1. Memória Descritiva
TERRA: Paisaje Valenciano en el Guadalquivir1 (TERRA: Paisagem Valenciana no Guadalquivir) é um projeto fotográfico que nasce da necessidade pessoal e coletiva de preservar a memória de uma comunidade rural vinculada às marismas do Guadalquivir, Isla Mayor (Sevilha), um território marcado pela tradição agrícola, especialmente a cultura do arroz. Enraizado em uma experiência familiar, o projeto parte da influência dos meus avós e antepassados, do vínculo telúrico e vitalício que compartilhavam.
O projeto se configura como um arquivo visual que busca recuperar e manter vivas as vozes, os gestos e os vestígios daqueles que habitam - e habitaram - essa paisagem. Assim, TERRA se apresenta como uma prática artística que explora a memória a partir de uma perspetiva afetiva e poética, onde as imagens funcionam como símbolos que transcendem o documental, para construir um espaço de resistência frente ao esquecimento e à homogeneização cultural.
Uma das chaves estéticas e conceituais do projeto é a elaboração de uma série fotográfica em chave mágico-realista. O realismo mágico é um movimento que surge no início do século XX na literatura ibero-americana. Em relação à realidade, tem-se dito que este movimento oferece um novo ângulo de visão, assim como se trata de uma atitude perante ela ou de uma distância narrativa entre o narrador e a história. Também tem sido definido como uma perspetiva mítica, que não distingue o mágico do real; a identificação do extraordinário como real - ou vice-versa. No que diz respeito à lógica narrativa, fala-se de um regresso à pré-lógica, à construção de um universo sem sentido, que não estranha os elementos fantásticos, mas sim os normaliza. Em última instância, trata-se de familiarizar o mágico, naturalizar o estranho, sem apresentar qualquer tipo de justificação (Llarena, 1993). Como acontece na famosa cena (Figura 1) de Amanece, que No Es Poco (Amanhece, o que Não É Pouca Coisa; Cuerda, 1989).

Fonte. Retirado de Amanece, que No Es Poco, por J. L. Cuerda, 1989, 00:27:15
Figura 1 Fotograma de Amanece, que No Es Poco
Ao longo do projeto, os retratos são construídos como alegorias visuais, onde a terra, as ferramentas agrícolas e os símbolos religiosos tornam-se signos que dialogam entre si, com a história pessoal e coletiva.
Em suma, este projeto não é apenas uma coleção de fotografias, mas um arquivo emocional construído como um ato de resistência frente ao esquecimento, à despossessão e à homogeneização. Através do retrato fotográfico - elemento central deste projeto - busca-se preservar e valorizar a memória de uma comunidade rural específica, revelando os vínculos afetivos e simbólicos entre as pessoas e a terra que habitam. A encenação fotográfica não retira veracidade, mas amplia e torna visíveis aspectos invisíveis como o luto, a fé, a pertença e a herança, vinculando a prática artística à memória viva de uma comunidade.
Esse arquivo íntimo, pessoal e mágico pretende ser um convite a olhar com outros olhos a paisagem e seu povo, onde a terra não é apenas um espaço físico, mas um lugar sagrado de enraizamento, pertença e memória coletiva.
2. Ensaio
Para definir o “realismo mágico”, primeiro devemos esclarecer o que é o “realismo” e o que entendemos por “magia”. Definir realismo é simples: trata-se da expressão artística que busca imitar a realidade. Mas, o que acontece quando a essa palavra se soma “mágico”? O mágico, em sua acepção comum, é a arte ou o saber que pretende dominar os seres ou as forças da natureza e produzir, por meio de certas práticas e fórmulas, efeitos contrários às leis naturais (Chiampi, 1983). Em relação à realidade, tem-se dito que o realismo mágico oferece um novo ângulo de
visão, sendo também considerado uma atitude perante a própria realidade ou uma distância narrativa entre o narrador e a história. Foi igualmente definido como uma perspetiva mítica, que não distingue o mágico do real; uma identificação do extraordinário como real - ou vice-versa. No que diz respeito à lógica narrativa, fala-se de um regresso à pré-lógica, à construção de um universo sem sentido que não estranha os elementos fantásticos, mas antes os normaliza. Em suma, trata-se de familiarizar o mágico, naturalizar o estranho, sem apresentar qualquer tipo de justificação (Llarena, 1993).
