Introdução
A COVID-19 é uma infeção viral emergente, causada pelo vírus SARS-CoV-2, que se iniciou como um surto com sintomas respiratórios baixos inexplicados, na cidade de Wuhan, na China, em dezembro de 2019.1
A infeção por SARS-CoV-2 foi declarada como uma infeção viral pandémica pela Organização Mundial de Saúde em 11 de março de 2020.2
As manifestações clínicas mais comuns incluem febre, astenia, mialgias, cefaleias, diarreia, tosse seca, dispneia que poderá levar à síndrome de insuficiência respiratória aguda e morte.2
Além destes sintomas mais conhecidos, vários casos clínicos de lesões cutâneas acrais, semelhantes a frieiras clássicas, foram relatados em todo o mundo numa maior taxa do que se verificava antes da pandemia, tornando-se uma das manifestações cutâneas mais frequentemente relatadas. Também conhecidas como lesões semelhantes a frieiras ou dedos COVID, estas lesões cutâneas são descritas como máculas, pápulas e/ou vesículas eritematosas a purpúricas roxas que envolvem predominantemente os pés e, em menor grau, as mãos. Estas lesões tendem a afetar principalmente pacientes sem sintomas sistémicos ou evidentes de COVID-19, tendo-se, na verdade, vindo a verificar que os pacientes com tais lesões são menos propensos a desenvolver doença grave.3
A condição pós-COVID-19 é uma entidade com atingimento multiorgânico, frequentemente associada a um conjunto de sintomas heterogéneos, que podem persistir, surgir ou recorrer após o quadro agudo.4
O propósito da apresentação deste caso clínico é a partilha de um potencial diagnóstico diferencial de lesões semelhantes a frieiras, que poderão estar associadas a complicações pós-infeção pelo vírus SARS-CoV-2.
Caso clínico
O caso clínico retrata um utente do sexo masculino, de 50 anos de idade, raça caucasiana, casado, com dois filhos, que integra uma família nuclear na fase V do ciclo de vida de Duvall.
O doente não tem nenhum antecedente pessoal de relevo e não faz qualquer medicação crónica. Não é conhecedor de nenhum tipo de alergia e não tem hábitos de risco (álcool, tabaco, drogas e jogo). Relativamente aos antecedentes familiares, estes são irrelevantes para o caso clínico em questão.
Integrou a nossa lista de utentes e começou a ser seguido nesta USF em fevereiro de 2022. Recorre a uma primeira consulta de Saúde de Adultos (11/03/2022), onde descreve alteração da coloração dos dedos das mãos (lesões avermelhadas e arroxeadas), associada a edema e poliartralgias nas articulações metacarpofalângicas e interfalângicas. Refere ainda hiperalgesia e sensibilidade ao calor em ambas as mãos, tendo negado prurido. Simultaneamente, refere essas mesmas lesões avermelhadas e arroxeadas e edema nos primeiros dedos dos pés, bilateralmente. Estas lesões duraram aproximadamente 10 dias e remitiram sem qualquer tipo de tratamento. Menciona que o frio não despoleta estas lesões, uma vez que toma banho com água fria todos os dias e as lesões remitem espontaneamente.
Nega também associação com toma de fármacos ou outras comorbilidades. Nega ter tido episódios semelhantes a este no passado. Associa estes sintomas à infeção por SARS-CoV-2, com a qual foi diagnosticado duas semanas antes do aparecimento destes, através de um teste PCR (polimerase chain reaction) à COVID-19. A infeção aguda por SARS-CoV-2 foi totalmente assintomática e apenas realizou o teste PCR por ser contacto de risco da esposa e filhos que demonstraram alguns sintomas e estavam infetados (confirmação por testes PCR). O exame objetivo completo efetuado na consulta demonstrou-se sem qualquer alteração. As lesões não estavam presentes, mas o utente tinha consigo algumas fotografias destas que nos mostrou (Figs.1 A e B)
De acordo com as fotografias apresentadas pelo utente, as lesões pareciam tratar-se de máculas/pápulas eritematosas e purpúricas, semelhantes a frieiras. Para excluir uma possível etiologia autoimune ou distúrbio da coagulação foram solicitados vários exames complementares de diagnóstico. Exames complementares de diagnóstico e terapêutica (ECDTs): hemograma com plaquetas; glicemia; colesterol total; colesterol HDL; triglicerídeos; proteína C reativa; velocidade de sedimentação (VS); creatinina; ureia; ácido úrico; TGO; TGP; GGT; estudo da coagulação; eletroforese das proteínas; desidrogenase lática (DHL); D-dímeros; ferritina; fator reumatoide; anticorpos antinucleares; anticorpos anti-DNA nativo (DS-DNA); anticorpos anti-péptidos citrulinados (CCP); HLA B27 e urina II, que o utente trouxe na consulta seguinte.
Regressa a uma consulta subsequente passadas aproximadamente 3 semanas (30/03/2022), onde foram analisados os ECDTs, salientando-se apenas TGO discretamente elevada: TGO = 44 (15-37). Entre estas duas consultas, os sintomas voltaram e remitiram novamente, tendo o utente trazido mais fotografias das suas mãos (Figs. 2 A e B).
Nesta consulta foi solicitado um novo ECDT para complementar o estudo, uma capilaroscopia, cujo resultado foi normal.
Perante a anamnese, sinais e sintomas apresentados e a sua respetiva conexão temporal com a infeção por COVID-19, e após a investigação de outras possíveis etiologias nomeadamente do foro autoimune e da coagulação, foi colocada a hipótese de os sintomas apresentados serem uma condição pós-COVID, ou seja, lesões cutâneas semelhantes a frieiras ou dedos COVID.
Passado precisamente um ano (03/2023), o utente volta a relatar o aparecimento das lesões e a sua remissão sem qualquer tipo de tratamento (Figs. 3 A e B).
Perante este diagnóstico e desconhecendo ainda a patofisiologia desta condição, o seu prognóstico é incerto e o tratamento desconhecido, pensando-se que possa responder a anti-inflamatórios não esteroides tópicos e modificações ambientais.5
Discussão
A COVID-19 é uma infeção viral caracterizada por febre, sintomas respiratórios baixos e manifestações gastrointestinais. Além destes sintomas, estudos recentes relatam vários tipos de manifestações cutâneas coincidentes com a infeção por SARS-CoV-2,1 entre elas os dedos COVID.
A patofisiologia desta manifestação cutânea ainda não foi confirmada, mas alguns especialistas sugerem que representa uma complicação da infeção pelo SARS-CoV-2 ligeira a moderada e que dura em média 12 dias, ou pode persistir ao longo de semanas.5
Os pontos fortes deste relato de caso foram a autonomia do utente, que desde logo captou fotograficamente as lesões cutâneas, e o Médico de Família como gestor de cuidados ao integrar a procura do diagnóstico, gerindo as ansiedades e expectativas do utente.
As limitações na condução deste relato de caso foram o facto de as manifestações cutâneas terem sido autolimitadas e, portanto, quando o utente se deslocava à consulta estas já não estavam presentes e, também o não acesso fácil a biópsias cutâneas para comprovar se os achados histológicos estariam de acordo com os descritos na literatura (infiltrados linfocíticos superficiais e profundos perivasculares e peri-ácrinos).6
Apesar de 21% dos infetados por COVID-19 só relatarem problemas cutâneos, esta condição tornou-se pro gressivamente menos frequentemente associada à vacinação e proteção constituída por infeções anteriores.1

















