1. Introdução
Os sinos, como objetos sonoros e culturais, desempenham um papel fundamental na vida das comunidades. Desde tempos remotos, os sinos têm sido utilizados não apenas como instrumentos de comunicação, mas também como símbolos de identidade e coesão social em diferentes sociedades e contextos culturais (Pinto, 2020; Taras, 2021). Os sinos foram introduzidos nas comunidades cristãs como uma forma de marcar o tempo e convocar os fiéis para os serviços religiosos. A sua presença nas igrejas e capelas tornou-se um elemento central das práticas comunitárias, servindo como meio de comunicação não apenas entre os membros da comunidade, mas também entre o humano e o divino (Le Goff, 1964/1984). O toque dos sinos anunciava eventos importantes, como casamentos, funerais e festividades religiosas, e, assim, contribuía para a construção de uma identidade coletiva (Boyer & Wertsch, 2009/2012).
Na perspetiva de Vögele (2023), os relógios e os smartphones vieram substituir quase todas as funções que antigamente eram garantidas pelos sinos. Antigamente os sinos tinham uma função social eminente, pois, com a sua ajuda, as pessoas conseguiam estruturar o tempo, os dias, as semanas, os meses e os anos. O calendário litúrgico desempenhava um papel fundamental na organização do tempo. Enquanto os sinos serviam como meio para a marcação de momentos significativos, a base dessa estruturação temporal era o calendário litúrgico que estabelecia os períodos festivos e as celebrações religiosas, mas também definia os ciclos diários e sazonais. Assim, a interdependência entre o calendário litúrgico e os sinos fazia parte da harmonia temporal nas comunidades, permitindo que as pessoas se conectassem com o sagrado e com os ritmos do quotidiano. A vida individual e a comunitária estavam circunscritas a espaços pequenos ou delimitados, pelo que, se alguém não conseguisse ouvir os sinos, ficaria privado de informações importantes, tanto seculares como congregacionais (Machado, 2010).
A linguagem dos sinos era multifacetada, pois cada toque transmitia uma mensagem específica, que variava conforme a ocasião. Através da sua sonoridade, os sinos comunicavam a passagem do tempo e a necessidade de congregação, reafirmando a estrutura social da comunidade (Correia, 2005/2012).
Além da função religiosa, os sinos constituíam um elemento crucial na comunicação de informações práticas. Nas comunidades de antigamente, tanto urbanas como rurais, num tempo em que os meios eram mais limitados, os sinos eram usados para avisar a população sobre eventos importantes, como incêndios, reuniões ou emergências (Parafita, 2012). Este aspeto utilitário da comunicação sineira destaca a importância dos sinos para garantir a segurança e o bem-estar da comunidade. Através de toques específicos, a população podia identificar a natureza de determinada ocorrência e tomar diligências de acordo com cada situação específica para a qual os sinos alertavam (Llop i Bayo & Álvaro, 1990).
A preservação das práticas associadas aos sinos é uma forma de manter viva a memória coletiva e as tradições culturais, garantindo que as futuras gerações possam compreender e valorizar a sua herança. No espaço dos países de língua portuguesa destaca-se o reconhecimento da sonoridade sineira no Brasil desde 2009 - enquanto património imaterial que reflete a história e a cultura das suas comunidades - pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional. O toque dos sinos é um aspeto significativo do património imaterial brasileiro, especialmente em algumas comunidades de Minas Gerais, onde a tradição está enraizada na cultura local. Os sinos, além da sua função prática de comunicação, são considerados símbolos de identidade que refletem a história e as práticas religiosas das suas comunidades (Carvalho, 2021; Rayel, 2016). A particularidade e diversidade dos toques em Minas Gerais salienta a riqueza cultural, celebrada por meio da organização de vários festivais e eventos comunitários (Gomes, 2017). Nas cidades históricas mineiras de São João del-Rei e Diamantina, a tradição sineira é reconhecida como uma forma de expressão cultural que une os habitantes. Segundo Albuquerque e Sá (2021), o toque dos sinos serve como elo entre gerações, permitindo que os mais velhos transmitam as suas histórias e experiências aos mais jovens em prol da valorização das práticas culturais e identitárias.
A valorização do património sineiro em Minas Gerais é uma forma de resistência e de expressão da heterogeneidade cultural e um meio de celebrar a diversidade cultural (e sonora) que caracteriza a cultura brasileira. Os códigos sonoros praticados através do toque dos sinos também variam de lugar para lugar. O mesmo toque pode ter significados distintos consoante o território. Como enfatiza Dumont (2021), os toques dos sinos são uma linguagem própria que expressa sentimentos de fé, esperança e pertença, refletindo a essência da vida comunitária. Essa dimensão simbólica torna o património sineiro um elemento vital para a compreensão das dinâmicas sociais e culturais que compõem as cidades históricas de Minas Gerais onde o toque dos sinos é considerado património cultural imaterial brasileiro. A história dos sinos é a história das suas gentes e da sua diversidade, desde os europeus que levaram esta tradição até aos escravizados africanos que incorporaram novas personalidades e identidades rítmicas na forma de fazer falar os sinos (Cruz, 2018; Galante, 2023). Tal como elucida Galante (2023), quando os europeus chegaram ao continente africano, a aplicação dos sinos como meio de comunicação constituía uma das poucas práticas que tinham em comum com os povos locais. Quando os negros escravizados foram levados para o Brasil, os toques dos sinos passaram a receber influências africanas, conferindo novas dimensões e sonoridades à sua função, uma vez que eram muitas vezes os escravizados que tinham a função de tocar os sinos (Galante, 2023). Os sinos assumem assim um património intercultural que integra referências e contributos diversos, representando um meio de cooperação e humanização (Alsina, 1999) por entre o atribulado contacto entre culturas.
