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Arquivos de Medicina

versão On-line ISSN 2183-2447

Arq Med vol.26 no.4 Porto jul. 2012

 

Dados objectivos sobre a produção científica do Hospital de S.João/Faculdade de Medicina no intervalo 1997-2011.

 

Serafim Guimarães1 e Susana Leitão (Apoio logístico)

1 Professor Catedrático Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

 

Correspondendo ao pedido do Presidente do Conselho de Administração do Hospital de S. João, Prof. António Ferreira, aceitei organizar um “Observatório” destinado a inventariar a produção científica dessa unidade hospitalar, através do eco que as publicações feitas originaram no mundo científico, e referenciar os agentes responsáveis por essa produção. Contudo, a íntima unidade orgânica e funcional que o Hospital de S. João constitui com a Faculdade de Medicina do Porto, tornava impraticável essa avaliação. Não era só porque havia elementos de cada uma das duas instituições que dão o braço para executar tarefas comuns, mas era a coincidência das duas qualidades – hospitalar e universitária - nas mesmas pessoas. Em seu lugar, surgiu, assim, uma análise da produção do conjunto Hospital/Faculdade que, aos olhos de muita gente e aos meus, constituiu, desde sempre, uma entidade indissociavelmente unitária.

Este estudo não visa fazer propaganda da ciência. Faz-se hoje, a meu ver, excessiva propaganda da ciência e a ciência não existe para isso. Que se respeite, que se valorize, que se apoie, que o público a reconheça e que os ministros a considerem é justo e conveniente, mas sem que os cientistas entrem, abertamente, nesse jogo.

À ciência baste-lhe dominar a vida moderna. Ninguém duvida hoje que o futuro dos homens, pelo menos no que diz respeito ao seu bem-estar material, depende muito dos cientistas. E isso chega. Não são precisos gritos nem foguetes. Não contribui para a sua elevada dignidade ver nos meios de comunicação social a ciência a competir com os detergentes para lavar roupa.

Como diz F. Hoveyda, o prestígio da ciência é incontestável e torna-se evidente até na linguagem de toda a gente que, sem dar por ela, o vai confirmando. Expressões como: miopia intelectual, auscultar a opinião pública, fazer bombardeamentos cirúrgicos, estar no mesmo comprimento de onda, encontrar um denominador comum o que é senão a demonstração da influência dominadora da ciência.

Mas não gostar de ver cientistas em bicos de pés não é o mesmo que defender que se esconda a ciência, que se omitam os seus êxitos ou se calem os seus insucessos. É preciso, é útil, é serio que se dê conta, de forma objectiva e rigorosa, daquilo que ela nos vai dando e que se olhe com atenção para os números que a revelam, porque eles reflectem o potencial científico de um País que é, hoje, justamente considerado o motor mais credível do seu desenvolvimento e ainda porque, com a sua clareza, além de não mentirem, esses números são uma base segura para estabelecer comparações que devem ser feitas e consideradas, se não se quiser ser acusado de praticar injustiças ou de pactuar com elas, de exercer favoritismos, de ser agente de pecados de que nem sempre e fácil lavar as mãos.

As publicações que resultam do trabalho científico e que o revelam constituíram sempre uma base fundamental, insubstituível para a avaliação do mérito dos seus autores2

Quando há cerca de 50 anos iniciei a minha carreira académica, a grande maioria das publicações que serviam para fazer a avaliação de méritos científicos e para classificar candidatos era feita em revistas nacionais. Ser autor de um trabalho publicado numa revista internacional era uma coisa rara que distinguia!

Com o alargamento do número de cultores dessa actividade e o incremento da consciencialização do significado da investigação ocorrido no nosso País, na década de setenta do século passado, cresceu o número de autores portugueses a publicarem, regularmente, em revistas internacionais. E, como consequência natural desta tendência e à medida que ela se foi generalizando, o padrão do êxito passou a ser o número dos trabalhos publicados em revistas arbitradas que compunham os curricula. Mas este critério, que ainda conta para alguns dos seus utilizadores, já não é muito convincente, porque há muita gente atenta que, com razão, olha mais para o índice de impacto das revistas em que as publicações são feitas, do que para o número total de páginas escritas.

Porém, o índice de impacto de uma revista, sendo já um indicador de qualidade anunciador de um sucesso potencial, fica, ainda aquém de definir o justo mérito de cada um dos trabalhos que a integram, porque só revela uma média geral construída a partir de um somatório, mas diz pouco quanto ao valor de cada uma das publicações que contribuíram para essa média. Esse sucesso individual só pode ser avaliado pelo “consumo” que, a comunidade fizer de cada um desses trabalhos, e esse “consumo” só pode ser medido pelo número dos “consumidores”, explicitado no número de citações que esses trabalhos vierem a obter.

Foi, portanto, o número de citações – último elo de uma cadeia que vai do “produtor ao utilizador” - o critério que adoptamos para observar o trabalho produzido pela unidade Hospital de S. João/Faculdade de Medicina do Porto3.

No fim deste primeiro exercício que, seguramente, contém falhas por defeito, não podemos deixar de nos impressionar com a realidade revelada pelo estudo.

No ano de 2010, o número total de citações feitas dos trabalhos científicos publicados por autores do Hospital de S. João/Faculdade de Medicina do Porto foi de 5084 o que significa que de 1,7 em 1,7 horas alguém, no Mundo, cita um trabalho saído desta Instituição Portuguesa. A que distância nos encontramos dos míseros 55 trabalhos anuais produzidos por todas as instituições do País (dois e meio por mês!) do meu primeiro olhar sobre este mundo!

Talvez alguém possa pensar que esta inventariação significa um trabalho semi-inútil. Admito que haja quem assim pense. A esses lembro que é um trabalho que se adequa perfeitamente à semi-inutilidade de um jubilado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTAS

2 Sempre que há autores portugueses em publicações oriundas de centros de outros países e em que os autores estrangeiros predominam, foi considerado autor principal o autor português no caso de ele ser único, ou aquele que é academicamente mais representativo, no caso de haver mais do que um.

Nas publicações em que os autores são todos portugueses, considerámos autor principal o que possui grau académico mais elevado. Para evitar repetição na contagem das publicações, o autor principal é apresentado em negrito e só esse conta para o cômputo geral.

3 Os dados aqui apresentados e que pecarão sempre por defeito, foram obtidos a partir do Web of knowledge do ISI.

Mais recentemente, a Europa criou o seu próprio centro (Scopus) que cobre mais jornais do que o Web of knowledge de Philadelphia. Por isso, os números obtidos a partir desta nova fonte não coincidem com os doWeb. Se houver tempo e paciência continuaremos esta tarefa e passaremos a confrontar os dados fornecidos pelos dois centros.

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