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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.242 Lisboa mar. 2022  Epub 31-Mar-2022

https://doi.org/10.31447/as00032573.2022242.11 

Recensão

Recensão: Como Salvar um Mundo Doente

Pilar Damião de Medeiros1 
http://orcid.org/0000-0002-9343-5737

1CICS.UAc/CICS.NOVA.UAc, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade dos Açores, Rua da Mãe de Deus - Ponta Delgada, Portugal. pilar.sl.medeiros@uac.pt

Ferreira, Eduardo Paz. ,, Como Salvar um Mundo Doente. ,, Lisboa: ,, Edições 70, ,, 2021. ,, 234 ppp. . ISBN, ISBN: 9789724424873.


“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto. (…) ‘o que aconteceu?’, pensou. Mas não era um sonho” (Kafka, 2002, p. 7). Foi com esta sensação de estranheza kafkiana, confusão e fragilidade que a Humanidade tropeçou numa nova pandemia, a Covid-19, fazendo brotar o que Bernard-Henri Lévy (2020, pp. 9; 93) denominou como o “primeiro medo mundial”. Como Salvar um Mundo Doente retrata um mundo que, mesmo antes da chegada do vírus, já apresentava sintomas de profunda debilidade moral manifestada na inanidade, no caráter obsceno do desprendimento, do enfraquecimento das responsabilidades e na frivolidade perante as narrativas de sofrimento dos “outros”. Enquanto enuncia as consequências danosas que já se vinham alastrando nos diversos domínios da sociedade, nomeadamente nos campos económico, social e político, fruto de uma “globalização negativa” (Z. Bauman), Eduardo Paz Ferreira apresenta também propostas concretas para uma sociedade mais justa, solidária, sustentável e democrática.

Depois de refletir sobre os aspetos gerais da pandemia, sobre a forma como lidámos com anteriores crises e como estamos a reagir à Covid-19, o autor propõe soluções de futuro que abarquem o respeito pela dignidade do ser humano: “este livro não vem imbuído da pretensão de identificação da poção mágica que irá resolver todos os problemas. Procura recenseá-los, analisar e propor sugestões de resposta” (Ferreira, 2021, p. 22).

Antes de uma análise mais circunscrita à pandemia, o autor salienta diversas disfunções que contribuem para o aprofundamento das desigualdades entre os muito ricos, os milionários de Davos, glorificados na revista Forbes e todos os outros, os pobres que se tornam cada vez mais pobres; a escalada de violência e o terror após o 11 de setembro, alimentando antigos e novos ódios; o abominável aumento das extremas direitas que incitam formas de racismo, xenofobia e anti-semitismo, “recordando o que se passou há quase cem anos, quando se começou a desenhar o que veio a ser a barbárie nazi”; a perda de laços sociais, acompanhada pela desistência dos valores de solidariedade social que ignoram as ruínas humanas, “(…) bem expressa nas tragédias dos emigrantes, nos múltiplos conflitos regionais e na indiferença globalizada” - são motivos que nos indicam, afirma Paz Ferreira, que se olharmos “globalmente para a evolução sócio-política das últimas décadas, é difícil encontrar motivos de júbilo” (Ferreira, 2021, pp. 19, 20, 21).

Contudo, e perante a atual crise, o autor reitera que este poderá ser um momento de mudança paradigmática, com o potencial de criar um novo modo humano de habitar a realidade. Glosando a frase de John F. Kennedy quando tomou posse como 35.º presidente dos EUA “Não pergunte o que o seu país pode fazer por si, pergunte antes o que pode fazer pelo seu país”, Eduardo Paz Ferreira apela à participação cívica e comprometida de todos, agora a uma escala global: “o que faz verdadeiramente sentido é interrogarmo-nos sobre o que podemos fazer pelo Mundo, na sua globalidade” (Ferreira, 2021, pp. 14-15).