O valor identitário dos sinos é reconhecido enquanto património imaterial do país pelo Estado brasileiro, ao passo que em Portugal merece menos atenção ou proteção enquanto bem cultural do ponto de vista institucional, académico e comunitário. A exceção a este alheamento é composta por alguns estudos académicos que, esporadicamente, tentam combater a desmemória a que os sinos estão votados em Portugal (Gonçalves et al., 2015; Pinto, 2020; Sebastian, 2008).
O sino é considerado um elemento patrimonial de foro imaterial, refletindo práticas e significados profundamente enraizados na cultura portuguesa (Vieira, 2022). Segundo este autor, a sonoridade do sino não representa apenas um simples eco no espaço, mas uma manifestação rica de história, ritual e identidade comunitária. A investigação de Paula (2021) destaca como a sonoridade dos sinos, ou “vozes brônzeas”, molda a paisagem sonora de cidades como Évora. Além disso, Paula (2019) analisa o “som brônzeo” na liturgia fúnebre da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa, evidenciando o papel dos sinos em rituais sociais e religiosos, que transcendem o mero aspeto funcional, transformando-se num símbolo de comunhão e espiritualidade, que tece laços entre o sagrado e o quotidiano.
A investigação de Felícia (2019) sobre a Fábrica de Fundição de Sinos de Rio Tinto reforça a relevância histórica e cultural da prática sineira. A pesquisa sublinha a importância dos sinos enquanto objetos, mas igualmente como portadores de significados que se entrelaçam com a identidade local e nacional. A autora reflete sobre a ausência de sineiros na contemporaneidade, o que levanta questões sobre o futuro destas tradições sonoras, evidenciando a necessidade de uma abordagem mais integrada que considere tanto os aspetos tecnológicos quanto os valores socioculturais. A discussão sobre o toque do sino deve contemplar não apenas as suas práticas, mas também a sua valorização como parte do património cultural imaterial.
No estudo de Almeida (1966) é explorada a dimensão simbólica e mágica associada ao toque dos sinos, destacando-se a crença nas suas propriedades apotropaicas, ou seja, a capacidade de afastar o mal e proteger a comunidade. O autor argumenta que, historicamente, essas crenças estavam tão enraizadas que, em muitas culturas, as mulheres eram impedidas de tocar os sinos, considerando-se que a sua participação poderia alterar as energias associadas ao som. Tal restrição era reflexo das normas de género, mas também da profunda reverência pelo simbolismo que os sinos representavam na sua relação com o plano litúrgico.
Esta temática é também abordada por Felícia (2019), para quem as superstições estão presentes desde as fases iniciais de elaboração dos sinos. No momento do vazamento da liga no molde, a presença de mulheres não era aconselhada porque se acreditava que “as mulheres tinham um pacto com o diabo e, sendo o sino um instrumento divino, a sua presença poderia comprometer o sucesso da fundição” (Felícia, 2019, p. 122). O toque dos sinos era visto como uma função sagrada, reservada a homens que, por sua vez, eram considerados os guardiões das tradições e rituais. Essa exclusão das mulheres destaca a complexidade das práticas culturais e as crenças que moldavam a sociedade, revelando como o som dos sinos transcende a função utilitária para se tornar um elemento carregado de significados profundos e de uma herança cultural que merece ser analisada à luz das transformações sociais contemporâneas.
2. Abordagem Metodológica
Em comunidades pequenas, onde os registos escritos são escassos ou inexistentes, a recolha de testemunhos torna-se essencial para a compreensão de práticas socioculturais. Este artigo explora a relevância da história oral, destacando a importância deste método de pesquisa em contextos onde a documentação escrita é escassa ou limitada e os conhecimentos de cariz comunitário esvaecem-se com celeridade.
A história oral tem sido uma ferramenta crucial para a preservação de narrativas que refletem a vivência e as experiências das comunidades. Segundo Portelli (1991), mais do que documentar factos, a história oral revela as perceções e emoções dos indivíduos, contribuindo para uma compreensão mais rica e multidimensional do passado. Na perspetiva de Thompson (1978/2000), as culturas orais possuem as suas próprias lógicas e estruturas que não podem ser completamente capturadas através de métodos quantitativos ou análises textuais. Recorrendo a entrevistas e conversas informais, os investigadores podem obter uma visão mais profunda das práticas culturais e tradições que moldam a vida comunitária. Este tipo de recolha de dados assume-se também como uma ação de cidadania e de resistência, possibilitando que as vozes, de certa forma, marginalizadas pela idade avançada e distância geográfica em relação aos grandes centros urbanos sejam ouvidas e consideradas.
De acordo com Frisch (1990), a preservação dessas vozes é vital, pois veiculam perspetivas únicas e detalhes frequentemente negligenciados nas narrativas oficiais. À medida que estas pessoas envelhecem e se tornam menos acessíveis, acentua-se o risco de se perderem valiosos testemunhos que ajudam a moldar a identidade cultural e histórica de uma comunidade. A preservação das narrativas que estas vozes partilham enriquece o conhecimento histórico e reforça o sentido de pertença para as gerações mais jovens.
Não se deve deixar de considerar que a prática da história oral não está isenta de desafios. A questão da subjetividade ou a possibilidade de distorção das memórias são aspetos relevantes, uma vez que a memória coletiva é influenciada pelos contextos sociais, o que significa que os relatos orais podem ser moldados por fatores como a identidade de grupo, as normas culturais ou pressões sociais (Boyer & Wertsch, 2009/2012; Halbwachs, 1925/1992; Matos & Senna, 2011). Essa dependência do contexto pode levar a deturpações ou omissões nas narrativas em função das interpretações pessoais dos entrevistados e das expectativas do grupo em que estão inseridos. A pesquisa etnográfica enfatiza o elemento vivencial da experiência e tem como elemento fundamental a “concentração no detalhe do quotidiano enquadrando-o no todo da vida social” (Baptista, 2009, p. 457), não procurando a verdade objetiva, mas a compreensão do significado dos discursos e das representações sociais e culturais, sendo particularmente adequada para a abordagem qualitativa de questões de cultura, estilos de vida e identidades.
