Introdução
A genética influencia diversas características humanas além dos aspectos físicos, incluindo aspectos subjetivos como percepções e comportamentos. Como forma universal de expressão emocional e identidade pessoal, a música se apresenta como um campo promissor para investigar como os indivíduos percebem e respondem a estímulos sonoros. Embora a percepção musical seja fortemente associada ao ambiente cultural e às experiências individuais, crescem as evidências de que fatores genéticos também desempenham um papel nessa resposta (Seesjärvi et al., 2016).
Segundo Freitas et al. (2012), a hereditariedade define limites dentro dos quais certas características podem se desenvolver, enquanto o ambiente atua como modulador, podendo potencializar ou restringir esse desenvolvimento. Estudos com gêmeos são especialmente úteis para diferenciar influências genéticas e ambientais, considerando que gêmeos monozigóticos compartilham 100% dos genes, enquanto os dizigóticos compartilham cerca de 50%, similar a irmãos comuns (Fernandes, 2021; Plomin & Simpson (2013; Segal, 2012). Essa diferença possibilita avaliar o grau em que a genética contribui para a percepção musical.
Pesquisas como a de McGue e Bouchard (1998) destacam que múltiplos fatores, sociais, comportamentais, psicológicos e biológicos, atuam de forma combinada no desenvolvimento de características perceptivas, como a percepção musical. Assim, a presença de uma predisposição genética não é suficiente para garantir que gêmeos, mesmo monozigóticos, compartilhem as mesmas percepções musicais. Fatores como o ambiente pré-natal também podem influenciar o desenvolvimento comportamental, gerando variação na percepção musical entre pares de gêmeos (Gartstein & Skinner, 2018).
Gêmeos criados no mesmo ambiente, como apontado por Austerberry et al. (2022), compartilham não apenas o material genético, mas também valores, experiências e interações sociais, fatores que também podem influenciar na percepção musical. No entanto, pesquisas indicam que, mesmo sob condições ambientais semelhantes, gêmeos podem desenvolver percepções musicais distintas, evidenciando a complexa interação entre fatores genéticos e ambientais (Freitas et al., 2012; Oliver & Plomin, 2007).
Desse modo, o presente estudo tem como objetivo investigar a herdabilidade da percepção musical em uma amostra de gêmeos do Norte de Minas Gerais. Por meio de uma abordagem quantitativa, foram aplicados questionários para avaliar cinco dimensões da percepção musical: animação, tristeza, incomumidade, agradabilidade e determinação. A partir da análise desses dados, busca-se compreender o grau de influência genética na formação da percepção musical, bem como explorar a interação entre hereditariedade e ambiente.
Método
Tipo de estudo
Este estudo adota uma abordagem metodológica descritiva, de natureza mista, integrando análises quantitativas com observações qualitativas baseadas em questionários estruturados. A investigação foi realizada com gêmeos residentes no Norte de Minas Gerais, utilizando-se o nome materno como critério de verificação para o pareamento correto entre os participantes.
Amostra e técnicas de amostragem
A amostra foi composta por gêmeos residentes no Norte de Minas Gerais. O critério adotado para assegurar a correta identificação e o pareamento dos gêmeos foi o nome materno, o que garantiu a fidedignidade das comparações realizadas.
Instrumentos
A coleta de dados foi realizada por meio de questionários validados, disponibilizados na plataforma Google Forms. O instrumento aplicado consistiu em cinco escalas Likert específicas, amplamente empregadas em pesquisas psicológicas e sociais para mensurar atitudes, opiniões e comportamentos subjetivos. No presente estudo, essas escalas foram utilizadas para avaliar a percepção musical em diferentes dimensões:
Escala de Animação da Música, variando de 1 (“Nada animado”) a 5 (“Muito animado”), com o objetivo de avaliar o grau de energia ou entusiasmo percebido pelos participantes;
Escala de Tristeza da Música, variando de 1 (“Nada triste”) a 5 (“Muito triste”), destinada a medir a intensidade emocional de tristeza transmitida pela música;
Escala de Incomumidade da Música, variando de 1 (“Muito comum”) a 5 (“Muito incomum”), aplicada para avaliar a singularidade ou originalidade percebida;
Escala de Agradabilidade da Música, variando de 1 (“Nada agradável”) a 5 (“Muito agradável”), voltada para mensurar o grau de satisfação ou prazer proporcionado;
Escala de Determinação da Música, variando de 1 (“Nenhuma determinação”) a 5 (“Muita determinação”), utilizada para capturar a percepção de força motivacional ou inspiração evocada pela música.
