Introdução
A tendência de envelhecimento demográfico verifica-se há várias décadas na Europa e Portugal não é exceção, com um crescente aumento da proporção de pessoas idosas e um decréscimo do peso relativo de jovens e de pessoas em idade ativa na população total1. Em Portugal, entre 2015 e 2020, a proporção de pessoas idosas (65 ou mais anos) aumentou de 20,7% para 22,4%.1 Em consequência, o índice de envelhecimento passou de 146,5 para 167,0.1
A esperança de vida em Portugal é ligeiramente superior à média da União Europeia.2 Em 2020, as mulheres tinham uma esperança de vida mais de seis anos superior à dos homens (84,1 anos em oposição a 78,0 anos).2 O aumento da longevidade deu origem a um fenómeno no mundo ocidentalizado: o da emergência das doenças crónicas não transmissíveis, passando a morte a acontecer com frequência no final de uma doença crónica evolutiva, mais prolongada.3 O peso das doenças não transmissíveis é elevado, sendo que as doenças cardiovasculares e o cancro são as principais causas de morte.2
O aumento da esperança de vida de uma população não significa necessariamente que esse tempo extra de vida seja em boa saúde.1 Em 2019, o número de anos de vida em saúde (vida saudável), em Portugal, foi estimado em 60,6 anos para os homens e 57,8 anos para as mulheres, abaixo do valor médio para a União Europeia, de 64,2 e 65,1 anos, respetivamente.1 Todos os doentes com doenças crónicas, sem resposta à terapêutica de intuito curativo e com prognóstico de vida reconhecidamente limitado, devem ter acesso a cuidados paliativos.3 Assim, prevê-se que as necessidades de cuidados paliativos estejam a aumentar.
Na Europa 85% da população atualmente morre de doença crónica como cancro, doença cardiovascular ou demência.4 As doenças crónicas caracterizam-se por uma progressão lenta, flutuações na trajetória de doença, longa duração e prognóstico incerto, sendo um grande desafio o seu tratamento, durante cada vez mais tempo, até fases muito avançadas da sua progressão.4 Durante as fases avançadas de doença crónica, os doentes normalmente sofrem de dor de grande intensidade e outros sintomas físicos e psíquicos, pelo que beneficiariam de cuidados paliativos (CP).3,4
Torna-se, portanto, essencial identificar os doentes que precisam de CP, que são cuidados ativos de conforto (físico, psíquico, social e espiritual), não com o objetivo curativo, mas sim de promoção de qualidade de vida em todas as suas vertentes.5 Os doentes com doenças progressivas avançadas vivenciam diferentes trajetórias de declínio e geralmente têm necessidades variadas em diferentes fases da doença.4 Assim, o processo de identificação não deve ser baseado apenas na previsão de mortalidade ou sobrevivência, mas também se deve concentrar em antecipar as necessidades sempre que ocorrerem e prever o curso do declínio funcional para desencadear uma avaliação holística e fazer um plano de cuidados paliativos proactivo.4
Há evidência, a partir de estudos controlados randomizados, que o acesso precoce a cuidados paliativos especializados promove qualidade de vida, reduz tempo de internamento hospitalar e hospitalizações e pode prolongar a sobrevida.4,6 No entanto, a evidência recente mostra que os cuidados paliativos normalmente chegam tarde na trajetória da doença e o acesso a CP é desigual.4,6
De acordo com vários estudos é sabido que genericamente os médicos sobrestimam a sobrevida dos seus doentes, embora o façam com maior precisão na fase de morte iminente.3 Uma das barreiras ao acesso atempado de cuidados paliativos é a dificuldade na identificação dos doentes que poderão beneficiar deles.4,7 Assim, torna-se fundamental desenvolver instrumentos que permitam tão precocemente quanto possível que os doentes passem a receber os cuidados paliativos de qualidade que a sua condição impõe.4
Os doentes com necessidades paliativas (NP) estão nos hospitais, nas unidades de cuidados continuados, mas sobretudo na comunidade, que inclui o domicílio e os lares de acolhimento, pelo que as equipas de cuidados de saúde primários estão na melhor posição para identificar doentes com potenciais NP.5 As necessidades da maioria das pessoas no final da vida (aproximadamente 85%-90%) podem ser atendidas com cuidados paliativos primários prestados por médicos de família.7
