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Análise Social

versión impresa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.240 Lisboa set. 2021  Epub 30-Sep-2021

https://doi.org/10.31447/as00032573.2021240.05 

Artigos

Um bairro negro para a estratégia olímpica do Rio de Janeiro - empreendedorismo urbano, essencialismo e conflitos sociopolíticos no Brasil contemporâneo.

A black neighbourhood for Rio de Janeiro’s Olympic strategy - urban entrepreneurship, essentialism and socio-political conflicts in contemporary Brazil.

João Felipe Pereira Brito1 
http://orcid.org/0000-0001-5752-9560

1 UTH - Urban Transitions Hub, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa. Avenida Professor Aníbal de Bettencourt, 9 - 1600-189 Lisboa, Portugal. brito.jfp@gmail.com


Resumo

Durante o seu ciclo olímpico (2009-2016), num momento histórico em que governos e agentes privados de todo o mundo buscavam superar os efeitos de uma grave crise económica evidenciada justamente na relação entre capitais financeiros e a urbanização, a cidade do Rio de Janeiro recebeu avultados investimentos para políticas urbanas. O bairro Madureira, representado pelas suas tradições afro-brasileiras, foi um lugar privilegiado para esses investimentos e fundamental para a compreensão da eficácia de curto prazo desse projeto de cidade e dos seus conflitos e reviravoltas políticas decorrentes. O objetivo deste artigo é apresentar razões, ações e omissões para a implementação desse projeto de cidade, com as suas potencialidades, contradições e os seus efeitos imediatos.

Palavras-chave: reabilitação urbana; investimentos simbólicos; Rio de Janeiro olímpico; Política brasileira contemporânea

Abstract

During its Olympic cycle (2009-2016), at a historic moment in which governments and private agents around the world sought to overcome the effects of a serious economic crisis evidenced precisely in the relationship between financial capital and urbanization, the city of Rio de Janeiro received huge investments for urban policies. The Madureira neighbourhood, represented by its Afro-Brazilian traditions, was a privileged place for these investments and fundamental for understanding the short-term effectiveness of this city project and its resulting conflicts and political twists. The objective of this article is to present reasons, actions and omissions for the implementation of this city project, with its potentials, contradictions and its immediate effects.

Keywords: urban rehabilitation; symbolic investments; Olympic Rio de Janeiro; contemporary Brazilian politics

Introdução

O presente artigo baseia-se em pesquisa recente sobre as transformações sociourbanas ocorridas no bairro Madureira, situado na zona norte do Rio de Janeiro, durante o ciclo olímpico vivido por esta cidade.1 Em 2009, o Rio vivia o seu primeiro ano de uma nova administração municipal e já tinha em perspectiva, para a década seguinte, a organização da cimeira mundial sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável Rio+20, em 2012, e a Copa do Mundo FIFA, em 2014. No entanto, em outubro daquele ano, a cidade foi escolhida pelo Comité Olímpico Internacional como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 e isso criou um ambiente ainda mais favorável para a sua visibilidade, para a atração e organização de outros megaeventos (como a Jornada Mundial da Juventude, em 2013) e para a chegada de novos investimentos. É justamente o período entre 2009 e 2016, aquele que coincide com os dois mandatos de um mesmo prefeito, que chamo de “ciclo olímpico”, um momento histórico de intensas mudanças urbanísticas e de aquecimento político e cultural da cidade do Rio de Janeiro - experimentado especialmente em algumas de suas regiões e bairros, como Madureira.

Quanto às condições globais em que o presente estudo se encaixa, importa salientar que os anos subsequentes à grave crise dos mercados financeiros em 2007-2008 demonstraram mudanças significativas nos caminhos do investimento e da acumulação capitalista em todo o mundo. No entanto, desde as últimas décadas do século XX, a transformação das cidades, a produção do urbano, a reabilitação e a refuncionalização de áreas citadinas outrora esvaziadas e degradadas já estavam a absorver excedentes de capital e, com isso, pressionavam governos, coligações de poder e agentes de diferentes escalas a remodelar o ordenamento jurídico e os projetos de desenvolvimento local em muitas cidades do planeta, especialmente naquelas mais dependentes dos fluxos globais da economia capitalista. Tratava-se da ideia de Logan e Molotch (1987) de cidades como “máquinas de crescimento” e de Harvey (2005) sobre a “virada empreendedorista” de governos locais.

A crise no final da primeira década do século XXI, desencadeada justamente pelos efeitos da desregulação dos mercados de crédito imobiliário nas cidades dos EUA, em vez de abrandar serviu como alavanca para aquela tendência, propiciando em urbes de diferentes histórias e configurações sociopolíticas uma nova rodada global do “ajuste espacial urbano” (Harvey, 2005), a manutenção da reprodução do capital a partir de processos de urbanização (Harvey, 2008; Mendes, 2017).

Este foi o caso do Rio de Janeiro no ciclo olímpico, capital dos megaeventos e de experimentações de políticas urbanas e urbanísticas num Brasil, àquela altura com uma economia pujante e forte presença estatal em planeamento e ações para a geração de empregos e aceleração do crescimento económico (Rolnik, 2015; Souza, 2018; Bella, 2019). Madureira, o bairro em questão, foi uma das áreas mais dinamizadas na urbe carioca neste período histórico. Contudo, foi também um caso de reabilitação urbana cheio de especificidades que ajudam a compreensão de processos políticos atuais da cidade e do próprio país.

Comecei a colher informações específicas sobre as grandes intervenções públicas que vinham ocorrendo no lugar em 2012, no início dos meus estudos doutorais. Àquela altura, chamavam-me a atenção as intervenções Parque Madureira, enorme área de lazer e atividades culturais que seria inaugurada em junho de 2012, e o novo corredor de transporte rodoviário BRT Transcarioca 2 , cujas obras de desapropriação de imóveis para alargamento das vias por onde ele passaria também já tinham começado. Neste momento, eu já trabalhava com a hipótese de que essas intervenções expressavam o que alguns autores chamam de “âncora” urbanística, um “importante investimento inicial do Estado para criar uma perspectiva de valorização atraente para os investidores privados” (Fix, 2000, p. 5).

Com o avanço de leituras e observações, fui percebendo que algumas representações sociais sobre o bairro, construídas a partir de fragmentos da realidade, com memórias e tradições selecionadas, estavam sendo apropriadas pelo poder público, especialmente pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, e também por empresas e outros agentes coletivos e individuais, locais e não--locais. De uma maneira geral, esta seleção de características e sua apropriação discursiva buscavam valorizar as culturas e tradições negras, ou afro-brasileiras, presentes no território do bairro, minimizando estigmas e maximizando o prestígio de algumas instituições e práticas locais que eram socialmente reconhecidas. Como demonstrarei mais adiante, esse esforço por essencialismo e investimento simbólico sobre o bairro fazia parte de uma estratégia político- -económica sobre aquilo que Gonçalves (2014, p. 12) chama “feitiço que determinada geografia da autenticidade exerce sobre nós”.

Assim, o objetivo desta pesquisa foi tentar compreender “Por quê Madureira?” e “Quais os efeitos dessas tranformações para o bairro e para a cidade?”. Para tanto, fiz uso de métodos quantitativos e qualitativos diversos. O texto que aqui segue é uma tentativa de sintetizar as principais observações e conclusões deste trabalho de quatro anos, descrito em profundidade na minha tese de doutorado (Brito, 2016).

No curto prazo, o resultado observado de maior destaque foi a reabilitação dessa centralidade urbana a partir da ligação de interesses económicos a elementos simbólicos, identitários e político-eleitorais fundamentais para a conjuntura histórica do Rio de Janeiro e do Brasil no ciclo olímpico. Porém, muitas contradições, negligenciamentos e conflitos também foram observados no bairro Madureira e serão aqui demonstrados. Em certa medida, estes efeitos não esperados pelo planeamento estratégico contribuem para a compreensão da ascensão, já em 2016, do bloco político conservador nos valores e costumes, ultraliberal na economia e armamentista que assumiu a Prefeitura do Rio após os Jogos e que ainda controla o Governo do Estado do RJ e o Governo Federal do Brasil.

