Introdução
A resistência aos antimicrobianos (RAM) é um problema de saúde global, com estimativas de que, em 2050, 10 milhões de pessoas poderão morrer anualmente devido a infeções bacterianas sem tratamento eficaz.1
Para além disso, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) calcula que a resistência antibiótica esteja já a causar a morte a aproximadamente 25 mil pessoas por ano na Europa.2
Diversos fatores contribuem para o uso inadequado de antibióticos, especialmente na população pediátrica.
Entre eles estão a atuação dos médicos, a falta de conhecimento dos pais, e influências da própria sociedade.3-5 Os antibióticos são comumente prescritos para infeções respiratórias agudas, apesar da maioria ter uma etiologia viral e autolimitada, quer em crianças quer na população em geral, podendo em muitos casos ser evitada a sua prescrição.5-7 Além disso, a interrupção do tratamento antibiótico pelos pais quando observam melhoria dos sintomas, ou a automedicação com base em episódios anteriores, agrava ainda mais o problema, especialmente em idade pediátrica.4 Acresce o facto da posologia pediátrica exigir o ajuste ao peso e idade da criança.
A automedicação, quando praticada de forma inadequada, pode causar efeitos adversos, como o agravamento da doença, modificação da sintomatologia e atraso no diagnóstico. A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a "automedicação responsável" como a feita com medicamentos aprovados e utilizados corretamente.8 A prática responsável pode beneficiar a saúde, mas é fundamental educar a população para evitar riscos, como interações medicamentosas e intoxicações.9-12
Apesar de serem escassos os estudos nesta área, o consumo de fármacos em idade pediátrica parece ser elevado em Portugal. Belo e colaboradores9 mostraram que 64% dos pais já automedicaram os filhos, tendo 24% feito isso no mês anterior. Anteriormente, Maia et al13 já tinham identificado que 63,5% das crianças e adolescentes incluídas tinham tomado pelo menos um fármaco nos 3 meses anteriores ao estudo. Noutros dois estudos, 61% dos pais utilizavam medicamentos sem prescrição para infeções respiratórias14 e revelavam um elevado grau de incompreensão das patologias infeciosas comuns da infância e da utilidade dos fármacos.15
Embora os dados sejam limitados, há uma clara necessidade de mais estudos para entender a prevalência da automedicação no nosso país, em especial com antibióticos. Existem apenas quatro estudos nacionais sobre automedicação com antibióticos. Três debruçaram-se sobre a população adulta, com prevalências de automedicação com antibióticos a variar de 4% a 18,9%.16-19 O único estudo pediátrico, realizado no Algarve, revelou uma prevalência de 4,4%,14 não havendo dados com representatividade nacional para a população pediátrica.
Em 2001, a OMS estabeleceu uma estratégia global para conter a RAM, destacando a importância da educação dos pacientes por profissionais de saúde.20 Em pediatria, o sucesso do tratamento está intimamente ligado ao conhecimento e atitudes dos pais, sendo um desafio garantir a adesão correta ao tratamento.14,21,22
A compreensão do regime terapêutico pelos pais é essencial. Os médicos desempenham assim um papel crucial na promoção do uso racional de antibióticos, incentivando a adesão ao tratamento e desencorajando a automedicação inadequada. São necessárias campanhas de educação para a saúde para sensibilizar sobre os riscos da automedicação, especialmente com antibióticos, e promover práticas responsáveis. Para além disso, o uso racional de antibióticos e a adoção de estratégias adequadas de prescrição devem ser uma prioridade, considerando que os antibióticos são um recurso valioso e limitado.20
O presente estudo tem como objetivos principais analisar a prevalência da automedicação com medicamentos sujeitos a receita médica (MSRM) e sem receita (MNSRM) e investigar o conhecimento, crenças e atitudes dos pais de crianças com idade até 12 anos sobre a prescrição de antibióticos para infeções respiratórias, nos Centros de Saúde da Unidade Local de Saúde do Estuário do Tejo (ULS-ET).
Entre os objetivos específicos estão, relacionar a adesão terapêutica com fatores sociodemográficos, identificar as razões que levam à automedicação em infeções respiratórias agudas, e caracterizar as crenças e atitudes dos pais quanto à antibioterapia.
