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Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia

Print version ISSN 0430-5027On-line version ISSN 2182-2905

Finisterra  no.130 Lisboa Dec. 2025  Epub Dec 31, 2025

https://doi.org/10.18055/finis44086 

Comentário de autor

Suzanne Daveau. Contributo para a Finisterra

Suzanne Daveau. Contributor to Finisterra

Maria João Alcoforado1 
http://orcid.org/0000-0001-6648-1087

Maria Fernanda Alegria2 
http://orcid.org/0000-0001-8462-2971

1 Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa. Edifício IGOT, Universidade de Lisboa, R. Branca Edmée Marques, 1600-276, Lisboa, Portugal. E-mail: mjalcoforado@campus.ul.pt

2 Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal. E-mail: mfalegriab@gmail.com


Resumo

Suzanne Daveau foi uma das fundadoras da Finisterra em 1966. Assinalando os seus 100 anos de vida, analisa-se a grande diversidade dos 98 textos que publicou nesta Revista, entre 1966 e 2016, assim como as suas principais obras de referência. Fica evidenciada a variedade de interesses da autora, desde a Geografia Histórica, passando por estudos de Geografia Física (particularmente Geomorfologia e Climatologia), Geografia Regional, Cartografia, entre outros. Em todos estes campos foi inovadora, assim como na aplicação de técnicas que iam surgindo como a deteção remota, de que foi uma das precursoras em Portugal. Sempre defendeu e praticou a pluridisciplinaridade, em desfavor da especialização, sobretudo quando precoce. Muitos dos textos analisados ou referidos têm carácter pedagógico bem marcado, pois a vertente de investigadora de Suzanne Daveau está estreitamente interligada com a de professora e orientadora de numerosos discípulos. A vontade de manter viva a memória de muitos investigadores fica também aqui registada. Referem-se ainda alguns testemunhos do incentivo que Suzanne Daveau deu a discípulos de “segunda geração”. Suzanne Daveau esteve sempre presente nas diversas iniciativas da Finisterra, de que se apontam algumas, sempre com palavras de estímulo para os seus seguidores.

Palavras-chave: Suzanne Daveau; Geografia; Finisterra

Abstract

Suzanne Daveau was one of the founders of Finisterra in 1966. On the occasion of her 100th birthday, this paper examines the great diversity of the 98 works she published in the journal between 1966 and 2016, as well as her main reference works. The breadth of the author’s interests is evident, ranging from Historical Geography to studies in Physical Geography (particularly Geomorphology and Climatology), Regional Geography, Cartography, among others. In all these fields, she was innovative, including in the application of emerging techniques such as remote sensing, of which she was one of the pioneers in Portugal. She always defended and practised multidisciplinarity, favouring it over early specialisation. Many of the works analysed or cited have a strong pedagogical character, since Suzanne Daveau’s research activity was closely intertwined with her role as a teacher and supervisor to numerous students. Her commitment to preserving the memory of many researchers is highlighted. The text also refers to several accounts of the encouragement that Suzanne Daveau gave to “second-generation” students. She was always present at the various Finisterra initiatives, consistently offering support and encouragement to her followers.

Keywords: Suzanne Daveau; Geography; Finisterra

1. Introdução

A Professora Suzanne Daveau completou 100 anos a 13 de julho de 2025. Pareceu apropriado fazer uma síntese do seu trabalho na Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia, que tanto lhe deve.

Suzanne Daveau é uma eminente geógrafa, conhecida internacionalmente, que tratou de quase todos os temas de Geografia, contrariando a tendência de especialização científica, muito nítida a partir de meados do século XX. De personalidade muito rica, viva inteligência e curiosidade insaciável, possui também qualidades artísticas, que a levaram, desde muito cedo, a desenhar, pintar, fotografar (seguindo a tradição familiar) e, em anos mais recentes, a realizar tapeçarias a partir dos seus próprios desenhos. Viveu a guerra de 1939-45, grande parte do tempo em Paris, pelo que segue com apreensão a presente situação política mundial, estabelecendo paralelismos com o que ela própria passou na juventude.