As entrevistas ocorreram em agosto de 2024 na aldeia de Avelanoso, concelho de Vimioso, distrito de Bragança, localizada no extremo nordeste de Trás-os-Montes junto à raia com Espanha. O grupo de entrevistados foi composto por 10 indivíduos com mais de 70 anos, seis do sexo masculino e quatro do sexo feminino, que viveram os anos de infância e juventude na aldeia antes de migrarem para outras paragens para desenvolver a sua vida profissional. Talvez seja importante contextualizar que nos meses de verão, no interior norte de Portugal, acorrem a estas comunidades várias pessoas que dela são originárias, mas que habitualmente vivem noutros pontos do país e do estrangeiro, principalmente, em França.
A investigação teve em conta o cumprimento de princípios éticos, especialmente a autorização dos participantes para a recolha e tratamento de dados de forma anónima, em conformidade com as boas práticas científicas. A entrevista ocorreu em formato de mesa-redonda, o que favoreceu uma discussão inclusiva e interativa. Os entrevistados compartilharam as suas “informações intensivas centradas num indivíduo ou pequeno grupo que sem limites de tempo ou com ampla liberdade, expõe os seus pontos de vista” (Sousa & Baptista, 2000, p. 81). Apesar de alguns entrevistados se terem mostrado mais participativos, observou-se uma convergência ou concordância em relação aos argumentos e às informações discutidas. Durante as entrevistas, os diálogos discorreram em torno de três tópicos gerais: os toques e funções comunicativas dos sinos, o seu papel e importância na vida comunitária e as particularidades das pessoas que davam voz aos sinos.
Tal como defende Ritchie (1994/2003), a riqueza das experiências humanas e a diversidade das asserções que emergem das entrevistas orais proporcionam uma oportunidade única para compreender a complexidade da vida comunitária. Este estudo pretende também ser uma voz de cidadania e responsabilidade na valorização e preservação da diversidade cultural, contribuindo para que a identidade e ancestralidade das práticas do Nordeste Trasmontano não se desvaneçam por entre a espuma dos dias e da memória.
3. As Vozes dos Sinos no Nordeste Trasmontano
A aldeia de Avelanoso é uma povoação fronteiriça que dista sete quilómetros da vila espanhola de Alcañices e 14 da sede de concelho, Vimioso. A primeira referência documentada ocorre em 1258 nas Inquirições de D. Afonso III, tendo sido povoada e despovoada ao longo dos séculos devido à instabilidade nas regiões de fronteira que conduzia à fuga das populações, pelo que a sua população ter-se-á fixado em definitivo no século XVI (Capela et al., 2007). Avelanoso fez parte do território das Terras de Miranda até ao século XX, o que explica não só a origem do nome da freguesia, mas também o facto de ser um espaço com características sociolinguísticas peculiares, no qual o mirandês, outrora usado na aldeia, deixou marcas ainda identificáveis nos topónimos e nas reproduções linguísticas das suas gentes (Ferreira, 2001; Meirinhos, 2014; Pires, 2022; Vasconcellos, 1900).
A atual Igreja Paroquial de Avelanoso ou Igreja de São Pedro foi concluída em 1739 possuindo uma torre sineira com dois sinos em bronze, pesando entre 300 e 500kg, suspensos por uma armação de madeira e aço. Produzem som quando percutidos na base inferior por um badalo de ferro suspenso no seu interior e ligado a uma corda de sisal que o sineiro aciona. Os atuais sinos já não são os originais e têm como ornamentos ou inscrições unicamente a indicação da fundição e o ano de fabrico. Ambos foram produzidos na Fundição de Sinos de Braga, Serafim da Silva Jerónimo, em 1964 e 2007. Segundo a informação disponível no sítio eletrónico, os sinos que se produzem na referida fundição são compostos por 78% de cobre e 22% de estanho (Jerónimo - A Fundição de Sinos de Braga, s. d.). Os sinos da Igreja Paroquial de Avelanoso não foram automatizados, embora a igreja possua desde os anos 1980 um relógio ligado a altifalantes que assinala cada hora certa, as meias horas e os quartos de hora.
Segundo o contacto com os participantes, com idades compreendidas entre 71 e 82 anos, portanto nascidos nas décadas de 1940 e 1950, identificaram-se 10 tipos de toques dos sinos para diversas finalidades e em variadas partes do dia. Neste estudo, a referência temporal, situa-se entre o final da década de 1950 e o início da década de 1970. De seguida, enumeram-se os tipos de toque destacando-se as declarações mais expressivas ou ilustrativas dos entrevistados.
3.1. Toque das Avé-Marias e das Trindades
Aos primeiros alvores do dia (Avé-Marias) e quando entrava a noite (Trindades), tinha o objetivo de sinalizar o início e o fim do dia, regulando uma ordem cósmica que não tinha correspondência direta com a atual exatidão dos ponteiros do relógio ou precisão do tempo cronometrado, mas com os propósitos dos elementos da natureza que ditavam um novo dia ou uma nova noite. Na ausência do relógio mecânico, o tempo era medido pelo movimento do sol. O toque das Trindades constituía uma chamada não como a sirene da fábrica ou a campainha das escolas, mas uma invocação feita de naturais imprecisões e abrangência comunitária. A obrigação de tocar às Trindades era delegada no “mordomo das almas”, de nomeação anual pelo padre da aldeia, de preferência residente mais próximo da igreja, tendo a função de cumprir os toques e de tratar dos altares das almas na igreja, locais onde estão expostas figuras de santos. Segundo os entrevistados, eram dadas “sete ou oito badaladas” espaçadas por algum tempo, “cerca de cinco segundos”.