Material e métodos
Foi realizado um estudo multicêntrico observacional, descritivo e transversal através da aplicação de inquéritos durante os meses de julho e agosto de 2023 em oito Unidades de Saúde Familiar (USF) da ULS-ET: USF Samora Correia (Samora Correia), USF Gago Coutinho e USF Albirka Tejo (ambas em Alverca do Ribatejo); USF Villa Longa (Vialonga); USF Reynaldo dos Santos (Póvoa de Santa Iria); USF Lusitano (Arruda dos Vinhos); USF Terras de Cira (Vila Franca de Xira) e USF Vila Presépio (Alenquer); sob a coordenação da USF Samora Correia.
A população-alvo foi composta por pais de crianças até aos 12 anos de idade (inclusive), inscritos nas unidades de saúde da ULS-ET, abrangendo cinco concelhos (Alenquer, Arruda dos Vinhos, Azambuja, Benavente e Vila Franca de Xira). A amostra foi calculada para um nível de confiança de 95%, estimando-se um tamanho amostral de 380 participantes, com margem de erro de 5%.
Seguiu-se uma amostragem por conveniência, distribuindo-se os inquéritos (Anexo 1) e consentimentos informados (Anexo 2) no Secretariado Clínico e na Consulta Infantil de Enfermagem, sendo recolhidos posteriormente na Consulta Infantil Médica.
Constituíram critérios de inclusão: idade igual ou superior a 18 anos, compreensão da língua portuguesa, e ausência de défices cognitivos. Excluíram-se os participantes que não soubessem ler ou escrever, ou cujos filhos nunca tivessem tido prescrição de antibióticos.
O inquérito foi dividido em três partes: A) Caracterização Sociodemográfica; B) Estado de Saúde); e C) Escala de Likert (de Discordo Totalmente a Concordo Totalmente) para avaliar conhecimentos, crenças e atitudes sobre antibioterapia. Este inquérito foi previamente semi-validado em dois estudos realizados na região do Algarve,14,18,19 com um alpha de Cronbach de 0,835, o que demonstra boa consistência interna, dispensando a necessidade de pré-teste.
Os dados foram analisados no SPSS® v29.0. Utilizaram-se ferramentas de estatística descritiva para caracterizar a amostra e testes de inferência estatística (teste Chi-2 e testes Kruskal-Wallis ou Mann-Whitney, de acordo com normalidade no teste de Kolmogorov-Smirnov) para avaliar as associações entre variáveis relativas à automedicação e conhecimentos, crenças e atitudes sobre antibioterapia, com um nível de significância de 0,05. Para a análise dos itens na escala de Likert, as respostas foram transformadas numericamente, de 1 a 5, conforme o grau de concordância com o esperado, sendo 5 a pontuação máxima.
As variáveis analisadas foram as seguintes:
Sociodemográficas: idade, género, estado civil, ciclo de escolaridade, profissão, situação no trabalho, freguesia e concelho de residência, nacionalidade, constituição do agregado familiar, número de filhos com idade inferior a 12 anos, frequência de uma instituição de ensino (ama/creche/jardim-de-infância/escola);
Dados referentes ao sistema de saúde: subsistema ou seguro de saúde adicional para além do Serviço Nacional de Saúde (SNS);
Terapêuticas: administração de MNSRM, razões da administração de MSRM sem indicação/prescrição médica, fonte de informação sobre o medicamento, tempo de administração do último antibiótico, patologia que motivou a toma do antibiótico, fonte de informação sobre o antibiótico, cumprimento das indicações sobre o antibiótico; e
Comportamentais: uso de antibiótico sem receita, quem indicou o antibiótico, facilidade de aquisição.
Tendo em conta a Classificação Portuguesa das Profissões, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE),23 que compreende 10 Grupos Profissionais (G0 a G9), podemos classificar em “Colarinhos Brancos”, os trabalhadores não manuais/intelectuais, onde se incluem trabalhadores dos grupos G0 ao G4; e em “Colarinhos Azuis”, os trabalhadores manuais, onde estão incluídos trabalhadores dos grupos G5 ao G9). Codificámos assim a variável profissão dos nossos inquiridos segundo esta distribuição do INE.
Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para a Saúde da ARS Lisboa e Vale do Tejo e, por ser voluntário e anónimo, não foi necessário submeter à Comissão Nacional de Proteção de Dados.