A sua biografia científica foi já tratada em diversas publicações. Salientamos aqui o texto bio- bibliográfico de J. C. Garcia (1997), numerosos artigos sobre a sua obra no número 63 da Finisterra, que lhe foi dedicado (Medeiros, 1997a; Gaspar, 1997) e o livro coordenado por Maria Fernanda Alegria (Alegria et al., 2015), ilustrado com sugestivas fotografias, celebrando os seus 90 anos. Ao longo da vida recebeu prémios, condecorações e doutoramentos Honoris Causa: Senegal (1964), França (1981) e Portugal (1997, 1998, 2001, 2002, 2017e 2025).

Quando, em 1965, se estabeleceu em Portugal dedicou-se a este espaço de estudo e começou a percorrer o país com Orlando Ribeiro. Mas já antes fizera carreira em França e na África Ocidental. Estudou Geografia na Universidade de Paris, foi professora dos ensinos primário, secundário e superior (Universidades de Besançon e Reims) e fez o Doutoramento ès Lettres na Sorbonne sobre os habitantes da montanha franco-suíça do Jura (Daveau, 1959a). A sua tese complementar versou a Geomorfologia da região de Bandiagara, na África Ocidental (Daveau, 1959b). De 1957 a 1964 foi Professora na Universidade de Dakar, onde desenvolveu notáveis trabalhos de Geomorfologia e de diversos temas de Geografia Tropical (Alegria et al., 2015; Garcia, 2001; Pélissier, 1997).

Uma das principais preocupações de Suzanne Daveau foi de divulgar amplamente o conhecimento geográfico1. Importantes para o “grande público” foram O Ambiente Geográfico Natural (Daveau, 1976b) e Portugal Geográfico (Daveau, 1995). A aparente simplicidade destas obras esconde elaboradas sínteses, que várias gerações de alunos e outros interessados têm usado com proveito. Também o livro La Zone Intertropicale Humide (Daveau & Ribeiro, 1973) é uma síntese geográfica notável. Lembre-se ainda o interesse revelado pela forma como a Geografia era ensinada em Portugal (Daveau & Sirgado, 1983).

2. A fundação da finisterra

Orlando Ribeiro, Suzanne Daveau e Ilídio do Amaral perceberam que a divulgação internacional dos trabalhos científicos portugueses e o conhecimento da investigação dos geógrafos estrangeiros se faria mais facilmente se se dispusesse de um “instrumento” de comunicação, ou seja de uma revista científica, amplamente permutada com universidades internacionais. Em 2025, em que o acesso a qualquer artigo de investigação está à distância de um clic (sem falar da inteligência artificial, largamente utilizada), será talvez difícil entender o isolamento científico em que Portugal se encontrava nos anos 1960, apenas quebrado pelos esporádicos congressos internacionais de Geografia, os estágios no estrangeiro dos professores e os contactos que estes aí estabeleciam. Foi neste contexto que, em 1966, nasceu a Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia.

Os fundadores e primeiros diretores foram Orlando Ribeiro, Suzanne Daveau e Ilídio do Amaral. Criar uma revista do nada não é tarefa fácil, particularmente num país que vivia isolado e em que havia dificuldades financeiras2. É por isso natural que, nos primeiros números, a colaboração dos diretores e seus colegas tivesse sido essencial. Mas cedo a Finisterra recebeu textos de geógrafos de outros países. Claro que a França veio em primeiro lugar, graças aos contactos de Orlando Ribeiro e Suzanne Daveau. Logo nos primeiros 10 números foram publicados textos de Pierre Gourou (no número 1), Georges Chabot (3), Jean Demangeot (6), Etienne Juillard (6 e 9). Artigos de autores de outras nacionalidades apareceram também desde os primeiros números: Brasil, Orlando Valverde (4, 6), Aldo Paviani (5), Suécia, Torsten Hägestrand (7), Canadá, Pierre Dansereau (6) e Alemanha, Bodo Freund (9). Num país “salazarista” esta abertura ao mundo era extraordinária.