Identificar os utentes que apresentam NP poderá ser um desafio para os médicos de família, embora várias ferramentas de identificação tenham sido desenvolvidas para este fim.4
A escala SPICT™ (Supportive and Palliative Care Indicators Tool) é um instrumento que permite identificar pessoas em situação de doença grave e irreversível, permite avaliar a necessidade de CP e fazer o planeamento de cuidados futuros.5 Foi primariamente desenvolvida na Escócia, em 2010, e atualmente está difundida em mais de 30 países,5,8,9 estando já traduzida e validada para a língua portuguesa (SPICT-PT™).8 Consiste numa ferramenta de aplicação simples com uma estrutura que compreende (Anexo 1):
1. Lista de indicadores gerais de deterioração da saúde como admissões hospitalares, declínio funcional, aumento da dependência, declínio nutricional, sintomas persistentes, escolha do doente/família;
2. Lista de indicadores clínicos de doenças limitantes de vida como o cancro, a demência/fragilidade, a doença neurológica, a doença cardiovascular, a doença
respiratória, a doença renal e a doença hepática;
3. Recomendações para avaliação dos cuidados atuais e planeamento dos cuidados futuros.
Estudos internacionais têm vindo a avaliar as necessidades paliativas em ambiente hospitalar e em contexto de Cuidados de Saúde Primários (CSP).9-19 Até à data não se conhecem estudos a nível nacional que avaliem as necessidades paliativas no âmbito dos CSP pelo que se torna de extrema relevância a realização de um estudo nesta área.
No concelho de Matosinhos a Unidade Local de Saúde (ULSM) integra sob a mesma direção administrativa o Hospital Pedro Hispano e o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Matosinhos. Na ULSM existe uma Equipa de Cuidados Paliativos (ECP) dirigida a doentes com doença crónica oncológica e não oncológica, incurável e/ou grave, progressiva e com prognóstico limitado. A referenciação dos doentes pode ser feita tanto pelos médicos dos CSP como pelos médicos hospitalares. Esta equipa presta apoio a nível comunitário, intra-hospitalar (a doentes internados nos diversos serviços do hospital) e consulta externa, estabelecendo a continuidade de cuidados entre os dois níveis de intervenção.
O presente estudo tem como objetivo geral avaliar as necessidades paliativas numa Unidade de Saúde Familiar (USF) do Concelho de Matosinhos (USF Porta do Sol) utilizando a ferramenta SPICT-PT™.
Foram também determinados os seguintes objetivos específicos:
1. Caracterizar a amostra de utentes a quem foi aplicada a ferramenta SPICT-PT™;
2. Comparar as características da amostra com necessidades paliativas identificada pela ferramenta SPICT (SPICT-PT™-positivos) da restante amostra (SPICT-PT™-negativos);
3. Avaliar o número de referenciações da amostra em estudo à equipa de cuidados paliativos (ECP).
Métodos
Foi realizado um estudo observacional transversal. A população foi constituída por todos os utentes com idade igual ou superior a 65 anos inscritos na USF Porta do Sol, 3738 utentes à data do estudo. Foi feita uma amostra consecutiva. Considerando um intervalo de confiança de 95% e um nível de precisão de 5%, tendo em consideração o número total de utentes da USF com idade igual ou superior a 65 anos à data da colheita de dados (3738), a amostra foi de 349 utentes.
Dividiu-se a população em três grupos por idade e sexo e calcularam-se as proporções na amostra para serem as mesmas da população real, conforme descrito na Tabela 1.
Tabela 1 Distribuição da amostra por grupo etário e sexo.
| 65 a 74 anos (grupo1) | 75 a 84 anos (grupo 2) | ≥85 anos (grupo 3) | |||
|---|---|---|---|---|---|
| Homens | Mulheres | Homens | Mulheres | Homens | Mulheres |
| 87 | 105 | 50 | 62 | 15 | 30 |
| 192 | 112 | 45 | |||
| 349 | |||||
Foram incluídos todos os utentes com idade igual ou superior a 65 anos inscritos na USF Porta do Sol que tivessem consulta presencial com o médico de família, na USF ou no domicílio, e que aceitassem participar no estudo, dando o seu consentimento informado por escrito.