Madureira e seu território: campo e objeto

O bairro Madureira tem um perímetro oficial de 3,8 km² e uma população de 50106 habitantes. Ele é a sede da XV RA (Região Administrativa) municipal, que conta com mais 12 bairros e um total de 372 555 residentes.3 Esta é uma região histórica e hegemonicamente ocupada por populações de rendimentos médios a baixos, com favelas localizadas nos muitos morros do revelo local e com algumas famílias de comerciantes e prestadores de serviços locais mais abastadas. Na segunda metade do século XX, Madureira e o seu entorno experimentaram significativo adensamento demográfico e comercial. Destaca-se ainda pela existência de duas linhas ferroviárias cercadas por altos muros, por inúmeras linhas de autocarros, pelo intenso fluxo de veículos de transporte alternativo (vans e mototáxis) e por uma degradação da paisagem evidenciada na má conservação de muitas vias, calçadas, casas, instituições e áreas públicas. Por ser uma centralidade comercial e de transportes da metrópole (ver Mapa 1) desde a primeira metade do século XX, circulam por Madureira todos os dias centenas de milhares de pessoas, entre residentes, trabalhadores, estudantes, consumidores e visitantes.

Por conta das duas ferrovias que cortam o seu território, a “Linha Santa Cruz/Japeri” e a “Linha Belford Roxo”, ambas administradas atualmente pela empresa de capital privado Supervia, o bairro possui “três lados”, diferentes nas suas paisagens e usos hegemónicos. São eles: lado 1) “lado do Mercadão”, assim chamado porque é nele que se situa o “Mercadão de Madureira”, instituição de lojas comerciais populares, com vendas no varejo e no atacado, de grande reconhecimento social e que há mais de um século atrai consumidores de toda a região metropolitana; lado 2) é o trecho central do bairro, conhecido também como “lado da Portela”, pois é onde se situa a sede da sua instituição associativa e cultural mais significativa, o “Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela”; e o lado 3) conhecido como “lado do Patriarca”, porque ali se encontra a “Praça do Patriarca”, centralidade local e ponto nodal importante para os fluxos do lugar.

O lado “do Mercadão” sempre foi, historicamente, o lado menos abastado de Madureira. É o lado das maiores e mais antigas comunidades de população negra da região (Fernandes, 2001, p. 60) e também das suas favelas mais conhecidas, como o morro da Serrinha. Esta favela possui expressivo “ património cultural”, manifestado “especialmente através da música e religião” (Barros, 2007, p. 126). Na Serrinha teve origem a outra escola de samba tradicional do bairro, a “Império Serrano”. É ainda o lugar em que melhor se resguarda na cidade a tradição do jongo 4 , dança relacionada com rituais de religiões de matrizes africanas que se tornou património cultural imaterial do Brasil no ano 2005.

Até ao ciclo olímpico, este era o lado do bairro com imóveis mais deteriorados e baratos, em que a presença de moradores de rua era mais evidente. Conflitos entre os grupos armados de traficantes de drogas ilícitas localizados nestas favelas trouxeram uma grande sensação de insegurança para moradores, trabalhadores e transeuntes deste lado, sendo recorrentes os tiroteios, operações policiais e mortes violentas ao longo das últimas décadas. Em 2012, já durante o ciclo olímpico, o governo estadual prometeu uma Unidade de Polícia Pacificadora para esta área, mas tal promessa não se concretizou.5

O lado “da Portela”, central, é destacadamente o mais denso e visitado. Caracteriza-se pelos vários quarteirões destinados exclusivamente a prédios de escritórios, lojas e galerias comerciais, além do grande e destacado Madureira Shopping. Neste lado foi construído o Parque Madureira, paralelo à Linha Belford Roxo, que se estende pelo bairro vizinho Oswaldo Cruz - patrimonializado junto a Madureira pela Prefeitura, em 2011, como “bairros temáticos do samba” (RJ, 2011), especialmente pela presença da quadra (sede e espaço de eventos) e da comunidade da Portela. Também estão neste lado a ONG “CUFA” (Central Única das Favelas), o “Espaço Rio Charme” (equipamento de lazer criado sob o viaduto Negrão de Lima, que liga os três lados do bairro) e a quadra da escola de samba Império Serrano.

Por fim, há o lado “do Patriarca”, onde se encontra o clube dos comerciários, SESC, mais importante espaço de eventos artísticos do bairro. Também há neste lado a antiga quadra da pequena escola de samba “Tradição”, que foi transformada num moderno espaço de shows musicais, e a “UPA Madureira”, “unidade de pronto atendimento” médico que funciona dia e noite, contruída pela Prefeitura do Rio em 2010 e bastante procurada por moradores e trabalhadores da região.

Mapa 1 Município do Rio de Janeiro e sua região metropolitana, com destaque para a área da XV RA - Madureira. Nota: O eixo A-B-C é o percurso do BRT Transcarioca, que tem 39 km e 45 estações. Ponto A: o aeroporto internacional do Galeão; ponto B: a estação BRT Mercadão de Madureira; ponto C: o terminal dos BRT no bairro Barra da Tijuca, principal cluster dos Jogos Olímpicos. Fonte: Google Maps, 2020. 

Mapa 2 O bairro Madureira e arredores. Nota: O eixo nordeste-sul é o BRT Transcarioca. O eixo A-B é a ciclovia que cobre internamente todo o primeiro trecho inaugurado do Parque Madureira e que possui 4 km de extensão. Ponto do “lado do Mercadão”: A - Centro Cultural Casa do Jongo, na favela da Serrinha. Pontos do “lado Portela”: B - Quadra da Portela; C - Quadra da Império Serrano; D - CUFA e Espaço Rio Charme, sob o viaduto Negrão de Lima. Ponto do “lado Patriarca”: E - Praça do Patriarca. Fonte: Google Maps, 2020. 

Cabe ainda sublinhar que, nos três lados do bairro, são notórias as inúmeras igrejas católicas e evangélicas de diversas denominações. Quanto às paróquias católicas, destacam-se as igrejas de São Brás, do Santo Sepulcro e de São Luiz Gonzaga, além da capela de São José no alto do morro de mesmo nome, um dos ícones do bairro. No entanto, impressionam pela quantidade e pela centralidade em praças e avenidas os templos evangélicos, de denominações tradicionais, como as igrejas Presbiteriana, Batista e Metodista, e das neopentecostais, como a Internacional da Graça de Deus e a Universal do Reino de Deus. Alguns destes templos são tão antigos quanto a própria centralidade urbana de Madureira. A igreja Assembleia de Deus, por exemplo, maior denominação evangélica do Brasil em número de fiéis, tem em Madureira a sua catedral e sede do seu maior segmento nacional: o Ministério de Madureira. No sítio desta igreja na internet há informações e fotos sobre a formação da comunidade de fiéis e a construção do templo na década de 1950. Contudo, essa significativa presença evangélica no bairro e na sua região de entorno foi completamente ignorada nas representações oficiais nesse seu recente período de valorização.