Os inúmeros afazeres do Professor Orlando Ribeiro e a partida do Professor Ilídio do Amaral para Munique, por um ano, quando o primeiro número da revista estava na tipografia (Alcoforado, 2017), fizeram com que Suzanne Daveau se tornasse, desde o início, a principal âncora da Finisterra. Era Suzanne Daveau quem auxiliava os autores a preparar e a rever os textos, com a colaboração de A. Machado Guerreiro, quem contactava novos colaboradores, quem ajudava a preparar mapas, gráficos e fotografias. Note-se que o rigor e a clareza são característicos dos trabalhos de Suzanne Daveau, que os transmitiu aos autores da Finisterra e aos seus alunos. As suas observações críticas, nem sempre bem recebidas, eram valiosas e muitos aprenderam a apreciá-las. As regras da elaboração de mapas e outras figuras foram também transmitidas nesse contexto, incluindo aspetos como a escolha do tamanho das letras e de outros símbolos para poderem ser legíveis, tendo em conta a redução necessária para a impressão à “mancha” da Finisterra. Este será um tema difícil de entender por uma geração hoje habituada ao zoom para ler um texto ou uma imagem.

Em 1981 juntam-se aos três diretores da Finisterra Jorge Gaspar e Carlos Alberto Medeiros, que se mantiveram no cargo até 1985. Nesse ano, a revista passa a ter como único diretor Carlos Alberto Medeiros (1985-2000), seguindo-se Maria João Alcoforado (2000-2015), Margarida Queirós (2016-2021), Marcelo Fragoso (2022-2024) e atualmente Eduardo Brito Henriques.

3. Participação em iniciativas da finisterra

Ao longo do tempo, Suzanne Daveau sugeriu, participou e apoiou as iniciativas da Revista, de que são dados alguns exemplos.

No ano de 2002, foi organizado um colóquio comemorativo dos 35 anos da Finisterra, em que se lançou um número temático sobre “Paisagem” (Finisterra, 2001, 36(72)). Contou-se com a participação de dois dos fundadores (S. Daveau e I. do Amaral) e foi recordado o Professor Orlando Ribeiro. Os vários oradores debruçaram-se sobre o conceito de paisagem, confrontando definições e sensibilidades. Suzanne Daveau participou no painel “Paisagem - Inovação e tradição” com Carlos Alberto Medeiros, Romero de Magalhães, Nicole Devy-Vareta e Denise de Brum Ferreira. “A intervenção de Suzanne Daveau foi marcada por várias considerações sobre a dificuldade de fazer Geografia sem considerar a paisagem. Recorreu a um exemplo de excepção - para confirmar a regra - relativo ao estudo do artesanato na cidade de Lisboa” (Ramos et al., 2002, p. 96), assim como a outros estudos que entraram em consideração com a paisagem, que “incorpora elementos de temporalidade diferente”. Citou vários casos portugueses, por exemplo o litoral da Estremadura, onde as obras para as autoestradas “destruíram inúmeras marcas paisagísticas muito instrutivas” (idem).

Suzanne Daveau participou na homenagem da Finisterra a Carlos Alberto Medeiros, seu diretor entre 1985 e 2000. Num artigo (Daveau, 2005), apreciou muito positivamente o trabalho de Geografia tropical, levado a cabo pelo homenageado sobre a colonização nos planaltos de Huíla (Sul de Angola), de que descreve os principais resultados.

António Machado Guerreiro foi durante muitos anos um pilar do Centro de Estudos Geográficos. No número 86 da Revista (2008), vários membros do Centro de Estudos Geográficos prestaram-lhe homenagem. Num artigo de Suzanne Daveau e Carlos Alberto Medeiros (2008), recorda-se que “A Finisterra deve-lhe tanto a cuidadosa revisão lexical, como a exigente e necessária administração” e é apresentada a obra deste filólogo, amigo dos geógrafos, cuja formação resultou de um enorme esforço pessoal. Muitos de nós que trabalhámos na Finisterra lucrámos muito com os sábios ensinamentos linguísticos (e não só) de A. Machado Guerreiro.

