Introdução
A violência, em todas as suas dimensões, provoca medo e insegurança na sociedade (Henson & Reyns, 2015). Esse cenário afeta a sociabilidade e a arquitetura dos espaços públicos e privados, residências e empresas privadas (Lira, 2014; Caldeira, 2000). Consequentemente, tem como reflexo o medo e as alterações nos relacionamentos sociais (Lira, 2014).
Diante desse cenário, tem havido um direcionamento de recursos estatais em políticas públicas na prevenção da criminalidade, bem como na proteção do cidadão (Santos et al., 2015). Também tem havido um aumento da contratação de empresas de segurança privada e da instalação de equipamentos de segurança (Caldeira, 2000; Cubas, 2017; Bauman, 2009). Um dos aparatos é a instalação de câmeras de monitoramento eletrônico nas instituições privadas e públicas (Filho, 2019). De acordo com Bauman (2014), a vigilância tornou-se líquida, ou seja, os métodos e equipamentos de vigilância estão em constante aprimoramento.
O medo da violência também atinge as escolas e provoca alterações no comportamento dos indivíduos e na gestão desses espaços (Melgaço, 2012). Conforme Warnick (2007), o uso de vigilância eletrônica nas escolas americanas já era uma realidade. Porém, após o atentado ocorrido em 1999, na cidade de Columbine, na Flórida, houve um aumento na utilização desses equipamentos eletrônicos.
No ambiente profissional, o monitoramento eletrônico objetiva proporcionar segurança e coibir os atos incivis, conceituados como comportamento hostil, grosseiro e de ausência de gentileza entre os colegas de trabalho nas organizações (Gray et al. 2017; Leiter et al., 2015; Wing et al., 2013). A incivilidade abarca três tipos: incivilidade testemunhada (quando alguém presencia atos incivis dirigidos a outrem); incivilidade instigada (foco nos indivíduos que incitam os comportamentos hostis e grosseiros); e incivilidade experimentada, objeto deste estudo, que enfatiza o comportamento e os sentimentos de quem sofre os atos incivis (Schilpzand et al., 2016).
Contudo, o monitoramento eletrônico de desempenho provoca um outro tipo de insegurança: medo e sensação incômoda de ser monitorado constantemente (Melgaço, 2012). Essas tecnologias passaram a ser utilizadas para aumentar o controle sobre os funcionários com o objetivo de elevar a produtividade (Filho, 2019). Nas escolas, a instalação de câmeras de monitoramento tem como discurso a proteção de alunos e profissionais. Porém, elas também são utilizadas pelos diretores para vigiar os professores (Perry-Hazan & Birnhack, 2019). Segundo Melgaço (2012), o monitoramento dentro do contexto escolar cria um ambiente desagradável e indagativo, pois todos são vigiados a todo o momento como se estivessem numa prisão. Para Ghimire e Rana (2023), as câmeras são usadas para controlar os comportamentos de alunos e professores que não atendem às políticas e diretrizes da escola e para promover o desempenho acadêmico.
De fato, algumas evidências têm mostrado que a vigilância por meio de câmeras é mais invasiva do que por software de computador (Charbonneau & Doberstein, 2020) e tem tido efeitos negativos como o aumento do estresse e da tensão do trabalhador (Ravid et al., 2023). Diversos estudos já mostraram que o estresse tem efeitos negativos na satisfação no trabalho envolvendo professores (Smetackova et al., 2019; Malinen & Savolainen, 2016; De Simone et al., 2016; Collie et al., 2012; Ferguson et al., 2012). Ou seja, o monitoramento eletrônico de desempenho por meio de câmeras tem efeitos psicológicos positivos e negativos na satisfação, na produtividade e no desempenho dos funcionários (Doberstein et al., 2022; Ravid et al., 2023; Siegel et al., 2021; Charbonneau & Doberstein, 2020; Abraham et al., 2019; Furnham & Swami, 2015).
Assim, diante do exposto, esta pesquisa objetiva analisar os impactos da vigilância via câmeras na satisfação, no desempenho e na incivilidade experimentada pelos professores da rede pública de educação básica, no Brasil. Essa discussão ancora-se na perspectiva do monitoramento eletrônico de desempenho, cujo objetivo principal é acompanhar e registrar informações sobre o desempenho e sobre os comportamentos dos indivíduos na organização (Ravid et al., 2020). Como a discussão é sobre o uso de câmeras, diz respeito ao monitoramento de ambientes (Charbonneau & Doberstein, 2020).
A relevância desta pesquisa está, primeiro, na contribuição para a literatura acerca da temática. No Brasil, poucos estudos abordam a vigilância por meio de câmeras nas escolas (Cano, 2020; Ranieri & Tavares, 2020; Filho, 2019; Sanz, 2015; Melgaço, 2012; Santana, 2010). São estudos qualitativos ou ensaios teóricos com foco na segurança, na privacidade e no controle disciplinar a partir de outras perspectivas - aspectos jurídicos, consequências da racionalização do espaço, processos de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. Este estudo, pelo contrário, é quantitativo e discute os impactos do monitoramento eletrônico no desempenho e na incivilidade experimentada, bem como na satisfação dos professores em escolas da educação básica.
Além disso, ainda são necessários estudos que abordem, de forma empírica, as relações entre o estresse laboral (neste estudo, oriundo da vigilância por meio de câmeras) e a satisfação dos professores em sistemas educacionais, preferencialmente, em países fora do eixo Estados Unidos-Europa Ocidental (Smetackova et al., 2019; Ouellette et al., 2018). Embora a incivilidade experimentada seja a mais estudada em comparação com a testemunhada e instigada, segundo Schilpzand et al. (2016), a vigilância por meio de câmeras não foi identificada como um dos antecedentes da incivilidade.