Tanto as Avé-Marias como as Trindades tinham exatamente o mesmo toque ou sonoridade, assim como o toque do meio-dia que, recordam os participantes, era comum “mais ou menos entre o equinócio da primavera e o do outono” (António, entrevista pessoal, 10 de agosto, 2024) em que os dias eram maiores e fazia falta para marcar o tempo antes da difusão dos relógios de pulso, porque as pessoas muitas vezes “estavam absorvidas nos trabalhos do campo e não reparavam ou perdiam a noção do tempo” (José, entrevista pessoal, 10 de agosto, 2024). É referido também que nos tempos das segadas dos cereais, sobretudo trigo e centeio, que era um dos trabalhos mais importantes da lavoura, o toque do meio-dia servia de referência para as mulheres levarem o almoço aos trabalhadores.
O toque ao anoitecer (ou “à boca-noite”) marcava, para os menores de idade, a obrigatoriedade de estar em casa ao som da última badalada. Assim que se ouviam os sinos, dizia-se “estão a tocar às Trindades” e começava uma correria buliçosa de crianças em direção a casa como num autêntico toque a recolher. É referido também que de manhã era usado o sino da direita (com um som mais alto e estridente) enquanto à noite era tocado o sino da esquerda (denominado “bordão”) com um som mais baixo e grave. O toque das Trindades é um dos toques mais rememorados pelos participantes como marcador de um quotidiano pretérito que musicava a medida dos seus dias de infância.
3.2. Toque para a Missa do Dia
O toque nos dias em que o padre celebrava missa por obrigação de fiéis defuntos, ou por outros motivos, também era um dos mais comuns. Os entrevistados contam que se davam entre 12 a 15 badaladas seguidas, com o sino da direita, para “chamar à missa”. Assim que o padre entrava na igreja tocavam-se cinco badaladas e dizia-se “já deram as cinco”, significando que a missa estava prestes a iniciar-se; quando o padre tomava posição no altar repetiam-se mais três badaladas dando-se então início à cerimónia religiosa. Na “missa domingueira”, como nos outros dias, este toque era anunciador das cerimónias religiosas, convocando as pessoas para a igreja.
Através do toque do sino, a comunidade é lembrada da importância dos rituais na vida coletiva. Cada badalada carrega um peso emocional, evocando sentimentos de esperança, reflexão e até de saudade, especialmente quando a missa é celebrada em memória de fiéis defuntos. Os participantes reúnem-se não apenas para assistir à cerimónia, mas para vivenciar um espaço de comunhão e espiritualidade, reforçando os laços comunitários e a continuidade das tradições religiosas.
3.3. Toque para a Catequese
Ocorria de tarde depois da saída da escola e durante o período letivo, desde a primavera - “por volta de março quando começava a fazer melhor tempo” (Manuel, entrevista pessoal, 10 de agosto, 2024) - até ao fim do ano escolar. Este toque ocorria depois da escola, pelas “três ou quatro da tarde” e era composto por uma dúzia de badaladas consecutivas.
O toque para a catequese simbolizava a convocação dos jovens para a aprendizagem religiosa. A igreja apresentava-se como um centro ou espaço nuclear onde as crianças eram doutrinadas sem que houvesse questionamento ou oposição. A vivência ou aceitação quotidiana da religiosidade cristã era indiscutível num tempo em que a comunidade tinha carências socioeconómicas profundas, mas sobejava alimento espiritual fornecido pelos clérigos. Embora existam diversos registos de usos indevidos do toque dos sinos desde tempos remotos, referidos, por exemplo, no estudo de Sebastian (2008), os participantes deste estudo não recordam nenhuma situação dessa natureza. Os valores e ensinamentos da fé eram transmitidos de geração em geração, reforçando a importância da educação religiosa na formação integral dos indivíduos.
3.4. Toque para o Terço
Acontecia nos meses de maio e outubro, em particular, ao por do sol, sendo composto por uma dúzia de badaladas com o sino da direita. A reza do terço estaria ligada ao culto mariano e às cerimónias do Rosário de Fátima no decorrer destes meses, assinalando as aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria, embora não haja certezas sobre o seu propósito: “os calendários eram ditados pelo padre da paróquia e o povo obedecia como podia. O importante era ser-se temente a Deus” (António, entrevista pessoal, 10 de agosto, 2024). De qualquer modo, apesar da religiosidade vivida de forma incontestável, a reunião para o terço era um momento que evocava, sobretudo, a devoção e a espiritualidade das mulheres da comunidade. O sino convocava as mulheres para se reunirem num ritual de oração que era também um espaço de partilha, reflexão e fortalecimento das interações femininas. Este ritual era marcado por um “ambiente de serenidade” (Manuel, entrevista pessoal, 10 de agosto, 2024) onde as mulheres se reuniam para rezar e para se apoiar mutuamente nas suas jornadas espirituais e pessoais. O terço, com as suas repetições e introspeções, oferecia um tempo para o recolhimento por entre os afazeres da vida quotidiana. Assim, o toque do sino para o terço era uma convocatória para a convergência e solidariedade feminina, fortalecendo a identidade religiosa e comunitária.