Todas as 10 médicas da USF aceitaram e participaram na recolha de dados, após lhes ter sido apresentado o protocolo de estudo. Durante o período de estudo e aquando do contacto de cada utente com a sua médica de família, procedeu-se ao preenchimento da ferramenta SPICT-PT™, 1ª e 2ª parte, correspondentes a indicadores gerais e indicadores clínicos de mau prognóstico, bem como à colheita de dados sociodemográficos (sexo, idade, institucionalização ou não), índice de Barthel, principal doença subjacente e verificação de referenciação à ECP. O preenchimento da ferramenta foi feito em papel por todas as médicas de família da USF em todos os contactos presenciais do utente até se perfazer o tamanho amostral definido. Cada médica tinha uma tabela com o número de utentes dos quais deveria recolher os dados, de acordo com o grupo etário e sexo. A colheita de dados decorreu entre Dezembro 2022 e Fevereiro de 2023.
Os dados recolhidos foram registados numa base de dados construída pelos investigadores para o efeito em Microsoft Excel® 365. Esta base de dados não contém qualquer elemento identificativo dos utentes para além do sexo e idade. Todos os restantes pontos da base de dados referem-se às variáveis já referidas anteriormente e aos itens da escala SPICT-PT™. Apenas os investigadores tiveram acesso à base de dados, de modo a garantir a confidencialidade total dos dados. A base de dados não sofreu cópias, divulgação ou reprodução para infraestruturas informáticas externas aos serviços informáticos de saúde. Todos os dados foram tratados de forma confidencial e apenas no âmbito deste estudo, e serão destruídos ao fim de 2 anos.
Na Tabela 2 estão descritas as variáveis estudadas para além da escala SPICT-PT™.
Tabela 2 Definição das variáveis em estudo
| Variável | Tipo de Variável | Definição Operacional |
|---|---|---|
| Idade | Quantitativa discreta | Número inteiro de anos completos à data de preenchimento da ferramenta SPICT-PT™ |
| Sexo | Qualitativa Nominal | Masculino Feminino |
| Institucionalização | Qualitativa Nominal | Sim Não |
| Referenciação ECP | Qualitativa Nominal | Sim Não |
| Escala Barthel | Quantitativa | Valor em percentagem |
| Principal doença subjacente | Qualitativa Nominal | Nome da principal doença, classificada de acordo com a ICPC-2 (classificação internacional de cuidados primários - 2ª edição) |
Em relação à principal patologia associada, foi feito o agrupamento das patologias de acordo com a Classificação Internacional de Cuidados Primários 2ª edição (ICPC-2) nos vários aparelhos/sistemas, com a exceção das doenças oncológicas que formaram um grupo independente.
As restantes variáveis em estudo são as referentes à ferramenta SPICT-PT™ (Anexo 1), todas qualitativas nominais, classificando-se como SIM ou NÃO em cada item. O tratamento dos dados foi efetuado utilizando os testes estatísticos: Mann-Whitney para comparar variáveis ordinais ou quantitativas com distribuição não normal entre 2 grupos independentes e o teste qui-quadrado para estudar a associação entre variáveis categóricas. Além disso também foi realizada estatística descritiva: frequências absolutas e relativas (n, %) para variáveis categóricas; mediana e intervalo interquartil para variáveis quantitativas. Foi considerado estatisticamente significativo um valor de p<0,05. A análise estatística foi efetuada com recurso ao software IBM SPSS Statistics versão 28.
Ferramenta de indicadores de cuidados paliativos e de suporte (SPICT-PT™)
Consideram-se doentes com necessidades paliativas se preencherem 2 critérios da lista de indicadores gerais de deterioração da saúde e pelo menos 1 critério da lista de indicadores clínicos específicos.8 A SPICT-PT™ é de acesso e uso gratuito na prática clínica e pode ser acedida através do URL: https://www.spict.org.uk/the-spict/spict-pt/.