Ademais, no Brasil, a violência nas escolas tem aumentado nos últimos anos. Por exemplo, em 2023, o Disque 100 - Disque Direitos Humanos - recebeu cerca de 9.500 chamados envolvendo aproximadamente 50.000 denúncias de violações de direitos fundamentais (integridade física, discriminação, racismo, direitos políticos e civis de crianças, adolescentes, professores, pessoas com deficiência, mulheres, etc.). Esse dado representa um aumento de 143% em relação a 2022 (Rodrigues, 2023).
Também têm aumentado os ataques a escolas. Entre fevereiro de 2022 e outubro de 2023, ocorreram 37 ataques com violência extrema - 30 em escolas públicas e sete em particulares, com público de diferentes níveis socioeconômicos, sendo 16% em localidades com maior vulnerabilidade social. O total de vítimas chegou a 137, com 35 mortes: 29 estudantes, quatro professores e dois especialistas (Vinha et al., 2023).
Referencial teórico e hipóteses
Monitoramento de desempenho eletrônico
O monitoramento eletrônico de desempenho é um fenômeno multidimensional que diz respeito ao uso de meios tecnológicos para verificar, descrever e examinar informações sobre o desempenho e sobre os comportamentos dos indivíduos em organizações, produzindo efeitos psicológicos. Esse fenômeno abrange quatro elementos: (i) propósito (vigilância para evitar comportamentos contraproducentes, avaliação de desempenho, feedback construtivo, proteção e segurança); (ii) invasividade (monitoramento de e-mails, localização, tarefas, movimentos, veículos de indivíduos e grupos); (iii) sincronicidade (frequência e regularidade do monitoramento); e (iv) transparência (quantidade e frequência de fornecimento de informações do monitoramento aos funcionários) (Ravid et al., 2020; Bhave, 2014). Já Charbonneau e Doberstein (2020) classificam o monitoramento eletrônico de desempenho em três tipos:
(i) monitoramento de dispositivos (telefone, e- mail, mensagens de texto, teclas digitadas, cliques em computador/internet); (ii) monitoramento de ambientes (câmeras, movimentos geoespaciais, sensores de mesa de trabalho); e (iii) monitoramento biométrico (aplicativos de bem-estar, verificações de frequência cardíaca, reconhecimento facial) (p. 782)
Neste estudo, o foco é o monitoramento de ambiente por meio de câmeras, cujo objetivo é a busca pelo conhecimento e pela vigília dos espaços e das pessoas nas organizações (Charbonneau & Doberstein, 2020; Bhave, 2014; Ravid et al., 2020). Esse controle exercido pela fiscalização eletrônica proporciona a antecipação de eventos que poderiam gerar violência. Dessa forma, seria possível transformar o imprevisível em previsível e racional, com condições de afastar os medos ao propiciar a prevenção (Melgaço, 2012). De acordo com Cano (2020), o monitoramento em tempo real via câmera permite o controle do indivíduo tanto nas ações quanto na interação com outrem. Especialmente em culturas embasadas pelo medo e pela insegurança, de modo que há necessidade da vigília para assegurar a reprodução do indivíduo perante à desigualdade do espaço ocupado por grupos sociais. Já Santana (2010) entende que se trata de uma justificativa para coibir o direito de liberdade do indivíduo.
Para Melgaço (2012), as câmeras possuem três dimensões funcionais referentes ao passado, presente e futuro. Em relação ao passado, o objetivo das câmeras é investigar e identificar o ocorrido. No presente, é “a extensão dos olhos do vigilante” (p. 200). Em relação ao futuro, atua na prevenção, deixando claro para o indivíduo que ele está sendo vigiado constantemente para coibir ações infratoras. As câmeras que estão ligadas e não armazenam dados têm função presente e futuro. As falsas e as que não estão ativadas possuem função somente futura, pois o objetivo é introduzir o temor pela repressão. Ou seja, a finalidade é coercitiva. O indivíduo pensa que está sendo vigiado e, por não saber do não funcionamento da câmera, teme a prática de ações transgressoras. Nesse sentido, a câmera, mesmo falsa, tem o objetivo de introduzir o temor.
No Brasil, em particular, no que compete à instalação de câmeras no local de trabalho, seja nos espaços públicos, seja nos privados, há algumas objeções legais. De acordo com o artigo 5.º da Constituição da República Federativa do Brasil (Presidência da República, 1988), “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Quanto a esse tema, a Primeira Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) decidiu, em 2020, no julgamento do processo RR-21162-51.2015.5.04.0014, que não existe ilegalidade no uso de câmeras de vigilância no local de trabalho. Porém, determinou que os funcionários sejam avisados prévia e expressamente desse monitoramento e que as câmeras não estejam em locais de descanso, banheiros e vestiários, pois haveria o perigo de expor as partes íntimas dos funcionários (TST, 2020).
Alguns estudos têm apontado implicações relevantes para os gestores, tanto de organizações privadas quanto públicas, sobre o uso das câmeras no local de trabalho (Charbonneau & Doberstein, 2020; Doberstein et al., 2022; Furnham & Swami, 2015; Ravid et al., 2023; Siegel et al., 2021). Furnham e Swami (2015) mostraram que o monitoramento eletrônico de desempenho por meio de câmeras tem efeitos positivos e negativos na satisfação, autonomia, discriminação e atitude em relação à autoridade no trabalho de funcionários de empresas britânicas.