Resultados
Foram aplicados 533 inquéritos, tendo sido excluídos 79 pelas crianças nunca terem feito antibioterapia e 7 por não ter sido entregue o consentimento informado assinado, sendo a amostra final constituída por 447 inquéritos válidos.
Dos 5 concelhos da ULS-ET, o único com falta de representatividade foi o concelho da Azambuja (0,7%) por não existir USF participante nessa região; os restantes concelhos tiveram uma percentagem de resposta de 55,9% para Vila Franca de Xira, 18,9% para Benavente; 10,1% para Arruda dos Vinhos; 8,9% para Alenquer; e ainda 4% dos inquiridos com residência noutro concelho. As diferenças entre as representatividades prendem-se essencialmente com o número de USFs envolvidas por concelho e com a adesão ao estudo. Ainda assim, os concelhos apresentam dados demográficos (parte A do inquérito) e respostas sobre estado de saúde (parte B do inquérito) semelhantes.
A análise estatística detalhada por freguesia, por concelho e por USF relativamente às respostas obtidas na parte C do inquérito não mostrou diferenças significativas (teste Kruskal-Wallis, os valores p obtidos foram superiores a 0,05), pelo que a análise dos dados apresentada de seguida recaiu sobre a amostra como um todo.
Caracterização Sociodemográfica
A maioria dos inquiridos (86%) é do género feminino, com mediana de idades de 37 anos, casados ou em união de facto (77%), refere ter cumprido ensino superior ou secundário (81% no total), e estar empregado (84%). Relativamente à nacionalidade, 90% dos inquiridos são portugueses, sendo a amostra estrangeira na sua maioria de origem brasileira (Tabela 1A).
A maioria dos inquiridos tem 1 ou 2 filhos com idade igual ou inferior a 12 anos, sendo que 91% frequentam ama/creche/jardim de infância ou escola e o seu agregado familiar é constituído por 3 ou 4 pessoas (Tabela 1B).
Tabela 1: Caracterização sociodemográfica da amostra relativamente aos (A) pais e (B) crianças
| A. Dados sociodemográficos dos pais | |
| n (%) | |
| Idade dos pais (anos) | (n = 445) |
| < 35 anos | 153 (34%) |
| [35 - 44 anos] | 234 (53%) |
| ≥ 45 anos | 58 (13%) |
| Género | (n = 447) |
| Feminino | 383 (86%) |
| Masculino | 64 (14%) |
| Habilitações Literárias | (n = 441) |
| 1º ciclo | 6 (1%) |
| 2º/3º ciclo | 72 (16%) |
| Secundário | 171 (39%) |
| Superior | 192 (44%) |
| Estado Civil | (n = 446) |
| Solteiro | 86 (19%) |
| Casado/União de Facto | 341 (77%) |
| Divorciado | 19 (4%) |
| Situação Laboral | (n = 441) |
| Ativo | 375 (85%) |
| Desempregado | 56 (13%) |
| Outro | 10 (2%) |
| Tipo de Profissão | (n = 402) |
| Intelectual “Colarinho Branco” | 292 (73%) |
| Manual - “Colarinho Azul” | 110 (27%) |
| Nacionalidade | (n = 446) |
| Portuguesa | 401 (90%) |
| Outra | 45 (10%) |
| B. Dados sociodemográficos das crianças | |
| n (%) | |
| Agregado familiar (nº) | (n = 443) |
| 1 | 1 (0,2%) |
| 2 | 25 (5,6%) |
| 3 | 137 (30,9%) |
| 4 | 228 (51,5%) |
| 5 | 42 (9,5%) |
| 6 | 8 (1,8%) |
| 7 | 2 (0,5%) |
| Filhos ≤ 12 anos (nº) | (n = 444) |
| 1 | 193 (44%) |
| 2 | 214 (48%) |
| 3 | 31 (7%) |
| 4 | 6 (1%) |
| Instituição Infantil | (n = 445) |
| Sim | 408 (92%) |
| Não | 37 (8%) |
Relativamente ao tipo de profissão, 73% da nossa amostra desempenha trabalho intelectual (“Colarinhos Brancos”) (Tabela 1A). Sessenta e cinco por cento (n = 289) da amostra usufrui de subsistema ou seguro de saúde para além do SNS (Tabela 2).
