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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.44 Lisboa dez. 2020  Epub 31-Dez-2020

https://doi.org/10.34619/rwxm-ck56 

Nota de abertura

Construindo laços

Isabel Henriques de Jesus1 
http://orcid.org/0000-0002-8172-4224

1 Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, 1069-061 Lisboa, Portugal, misabeljesus@fcsh.unl.pt


O ano de 2020 está a terminar e com ele o propósito de publicação de duas revistas que tivessem como tema agregador a Plataforma de Acção de Pequim.

O que não podíamos imaginar quando delineámos este projecto é que as condições de realização do mesmo fossem tão estranhas e desconformes à prática de trabalho habitual. O próprio tempo dilatou na medida das possibilidades, sem ansiedades nem pressas que conflituassem com o ritmo do presente e com a incerteza do futuro. Como se tudo adquirisse uma dimensão precária, e cada pequeno passo valesse por uma grande conquista. Assim, fomos encaixando as peças, suprindo as ausências, compondo o puzzle que hoje vos apresentamos, sob a forma da 44.ª edição da revista Faces de Eva.

Contámos, mais uma vez, com o saber e a experiência de Regina Tavares da Silva, que nos permitiu continuar a desbravar um caminho iniciado na edição anterior.

A escolha da imagem de capa trouxe-nos momentos aprazíveis e descobertas surpreendentes que estreitaram laços em torno da figura de Fausta Deshormes La Valle, não apenas pelo que representa na plena convicção da presença das mulheres na construção de uma Europa mais inclusiva e igualitária e pelo papel que teve no apoio às organizações de mulheres portuguesas no contexto da Comunidade Europeia, mas pela feliz coincidência do domínio da língua portuguesa nos seus familiares directos.

Tratando-se de uma família de origem italiana, não esperávamos encontrar o português como língua de eleição. A mãe de Fausta, Mercedes la Valle, chegou mesmo a traduzir Os Lusíadas para italiano. Viemos depois a perceber que o domínio da língua se devia ao seu trabalho de jornalista, correspondente em jornais brasileiros, trabalho que abraçou após a morte do marido, Renato la Valle. Este, também jornalista, terá travado conhecimento, nos anos 20, com Assis Chateaubriand e iniciado uma colaboração com os Diários Associados. Mais tarde, a sua posição de confronto político com o regime ditatorial ditaria a proibição de escrever artigos políticos, mantendo-se correspondente da Gazeta de São Paulo, cargo ocupado por Mercedes aquando da sua morte, o que revelava o seu carácter empreendedor, forte e resoluto. Além de jornalista, Mercedes deu a conhecer, em Itália, grandes poetas brasileiros que traduziu, tendo ela própria escrito, nas duas línguas, vários livros de poesia.

Daí a língua portuguesa, a que se juntava a paixão pelo Brasil e pela poesia brasileira, como refere a sua neta Agnès, também ela conhecedora e praticante da nossa língua, neste caso aprendida durante a sua estadia em Cabo Verde.

Então, a elaboração deste número de Faces de Eva revelou também parte da história de uma família italiana, onde se urdem estreitos laços com a nossa língua e com o nosso país. Disso quisemos dar testemunho, através da fala de três gerações de mulheres: avó, filha e neta. De Mercedes La Valle, escolhemos um pequeno apontamento poético na sua língua natal, mas por si traduzido para português. De Fausta, para além do olhar e sorriso luminosos com que ilustramos a nossa capa, revelando a mulher afectuosa, disponível e amiga por tantas e tantos celebrada, contamos com três textos que ajudam a compreender a sua importância política e institucional na conquista pelos direitos das mulheres, mas também a sua ligação a Portugal e ainda um olhar mais íntimo que nos é oferecido pela sua filha Agnès. Fausta acreditava que a informação é um pilar essencial para a consciência dos direitos e dos deveres dos cidadãos e percebeu como era necessário dotar as mulheres de instrumentos que as fizessem recusar qualquer tipo de discriminação e estar na linha da frente pela defesa dos seus direitos. Os três textos que constam da rubrica “Homenagem” ajudarão a elucidar a inteligência no trabalho e a postura humana de Fausta Deshormes la Valle.

Tratou-se de um processo de generosidades várias, em que os laços se iam evidenciando e a informação circulando no prazer da oferta. Talvez a isso não tenha sido estranha a figura tutelar de Fausta, que promovia redes de comunicação entre as mulheres e fomentava as amizades. De toda esta história que fomos percebendo através de mensagens trocadas e de peripécias várias, fica-nos o gosto pela construção colectiva numa base solidária e afectiva, porventura reforçada por essa identidade cultural e linguística que nos alimentou a vontade de saber cada vez mais. As passagens de Fausta por Portugal e o seu apoio a iniciativas nacionais de capacitação das mulheres acrescentam valor a estes evidentes encontros em que simbolicamente quisemos assentar os pontos de união desta Nota de Abertura.

Terminamos com uma referência a Mulheres da Europa, revista “inventada” (Agnès considera ser este o verbo que se aplica, na medida em que se trata de um novo conceito) por Fausta Deshormes, publicada em nove línguas e dirigida às Mulheres com o objectivo de reforçar a sua capacidade de intervenção e de construção autónoma. Terá sido um projecto ambicioso e certamente de grande empenho e dedicação. A revista Faces de Eva não lhe pode ficar indiferente e, na impossibilidade editorial de lhe dar mais destaque, publica uma foto de Fausta, tendo como cenário alguns números de Mulheres da Europa, em várias línguas.

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