Introdução
A enurese noturna (EN) é definida como a perda intermitente e involuntária de urina durante a noite em crianças após os cinco anos, na ausência de defeitos congénitos ou adquiridos do sistema nervoso central.
Pode ser classificada como EN primária na criança que nunca apresentou um período seco prolongado, ou EN secundária quando existiu controlo vesical noturno durante pelo menos seis meses.1 Pode ainda classificar-se como monossintomática (80% a 85% dos casos), quando não está associada a sintomas diurnos do trato urinário inferior, sendo geralmente uma situação benigna e transitória; como não monossintomática, quando há sintomas do trato urinário inferior (LUTS), como o aumento ou a diminuição da frequência das micções, urgência miccional, incontinência urinária diurna, disúria, esforço para iniciar a micção, alterações do jato urinário, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga.2
A prevalência da EN é superior a 10% nas crianças de 6 anos, afetando 5% das crianças de 10 anos e 0,5%-1% dos adolescentes e adultos jovens.3 Apresenta uma resolução espontânea de cerca de 15% por ano, estimando-se que, aos 15 anos de idade, a percentagem de enuréticos é de apenas 1%-2%. Em Portugal, encontraram-se prevalências de EN de 15,6% (21,1% no sexo masculino e 10,3% no sexo feminino) num estudo que envolveu 862 crianças do ensino primário4 e de 6,1% noutro estudo com 564 crianças do primeiro ciclo.5 Ferrara et al estimaram uma prevalência de EN em Itália em crianças entre os 5 e os 14 anos de 7,2%.6
Em Espanha, entre os 6 e os 13 anos, foi estimada uma prevalência de EN de 2,82%, (de acordo com os critérios Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) - IV - TR/5) e de 3,7% (recorrendo aos critérios DSM-III e International Classification of Diseases (ICD) - 10).7 Na China, foi estimada uma prevalência de 3,99% entre os 5 e os 12 anos, iniciando com 7,66% aos 5 anos e reduzindo para 2,51% aos 12 anos.8
A etiologia é multifatorial. Entre os fatores implicados, destaca-se a poliúria noturna associada a uma menor capacidade vesical funcional, numa criança incapaz de acordar quando os dois primeiros fatores acontecem.2) Sabe-se que o sexo da criança e a história familiar assumem também um importante papel, dado que é duas vezes mais frequente no sexo masculino e o risco de vir a desenvolver EN é de aproximadamente 75% se ambos os pais foram enuréticos e de 45% quando apenas um dos pais foi enurético.2
A EN tem um impacto social e psicológico elevado, quer para a criança, quer para a sua família.9 Dada a sua prevalência em Portugal, é expectável que os médicos de família e pediatras, lidem com a patologia regularmente. Deste modo, é importante avaliar a presença desta patologia nas consultas de saúde infantil e juvenil e compreender o seu impacto na qualidade de vida (QdV) das crianças e das suas famílias de forma a programar uma abordagem terapêutica adequada.
Sendo uma patologia tão prevalente, e uma vez que o último estudo realizado no nosso país nesta população pediátrica tinha sido realizado há já mais de 15 anos, pretendemos rever novamente esta temática. Como sabemos, quer nacional quer mundialmente, temos assistido a várias transformações no que diz respeito ao desenvolvimento das crianças, sendo que este tema da enurese noturna, como demonstrado em trabalhos passados, assume uma primordial importância para as mesmas (e suas famílias).
Assim sendo, com este trabalho, pretende-se: estimar a prevalência da EN, em crianças em idade escolar, acompanhadas na consulta de saúde infantil e juvenil, nos cuidados de saúde primários em quatro unidades de saúde do grande Porto; caracterizar as crianças com EN, com sintomas do trato urinário baixo, com incontinência diurna e com comorbilidades; avaliar o impacto do diagnóstico de EN na QdV.
Material e métodos
Pareceres
O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para a Saúde da Administração Regional de Saúde do Norte a 12/11/2021.