3.5. Toque das Almas
Sucedia na época no advento, no mês de dezembro, em que as pessoas rezavam para a chegada de Cristo como preparação para o Natal, orando-se também por aqueles que já tinham partido. Este toque era composto por três badaladas dadas com ambos os sinos. As pessoas não se dirigiam à igreja, mas deveriam rezar no seio das suas casas, cuidando da união espiritual e da necessidade de preparação para a celebração do Natal.
Segundo os entrevistados, o toque das almas marcava, por norma, o fim dos serões, ou seja, depois do toque das almas as pessoas reunidas ao serão iam para as suas casas. Recorde-se que não havia luz elétrica, o tempo era marcado pela luz solar, pelo que no inverno anoitecia cedo, as pessoas jantavam e depois juntavam-se para “asserenar”. Normalmente, iam para casa dos avós, tios ou outros familiares, mas também de vizinhos ou outras pessoas mais próximas. Os indivíduos ou famílias de menos recursos juntavam-se em casa dos mais remediados, tanto para sociabilização, quanto por uma questão de economia, para as famílias não estarem a “queimar lenha” (Maria, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024) em diferentes casas numa altura em que escasseavam recursos. O toque das almas acontecia pelas 21h00 ou 22h00, antes das pessoas irem dormir, e suscitava reflexão em torno das almas finadas preparando as almas viventes para a celebração do Natal. Esta sonoridade está associada a memórias que destacam a importância da união em tempos de escassez, evidenciando a solidariedade como aspeto fundamental na vivência coletiva da comunidade.
3.6. Toque a Conselho
Ocorria no início da manhã, para reunião dos homens no centro da aldeia, bem como respetivos animais e veículos de tração animal, previamente escalados para trabalhos comunitários. O toque era igual ao da missa, embora sem as séries finais de cinco e de três badaladas. Estes trabalhos comunitários poderiam ser o arranjo de ruas, muros, pontes, pontões, açudes, limpeza dos caminhos e fontes de água, etc. As funções dependiam das necessidades que a aldeia tinha: por exemplo, se um temporal obstruísse um caminho ou derrubasse uma parede era preciso consertar essa situação. Alguns entrevistados recordam que a primeira rede de água canalizada de abastecimento ao tanque público da aldeia ainda foi executada em regime de conselho, na década de 1960. No adro da igreja, depois da missa de domingo, o conselho da aldeia estabelecido pelo regedor (equivalente ao atual presidente da junta de freguesia) comunicava as tarefas de que a aldeia precisava. Note-se que uma grande parte das pessoas não sabia ler, pelo que as mensagens tinham de ser transmitidas oralmente. Os participantes sublinham que até há poucos anos os presidentes da junta praticavam o hábito de comunicar mensagens importantes no adro da igreja, e que, esporadicamente, ainda hoje se fazem essas comunicações. O toque a conselho fortalecia a importância da colaboração e do diálogo na vida da aldeia, promovendo um sentido de comprometimento e responsabilidade compartilhada entre os habitantes.
3.7. Toque a Rebate
Ambos os sinos badalavam freneticamente durante o tempo considerado necessário até não ficarem dúvidas de que a mensagem era passada, indicando um estado de perigo ou emergência. Por norma, ocorria em casos de incêndios com proporções a requerer a ajuda de toda a população. O local de concentração era no centro da aldeia “junto ao tanque” ou chafariz. Não existiam bombeiros, tampouco meios de comunicação telefónicos ou rodoviários motorizados, de modo que nessas situações “toda a ajuda era pouca” (Carlos, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). Os participantes recordam sobretudo incêndios que se aproximavam da área habitacional da aldeia, além de uma situação em que se tocou a rebate em defesa do interesse comum para rejeitar o processo de florestação, ou seja, a conversão de área agrícola em floresta de pinheiros, em meados da década de 1960. As pessoas juntaram-se, insurgindo-se contra um conjunto de técnicos e operários do Ministério da Agricultura que tinham ido explicar um projeto de florestação que não chegou a concretizar-se, quiçá devido a essa resistência ou rebate da população.
O toque a rebate, além de ser um sinal de alerta, transformava o centro da aldeia num ponto de convergência e solidariedade. A prática de mobilização comunitária representava um senso de responsabilidade coletiva e de bem-estar comum. Em momentos de crise, a comunidade unia-se na luta contra adversidades. A voz dos sinos era uma voz de convergência e sentido coletivo.
3.8. Toque a Finados
Ocorria quando alguém residente na aldeia ou residindo fora falecia, a pedido dos familiares logo após terem conhecimento do óbito. Também era tocado durante os funerais, no dia de Todos os Santos e na Quinta-Feira Santa, a meio da tarde, para anunciar a morte de Cristo, deixando os sinos de tocar até ao Domingo de Páscoa, quando voltavam a soar para anunciar a ressurreição do Senhor. Durante o Tríduo Pascal, desaconselhavam-se igualmente matrimónios ou batismos. Ao contrário de um toque de chamamento, de badaladas consecutivas, o toque a finados era um sinal inequívoco de morte e lugubridade em que o sino da esquerda, ou bordão, dava uma badalada seca, espaçada, seguida de duas em uníssono em ambos os sinos, repetindo-se o processo uma dúzia de vezes. Os participantes comentam que este toque era tão marcante e “arrepiante” que mesmo uma pessoa não familiarizada com o dialeto local dos sinos identificaria um registo fúnebre. O toque a finados, com a sua cadência intensa e dolorosa, era uma forma de honrar a memória dos que partiam, criando um ambiente lúgubre de luto e introspeção (Paula, 2017).
