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Sociologia, Problemas e Práticas

versão impressa ISSN 0873-6529

Sociologia, Problemas e Práticas  no.85 Lisboa set. 2017

https://doi.org/10.7458/SPP2017856943 

ARTIGO ORIGINAL

Não alinhados? Jovens não utilizadores de sites de redes sociais: uma abordagem weberiana

Non-aligned? Young non-users of social networking sites: a weberian approach

Non-alignés? Jeunes non-utilisateurs de sites de réseaux sociaux: une approche wébérienne

¿No-alineados? Jóvenes en los utilizadores de sitios de redes sociales: un abordaje weberiano

 

Bárbara Barbosa Neves* e Rita Rente**

* É professora auxiliar de Sociologia na Universidade de Melbourne, na Austrália. É também investigadora integrada do Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP), do ISCSP, Universidade de Lisboa, e do e-Planning Lab, na Universidade de Aveiro. E-mail: barbara.barbosa@unimelb.edu.au

** É investigadora júnior do e-Planning Lab, Universidade de Aveiro. E-mail: rita.mslr@gmail.com

 

RESUMO

Em resposta à predominância dos estudos sobre jovens e utilização de sites de redes sociais (SRS), este artigo analisa narrativas juvenis de não utilização. Baseado em 30 entrevistas a jovens adultos, exploram-se significados de exclusão digital voluntária de plataformas digitais que parecem estar progressivamente embebidas no dia a dia deste grupo social. Os resultados mostram que a não utilização é diversa e transiente, relacionando-se com identidade(s) e ações sociais. Assim, identificam-se quatro tipos de não utilizadores: desistentes, resistentes, utilizadores indiretos e potencialmente convertidos. Esta tipologia questiona as dicotomias presentes na literatura em torno de utilização e não utilização, acesso e não acesso, e consumo e não consumo. Sugerem-se a perspetiva sociológica e o “tipo ideal” de Max Weber como abordagem analítica para a desconstrução destas dicotomias.

Palavras-chave: jovens, sites de redes sociais, não utilização, exclusão digital, tipo ideal, Max Weber.

 

ABSTRACT

Responding to the dominant body of research on young people and their use of social networking sites, this article analyzes narratives of non-use. Drawing on 30 interviews with young adults, we explored meanings of voluntary exclusion of digital platforms that seem to be progressively embedded in the daily life of this cohort. Findings show that non-use is diverse and transient, being deeply connected to identity(ies) and social actions. As such, we identify four types of non-users: rejecters, resisters, surrogate users, and potential converts. This typology challenges the dichotomies present in the literature around use and non-use, access and non-access, and consumption and non-consumption. We suggest and discuss the sociological perspective and “ideal type” of Max Weber as a valuable analytical approach to deconstruct such dichotomies.

Keywords: young people, youth, social networking sites, non-use, digital exclusion, ideal type, Max Weber.

 

RÉSUMÉ

En réponse à la prédominance des études sur les jeunes et sur l’utilisation des sites de réseaux sociaux (SRS), cet article analyse des récits de jeunes non-utilisateurs. À partir d’entretiens avec trente jeunes adultes, on explore les sens de l’exclusion numérique volontaire de plateformes numériques qui semblent de plus en plus ancrées dans le quotidien de ce groupe social. Les résultats montrent que la non-utilisation est diverse et transitoire, en fonction de la ou des identités et des actions sociales. Ainsi, on identifie quatre types de non-utilisateurs : découragés, résistants, utilisateurs indirects et potentiellement convertis. Cette typologie questionne les dichotomies présentes dans la littérature : utilisation et non-utilisation, accès et non-accès, consommation et non-consommation. L’article suggère le regard sociologique et le “ type idéal ” de Max Weber comme approche analytique de la déconstruction de ces dichotomies.

Mots-clés: jeunes, sites de réseaux sociaux, non-utilisation, exclusion numérique, type idéal, Max Weber.

 

RESUMEN

En respuesta a la predominancia de los estudios sobre jóvenes y la utilización de sitios de redes sociales (SRS), este artículo analiza narrativas juveniles de no utilización. Basado en 30 entrevistas a jóvenes adultos, se exploran significados de exclusión digital voluntaria de plataformas digitales que parecen estar progresivamente incorporadas en el día a día de este grupo social. Los resultados muestran que la no utilización es diversa y transitoria, relacionándose con identidad(es) y acciones sociales. Así, se identifican cuatro tipos de no utilizadores: renunciantes, resistentes, utilizadores indirectos y potencialmente convertidos. Esta tipología cuestiona las dicotomías presentes en la literatura en torno a la utilización y no utilización, acceso y no acceso, y consumo y no consumo. Se sugiere la perspectiva sociológica y el “tipo ideal” de Max Weber como abordaje analítico para la desconstrucción de estas dicotomías.  

Palabras-clave: jóvenes, sitios de redes sociales, no utilización, exclusión digital, tipo ideal, Max Weber.

 

Introdução

A utilização de sites de redes sociais (SRS), como o Facebook, tornou-se frequente entre a maioria dos jovens portugueses. Em 2015, 86% destes jovens (16-29 anos) utilizavam SRS, percentagem ligeiramente acima da média da União Europeia de 84% de jovens utilizadores (Eurostat, 2016). Estes sítios eletrónicos permitem aos utilizadores construir perfis públicos ou semipúblicos com os quais estão ligados em rede com outros utilizadores e onde podem visualizar e seguir esses ou outros utilizadores do sistema (Boyd e Ellison, 2007), partilhando interesses, atividades (e.g., jogos online), fotografias, músicas e mensagens públicas ou privadas.

A popularidade dos SRS entre jovens conduziu a vários estudos sobre a sua utilização e os seus efeitos. A manutenção de relações à distância, o entretenimento e a possibilidade de organizar eventos de forma relativamente rápida e simples encontram-se entre os principais motivos para a utilização de SRS entre jovens adultos (Tosun e Lajunen, 2009). Adicionalmente, necessidades sociais como pertença e autoapresentação também explicam o uso do Facebook entre os mais jovens (Nadkarnia e Hofmann, 2012; Yu et al., 2010; Back et al., 2010). Quanto aos seus efeitos sociais entre jovens, se por um lado a sua utilização é benéfica em termos de autoestima e de reforço e criação de capital social (Toma e Hancock, 2013; Ellison, Steinfield e Lampe, 2007; Johnston et al., 2013; Kross et al., 2013), por outro lado levanta questões sobre privacidade e suas consequências (Raynes-Goldie, 2010).

Por sua vez, o estudo de jovens não utilizadores de SRS e dos seus motivos de rejeição continua pouco explorado na literatura nacional e internacional. O estudo da não utilização tende a centrar-se maioritariamente na exclusão digital involuntária (de um meio ou rede), focando-se em pessoas idosas e grupos marginalizados, ou seja, naqueles que não têm acesso ou não possuem literacia digital para utilizar este tipo de sites (Neves, Amaro e Fonseca, 2013). A “não utilização” e a “exclusão digital” — de um meio, plataforma, tecnologia, ou rede — são frequentemente usadas sinonimamente, uma vez que a não utilização geralmente implica a exclusão de um serviço, informação ou recurso social, embora com diferentes gradações (Livingstone e Helsper, 2007; Yates, Kirby e Lockley, 2015). Heuristicamente, a não utilização pode ser uma forma de exclusão. Contudo, a exclusão de um meio ou rede digital pode ser compensada pelo acesso a outra opção digital. Quer a exclusão voluntária, quer a não utilização voluntária, apesar de ocasionalmente mencionadas em estudos sobre não utilização, continuam obscurecidas por conceptualizações estanques (Wyatt, 2003). A própria noção de fosso digital perpetua uma simples divisão entre aqueles que estão digitalmente empenhados e aqueles que não estão (Halford e Savage, 2010), independentemente de existirem diferentes níveis de acesso e utilização de plataformas ou tecnologias (Castells, 2001; Hargittai, 2007). Devido à correlação entre dimensões socioeconómicas e acesso e utilização de tecnologias digitais, o conceito de estratificação sociodigital tem vindo a refinar a noção de fosso digital (Robinson et al., 2015).