Desde seu surgimento, existem duas posturas: aqueles que consideram que o realismo mágico é exclusivo da literatura e aqueles que acreditam que pode ser transferido para outras culturas e disciplinas artísticas (Hurley, 2013). Esse movimento tem início na pintura, se populariza na literatura e, por fim, é transposto para outras linguagens artísticas, como a fotografia. Além disso, alguns fotógrafos contemporâneos cujas obras podem dialogar com a estética do realismo mágico incluem Graciela Iturbide, conhecida por suas imagens que combinam o cotidiano com o simbólico e o mítico; Charles Fréger, cujos retratos frequentemente exploram identidades coletivas e rituais com uma forte componente visual quase fantástica; e Alec Soth, que em seus retratos e paisagens captura atmosferas evocativas e narrativas que transcendem a realidade imediata. Essa transposição do realismo mágico para o meio fotográfico permite explorar novas formas de narrar a memória e a identidade. É justamente nesse contexto que desenvolvi o projeto fotográfico TERRA, um projeto fotográfico que emerge da necessidade de retratar e preservar a memória coletiva e íntima de uma comunidade rural profundamente ligada à agricultura do arroz na Andaluzia. Por meio de retratos cuidadosamente compostos, TERRA recupera as vozes e os gestos cotidianos de uma comunidade da e para a terra. Cada retrato é uma alegoria, uma construção visual em chave mágico-realista, que permite refletir a espiritualidade, a devoção, a herança e a resistência daqueles que habitam esse território.
A primeira fotografia do projeto, "Terrateniente" (Latifundário; Figura 2)2, marcou seu início em 2019. Nela, meu avô Antonio Ferri aparece meio enterrado, apoiado em sua bengala. A imagem sugere sua fusão com a terra que cultivou, sua proximidade com a morte e a dignidade com que observa seus campos. Como o avô Irigibel em Vacas (Medem, 1992), parece habitar ambos os mundos: o dos vivos e o dos mortos. Essa imagem, como tantas outras, nasce de uma necessidade inconsciente e seus significados emergem com o tempo. A magia se manifesta na reação do espectador, surpreendido pelo impossível mostrado com naturalidade.
Foi justamente a ele a quem dediquei minha tese de doutoramento, uma figura central no meu trabalho. A tese, intitulada A Este Lado Vacas, al Otro Lado TERRA. La Semiótica del Paisaje Mito-Mágico de Julio Medem y Reminiscencias en la Producción Propia (A Este Lado Vacas, ao Outro Lado TERRA. A Semiótica da Paisagem Mito-Mágica de Julio Medem e Reminiscências em Produção Própria; Palacios-Ferri, 2025), aborda o realismo mágico no âmbito da paisagem rural, tanto no cinema quanto na fotografia. Faço um paralelo entre o filme Vacas e o meu projeto fotográfico TERRA, explorando como ambos constroem narrativas visuais que refletem a memória, a identidade e a relação profunda com a terra através do realismo mágico.
Sou como a pequena Cristina de Vacas, que acompanha seu avô na floresta e constrói, sob seus cuidados, um celeiro de ramos e palha. Sou aquela menina que cresce, que continua imersa na floresta; sou o legado em carne e osso que ele deixou em mim; sou aquela mulher que ainda é menina, a mesma que acompanhou seu avô até a floresta, para que ele pudesse morrer onde queria; agora ele é floresta e um dia ela também será. Em Cristina encontro a Alicia curiosa - assim como a Alicia de Lewis Carroll, pela qual fui apelidada - que tentava compreender o mestre que tinha ao seu lado e receber toda sua sabedoria, enquanto fosse possível. No olhar do avô Irigibel encontro o olhar do meu avô; o olhar de quem vê além do que seus olhos enxergam, de quem concentra todo seu universo na paisagem e, agora, esse olhar vive em mim. (Palacios-Ferri, 2025, p. 584)
Os espectadores que tiveram a oportunidade de ver essa fotografia pela primeira vez ficaram estupefatos, pois há algo nela que não pertence à nossa normalidade cotidiana. Aquele senhor, de chapéu e com o rosto machucado, parece estar afundado na terra. É aí, nessa estranha inserção na terra, que se esconde a magia. Essa fotografia poderia ter sido uma fotografia qualquer; a fotografia de um agricultor veterano sorridente mostrando o fruto do seu trabalho. Mas eu quis ir além; quis registrar seu vínculo telúrico por meio de uma imagem poética.
O trabalho agrícola, em muitas ocasiões, aparece na vida do agricultor como uma herança que lhe é dada. Neste caso, o modelo é meu tio paterno, Julio Daniel Palacios, que protagoniza duas fotografias que giram em torno da mesma temática (Figura 3 e Figura 4): a herança. Embora Julio tenha conhecimentos e formação em serralheria, destacando-se por suas virtudes artesanais, dedicou-se durante toda a sua vida à agricultura, pois esta lhe foi apresentada como legado.