O protocolo do estudo foi submetido e aprovado pela Comissão de Ética para a Saúde da ULSM (nº 85/CES/ JAS de 14/10/2022). Também foi obtido o parecer favorável pela Comissão Local de Proteção e Segurança da Informação (refª66/CLPSI/2022), pela coordenadora da USF Porta do Sol, pelo Conselho Clínico e de Saúde do ACES Matosinhos e pelo Conselho de Administração
da ULSM.
Resultados
Caracterização geral da amostra
Todos os utentes ou cuidadores questionados aceitaram participar no estudo.
A amostra foi constituída por 349 utentes, 197 do sexo feminino (56,4%) e 152 do sexo masculino (43,6%). A mediana de idades foi de 74 anos, com o mínimo de 65 anos e máximo de 97 anos. Relativamente à institucionalização apenas 2 utentes estavam institucionalizados.
Em relação à referenciação para ECP apenas 6 utentes foram referenciados. Quanto ao índice de dependência avaliado pela escala de Barthel, a maioria dos utentes era totalmente independente 308 (88,3%), 5 (1,4%) apresentava dependência ligeira, 26 (7,4%) dependência moderada e 10 (2,9%) apresentava dependência grave.
A hipertensão arterial (HTA) e a diabetes mellitus (DM) foram das patologias principais mais codificadas, dada a sua elevada prevalência na consulta de medicina geral e familiar. Foram agrupadas no grupo aparelho circulatório e endócrino, respetivamente, daí estes grupos apresentarem maior representatividade. Na Tabela 3 podemos verificar a distribuição dos utentes pelos diversos grupos patológicos:
O grupo mais prevalente foi o da patologia do aparelho circulatório, seguido do grupo de doenças endócrinas e as doenças oncológicas.
Tabela 3 Patologias identificadas com a classificação ICPC-2
| Grupo patológico | Valor |
|---|---|
| Aparelho circulatório | 170 (48,7%) - 106 (30,4%) HTA |
| Endócrino, metabólico, nutricional | 63 (18,1%) - 54 (15,5%) DM |
| Doenças oncológicas | 33 (9,5%) |
| Psicológico | 24 (6,9%) |
| Sistema músculo-esquelético | 24 (6,9%) |
| Aparelho respiratório | 18 (5,2%) |
| Aparelho digestivo | 3 (0,9%) |
| Sistema neurológico | 3 (0,9%) |
| Aparelho urinário | 2 (0,6%) |
| Outras (hemocromatose, catarata, glaucoma, síndrome vertiginoso, surdez, psoríase, hipertrofia prostática benigna, pobreza) | 9 (2,6%) |
Na Tabela 4 estão representadas todas as variáveis descritivas da SPICT-PT™: Podemos verificar que entre os indicadores gerais de deterioração da saúde, a dependência de outros nos cuidados, os internamentos hospitalares não planeados e a má performance funcional ou declínio com reversibilidade limitada foram os mais identificados. De referir também que apenas foi identificada uma situação em que o utente/família pediu CP; escolheu reduzir, parar ou não receber tratamento, desejando focar-se na qualidade de vida.