Em 2003, foi inaugurada a Biblioteca Orlando Ribeiro, no bairro lisboeta de Telheiras, ainda hoje centro cultural importante desta parte da cidade. A partir dos textos de Suzanne Daveau (2008a, 2008b, 2008c, 2008d), percebe-se que levou muito a peito esta homenagem a Orlando Ribeiro, comentando que ela se adaptava perfeitamente “à sua personalidade e à sua ação cultural”. Refere ainda que o Geógrafo Jorge Gaspar e o então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, João Soares, foram as personalidades que mais impulsionaram o projeto. No período que se seguiu à inauguração dessa Biblioteca, foram levadas a cabo diversas exposições e conferências. Os artigos preparados pelos conferencistas foram publicados no número 85 da Finisterra (2008), conjuntamente com uma série de textos inéditos de Orlando Ribeiro, compilados e organizados por Suzanne Daveau, outro exemplo de como tem enaltecido a memória e preservado o legado do marido.

Em 2015, o lançamento do número 100 e a celebração do 50º aniversario da Revista contou mais uma vez com a presença de Suzanne Daveau. Participou numa sessão moderada por Diogo de Abreu e em companhia de Ilídio do Amaral, Jorge Gaspar e Maria João Alcoforado, refletiu sobre a vida da Revista que ajudara a fundar e incentivou os colegas mais novos a prosseguir com este projeto.

4. A colaboração de Suzanne Daveau na finisterra como autora

A intensa colaboração de Suzanne Daveau manteve-se, mesmo depois de, em 1985, deixar de ser responsável pela revista. Não há melhor prova do que esta: entre 1966 e 2016, data do seu último texto na revista, Suzanne Daveau publicou 98 entradas, entre artigos, notas, recensões e documentos para o ensino. Nenhum autor tem na Finisterra mais textos do que ela. Nunca se escusou a rever artigos, sempre com o espírito crítico que tão bem lhe conhecemos. Além disso, foi ela própria a fazer os resumos em francês, durante muitos anos. Os seus textos versaram temas e lugares muito diversos. Foi aplicada uma classificação regional e temática para sintetizar a variedade dos trabalhos de Suzanne Daveau e a sua variabilidade no tempo.

4.1. Classificação regional e temática dos textos publicados na Finisterra

A conceção da classificação é da autoria de S. Daveau (em 2022), reportando-se ao conjunto das suas obras. Embora todas as classificações sejam discutíveis, esta, sendo muito sucinta, tem a vantagem de realçar os principais espaços e assuntos.

É bem visível que Portugal é a categoria regional principal (56 textos), a que se segue o Mundo (26). Com muito menos publicações ocorrem África (7), Europa (6) e a América (3) (fig. 1).

Fig. 1 Classificação regional das 98 publicações de S. Daveau na Finisterra entre 1966 e 2016. 

Se esses textos forem ordenados por décadas (fig. 2), nota-se que Portugal domina em todas elas, com maior presença em 1976-85, mas sempre a relativa distância da categoria seguinte, o Mundo. África é o 3.º grupo com mais publicações, mas, como a autora deixou de viver nesse continente em meados da década de 1960, o total de textos é reduzido. À Europa e à América dedicou 1 a 3 publicações por década. Relembre-se que apenas se analisam aqui os trabalhos posteriores ao ano da criação da Finisterra (1966).

Há maior equilíbrio entre os 6 grupos temáticos, do que nos 5 conjuntos regionais (figs. 3 e 4). Embora a História (ou melhor, a Geografia Histórica) tenha a primazia, Relevo, Clima e mesmo Geografia Regional seguem-se a relativamente pouca distância. Estudos específicos sobre Geografia Humana e Geografia da População são menos numerosos (fig. 3).