Tabela 2: Automedicação de acordo com o tipo de medicamento utilizado e facilidade na automedicação com antibiótico em função do sistema de saúde (teste Chi2, p = 0,05; diferenças significativas realçadas a negrito)
| Outro SubsistemaSeguro de Saúde ara além do Serviço Nacional de Saúde | ||||
|---|---|---|---|---|
| Não (n) | Sim (n) | Total (n) | Teste estatístico | |
| Automedicação | ||||
| Não (n) | 69 | 128 | 197 | Χ2 = 1,724 = 0,786 |
| Sim (n) | 85 | 159 | 244 | |
| Total (n) | 154 | 287 | 441 | |
| Automedicação com Medicação Sujeita a Receita Médica | ||||
| Não (n) | 90 | 179 | 269 | Χ2 = 0,855 = 0,652 |
| Sim (n) | 64 | 110 | 174 | |
| Total (n) | 154 | 289 | 443 | |
| Automedicação com Antibiótico | ||||
| Não (n) | 152 | 279 | 431 | Χ2 = 336,299 < 0,001 |
| Sim (n) | 2 | 10 | 12 | |
| Total (n) | 154 | 289 | 443 | |
| Facilidade em realizar Automedicação com Antibiótico | ||||
| Não (n) | 149 | 257 | 406 | Χ2 = 64,548 < 0,001 |
| Sim (n) | 5 | 18 | 23 | |
| Total (n) | 154 | 275 | 429 | |
Comportamentos e Atitudes sobre Automedicação
A automedicação foi praticada por 56% (n = 247) dos inquiridos, sendo que 39% (n = 174) admitiu a utilização também de MSRM por diversas razões. A maioria dos inquiridos admite tê-la realizado por acesso fácil à medicação, sendo 62% por ter o medicamento em casa; 45% por ter sintomas iguais à doença anterior; e 31% por considerar o problema de saúde simples (Fig. 1A). Na maioria dos casos, a informação sobre a medicação foi dada pelo médico (79%), seguida pelo farmacêutico (36%) (Fig. 1B).

Figura 1: (A) Razões para a prática de automedicação com medicação sujeita a receita médica; (B) Prestadores de informações sobre os medicamentos autoadministrados (cada pergunta poderia ter mais de uma opção de resposta)
A prática de automedicação (tanto MNSRM como MSRM) revelou-se independente das variáveis sociodemográficas em estudo e de ter ou não subsistema/seguro de saúde (teste Chi2, p >0,05, Tabela 2).
Dentro dos medicamentos assinalados com ou sem receita médica utilizados, encontram-se maioritariamente (n = 190) os analgésicos/anti-inflamatórios/anti-piréticos, como o paracetamol e ibuprofeno; seguidos de anti-histamínicos (n = 47) e xaropes anti-tússicos/mucolíticos (n = 39) (Tabela 3).
Tabela 3: Automedicação em patologia respiratória aguda nas crianças: classe de medicamentos e princípios ativos mais frequentemente utilizados (os inquiridos poderiam nomear mais do que um medicamento, sendo agrupados por classe)
| Classe de Medicamentos | n (%) | Princíios Ativos mais frequentemente utilizados (n)* |
|---|---|---|
| Analgésicos Anti-inflamatórios Antiiréticos | 190 (62%) | Paracetamol (174); Iburofeno (132) |
| Anti-histamínicos | 47 (15%) | Desrolatadina (25), Maleato de dimetindeno (6), Cetirizina (6), Levocetirizina (2) |
| Anti-tússicos Mucolíticos | 39 (13%) | Bromexina (12), Mel e extractos de ervas (9), Acetilcisteína (4), Extractos de ervas - homeoático (3) |
| Descongestionantes Nasais | 16 (5%) | Cloridrato de seudoefedrina + tritolidina (5), Cloridrato de fenilefrina (5) |
| Broncodilatadores | 7 (2%) | Salbutamol (5), Fluticasona (3), Brometo de Iatróio (1) |
| Corticóide Nasal | 4 (1%) | Fluticasona (4) |
| Anti-Inflamatório em Pastilhas | 4 (1%) | Flurbirofeno (4) |
| Outros | 4 (1%) |
Administração de Antibioterapia em Patologia Respiratória Aguda
Quarenta e três por cento (43%) dos inquiridos administrou antibiótico ao filho há menos de 6 meses, 29% entre 6 meses a 1 ano, e 28% há mais de 1 ano. Na maioria dos casos, a antibioterapia tinha sido prescrita por otite (37,2%), amigdalite (24,4%) ou infeção respiratória (11,7%) (Tabela 4).