Tabela 4 Variáveis descritivas da SPICT-PT™
| SPICT-PT™ (Ferramenta de Indicadores de Cuidados Paliativos e de Suporte) | ||
|---|---|---|
| INDICADORES GERAIS DE DETERIORAÇÃO DA SAÚDE | Não (%) | Sim (%) |
| Internamentos hospitalares não planeados | 331 (94,8) | 18 (5,2) |
| Má performance funcional ou declínio com reversibilidade limitada | 333 (95,4) | 16 (4,6) |
| Dependente de outros nos cuidados | 320 (91,7) | 29 (8,3) |
| O cuidador precisa de mais assistência | 337 (96,6) | 12 (3,4) |
| Perda ponderal progressiva, permanece abaixo do peso normal | 339 (97,1) | 10 (2,9) |
| Sintomas persistentes apesar do tratamento otimizado | 339 (97,1) | 10 (2,9) |
| O doente/família pede CP; escolhe reduzir, parar ou não receber tratamento, deseja focar-se na qualidade de vida | 348 (99,7) | 1 (0,3) |
| INDICADORES CLÍNICOS DE DOENÇAS LIMITANTES DA VIDA | Não (%) | Sim (%) |
| Cancro | ||
| Deterioração da capacidade funcional devido a cancro progressivo | 345 (98,9) | 4 (1,1) |
| Estado físico muito debilitado para tratamento oncológico ou tratamento apenas para controlo dos sintomas | 347 (99,4) | 2 (0,6) |
| Demência/fragilidade | ||
| Incapacidade de se vestir, andar ou comer sem ajuda | 336 (96,3) | 13 (3,7) |
| Redução da ingestão de alimentos e líquidos e dificuldades na deglutição | 345 (98,9) | 4 (1,1) |
| Incontinência fecal ou urinária | 338 (96,8) | 11 (3,2) |
| Incapacidade em manter a interação verbal, pouca interação social | 340 (97,4) | 9 (2,6) |
| Quedas frequentes, fratura do fémur | 344 (98,6) | 5 (1,4) |
| Episódios frequentes de febre ou infeções; pneumonia de aspiração | 349 (100,0) | 0 (0,0) |
| Doença Neurológica | ||
| Deterioração progressiva das funções físicas e/ou cognitivas | 336 (96,3) | 13 (3,7) |
| Problemas de fala com crescente dificuldade de comunicação e/ou deglutição | 348 (99,7) | 1 (0,3) |
| Pneumonias de aspiração frequentes; dispneia ou insuficiência respiratória | 348 (99,7) | 1 (0,3) |
| Paralisia persistente após AVC com significativa perda de função e incapacidade progressiva | 349 (100,0) | 0 (0,0) |
| Doença Cardiovascular | ||
| Insuficiência cardíaca ou doença arterial coronária extensa e intratável com sintomas de dispneia ou dor torácica em repouso ou esforço mínimo | 336 (96.,3) | 13 (3,7) |
| Doença arterial periférica grave e inoperável | 348 (99,7) | 1 (0,3) |
| Doença respiratória | ||
| Doença pulmonar crónica grave: dispneia em repouso ou esforço mínimo entre exacerbações | 346 (99,1) | 3 (0,9) |
| Hipoxia persistente com necessidade de O2 de longo prazo | 348 (99,7) | 1 (0,3) |
| Já precisou de ventiloterapia para insuficiência respiratória ou a ventilação é contraindicada | 347 (99,4) | 2 (0,6) |
| Doença Renal | ||
| Estádios 4 e 5 de doença renal crónica (TFG<30 mL/min) com agravamento clínico | 347 (99,4) | 2 (0,6) |
| Insuficiência renal com complicações para outras condições clínicas limitantes ou tratamentos | 348 (99,7) | 1 (0,3) |
| Indicação para parar ou intolerância à diálise | 349 (100,0) | 0 (0,0) |
| Doença Hepática | ||
| Cirrose com uma ou mais complicações no último ano | 349 (100,0) | 0 (0,0) |
| Transplante hepático contraindicado | 349 (100,0) | 0 (0,0) |
| Outras situações | ||
| Deterioração e risco de morrer de outras condições ou complicações irreversíveis | 349 (100,0) | 0 (0,0) |
| SPICTTM-PT POSITIVO | 324 (92,8) | 25 (7,2) |
Comparação da amostra com necessidades paliativas
Foram identificados 25 (7,2%) doentes com necessidades paliativas. Apresenta-se de seguida a Tabela 5 com a comparação entre os utentes SPICT-PT™ negativo e SPICT-PT™ positivo:
Pela análise da Tabela 5, podemos verificar que o grupo SPICT-PT™ positivo apresenta uma mediana de idade superior em comparação com o grupo SPICT-PT™ negativo, e esta diferença é estatisticamente significativa.