Charbonneau e Doberstein (2020) mostraram que a vigilância por meio de câmeras, captura de fotos e crachás são mais invasivas do que por meio de software de computador, pois trata-se de uma vigilância sem relação com a produtividade e desempenho no trabalho. Esse estudo foi feito com servidores públicos e cidadãos no Canadá. Com base na teoria da gestão da privacidade da comunicação, Siegel et al. (2021) revelaram que os candidatos tendem a recusar uma oferta de emprego, caso saibam das práticas de monitoramento eletrônico.
Já Doberstein et al. (2022) apontaram que os empregados do setor privado são mais tolerantes do que os servidores públicos no Canadá quanto ao monitoramento no trabalho por meio de câmeras. Além disso, independentemente do setor, as gerações mais novas aceitam melhor esse tipo de fiscalização. Por último, Ravid et al. (2023) encontraram evidências de efeitos psicológicos do monitoramento eletrônico, a exemplo de efeitos negativos como aumento do estresse e da tensão do trabalhador. E efeitos positivos, pois um monitoramento mais transparente e menos invasivo acarreta atitudes positivas dos trabalhadores.
No ambiente escolar, a vigilância não é novidade, sendo praticada desde o início do século XIX. Hoje, as formas de vigilância são mais sofisticadas e diversificadas, pois ocorreu a substituição do controle presencial pelo eletrônico. Assim, a instalação de câmeras de vigilância nas escolas é, também, um reflexo da insegurança em que vive a sociedade brasileira diante da violência que se materializa em todas as suas formas (Melgaço, 2012).
Segundo Warnick (2007), nos Estados Unidos, o uso de câmeras de vigilância eletrônica é uma realidade na maioria das escolas, cujo ambiente é diferente da maioria de outros locais públicos, por ser um espaço comprometido com a aprendizagem e desenvolvimento dos alunos. Complementa dizendo que a preocupação não deve ser apenas com o erro ou o acerto das ações, mas com a informação passada pelo viés das ações praticadas.
Para Manolev et al. (2019), a vigilância estabelece a finalidade disciplinar da escola, tornando os alunos visíveis por meio de uma metodologia coercitiva. Ou seja, no sentido de que os atos indisciplinares dos alunos são possíveis de serem visualizados por meio da câmera de vigilância. A utilização das imagens produzidas pelas câmeras na escola serve para controlar, mudar, moldar e gerenciar comportamentos e manter a disciplina escolar, auxiliando na comunicação e na fiscalização.
2.2. Desempenho do professor
Para discutir o desempenho dos professores, este estudo segue o conceito proposto por Yilmaz (2015), segundo o qual o desempenho no trabalho é o “resultado de uma série de comportamentos e tarefas executadas diariamente pelos funcionários, que são elementos críticos nas avaliações de desempenho feitas pelos gestores” (pp. 35-36).
No ambiente escolar, Cano (2020) entende que as câmeras prejudicam o ensino-aprendizagem ao diminuir a autonomia dos alunos e dos professores. Numa unidade escolar no município de Rio Claro, no Estado de São Paulo, a inserção de câmeras de monitoramento dentro da sala de aula prejudicava os debates acerca de temas polêmicos, inibindo a participação dos alunos. Por conseguinte, pode afetar o desempenho dos professores.
Noutros ambientes organizacionais, Abraham et al. (2019) também mostraram respostas positivas e negativas de funcionários alemães. Ou seja, tendem a aceitar a vigilância quando têm atitudes positivas e, se houver aumento de produtividade, tendem a rejeitar o monitoramento, caso seja usado para vigiar a integridade e o desempenho deles.
Assim, sob uma vigilância por meio de câmeras, este estudo argumenta que o cumprimento das metas, das tarefas e do trabalho no prazo e a forma de responder rapidamente quando surgem problemas podem ser comprometidos (Yilmaz, 2015). Com base nesses argumentos, seguem as seguintes hipóteses: (H1a) os aspectos positivos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma positiva ao desempenho dos professores; (H1b) os aspectos negativos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma negativa ao desempenho dos professores.
2.3. Satisfação no trabalho
Satisfação no trabalho, de acordo com Liu et al. (2016), é um conceito complexo que abrange múltiplos aspectos, dentre eles, reconhecimento, produtividade e segurança no local de trabalho (Bota, 2013). Diz respeito aos efeitos emocionais positivos de um trabalhador em relação à igualdade de direitos e ao que ele conquistou, com base na avaliação profissional ou experiência de trabalho. Trata-se de um tema que se tem tornado relevante em inúmeras pesquisas e um dos motivos é a influência gerada no comportamento das pessoas, pois a atitude positiva do indivíduo confirma a sua satisfação no trabalho (Özpehlivan & Acar, 2015).
Quanto aos impactos da vigilância no local de trabalho em empresas, numa perspectiva ética, West e Bowman (2016) mencionam achados divergentes. Os favoráveis referem-se à segurança, ao planejamento e ao controle de comportamentos inadequados. Já os argumentos desfavoráveis veem a vigilância como forma de punição, que afeta o moral e a motivação e promove medo e estresse. Apontam, ainda, que a vigilância deve ser guiada pela ponderação e pelo equilíbrio, pois, de um lado, está o direito do empregador de controlar as atividades da organização e zelar pela produtividade, e, de outro, esse direito não pode sobrepor-se ao do trabalhador de ter sua individualidade e privacidade protegidas.