Procedimentos
Os questionários foram aplicados virtualmente por meio da plataforma Google Forms, em formato anônimo. Esse procedimento garantiu tanto a proteção da identidade dos participantes quanto a obtenção de respostas confiáveis, permitindo também a aplicação simultânea aos pares de gêmeos, o que favoreceu as análises comparativas planejadas.
Análise de dados
Os dados coletados foram inicialmente organizados em planilha eletrônica do Microsoft Excel (versão 2010) e, posteriormente, importados para o software EpiInfo (versão 2007) para análise estatística. Estimou-se a herdabilidade média das características avaliadas utilizando o índice de correlação intraclasse (ICC), por meio da fórmula clássica: h2=2×(rMZ−rDZ), em que rMZ representa a correlação intraclasse entre gêmeos monozigóticos e rDZ, a correlação entre gêmeos dizigóticos. O uso ICC justifica-se por sua adequação na avaliação do grau de similaridade entre medidas contínuas ou ordinais obtidas de indivíduos pareados, como no caso de estudos com gêmeos. O ICC permite estimar a proporção da variância total atribuível às diferenças entre pares, sendo amplamente empregado em estudos de herdabilidade por possibilitar a comparação direta da concordância entre gêmeos monozigóticos e dizigóticos (Shrout & Fleiss, 1979). Essa abordagem permitiu inferir a magnitude da influência genética nas percepções musicais analisadas.
Foi utilizado ainda, o coeficiente Kappa de Cohen para avaliar a concordância entre as respostas dos pares de gêmeos, considerando tanto os monozigóticos quanto os dizigóticos. Foram calculadas as médias do coeficiente Kappa por grupo de zigosidade e também uma média global para todos os pares.
O coeficiente Kappa foi aplicado com diferentes objetivos: comparar as associações entre as respostas dos gêmeos e de seus respectivos co-gêmeos, verificar a concordância entre as respostas dos pares de gêmeos para cada item do questionário e comparar a classificação da zigosidade com base nas respostas obtidas.
Considerações éticas
Os aspectos éticos foram rigorosamente observados em conformidade com as diretrizes do Ofício 02/2021 - CONEP/SECNS/MS, assegurando a proteção, a segurança e os direitos dos participantes em ambiente virtual. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) e aprovado sob o protocolo número 5.825.312.
Resultados
Este estudo buscou explorar a influência genética e ambiental sobre a percepção musical em gêmeos, e os resultados obtidos fornecem insights significativos.
Os resultados deste estudo revelaram uma correlação substancial entre as preferências musicais de gêmeos monozigóticos, evidenciada por um coeficiente Kappa médio de 0,808 e a variabilidade no ICC, oscilando entre .059 e 1.0 (Tabela 1). Indicam um elevado nível de concordância entre as respostas dos gêmeos monozigóticos em todas as variáveis musicais analisadas por escalas de Likert.
Tabela 1: Resultados das percepções musicais avaliadas por escalas de Likert para gêmeos monozigóticos.

Nota: ICC - Coeficiente de Correlação Intraclasse.
Tabela 2: Resultados das percepções musicais avaliadas por escalas de Likert para gêmeos dizigóticos.

Nota: ICC - Coeficiente de Correlação Intraclasse.
Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC)
Os gêmeos monozigóticos demonstraram uma variabilidade no ICC, oscilando entre .059 e 1.0. Vários pares de gêmeos monozigóticos exibiram um ICC perfeito (1.0), sugerindo uma completa concordância em suas respostas às escalas de Likert. Em contraste, os gêmeos dizigóticos exibiram ICCs variando de .484 a .871, com uma média geral de .7054 (Tabelas 1 e 2).
Análise dos Coeficientes Kappa
A análise detalhada dos coeficientes Kappa revelou uma variação de .333 a 1.0 entre os gêmeos monozigóticos, com uma média de .808. Vários pares de gêmeos monozigóticos apresentaram coeficientes Kappa perfeitos (1.0), indicando uma total concordância nas suas respostas. Entre os gêmeos dizigóticos, os coeficientes Kappa variaram de .333 a .736, com uma média de .568. Os pares Dz4A e Dz4B exibiram o menor coeficiente (.333) (Tabelas 1 e 2).