Essa breve descrição territorial de Madureira era fundamental porque a chegada das grandes obras para instalação do Parque Madureira e do BRT Transcarioca mudou, e continuou a mudar, a sua configuração socioespacial. Entretanto, as primeiras ações da Prefeitura do Rio que demonstraram o seu crescente e especial interesse sobre o bairro e o seu ordenamento territorial foram através do “Choque de Ordem”, conjunto de práticas disciplinadoras e quase sempre violentas realizadas por agentes da Secretaria de Ordem Pública e da Guarda Municipal. Tratava-se da preparação do território por um “dispositivo de segurança” (Foucault, 2008), com os aspectos foucaultianos essenciais na sua formulação e aplicação: o estabelecimento de acontecimentos prováveis, reações do poder a partir de cálculos de custo, instauração de uma divisão binária entre o permitido e o proibido (ibid., p. 9). Estas ações tinham os espaços públicos como cenário e como alvos principais as construções irregulares em praças, que foram destruídas, e os “camelôs”, vendedores ambulantes que, após resistências e confrontos com os agentes públicos, foram expulsos de calçadas e vias e reordenados em “camelódromos” organizados pela Prefeitura.6

No lado da Portela, um imenso terreno pertencente à empresa de energia elétrica da cidade também passou por um reordenamento agressivo. Ali havia uma favela chamada “Vila das Torres”, paralela à Linha Belford Roxo e contígua a pequenas propriedades agrícolas familiares que, com permissão da empresa de energia, ocupavam aquela área há quase um século, guardando o solo e impedindo construções de alvenaria sob as torres de alta tensão. O Parque Madureira foi construído exatamente nesta área, com um realinhamento lateral das torres de energia após a destruição de aproximadamente 960 casas e realocação das famílias da Vila das Torres e também daquelas que subsistiam com agricultura urbana (ver Imagem 1) em bairros muito distantes. Estes antigos moradores, movimentos sociais e pesquisadores afirmam que a Prefeitura do Rio não cumpriu os acordos que fizera com essas famílias, como a sua permanência no próprio bairro, em novas moradias que seriam construídas para reassentamento, de forma que pudessem manter as sociabilidades que ali estabeleceram por toda vida e usufruir dos melhoramentos que, enfim, chegavam.7

O parque madureira

A inauguração do Parque Madureira, em junho de 2012, foi divulgada como um “legado de sustentabilidade” do evento Rio+20. O secretário geral da ONU para a conferência, Sha Zukang, compareceu à inauguração e, ao lado dos eufóricos prefeito e governador, parabenizou a cidade pelo seu novo equipamento de lazer e bem-estar (ver Imagem 2).8

Extenso, seguro, bem iluminado e construído com parâmetros de arquitetura sustentável, o Parque já possuía no seu primeiro trecho aberto ao público vários quiosques para venda de lanches e bebidas alcoólicas, quadras desportivas, ciclovia, aluguer de bicicletas, lagos, uma pequena praia artificial com cascatas e a maior e mais completa pista de skate da cidade. Desde então, vem recebendo constantes eventos desportivos e musicais e, até hoje, permanece bem conservado. Tornou-se, imediatamente, o maior ponto de encontro e de lazer do bairro e da sua região de entorno. Foi nele que o prefeito da cidade comemorou a sua reeleição num primeiro turno nas eleições municipais, em outubro de 2012. Em toda a sua campanha eleitoral, o Parque Madureira foi utilizado pela propaganda de Eduardo Paes, o prefeito-candidato, como um símbolo do bem-estar que ele prometia para a cidade no seu segundo mandato. Porém, nada se falou sobre as remoções que acompanharam a sua construção.

O funcionamento desse valioso equipamento reconfigurou as moradias e os negócios ao seu redor. As habitações das ruas adjacentes tinham os fundos voltados para aquela área, que antes era escura e indesejada. Após o Parque, estas casas valorizaram-se e abriram portas e janelas na sua direção. Muitas foram reformadas, construíram terraços, embelezaram fachadas e calçadas. Muros dessas casas tornaram-se chamativos painéis de pinturas em grafitti, revelando a visibilidade que adquiriram com o Parque. Outras tornaram-se pontos comerciais, com música e venda de comida e bebida para os frequentadores. Na estrada do Portela, principal via do lado central e paralela ao Parque, novas lojas (lanchonetes, pizzarias, de roupas) também foram instaladas e renovaram a antiga zona comercial.

Com a chegada do Parque, as temporalidades do bairro também foram transformadas. As noites de segunda a sábado e os domingos absorveram os percursos de jovens, famílias, grupos de trabalhadores locais e visitantes que passaram a utilizar o Parque para encontros boémios e celebração de aniversários, práticas desportivas e mesmo reuniões de grupos cristãos. Com esses novos fluxos, outros eventos musicais e culturais despontaram no lado central do bairro, vazios foram ocupados, ruas que eram ermas à noite receberam movimento, paradas de autocarros outrora inseguras tornaram-se viáveis. As próprias estações ferroviárias foram adensadas em horários pouco convencionais, como as noites de domingo. Por fim, prédios de escritórios foram os primeiros grandes empreendimentos a surgir no seu entorno.

Imagem 1 Parque Madureira em construção. Nota: Neste momento, a Vila das Torres e as pequenas propriedades agrícolas já haviam sido removidas e as torres de energia deslocadas para perto da linha férrea. Foto: Prefeitura do Rio, sem data. 

Imagem 2 Parque Madureira, Cidade Olímpica. 

O BRT Transcarioca

Justificado como um investimento crucial para a viabilidade dos Jogos Olímpicos, o BRT Transcarioca tem 39 km de extensão, 45 estações e faz a ligação entre o aeroporto internacional do Galeão e a região da Barra da Tijuca, maior frente imobiliária da cidade nos últimos 40 anos, planeada como o futuro “centro metropolitano de negócios”. A Barra da Tijuca foi escolhida como o principal cluster dos Jogos Olímpicos, recebendo o “Parque Olímpico”, o centro internacional de media, a “Vila dos Atletas” e alguns hotéis (Vannuchi; Van Criekingen, 2015). Segundo o prefeito Eduardo Paes9, o BRT seria um modal com obras mais velozes e bem mais barato que uma nova linha de metro, ainda que, na superfície, milhares de proprietários perdessem seus imóveis ou negócios em vez de valorizá-los.

Em agosto de 2014, dois anos após a inauguração do Parque e com as obras para o BRT Transcarioca já bastante avançadas, a Prefeitura do Rio enviou um projeto de lei específico para o bairro Madureira e sua região, o “Plano de Estruturação Urbanística (PEU) de Madureira” (RJ, 2014). Esta proposta legislativa explicitava na sua mensagem oficial à Câmara Municipal (poder legislativo) quais eram as prioridades urbanísticas da Prefeitura do Rio para esta nova fase do lugar:

(…) II - valorizar as vocações e potencialidades dos bairros, de forma a promover a sua revitalização e qualificação urbano ambiental (…); (…)

IV - potencializar a vocação comercial e de serviços da área, estimulando as atividades localizadas em torno das Estações Ferroviárias e do Corredor Expresso para Ônibus - Transcarioca, em consonância com a atual ampliação da capacidade dos sistemas de transportes de alta capacidade naqueles bairros; (…)

VII - incrementar o bairro de Turiaçu, por meio do implemento de nova dinâmica de ocupação em torno do Parque de Madureira (…); (…)

X - ampliar a oferta habitacional de interesse social. [RJ, 2014; grifo nosso]

Ao contrário do que este plano sinalizava, ainda não houve qualquer iniciativa do poder público municipal para construção de habitação popular na região de Madureira. O que se viu durante todo o ciclo olímpico foi um sistemático processo de remoção de casas de famílias de baixa renda, tanto na construção do Parque quanto na construção do BRT Transcarioca, facto que promoveu forte reação desses moradores, ainda que insuficiente para uma mudança nos rumos do planeamento estatal. Mobilizações com fechamento de ruas, faixas, gritos de indignação e de reivindicação de direitos, confrontos com policiais, tudo isso foi visto durante as remoções da Vila das Torres e da rua Quaxima, onde foi construído um novo viaduto para o BRT.10 Esse modelo violento e segregador de produção do urbano no ciclo olímpico foi observado não apenas em Madureira, mas também em muitos outros pontos da cidade e foi analisado em profundidade por Azevedo e Faulhaber (2015).

Em abril de 2015, uma nova proposta de lei complementar enviada pela Prefeitura à Câmara Municipal propunha a transformação das vias por onde passaria o BRT Transcarioca e dos quarteirões ao redor das estações em uma “Área de Especial Interesse Urbanístico” (AEIU), para estímulo de “atividades económicas, adensamento populacional e intensidade construtiva” (RJ, 2015). Resumidamente, tratava-se de uma estratégia de zoneamento que permitiria, e estimularia, a ocupação desses terrenos por prédios residenciais, de escritórios e hotéis, com potencial construtivo mais amplo e verticalizado, mudando radicalmente as tipologias de morar, de viver e o perfil socioeconómico em muitos bairros que então eram atravessados pelas obras.