De acordo com a sua reflexão existe uma “afinidade recíproca entre surtos virais e desordem social”, funcionando as pandemias como “um espelho que nos permite diagnosticar melhor as vulnerabilidades dos ecossistemas que habitamos e criamos” (Ferreira, 2021, p. 53). Após um périplo pelas consequências da pandemia no debate político, na educação, no trabalho, no quotidiano dos indivíduos assombrado por confinamentos, distanciamentos sociais e fadiga, o autor identifica “a sua ligação aos níveis de desigualdade, a dependência do crescimento económico, a debilidade da proteção sanitária pública e a fraqueza das normas e instrumentos de cooperação internacional” (Ferreira, 2021, p. 32).

Eduardo Paz Ferreira chama ainda a nossa atenção para o devir histórico das pandemias que, por sua vez, está intimamente ligado à fabricação de bodes expiatórios. Da praga de Atenas, ocorrida entre 430 e 427 a. C., passando pela Peste Negra, que matou quase 50 milhões de pessoas, atribuiu-se o mal a grupos vulneráveis, no último caso os Judeus, que foram “sistematicamente acusados de espalhar a doença de forma propositada” (Ferreira, 2021, p. 57). Da Febre Amarela no século XVIII/início XIX à Gripe Espanhola de 1918, em que se estima 100 milhões de mortes, chegamos à Covid-19, que o presidente Donald Trump e os seus “aliados associaram muitas vezes a uma retórica anti-chinesa (…) o que levou a um crescimento galopante de crimes de ódio contra a população asiática nos Estados Unidos” (Ferreira, 2021, p. 56). A par destas distorções culturais, que erradamente materializam o medo e agudizam a angústia social, deparamo-nos com os movimentos negacionistas que, com as suas teorias conspirativas, tentam incutir a desconfiança e o pânico nas populações.

O autor analisa também a questão da desigual distribuição de vacinas e da falta de cooperação entre os vários países na gestão deste recurso anti-pandémico. De facto, apesar de as vacinas terem sido um sinal de esperança, o acesso à vacinação foi, em diversos países, muito insuficiente e rarefeito. Perante este cenário de secundarização da vida humana, Paz Ferreira reitera a necessidade de “(…) incrementar a cooperação internacional e a coordenação para as vacinas atravessarem fronteiras sem dificuldades” (Ferreira, 2021, p. 78).

Este apelo surge num momento em que a própria economia também se senta no divã, numa espécie de autoanálise. Paz Ferreira enumera diferentes crises que mereceram diferentes planos de recuperação económica, como o New Deal, o Plano Marshall, entre outros, e enaltece os planos que estão ser desenvolvidos e implementados na União Europeia e nos EUA com forte apoio estatal. Porém, para uma maior estabilização dos mercados, sublinha a urgente necessidade de “colocar um termo final à fuga fiscal internacional” e, por outro, apela a um maior reforço da presença do Estado “(…) como uma força protetora do bem-estar dos cidadãos e, em particular, daqueles que conhecem maiores dificuldades” (2021, p. 166).

A valorização da ciência e a responsabilidade com o ambiente assumem também elevada importância na configuração das novas sociedades. Paz Ferreira enaltece, com entusiasmo, o Green Deal arquitetado pela União Europeia, bem como a pretensão dos EUA de quererem “liderar uma revolução energética limpa e criar empregos sindicais bem remunerados” (Ferreira, 2021, p. 215). Face à atual desinformação sobre as alterações climáticas, bem como à proliferação descontrolada de fake news, o autor apela a uma maior seriedade, regulação e consciência ética por parte dos media.

Não obstante o novo modus vivendi global, Eduardo Paz Ferreira termina com um sinal de esperança num “mundo de mais justiça, mais solidariedade, maior equidade, menor indiferença e uma nova solidariedade” (Ferreira, 2021, pp. 231-232) e salienta que devemos contribuir para o aprimoramento das sociedades, para servir o bem público.

Referências bibliográficas

FERREIRA, E. P. (2021), Como Salvar um Mundo Doente, Lisboa, Edições 70. [ Links ]

KAFKA, F. (2002), A Metamorfose, Barcelona, Printer. [ Links ]

LÉVY, B.-H. (2020), Este Vírus que nos Enlouquece, Lisboa, Guerra e Paz. [ Links ]

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