Ainda em empresas, alguns estudos têm mostrado tanto efeitos positivos quanto negativos da vigilância nos funcionários na satisfação no trabalho. Por exemplo, Furnham e Swami (2015) mostraram que os funcionários de empresas britânicas que tinham um olhar positivo sobre o monitoramento eletrônico, maior segurança e produtividade, apresentaram maior satisfação no trabalho e aceitação e confiança com a autoridade. Já aqueles que perceberam que a vigilância é uma invasão de privacidade que gera desconfiança e estresse demonstraram menor satisfação e autonomia no trabalho, maior percepção de discriminação e atitudes mais negativas em relação à autoridade. Já Martin et al. (2016) revelaram que, quando os funcionários australianos percebem uma vigilância maior no trabalho, tendem a adotar comportamentos contraproducentes, como centrar em meios para prejudicar o gestor, apontar falhas na organização e descuidar-se no final do dia.
Em ambientes educacionais, que reúnem alunos e funcionários (docentes, pedagogos, equipes da administração - financeiro, atendimento, limpeza, manutenção, nutrição), Warnick (2007) afirma que a vigilância é interpretada pelos professores como um atentado à identidade profissional deles, uma invasão do espaço deles e dos alunos. Ou seja, trata-se do lugar onde o professor exerce o seu direito de liberdade de ensinar. A vigilância constante tem causado impactos nas atividades pedagógicas e no estado mental, no comportamento e no sentimento dos professores em escolas israelenses, com relatos de amargura, raiva, hostilidade, insulto e desconfiança. Relataram, ainda, que se sentem sufocados, perseguidos, desconfortáveis e angustiados, pois têm a sensação de que não são confiáveis (Perry-Hazan & Birnhack, 2019).
Diante do exposto, são formuladas as seguintes hipóteses: (H2a) os aspectos positivos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma positiva à satisfação no trabalho dos professores; (H2b) os aspectos negativos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma negativa à satisfação no trabalho dos professores.
De acordo com a pesquisa de Usop et al. (2013), nas Filipinas, a satisfação é indispensável para atrair e manter gestores e educadores bem qualificados no ambiente escolar. Na Indonésia, Amin (2015) relata que o desempenho dos docentes na escola se torna amplamente influenciado pelo contentamento e pelas condições de trabalho. Ou seja, a satisfação pode ser o fator determinante para o maior ou menor desempenho. Dessa forma, segue a terceira hipótese: (H3) a satisfação no trabalho dos professores está associada ao desempenho deles de forma positiva.
2.4. Incivilidade experimentada
Os atos incivis infringem normas sociais de respeito acarretando consequências negativas para o indivíduo e para o trabalho (Abid et al., 2015; Beattie & Griffin, 2014), tais como: absenteísmo, satisfação reduzida, atraso, reduzido compromisso com as tarefas, comportamentos contraproducentes. Ou seja, incivilidade instigada, depressão, ansiedade, conflito na relação trabalho-família, diminuição da produtividade, desempenho (Schilpzand, et al., 2016; Abid et al., 2015; Cortina, 2008).
As incivilidades no ambiente de trabalho têm efeito espiral, originando-se a partir de comportamentos incivis simples como um relacionamento interpessoal grosseiro, com tom de voz indelicado, demonstrando falta de deferência com o outro, e que têm potencial para dar origem a outros comportamentos mais intensos e crescentes (Anderson & Pearson, 1999; Gray et al., 2017; Cortina & Magley, 2009). As respostas aos atos de incivilidade podem ser mais agressivas com propensão ao recrudescimento. Ademais, Cortina (2008) explicita que os atos de incivilidade no ambiente de trabalho apresentam um recorte que abrange preconceitos de gênero e raça, pois têm como alvo pessoas de etnias minoritárias e mulheres. Trata-se da incivilidade seletiva.
Nesse caso, o monitoramento eletrônico por meio de câmeras pode contribuir para inibir esses atos. Cano (2020, p. 254) afirma que a vigilância por câmeras nas escolas é instrumento que molda comportamentos ao servir de “mecanismo ou uma tecnologia de coerção permanente, que, ao se internalizar no ensino, impõe disciplina aos alunos”. A vigilância eletrônica permite que haja controle e resolução dos atos de incivilidades praticados dentro do espaço escolar, seja ele entre os discentes, seja contra os docentes (Filho, 2019).
Assim, são propostas as hipóteses: (H4a) os aspectos positivos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma negativa à incivilidade experimentada pelos professores; (H4b) os aspectos negativos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma positiva à incivilidade experimentada pelos professores.
No ambiente escolar em diversos países - seja no ensino superior ou na educação básica -, estudos têm abordado os impactos dos atos incivis entre professores, gestores, funcionários da área administrativa, estudantes e familiares (Bai et al., 2024; Bantha et al., 2020; Cahyadi et al., 2021; Fontenot et al., 2024; Gao et al., 2024; Hyun et al., 2022; Ibrahim & Qalawa, 2016; Jin & Miao, 2022; Mavrommatidou et al., 2023; Orfan, 2023; Rawlins, 2017; Sood & Kour, 2023; Spadafora et al., 2020; Zaheer et al., 2021). Por exemplo, Mavrommatidou et al. (2023) mostraram os efeitos da incivilidade do supervisor na segurança psicológica e no envolvimento no trabalho de professores em escolas na Grécia. Já Sood e Kour (2023) revelaram os impactos negativos da incivilidade no trabalho no bem-estar dos professores em instituições de ensino públicas e privadas da Índia.