Tabela 4: Classificação das patologias segundo o ICPC-2 para as quais terá sido prescrita antibioterapia às crianças
| Classificação da Patologia | n (%) |
|---|---|
| H71 - Otite média aguda | 162 (37,2%) |
| R76 - Amigdalite (+ Escarlatina (n=6)) | 106 (24,4%) |
| R83 - Infeção respiratória | 51 (11,7%) |
| R78 - Bronquite/Bronquiolite | 21 (4,8%) |
| S76 - Infeção na pele | 13 (3,0%) |
| U71 - Infeção urinária | 12 (2,8%) |
| R74 - Nasofaringite | 11 (2,5%) |
| F70 - Conjuntivite | 8 (1,8%) |
| R81 - Pneumonia | 7 (1,6%) |
| R75 - Sinusite | 4 (0,9%) |
| R77 - Laringite/Traqueíte | 3 (0,7%) |
| Outras patologias | 37 (8,5%) |
Apenas 12 inquiridos (3%) admite ter dado antibiótico sem receita médica ao seu filho; no entanto, 5% admite ser fácil para si fazê-lo. Na maioria das situações, foi o farmacêutico a indicá-lo (54,5%). Administrar antibiótico sem receita médica e admitir ser fácil adquiri-lo relativamente a ter ou não subsistema/seguro de saúde é estatisticamente significativo (teste Chi2, p<0,001, Tabela 2), sendo independente para as outras variáveis sociodemográficas em estudo.
Adesão Terapêutica
O cumprimento das recomendações na administração de antibioterapia prescrita atingiu quase 100% (100% para o número de dias e horas de intervalo entre as tomas; e 99% para cuidados a ter durante a toma), com 100% dos inquiridos a revelar que lhe foram dadas as informações sobre o número de dias, as horas e o intervalo de tomas, e com apenas 7% a revelar que não lhe foram dadas indicações sobre os cuidados a ter na toma. Desta forma, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (teste Chi2) entre o cumprimento das indicações sobre antibioterapia e as variáveis sociodemográficas em estudo (p >0,05).
Conhecimentos, crenças e comportamentos sobre antibioterapia
Nas respostas às questões para analisar o conhecimento, crenças e comportamentos dos inquiridos sobre antibioterapia, as questões com pior pontuação pertencem ao grupo dos conhecimentos (questões Q11 e Q15 sobre antibioterapia e o tratamento para infeções víricas e a influência no sistema imunitário), ao passo que as que obtiveram melhor pontuação pertencem ao grupo dos comportamentos (questões Q10 e Q12 sobre automedicação com antibioterapia por perceção de necessidade e conhecimento próprio ou por indicação de amigos, vizinhos ou familiares, Tabela S1 - Anexo 3).
Da análise estatística destas questões relativamente às variáveis sociodemográficas, foram selecionadas 5 questões representativas e habitualmente apresentadas na literatura (Tabela 5). Os dados restantes podem ser consultados na Tabela S2 (Anexo 3). Os indivíduos com maior nível de escolaridade e profissões diferenciadas (“Colarinhos Brancos”) demonstram conhecimentos e atitudes mais consistentes sobre antibioterapia (Kruskal-Wallis, p <0,05). À medida que avançamos no nível de escolaridade, vamos obtendo scores mais altos, e o mesmo se passa quando olhamos para os “Colarinhos Brancos” versus “Colarinhos Azuis”.