A exclusão digital, seja voluntária ou involuntária, pode reproduzir e aumentar as desigualdades sociais, mas os seus efeitos dependem sempre de tipos de não utilização e utilização (Halford e Savage, 2010; Ponte, 2010; Almeida, Alves e Delicado, 2011; Neves et al., 2015). Uma utilização crítica da internet pode aumentar o acesso a diferentes formas de capital (e.g., capital social) e recursos que permitam ao utilizador um uso informado, efetivo e seguro da rede, enquanto uma utilização acrítica pode representar um conjunto de desvantagens para o utilizador, que incluem a incapacidade de avaliar a fiabilidade da informação online, tal como a vulnerabilidade a fraudes e outros potenciais riscos (Halford e Savage, 2010; Hargittai, 2007). Esta utilização crítica depende ainda do tipo de plataformas e redes usadas e da sua combinação (Halford e Savage, 2010). Estes tipos de utilização e capacidades não representam apenas dimensões individuais, mas relacionam-se com contextos sociais preexistentes: a internet está, pois, incorporada numa complexa rede de fatores sociotécnicos (Warschauer, 2004; Halford e Savage, 2010).

Assim, privilegiando contextos e práticas, o nosso estudo dá voz a um grupo menos visível na análise sociológica (que opta pela não utilização de um meio popular), examinando narrativas de rejeição de SRS por jovens adultos que vivem numa sociedade progressivamente mediada por estas plataformas digitais.

 

Jovens não utilizadores de sites de redes sociais (SRS)

Apesar da predominância de estudos sobre utilização de SRS entre jovens, um reduzido número de estudos tem explorado a rejeição de SRS. Esta escassa literatura aponta, no entanto, para uma forma de não utilização considerada voluntária: jovens não utilizadores demonstram grande capacidade de utilização da internet e estão familiarizados com SRS (Hargittai, 2007; Tufekci, 2008), mas optam por não os utilizar. A não utilização de SRS pode ser vista como um estilo de vida, que, tal como sugerido por Portwood-Stacer (2012), se relaciona com uma crítica política e social sobre a sociedade de consumo. Mas será que o estilo de vida é a razão principal para a não utilização por parte dos jovens? E o que caracteriza os jovens não utilizadores de SRS?

Num estudo pioneiro, Hargittai (2007) contrapõe jovens de uma universidade norte-americana (18-19 anos de idade) que utilizam (n = 848) e não utilizam SRS (n = 212). O género surge como preditor mais significativo de utilização de SRS (as mulheres têm maior probabilidade de usar estes sites), seguido do contexto de uso e da experiência com o meio. Estudantes que residiam em casa dos pais tinham menor probabilidade de utilizar SRS do que estudantes que residiam sozinhos ou com colegas, tal como estudantes que passavam mais tempo online.

Relativamente aos não utilizadores, estes apresentavam algumas diferenças quando comparados com os utilizadores, nomeadamente: um estilo diferente de navegação na internet (eram mais diretos e objetivos na sua utilização); mostravam maior preocupação com a sua identidade online e privacidade; não sentiam a mesma curiosidade em relação às vidas privadas dos amigos; e não compreendiam a necessidade de uma autoapresentação online (Hargittai, 2007). Contudo, não se encontram diferenças significativas no tempo que utilizadores e não utilizadores passavam na internet (Tufekci, 2008). No seu estudo (que incluiu um inquérito por questionário a 713 jovens e focus groups com 51 jovens), também de uma universidade nos Estados Unidos, Tufekci (2008) demonstra que as diferenças entre utilizadores e não utilizadores se relacionam com expectativas, normas e preocupações. Os utilizadores demonstravam maior curiosidade em relação à vida de outras pessoas, maior propensão a seguir tendências e a manter contacto com os amigos. A autora mostra ainda que a não utilização não se limita a uma questão de privacidade (pois, embora os não utilizadores estejam mais conscientes dos riscos de exposição, são também utilizadores de serviços online, como homebanking), de tecnofobia ou de menor número de laços sociais fortes (Tufekci, 2008).

Mais recentemente, uma pesquisa internacional sobre não utilizadores do Facebook analisou respostas a um inquérito por questionário online de indivíduos entre os 19 e os 76 anos (n = 410) que decidiram abandonar o site após um período de utilização (Baumer et al., 2013). Tal como Wyatt alertava em 2003 para a necessidade de se explorar diferentes tipos de não utilizadores de internet, Baumer e colegas (2013) encontraram diferentes tipos de não utilizadores de acordo com o padrão de uso ou descontinuação de uso. Deste modo, encontraram os “resistentes” (“resisting”), que nunca foram utilizadores do Facebook; os “desistentes” (“leaving”) que deixaram de utilizar o site; os que voltaram a utilizar o site(re)lapsing”) depois de o terem deixado; e os que limitaram o acesso à sua conta no Facebook (“limiting”). Razões para a não utilização relacionam-se com perceções de uso e preocupações com privacidade, banalidade e produtividade (Baumer et al., 2013). Este estudo baseou-se, contudo, numa amostra com vários grupos etários e apenas num site de redes sociais.

Sugerindo uma perspetiva biopsicológica, Sheldon (2012) propõe a análise de não utilizadores de SRS através do modelo dos cinco fatores da personalidade (Goldberg, 1993), que se encontra associado às componentes psicológicas de cada indivíduo. Neste modelo existem cinco domínios que sintetizam os traços de personalidade de um indivíduo, nomeadamente o neuroticismo, a extroversão, a amabilidade, a conscienciosidade e a abertura à experiência. O estudo de Sheldon (2012) analisa uma amostra de 327 indivíduos norte-americanos (283 utilizadores e 44 não utilizadores com idades compreendidas entre os 19 e os 76 anos), questionando-os acerca da sua personalidade (solidão, timidez, abertura à experiência) e da sua posição social (atividade profissional, satisfação, interação social). Os resultados mostram que os não utilizadores têm menor nível de atividade social, menor desinibição, menor necessidade de explorar sensações e maior grau de timidez e solidão. Apesar de fornecer um ângulo analítico interessante, este estudo assenta apenas numa abordagem biopsicológica, que se revela limitada a nível da exploração de uma dimensão social de motivações e contextos. Adicionalmente, a autora focou-se numa amostra com várias faixas etárias.

Assim, os esforços existentes na literatura para a caracterização de jovens não utilizadores de SRS são feitos em três frentes: (1) ou são apenas quantitativos e, dada a sua natureza, não passíveis de aprofundar contextos, razões e motivações de não utilização; (2) ou apenas se focam em jovens universitários de uma universidade específica, sobretudo na América do Norte; (3) ou são conduzidos em comparação com utilizadores, alimentando uma visão binária e dicotómica. Dado que o conceito de não utilizador não pode ser entendido genericamente, é fundamental analisar motivações, tipos e níveis de não utilização (Wyatt, 2003; Baumer et al., 2013). Tendo como objetivo esta análise, o nosso estudo contribui para a literatura sobre não utilização de tecnologia, através de uma investigação qualitativa das narrativas de rejeição de SRS entre jovens adultos portugueses. O estudo que realizámos inclui estudantes de várias áreas, tal como não estudantes, entre os 18 e os 26 anos.

