presidente da Escola de Samba Embaixada Copa Lord, membro titular do Conselho Estadual de Educação e, por anos, catequista na Igreja Nossa Senhora do Monte Serrat. Ela envolveu-se em diversas lutas sociais ao longo dos anos dedicados à comunidade.
Após o encontro e em sala de aula, conversamos sobre essas memórias que foram compartilhadas e sobre como percebemos a importância dessas mulheres depois de ouvir suas vozes, e assim, conhecer suas histórias de vida mais profundamente através de uma narrativa direta. Em sequência a este momento, debatemos sobre como é possível refletir sobre essas conversas por meio das artes visuais. Foram lançadas as perguntas: que imagens podemos criar a partir desse encontro? O que esta conversa nos despertou? Quais processos de identificação e reconhecimento tornaram-se possíveis? Para possibilitar maior repertório e ampliar as referências através das artes, foram estudadas algumas obras que discutem o tema da memória. São elas: “Parede da memória” (1994-2005) e “Bastidores” (1997), de Rosana Paulino, “Imemorial” (1994) e “Vulgo” (1998-1999), de Rosângela Rennó, e a música “Diário de um Detento”1 (1997), de Racionais MC’s (a canção foi musicada pelo grupo de rap e escrita por Josemir Prado, ex-detento do Complexo Penitenciário do Carandiru, na cidade de São Paulo, que no dia 02 de outubro de 1992 sofreu um massacre que culminou na morte de 111 detentos, trazendo à tona a memória desse momento cruel da história).
A partir das conversas e provocações criadas, de forma coletiva, pensamos nas linguagens artísticas que seriam utilizadas por cada um em suas produções. Em um primeiro momento queríamos utilizar a técnica de foto transferência, a mesma que Rosana Paulino utiliza em algumas de suas obras; porém, depois de fazermos nossa própria prensa adaptada, percebemos que a tinta da impressora da escola não era adequada à nossa criação. Deste modo, decidimos utilizar os materiais artísticos disponíveis na instituição. Por este motivo, cada educando optou por aqueles com que mais se identificava ou que acreditava ter maior relação com aquilo que desejava discutir em sua proposição artística. Esta autonomia na escolha de materiais foi importante, pois contemplou os anos de estudos nos quais eles puderam experimentar diferentes técnicas e materialidades no espaço escolar. Entre os exercícios artísticos ainda em processo, no momento da escrita deste artigo, temos bordado em tecido cru, pinturas a óleo sobre tela, giz pastel sobre papel Canson, guache sobre tela e grafite sobre papel.
As produções dos estudantes apresentam representações distintas das mulheres do Monte Serrat. Um tema discutido em mais de uma imagem foi o das lavadeiras, aparecendo de duas formas: representadas na prática de seu trabalho, ou de frente para o espectador, com os morros e seus rios ao fundo da imagem. Dona Uda Gonzaga foi outra pessoa que apareceu em algumas produções dos estudantes. Ela foi representada de duas formas: a primeira, em pintura, na qual a personalidade aparece bordando a bandeira da Escola de Samba Embaixada Copa Lord (Figura 4); e a segunda, em bordado, na qual aparece o nome de Dona Uda e diversos elementos que representam a sua trajetória. Rosângela Freitas também foi representada em uma pintura (Figura 5), na qual aparece sorrindo e olhando para quem olha para a imagem. E, por fim, alguns estudantes trouxeram mulheres de suas famílias como tema principal, com destaque para a obra de uma educanda que trouxe sua avó e sua relação com a fé na Umbanda, religião muito presente na comunidade (Figura 6). Na pintura aparece a avó mais jovem com uma guia (artefato de proteção semelhante a um fio de contas) e um ponto cantado (canção específica das religiões de matriz africana) escrito abaixo de seu rosto: “se meu pai é Ogum; Ogum / Vencedor de demanda / Ele vem de Aruanda / Pra salvar filho de Umbanda”.

Créditos. Luiza Melo
Figura 4. Pintura (em processo) em óleo sobre tela representando D. Uda Gonzaga bordando a bandeira da Escola de Samba Copa Lord

Créditos. Luiza Melo
Figura 5. Pintura em aquarela sobre papel Canson representando Rosângela Freitas