Contudo, são noutros tipos de organizações que os estudos têm mostrado os efeitos negativos da incivilidade no desempenho individual no ambiente de trabalho. De acordo com Wang e Chen (2020), nos hotéis turísticos, tanto a incivilidade do colega de trabalho quanto do cliente afeta de forma negativa o desempenho e o engajamento de funcionários da área de atendimento ao público. Cho et al. (2016) apontaram que, em restaurantes, a incivilidade no trabalho aumenta a exaustão emocional e reduz o desempenho dos funcionários que atuam na linha de frente desses estabelecimentos.
Assim, considerando que os estudos mostram os efeitos negativos da incivilidade no comportamento dos professores e que também impactam o desempenho individual noutras organizações, também é argumentado nesta pesquisa que, quando os professores da linha de frente com os estudantes são alvos de incivilidade, o desempenho deles fica comprometido. Desse modo, é proposta a hipótese: (H5) a incivilidade experimentada pelos professores está associada ao desempenho deles de forma negativa.
A incivilidade associa-se ao crescente absenteísmo, redução da satisfação e da produtividade, impactando negativamente o desempenho do indivíduo dentro da organização (Estes & Wang, 2008; Cingöz & Kaplan, 2015; Hershcovis et al., 2017). A incivilidade experienciada pelos profissionais no ambiente de trabalho prejudica o relacionamento interpessoal, provoca insatisfação e afeta a motivação e o rendimento deles, gera afastamento do trabalho e sofrimento psicológico (Cortina et al., 2001; Pearson & Porath, 2005). Assim, é proposta a hipótese: (H6) a incivilidade experimentada pelos professores está associada à satisfação deles de forma negativa.
O modelo conceitual discutido está ilustrado na Figura 1.
Metodologia
Design de pesquisa
Esta pesquisa, de cunho descritivo, quantitativo, realizou-se no período de março a junho de 2023, com corte transversal, pois os dados foram coletados num único momento na trajetória profissional dos professores. Ou seja, trata-se de dados primários (Sweetman et al., 2010). A população alvo são os professores da educação básica. A amostra contemplou os docentes em regência de classe da educação infantil, anos iniciais e finais do ensino fundamental e todas as séries do ensino médio da rede pública do estado do Espírito Santo, no Brasil.
Participantes
O questionário foi acessado por 237 respondentes, que aceitaram participar da pesquisa. Desses, dez não ocupam cargo de professor na rede pública de Educação Básica no Espírito Santo; 13 afirmaram que não há câmeras de vigilância na escola onde trabalham; e seis disseram que o equipamento não funciona. Assim, essas respostas foram excluídas da amostra final, que contemplou 208 respondentes.
Esse tamanho de amostra é adequado, pois, de acordo com o G*Power 3, o tamanho mínimo para o modelo proposto na Figura 1, usando como parâmetros (Faul et al., 2009) o tamanho de efeito de Cohen esperado (f2) de 0,15 (médio), o nível de poder estatístico desejado - mínimo de 0,95, nível de probabilidade de 0,05 e cinco preditores - é de 129. Ou seja, 1,6 vezes o tamanho mínimo necessário.
O perfil da amostra indica que 63% dos respondentes se manifestaram biologicamente do género feminino; cerca de 30% têm idade entre 31 e 40, 41 e 50 anos, 51 e 60 anos, conforme a faixa delimitada. Além disso, 61% possuem renda entre R$3.000,01 e R$6.000,00; 65% têm pós-graduação (Especialização/MBA); 56% são casados ou estão em união estável; 73% trabalham na rede municipal; 53% têm entre 11 e 20 anos de magistério; 26% atuam na educação infantil; e 84% dos respondentes são da região metropolitana de Vitória; o restante é do interior do estado do Espírito Santo.
Instrumento e procedimentos de coleta de dados
Os dados foram coletados via questionário elaborado no Google Forms, enviado aos professores por meio do WhatsApp. Para responder ao questionário, os respondentes aceitaram os termos do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que continha informações sobre a pesquisa acadêmica, o pesquisador e o orientador, além das condições sobre a participação. Antes, foi realizado um pré-teste com 18 participantes, que não indicaram problemas de entendimento das afirmativas, conforme recomendado por Hair et al. (2005).
O questionário contempla escalas de constructos já validadas na literatura, com adaptações de acordo com o contexto da pesquisa. A incivilidade experimentada foi medida com a escala de sete itens de Balaji et al. (2020). Exemplos de perguntas e opções de respostas: “Com que frequência você enfrenta atos incivis dos colegas de trabalho, alunos, pais ou responsáveis na escola onde você trabalha?”; “Descarregam a raiva em mim”, “Fazem comentários ofensivos para mim”, “Tratam-me como se eu fosse inferior ou estúpido”. Para a satisfação no trabalho, foi usada a escala de Toropova et al. (2021). Assim foi proposto: “Com que frequência você se sente da seguinte maneira sobre ser um professor?”; “Estou satisfeito com a minha profissão de professor”, “Estou satisfeito em ser professor nesta escola”, “Estou entusiasmado com o meu trabalho”. Esses constructos - incivilidade experimentada e satisfação no trabalho - foram medidos por uma escala Likert de cinco pontos variando de 1 (nunca - 0%), 2 (algumas vezes - 25%), 3 (metade do tempo - 50%), 4 (frequentemente - 75%) e 5 (sempre - 100%).