Contexto e população do estudo
Foi realizado um estudo transversal e descritivo que incluiu crianças de idade escolar, dos cinco aos nove anos, inscritas em quatro unidades de saúde familiar (USF) pertencentes à região norte, USF Lindo Vale, USF Covelo, USF Alto da Maia e USF Bom Porto, que compareceram em consultas programadas de saúde infantil e juvenil. A população estudada foi selecionada oportunisticamente. Definiram-se como critérios de exclusão pais ou tutores que não aceitaram participar no estudo, crianças com anomalias do trato urinário conhecidas, com bexiga neurogénica ou com problemas neurológicos ou cognitivos com impedimento do controle de esfíncteres.
Desenho do estudo
Foi elaborado um questionário (Anexo 1) pelos investigadores com o intuito de cumprir os seguintes objetivos: determinar a associação entre EN e o sexo da criança, inquirir antecedentes familiares de EN, sintomas do trato urinário inferior (LUTS) e perdas urinárias diurnas; estimar a frequência de eventos semanais em função da idade e da gravidade da EN; determinar associação entre a EN e obstipação, roncopatia, perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA); avaliar o impacto da EN na QdV.Para a elaboração do questionário, utilizou-se como fonte, o questionário adaptado do artigo Bandeira A et al.9 Para estruturar a avaliação das variáveis sociodemográficas, das comorbilidades e do impacto da EN na QdV das crianças, foi utilizado o questionário de incontinência pediátrica (PinQ) adaptado,10 traduzido e validado para língua portuguesa. Em crianças que não sabiam ler, as questões foram lidas pelos seus pais, e respondidas pelas crianças. Este instrumento contém 20 perguntas de escolha múltipla, com cinco opções de resposta: não = 0; raramente =1; às vezes =2; muitas vezes = 3; sempre = 4. Esta ferramenta subdivide-se em cinco subescalas definidas como relações sociais, autoestima, relações familiares, independência e saúde mental, tendo pontuação máxima de 80 pontos - quanto mais elevado for o somatório total, maior o impacto na QdV.
Na Tabela 1, estão disponíveis os critérios de resposta considerados para a definição de presença de EN, de pernas urinárias diurnas, de obstipação, LUTS, PHDA e roncopatia.
Tabela 1: Definição de conceitos de acordo com as respostas obtidas ao questionário
| Conceitos | Definição - critérios de resposta |
|---|---|
| EN | Considera-se que a criança tem EN se respondeu à pergunta 20 - “Molho a cama à noite”:
|
| Perdas diurnas | Consideram-se “perdas diurnas” as respostas: à pergunta 12 - “Durante o dia molho com chichi a minha roupa interior”: à pergunta 13 - “Quando molho com chichi a minha roupa interior ela fica”:
|
| Obstipação | Considerou-se que a criança era obstipada se assinalou: na pergunta 22 - “O meu intestino funciona (faço cocó)”: na pergunta 23 “O meu cocó é duro”:
|
| LUTS | Definiu-se como presença de LUTS, responder: à pergunta 14: “Num dia normal vou à casa de banho para fazer chichi”: à pergunta 15: “Quando tenho vontade de fazer chichi, tenho que correr logo para a casa de banho”: à pergunta 16: “Aguento o chichi ficando sentado ou cruzando as pernas”: à pergunta 17: “Dói quando faço chichi”: à pergunta 18: “Quando faço chichi, ele sai aos bocadinhos”: à pergunta 19: “Quando faço chichi, tenho de esperar que o chichi saia ou tenho de fazer força para que saia”:
|
| PHDA: | Consideram-se as crianças que assinalaram na pergunta 8, que apresentavam diagnóstico confirmado. |
| Roncopatia: | Responder “sim” à pergunta 9: “O seu filho ressona na maioria das noites?“. |
EN - enurese noturna; LUTS - sintomas do trato urinário inferior.
Colheita dos dados
A colheita de dados decorreu entre maio de 2021 e maio de 2022.
Os questionários foram entregues aos pais das crianças elegíveis para o estudo, após terem preenchido o consentimento informado, tendo sido preenchidos pelos pais durante a consulta médica ou posteriormente.
O preenchimento foi anónimo, ficando assim assegurada a privacidade e confidencialidade das informações recolhidas.