Todos os prédios erguidos em Madureira e nos bairros de entorno no período citado, e até hoje, foram investimentos privados com unidades negociadas no mercado de habitação. Essa nova “frente de incorporação imobiliária” (Rolnik, 2015) foi também estimulada pelo “pacote habitacional” do bilionário programa federal “Minha Casa, Minha Vida”, que promoveu mais flexibilizações no controlo estatal da urbanização brasileira, que injetou quase todos os seus recursos nas mãos do capital imobiliário e que precisa de ser compreendido como uma das iniciativas do Governo Federal para impulsionar investimentos, empregos e estimular o consumo naquele período pós-crise económica de 2008 (Rolnik, 2015, pp. 299-316). Paralelamente, no entanto, nenhuma favela de Madureira e região recebeu ações do programa municipal “Morar Carioca”, de habitação popular e melhorias urbanísticas.

Como sinalizado anteriormente, o caso Madureira não apenas se vinculava a uma nova conjuntura do Rio de Janeiro, mas também a uma nova fase brasileira da produção do urbano. Analisando as mudanças económicas e políticas ocorridas no Brasil nas últimas décadas, Ribeiro e Santos Junior (2013, p. 9) apontavam que “desde o longo período 1980/2010 está em curso a disputa por um novo marco regulatório das cidades, em especial das grandes cidades”. No momento em que o Rio vivia o seu ciclo olímpico e o Brasil urbano passava também por profundas transformações, os autores afirmavam que o estágio desta disputa demonstrava o ápice da aplicação do “empreendedorismo urbano”, que também podia ser entendido como “empresariamento urbano” e “mercantilização das cidades”. A preparação das principais cidades do país, em especial o Rio de Janeiro, para os “megaeventos” desportivos (Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016) revelava de maneira definitiva para os autores que:

a gestão pública tem tido um papel central na criação de um ambiente propício aos investimentos, principalmente aqueles vinculados aos setores do capital imobiliário, das empreiteiras de obras públicas, das construtoras, do setor hoteleiro, de transportes, de entretenimento e de comunicações. [Ribeiro e Santos Junior, 2013, p. 17]

Para estes autores, tais investimentos eram “fundamentais para viabilizar as novas condições de acumulação urbana das cidades brasileiras” (ibid., p. 17). O solo urbano, mesmo em áreas outrora livres da especulação, passava a ser objeto de cobiça e de conflitos de classes. Despejos e “gentrificação”, entre outros fenómenos, resultavam das novas e grandiosas intervenções motivadas pela “janela de oportunidades” criada pelos “megaeventos”. No Brasil, a “cidade empreendedorista” assumia a sua plenitude num Rio de Janeiro pensado como “commodity”, onde se observava o abandono e a desvalorização do “universalismo de procedimentos” e do “processo democrático de decisão” (ibid., p. 15), tudo em nome da flexibilidade e da rapidez necessárias para a competição interurbana global.

Retomando Harvey (2005), no último quarto do século XX, governanças urbanas (governos e lideranças políticas e económicas parceiras) de países capitalistas centrais passaram a adotar a máxima de pensar a cidade como uma empresa, possuidora de “vantagens competitivas relativas” (ibid., p. 167) e inserida numa “competição interurbana” global por atração de capitais. Esse “empreendedorismo urbano” trouxe à tona importantes mudanças nas intervenções públicas e privadas - como Ribeiro e Santos Junior (2013) perceberam também no Brasil do século XXI e no ciclo olímpico carioca. Harvey destaca três fatores essenciais nessa dinâmica: a) a predominância do modelo de “parcerias público-privadas” nos projetos urbanísticos que, por assumirem um caráter especulativo, fazem com que b) o Estado assuma os riscos e os obstáculos de cada intervenção, que, diferentemente do modelo do “administrativismo”, c) passam a enfocar muito mais “a economia política do lugar do que o território (da cidade)” (Harvey, 2005, p. 172). Ou seja, os projetos de urbanização deixam de considerar todo o tecido urbano de uma cidade e passam a gerar “benefícios para populações numa jurisdição específica” (ibid., p. 172). O local ou as localidades passam a ter a primazia dos investimentos e o bem-estar de toda a cidade torna-se secundário, já que o objetivo é a atração de mais investimentos através da competição interurbana e do aproveitamento e promoção das já citadas “janelas de oportunidades”.

Assim como a já descrita inauguração do Parque Madureira durante a conferência internacional Rio+20, a inauguração do BRT Transcarioca, em junho de 2014, duas semanas antes do início da Copa do Mundo, foi um dos episódios reveladores da conexão entre os interesses macro e micro das intervenções sobre Madureira. A estação “Madureira-Manacéa”, combinação do nome do bairro com o nome de um histórico sambista ligado à escola de samba Portela, foi uma das estações selecionadas para o evento político inaugural, com a presença da presidenta da República, Dilma Rousseff, do governador do Estado do RJ, Sergio Cabral, e do prefeito da cidade, Eduardo Paes. A inauguração contou ainda com a animação das escolas de samba locais e a presença de lideranças políticas, económicas e culturais do bairro.11 Naquele evento singular, país e bairro fundiam-se mediados por uma cidade-símbolo, arena de megaeventos internacionais, mercantilizada e olímpica.

Enquanto Rousseff, Cabral e Paes inauguravam o BRT Transcarioca, professores manifestantes reivindicavam melhores salários e condições de trabalho na passarela da estação Madureira de trens, incrementando o cenário de contestação política aos custos e legados dos megaeventos que vinha crescendo no país desde 2013. Estenderam faixas, conseguiram chamar a atenção e incomodaram os organizadores do evento, sendo distanciados pela Guarda Municipal e pela Polícia Militar.12

Para além das grandes intervenções urbanísticas sobre o território local, é importante entender os aspectos imateriais que também compunham esse planeamento urbano estratégico e que, além de alavancar setores da economia criativa, lhe trouxeram legitimidade. Uma análise sobre a seleção e os usos de representações simbólicas sobre Madureira é indispensável para uma plena compreensão das suas transformações no ciclo olímpico carioca.

Uma centralidade popular e de culturas negras essencializadas

Na conferência global TED (Technology, Entertainment and Design), realizada na Califórnia (EUA), em fevereiro de 2012, o prefeito Eduardo Paes iniciou a sua palestra “Quatro mandamentos para as cidades do futuro”13 demonstrando como a cidade, sob a sua administração, vinha enfrentando desafios com planeamento, criatividade e inovação. Como primeiro exemplo, ele citou justamente o bairro Madureira, chamado de “coração dos subúrbios do Rio”. Exibiu-se no telão atrás de Paes, então, uma imagem de avenida local e da passarela da estação ferroviária Mercadão de Madureira, ambas repletas de peões. Em seguida, surgiram imagens do “antes e depois” do Parque Madureira, com a fala de Paes enfatizando o que viria a ser um acréscimo de áreas verdes naquele subúrbio com “muito concreto” e densamente ocupado.14

Em outubro de 2013, primeiro ano do segundo mandato de Paes como prefeito, Madureira era o destaque de capa da edição do “Guia do Rio”, a revista turística mensal e oficial da cidade. Na foto da capa, quatro mulheres negras e “jongueiras”, em pose dentro do Parque Madureira, com roupas tradicionais de suas apresentações de dança e acompanhadas da chamada: “O coração da cidade (The soul of the city)”. Em página dupla, no início da reportagem de capa, novamente as jongueiras, com a frase “Madureira: carioca de raiz (The roots of Rio)”. Nas demais páginas, diversas referências a eventos e elementos das tradições afro-brasileiras presentes no bairro, muitos deles patrocinados pela Prefeitura do Rio, como a “Feira das Yabás”, cujo lema era “Música e Gastronomia Negra Carioca”.15

No editorial dessa edição do Guia do Rio, o prefeito Eduardo Paes, como de costume, assinou um texto sobre o conteúdo da revista e realçou as atividades e instituições culturais e de entretenimento das culturas negras locais que a Prefeitura queria visibilizar no bairro:

Sempre digo que se o Rio fosse um corpo humano, Madureira seria o coração. O bairro mais charmoso e tradicional da Zona Norte reúne o que a cidade tem de melhor (…). Do famoso Mercadão de Madureira, onde se encontra de tudo um muito, à tradicional feijoada na quadra da Portela; passando pelas incríveis manifestações culturais que são o Jongo da Serrinha e a feira das Yabás; e, claro, pelo Baile Charme embaixo do viaduto, onde os cariocas são ainda mais cariocas.