No entanto, esta classificação esconde ou, pelo menos, torna pouco visíveis algumas facetas da Geografia, que Suzanne Daveau praticou, nomeadamente em tudo o que se refere a técnicas e metodologias de estudo. Por exemplo, não mostra que os blocos-diagramas foram introduzidos na comunidade científica portuguesa por ela (Gonçalves, 1997, p. 77). Poder-se-iam acrescentar mais exemplos: a utilização da fotografia aérea, da teledeteção e, sobretudo, o impulso que deu à Cartografia. Este é um exemplo paradigmático dos problemas da classificação temática aqui utilizada.

Comparando as figuras 2 e 4, verifica-se que, na década 1966-75, Suzanne Daveau se dispersou por diversos temas e locais, nomeadamente concluindo trabalhos iniciados quando da sua estadia na África Ocidental. A década 1976-85 correspondeu à publicação dos trabalhos iniciados após a sua instalação em Portugal, particularmente obras de Geomorfologia e Climatologia, incluindo a aplicação da deteção remota. Nas décadas mais recentes os trabalhos de Geografia Histórica (e Cartografia, não incluída na classificação) vão-se tornando predominantes, como à frente se verá.

Fig. 2 Classificação regional por décadas das publicações de S. Daveau na Finisterra. 

Fig. 3 Classificação temática das publicações de S. Daveau na Finisterra entre 1966 e 2016. 

Do mesmo modo, se compararmos a figura 4 com a figura 2 do artigo de Alcoforado et al. (2015), em que se mostram por décadas os artigos publicados na Finisterra desde a sua fundação, pode-se verificar que os artigos sobre temas tratados por Suzanne Daveau aumentaram muito no tempo; por exemplo a Climatologia, a Cartografia (hoje também associada aos SIG), as Metodologias e a História da Geografia. Embora a relação não seja direta (pois muitas publicações de investigadores do Centro de Estudos Geográficos não são feitas na Finisterra e a Professora tem vários discípulos noutras instituições), sabemos, por exemplos concretos, que Suzanne Daveau entusiasmou alunos e discípulos a seguir os seus passos e a aprofundar diversos temas.

Fig. 4 Classificação temática das publicações de S. Daveau na Finisterra por décadas. 

Comentam-se a seguir os principais temas tratados pela autora.

4.2. Exemplos de temas tratados por Suzanne Daveau

Como recorda Carlos Alberto Medeiros, quando Suzanne Daveau começou a trabalhar em Portugal, era considerada uma especialista em Geografia Física, mas cedo se verificou que tinha outros interesses, incluindo a sua tese de doutoramento em Geografia Humana (Daveau, 1959a) que C. A. Medeiros (1997b) considerou notável. De facto, no início da sua estadia em Portugal, dedicou-se mais à Geografia Física, por ainda não dominar a língua portuguesa. Na figura 4, nota-se que os textos mais frequentes na década 1966-75 são sobre Geomorfologia e Climatologia (referidos por “Relevo” e “Clima”, seguindo a classificação de S. Daveau).