Os dados foram recolhidos num documento Microsoft Office Excel® 2019, encriptado com palavra-passe, acessível exclusivamente ao grupo de investigadores. O documento foi posteriormente convertido para o IBM® Statistical Package for the Social Sciences (SPSS)® Statistics versão 26, 2018, para análise estatística.
Análise estatística
A caracterização da população foi feita pelo cálculo de medidas de tendência central (mediana) e de dispersão (intervalo interquartil) para variáveis quantitativas e pela determinação de frequências absolutas e relativas para variáveis qualitativas.
Recorreu-se à análise bivariada para identificar diferenças entre grupos. Utilizou-se os testes qui-quadrado, teste de Fisher para variáveis qualitativas nominais de acordo com as regras de Cochran. Foi utilizado o teste de Mann-Whitney para variáveis ordinais. Consideraram-se valores de p < 0,05 representativos de diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
Resultados
Caracterização geral da amostra
Das 2250 crianças com idades compreendidas entre os 5 e os 9 anos, inscritas nas USF em estudo, participaram 158, o que corresponde a 7% da população.
Conforme apresentado na Tabela 2, 60,1% das crianças estudadas eram do sexo feminino e a idade mediana era 6 anos (IIQ 5-7). O maior número absoluto de inquéritos obtidos corresponde a crianças com 5 anos (n=60; 37,9%). Do total, 41,7% correspondeu a crianças inscritas na USF Bom Porto, 24% na USF Lindo Vale, 21,5% na USF Alto da Maia e 12,6% na USF Covelo. 39,2% dos inquéritos foram preenchidos pela mãe e 56,3% não responderam a esta questão.
Quando inquiridos sobre a acessibilidade do questionário, 92,4% consideraram que foi fácil ou muito fácil o seu preenchimento. Relativamente ao nível de escolaridade dos pais, 46,2% das mães e 36,7% dos pais tinham frequentado o ensino superior (Tabela 2).
Tabela 2 Caracterização da amostraNR - não respondeu
| n | % | ||
|---|---|---|---|
| Sexo Idade | Feminino | 95 | 60,1 |
| Masculino | 63 | 39,9 | |
| 5 anos | 60 | 38,0 | |
| 6 anos | 37 | 23,4 | |
| 7 anos | 28 | 17,7 | |
| 8 anos | 21 | 13,3 | |
| 9 anos | 12 | 7,6 | |
| USF | USF Bom Porto | 66 | 41,7 |
| USF Lindo Vale | 38 | 24,0 | |
| USF Alto da Maia | 34 | 21,5 | |
| USF Covelo | 20 | 12,6 | |
| Escolaridade mãe | Ensino superior | 73 | 46,2 |
| 12º ano ou equivalente | 51 | 32,3 | |
| 9º ano | 30 | 19,0 | |
| 4º ano | 3 | 1,9 | |
| NR | 1 | 0,6 | |
| Escolaridade pai | Ensino superior | 58 | 36,7 |
| 12º ano ou equivalente | 47 | 29,7 | |
| 9º ano | 37 | 23,4 | |
| 4º ano | 8 | 5,1 | |
| NR | 8 | 5,1 | |
NR - não respondeu
Caracterização das crianças com en
Na Tabela 3, encontram-se os resultados obtidos relativamente às variáveis independentes estudadas nas crianças com EN.
Das crianças incluídas no estudo, 18 EN, o que corresponde a uma prevalência de 11,4% da amostra estudada. 66,7% eram do sexo masculino (n=12), tendo-se encontrado uma associação estatisticamente significativa entre EN e sexo (p=0,014).
A idade mediana foi de 6 anos (IIQ: 5-7), tendo sete crianças 5 anos, cinco 6 anos, uma 7 anos, quatro 8 anos e uma 9 anos.