Tabela 5: Comparação entre os utentes SPICT-PT™ negativo e SPICT-PT™ positivo
| Variáveis | SPICT-PT™ Negativo (n=324) | SPICT-PT™ Positivo (n=25) | p |
|---|---|---|---|
| Idade, med (1ºQ, 3ºQ) | 73 (70; 79) | 84 (76; 87,5) | <0,001a |
| Sexo, n (%) | |||
| Feminino | 183 (56,5) | 14 (56,0) | 0,963b |
| Masculino | 141 (43,5) | 11 (44,0) | |
| Escala de Barthel (%), med (1ºQ, 3ºQ) | 100% (100; 100) | 75% (15; 85) | <0,001a |
| Institucionalização, n (%) | |||
| Não | 323 (99,7) | 24 (96,0) | |
| Sim | 1 (0,3) | 1 (4,0) | |
| Referenciação ECP, n (%) | |||
| Não | 324 (100,0) | 19 (76,0) | |
| Sim | 0 (0,0) | 6 (24,0) | |
| Grupo patológico, n (%) | |||
| Aparelho circulatório | 162 (50,0) | 8 (32,0) | |
| Endócrino, metabólico, nutricional | 62 (19,1) | 1 (4,0) | |
| Doenças oncológicas | 28 (8,6) | 5 (20,0) | |
| Sistema músculo-esquelético | 23 (7,1) | 1 (4,0) | |
| Psicológico | 17 (5,2) | 7 (28,0) | |
| Aparelho respiratório | 16 (4,9) | 2 (8,0) | |
| Aparelho digestivo | 3 (0,9) | 0(0,0) | |
| Sistema neurológico | 2 (0,6) | 1 (4,0) | |
| Aparelho urinário | 2 (0,6) | 0 (0,0) | |
| Outras (hemocromatose, catarata, glaucoma, síndrome vertiginoso, surdez, psoríase, hiperplasia da próstata, pobreza) | 9 (2,8) | 0 (0,0) | |
a Mann-Whitney test; b chi-square test
Relativamente ao índice de dependência avaliado pela escala de Barthel, o grupo SPICT-PT™ positivo apresenta um grau mais elevado de dependência em comparação com o grupo SPICT-PT™ negativo, e esta diferença também é estatisticamente significativa. Em relação ao sexo e à institucionalização não há diferença entre os dois grupos. Apesar de não podermos verificar diferenças estatísticas quanto à referenciação para a ECP, por o n ser muito pequeno, verifica-se que os utentes referenciados para esta equipa são todos SPICT-PT™ positivo. Pelo mesmo motivo, também não podemos tirar conclusões estatísticas relativamente às patologias identificadas. No entanto, verifica-se que o grupo SPICT-PT™ positivo apresenta um número maior de doenças do aparelho circulatório (5 doentes com insuficiência cardíaca), do foro psicológico (6 doentes com demência) e do foro oncológico.
Caracterização dos doentes referenciados à ecp
Apesar de terem sido identificados 25 doentes com necessidades paliativas, apenas 6 estavam referenciados à ECP. Na Tabela 6 podemos analisar a caracterização destes doentes.
Verifica-se que os doentes referenciados à ECP são maioritariamente doentes oncológicos ou com patologia cardiovascular.
Tabela 6: Caracterização dos doentes referenciados à ECP.
| Sexo | Idade | Patologia |
|---|---|---|
| masculino | 67 | Neoplasia maligna estômago |
| masculino | 87 | Neoplasia maligna da próstata |
| feminino | 85 | Insuficiência cardíaca |
| feminino | 76 | Doença aparelho circulatório, outra (vasculite) |
| masculino | 75 | Neoplasia endócrina, outra (timoma) |
| masculino | 70 | Insuficiência cardíaca |
Discussão
A identificação de 7,2% de doentes com idade igual ou superior a 65 anos com necessidades paliativas é semelhante à referida noutros estudos (5,1%, 9,2% e 17,3%) que decorreram na população idosa, em cuidados de saúde primários na Austrália e Japão.4,11,12 Tal como previsto, os doentes com necessidades paliativas são doentes mais idosos e mais dependentes.4,11,12 Assim, com o crescente envelhecimento da população, o acompanhamento e a avaliação periódica destes utentes torna-se muito pertinente.
As patologias mais frequentes nestes doentes foram a insuficiência cardíaca, doenças oncológicas e demências, o que também é semelhante a outros estudos.4,11,12,18,19 De salientar a representação significativa das doenças não oncológicas, reflexo da diversidade na consulta de medicina geral e familiar.