O desempenho do funcionário foi medido com a escala de quatro itens de Yilmaz (2015). Exemplos de perguntas e opções de respostas: “Na escola onde você trabalha: eu completo minhas tarefas no prazo, eu cumpro/supero minhas metas, eu me certifico de que o trabalho atenda/exceda os padrões de qualidade, eu respondo rapidamente quando surgem problemas”. Por fim, a vigilância no trabalho foi medida usando dois constructos de primeira ordem: aspectos negativos (“a vigilância desmoraliza a mim e aos meus colegas; a vigilância reduz a criatividade no trabalho”) e aspectos positivos (“a vigilância na escola ajuda a melhorar a produtividade dos professores; a vigilância ajuda a reduzir o assédio moral na escola”), com oito perguntas cada, de Furnham e Swami (2015). Esses constructos - desempenho do funcionário e vigilância no trabalho - foram medidos por meio da escala Likert de cinco pontos, variando de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente).
Estratégia de análise de dados
Os dados foram analisados usando a Modelagem de Equações Estruturais de mínimos quadrados parciais (PLS-SEM), com o apoio do aplicativo o SmartPLS 4 (Ringle et al., 2024), pois trata-se de um modelo reflexivo com muitas relações estruturais, denotando um pouco de complexidade. Ademais, também se adequa ao tamanho da amostra da pesquisa (Ringle et al., 2023).
Considerando que a pesquisa adota escalas de constructos já validadas na literatura, foi feita a análise de validação do modelo de mensuração e do modelo estrutural, seguindo os procedimentos da Modelagem de Equações Estruturais propostos por Ringle et al. (2023), a saber: confiabilidade da consistência interna dos itens e de cada constructo, a validade convergente e discriminante; análise do Fator de Variância de Inflação (VIF), do poder de predição do modelo e da significância e relevância dos coeficientes de caminho.
Análise dos dados
4.1 Modelo de Mensuração
Conforme o disposto na Tabela 1, para fins da confiabilidade das afirmativas dos constructos, foram tomadas as seguintes decisões: (i) excluíram-se quatro variáveis VNEG7 e VNEG8 - referentes aos aspectos negativos da vigilância e VPOS5 e VPOS7 referentes aos aspectos positivos -, por estarem abaixo do mínimo necessário; (ii) mantiveram-se as variáveis INC4 (incivilidade experimentada), VNEG2 e VNEG6 e VPOS8 com cargas abaixo de 0,708 para contribuir para a replicabilidade e a comparabilidade entre os estudos e porque os demais critérios do modelo de mensuração foram atendidos (Bido e Silva, 2019).
Tabela 1: Carga externa, média e o desvio padrão das variáveis

*Cargas excluídas por estarem muito baixas.
Fonte: Dados da pesquisa.
Para a confiabilidade da consistência interna, os coeficientes de confiabilidade (rho-a) e (rho-c) e do Alfa de Cronbach estão acima de 0,70 e abaixo de 0,95. Para a validade convergente, a variância média extraída (AVE) está acima de 0,50 (Ringle et al., 2023). Já para a validade discriminante, usando o Heterotrait-monotrait (HTMT), as correlações estão abaixo de 0,90 para constructos referentes aos aspectos positivos e negativos da vigilância, porque são constructos conceitualmente similares e abaixo de 0,85 para os demais, porque não são similares (Sarstedt et al., 2022). A Tabela 2 detalha esses valores, bem como a média e o desvio padrão das variáveis.
Tabela 2: Consistência interna, validade convergente e discriminante

DES: desempenho no trabalho; INC: incivilidade experimentada; SAT: satisfação no trabalho; VNEG: aspectos negativos da vigilância; VPOS: aspectos positivos da vigilância; AVE: Variância Média Extraída; HTMT: Heterotrait-monotrait.
Fonte: Dados da pesquisa
Dessa forma, a validade do modelo de mensuração está sustentada para o modelo proposto nesta pesquisa.
4.2. Modelo estrutural
Conforme o disposto na Tabela 3, a hipótese H1a - os aspectos positivos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma positiva com o desempenho dos professores (β = 0,271; p-valor = 0,001) - e a hipótese H1b - os aspectos negativos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma negativa com o desempenho dos professores (β = -0,257; p-valor = 0,002) - foram suportadas a uma significância menor do que 1%. A hipótese H2a - os aspectos positivos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma positivos com a satisfação no trabalho dos professores (β= 0,332; p-valor = 0,001) - também foi a uma significância menor do que 1%.
Tabela 3: Teste de hipóteses

VPOS: Aspectos positivos da vigilância; DES: Desempenho no trabalho; VNEG: Aspectos negativos da vigilância; INC: Incivilidade experimentada; SAT: Satisfação no trabalho; β: Coeficiente estrutural; VIF: Fator de Inflação da Variância; f2: Efeito de Cohen; R2 ajustado: Coeficiente de determinação do modelo proposto.
Fonte: Dados da pesquisa.
Já a hipótese H2b - os aspectos negativos da vigilância via câmeras nas escolas estão associados de forma negativa com a satisfação no trabalho dos professores (β = 0,110; p-valor = 0,247) - não foi estatisticamente significativa a 5%. A hipótese H3 - a satisfação no trabalho dos professores está associada de forma positiva com o desempenho deles - foi suportada a uma significância menor do que 1% (β = 0,175; p-valor = 0,004).