 

A perspetiva weberiana e o seu tipo ideal: conceptualizando não utilização

Apesar das exceções consideradas anteriormente, a literatura ainda se foca substantivamente numa abordagem dicotómica de uso e não uso e num entendimento homogéneo de não utilização (Wyatt, 2003; Baumer et al., 2013). Esta tendência pode estar relacionada com a ausência ou a falta de aplicação de enquadramentos conceptuais e analíticos que a possam desconstruir. O problema da análise dicotómica é que esconde e minimiza processos sociais e de agência multifacetados que incluem ações, identidades, estatutos, entre outros (Neves e Mead, 2017, no prelo). Neste contexto, a perspetiva sociológica de Max Weber e o seu instrumento tipo ideal podem ajudar a ultrapassar este problema, facilitando um enquadramento crítico da não utilização e dos seus significados e consequências. Apesar de algo negligenciado na sociologia contemporânea, a ligação que o tipo ideal estabelece entre compreensão subjetiva e estrutura é útil para a análise da realidade social (Hekman, 1983; Rosenberg, 2013).

A sociologia weberiana pretende compreender o sentido ou significado que cada sujeito dá à ação social, aos seus valores e aos seus contextos, de forma a explicar comportamentos e efeitos (Weber, 1981 [1913]). Para Weber (1981 [1913]), a sociologia fornece uma compreensão interpretativa da ação social — se, por um lado, a sociologia é a ciência que compreende a ação social, por outro, para se compreender o sentido dessa ação social temos que assumir uma posição interpretativa. Para tal, Weber (1981 [1913]) segue uma abordagem hermenêutica de compreensão dos atores sociais e das suas ações, assentando na rejeição da unicidade metodológica e da oposição entre compreensão (“Verstehen”) e explicação (“Erklären”). É nesta recusa da antítese entre compreensão e explicação, dominante na tradição alemã, que Weber desenvolve o tipo ideal como estratégia conceptual e analítica (Eliaeson, 2000; Weber, 1981 [1913], 1949 [1904]). Apesar do seu valor sociológico, o tipo ideal tem recebido pouca atenção na literatura (Rosenberg, 2013), pelo que urge introduzi-lo aqui com alguma profundidade. Em 1904, no ensaio sobre a objetividade das ciências sociais,[1] Weber desenvolve o tipo ideal, expressão de Georg Jellineck (cf. Swedberg e Agevall, 2005), com base nas “ideias” dos fenómenos históricos usados na teoria económica. Segundo Weber:

Um tipo ideal é composto pela acentuação unilateral de um ou mais pontos de vista e pela síntese de uma grande quantidade de fenómenos individuais concretos que se encontram difusos, discretos, frequentemente presentes mas ocasionalmente ausentes, que são ordenados segundo esses tais pontos de vista unilateralmente acentuados para originar um constructo unificado do pensamento. Na sua pureza conceptual, este constructo mental não pode ser encontrado empiricamente na realidade. É uma utopia. A investigação histórica depara-se com a tarefa de determinar, em cada caso particular, a proximidade ou o afastamento entre a realidade e o constructo (Weber, 1949 [1904]: 90, trad. das autoras, itálicos do autor).

Weber exemplifica o tipo ideal com o “artesanato” — podemos organizar características manifestadas de forma confusa e vaga entre empresas industriais/artesãos de diferentes épocas e países num consistente tipo ideal pela acentuação das suas tendências básicas. Este tipo ideal pode depois ser usado para se comparar ou delinear princípios dos ramos de atividade económica e intelectual de uma sociedade; ou pode ser usado como síncrese de um outro tipo ideal que enuncie os traços da grande indústria moderna (1949 [1904]). Assim, os tipos ideais são pontos de referência e construções artificiais, assentes no isolamento de traços típicos que tornam mais visíveis e inteligíveis os aspetos centrais da realidade em questão (Eliaeson, 2000). São ainda instrumentos de pesquisa que reconhecem a complexidade social — não se pode apreender a realidade social na sua totalidade, pelo que se usam tipos para a compreender de forma mais completa e flexível. O tipo ideal pretende também resolver a tensão entre a perspetiva generalizante e individualizante, ou seja, quando Weber tenta explicar o capitalismo sob a égide do conceito geral de “economia”, perde aspetos particulares do capitalismo; quando usa uma conceptualização tradicional de capitalismo, não deixa espaço para comparações com outros fenómenos relacionados.

Contudo, a análise da realidade social deve ser feita com recurso a vários tipos ideais, sem esquecer que estes não são médias estatísticas, modelos perfeitos ou axiológicos (o seu “ideal” refere-se ao sentido lógico do termo e não a algo que deve ser): “Existem tipos ideais tanto de bordéis como de religiões; também existem tipos ideais desses tipos de bordéis que são tecnicamente ‘apropriados’ [‘expedient’], do ponto de vista da ética policial, assim como aqueles que não o são” (Weber, 1949 [1904]: 99, trad. das autoras). A delimitação dos tipos ideais assenta num contexto empírico: os diferentes dados que temos sobre uma determinada temática servem para delimitar um constructo ideal unificado. A formação de tipologias é para Weber uma estratégia indutiva que se baseia em pesquisa empírica (Kuckartz, 1991). Visto que as ciências sociais se preocupam com o significado da realidade, esse significado pode ser explorado com a relação entre dados empíricos e tipos ideais (Weber, 1949 [1904]).

Assim, adaptando-a à temática em discussão, esta estratégia é profícua para revelar e explicar o que caracteriza e motiva a não utilização. Para Weber, significados e ações estão sempre interligados, logo o tipo ideal tem agência mas é também estrutural (Hekman, 1983) — ao classificarmos estruturas de não utilização com base em diferentes motivações e ações, estamos a estabelecer o continuum weberiano entre compreensão subjetiva e estrutura social.

 

Abordagem metodológica

Desenho e amostra

A estratégia metodológica adotada foi qualitativa, com o objetivo de compreender motivações e contextos de não utilização de SRS entre jovens adultos. Assim, realizaram-se entrevistas semiestruturadas a uma amostra por conveniência de 30 jovens não utilizadores destes sites, entre os 18 e os 26 anos de idade. Os entrevistados foram recrutados com a ajuda de amigos, colegas e familiares; utilizou-se ainda SRS e mailing lists para a disseminação do recrutamento. As entrevistas decorreram entre julho de 2012 e abril de 2013, na casa dos participantes, em universidades ou em cafés. Cada entrevista durou em média 40 minutos. Todos os participantes assinaram uma ficha de consentimento informado e escolheram o pseudónimo pelo qual serão referidos ao longo deste artigo.

As entrevistas foram gravadas e transcritas integralmente antes de se proceder à sua codificação. Na transcrição das mesmas teve-se em consideração elementos não verbais (como risos ou pausas) e aspetos paralinguísticos (como o tom de voz ou a entoação) quando afetavam visivelmente o discurso. Os dados foram analisados com análise de perfil e análise temática: em primeiro lugar, foi elaborado um perfil para cada entrevistado, seguindo as sugestões de Seidman (2006), onde se apresenta o participante num contexto próprio; em segundo lugar, foram definidas categorias e temas, assim como examinados padrões, de forma a encontrar-se um equilíbrio intracasos e intercasos (King e Horrocks, 2010). As categorias e os temas foram definidos iterativamente, primeiro individualmente por cada investigador e depois confrontados e finalizados coletivamente. O índice de confiabilidade interavaliador foi de 95%, tendo sido medido por uma terceira investigadora que analisou aleatoriamente 30% das transcrições para determinar a fiabilidade da codificação. Este índice foi calculado com um procedimento básico: somaram-se as discrepâncias na atribuição de categorias e temas entre as transcrições codificadas anteriormente e as da terceira investigadora e depois dividiu-se a soma pelo total de categorias e temas.

