O cancro do pulmão é a principal causa de morte por cancro a nível mundial.1
A sobrevida relativa aos três anos de doença tem aumentado, atribuindo-se ao progresso nos testes de rastreio e tratamentos dirigidos.2
A doença metastática é frequente, sendo o osso um dos locais mais comuns de metástase por cancro do pulmão.3,4
Descrevemos um caso de metástase óssea como apresentação de adenocarcinoma do pulmão (estadio IV - cT3Nx1b), em doente do sexo masculino de 56 anos. Não apresentava patologias conhecidas e tinha história de tabagismo ativo (40 UMAs) e consumo de álcool. Recorreu a consulta por queixas de dor localizada à coxa direita (escala visual da dor 6/10), com um mês de evolução; sem história de trauma ou queda. Foi assumido quadro de dor muscular e iniciado anti-inflamatório oral. À reavaliação, após 10 dias, apurou-se manutenção da dor com agravamento noturno; restante exame objetivo dentro da normalidade. A radiografia do membro revelou lesão femoral com reação perióstica. A tomografia computorizada (TC), realizada posteriormente, descreveu lesão óssea no terço intermédio da diáfise femoral, com componente radiolucente/osteolítico dominante, de bordo mal definido, coexistindo três pequenas nodularidades osteolíticas na cortical óssea adjacente (Fig. 1-A).

Figura 1: Lesão óssea em TC e radiografia do membro inferior direito (A) e lesões pulmonares em TC torax (B), compatíveis com metástases ósseas e pulmonares e lesão primária pulmonar.
Assumindo como mais provável lesão secundária iniciou-se investigação da etiologia primária, com realização de TC tóraco-abdomino-pélvica que revelou nódulos líticos expansivos nas 4ª e 11ª costelas à esquerda e lesões ocupantes de espaço no lobo médio do hemicampo pulmonar direito (Fig. 1-B).
Foi referenciado a consulta hospitalar de pneumologia e ortopedia. No âmbito dos cuidados de saúde primários, além do controlo da dor e apoio na cessação tabágica, o médico de família manteve o seguimento próximo do utente e apoio na adaptação à doença, nomeadamente gestão da ansiedade individual e familiar associada.
Após investigação diagnóstica, foi dado como diagnóstico Adenocarcinoma do pulmão com metástases pulmonares, ósseas e do sistema nervoso central. Iniciou terapêutica dirigida com Osimertinib e manteve vigilância.
Em resumo, descrevemos um caso de adenocarcinoma pulmonar, que se manifestou apenas por dor no membro inferior com agravamento noturno.
Este caso ilustra a importância do diagnóstico diferencial de dor musculoesquelética, motivo comum de consulta em Cuidados de Saúde Primários,5 e a valorização de sinais de alarme na orientação de uma investigação diagnóstica célere.
Com o aumento da incidência de doenças oncológicas, os médicos de família desempenham um papel essencial no reconhecimento e identificação de manifestações atípicas destas doenças, garantindo a referenciação rápida aos cuidados hospitalares.