Tabela 3 Enurese e variáveis em estudo
| n (%) | n com EN (%) | p* | ||
|---|---|---|---|---|
| Sexo | feminino | 95 (60,1) | 6 (33,3) | 0,014** |
| masculino | 63 (39,9) | 12 (66,7) | ||
| História familiar de EN | sim | 51 (32,3) | 11 (61,1) | 0,021** |
| não | 91 (57,6) | 6 (33,3) | ||
| desconhece | 16 (10,1) | 1 (5,6) | ||
| Perdas urinárias diurnas | sim | 30 (19,0) | 6 (33,3) | 0,034** |
| não | 128 (81,0) | 12 (66,7) | ||
| Roncopatia | sim | 30 (19,0) | 2 (11,1) | 0,529 |
| não | 128 (81,0) | 16 (88,9) | ||
| PHDA | sim | 12 (7,6) | 0 (0) | NA |
| não | 100 (63,3) | 12 (66,7) | ||
| NR | 46 (29,1) | 6 (33,3) | ||
| Obstipação | sim | 57 (36,1) | 4 (22,2) | 0,194 |
| não | 101 (63,9) | 14 (77,8) | ||
| Infeções urinárias | sim | 20 (12,7) | 1 (5,6) | 0,473 |
| não | 138 (87,3) | 17 (94,4) | ||
EN - enurese noturna; NR - não respondeu; PHDA - perturbação hiperatividade e défice de atenção; NA - não avaliado; p - teste do qui quadrado; ** - estatisticamente significativo.
Verificou-se história familiar de EN positiva em 61,1 % das crianças, encontrando-se uma associação estatisticamente significativa entre a presença de EN e história familiar positiva (p=0,021). Destas crianças, verificou-se que 36,4% tinham história familiar positiva no pai (n=4), 36,4% na mãe (n=4), 18,1% (n=2) nos tios e 9,1% (n=1) em primos.
Das crianças com EN, 17 apresentavam EN não monosintomática. Dessas, seis tinham concomitantes perdas diurnas: duas com 5 anos, uma com 7 anos, duas com 8 anos e uma com 9 anos. Verificou-se uma relação estatisticamente significativa entre EN e as perdas diurnas (p=0,034).
Relativamente à frequência dos episódios de EN, 50,0% (n=9) das crianças tinha perdas uma a duas vezes por semana, 11,1% (n=2) três a quatro vezes por semana, 22,2% (n=4) cinco a seis vezes episódios por semana e 16,7% (n=3) tinham perdas todas as noites.
Caracterização das crianças com luts e incontinência diurna
Das crianças incluídas, 81,6% apresentavam LUTS (n=129) (Tabela 4). A maioria dessas crianças não tinham EN associada, 86,8% (n=112).
Verificou-se ainda que 19,0% (n=30) apresentavam perdas diurnas, na sua maioria do sexo feminino - 66,7% (n=20). Das crianças com perdas diurnas, apenas 20% (n=6) apresentavam EN e 93,3% (n=28) apresentavam LUTS.
Tabela 4 Presença de LUTS e perdas diurnas no total da amostra e nos enuréticos LUTS (sintomas do trato urinário inferior).
| LUTS no total da amostra | |
| n (%) | |
| Assintomáticos | 29 (18,4) |
| Sintomáticos | 129 (81,6) |
| Total | 158 |
| LUTS nas crianças enuréticas | |
| n (%) | |
| Assintomáticos | 1 (5,6) |
| Sintomáticos | 17 (94,4) |
| Total | 18 |
LUTS (sintomas do trato urinário inferior).
Caracterização das crianças com comorbilidades associadas
Na Tabela 3, é possível encontrar os resultados obtidos, relativamente à relação entre EN e as variáveis em estudo.
A prevalência de roncopatia no total da amostra total foi de 19,0% (n=30); destas crianças apenas 6,7% (n=2) tinham EN. Não se verificou associação estatisticamente significativa entre EN e roncopatia (p=0,529).
A prevalência da PHDA, com diagnóstico confirmado pelo profissional de saúde, no total da amostra foi de 7,6% (n=12). Nenhuma dessas crianças tinha EN.
A prevalência de obstipação no total da amostra foi de 36,1%, (n=57); destas 7% (n=4) tinham EN. Não se verificou associação estatisticamente significativa entre EN e obstipação (p=0,194).
Do total da amostra 12,9% (n=20) apresentavam antecedentes pessoais de infeções urinárias (ITU), das quais 5% (n=1) tinham EN. Não houve relação estatisticamente significativa EN e história de ITU (p=0,473).