Os entrevistados referem que este era também conhecido como toque de “encordar”, dizia-se popularmente “estão a encordar” ou “encordam”. Um dos entrevistados questiona retoricamente “virá este termo das cordas que descem o caixão à cova?” (António, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). É pertinente verificar que o vocábulo “encordar” parece não constar dos dicionários de língua portuguesa, mas está presente no Diccionario de la Lengua Española com o sinónimo geral de “pôr cordas” e com a indicação de que é um vocábulo próprio das cidades de León, Palencia, Salamanca, Valladolid y Zamora - dicho de una campana: tocar a muerto (Diccionario de la Lengua Española, s. d.). As cidades referidas fazem parte da província de Castela e Leão, no noroeste espanhol, contíguas ao nordeste português. Esta particularidade é também reveladora da singularidade sociolinguística dos falares da aldeia de Avelanoso.
3.9. Toque de Tende Anubrado para Casa de Santiago
Acontecia quando se apresentavam nuvens baixas, espessas e ameaçadoras, anunciado trovoadas devastadoras, sobretudo, alturas em que as trombas de água eram indesejadas como na época das segadas em “fins de junho, inícios de julho” (Carlos, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). As pessoas tinham muito receio dos “varejos” (ventos fortes, repentinos e remoinhados) porque podiam destruir as espigas e deitar o grão por terra, arruinando um ano de cultivo e um dos principais sustentos das suas gentes: “as pessoas tinham muito medo de que se lhes estragasse o centeio. Era aflitivo porque às vezes andava-se a segar e ficavam os sucos cheios de grão, o trabalho de um ano inteiro que se perdia, era a sensação de que ia faltar o pão” (Carlos, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). Além da dimensão prática, os sinos possuíam uma vertente profilática e apotropaica como instrumentos capazes de afastar forças malignas e proteger contra desastres. O som do sino, ao ecoar no ar pesado antes da tempestade, funcionava como um ritual de invocação, buscando a proteção divina para as colheitas. As crenças e as práticas populares estavam interligadas com as superstições e o toque dos sinos servia de alerta, mas também dava amparo espiritual.
O “toque de tende anubrado” não era apenas um aviso sobre o tempo, mas um símbolo da resistência e da fé dos povos, um testemunho da luta diária contra as incertezas da natureza e da busca constante por proteção e prosperidade. Uma sonoridade que retumbava o sagrado e profano, a ciência e a superstição, o medo e a esperança.
Este toque é mais difícil de elucidar por palavras: tocavam-se ambos os sinos de uma forma imperativa formando uma melodia ritmada que parecia dizer “tende anubrado para casa de Santiago”. Era esta a frase, uma espécie de mantra, que as pessoas repetiam durante este toque dos sinos. É considerado um toque diferente, “com uma cadência própria como se fosse para dispersar as gotículas de água” (Carlos, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). Por alguma razão de índole física, sugestiva ou supersticiosa afirmam que “resultava muitas vezes” (José, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024), dispersando as nuvens indesejadas.
Atente-se também que Avelanoso fez, no passado, parte das denominadas Terras de Miranda e que é hoje uma aldeia limítrofe do território geográfico da língua mirandesa com bastantes similaridades culturais e sociolinguísticas. Por exemplo, o vocábulo “anubrado” faz parte do mirandês e não do português, correspondendo a um caso de rotacismo (substituição do som [l] por [r]) muito próprio da língua mirandesa (Ferreira, 2001; Pires, 2022).
Não se descortina o motivo da referência a Santiago, uma vez que é mais comum associar Santa Bárbara à proteção contra as tempestades; talvez a expressão tenha uma origem onomatopeica motivada pelo som do sino. No entanto, foi encontrada uma referência a este toque específico retirada de uma crónica da “Fuolha Mirandesa” (uma secção do semanário Jornal do Nordeste, de Bragança) que relata em língua mirandesa as vivências de um dia de segada nas terras de Miranda. O excerto que aqui apresentamos refere-se ao bulício que o prenúncio de tempestade causava quando decorriam os trabalhos nas eiras de retirar o grão:
são desse tempo outras memórias um tanto ou quanto únicas: o alvoroço do povo quando nuvens escuras apareciam no céu anunciando temporal de verão. “Todos às eiras”, vozes fortes que acorriam ao lugar, os sinos tocando o “Tende anubrado”, e, como sempre, lá estavam as mulheres para acudir às custosas situações da vida. A limpeza da parva era o fim da colheita e do ciclo do trigo, em grão, agora ensacado, sendo por vias disso, um dia de festa na ruralidade daquelas casas de campo. (Esteves, 2023, p. 21)
Contrariamente ao objetivo de afastar as nuvens, também se tocava para as novenas, rezas dirigidas pelo padre, em que se rogava a São Pedro para pedir chuva em períodos de seca extrema, “normalmente em abril ou maio” para as plantas crescerem saudavelmente. Consistiam em nove dias de orações, com rogos a santos e santidades, sendo realizadas dentro da igreja, mas também fora, pois “às vezes saía-se da igreja e ia-se às searas para continuar as orações” (Maria, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024), a fim de que se intercedesse pela vinda de chuva naqueles locais.
Os entrevistados recordam que em algumas situações também se convocavam orações, “uma espécie de novenas” (Maria, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024), para parar de chover, sobretudo no inverno, porque as aldeias ficavam com imensa lama e as pessoas, os animais e os carros de bois enterravam-se nos caminhos. Às vezes tinham que se juntar vários homens para desenterrar os animais que ficavam presos na lama. A aldeia não era pavimentada, o calçado não era o mais apropriado e muitos dias seguidos de chuva tornavam as ruas quase impossíveis de circular.