Nessas imagens, observamos o modelo posando sobre alguns elementos que compunham sua paisagem cotidiana. Como na Figura 3, em que olha para a câmera enquanto segura com suas mãos de agricultor - com habilidades de serralheiro - o volante de um dos tratores mais antigos de toda a Andaluzia. Na Figura 4, as rodas de um trator espalhadas pelo terreno funcionam como pedestal de uma figura que se ergue como uma escultura inerte. São pneus de vários metros de circunferência que parecem ter se acostumado tanto à terra onde repousam, que a grama cresce em seu interior. Ele sobe sobre elas, como eu mesma fazia durante minha infância, encontrando nesse pisar resistente - mas traiçoeiro - o prazer de uma brincadeira.
Encontramos, em ambos os casos, provas físicas de uma herança vital. Uma remete a uma agricultura antiga e a outra a uma contemporânea. Não se trata apenas de um agricultor sobre rodas de trator jogadas na terra nos olhando fixamente - há algo naquela postura que nos convida a imaginar histórias, a sentir que há uma herança ali, um gesto antigo que resiste no presente.
Eis aí aquela magia da qual falávamos anteriormente: a normalidade de seu rosto pode nos levar a pensar que aquilo que está fazendo diante de nós é algo habitual para ele, embora na realidade não seja. Essa tensão entre o comum e o extraordinário, entre o gesto natural e o cenário quase onírico, é justamente o que nos aproxima do realismo mágico. A cena parece possível, mas carrega uma densidade simbólica que transcende a realidade visível.
Suas poses sobre esses objetos - por um lado, o trator, que se tornou uma relíquia e, por outro, objetos que talvez um dia adquiram estatuto de relíquia - servem para expressar sua realidade. A de alguém que, com as mãos próximas de um pedaço de ferro, é capaz de fazer magia, mas que acabou exercendo o ofício da herança mais bonita de todas: cultivar as terras que um dia seu pai cultivou com as próprias mãos, e que, um dia, seu avô também cultivou.
A produção de arroz também é a causa de outras profissões. Uma delas é a que inspirou a fotografia seguinte (Figura 5). Miguel Ferrer, proveniente de El Palmar (Valência), dedicou sua vida à agricultura, mas também ao trabalho de tecer redes para pescar caranguejos. Ao pensar em como uma pessoa se viu imersa numa atividade artesanal tão trabalhosa durante toda a vida, a imagem surgiu, mais uma vez, sem avisar. Miguel e Vicenta posaram com total naturalidade, presos - mas livres - sob uma das tantas redes que foram tecidas sob o teto de sua casa. Retratei-os envolvidos pela paisagem que os viu prosperar e onde tantas vezes pousaram seus olhos e suas mãos.
Esta imagem é claramente mágico-realista e não deixa ninguém indiferente. No entanto, seguindo a proposta de definição deste termo - apresentar algo fora do normal com total normalidade -, devemos destacar algo: ao explicar-lhes a ideia, ao me aproximar deles com a tarrafa que o próprio Miguel havia tecido com suas mãos; ao cobri-los completamente com ela, não hesitaram em momento algum. Não perguntaram o porquê, nem sugeriram outra encenação mais convencional, ao contrário, acolheram o inusitado com a naturalidade de quem já viveu o suficiente para saber que a realidade também pode ser fantástica. Assumiram a magia daquela imagem com a normalidade de quem vive a magia diariamente. Em TERRA também se fala de amor, fé e devoção.
Esse é o caso de “María de Sales” (Figura 6): imagem alegórica em homenagem à minha avó materna. A protagonista da imagem é minha tia María de Sales, irmã da minha mãe. Durante toda a minha vida, pensei que era um nome comum. Mas estava muito longe de ser. Diz a lenda que, há mais de 600 anos, um lavrador chamado Andrés de Sales i Ferri encontrou a imagem da Virgem e esta herdou seu nome, sendo conhecida como a Virgem de Sales, cuja festividade é celebrada todos os anos no dia 8 de setembro. Como a irmã do meu avô também se chama Sales, presumi que o nome da minha tia fosse herança; estava novamente enganada. Minha avó era jovem e inexperiente. No seu primeiro parto passou tanto medo e dor que - segundo suas palavras - “entregou-se à sua Virgem”: se a menina nascesse saudável, levaria seu nome. Assim, minha tia leva o nome da devoção que minha avó sentia. Devoção essa que não se desfez nem um pouco, apesar do tempo e da distância. A devoção por essa Virgem fez com que centenas de mulheres levem seu nome e que uma réplica dela fosse feita para trazê-la às marismas do Guadalquivir. Uma das questões que abordo nesta fotografia é a forma como a cultura valenciana também se refletiu nos nomes. Neste caso, no nome Sales.