Impacto na qualidade de vida
Para a avaliação do impacto na QdV das crianças enuréticas, utilizou-se o PinQ.
Avaliaram-se as respostas de 14 crianças enuréticas, 50,0% do sexo masculino (n=7) e com idade mediana de 6 anos (IIQ: 5-8). Quatro crianças foram excluídas por não terem respondido à totalidade das perguntas.
Na Tabela 5, podem observar-se os resultados obtidos.A pontuação mediana obtida foi de 18 pontos (IIQ:7-24), sendo que a pontuação mais elevada foi de 44 pontos e a mínima foi de 0. As subescalas mais afetadas foram as relações familiares, a autoestima e as relações sociais. A subescala menos afetada foi a independência, em que 78,5% das crianças pontuaram 0 pontos. Relativamente ao impacto na autoestima, 42,9% (n=6) das crianças referiram sentir vergonha por terem EN e 85,7% (n=12) afirmaram que se sentiriam melhor sem este problema.
Relativamente às relações sociais, 50,0% (n=7) afirmaram preocupação com a possibilidade das outras pessoas sentirem o cheiro da urina, 42,8% (n=6) afirmaram que poderiam convidar mais amigos para casa se não tivessem EN e 28,6% (n=4) afirmaram que a EN podia limitar as suas saídas sociais.
Adicionalmente, em relação às relações familiares, 57,1% (n=8) afirmaram sentir a preocupação dos pais sempre ou muitas vezes por causa dos seus problemas com a EN e 35,7% (n=5) afirmaram sentir que os pais pareciam zangados pela EN, pelo menos uma vez e 50,0 % (n=7) das crianças enuréticas afirmam acordar durante a noite por causa dos problemas com a EN.
Tabela 5 Avaliação do impacto na qualidade de vida das crianças enuréticas
| Subescalas do Questionário de Incontinência Pediátrica (PinQ) | Mediana (IIQ) | Valor máximo | Valor mínimo |
| Relações sociais | 3 (2-7) | 17 | 0 |
| Autoestima | 4 (3-9) | 11 | 0 |
| Relações familiares | 5 (2-7) | 9 | 0 |
| Saúde mental | 0 | 7 | 0 |
| Independência | 0 | 5 | 0 |
| Resultado total | 18 (7-24) | 44 | 0 |
Discussão e conclusão
No nosso trabalho, a prevalência estimada de EN foi de 11,4%, valor semelhante a outros estudos realizados na mesma região do nosso país: em 2000, um estudo realizado em escolas da Foz do Sousa, revelou uma prevalência de EN na comunidade de 15,6%,4 outro estudo, realizado em 2006, em hospitais do norte de Portugal, revelou uma prevalência de EN de 6,9%,9 um terceiro estudo, realizado em centros de saúde do Porto, no mesmo ano de 2006, constatou uma prevalência de 16,4% de EN.11
Adicionalmente, na nossa amostra, foi também possível constatar uma associação significativa entre a existência de EN e o sexo masculino (p=0,014), situação também verificada em diversos estudos prévios.4,9,11 Considerando a história familiar, também foi identificada associação entre a sua positividade e consequente desenvolvimento de EN na descendência (p=0,021), sendo este um fator de risco já reportado na literatura.4,9,11
No que diz respeito à relação entre EN e LUTS, estes foram identificados em praticamente todos os doentes com EN (94,4%), tendo-se inclusivamente verificado que mesmo considerando a totalidade da população a percentagem de crianças com LUTS foi muito elevada (81,6%), e muito superior a estudos prévios, que relataram percentagens até 20% nestas idades.12,13 Do ponto de vista dos investigadores, o facto de terem sido os pais a responder ao questionário, por ventura, sem discussão das respostas com os seus filhos, pode ter contribuído para a sobrestimação destes dados. Foi identificada também uma relação estatisticamente significativa entre EN e perdas urinárias diurnas (p=0,034), situação também já identificada previamente.9
Apesar da amostra compreender a crianças entre os 5 e os 9 anos, a maioria dos doentes identificados com EN tinham entre 5 e 6 anos (66,7%). Os resultados obtidos são concordantes com relatos prévios da diminuição destas queixas com o avançar da idade, estimando-se que a taxa de resolução anual destes episódios é cerca de 15%.4,14 Neste trabalho, não se encontraram algumas das relações já conhecidas da EN com outras patologias, nomeadamente obstipação, roncopatia e perturbação de défice de atenção e hiperatividade (PHDA), provavelmente justificado pelo pequeno tamanho da amostra.15,16
Relativamente à frequência dos episódios de EN, obteve-se que 50% das crianças tinha um episódio uma a duas vezes por semana. Encontrando-se diferença relativamente ao estudo em crianças de idade escolar na zona norte de Portugal, onde o 42% das crianças tinha episódios de EN menos de uma vez por semana e 24% apresentava entre um e dois episódios por semana (9). Em relação à gravidade da EN não foi possível estimar a sua proporção, devido à amostra reduzida de crianças enuréticas.