E é ali, pulsando entre todos esses símbolos da nossa cidade, que se encontra o terceiro maior parque urbano do Rio de Janeiro, o Parque Madureira, que comemorou um ano de existência em junho, atraindo uma legião de turistas e de cariocas de todas as partes da cidade. [RJ, 2013; grifo nosso].

Esse conjunto de elementos formam o que Bourdieu (2009, p. 118) define como representações, os “enunciados performativos que pretendem que aconteça aquilo que anunciam”, ou ainda, como “categorias de apercepção e apreciação do mundo social” (Bourdieu, 2008, p. 447). Seguindo Bourdieu, e buscando um caminho metodológico para o dilema da historiografia sobre a existência ou não do “real”, Chartier (2009, p. 52) sustenta que “as representações não são simples imagens, verdadeiras ou falsas, de uma realidade que lhes seria externa; elas possuem uma energia própria que leva a crer que o mundo ou o passado é, efetivamente, o que dizem que é”.

Nesse sentido, as representações são formas de pensamento e conhecimento socialmente construídas sobre um objeto, no caso, um lugar. São simbólicas porque se exprimem numa dimensão que vai além dos limites sensíveis do que se reifica - e, por isso mesmo, demonstram tanta força e eficácia. Madureira construiu espontaneamente ao longo da sua história instituições e tradições que constituem e reforçam traços identitários da própria cidade e que, no ciclo olímpico, foram usadas como “marcas distintivas” (Bourdieu, 2009, p. 148) para aumento da sua “visibilidade e visitabilidade”, aspectos característicos de bairros patrimonializados (Costa, 1999, pp. 51-56).

Essas representações selecionadas, hegemonicamente afro-brasileiras, foram reforçadas nos discursos oficiais e nas inaugurações das intervenções urbanísticas, como já vimos anteriormente, mas também nas nomeações de logradouros (como o novo “viaduto Silas de Oliveira”, histórico sambista da Império Serrano) e equipamentos (como a já citada estação Madureira-Manacéa). Também foram priorizadas nos financiamentos via editais públicos para eventos de arte e cultura do bairro (Brito, 2016, pp. 207-208) e em produtos audiovisuais.16

Também foram associadas a, e impulsionadas por, novos equipamentos de arte e cultura instalados no bairro, com destaque para o “Centro Cultural Casa do Jongo”, nova sede, museu e espaço de aulas e apresentações de jongo na Serrinha, inaugurado em novembro de 2015. O projeto arquitetónico de vanguarda inseriu o jongo e a Serrinha em novos media e eventos, incluindo o guia turístico oficial da cidade, atraindo novos olhares interessados. Basta dizer que a “Casa do Jongo” foi um dos projetos selecionados para apresentação em vídeo no pavilhão brasileiro da Bienal de Veneza, em 2016.17

Por fim, o casamento de investimentos materiais e simbólicos foi explicitado no projeto de lei n.º 86/2014, de 22 de agosto de 2014, que instituía o PEU Madureira. No texto deste projeto de lei, vêm-se as seguintes especificações sobre elementos socioculturais locais:

Art.º 4.º Ficam definidas neste artigo as diretrizes básicas que nortearão o estabelecimento de políticas e a implementação de ações para o desenvolvimento físico urbanístico dos bairros do PEU de Madureira, quais sejam:

I - fortalecimento de uma identidade urbana, promovendo a preservação do patrimônio cultural e ambiental urbano;

II - incentivo às manifestações culturais predominantes na região, quais sejam: o samba, o jongo, os bailes de charme e as atividades geridas pela Central Única de Favelas - CUFA e pelas Escolas de Samba Portela e Império Serrano. [RJ, 2014; grifo nosso].

Esta associação da reabilitação urbana com elementos identitários e manifestações culturais é o que Arantes (2000, pp. 14-23) entende como um “encontro glamouroso entre a Cultura e o Capital”, o “poder da identidade” auxiliando a “coalizão de classes”. Portanto, em Madureira também estava exposta, ainda segundo Arantes, “a nova âncora identitária da nova urbanística” (ibid., p. 16). Harvey (2005, pp. 232-233) também analisou essa problemática da escolha dos referenciais simbólicos de um lugar (“memória coletiva”, “marcos de distinção”, “capital simbólico coletivo”) para alavancar projetos de renovação urbana, maximizando o seu desejo por agentes externos e o seu valor de troca no mercado.

O caráter maioritariamente “negro” mas também “popular” desses espaços e manifestações culturais é elemento fundamental para a compreensão deste conjunto de iniciativas. Aqui, utilizando a definição de Hall (2003, p. 245), penso que o termo popular “guarda relações complexas com o termo classe” (grifo nosso). Por isso, o seu “princípio estruturador” não está nos seus conteúdos, que podem ser alterados de uma época para a outra, mas numa relação entre “aquilo que conta como uma atividade ou forma cultural da elite e o que não conta” (ibid., p. 245). Madureira tinha a sua centralidade urbana renovada e valorizada, mas ainda era anunciado como um lugar “popular”. Os produtos culturais e imobiliários associados e em lançamento no bairro tinham como público-alvo as classes populares que, naquele período histórico brasileiro, experimentavam significativo aumento do poder de compra e do acesso a crédito, formando o que muitos autores chamaram de “nova classe média” (Scalon; Salata, 2012).

Contudo, como eu já havia alertado no caso da maciça presença evangélica no bairro, muitos elementos quotidianos e até festivos locais foram esquecidos pelos agentes do planeamento estratégico. Para os interesses deste artigo, basta lembrar a musicalidade funk carioca, acusada de fazer apologia a ilícitos, associada a delinquência juvenil e a depravação sexual (Cano, 2012; Facina, 2009) mas, ainda assim, escutada em demasia pelos jovens locais, entre os camelôs, na porta de escolas, nos pontos de moto-táxi e, especialmente, nos bailes funk realizados semanalmente no interior das favelas que muitas vezes são criminalizados e proibidos por autoridades policiais (Carvalho, 2013).

Saliento ainda a centralidade que Madureira exerce para o movimento LGBTQIA+ das classes populares do Rio de Janeiro. Desde os anos 1970, o bairro reúne ações e instituições em defesa de direitos, segurança e visibilidade de gays, lésbicas, transsexuais e de outros grupos com sexualidades não-hegemónicas (Brito, 2016, pp. 96-97). A “Parada gay” de Madureira é um dos maiores eventos de público LGBTQIA+ da cidade, como mais de meio milhão de pessoas presentes em 2015 (ibid., p. 243).

No entanto, evangélicos, funkeiros e LGBTQIA+ não foram incluídos nas estratégias de representação e valorização do bairro, embora também fossem maioritariamente negros e reunissem institucionalidades e hábitos de grande expressividade e, no caso do dois primeiros grupos, até hegemónicos no tempo quotidiano de Madureira. Por serem pouco adequados à mercantilização almejada para o lugar, estes elementos foram os esquecimentos que acompanharam a afirmação de uma memória coletiva local. Em suma, os agentes locais e não-locais que investiram sobre as representações de Madureira visavam, no bairro, algo semelhante a um “essencialismo estratégico”, que pode ser entendido como a construção e a utilização de um determinado significante para uso político (neste caso, também económico) que condensa e simplifica várias dimensões culturais, método historicamente observado na ação de grupos étnicos e minoritários (Spivak, 1996; Hall, 2003).