Embora já existisse uma tradição de estudo de Geomorfologia muito sólida em Portugal, a contribuição de Suzanne Daveau para o estudo do relevo de Portugal foi muito importante, nomeadamente com extensos artigos sobre a Serra da Estrela (Daveau, 1969a, 1969b, 1971) e uma nota sobre o Gerês (Daveau, 1977c), entre outros. Os trabalhos de Suzanne Daveau (conjuntamente com a pesquisa de A. de Brum Ferreira (1978, 2005)) incitaram numerosas investigações sobre esta interessante área de estudo, que ainda se prolongam (Mora, 2006; Mora & Vieira, 2025; Vieira, 2004; Vieira et al., 2020). Carla Mora refere que, além de ter sido incentivada por Suzanne Daveau, ela também “lhe deu acesso aos seus documentos de trabalho relativos à Serra da Estrela” (Mora, 2006, p. XV), o que exemplifica a “generosidade científica” que caracteriza a Professora. Sem expressão direta na Finisterra, Suzanne Daveau desenvolveu importantíssimas investigações sobre a evolução da Cordilheira Central e das bacias tectónicas circundantes, em colaboração com dois cientistas que havia bastante tempo se dedicavam a este assunto: Orlando Ribeiro e Pierre Birot (Daveau et al., 1985-86). Segundo A. de Brum Ferreira (1997, p. 50), a publicação dos três autores sobre este assunto constitui “uma obra de referência da geomorfologia peninsular”. De referir também a coordenação de Suzanne Daveau e de Mariano Feio de uma importante obra de síntese e actualização sobre o relevo de Portugal (Feio e Daveau, 2004). Este livro constituiu também uma homenagem a Mariano Feio, promotor da ideia desta compilação.

No entanto, foi na Climatologia portuguesa que Suzanne Daveau teve um papel de inovação essencial, também sublinhado por A. de Brum Ferreira (1997). Começa nas décadas 1966-75 com a apresentação da técnica de termoisopletas. Apresenta as estações meteorológicas representativas dos grandes conjuntos climáticos de Portugal Continental, em que se inserem: o estudo foi levado a cabo a partir das “Normais” climatológicas 1931-60, publicadas em 1965 pelo então denominado Serviço Meteorológico Nacional (Daveau, 1976a). A autora localiza as estações e analisa a informação disponível, fazendo, no entanto, notar que estes dados médios escondem a forte variabilidade do clima português. Evidencia a influência da continentalidade, num país tão pouco largo como Portugal (Daveau, 1975), mostrando que, por exemplo, as massas de ar quente podem chegar ao litoral e originar temperaturas quase uniformemente altas à latitude de Lisboa ou, então, haver diferenças de 20ºC entre Lisboa e o litoral ocidental a norte da Serra de Sintra.

Não se pode ignorar uma das obras mais significativas da autora sobre a repartição e o ritmo da precipitação em Portugal, acompanhada de dois mapas fora do texto, excelente imagem de conjunto, esteticamente muito apelativa e de enorme precisão (Daveau et al., 1977). A obra foi publicada na coleção “Memórias do Centro de Estudos Geográficos” (tal como o trabalho sobre a Lousã) e constitui um importante tratado sobre a influência dos diversos tipos de Relevo (altitude, orientação, forma) na ocorrência de precipitação. Os principais resultados foram sintetizados na revista internacional Geoforum (Daveau, 1978a). Suzanne Daveau interessou-se também por eventos meteorológicos extremos tão estudados atualmente, nomeadamente pela repartição de precipitação intensa e suas consequências (Daveau, 1972). Na sua dissertação de doutoramento, Marcelo Fragoso (2003, p. 14) reconhece que “os trabalhos de Suzanne Daveau constituíram um impulso importante no conhecimento da diversidade espacial das precipitações intensas em Portugal” e “na frequência de dias de precipitação muito abundante”. Neste mesmo tema, e em colaboração com colegas de vários pontos do país, reconstituiu os danos causados pelos temporais de 1978, explicando as suas causas (Daveau, 1978b). No intuito de contribuir para um futuro atlas de Portugal, edita em colaboração com numerosos colegas mais dois mapas climáticos de Portugal (Contrastes térmicos e Nevoeiro e Nebulosidade) e respetivo comentário (Daveau, 1985). Estes trabalhos têm sido muito utilizados por várias gerações de geógrafos na investigação e em vários níveis de ensino.

Estas publicações de cartografia temática constituem trabalhos de grande valor científico e pedagógico. “Em toda a obra de Suzanne Daveau se nota a forma cuidada e a expressividade científica das representações gráficas” (Moreira, 1997, p. 63). Exigia aos seus alunos e discípulos o mesmo rigor na preparação de documentos gráficos e cartográficos e foi uma das impulsionadoras da introdução da disciplina de Expressão Gráfica no Curriculum do curso de Geografia.