Tratando-se de uma amostra não representativa do universo em estudo — visto que o objetivo era explorar de forma aprofundada diversos contextos e motivações — realizaram-se entrevistas até se alcançar um nível de saturação da informação recolhida. Isto é, após 30 entrevistas, a informação começava a ser repetida e o nível de compreensão dos dados alcançados já era suficiente para responder aos objetivos de investigação propostos sem comprometer o estudo e os recursos disponíveis (Morse, 2004). Pelo seu desenho qualitativo, os resultados não podem ser generalizados; contudo, os dados recolhidos fornecem uma visão contextualizada, detalhada e diversa da não utilização de sites de redes sociais, respondendo ao propósito da pesquisa: dar voz a um grupo minoritário de jovens e compreender a não utilização e suas nuances.

Os participantes são portugueses, a maioria a viver na área metropolitana de Lisboa, com exceção de um participante que vivia numa cidade do Alentejo e de outro que vivia no arquipélago dos Açores. A média de idades é de 22,2 (DP = 1,91), sendo a moda de 23 anos (ver quadro 1). Catorze dos entrevistados são do sexo feminino e dezasseis do sexo masculino. Apesar de se procurar uma amostra heterogénea de não utilizadores jovens, a maioria dos entrevistados (20) eram estudantes universitários, embora de diferentes universidades. Em relação aos não estudantes, cinco tinham educação secundária e cinco tinham um grau universitário; nove deles estavam empregados e um encontrava-se desempregado.

 

 

Construção de tipos ideais weberianos

Uma vez que sugerimos aplicar o tipo ideal como estratégica analítica para definir não utilização, urge considerar os procedimentos metodológicos para a sua construção. A construção de tipos ideais segue um conjunto de técnicas desenvolvidas por Weber em diferentes obras (1949 [1904]; 1981 [1913]; 1978 [1922]). Uta Gerhardt (1994) reorganiza essas técnicas em três passos. Em primeiro lugar, é central converter a “heterogénea infinidade da vida social” (Gerhardt, 1994: 45) em conceitos científicos focalizados — para tal é necessário recolher material sobre a temática de modo global e aberto com o objetivo de encontrar padrões e categorias. Em segundo lugar, a conversão de conceitos em tipos ideais deve satisfazer três critérios de validade: (1) que nenhum conhecimento contradiga o pressuposto teórico de um fenómeno na sua representação conceptual como tipo ideal; (2) que a sua composição contenha apenas elementos indispensáveis; e (3) que seja verificado na realidade sócio-histórica. Em terceiro lugar, após a construção de um tipo ideal é necessário confrontá-lo com eventos observados. Para Gerhardt (1994: 45) é ainda importante valorizar o case material (nem individualizar, nem sobregeneralizar), investigar um conjunto abrangente de casos numa perspetiva comparativa e valorizar processos biográficos que possibilitem entender dinâmicas de percurso. Este case material deve ser ordenado em grupos que representem tipos empíricos para depois se proceder à abstração necessária para construir tipos ideais (Gerhardt, 1994).

 

Quem e porquê? Narrativas de rejeição

Dos 30 entrevistados, 23 já tinham sido utilizadores de SRS, mas cancelaram as suas contas (no total 20 contas de Hi5 e 11 de Facebook). Todos os entrevistados reportaram terem acesso à internet, dos quais 25 acediam a esta diariamente, dois acediam quatro a cinco vezes por semana e apenas três referiam aceder ocasionalmente. E-mail e pesquisa online eram as atividades mais realizadas, e uma minoria reportou utilizar ocasionalmente aplicações como o mensageiro eletrónico ou o Skype. Todos indicaram estar familiarizados com o funcionamento dos SRS. Todos tinham um telemóvel, usado sobretudo para chamadas e mensagens escritas (SMS), embora este fosse percecionado como instrumental pela maioria dos entrevistados — serve para combinar encontros pessoais e não é visto como forma de comunicação central nas suas vidas. Assim, a não utilização de SRS destes jovens não está relacionada com falta de acesso ou iliteracia digital, mas sim com uma escolha pessoal. A análise temática das narrativas dos nossos entrevistados permitiu-nos encontrar categorias de rejeição que ilustram e contextualizam essas escolhas. Encontrámos três grupos de razões de rejeição (intracaso e intercasos), transversais a todos os não utilizadores: perceção de utilidade, ações sociais, e identidade(s) e autoapresentação.

A perceção de utilidade está relacionada com a “utilidade percebida”, uma das variáveis do modelo de aceitação de tecnologia (TAM) de Davis (1985). O TAM é o modelo de adoção de tecnologia mais usado para examinar preditores de aceitação e utilização de uma determinada tecnologia em diversos contextos (Chuttur, 2009; Bagozzi, 2007; Neves et al., 2015). No nosso estudo, esta perceção de utilidade é a razão mais avançada pelos entrevistados: os SRS são vistos como inúteis, desnecessários e sem valor acrescentado para as suas vidas e relações sociais. Por exemplo, José, um dos entrevistados, refere: “Não me interessa o que se faz por lá, o que se fala por lá, que fotografias andam a circular… não me interessa mesmo!”

As ações sociais encontradas relacionam-se, seguindo a definição weberiana, com atos ou práticas que tomam em consideração ações e reações de agentes sociais: trata-se de ações porque os indivíduos associam sentidos subjetivos a esses comportamentos; são sociais porque o sentido subjetivo toma em consideração o comportamento de outros (Weber, 1978 [1922]). As ações weberianas (1978 [1922]) estão sempre enquadradas num contexto específico que ora conduz a nova ação (reação) ora a inação. Assim, nesta temática das ações sociais emerge um conjunto de subcategorias, nomeadamente: (1) exposição pessoal; (2) mexerico/fofoca, voyeurismo, flirt, e alocatagem; (3) substituição pela internet (conhecida como “internet displacement”, que significa a substituição do tempo off-line com familiares e amigos pela internet); e (4) colapso de contextos (conceito de Wesch, 2009, que ilustra descontextualizações resultantes da comunicação com diferentes audiências no mesmo meio, pois os SRS agregam na mesma plataforma diversas relações). A narrativa de Jubal exemplifica estes atos e práticas: “Não tenho paciência para perder tempo em bisbilhotice como é usado entre rapazes, eu sei que as raparigas fazem o mesmo mas… Conhecer raparigas, conhecer raparigas, pá… Acho que não é através de uma faceta falsa, que muitas vezes é isso que é, que uma pessoa vai conhecer a outra. É assim a conversar, a ir beber um café, numa festa… é assim que se conhecem as pessoas não através do chat ou de umas imagens que colocam”. Estas ações sociais, num sentido weberiano (1978 [1922]), são concretas, determinadas, motivadas, e assentes em sentidos informais do que representam a nível individual e coletivo.