As hipóteses referentes aos efeitos dos aspectos positivos e negativos na incivilidade experimentada pelos professores - hipótese H4a (β = -0193; p-valor = 0,091) e a hipótese H4b (β = 0,180; p-valor = 0,139) - não foram estatisticamente significativas a 5%. A hipótese H5 - a incivilidade experimentada pelos professores está associada de forma negativa com o desempenho deles (β = -0,038; p-valor = 0,541) - também não foi estatisticamente significativa a 5%. Por último, a hipótese H6 - a incivilidade experimentada pelos professores está associada de forma negativa com a satisfação deles (β = -0,391; p-valor = 0,000) - foi suportada a uma significância menor do que 1%.
O Fator de Variância de Inflação (VIF) está abaixo de 3 para todas as relações estruturais propostas, indicando não haver problemas de colinearidade (Ringle et al., 2023). O coeficiente de determinação ajustado do modelo proposto (R²) para o desempenho no trabalho e o efeito de Cohen (f²) para as relações estruturais propostas são considerados baixos (Hair et al., 2011).
Quanto ao poder de predição do modelo, a Tabela 4 indica que somente o constructo desempenho dos professores atende aos padrões mínimos de validade preditiva, pois a média dos indicadores (IA) é estatisticamente significativa (p-valor = 0,007). Contudo, não é para a avaliação comparativa do modelo linear (LM) (p-valor = 0,280). Porém, ao analisar os três constructos latentes endógenos, ou seja, em conjunto, são atendidos os padrões mínimos de validade preditiva (IA = 0,008); logo, apresentando uma forte validade preditiva (LM = 0,002) (Sharma et al., 2022).
Discussão dos resultados
Retomando a problemática desta pesquisa, quais são os impactos da vigilância via câmeras na incivilidade experimentada, na satisfação e no desempenho dos professores da rede pública de educação básica?
As evidências indicam que tanto os aspectos positivos quanto os negativos da vigilância via câmera impactam o desempenho dos professores. Por um lado, quando esses atores organizacionais percebem os benefícios - sensação de segurança, redução do assédio sexual e moral na escola, elevação da produtividade (Furnham & Swami, 2015) - melhora o desempenho. Ou seja, os professores percebem que completam as tarefas no prazo, cumprem ou superam as metas, certificam-se de que os padrões de qualidade sejam atendidos e respondem rapidamente quando surgem problemas (Yilmaz, 2015). Por outro lado, quanto mais eles percebem que essa vigilância serve como instrumento de controle de suas funções ou invasão de seus espaços, afetando a criatividade no trabalho, aumentam os níveis de estresse e a confiança em relação aos pares é corroída (gestores, órgãos públicos de educação) (Furnham & Swami, 2015), piora o desempenho deles.
Dessa forma, estes resultados corroboram os estudos de Melgaço (2012) e Doberstein et al. (2022), que mostraram os benefícios desse tipo de vigilância para os funcionários, bem como os estudos de Toropova et al. (2021) e Siegel et al. (2021), que abordaram os malefícios desse tipo de controle. Também confirmam as pesquisas de Ravid et al. (2023) e Furnham e Swami (2015), que apontaram ambos os impactos dessa vigilância para o desempenho e bem-estar dos funcionários.
Somente os aspectos positivos da vigilância via câmera afetam a satisfação dos professores. Ou seja, eles sentem-se mais satisfeitos com a profissão de professor e com a escola onde trabalham, entusiasmados, orgulhosos e inspirados (Toropova et al., 2021). Essas evidências também corroboram os estudos de Furnham e Swami (2015), que mostraram os efeitos positivos dos aspectos positivos da vigilância via câmera na satisfação de funcionários de empresas britânicas. Uma possível explicação para os aspectos negativos da vigilância via câmera não afetarem de forma negativa a satisfação dos professores é que eles são comprometidos com o trabalho que precisa de ser feito. Além disso, muitos permanecem na escola que tem esse tipo de vigilância porque têm facilidade de deslocamento até a escola.
Contudo, nem os aspectos positivos nem os negativos da vigilância via câmera afetam a incivilidade experimentada pelos professores. Ou seja, essa vigilância, a princípio, não impede que os professores sintam que alunos, pais, colegas descarregam a raiva neles ou que recebam comentários ofensivos e grosserias (Balaji et al., 2020). Dessa forma, esses achados contrariam os estudos de Filho (2019) e Cano (2020), que sustentaram que o monitoramento eletrônico por meio de câmeras contribui para reduzir os atos incivis nas escolas. Além disso, conforme esperado, a satisfação dos professores impacta de forma positiva o desempenho deles. Ou seja, corrobora muitos estudos nacionais e internacionais, em particular, com a pesquisa de Usop et al. (2013), que também mostrou que a satisfação contribui para atrair e manter gestores educadores nas Filipinas.
A incivilidade experimentada afeta de forma negativa a satisfação. Assim, esta pesquisa corrobora os achados de diversos estudos (Hershcovis et al., 2017; Cingöz & Kaplan, 2015; Estes & Wang, 2008; Pearson & Porath, 2005; Cortina et al., 2001), segundo os quais a experimentação de atos incivis provoca afastamento do trabalho e sofrimento psicológico nos funcionários. Contudo, ao contrário do esperado, e contrariando os achados de alguns estudos (Wang & Chen, 2020; Hershcovis et al., 2017; Cho et al., 2016; Cingöz & Kaplan, 2015; Estes & Wang, 2008; Pearson & Porath, 2005; Cortina et al., 2001), os atos incivis sofridos pelos professores, mesmo diante da vigilância via câmeras, não afetam o desempenho deles.
Diante desses resultados, quais reflexões emergem?