Aberta a novos temas, incentivou nos anos 1980 e 1990 numerosas pesquisas de Climatologia urbana e histórica. No âmbito desta última é interessante o estudo pioneiro que Suzanne Daveau faz da evolução do estado do tempo em Coimbra entre 1663 e 1665, a partir das cartas do Padre António Vieira (Daveau, 1997), entusiasmando vários discípulos a aprofundar a investigação em Climatologia histórica.

No ensino, desde cedo privilegiou o uso de fotografia aérea. A partir de 1977 fez em França estágios diversos de teledeteção (nome então usado para a deteção remota). Foi das primeiras, com Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira e Denise de Brum Ferreira, a divulgar a utilização deste espantoso instrumento de análise em pequenos fascículos fotocopiados e na Finisterra. Começou com notas didáticas sobre a técnica em si e sua aplicação à Geografia (Daveau, 1977a 1977b; Moreira, 1997). Posteriormente publicou artigos mais desenvolvidos, por exemplo sobre a repartição da temperatura de superfície a partir das imagens analógicas (únicas então disponíveis) no visível e infravermelho térmico dos satélites Météosat e HCMM, de 2 dias de julho de 1978, destacando a grande riqueza de informação obtida pelos satélites (Daveau, 1982). Mais tarde, participou num estudo levado a cabo a partir de informação digital de duas imagens diurnas dos satélites NOAA-AVHRR do Oeste da Península Ibérica (Alcoforado et al., 1995), em que já foi possível estabelecer uma correlação entre a temperatura do ar e do terreno e que teve continuidade também por discípulos de “segunda geração” (ou seja, estudantes dos seus discípulos mais diretos). António Lopes, na sua tese de doutoramento (Lopes, 2003) cita e utiliza com proveito estes e outros trabalhos de Suzanne Daveau, no desencadeamento da sua pesquisa sobre a ilha de calor de superfície de Lisboa.

A maior parte do trabalho em Geografia Histórica de Suzanne Daveau foi enaltecido por José Mattoso com quem trabalhou de perto, por exemplo em várias edições do Círculo de Leitores (Mattoso et al., 2010). Muitos estudos foram editados em revistas de História, Arqueologia, História dos Descobrimentos Portugueses (nacionais e estrangeiras), em publicações da Academia das Ciências e da Fundação Calouste Gulbenkian. José Mattoso refere que, para um historiador, “os trabalhos de Geografia Histórica de Suzanne Daveau são verdadeiramente preciosos” (Mattoso, 1997, p. 67); e reconhece: “Creio que foi sobretudo a partir do impulso metodológico dado por Suzanne Daveau que a Geografia Histórica portuguesa começou de facto a ganhar clareza e rigor”. Na Finisterra, dos 98 textos de Suzanne Daveau há 28 de Geografia Histórica, mas a maior parte diz respeito a comentários à obra de personalidades que tiveram importante repercussão geográfica. Sem surpresa, há 8 textos sobre Orlando Ribeiro (entre 1994 e 2008) e 12 sobre outras figuras importantes para o desenvolvimento da Geografia e de ciências afins3. Suzanne Daveau foi uma das geógrafas que mais contribuiu para manter viva a memória desses investigadores.

A relatividade das noções de espaço e tempo no conhecimento da evolução do ambiente geográfico em Portugal em diversas épocas do passado estiveram presentes em muitos trabalhos de Suzanne Daveau. O artigo “Espaço e tempo. Evolução do ambiente geográfico em Portugal ao longo dos tempos pré-históricos”, publicado na revista Clio do Centro de História da Universidade de Lisboa (Daveau, 1980), assim como outros editados na Finisterra (Daveau, 1979, 1987 e 1988) são exemplo do rigor das suas análises paleo-geográficas e do conhecimento que tinha das então novas técnicas de estudo e datação.