Inicialmente, a oportunidade de fotografar a réplica da Virgem - que está guardada e protegida por seus fiéis - na igreja do povoado de Alfonso XIII, a poucos 4 km de Isla Mayor, ocupava meus pensamentos. Mas soube que essa imagem seria demasiado evidente. Por outro lado, no meu caderno de campo, uma das tantas estampas da Virgem de Sales que minha avó guardava com tanto fervor estava colada com fita adesiva em uma das folhas. Eu sabia que, de alguma forma, refletiria através da paisagem a história que queria contar.
Finalmente, em um entardecer de setembro - quando o arroz já começava a dourar - consegui o que na minha mente havia se desenhado com tanto detalhe e nitidez. Nela, observamos três figuras femininas indispensáveis na minha vida: à esquerda, minha prima mais velha, Miriam Sabaté; no centro, a indiscutível protagonista, minha tia Sales Ferri e à direita, minha mãe, Vicenta Ferri, que desta vez trocou seu papel de eterna assistente de fotografia pelo de modelo. Nos braços da minha tia, e ocupando o papel de menino Jesus, está meu sobrinho Hipólito Viana.
As figuras centrais são emolduradas por um arco elaborado com ramos de palmeira. Estes fazem alusão aos que são levados como oferenda à Virgem de Sueca, no dia 8 de setembro. Nas mãos da minha tia, o cajado que imita o que a Virgem original segura, embora muito menos ornamentado. É, além disso, o mesmo cajado presente na primeira imagem resultante deste projeto: o cajado que meu avô segura em “Terrateniente”. De alguma forma, sua presença serve para homenagear seu dono, que já não está mais conosco.
A magia, mais uma vez, se infiltra na imagem e se apresenta sob a forma de enormes ramos de palmeira - que foram cuidadosamente escolhidos e cortados para esta tomada -, que servem como um arco natural que protege, sob ele, uma figura que remete a uma estampa colada com fita adesiva em um caderno de campo. Também está nas posturas solícitas de suas portadoras, em um manto colocado sobre os ombros que faz o papel de capa e imita uma capa de veludo vermelho com bordados dourados, e em uma criança que, pela primeira vez em todo o dia, permanece quieta olhando para a câmera.
Todas as pessoas que estavam diante da câmera, assim como as que estávamos do outro lado, conhecíamos a minha avó e fomos testemunhas de sua devoção à Virgem. Uma enorme imagem da Virgem ficava na entrada de casa dela; a quem rezava toda vez que meu avô ameaçava partir, e também era por ela que, todo mês de setembro, pegávamos o carro para percorrer 700 km de distância. Nesta fotografia, talvez, minha avó não apareça, mas está presente em cada pequeno canto.
De uma alegoria viajamos para outra; de uma imagem bíblica para uma política: o escudo da Andaluzia. Essa imagem nasce da reivindicação. Soube que faltava uma fotografia neste projeto; uma fotografia que reivindicasse a Andaluzia. Lembrei então desse escudo (Figura 7), que um dia em sua casa Blas Infante desenhou e que todos os andaluzes já colorimos alguma vez na escola, no final de fevereiro3. Precisava de um Hércules, dois leões e um arco que os acolhesse, e percebi que os tinha bem à minha frente. Foi assim que, para a elaboração dessa fotografia, tomei como modelo meu tio David Ferri, irmão da minha mãe (Figura 8). Ele é o meu Hércules. Sua pele é feita de cascas de arroz e seu cabelo de capim. Suas veias são afluentes do Guadalquivir e sua carne, terra úmida. Ele é protetor e guardião. Sorri quando chove e chora quando o céu não chove.

Fonte. La Sexta. (https://www.lasexta.com/viajestic/curioso/razon-que-hercules-sale-escudo-andalucia_2024022865df0b37566e5f00019526ee.html)
Figura 7 Bandeira da Andaluzia
Assim, em cada retrato, o olhar rural se transforma em um limiar entre o comum e o estranho, entre o visível e o invisível - exatamente como propõe o realismo mágico: uma realidade que não se rompe, mas se expande, abrindo espaço para o extraordinário dentro do cotidiano. TERRA, na sua junção do rural com o mágico, nos oferece um olhar que não apenas observa, mas também honra, ressignifica o cotidiano e semeia, revelando a magia oculta na vida simples e transformando o ordinário em algo extraordinário.










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