Porquê Madureira?

A resposta para tal questão deve ser entendida a partir da combinação de alguns fenómenos apenas aparentemente isolados. Um deles é socioespacial e urbanístico: está ligado à formação histórica da centralidade urbana do bairro e à sua localização nesta cidade que vem transferindo negócios, empregos e equipamentos de lazer e entretenimento, gradativamente nas últimas décadas e de forma mais acelerada no ciclo olímpico, para a região da Barra da Tijuca. No caminho para a Barra, Madureira foi pensado pelos planeadores urbanos como centralidade de apoio, pois conecta-se com fluxos vindos de toda a metrópole. Além disso, o bairro foi preparado como uma frente de expansão imobiliária para estratos populacionais de renda média, ampliados naquele período histórico brasileiro.

Outro fenómeno está ligado à coexistência no lugar de instituições e práticas culturais afro-brasileiras e afro-cariocas (tradições, memórias, festas, religiosidades, musicalidades), formadas em processos sociohistóricos de média e larga durações, que podiam ser mercantilizadas no setor de turismo e naquele mais amplo chamado de “economia criativa” (arte, moda, design e arquitetura, entretenimento, gastronomia etc). Ambos os setores estiveram em recente expansão por conta da chegada e realização dos megaeventos e da crescente visibilidade e interesse que a cidade despertou no Brasil e no exterior. Além disso, estes elementos culturais viabilizaram e deram visibilidade a outros negócios de setores mais tradicionais e com grande incidência sobre políticas públicas urbanas, em especial num momento de retomada económica pós-crise global: os setores imobiliário (com a atuação mais incisiva de empresas incorporadoras), de transportes e da construção civil.

Um terceiro fenómeno diz respeito às gramáticas político-eleitorais da cidade do Rio de Janeiro, imersas num tipo de planeamento urbano estratégico que pensava a cidade de forma fracionada, sem pretensão de universalizar projetos e intervenções. Neste cenário, Madureira deveria representar, para este projeto de cidade, todo o “subúrbio carioca”, um Rio “popular” que expandia seu poder de consumo. Garantiria, assim, junto a segmentos periféricos de rendas médias e baixas, a legitimidade indispensável para viabilizar o conjunto de projetos e intervenções em curso e o apoio político-eleitoral para a manutenção da coligação de agentes e instituições que esteve no poder municipal e estadual por anos.

Para o contexto nacional e a inserção que o Brasil buscava no cenário internacional, o Rio de Janeiro seria uma vitrine, com grande diversidade de iniciativas económicas e urbanísticas. Madureira fortaleceria a coesão social, em diferentes escalas, a partir de um conjunto de componentes identitários indispensáveis para a cidade e, em alguma medida, também para o país - todos estes anunciados e apresentados em eventos internacionais, como a Rio+20, a Bienal de Veneza e os Jogos Olímpicos.

Efeitos esperados e conflitos resultantes das intervenções urbanísticas e da valorização da imagem do bairro

A formação de uma marca e de uma mercadoria urbanística “Madureira” foi o resultado planeado e alcançado em curto prazo para este conjunto de investimentos materiais e simbólicos. O bairro atraiu, de facto, novos visitantes, consumidores, empreendedores e empreendimentos. Entre 2009 e 2016, apenas dentro do perímetro oficial do bairro, foram construídos e lançados seis grandes empreendimentos imobiliários, com 406 unidades de apartamentos e 967 salas comerciais, lojas e escritórios. Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo do Rio, nos bairros da XV RA - Madureira, próximos ao Parque e ao BRT, foram 2778 unidades habitacionais financiadas pelo programa federal Minha Casa, Minha Vida no mesmo período.18 Destacam-se nos anúncios desses empreendimentos as grandes intervenções públicas do lugar, Parque e BRT, e também as tradições e representações sobre Madureira, como o samba, que expandem e flexibilizam as suas fronteiras simbólicas. Abaixo, um mapa com as construções e lançamentos imobiliários entre 2009 e 2016.

Este conjunto de investimentos sobre o território do bairro e sobre o seu imaginário social trouxe benefícios indiscutíveis para os moradores: mais opções de emprego e renda, valorização de imóveis, maiores e mais diversas opções de consumo, lazer, desportos e entretenimento para pessoas de todas as idades. Nas interações com agentes externos, os moradores e os agentes económicos e culturais de Madureira puderam assumir representações e identidades mais prestigiadas.

Mapa 3 Empreendimentos imobiliários em Madureira, com seu perímetro aproximado em destaque e arredores. Nota: Todos os ícones na cor preta localizam-se em bairros da XV RA - Madureira. Fonte: Google Maps, 2021. 

Por outro lado, nem só de festa, comemoração e valorização territorial e simbólica viveu Madureira. A remoção de muitos imóveis para a construção do corredor do BRT Transcarioca fez surgir, nos lados “do Mercadão” e “do Patriarca”, novos vazios urbanos que ainda não foram totalmente ocupados, degradando alguns quarteirões residenciais e comerciais e fechando negócios em alguns trechos. Após a inauguração do BRT, o desaparecimento de linhas de autocarros que cobriam percusos intrabairros e a saturação das redes de transporte em horários de pico também foram queixas recorrentes dos agentes locais - e, até ao presente momento, ainda são.19

A disciplinação agressiva do espaço público utilizado por camelôs foi apenas uma singela faceta da violência experimentada no bairro. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Estado do RJ (ISP-RJ), a nova delegacia policial de Madureira, retirada do lado do Mercadão e realocada ao lado do Parque, registrou até 2012 um aumento significativo de roubos a transeuntes e depois, até 2016, taxas acima da média da cidade para este delito. Também houve uma permanência de conflitos armados, tiroteios e homicídios em níveis altíssimos, mesmo num período em que a cidade viveu uma queda significativa desses indicadores. Em 2016, último ano do ciclo olímpico, enquanto a cidade do Rio mantinha uma alta taxa de homicídios (“letalidade violenta” para o ISP-RJ) de 29,4 por 100 mil habitantes, a delegacia de Madureira (“CISP 29” para o ISP-RJ), que contempla casos dos bairros Cavalcanti, Engenheiro Leal, Madureira, Turiaçu e Vaz Lobo, registrou 56 casos, com uma taxa de 53,45 para esse conjunto de bairros. Desse total de vítimas, 80,3% eram negras (somatório de “pretos” e “pardos”, as categorias oficiais).20

Os assassinatos de Claudia Silva Ferreira, moradora da favela do morro da Congonha, em 2013, e de Marcos Falcon, presidente da escola de samba Portela, em 2016, foram crimes violentos que mobilizaram atenção mediática e repercussão política distintas daquelas previstas pelo planeamento estratégico. Claudia era negra, mãe, auxiliar de serviços gerais e, quando saía para comprar pão numa manhã de domingo, foi alvejada por policias que faziam uma operação naquela favela e teve o seu corpo posteriormente arrastado pela viatura policial. Falcon, também negro e ex-polícia, era candidato a vereador e recebeu dezenas de disparos de homens desconhecidos dentro do seu comité de campanha, numa rua residencial de Madureira.

A revolta de moradores locais, que há anos cobram uma política de segurança mais eficaz, foi mais contundente e sob forma de “contraconduta” ( Foucault, 2008, p. 479) na morte do menino Ryan Gabriel, de quatro anos, mais uma vítima negra. Ao visitar os avós com os seus pais na favela do Cajueiro, no domingo de Páscoa de 2016, Ryan morreu por um disparo de arma de grosso calibre e de origem desconhecida, num período de grande tensão entre grupos de traficantes rivais. Moradores da favela do morro do Cajueiro desceram à avenida onde passa o BRT Transcarioca e fecharam-na com barricadas de fogo. Um autocarro do sistema foi incendiado e as estações Otaviano e Vila Queiroz foram destruídas - esta última parmenece fechada até aos dias de hoje.21

Considerações finais

Neste recorte temporal que chamo de ciclo olímpico, as condições abertas pela chegada dos megaeventos foram de suma importância para o volume de crédito e investimentos recebidos pela cidade do Rio de Janeiro. Os Jogos Olímpicos tornaram-se, então, fundamentais para a realização de alguns projetos urbanos para áreas específicas da cidade, que promoveriam bem-estar para uma parcela limitada de citadinos e grandes negócios para grupos seletos: empreiteiras, construtoras, incorporadoras de imóveis, empresas de transporte, empresa de media, cervejaria, grupos comerciais locais.