Cálculo da Herdabilidade
Utilizando a fórmula padrão para herdabilidade, baseada nos coeficientes de correlação intraclasse dos gêmeos monozigóticos (MZ) e dizigóticos (DZ) (h2=2×(rMZ−rDZ)h2 = 2 \times (r_{MZ} - r_{DZ})), obteve-se uma herdabilidade média de 16.74% (h2=2×(.7891−.7054)=.1674h2 = 2 \times (.7891 - .7054) = .1674). Estes resultados indicam que 16.74% da variação na percepção musical entre os indivíduos pode ser atribuída a fatores genéticos, enquanto os restantes 83.26% são atribuídos a fatores ambientais.
Discussão
Os dados sintetizados na Tabela 1 mostram que a fadiga mental, induzida predominantemente pela tarefa de Stroop, tende a influenciar o desempenho no ciclismo sobretudo por vias perceptivo-comportamentais, embora o sentido e a magnitude dos efeitos variem em função do tipo de prova, do contexto experimental e das características da amostra. Em Salam et al. (2018), a fadiga mental aumentou a percepção subjetiva de esforço e reduziu o parâmetro W, sem alterar significativamente a potência crítica. Este padrão sugere que a fadiga mental afeta mais fortemente a tolerância ao exercício em intensidades acima de um limiar sustentável do que a capacidade aeróbia sustentada em si, o que é compatível com modelos psicobiológicos que enfatizam a decisão de persistir e a interpretação do custo do esforço como determinantes do término do exercício.
Em contraste, Custem et al. (2017) observaram um aumento da perceção subjetiva de esforço em ambas as condições, sem evidência clara de piora específica associada à fadiga mental. Uma explicação plausível é que o stress térmico do protocolo (30 °C) tenha elevado a carga perceptiva de modo relativamente independente da manipulação cognitiva, reduzindo a sensibilidade para detetar diferenças entre condições e favorecendo um “efeito teto” na perceção de esforço. Além disso, o formato de contrarrelógio com duração definida pode permitir maior autorregulação do ritmo, levando a ajustes de pacing que preservam a percepção de esforço reportada, mesmo quando o desempenho mecânico ou a eficiência do esforço é afetada.
A inconsistência entre estudos relativamente à perceção subjetiva de esforço torna-se mais compreensível quando se considera que a ausência de diferenças na PSE não implica ausência de efeito da fadiga mental. Brown e Bray (2019) reportaram PSE equivalente entre as condições, mas demonstraram que a disponibilização de biofeedback da frequência cardíaca acentuou o impacto negativo da fadiga mental, levando os participantes a reduzir a intensidade do exercício. Este resultado sugere que, em contexto de fadiga mental, pistas externas de autorregulação fisiológica podem orientar decisões mais conservadoras de pacing, alterando o comportamento de esforço sem necessariamente modificar a PSE. De modo semelhante, Filipas et al. (2019) não identificaram alteração direta na PSE, mas observaram uma relação PSE/potência mais elevada após a tarefa mental exigente, indicando um maior “custo perceptivo” para a mesma produção de potência. Assim, em protocolos com duração fixa, a fadiga mental pode manifestar-se como menor potência para um esforço percebido semelhante, em vez de se traduzir invariavelmente em PSE mais elevada. Em conjunto, os resultados da Tabela 1 apontam para a relevância de moderadores metodológicos, como a duração/intensidade da tarefa cognitiva, o tipo de teste físico (tempo até à exaustão vs. contrarrelógio), o ambiente (p. ex., calor) e a presença de feedback fisiológico, na determinação do impacto observado da fadiga mental no ciclismo.