Adicionalmente, as lentes weberianas ajudam a ligar este significado de ação com elementos estruturais: 27 entrevistados reagem às ações sociais acima enumeradas, criticando-as e usando-as para justificar a sua rejeição. A sua não utilização assenta na interpretação e reação a ações sociais específicas, enquanto promove simultaneamente outras ações e significados. Por exemplo, José refere: “É impossível não estar ao pé de alguém com computador que não vá, pelo menos uns minutos, ao Facebook. Não sei bem o que é que precisam tanto de ir lá ver! Acho que são pessoas que precisam de um maior apoio social, de aprovação. Se não precisassem não se expunham!” Enquanto Guida indica que os SRS são “um ótimo sítio para a promoção de egos”.

Portanto, a compreensão destes significados e motivações passa por enquadrar as narrativas dos nossos entrevistados num contexto específico de significação: na relação social entre utilização e não utilização, ambos atribuem um sentido subjetivo a essa relação que, por sua vez, influencia ações. Um aspeto central dessas ações é a reivindicação da legitimidade para justificar posições. Isto é visível nos discursos de não utilização dos nossos jovens, nas suas razões de rejeição e nas representações que fazem da utilização e dos utilizadores de SRS. É ainda visível na forma como descrevem como são vistos e entendidos pelos pares que utilizam tais sites, logo não é de estranhar que identidade(s) e autoapresentação surjam como o terceiro grupo de fatores de rejeição de SRS.

A expressão de identidade(s) era visível, direta ou indiretamente, nas justificações dos entrevistados: alguns jovens retratavam-se como “rebeldes” e “diferentes dos utilizadores” de SRS, outros sinalizavam estilos de vida e identidades específicas, como ser hipster ou “cromo”. As identidades juvenis são processos individuais complexos, mediados por contextos sociais, isto é, dependem de interação e validação externa, quer seja off-line ou online (Buckingham, 2008; Jenkins, 2004). A própria utilização de SRS tem sido uma parte integrante da formação e gestão de identidades de jovens, porque oferece um espaço diverso para a experimentação do “eu” e suas possíveis variantes (Stern, 2008; Maczewski, 2002), incluindo versões de feminilidade e masculinidade (Mascheroni, Vincent e Jimenez, 2015). Os SRS são usados para comunicar traços de identidades juvenis através da partilha de fotos, comentários, autodescrições, e para receber feedback que molda e legitima essas identidades (Yang e Brown, 2016). Ao contrário do que é percecionado pelos nossos entrevistados, a possibilidade de experimentação, expansão e retoque de identidades nos SRS não é vista como um exercício de falsidade pelos jovens utilizadores, mas como forma de encontrar e captar a sua essência e autenticidade num contexto social (Stern, 2008; Yang e Brown, 2016). Adicionalmente, embora reconhecendo as vantagens do exercício de identidades nos SRS (e sua fluidez), a maioria dos jovens não opõe as suas identidades online às off-line (Maczewski, 2002) ou é capaz de se autocategorizar de modo unitário (Yang e Brown, 2016).

A autocategorização dos nossos entrevistados inter-relacionava-se também com a forma como os seus pares os percecionavam, mas também com a identificação com amigos e grupos. Por exemplo, para a Mariana, os seus amigos achavam-na “de outra espécie”. Dois outros entrevistados referem não se encontrarem “alinhados” com as ideologias de consumismo dos SRS, preferindo associar-se com diferentes “grupos” e “formas de ver o mundo e de estar”. Usamos esta ideia de não alinhados para caracterizar os nossos jovens não utilizadores pelo seu sentido simbólico (i.e., movimento dos não alinhados), mas também porque fornece um enquadramento lato para explorar tipos de não alinhamento sem enfatizar nenhuma categorização específica.

A autoapresentação e a gestão de impressões (esforços conscientes ou inconscientes para influenciar a perceção que os outros têm de nós), como definido por Erving Goffman (1959), estavam patentes nas narrativas dos nossos jovens. Embora os não utilizadores critiquem ferozmente a autoapresentação online dos utilizadores de SRS (cf. Tufekci, 2008), também observámos que os não utilizadores se envolvem em várias práticas de autoapresentação. Em particular, oito dos nossos entrevistados geriam de modo evidente a sua autoapresentação, indicando traços de personalidade e tendo um script bem definido para justificar a sua posição, devido às constantes questões de amigos e familiares sobre a sua ausência destes sites. Recorremos a Goffman (1959) para enquadrar esta parte dos resultados, pois embora Weber não tenha desenvolvido conceitos que possam captar as nuances da temática, a sociologia weberiana privilegiava a análise da construção de sentidos e significados a nível micro numa dialética com os níveis meso e macro, tendo por conseguinte influenciado o desenvolvimento da corrente do interacionismo simbólico (baseado na sua abordagem interpretativa de significados e símbolos), onde se insere a perspetiva goffmaniana.

 

O que ganham e o que perdem? Representações e estratégias sociais

As narrativas dos entrevistados permitem-nos ainda explorar as suas representações das vantagens e desvantagens de não utilização, assim como as estratégias sociais que colocam em prática para ultrapassar potenciais desvantagens. Estas representações e estratégias sociais ligam-se com as grandes temáticas de rejeição exploradas anteriormente e contribuem para um esquema interpretativo mais completo de não utilização e suas consequências, segundo a abordagem weberiana.

As vantagens prendem-se, de forma maioritária, com uma aposta mais intensa na vida off-line, nas relações sociais e na proteção da sua privacidade. Os discursos dos entrevistados apontam para a importância de fortes relacionamentos off-line, em detrimento de uma vivência social em SRS que consideram ser frívola. Oito dos entrevistados associam diretamente SRS com relações interpessoais superficiais. Jubal indica: “hoje em dia é o Facebook só para conhecer pessoal e para ter 500 amigos? ‘Eu tenho 500 amigos…’ Que é isso? Nem sei o que é que são amigos reais, é muito difícil de ver… eu tenho. Posso dizer que tenho dois, três amigos, talvez um punhado de amigos, nunca vou ter uns… uns 500 amigos, isso é ridículo”. Da mesma forma, Andrade explica a sua visão sobre a utilização destes sites: “É o espelho da sociedade de cada um. Eu privilegio os que falam, a troca de olhares. Eu faço estas construções.” Joana também reforça esta ideia, expressando: “gosto de dar os parabéns a alguém porque me lembrei, gosto de receber os parabéns das pessoas que se lembram, gosto de encontrar uma pessoa na rua e ela contar-me como tem sido a vida dela… e é isso que eu valorizo e gosto. Se um amigo meu tem uma novidade e se me quiser contar, gosto que seja assim, eu a ver a reação dele a contar as coisas e estar a fazer perguntas e estamos a conversar. Eu valorizo particularmente essa interação.”

Outra vantagem mencionada por dez entrevistados baseia-se em olharem para a sua não utilização como um filtro. Carlos explica: “É um filtro, não tenho que ser bombardeado com tudo, só vejo o que me interessa e acho também que o que aparece por lá [no Facebook], um convite ou qualquer coisa, acho que me podem convidar de outras maneiras.” Outra entrevistada, a Marta, refere: “É uma questão de filtragem da informação […] eu não quero perder tempo que para mim é muito importante.” Estes entrevistados consideram que as informações relevantes lhes chegarão por outros meios.