Quanto às representações simbólicas que acompanharam estes projetos em Madureira, posso afirmar que elas se correspondiam a algumas prerrogativas e deveriam: a) ser muito reconhecidas e prestigiadas; b) ter potencial para promover um calendário de eventos mercantilizáveis e mediatizados para todo o ano; c) contribuir para a formação de símbolos associados ao bairro e à cidade. Por isso, tantos esquecimentos e tantas demandas locais negligenciadas, como habitação e segurança pública - esta última temática, por exemplo, foi usada como justificativa para uma controversa e ineficaz intervenção federal militar no Estado do RJ em 2018 e foi crucial para os debates e os resultados das eleições brasileiras daquele ano (Almeida, 2019).

Processos de escala global também foram muito bem adequados ao calendário político-eleitoral brasileiro, dando velocidade às transformações, mas distribuindo as inaugurações num ritmo histórico controlado, maximizando ganhos políticos de curto prazo para os agentes que lideravam as intervenções: prefeito reeleito, vice-governador eleito, presidenta eleita e reeleita. Contudo, é revelador das contradições do ciclo olímpico que, ao seu final, a presidenta do Brasil fora afastada do cargo, o país e o Estado do RJ entraram em profunda crise económica e política. O ex-governador e o seu vice que lhe sucedeu foram presos acusados de corrupção, o presidente da escola de samba Portela foi assassinado e o prefeito daquele período, Eduardo Paes, maior nome ligado aos investimentos aqui tratados, não conseguiu transferir o seu capital político ao seu mais destacado secretário e candidato à sucessão. Este saiu derrotado nas urnas ainda no primeiro turno do processo eleitoral de outubro de 2016, com pouco mais de 16% dos votos, não conseguindo vencer sequer na região de Madureira. Em 2018, após conseguir escapar de denúncias de corrupção, Paes tampouco conseguiu ser eleito governador do Estado do RJ, mas, ainda assim, prometeu uma nova candidatura à Prefeitura em 2020.

O seu substituto no governo municipal, Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, chegou ao quarto e último ano de seu mandato (2017-2020) com baixíssima popularidade, após quase ter sido afastado do cargo pela Câmara Municipal. A sua administração teve de lidar com uma conjuntura nacional de crise económica e fiscal que, no município do Rio de Janeiro, se caracterizou por uma baixa arrecadação de impostos, mas também por uma ineficiência administrativa que custou caro para esta cidade que havia expandido serviços e equipamentos municipais. Houve desmonte de políticas públicas, atraso de salários de servidores, interrupção de grandes obras herdadas da administração anterior e um esvaziamento de ideias inovadoras e de atração de novos investimentos privados.22 Tudo isto afetou a continuidade de Madureira como um lugar estratégico para a cidade.

No entanto, também no campo das representações, houve uma mudança profunda, na cidade e no bairro, com tentativas objetivas por parte do governo Crivella de desconstrução simbólica de muito do que havia sido feito na administração anterior. Pesquisadores, media e movimentos de oposição vêm apontando uma aversão da administração Crivella aos patrimónios e referenciais afro-brasileiros do Rio de Janeiro, ora minimizados, ora explicitamente repelidos e boicotados (Vassalo; Cáceres, 2019; Rezende, 2019). Segundo estes agentes, tais ações são motivadas por valores conservadores e por uma discriminação negativa de instituições, festas e manifestações culturais afro-brasileiras, que se apoia num tipo de cristianismo neopentecostal restrito e próprio do prefeito, da sua igreja e da sua base de apoio mais fiel.

Em Madureira, a crise económica que se abateu nos últimos quatro anos sobre o país e a cidade derrubou a procura por locação e compra de imóveis no bairro e no seu entorno. Observa-se, então, uma queda nos preços dessas mercadorias imobiliárias e interrupção dos empreendimentos (Fipe, 2020). Concomitantemente, há na região uma constância dos indicadores de criminalidade acima da média municipal, como homicídios, roubo a transeuntes e roubo de veículos (ISP-RJ, 2020).

Porém, é também pelas disputas políticas e simbólicas que o bairro permanece aquecido. Dois casos ilustram bem este cenário pós-olímpico. O primeiro, o fechamento da Casa do Jongo pela Prefeitura em 2018, sob muitas críticas, e sua imediata reabertura pela comunidade local, com apoio de artistas, visitantes e admiradores.23 Segundo, as manifestações lideradas por funcionários públicos locais e agentes culturais da região que, em 2019, impediram a transformação de uma maternidade municipal em estacionamento que, com a justificativa da administração municipal de servir a lojistas e clientes do Mercadão, funcionaria ao lado de um terreno adquirido pela igreja do prefeito.24 Ambos os casos revelam que o fortalecimento de tradições, instituições e agentes culturais locais no ciclo olímpico parece ainda reverberar sobre os usos e sentidos do lugar, mesmo em contexto político e económico adverso.

Ainda não está claro, no entanto, se o incremento populacional em curso, pela chegada de novos moradores e novas tipologias habitacionais, será promotor de novos usos do lugar, novas práticas culturais e reinvenções das representações locais. Conflitos, resistências e disputas por recursos e significados, porém, vão incrementando a micro-história local para além dos controlos e expectativas do poder público e dos seus parceiros privilegiados. Como se pode perceber, o bairro Madureira brilhou no ciclo olímpico tanto pela luz das novidades quanto pelo fogo dos protestos. Agora, espaços e tempos estão sendo reacomodados. Hábitos e práticas são reajustados a cada semana, a cada fim de expediente, a cada festa ou feriado.

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1 Tal pesquisa só foi possível pelo financiamento de CAPES, Faperj e, especialmente, CNPq, instituições indispensáveis para a ciência brasileira e que hoje clamam por proteção e valorização. Também agradeço aos pareceristas e aos membros da Análise Social pelas avaliações e sugestões para este artigo.

2 “BRT” é a sigla para Bus Rapid Transit, modelo de transporte rodoviário com cobrança de passagens em estações fechadas, ônibus biarticulados e faixas de trânsito segregadas. Para o projeto olímpico carioca, a Prefeitura do Rio implementou 3 sistemas de BRT: Transoeste, Transcarioca e Transolímpica. Um quarto sistema, Transbrasil, seria implementado logo após os Jogos e, até este momento, segue em construção.

3 Pertencem à XV RA os seguintes bairros, excetuando Madureira, a sede regional: Bento Ribeiro, Campinho, Cascadura, Cavalcante, Engenheiro Leal, Honório Gurgel, Marechal Hermes, Oswaldo Cruz, Quintino Bocaiuva, Rocha Miranda, Turiaçu e Vaz Lobo. Mesmo tendo privilegiado nesta pesquisa o bairro Madureira segundo as delimitações oficiais da Prefeitura, é impossível traçar as fronteiras simbólicas entre este bairro e os bairros vizinhos. Portanto, grande parte das relações sociais e processos ali existentes, e das observações e interações que realizei, expande-se para outros bairros da XV RA, especialmente aqueles conectados fisicamente a Madureira (Oswaldo Cruz, Vaz Lobo, Turiaçu, Campinho e Cascadura). A região da XV RA pode ser entendida como “Grande Madureira” e diversos fenómenos nela existentes podem ser compreendidos à luz dos resultados desta pesquisa. Os dados oficiais citados são referentes ao censo nacional de 2010.