Os dados apresentados na Tabela 2 indicam que, no futebol, a fadiga mental produz efeitos particularmente robustos sobre variáveis técnico-táticas e decisórias, com consequências que podem ocorrer mesmo quando as métricas globais de deslocamento não diminuem de forma consistente. Em Coutinho et al. (2018), a fadiga mental foi acompanhada de aumento da perceção subjetiva de esforço, redução da distância total percorrida e diminuição da sincronização longitudinal, sugerindo que a carga mental elevada pode comprometer simultaneamente a disponibilidade para sustentar o esforço e a coordenação coletiva. Em Trecoci et al. (2020), verificou-se uma diminuição da precisão do passe e do drible, bem como da distância em aceleração por minuto, o que aponta para um impacto em ações de elevada relevância competitiva, uma vez que acelerações e mudanças de velocidade frequentemente estão associadas a momentos decisivos do jogo. Em Gantois et al. (2020), a fadiga mental prejudicou a tomada de decisão nos passes durante um jogo de treino com regras oficiais, o que reforça a interpretação de que a fadiga mental afeta processos de atenção, seleção de informações e decisão sob pressão temporal, com repercussão direta na eficácia das acções.
Importa notar que Kunrath et al. (2020) reportaram maior distância total e maior velocidade média na condição de fadiga mental, concomitantemente com uma redução do campo de visão e diminuição da precisão ofensiva e defensiva. Este resultado sugere que a fadiga mental não se manifesta necessariamente como um menor volume de corrida, podendo, antes, alterar a eficiência e a funcionalidade do deslocamento. Isto é, o jogador pode mover-se mais, mas com pior perceção do ambiente, pior ajustamento posicional e menor qualidade de execução, o que culmina em um desempenho coletivo menos eficaz. Em Filipas et al. (2021), a fadiga mental aumentou a perceção subjetiva de esforço e piorou o desempenho no Loughborough Soccer Passing Test, evidenciado por maior tempo de penalização e maior tempo total de performance, enquanto não houve efeitos claros no Loughborough Soccer Shooting Test. Esta dissociação sugere que tarefas com maior carga cognitiva e decisional, que exigem precisão e seleção rápida de respostas, podem ser mais sensíveis à fadiga mental do que tarefas mais restritas ou de menor exigência de processamento de informação. Em síntese, os resultados da Tabela 2 indicam que a fadiga mental no futebol compromete sobretudo a qualidade técnico-decisional e a organização coletiva, enquanto os efeitos sobre indicadores físicos globais podem variar conforme o formato da tarefa, as regras do jogo reduzido e as características da amostra.
Comparando as duas modalidades, os dados sugerem que, no ciclismo, a fadiga mental manifesta-se com frequência através de alterações na autorregulação do esforço e na tolerância ao desconforto, o que pode aparecer como redução de trabalho acima do limiar, menor intensidade escolhida ou maior custo perceptivo por unidade de potência (Brown & Bray, 2019; Filipas et al., 2019; Salam et al., 2018). No futebol, por se tratar de uma modalidade aberta e altamente dependente de processamento de informação, a fadiga mental tende a produzir efeitos mais diretamente observáveis em componentes de tomada de decisão, precisão técnica e coordenação tática, podendo coexistir com padrões de deslocamento que não diminuem necessariamente e, em alguns casos, até aumentam, mas com menor eficácia global (Gantois et al., 2020; Kunrath et al., 2020; Trecoci et al., 2020). Estas diferenças reforçam a necessidade de interpretar a influência da fadiga mental à luz das exigências específicas da tarefa e da modalidade, bem como de utilizar medidas que captem não apenas o volume de esforço, mas também a qualidade e a eficiência do desempenho.
Conclusão
A fadiga mental influencia o desempenho físico dos jogadores de futebol, pois provoca uma maior percepção de esforço e, consequentemente, estes percorrem uma menor distância no campo. Além disso, a fadiga mental influencia o desempenho tático e técnico, nomeadamente a precisão na tomada de decisão dos passes nos dribles. No caso do ciclismo, os ciclistas mentalmente fadigados também reduziram o desempenho. A perceção subjetiva do esforço não aumentou em todos os estudos. Provavelmente o motivo foi que quando estavam fadigados mentalmente, os ciclistas tendem a aumentar a cadência do pedal e com isso diminuem a potência de saída da pedalada, fazendo com que o desempenho seja menor e quando diminuem o desempenho, a perceção do esforço tende a diminuir também. Para futuros estudos, sugere-se um maior enfoque no impacto do estilo de vida, do tempo passado no smartphone pelo atleta e do tempo dedicado a jogar videojogos na performance física e técnica dos atletas, visto que são atividades que podem facilmente induzir fadiga mental.