Contudo, a grande desvantagem da sua não utilização é o “sentimento de exclusão” de uma dimensão social da sociedade contemporânea. Este sentimento de exclusão, tal como identificado pelos entrevistados, remete para a discussão introdutória sobre a relação entre não utilização e exclusão, seja ela voluntária ou involuntária. Todos os entrevistados reconhecem que a utilização de SRS é maciça entre os seus pares e facilita comunicação e partilha. Esta exclusão reveste-se de diferentes formas, que vão desde não saberem de festas e eventos até não conseguirem participar em discussões e conversas online. Por exemplo, Jenny menciona que “muitas vezes combinam festas, trocam fotos, e só à última hora é que mandam mensagem a combinar. Isto porque sou das poucas que não tem Facebook e isso é raro, às vezes pensam que já todos foram informados pois basta escrever no perfil da rede social.” Mariana também refere: “Uma amiga minha casou e eu não soube porque mandou [o convite] por Facebook.” Adicionalmente, a filtragem da informação que ocorre na interação com SRS pode ser também percecionada como desvantagem. Kiko menciona: “Talvez perca tempo. Tempo perco de certeza porque não tenho aquela noção tão rápida que outras pessoas têm e veem. […] Também perco porque só me mostram algumas coisas, são seletivos para mim. Já passa por um intermediário e eu só vejo aquilo que me querem mostrar. Talvez não tenha liberdade de ver a informação que eles veem todos.” Apenas dez dos entrevistados dizem não se sentirem completamente excluídos, mas expressam sempre algum sentimento de exclusão.

A pressão dos pares para aderirem a um SRS é também um aspeto negativo para estes jovens. A maioria sente pressão para criar ou reativar um SRS. Apenas um dos entrevistados, Ricas, afirma que não sente pressão nesse sentido, pois os seus amigos próximos não utilizam SRS. A pressão é sentida de forma diferente por cada entrevistado, podendo ser mais óbvia ou mais ténue. Por exemplo, Kiko refere: “É mais chatear. ‘Tens que fazer! Tens que fazer’, ou um dia fazem e eu não sei. É mais por aí, é mais pela brincadeira.” Outro entrevistado, Eduardo, reporta que criou uma conta no Facebook em sequência de uma praxe académica: “Praxaram-me. Pediram-me para que fizesse Facebook. Cheguei à faculdade com Facebook […] se não fosse a situação da praxe, nunca teria feito.” Mesmo ignorando a pressão que sentem ou respondendo com um script predefinido, Guida explica: “Todos sentimos pressão, até porque tudo ou quase tudo tem uma dimensão no Facebook.”

Estas vantagens e desvantagens são facilmente contextualizadas com as temáticas de rejeição encontradas, sobretudo com ações sociais (aposta em vida e relacionamentos off-line e na proteção da sua privacidade com consequências positivas e negativas) e identidades e autoapresentação (personalidade, escolha pessoal, etc.).

Embora a maioria dos entrevistados não percecione a ausência destes sites como uma limitação da sua vida social, a generalidade incorre em estratégias de sociabilidade para a compensar. Por exemplo, o Eduardo refere que tem que dar mais atenção aos seus amigos, telefonar mais frequentemente e lembrar-se das datas de aniversários. O Zé Pedro indica que tem um tarifário para o telemóvel que lhe permite telefonar gratuitamente para os amigos e a Maria F. refere que organiza frequentes sessões de estudo em sua casa.

Concluindo, embora admitindo que os SRS são elementos centrais da vivência dos jovens contemporâneos e que a sua não utilização acarreta um conjunto de desvantagens, os nossos entrevistados consideram que o que ganham pela sua rejeição se sobrepõe significativamente ao que perdem. As suas narrativas apresentam facetas das suas representações de utilização e não utilização, tal como desvendam estratégias de sociabilidade para reduzir sentimentos de exclusão grupal. Embora para a maioria dos jovens a diferenciação rígida entre a interação off-line e online deixe de fazer sentido, uma vez que se movimentam simultaneamente nas duas dimensões (Maczewski, 2002; ver a discussão sobre dualismo digital em Jurgenson, 2012), os nossos entrevistados fazem uma separação clara dessas dimensões.

 

Tipologias de não utilização: de tipos empíricos para tipos ideais

Em paralelo com a análise temática exposta nas secções anteriores, a análise de perfil permitiu-nos encontrar quatro tipos de não utilizadores: desistentes, resistentes, utilizadores indiretos e potencialmente convertidos. Todos os não utilizadores pertencem primariamente a uma de duas categorias: desistentes (usaram, mas desistiram) ou resistentes (nunca utilizaram). Para evitar reinventar categorias, recuperamos os termos desistentes e resistentes já avançados por Wyatt, Thomas e Terranova (2002) para descrever diferentes tipos de não utilizadores de internet. Por terem sido encontrados subgrupos de padrões distintos entre os desistentes e os resistentes, emergem duas outras categorias para complementar esta taxonomia, a que chamamos: utilizadores indiretos e potencialmente convertidos. Estas tipologias não são estanques e podem ser transientes (Neves et al., 2015). Contudo, para efeitos analíticos, cada um dos indivíduos é integrado apenas em uma das quatro tipologias. Relacionamos ainda a descrição de cada tipo com as temáticas de rejeição encontradas.

Desistentes

Os desistentes já usaram e tiveram um perfil num site de redes sociais, mas desativaram-no e reportam já não usar qualquer SRS. Da amostra de 30 jovens, 15 pertencem a esta categoria. A opção voluntária de deixar de utilizar SRS deve-se a diversas razões. Em primeiro lugar, a razão apontada por todos os desistentes prende-se com uma baixa perceção de utilidade: os entrevistados dizem que “não têm interesse”, “não têm necessidade”, que é uma “perda de tempo”, ou que não têm “paciência”. Em segundo lugar, aparecem as ações sociais; cinco entrevistados referem exposição pessoal. Por exemplo, Duarte constata que embora as contas nos SRS tenham definições de privacidade existe sempre alguma exposição e que essa exposição pode levar a situações de perigo, “gente pouco madura que se expõe demasiado, basicamente. Expor coisas que não deviam expor… e pode dar origem a situações delicadas.” Três destes desistentes referem ainda fofocas ou mexericos online e colapso de contextos. Por exemplo, a Ana David indica conflitos amorosos devido à descontextualização do que colocava online: “as brincadeiras que existiam no Facebook… Muitas vezes, frequentemente aliás, causavam um pouco de perturbações. E para não continuar a aumentar, tanto ele [o namorado] como eu decidimos acabar [com o Facebook].” O receio da substituição da vida off-line pela internet é outro motivo para desistir destes sites, como reportado por dois entrevistados. A Xana diz: “Não sou contra o uso. Mas é uma forma de termos uma noção errada da realidade que nos está à volta. Nós não podemos ser aquele glamour que está nas redes sociais. Nas redes só publicamos o que há de bonito.” E Ricas sublinha: “Ganho tempo para as pessoas que realmente querem estar comigo e que fazem parte do meu círculo de amizade.”

Embora em menor número, a(s) identidade(s) e autoapresentação aparecem como razões diretas para cinco dos desistentes. Dois indicam não se identificar com a ideologia capitalista dos SRS. Zé Maria, por exemplo, critica o marketing agressivo destes sites: “alguns sites desses vendem a nossa informação a empresas de publicidade. Utilizam o nosso perfil para depois nos bombardearem com produtos e com coisas.” Outros dois referem aspetos de personalidade (introversão) ou estilos de vida alternativos. Eduardo conta: “Eu conheço grande parte dos meus amigos desde os dez anos. E… e eles sabem que eu sou assim. Tecnologias, nunca me dei muito bem com máquinas, sinceramente. Tinha a alcunha, era o eremita.” Contudo, este entrevistado utiliza e-mail diariamente para fins profissionais e possui um telemóvel. Um outro entrevistado, o Duarte, deixou os SRS porque entrou para um seminário religioso e este era um dos requisitos da sua ordem. Apesar de este entrevistado frisar que o aceitou sem objeção, este caso vem esbater a linha entre não utilização voluntária e involuntária: “Foi-me imposto e eu aceitei de bom grado! Ou seja, nunca me fez confusão nenhuma.”