Primeiro, assume-se que a vigilância não é ruim para as escolas e para os professores. O que precisa de ser trabalhado é a percepção dos professores em relação à vigilância, para que entendam como algo contribuitivo do dia a dia nas escolas e não como algo que não agrega valor, que incomoda. A melhora dessa percepção entre os docentes depende do esforço de gestores escolares e dos órgãos públicos, para que os professores não vejam as câmeras como um inimigo e sim como aliadas no labor deles.
Segundo, embora a vigilância via câmera contribua para inibir os atos incivis, não impede a ocorrência deles. Ou seja, mesmo com o uso de câmeras, muitos chegam aos estabelecimentos educacionais já irritados e sem pensar nas consequências, descarregam a raiva ou o estresse de maneira impulsiva, até que as intervenções sejam realizadas por parte dos coordenadores, dos pedagogos ou do diretor da unidade escolar.
Terceiro, no que tange à incivilidade, mesmo acontecendo atos de descontrole por parte de algumas pessoas, os profissionais mantêm-se dispostos a cumprirem as metas por serem comprometidos com o trabalho. Ou seja, ainda que insatisfeitos, produzem de forma significativa.
Quarto, embora não seja comum a todos os espaços e nem na mesma intensidade, a captação de voz pelas câmeras de vigilância contribui em alguma medida para inibir atos incivis no relacionamento com as pessoas no local de trabalho, influenciando na harmonia, no desenvolvimento e no desempenho das funções. Também contribui para o desenvolvimento de práticas pedagógicas de suporte aos coordenadores, aos pedagogos, aos diretores e, principalmente, aos professores no contexto e cotidiano escolares. Inclusive para conscientizar a comunidade escolar de que ela dispõe de um importante instrumento que respalda os atores sociais em casos de atos incivis que venham a ser cometidos.
Ou seja, os resultados indicam que a prática do “solucionismo tecnológico” ou “tecnosolucionismo” não é a única saída para os problemas que emergem no cotidiano de uma escola. Essa prática diz respeito à ideia ou à fé de que a tecnologia é capaz de resolver os problemas da humanidade (Sætra, 2023). Para Morozov (2013), refere-se a uma ideologia para lidar com diversos problemas sociais, usando os “algoritmos ou soluções computáveis corretos” (p. 5). Na educação, Teräs et al. (2020) chamaram a atenção para evitar o uso de tecnologias “prontas”, em função do ocorrido ao longo da pandemia da Covid-19 que, a priori, se trata de um “colonialismo pedagógico da indústria da tecnologia educativa” (p. 874). Ou seja, o foco parece estar menos no processo de aprendizagem do aluno e mais na geração de dados.
Apesar dessas posturas críticas, o monitoramento eletrônico de desempenho é uma realidade na ambiência escolar e noutras organizações (Charbonneau & Doberstein, 2020; Doberstein et al., 2022; Furnham & Swami, 2015; Manolev et al., 2019; Melgaço, 2012; Ravid et al., 2023; Shi & Xu, 2024; Warnick, 2007). Ou seja, esta realidade está posta! Dessa forma, a gestão escolar precisa de englobar uma combinação de políticas, de diretrizes, de ações e de programas que abranjam a vigilância via câmeras, o bem-estar e a satisfação no trabalho dos professores, dos funcionários da área administrativa, dos alunos e dos pais.
Conclusão
Esta pesquisa propôs abordar os impactos da vigilância por meio de câmeras em ambientes educacionais relacionados à satisfação, ao desempenho e à incivilidade experimentada pelo professor. Assim, ao mostrar que os aspectos tanto positivos quanto negativos desse tipo de vigilância impactam a satisfação e o desempenho desses profissionais, contribui para a literatura de educação, em particular, para a gestão escolar, de duas maneiras. Primeiro, ao abordar o monitoramento eletrônico nas escolas com um estudo quantitativo, visto que a maioria é qualitativa. Ao fazer isso, discute os impactos da vigilância por meio de câmeras em ambientes educacionais relacionados à satisfação, ao desempenho e à incivilidade experimentada pelo professor. Segundo, contribui ao abordar um tipo de estresse laboral oriundo da vigilância via câmeras e a satisfação dos professores de sistema educacional num país sul-americano, além do eixo Estados Unidos-Europa Ocidental. Além disso, contribui ao apresentar a vigilância eletrônica por câmeras como um dos antecedentes da incivilidade experimentada pelos professores.
Como contribuição prática, espera-se que os resultados apoiem as políticas públicas educacionais bem como as diretrizes do modelo de gestão de cada unidade escolar. Também se perspectiva que deem suporte aos diretores, pedagogos e professores na formulação de práticas pedagógicas que possibilitem a construção de um ambiente profissional harmônico e de prevenção de incivilidades. Por fim, esta pesquisa contribui para que os gestores dialoguem com os educadores envolvidos na escola a respeito da importância do uso da câmera de vigilância como aliada no dia a dia nas unidades de ensino. Ou seja, que esse mecanismo de vigilância não seja visto como “um segundo olho” e sim como agregador de valor ao dia a dia laboral nas escolas.
A principal limitação desta pesquisa diz respeito à amostra, que é restrita ao estado do Espírito Santo, no Brasil. Assim, estudos futuros poderiam abarcar as escolas da rede pública de outras unidades da federação brasileira, de outros países, bem como as escolas privadas, por ser uma temática de grande relevância para o contexto da atualidade. Além disso, também poderiam ser conduzidos estudos de casos múltiplos qualitativos com alunos ou mesmo com os profissionais de escolas, para aprofundar tanto os impactos negativos quanto os positivos.
