Um dado relevante é o baixo número de referenciação de doentes com necessidades paliativas à equipa de cuidados paliativos. Dos doentes com necessidades paliativas, 24% estavam a ser acompanhados por esta equipa, dado este também de acordo com estudos realizados noutros países.9,11,12 Este valor pode dever-se a uma manifesta dificuldade dos médicos de família na identificação de doentes com necessidades paliativas e como tal a não referenciação, principalmente dos doentes não oncológicos, em que a trajetória da doença é mais difícil de prever. Outra hipótese poderá ser o facto dos doentes, apesar de apresentarem necessidades paliativas, estarem sintomaticamente controlados e serem de baixa complexidade, daí a não referenciação, como por exemplo nas demências, em que os doentes têm muitas necessidades de cuidados, mas estão sintomaticamente controlados. Para além disso, a identificação destes doentes não implica necessariamente a sua referenciação à ECP, mas funciona como uma chamada de atenção para desencadear uma avaliação holística e fazer um plano de cuidados paliativos proativo. A evidência revela que a SPICT™ parece auxiliar os médicos nas conversas sobre o planeamento avançado de cuidados, fornecendo tópicos
para aspetos essenciais dos cuidados em fim de vida, assim como uma estrutura de conversa e linguagem comum entre profissionais.7,9
Este estudo serve de alerta aos médicos de família para a dificuldade e para a necessidade na identificação atempada dos doentes com necessidades paliativas de forma a iniciar atempadamente um plano de cuidados específicos e dirigido. A SPICT™, embora não tenha sido desenvolvida para esse fim, pode aprimorar a abordagem dos doentes, em particular quando os profissionais de saúde têm experiência limitada em CP, por facilitar o planeamento antecipado de cuidados.9
Usando a SPICT-PT™, de fácil e rápida aplicação na consulta, haverá certamente um aumento de doentes identificados com necessidades paliativas e consequente implementação de um plano individual de cuidados que inclua os cuidados paliativos: sejam ações paliativas realizadas pela equipa de saúde familiar (que poderão ser a maioria das situações), com clarificação das necessidades da pessoa em fim de vida e da sua família, discussão de um plano de cuidados e atuação proativa; ou a referenciação à ECP.
A articulação e integração de cuidados a vários níveis (cuidados de saúde primários e secundários) torna-se muito pertinente nestes doentes, sendo que na ULSM esta integração já está bem estabelecida e implementada.
Forças e fraquezas do estudo
Uma das limitações deste estudo é o uso de uma amostra consecutiva, tendo sido incluídos os utentes que tinham consulta presencial agendada com a médica de família ou os utentes a quem foi realizada consulta domiciliária. Outros doentes que não tiveram consulta no período do estudo, que possam até ter necessidades paliativas e já estar a ser seguidos pela ECP ou até que estivessem internados no período do estudo não foram incluídos.
O facto de a amostra ser representativa da população em termos de idade e sexo e de todas as médicas de família da USF terem participado no estudo, com igual número de utentes de todas as listas, foi muito positivo e permite-nos extrapolar os resultados da amostra para a população.
Perspetivas futuras
A divulgação da ferramenta SPICT-PT™ nos cuidados de saúde primários e eventualmente a sua introdução no programa informático utilizado pelos médicos e enfermeiros de família poderá ser uma mais-valia na melhoria do conhecimento, prestação e planeamento de cuidados, com posterior avaliação de resultados.
Conclusão
A aplicação da ferramenta SPICT-PT™ numa USF do concelho de Matosinhos permitiu a identificação de 7,2 % de utentes com idade igual ou superior a 65 anos com necessidades paliativas. Os doentes com necessidades paliativas são doentes mais idosos e mais dependentes. As patologias mais frequentes nestes doentes foram a insuficiência cardíaca, doenças oncológicas e demência. A aplicação desta ferramenta permite a identificação destes utentes a nível dos cuidados de saúde primários e o melhor planeamento de
cuidados a vários níveis.