Resistentes

Os resistentes nunca usaram ou tiveram um perfil num site de redes sociais e não consideram utilizar estes serviços. Cinco entrevistados pertencem a esta categoria. Mais uma vez, todos indicam uma baixa perceção de utilidade, assim como razões associadas com práticas sociais. Três resistentes indicam claramente que não compreendem as normas, práticas e relações nos SRS. Jubal relata: “Há tantas pequenas guerrinhas, com intrigas, telenovelas mexicanas… São telenovelas mexicanas… São coisas estúpidas como ‘ah eu postei aquela imagem’, ‘ah mas tu não podes tratar o meu namorado assim, ele não pode ver estas tuas imagens! Tu eras minha amiga, tu não…’, que é isso? Não percebo…” Joana comenta em relação às questões de exposição que “eles [Facebook] têm um ficheiro tipo CIA de todos os cidadãos do mundo. E é preocupante.” E ilustra com um caso real: “Não sei se ouviram falar, daquela família que pôs o postal de Natal no Facebook e nesse momento, essa foto que seria de Natal, é um anúncio da Turquia. Não há nada que eles possam fazer em relação a isso! A foto não é deles! Eles não podem fazer nada!”

As questões de privacidade, voyeurismo, superficialidade e substituição de relações sociais pela internet são mencionadas por vários entrevistados. José refere: “Se precisasse de ter um Facebook, já o tinha feito! Mas não tenho essa necessidade… aquilo é só para ver e ser visto!” Marta refere que a utilização de SRS pode ser “bastante viciante” e José comenta: “acho que todas as pessoas que têm Facebook deviam experimentar não ir lá durante uma semana inteira, fazer uma desintoxicação daquilo!”

Nenhum dos resistentes evidencia motivos diretamente ligados à(s) identidade(s) e autoapresentação, embora as suas narrativas impliquem sempre uma autoperceção.

Utilizadores indiretos

Não tendo um perfil pessoal num SRS e não se considerando utilizadores, seis dos entrevistados utilizam ocasionalmente perfis de familiares ou amigos. Nesta categoria, que não é exclusiva, inserem-se quatro desistentes (que utilizam outros perfis para aceder a conteúdos de grupos específicos, como, por exemplo, grupos da faculdade) e dois resistentes (que utilizam outros perfis para jogar online). A utilização de SRS de forma indireta é explicada por Guida, que, embora não queira pertencer à rede, tem essa necessidade, utilizando a conta da sua mãe: “Não uso como usuária. Tenho uma conta, em nome da minha mãe, e nela tenho acesso a grupos da faculdade. É necessário ter. Agora, para te ser sincera, só uso mesmo para obter as informações que estão lá!” Estes jovens, embora utilizem SRS indiretamente, percecionam-se e definem-se como não utilizadores. De facto, estas categorizações preestabelecidas, que dividem utilizadores e não utilizadores, rapidamente se esbatem quando aplicamos as lentes qualitativas (Eynon e Geniets, 2012). Optamos por designá-los utilizadores indiretos, pois utilizam, de facto, SRS, apesar do significado subjetivo que atribuem a essa definição de utilização/não utilização.

As razões para não terem um perfil pessoal num site de redes sociais prendem-se com uma baixa perceção de utilidade, embora haja alguma contradição entre a sua perceção e a sua ação como utilizadores indiretos. No contexto das ações sociais, as questões de privacidade e exposição são mencionadas por dois entrevistados, e a propagação de fofocas/mexericos é referida por um, tal como a autopromoção online. Mariana conta que quando utilizava estes sites “punha fotos, falava com amigos. Mas depois havia muito flirt. As pessoas diziam coisas que não eram capazes de me dizer na frente.” Três dos não utilizadores inseridos neste grupo evocam razões de identidade e autoapresentação, nomeadamente aspetos de personalidade como ser rebelde, reservado, ou “não utilizador de médias digitais”.

Potencialmente convertidos

Tal como a categoria anterior, esta não é exclusiva. Enquadram-se como potencialmente convertidos quatro jovens que assumem a possibilidade de utilizar ou voltar a utilizar SRS, sendo um resistente e três desistentes. Durante as entrevistas, essa possibilidade de conversão era demonstrada de modo evidente, noutros casos de modo mais subtil, tomando a forma de uma autorreflexão e de renegociação de vantagens e desvantagens. Pedro, por exemplo, refere que criaria um perfil num SRS se fosse um requisito profissional. Maria F. refere: “O hi5 foi importante. O Facebook é importante para uma vida normal. Daí ter a intenção de até voltar a ter Facebook.” Zé Pedro, também desistente, acredita na possibilidade de voltar a utilizar SRS, mas de forma diferente: “Pode ser prático, mas é fácil de se perder o controlo. Às vezes até penso em voltar, mas se isso acontecer será um pouco fora do alcance que aparentemente as redes sociais servem: vou querer ter poucos amigos.”

A opção de não utilizar SRS passa pela baixa perceção de utilidade. Zé Pedro explica: “Estou com falta de tempo e paciência para aquelas conversas muito pouco profundas. Eu já não estou ligado há uns três meses.” As questões de privacidade e exposição são avançadas por dois entrevistados, a substituição pela internet é referida por um, tal como a propagação de mexericos. Paula refere: “Não gosto, quer dizer, não me sinto bem. […] Pode ser só uma fotografia mas não me sinto bem de estar-me a expor. Sei lá que pessoas é que vão ver aquelas fotografias?” Em termos de identidade(s), Maria F. identifica-se com o movimento hipster, sendo esta uma das razões para não utilizar SRS: “Usando um termo social acho que os meus amigos interpretam isso por eu ser hipster. É uma mostra da minha personalidade. É quase como se fosse um state do mundo social eu não ter Facebook. Eu sou muito alternativa que não quer ser igual a toda agente. Gozam comigo por isso. Ou então ficam muito irritados comigo.”

Em suma, os nossos resultados sugerem uma diversidade de não utilizadores e perceções de não utilização, desafiando as equações dicotómicas ainda presentes na literatura entre os “que têm” e os “que não têm” (Wyatt, 2003; Baumer et al., 2013). As razões para a não utilização de SRS estão emaranhadas numa complexa teia de ações e significados sociais, identidade(s) e autoapresentação dos nossos entrevistados, indo para além de perspetivas simplificadas de estilos de vida. As suas narrativas dão-nos uma noção dos seus motivos e contextos, embora os discursos e identidades juvenis não sejam processos fixos, mas fluidos e múltiplos. As três grandes categorias de razões de rejeição foram transversais aos quatro tipos de não utilizadores encontrados, com a exceção dos resistentes que não reportaram explicitamente motivações relacionadas com autoapresentação ou identidade(s). Estas categorias de rejeição são semelhantes às encontradas por Tufekci (2008), com a seguinte diferença: os nossos entrevistados sentiam curiosidade em relação à vida privada dos amigos, mas preferiam o meio face a face para a acompanharem. Embora Hargittai (2007) tenha demonstrado que o género era um fator de utilização, não encontramos paralelo nas narrativas de não utilização. Por fim, e como demonstrado em investigação anterior, os nossos não utilizadores usavam a internet para fins sociais, não eram iletrados digitais, não eram tecnofóbicos, e não estavam socialmente isolados (Hargittai, 2007; Tufekci, 2008; Portwood-Stacer, 2012). Aliás, todos estavam familiarizados com SRS, tendo inclusivamente uma ideia concreta não só das vantagens como das desvantagens da não utilização de SRS, como explorado anteriormente. Adicionalmente, a expressão “não alinhados” fica aquém dos resultados encontrados, uma vez que alguns entrevistados estão “alinhados” com SRS, embora de forma diferente dos utilizadores “comuns”.