Tabela 5: Conhecimentos, Crenças e Comportamentos sobre Antibioterapia - pontuações obtidas (médias ± desvio padrão (DP)) de acordo com as variáveis sociodemográficas sob escala de 1 a 5 (5 = pontuação máxima) em 5 questões selecionadas e representativas sobre antibioterapia das 15 questões aplicadas à amostra em estudo (teste Kruskal-Wallis ou Mann-Whitney, p = 0,05; diferenças significativas realçadas a negrito)
| Questões selecionadas (n) | Faixa Etária média ± DP valor p | Género média ± DP valor p | Estado Civil média ± DP valor p | Situação Laboral média ± DP valor p | Escolaridade média ± DP valor p | “Colarinhos” média ± DP valor p |
| Q2. Quando o meu filho está constipado e vai a uma consulta, o médico deve receitar antibiótico para que se cure mais rapidamente. (n = 427) | A. <35 anos 3,94 ± 1,31 B. [35-44 anos] 4,22 ± 1,19 C. ≥ 45 anos 4,12 ± 1,32 p = 0,176 | A. Feminino 4,17 ± 1,24 B. Masculino 3,77 ± 1,30 p = 0,006 | A. Casado/U. Facto 4,18 ± 1,21 B. Divorciado 4,56 ± 0,89 C. Solteiro 3,81 ± 1,34 p = 0,006 | A. Ativo 4,19 ± 1,20 B. Desempregado 3,49 ± 1,51 C. Outro 4,60 ± 0,84 p = 0,004 | A. 1º ciclo 3,33 ± 1,97 B. 2º/3º ciclo 3,49 ± 1,49 C. Secundário 3,90 ± 1,28 D. Superior 4,59 ± 0,82 p < 0,001 | A. Branco 4,42 ± 0,99 B. Azul 3,54 ± 1,45 p < 0,001 |
| Q8. Sempre que uma criança tem febre deve tomar antibiótico para que a doença não se agrave. (n = 428) | A. <35 anos 4,14 ± 1,25 B. [35-44 anos] 4,49 ± 0,97 C. ≥ 45 anos 4,19 ± 1,19 p = 0,033 | A. Feminino 4,39 ± 1,09 B. Masculino 3,98 ± 1,17 p < 0,001 | A. Casado/U. Facto 4,44 ± 1,02 B. Divorciado 4,44 ± 1,21 C. Solteiro 3,95 ± 1,27 p = 0,001 | A. Ativo 4,39 ± 1,05 B. Desempregado 3,85 ± 1,42 C. Outro 4,80 ± 0,42 p = 0,012 | A. 1º ciclo 2,83 ± 1,17 B. 2º/3º ciclo 3,73 ± 1,31 C. Secundário 4,20 ± 1,20 D. Superior 4,73 ± 0,70 p < 0,001 | A. Branco 4,61 ± 0,84 B. Azul 3,74 ± 1,36 p < 0,001 |
| Q9. Posso administrar antibiótico sem receita médica ao meu filho se for aconselhado pelo farmacêutico. (n = 427) | A. <35 anos 4,58 ± 0,91 B. [35-44 anos] 4,69 ± 0,79 C. ≥ 45 anos 4,40 ± 1,05 p = 0,103 | A. Feminino 4,64 ± 0,84 B. Masculino 4,45 ± 1,00 p = 0,065 | A. Casado/U. Facto 4,66 ± 0,84 B. Divorciado 4,69 ± 0,61 C. Solteiro 4,43 ± 1,01 p = 0,102 | A. Ativo 4,63 ± 0,87 B. Desempregado 4,45 ± 0,95 C. Outro 4,80 ± 0,63 p = 0,183 | A. 1º ciclo 3,60 ± 1,52 B. 2º/3º ciclo 4,48 ± 1,00 C. Secundário 4,54 ± 0,93 D. Superior 4,75 ± 0,72 p = 0,003 | A. Branco 4,70 ± 0,80 B. Azul 4,47 ± 0,97 p = 0,002 |
| Q11. Os antibióticos servem para tratar infecções por vírus. (n = 425) | A. <35 anos 3,34 ± 1,57 B. [35-44 anos] 3,71 ± 1,53 C. ≥ 45 anos 3,62 ± 1,42 p = 0,143 | A. Feminino 3,66 ± 1,53 B. Masculino 3,05 ± 1,53 p = 0,004 | A. Casado/U. Facto 3,63 ± 1,55 B. Divorciado 3,88 ± 1,46 C. Solteiro 3,27 ± 1,50 p = 0,148 | A. Ativo 3,68 ± 1,53 B. Desempregado 2,81 ± 1,48 C. Outro 3,60 ± 1,27 p = 0,001 | A. 1º ciclo 2,50 ± 2,12 B. 2º/3º ciclo 2,60 ± 1,46 C. Secundário 3,11 ± 1,62 D. Superior 4,37 ± 1,09 p < 0,001 | A. Branco 3,88 ± 1,43 B. Azul 3,12 ± 1,56 p < 0,001 |