Créditos. Luiza Melo
Figura 6. Pintura em óleo sobre tela (em processo) retratando a avó da educanda como referência ao terreiro de umbanda da avó, que a educanda frequenta, inserido no Monte Serrat
A memória das mulheres do Monte Serrat emergiu como um eixo central e afetivo nas proposições artísticas dos educandos, revelando-se não apenas como tema, mas como potência mobilizadora de sentidos, narrativas e vínculos com o território. Ao escolherem retratar figuras como as lavadeiras, Dona Uda Gonzaga, Rosângela Freitas e suas próprias ancestrais, os educandos ativaram memórias que atravessam o cotidiano da comunidade, reconhecendo e valorizando saberes, práticas e presenças femininas muitas vezes invisibilizadas no discurso histórico hegemônico. Essas escolhas nasceram do diálogo, da escuta e do reconhecimento de que essas mulheres construíram, com resistência e afeto, as bases sociais e culturais do território.
Nas produções realizadas pelos educandos e educandas, esse impacto se manifesta por meio de materialidades sensíveis e escolhas formais que dialogam diretamente com a memória afetiva e coletiva. O bordado, a pintura, o grafite e o guache tornam-se suportes de narrativas íntimas e comunitárias, sendo as mulheres representadas em seus fazeres cotidianos, em gestos de cuidado, fé e luta. A presença da guia, do ponto cantado, da bandeira da escola de samba ou das águas dos rios revela não apenas uma homenagem, mas também uma apropriação crítica da arte como linguagem capaz de contar outras histórias - aquelas que partem do chão do morro e ecoam por meio da voz dos estudantes. Ao revisitar essas memórias, os educandos não apenas se conectam com suas raízes, mas também afirmam a arte como espaço de reivindicação e continuidade dessas presenças femininas no imaginário coletivo.
Além dessas produções, o projeto prevê a realização de uma saída fotográfica, na qual visitaremos a casa de algumas dessas mulheres para realizar fotografias. Estas imagens posteriormente farão parte de uma exposição que os educandos e professores estão elaborando para ocorrer ao final do trimestre. A exposição será realizada na sede da Escola de Samba Embaixada Copa Lord, a qual é palco de protagonismo das mulheres do Monte Serrat.
6. Reverberações da Memória
Escutar as vozes femininas que falam ao morro é mais do que um gesto poético: trata-se de um posicionamento político, ético e pedagógico. No Monte Serrat, compreende-se que a arte não se limita à expressão, mas envolve também a escuta e o encontro. Esse entrelaçar de vidas, memórias e imagens revela outras formas de saber e de ensinar - formas que partem do afeto, do corpo e da experiência.
É pelas mãos, pelas palavras e pelos olhares das mulheres da comunidade que o morro fala. Ao ouvir essas vozes, a escola pode se reinventar como um espaço de memória viva, de criação compartilhada e de transformação. Ao reconhecer a potência das narrativas que emergem da comunidade, especialmente das mulheres que a constroem cotidianamente, reafirma-se a importância de uma educação comprometida com o território e com os sujeitos que nele habitam. A arte, nesse contexto, torna-se linguagem para visibilizar aquilo que, por tanto tempo, foi silenciado, além de oferecer caminhos para imaginar futuros possíveis, semeados de dignidade e pertencimento.
Essas mulheres costuram redes de cuidado, mantêm vivas as tradições e fazem da resistência uma prática cotidiana. Suas narrativas atravessam gerações e desafiam os silêncios impostos pelas histórias hegemônicas. Ao transformar suas vivências em matéria pedagógica, reconhece-se nelas fontes legítimas de conhecimento e experiência. Esses saberes, muitas vezes transmitidos na informalidade das conversas, das rezas, dos gestos e das festas comunitárias, convidam à ressignificação das práticas escolares.
Nesse processo, a escola deixa de ser um espaço restrito à reprodução de conteúdos para tornar-se território de escuta, acolhimento e criação. Ao abrir espaço para essas vozes, ativam-se subjetividades e fortalecem-se os vínculos comunitários. A arte, nesse sentido, transforma-se em gesto político e pedagógico, legitimando os saberes periféricos e femininos, e abrindo brechas para a construção de outros mundos possíveis.
Assim, compreende-se que é necessário aprender a se descalçar dos sapatos usados para percorrer caminhos e acessar conhecimentos teóricos produzidos no centro. Deixe os pés tocarem o chão no território. Seus sapatos se tornarão pequenos e não caberão nos pés coletivos, eles apertarão tanto nossas mentes que limitarão o acesso ao conhecimento no território do corpo. (Xakriabá, 2020, p. 330)
É necessário, portanto, reaprender a caminhar em coletividade, em atitude de escuta, permitindo que o chão do morro ensine. Que os passos dados junto à comunidade continuem ativando memórias, sensibilidades e sentidos de pertencimento.
Reconhecer o território como fonte de conhecimento é uma forma de reparação histórica. Ao valorizar as memórias, vozes e práticas culturais da comunidade, a escola reafirma seu compromisso com a justiça social e com uma pedagogia que acolhe as diferenças como potência. Assim, o Monte Serrat não apenas ensina sobre si, mas oferece ao mundo outras maneiras de existir, educar e sonhar coletivamente.
7. Considerações Finais
Este artigo buscou apresentar uma reflexão sobre as potências da arte como ativadora de memórias no contexto da comunidade do Monte Serrat, em Florianópolis, a partir da experiência pedagógica vivida na Marista Escola Social Lúcia Mayvorne. Ao longo do texto, demonstramos como a escuta sensível das vozes femininas da comunidade, a valorização do território como espaço de saber e a abordagem interdisciplinar do projeto Mama África contribuíram para a construção de uma educação mais engajada e transformadora.
As discussões sobre a importância da oralidade e a centralidade das mulheres na preservação das memórias locais revelaram a complexidade e a riqueza do universo cultural do Monte Serrat. A arte, nesse cenário, emergiu não apenas como uma ferramenta de expressão, mas como um potente catalisador de memórias, capaz de mobilizar afetos, ressignificar experiências e fortalecer os laços de pertencimento e identidade.
As práticas desenvolvidas com os estudantes, que culminaram na produção de trabalhos artísticos inspirados nas narrativas das mulheres da comunidade, evidenciam o potencial da Arte-Educação para promover o reconhecimento de saberes periféricos e a afirmação de outras epistemologias. Ao dar visibilidade a essas vozes e às suas memórias, a escola reafirma seu compromisso com uma pedagogia que acolhe as diferenças e promove a justiça social.
Portanto, a experiência do Monte Serrat, mediada pela arte, aponta para caminhos pedagógicos que entrelaçam arte e território, e que têm como horizonte uma educação emancipadora, afetiva e transformadora. É um convite a descalçar os sapatos e permitir que o chão do morro ensine, construindo coletivamente um futuro em que todas as vozes possam ecoar.
Por meio dessas práticas artísticas, estudantes passaram a narrar suas memórias, revisitar suas ancestralidades e se reconhecer como parte ativa na produção de sentidos sobre o lugar em que vivem. Ao escutar e criar com esses estudantes, foi possível identificar epistemologias femininas e periféricas que resistem, pulsam e florescem, mesmo diante dos apagamentos históricos.










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