Por fim, verificou-se um impacto considerável na QdV das crianças avaliadas com EN. As subescalas mais afetadas foram as relações familiares, a autoestima e as relações sociais e a subescala menos afetada foi a independência, à semelhança do que tinha sido descrito num estudo realizado com crianças suecas que utilizou a mesma ferramenta de avaliação.17
Em contraste, um estudo caso controlo realizado no Brasil18 utilizou um autoquestionário visual para avaliação do impacto na QdV e revelou que o único domínio com diferenças estatisticamente significativas entre grupos foi o das atividades diárias (atividades escolares, refeições, hora de dormir). Adicionalmente, outro estudo caso controlo realizado na Turquia,19 que utilizou a ferramenta Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQL), revelou diferenças estatisticamente significativas no domínio físico e escolar entre grupos e não mostrou diferenças no domínio emocional e social.
As diferenças de impacto na QdV encontradas podem ser justificadas pela falta de uniformização do instrumento de avaliação utilizado. Neste trabalho, o impacto considerável na QdV reflete-se na proporção significativa de crianças, cerca de 50%, que demonstraram vergonha por EN, preocupação com possibilidade de outras pessoas sentirem o cheiro da urina e limitações em convidar amigos para suas casas, sendo que já outros trabalhos tinham identificado estas consequências da EM.17,20,21 Dada a elevada percentagem de crianças que referiram que se sentiriam melhor se não tivessem EN (85,7%), considera-se primordial a importância da abordagem sistemática e orientação adequadas desta patologia. Não só no que diz respeito à abordagem nos cuidados de saúde primários, mas também na eventual referenciação para centros de Nefrologia pediátrica especializados.
Com este estudo, conseguiu-se comparar a prevalência da EN atual com a obtida em estudos prévios, realizados há cerca de 15 anos, na mesma região, permitindo-se assim atualizar o conhecimento sobre a patologia em questão. Tendo em conta a globalização e constante transformação das comunidades, é fulcral a determinação regular das prevalências das patologias mais frequentes nesta faixa etária. Assim, é possível ajustar e determinar as prioridades em saúde e, por conseguinte, planear a implementação de medidas que permitam a sua mitigação e resolução. Adicionalmente, aponta-se ainda a abordagem da temática do impacto na QdV destas crianças e famílias como outro ponto forte do estudo.
Contudo, o pequeno tamanho da amostra e a restrição geográfica, à região do grande Porto, limitam a possibilidade de extrapolar os resultados obtidos para toda a população portuguesa. Além disso, a utilização deste método de avaliação da QdV, que é diferente de outros estudos, e o facto de ter sido preenchido pelos pais das crianças, impede comparações mais aprofundadas dos dados obtidos com a bibliografia já existente.
Neste trabalho, encontrou-se uma prevalência de 7% EN em crianças em idade escolar, e associação positiva entre EN e o sexo masculino e a história familiar, reforçando-se a evidência já existente.
Verificou-se ainda que a EN afeta a QdV da criança e da sua família, sobretudo na área da autoestima e relações sociais, pelo que deve merecer a especial atenção dos profissionais de saúde.
Com este trabalho, pretende-se contribuir para a sensibilização dos profissionais de saúde, sobretudo, os médicos de família, para esta temática, como forma de se potenciar a correta abordagem e orientação destas crianças.