Para melhor captar esta diversidade de formas e perceções de não utilização, em seguida propomos um exercício de construção de tipos ideais — instrumentos conceptuais weberianos para comparar e medir uma determinada realidade, permitindo analisar diferenças e semelhanças entre constructos e casos concretos e, consequentemente, iluminar significados e relações.

De tipos empíricos para tipos ideais: um exercício sociológico

 Os quatro tipos empíricos encontrados (resistentes, desistentes, utilizadores indiretos e potencialmente convertidos) servem de base para a definição de tipos ideais, como proposto por Weber (2004 [1922]). A transição de tipos empíricos para ideais é um importante exercício sociológico na abordagem de não utilização, por várias razões: primeiro, porque permite reconhecer regularidades sociais de forma abrangente, que vão para além de categorias ou tipologias localizadas, sendo portanto constructos mais flexíveis para se aplicarem em diferentes contextos. São constructos que, no entanto, englobam complexidades sociais e suas nuances. Assim, ajudam a definir não utilização de forma aprofundada mas ampla, facilitando a desconstrução de entendimentos homogéneos e a abordagem dicotómica de uso e não uso; segundo, os tipos ideais estão relacionados com um enquadramento teórico interpretativo, ligando ação social e seus significados com elementos estruturais numa perspetiva comparada. Como sublinha Weber (2004 [1922]), os tipos ideais sociológicos não são apenas desenvolvidos para se comparar a realidade social, que é mutável de acordo com diferentes entendimentos, mas para efeitos explanatórios. Esta ligação facilita a contextualização de tecnologia e usos de forma interpretativa (Neves e Mead, 2017).

Tendo em consideração estes objetivos, os tipos empíricos encontrados e os procedimentos weberianos para a construção de tipos ideais (identificados na parte metodológica), podemos sugerir três tipos ideais de não utilização voluntária: intencional, instrumental e imposta. O tipo intencional e o tipo imposto são versões opostas de não utilização, representadas de forma pura. O intencional inclui os não utilizadores que de forma deliberada optam pela exclusão de um meio digital (aqui incluem-se os resistentes e os desistentes) e que a justificam de modo racional e planeado. O tipo imposto inclui os não utilizadores que, embora o façam de forma voluntária, são alvo de pressão para se excluírem, como o entrevistado que entrou para um seminário religioso ou os entrevistados que deixaram SRS devido a problemas com parceiros amorosos. Como observamos, em alguns casos a distinção entre não utilização voluntária e involuntária não é tão clara como tínhamos presumido. A não utilização parece poder ser, assim, voluntária, involuntária, e mista, desconstruindo outra dicotomia. O instrumental encontra-se num continuum entre os dois tipos anteriores e diz respeito ao tipo de não utilização que é seguida ou contornada em situações específicas — os utilizadores indiretos e os potencialmente convertidos inserem-se neste tipo ideal. No caso dos utilizadores indiretos, esta não utilização instrumental permite uma conceptualização mais abrangente de uso e não uso de SRS consoante as necessidades dos entrevistados, e possibilita respeitar quer a perceção e significado subjetivo deste grupo, quer a interpretação dos investigadores que o veem como forma de utilização. A instrumentalidade pode ser entendida de forma lata, incluindo motivações profissionais ou pessoais.

Juntos, estes tipos ideais reforçam um processo social e digital dinâmico, onde o contexto não é apenas causa mas também consequência: temos um conjunto de perspetivas de não utilização e de contextos sociotécnicos ao longo de um continuum. Estes tipos ideais acentuam significados, motivações e ações de não utilização baseadas numa relação social entre utilizadores e não utilizadores e entre diferentes razões de rejeição e formas de não utilização. O imposto, o intencional e o instrumental também se relacionam por assentarem em razões de rejeição comuns, que incluem perceções de utilidade, ações sociais e identidades — razões usadas para uma “legitimação” de sentidos e ações de modo “rotinizado” e “ritualizado”, usando as expressões weberianas (Weber, 1978 [1922]: §10).

Por fim, estes três tipos ideais acentuam aspetos típicos e únicos de não utilização de uma plataforma, representam relações puras ou otimizadas, ajudam a desconstruir dicotomias entre utilização e não utilização, e passam pelos critérios weberianos. Apesar do foco em não utilização, estes tipos ideais também podem ser pensados em termos de exclusão e autoexclusão digital, seja de um meio específico (que até pode remeter para inclusão digital diferenciada) ou de forma geral.

 

Considerações finais

Este artigo fornece um olhar aprofundado sobre não utilização que vai além da noção generalizada de jovens e SRS, explorando contextos e representações segundo uma perspetiva interpretativa weberiana. Os resultados evidenciam que a linha divisória entre uso e não uso de SRS entre jovens adultos não é estática, pelo contrário, é transiente. Apesar das categorias homogéneas de “utilizadores” e “não utilizadores” e da sua fórmula dicotómica, encontramos uma diversidade de não utilizadores e a emergência de quatro perfis qualitativos (resistentes, desistentes, utilizadores indiretos e potencialmente convertidos). Esta diversidade empírica permite a elaboração de tipos ideais (intencional, imposto e instrumental), um instrumento analítico que ajuda a revelar significados e relações e a desconstruir dicotomias de uso e não uso, acesso e não acesso, consumo e não consumo, voluntariedade e involuntariedade. A perspetiva weberiana, que liga significados e ação, oferece uma análise holística e situacional do que pode ser a não utilização e do que ela significa para os indivíduos envolvidos em tal processo, incluindo como a legitimam.

É, no entanto, importante assinalar os limites da nossa amostra por conveniência e a ausência de não utilizadores de internet no nosso estudo. Apesar destas limitações, oferecemos uma visão sociológica detalhada de “não utilização” voluntária e mista de um meio digital pervasivo entre jovens adultos, contribuindo para a escassa literatura sobre a temática. Oferecemos ainda uma proposta inovadora de aplicação da sociologia compreensiva de Weber e do seu tipo ideal para ultrapassar a visão homogénea e dicotómica de não utilização de meios digitais. Contudo, esta proposta tem também as suas limitações, desde a dificuldade de se classificarem significados e ações de forma holística mas flexível, até à armadilha iminente de reificação ou de se categorizarem categorias de categorias. Limitações para as quais Weber não deixa orientações. Assim, investigação futura deve examinar se e como as diversas realidades empíricas de não utilização voluntária, involuntária e mista, divergem dos tipos ideais definidos. Igualmente, estabelecer tipos ideais de utilização ajudará a examinar a complexidade da utilização, não utilização e sua continuidade. Uma análise longitudinal pode ainda facilitar a compreensão de momentos transientes ou constantes entre os diferentes tipos ideais.

 

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Agradecimentos

As autoras agradecem a João Monteiro de Matos e a Sara Martins pela participação neste projeto, aos entrevistad@s, aos revisor@s pelo seu tempo e comentários que permitiram melhorar este artigo, e a Diana Dias de Carvalho pelo apoio.

 

Receção: 20 de maio de 2015 Aprovação: 13 de fevereiro de 2017

 

Notas

[1] Este ensaio, publicado nos Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik (Arquivos de Ciências Sociais e Política Social), foi depois integrado na obra póstuma The Methodology of the Social Sciences, traduzida por Shils e Finch em 1949.

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