| Q13. Se o meu filho ficar melhor, posso reduzir a dose ou parar a administração do antibiótico. (n = 428) | A. <35 anos 4,63 ± 0,92 B. [35-44 anos] 4,76 ± 0,71 C. ≥ 45 anos 4,56 ± 0,89 p = 0,168 | A. Feminino 4,73 ± 0,78 B. Masculino 4,47 ± 0,98 p = 0,007 | A. Casado/U. Facto 4,76 ± 0,67 B. Divorciado 4,75 ± 0,78 C. Solteiro 4,45 ± 1,18 p = 0,031 | A. Ativo 4,73 ± 0,75 B. Desempregado 4,36 ± 1,18 C. Outro 5,00 ± 0,00 p = 0,021 | A. 1º ciclo 3,83 ± 1,47 B. 2º/3º ciclo 4,45 ± 1,17 C. Secundário 4,66 ± 0,80 D. Superior 4,85 ± 0,53 p = 0,002 | A. Branco 4,83 ± 0,58 B. Azul 4,48 ± 1,01 p < 0,001 |
Destaca-se ainda o género feminino com pontuações mais altas na maioria das questões (questões Q1, Q2, Q7, Q8, Q6, Q11, Q13 e Q14, Mann-Whitney, p <0,05), em especial nas pertencentes ao grupo das crenças. Por outro lado, diferenças entre faixa etária, estado civil e situação laboral são significativas apenas para uma minoria de questões (questões Kruskal-Wallis, p <0,05), também estas a recair sobre o grupo das crenças.
Discussão
No presente estudo, a prevalência de automedicação (sem receita/indicação médica) em idade pediátrica foi de 56%, ligeiramente inferior aos dados encontrados na literatura nacional (64%)9,13 e internacional (73%),11,12
sendo independente dos fatores sociodemográficos. Porém, o foco do estudo em patologia respiratória aguda e a sua realização durante os meses de Verão poderá ter influenciado estes resultados. As principais razões para a automedicação com MSRM sem indicação médica foram a perceção dos pais de que o problema de saúde era simples ou semelhante a doenças anteriores, bem como a facilidade de acesso à medicação, o que vai de encontro a outros estudos semelhantes a nível nacional e internacional.4,5,11-15 Os medicamentos mais utilizados em automedicação foram analgésicos, anti-inflamatórios e anti-histamínicos, consistentes com os fármacos mais referidos nesses estudos.11-15
Quanto à antibioterapia, o presente estudo revelou uma excelente adesão terapêutica, com quase 100% dos pais a cumprir com as recomendações médicas, o que vai de encontro ao estudo de Dias.14 Apenas 3% dos pais automedicaram os seus filhos com antibióticos sem prescrição médica, um valor semelhante ao também encontrado nesse estudo (4,4% em pediatria),14) mas inferior aos dados de automedicação com antibióticos em adultos, que chegam a 18,9% em alguns estudos nacionais.16,18,19 A literatura internacional4,21,22,24,25 também aponta uma menor prevalência de automedicação com antibióticos em crianças em comparação aos adultos, refletindo maior cautela no uso de antibióticos nessa faixa etária. Curiosamente, no presente estudo, usufruir de outro subsistema/seguro de saúde mostrou estar associado à automedicação com antibiótico e à sua facilidade de aquisição, indo contra ao anteriormente observado por Dias.14 Pelo acesso mais facilitado à consulta médica, seria expectável uma menor percentagem de automedicação com antibioterapia nos inquiridos com outro subsistema/seguro de saúde, mas observámos o oposto: 10 dos 12 inquiridos que admitiram ter automedicado os filhos com antibiótico usufruíam especificamente de um seguro de saúde.