3.10. Repicar ou Repiquete
Este era o toque mais efusivo e entusiástico reservado para ocasiões festivas como as procissões, batizados, crismas, primeiras comunhões e demais dias de festa. Também ocorria à meia-noite de sábado de aleluia a anunciar a ressurreição de Cristo após o silêncio do Tríduo Pascal, o único período do calendário litúrgico em que se suprime de um modo generalizado o tanger dos sinos. No sentido metafórico quando alguém faz um ato destacável ainda se pode dizer localmente “merece um repiquete” no sentido de “merece uma salva de palmas”. Este era um toque de maior complexidade e beleza sonora pelo que eram poucos os repicadores que dominavam a arte de bem repicar, extraindo as sonoridades mais melodiosas na combinação dos dois sinos. Os entrevistados referem que havia uma melodia chamada “molinera”, que lembrava o som desta palavra (molinera, molinera, molinera) e que muito poucos a sabiam executar. A referência a este repiquete denominado “molinera” também ocorre nas contíguas terras de Zamora (Llop i Bayo & Álvaro, 1990) e demais comunidades da província espanhola de Castela e Leão, existindo vários vídeos na internet, como o de Parroquia Peque (2020), que demonstram a execução deste repiquete do lado espanhol.
A prática de repicar os sinos, com a sua complexidade sonora, era sinónimo de celebração comunitária. A “molinera” ainda se pode ouvir nas procissões dos dias de festas, embora, afirmam, “já ninguém a saiba executar tão bem” (António, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024).
Além destes dez tipos de toque descritos, os sinos das outras aldeias também se podiam ouvir em algumas circunstâncias, dando a conhecer informações ou sinais meteorológicos. Quando se ouviam os sinos das aldeias circundantes, indicavam um determinado estado de tempo que era reconhecido. Por exemplo, quando se andava no termo (área da aldeia que circundava o núcleo habitacional), podiam ouvir-se os sinos de outras povoações vizinhas: quando se ouviam os sinos da aldeia de Serapicos era sinal de chuva porque quase toda a chuva que cai em Avelanoso é “trazida pelos ventos de sudoeste” (João, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). Se por seu turno se ouvissem os sinos de Alcañices, era sinónimo dos inóspitos “ventos de Burgos” (cidade situada perto da cordilheira cantábrica), ou seja, ventos fortes, gelados e secos que traziam a “neve cisqueira” no inverno (uma neve muito fininha) e que na primavera queimava as plantas com a geada. Quando se andava no termo e se ouviam os sinos de Vilariño Tras la Sierra, outra localidade espanhola, normalmente era sinónimo de trovoadas de final de verão.
As vozes dos sinos funcionavam como um sistema de comunicação e informação em discurso direto, mas também indireto, divulgando conhecimentos em interação com os vários elementos da natureza. Esta sabedoria e simbiose comunitária declina hoje em dia fruto da desertificação humana dos espaços do interior português. Já são parcos os ouvidos capazes de ler ou perscrutar as diversas vozes dos sinos e ainda menos as mãos que os saibam pôr a falar.
4. As Mãos que Faziam os Sinos Falar
Esta parte do estudo dedica-se aos homens e mulheres que tinham o labor e a arte de fazer as vozes dos sinos falarem, bem como a algumas particularidades relacionadas com alguns tipos de toques dos sinos. Relativamente aos toques de “Avé-Maria” e de “Trindades” - que assinalavam o início e o fim do dia, respetivamente, e que, segundo os entrevistados, tinham exatamente o mesmo toque ou sonoridade - revela-se que normalmente eram nomeados homens para a referida função de “guardião das almas”, não por motivos de discriminação de género, mas porque entrar numa igreja escura à noite requeria uma grande dose de coragem que nem toda a gente possuía. Lembre-se que não havia luz elétrica, era necessário entrar na igreja, aceder às escadas do campanário e subir à torre no meio do completo breu, entrecortado apenas pelo brilho ténue e mortiço de um lampadário de pavio muito fino continuamente situado no centro da igreja ou pela candeia de azeite que às vezes o tocador transportava.
Nas entrevistas comenta-se que, além da torre sineira estar defronte do cemitério, a entrada na igreja à noite não era para todas as almas. Os informantes relembram que “antes do 25 de abril as missas eram sinistras” (António, entrevista pessoal, 10 de agosto, 2024), com os padres sempre a atemorizarem com o terror dos pecados e as trevas do inferno. Nesse tempo era comum irem pelas aldeias os “pregadores” (padres mandados pelo bispo de Bragança que percorriam as aldeias) e que tinham uma retórica que aterrorizava as pessoas, pondo-as a chorar com as suas narrações lúgubres e ameaçadoras. Até se dizia que “o pregador que não põe o povo a chorar não é bom pregador” (António, entrevista pessoal, 10 de agosto, 2024). As missas eram ditas em latim, e só após o Concílio Vaticano II (1962-1965) é que se permitiu que a missa fosse nos idiomas vernáculos, mas na prática “muitos padres eram contra essa medida” pelo que a sua aplicação prática neste meio se deu uns anos mais tarde. Devido a essa visão sombria de “temor a Deus” que os padres tenebrosamente apregoavam nas cerimónias religiosas, após cair a noite, a igreja - paredes meias com o cemitério - era um espaço tétrico ao qual muitas pessoas recusavam aceder.
Ao raiar do dia havia mais flexibilidade, porque, além dos mordomos das almas, era corrente as respetivas esposas tocarem às Trindades. É descrito que a missão de tocar aos sinos era atribuída sempre aos homens, mas que havia alguns que por estarem mais ocupados com outros afazeres ou, pelo contrário, por serem menos lestos ou ativos, delegavam a tarefa nas respetivas esposas. Se a literatura nos diz que por questões apotropaicas, para afastar o mal, as mulheres estavam vedadas de tocar os sinos (Almeida, 1966; Felícia, 2019, Sebastian, 2008), até onde esta investigação pôde apurar, tal intransigência não acontecia na aldeia de Avelanoso. Havia, inclusive, mulheres que tocavam para a missa de domingo. Normalmente era a irmã do padre - que na época vivia na povoação e tinha à sua responsabilidade apenas duas aldeias - que desempenhava esta tarefa, mas também outras mulheres mais dadas à devoção e ao entorno da igreja. A condição feminina era marcada por um papel fundamental, embora frequentemente subalterno, nas práticas religiosas e comunitárias. As mulheres eram responsáveis por manter viva a tradição de tocar as Trindades, servindo como ponte entre a espiritualidade e o quotidiano dos fiéis. Esse envolvimento refletia a devoção das mulheres, mas também a influência dentro de uma comunidade onde se seguiam com severidade e anuência os preceitos cristãos.