4 Definição de jongo pelo historiador e pesquisador de heranças culturais da diáspora negra, Carnaval e música popular brasileira, Luiz Antônio Simas (2012, p. 112): “Dança afro-brasileira praticada nas áreas escravocratas de MG, RJ, ES e SP. É dançada em roda por homens e mulheres, em pares soltos, ao som de tambores e chocalhos. Tem provável origem no onjongo, uma dança dos ovimbundos da região de Benguela (Angola)”.

5 UPP são bases policiais permanentes em favelas outrora dominadas por grupos civis armados, na sua maioria traficantes de drogas ilícitas. No ciclo olímpico, primeiramente ao redor dos bairros mais ricos e das futuras instalações desportivas, mais de 30 favelas cariocas receberam UPP, que se caracterizavam tanto por um policiamento comunitário de proximidade quanto por violações de direitos e tentativas de disciplinação da rotina dos moradores locais. O projeto das UPP reduziu drasticamente os principais índices de criminalidade nos seus bairros de entorno e fez a cidade alcançar a sua menor taxa histórica de letalidade violenta no ano de 2012. Com o passar do tempo, contudo, a criminalidade violenta foi crescendo em áreas da metrópole sem UPP e, mesmo onde estas estavam instaladas cresceram os conflitos armados. O projeto existe ainda hoje, mas apenas em poucas favelas das regiões mais abastadas e bastante desacreditado socialmente. Para mais informações, conferir Cano (2012).

6 Os camelódromos são espaços, abertos ou cobertos na forma de galpões, criados pela Prefeitura do Rio em diversos bairros com o objetivo de liberar vias públicas aos pedestres, favorecendo os lojistas e regularizando o trabalho dos camelôs. Sua criação e ordenamento geraram inúmeros conflitos violentos entre camelôs e agentes da Prefeitura do Rio.

7 Conferir os artigos “A walk through Vila das Torres - Part 1” e “A walk through Vila das Torres - Part 2”, disponíveis em: http://www.rioonwatch.org/?p=444, último acesso em junho de 2021.

8 Conferir a notícia “Parque Madureira abre as portas ao público”. Jornal O Globo, de 23 de junho de 2012, disponível em: https://bityli.com/kEL20, último acesso em junho de 2021.

9 Conferir o artigo “Transtornos para uns, benefícios para outros”. Jornal O Globo, de 29-10-2013, disponível em: http://www.ademi.org.br/article.php3?id_article=55814, último acesso em junho de 2021.

10 Conferir a reportagem em vídeo “Moradores do Largo do Campinho fazem combativo protesto contra as remoções”, Jornal A Nova Democracia, de 17 de maio de 2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QWDUukyLz9o, último acesso em junho de 2021.

11 Cabe enfatizar que, na campanha para a Presidência da República em 2014, os três candidatos favoritos à eleição - a presidenta em busca de reeleição Dilma Roussef (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB) - visitaram Madureira e conversaram com lideranças locais.

12 Conferir notícia do portal G1, “Nenhum legado é da Copa‘, diz Dilma em inauguração da Transcarioca”, de 01 de junho de 2014. Disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/06/nenhum-legado-e-da-copa-diz-dilma-em-inaguracao-da-transcarioca.html, último acesso em junho de 2021.

13 Conferir o vídeo “TED 2012 - Prefeito Eduardo Paes - 29-02-2012 (Legendado)”: https://www.youtube.com/watch?v=lzYBMPRLZVE. Acesso em junho de 2020.

14 Cabe, aqui, sinalizar a especificidade a ideia de “subúrbio” no Rio de Janeiro. A categoria “subúrbio carioca” diz respeito a uma grande região da cidade que, segundo Fernandes (2011), perdeu seu sentido geográfico, bastante comum noutras tantas cidades do mundo e da história, e recebeu um sentido social, a partir de um “rapto ideológico” pelos grupos mais abastados e dominantes da urbe. Outrora estigmatizado, este sentido vem sendo ressignificado nas últimas décadas, motivando a criação de representações prestigiosas a partir desta categoria, perceptíveis em letras de músicas, estampas de camisetas, produtos audiovisuais etc.

15 A “Feira das Yabás” era uma feira de rua, com barracas de comida e shows musicais, organizada na estrada do Portela, ao lado da primeira e mítica sede da escola de samba Portela, a “Portelinha”. A feira teve início em 2008 e durou até 2009. Ficou um tempo sem ser organizada e voltou a acontecer em 2012, já com patrocínio e apoio da Prefeitura do Rio e divulgação da Rádio Globo FM (das Organizações Globo). Até o fim de 2016, ocorreu sempre no segundo domingo de cada mês, no mesmo lugar, entre o meio-dia e as oito ou nove horas da noite. “Yabás” é um termo derivado do idioma iorubá e significa, segundo os promotores do evento, “rainhas mães”, designando assim os “orixás” femininos. Na reapropriação local do termo, as “yabás” são as matriarcas das famílias de Oswaldo Cruz e Madureira historicamente ligadas à Portela, tidas como mantenedoras de saberes culinários “típicos” das comunidades negras cariocas e ligados ao samba. O intuito da feira, portanto, seria reverenciar uma ancestralidade afro-brasileira a partir da música, da culinária e da apropriação do espaço público para o encontro e a festa, tornado e pensado como um “grande quintal” de uma casa suburbana de outrora.

16 Parceira da Prefeitura do Rio em diversos projetos e iniciativas na cidade, a Rede Globo de Televisão divulgou, transmitiu e noticiou todas as intervenções e eventos ocorridos no bairro no ciclo olímpico, transformando Madureira em lugar privilegiado para uma novela (“Avenida Brasil”), uma minissérie (“Suburbia”), na transmissão do Carnaval das escolas de samba e dos blocos de rua, e ainda em eventos esportivos realizados no Parque (como campeonatos internacionais de skate) e pela ONG CUFA (como a “Taça das Favelas”).

17 Vídeo oficial do projeto “Casa do Jongo” apresentado no Pavilhão Brasileiro da Bienal de Veneza em 2016 disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PD6QtZfi5rk&list=PLkSo qxCZ9sGcY09oeatsXjt5_3uoWSf4X, último acesso em junho de 2021.

18 Conferir dados da Secretaria Municipal de Urbanismo do Rio de Janeiro em: http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/exibeconteudo?id=2069710 Último acesso em junho de 2021.

19 Sobre estes temas, ver a reportagem da BBC Brasil “No caminho do BRT: as histórias por trás do legado da Rio 2016”, de 07 de agosto de 2016, disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37001541, último acesso em junho de 2021.

20 Para dados oficiais sobre a criminalidade na cidade do Rio, ver o sítio do ISP-RJ em: http://www.isp.rj.gov.br/ Acesso em junho de 2020.

21 Conferir a notícia “Protesto por morte do menino Ryan tem ônibus queimados em Madureira”, portal G1, de 28 de março de 2016, disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/03/moradores-protestam-por-morte-de-menino-rian-em-madureira-no-rio.html, último acesso em junho de 2021.

22 Conferir a reportagem “Crivella descumpriu quatro de cada cinco promessas feitas na campa-nha de 2016”, Agência Lupa e Revista Piauí, de 17 de outubro de 2020, disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/10/17/crivella-promessas-campanha-2016/, último acesso em junho de 2021.

23 Conferir a notícia “Casa do Jongo da Serrinha reabre no sábado com ajuda de vaquinha virtual”, Jornal Extra, de 27 de março de 2018, disponível em: https://extra.globo.com/noticias/rio/casa-do-jongo-da-serrinha-reabre-no-sabado-com-ajuda-de-vaquinha-virtual-22531892.html, último acesso em junho de 2021.

24 Conferir a notícia “Funcionários fazem ato contra o fechamento da Maternidade Herculano Pinheiro, em Madureira”, Jornal Extra, de 01 de julho de 2019, disponível em: https://extra.globo.com/noticias/rio/funcionarios-fazem-ato-contra-fechamento-da-maternidade-herculano-pinheiro-em-madureira-23776691.html, último acesso em junho de 2021.

Recebido: 20 de Julho de 2020; Aceito: 09 de Julho de 2021

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