Recordem-se ainda duas obras notáveis, em que Suzanne Daveau constrói mapas a partir de dados alfanuméricos, ou seja, torna visíveis longas listas de dados numa única imagem cartográfica, muito utilizadas por estudiosos de várias disciplinas, nomeadamente por historiadores. É o caso do estudo em que Suzanne Daveau (2010) consegue pacientemente decifrar um complexo e enigmático registo das coordenadas de cerca de 1500 lugares de Portugal, conhecido por Códice de Hamburgo (c.1525) e reconstituir um mapa de Portugal de 1525. Esse mapa, a existir, antecederia em mais de 30 anos o de Fernando Álvaro Seco (c. 1561)! Num outro trabalho, Daveau e Galego (1986) apresentam o mapa da distribuição da população de Portugal, construído a partir do censo populacional (“Numeramento”) de 1527-32, muito útil para estudiosos do passado da população portuguesa.

A divulgação, fora do País, do que se sabe sobre a História dos Descobrimentos Portugueses particularmente no que diz respeito à Cartografia deve-lhe também muito, particularmente após o falecimento, em 1992, de Luís de Albuquerque. A colaboração, em 2007, na importante obra da Universidade de Chicago, Portuguese Cartography in the Renaissance é um marco a assinalar. Esse estudo seria editado em Portugal em 2012, com adaptações (Alegria et al., 2007, 2012). Recordem-se por fim pesquisas sobre a evolução do povoamento da Serra da Estrela (Daveau & Ribeiro, 1978).

Destes exemplos, conclui-se a diversidade dos estudos de Geografia de Suzanne Daveau, assim como a sua estreita ligação a investigações em ciências vizinhas da Geografia como Geologia, Palinologia, História, Arqueologia, entre outras, de que resultaram grande número de textos e que inspiraram numerosos discípulos.

5. Remate

Será difícil encontrar hoje qualquer geógrafo com obra tão valiosa, em campos tão diversificados, como Suzanne Daveau. A escolha dos temas apresentados foi forçosamente influenciada pelo trajeto das autoras no seio da Geografia, pelos seus contactos científicos e pela sua convivência assídua com Suzanne Daveau, que admiram como Cientista, como Professora, como Orientadora e como Pessoa de quem prezam a Amizade. Limitámo-nos à referência de algumas obras, não tendo sido feita uma descrição exaustiva do seu riquíssimo Curriculum Vitae. Tal não era o objetivo, pois essa informação encontra-se noutros locais já indicados. Da mesma maneira referimos alguns discípulos de “segunda geração”, que escreveram terem sido incentivados por Suzanne Daveau. Seria um trabalho interessante verificar a difusão do conhecimento e dos ensinamentos de Suzanne Daveau, mas tal estudo transcende os apontamentos que aqui se coligem para marcar o centésimo aniversário da Professora.

Confirmámos que a obra de Suzanne Daveau vai muito para além da Finisterra, mas ao mesmo tempo foi ancorada na Revista, que ajudou a fundar e na qual trabalhou com tanto afinco, gosto e rigor.

Referências bibliográficas

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1Pode ser estabelecido um paralelismo com a notável divulgação científica do geólogo António Galopim de Carvalho, seu parceiro de investigação e amigo

2Deve ser realçada a importância da Fundação Calouste Gulbenkian no financiamento dos números iniciais da Finisterra.

3Casos de: René Rainal, Jules Daveau, Pierre Birot, Hermann Lautensach, Emmanuel de Martonne, Georges Chabot, Michel Drain, André Guilcher, Xavier de Planhol, Albert Silbert, Jules Danserau, Pierre Dansereau, Amorim Girão, Manuel Viegas Guerreiro, Pierre Gourou, Mariano Feio, Joaquim Cerqueira Gonçalves, Soares de Carvalho, Antonio López Gomez, Jean Gottmann, Assane Seck, Fernando Rebelo, Leite de Vasconcellos

Recebido: 12 de Novembro de 2025; Aceito: 22 de Dezembro de 2025

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