O toque mais apreciado, e para o qual havia mais mãos a competir, era o repiquete. Não havia uma escola de repicadores, “aprendia-se naturalmente como se aprendiam as outras coisas” (José, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024), de forma autónoma e por ver os outros fazer, tal como os labores do campo. Nessas aprendizagens autónomas, havia sempre pessoas que de destacavam pela sua habilidade para melhor repicar. São referidos alguns nomes de famosos repicadores locais desses tempos antigos como “o tio António Correio, o tio Pedreiro, tio Facilas (o que fazia melhor a “molinera”) ou o tio Zé Rabiola” (Francisco, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). As pessoas reconheciam o repicador pela sonoridade dos sinos, pois cada um tinha a sua forma de tocar os sinos. Nas procissões era comum ir mais do que um repicador para o campanário porque eram necessários dois ou três homens revezarem-se, dado que as procissões eram muito longas nessa época porque vivia muito mais gente na aldeia e os habitantes faziam questão que passasse pelas suas casas. Às vezes fazia-se o repiquete na missa de domingo e quando acabava a missa havia outro repiquete que era sinal de casamento ou batizado porque antigamente havia muitas crianças na aldeia. O ato de repicar normalmente envolvia mais do que uma pessoa a subir ao sino para tocar ou até para aprender a arte.
O repicador mais destacado do povo era António Galhardo, da faixa etária dos entrevistados, famoso pela sua enérgica “molinera” à qual “fazia variações em que além do repique com as duas cordas, alternava com badaladas fortes que eram uma espécie de refrão” (Francisco, entrevista pessoal, 11 de agosto, 2024). Devido a essas variações, a sua “molinera” não se tornava monótona com o passar do tempo. Descreve-se que este repicador não fazia pausas na sua melodia, mas inseria as badaladas mais fortes no meio do repicar contínuo da “molinera”, introduzindo variações que produziam uma sonoridade que ninguém conseguia igualar. Este repicador, pela originalidade do seu tocar, era inclusivamente convidado para ir a outras aldeias repicar em dias festivos como São Martinho de Angueira e, sobretudo nas festas de Nossa Senhora do Naso, aldeia de Póvoa (ou Pruoba), a maior romaria do planalto mirandês. É com algum lamento que se refere que este repicador não tem posto a sua arte em prática para dar voz aos sinos e não transmitiu os seus conhecimentos sineiros (ou ninguém os quis aprender) pelo que atualmente já ninguém sobressai como repicador. A transmissão de conhecimento seria para a execução de uma prática que (esporadicamente) ainda ocorre, anualmente em agosto, nas procissões inseridas no programa de festas dos emigrantes. A desertificação humana do interior, o afastamento em relação aos valores e imposições cristãs e o desenvolvimento de soluções automatizadas de toque dos sinos conduzem ao desuso destas formas de comunicação, que outrora uniam as pessoas e estruturavam a vida comunitária, tornando também a figura do repicador cada vez mais rara e esquecida.
A sonoridade ressoante dos sinos era uma parte intrínseca da paisagem sonora de muitas aldeias portuguesas, especialmente nas regiões rurais, onde as práticas e tradições orais eram frequentemente as únicas formas de transmissão de conhecimento e cultura (Correia, 2005/2012). A perda destas competências é um lamento que esconde um apelo à revitalização dos sons que ainda podem ressoar nestas comunidades.
5. Conclusão
Atualmente os sinos de Avelanoso assinalam as horas por programação automática de acordo com o relógio da torre da igreja. O ponteiro das horas ativa um mecanismo que, por sua vez, aciona a corda que está presa ao badalo e este vai percutir o sino de acordo com o temporizador. Hoje os sinos falam desta forma impessoal, monótona e inexpressiva sem os propósitos ou emoções de outrora. Apenas a espaços são acordados do seu entorpecimento por mãos já desgastadas para aludirem às envelhecidas missas de domingo ou aos dias dedicados a festas de emigrantes. Já nem a finados se toca para honrar quem partiu deste mundo. Os sinos já não dobram por ninguém.
O toque dos sinos constitui um património imaterial e cultural em desvanecimento que requer estudo e preservação, à imagem do que tem acontecido do outro lado do Atlântico com iniciativas que envolvem a memória e as novas tecnologias digitais (Lemos & Gosciola, 2022; Silveira, 2018).
Numa era marcada pela tecnologia e pela facilidade de aceder a informação, é paradoxal que muitos aspetos do património relacionado com o quotidiano português das últimas décadas estejam em risco de desaparecer sob o nosso impassivo olhar. Num tempo de assimilações, aculturações e referências socioculturais globalizadas e amalgamadas urge não deixar esvaecer os elementos que compõem a identidade das nossas comunidades e das pessoas que lhes dão corpo. O estudo destas experiências fornece uma oportunidade de redimensionar a forma como vemos e entendemos os conceitos de envelhecimento e interioridade, combatendo o peso da periferia e da exclusão, e promovendo um reconhecimento mais profundo do seu valor intrínseco dentro da diversidade cultural do país.









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