Dados de estudos internacionais mostram que ter subsistema/seguro de saúde não é, por si só, um fator de risco direto para a automedicação com antibióticos em crianças, mas que poderá contribuir indiretamente para a mesma por haver maior recorrência a consultas e eventualmente maior disponibilidade de antibióticos em casa (sobras) e maior confiança no uso “conhecido” de antibióticos, com base em prescrições anteriores e doença semelhante.26,27
Quando praticada de forma responsável, a automedicação pode trazer benefícios como redução dos sintomas, menor recurso aos cuidados de saúde e redução dos custos de tratamento de doenças leves. No entanto, quando inadequada, pode resultar em efeitos adversos, interações medicamentosas, risco de intoxicação e diagnóstico tardio, aumentando os custos de saúde e complicando a abordagem terapêutica. No estudo de Belo et al,9 por exemplo, a automedicação inadequada em crianças e adolescentes incluiu o uso de medicamentos sem eficácia comprovada e doses incorretas, levando a casos com potencial toxicidade, embora as reações adversas tenham sido raras (1,4%).
Resultados de estudos semelhantes, realizados internacionalmente4,21,22,24,25,28
mas também no nosso país,9,14,16-19,29 mostram que alguns fatores sociodemográficos, como a escolaridade e nível socioeconómico, também influenciam os conhecimentos, crenças e atitudes dos pais sobre a terapêutica antibiótica e a prática da automedicação. A educação para a saúde desempenha, portanto, um papel crucial. Lopes et al16 referiram que utentes com maior escolaridade tinham melhores conhecimentos sobre a utilização de antibióticos.
Já nos estudos de Ramalhinho et al18,19 e Dias,14 realizados no Algarve, o uso adequado de antibióticos foi mais frequente no género feminino, idade entre 35 e 49 anos, maior grau de escolaridade e profissão intelectual.
No presente estudo, também se verificou que indivíduos com profissões intelectuais, maior escolaridade e do género feminino apresentaram conhecimentos e comportamentos mais consistentes sobre antibioterapia, o que está em linha com a literatura.14,16,18,19
Embora a amostra inclua uma população rural, a proximidade com Lisboa traz uma maior diversidade profissional.
Além disso, as mães foram, na sua maioria, as responsáveis por trazer as crianças às consultas, o que pode introduzir um viés de representatividade. Apesar da amostra se revelar uniforme nas respostas em todos os concelhos estudados, apontamos como outra limitação neste estudo a falta de representatividade do concelho da Azambuja.
De um modo geral, os dados nacionais sobre automedicação e uso de antibióticos em idade pediátrica ainda são escassos, destacando-se a necessidade de mais estudos nesta área. A promoção de campanhas de educação para a saúde é fundamental para instruir a população sobre a automedicação responsável e o uso adequado de antibióticos. Este estudo poderá contribuir para uma compreensão mais aprofundada da automedicação pediátrica em Portugal e auxiliar na criação de estratégias educativas que promovam o uso racional de medicamentos, especialmente antibióticos, em crianças. No âmbito deste estudo, foram criados dois folhetos informativos sobre antibioterapia e automedicação para campanhas de educação para a saúde na ULS-ET (Anexo 4).
Conclusão
Este estudo evidencia que a automedicação em idade pediátrica continua a ser uma prática comum em Portugal, embora com prevalência inferior à observada noutros contextos nacionais e internacionais. A escolha pelos MNSRM, como analgésicos, anti-inflamatórios e anti-histamínicos, mostra uma tendência já identificada na literatura, fundamentada na perceção parental de familiaridade com a doença e na facilidade de acesso a medicamentos. Contudo, a automedicação com antibióticos revelou-se excecionalmente rara, o que reflete uma atitude de maior prudência por parte dos cuidadores em relação a este grupo terapêutico. A quase inexistência de automedicação com antibióticos pode ser explicada, em parte, pelo rigor da legislação portuguesa que impede a venda de antibióticos sem receita médica, bem como pela crescente consciência dos riscos associados ao seu uso indevido. Destaca-se ainda o nível elevado de adesão às orientações médicas no presente estudo.
A relação encontrada entre escolaridade, profissão e conhecimentos/atitudes mais consistentes sobre o uso de antibióticos reforça o papel fundamental da educação para a saúde na prevenção do uso inadequado de medicamentos. Ainda que a automedicação com MNSRM possa ter benefícios pontuais, sublinha-se a importância de reforçar a literacia em saúde para o uso responsável de todos os medicamentos, com especial atenção à antibioterapia, mesmo entre populações com melhor acesso aos cuidados médicos.













