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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versión impresa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.51 Lisboa jun. 2024  Epub 30-Ene-2025

https://doi.org/10.34619/ytkv-o3xr 

Estudos

“Tired, undesired, no defence, indifference” - Uma análise da representação feminina em The Waste Land, de T. S. Eliot

“Tired, undesired, no defence, indifference” - An analysis of the feminine representation in T. S. Eliot’s The Waste Land

Lorenna Lumack do Monte Agrai 
http://orcid.org/0009-0009-3197-3853

iDepartamento de Estudos Anglísticos, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, 1350-017 Lisboa, Portugal. Email: lorenna.agra@edu.ulisboa.pt


Resumo:

Obra seminal, The Waste Land (1922) originou debates sobre o tratamento da questão feminina, especialmente à luz da análise literária de Gilbert e Gubar (No Man’s Land: The Place of the Woman Writer in the Twentieth Century, 1988). Este artigo propõe uma análise textual cuidadosa das técnicas implementadas por Eliot para averiguar se incentivam uma representação misógina da figura feminina enquanto símbolo de passividade e ausência de autonomia. Examina-se se o uso de referências bíblicas, clássicas e mitológicas reforça uma visão patriarcal, buscando-se contribuir para a discussão sobre gênero e representação na literatura modernista.

Palavras-chave: T. S. Eliot; The Waste Land; modernismo; feminismo; misoginia

Abstract:

The Waste Land (1922) sparked debates on the treatment of the female question, especially in light of Gilbert and Gubar’s literary analysis (No Man’s Land: The Place of the Woman Writer in the Twentieth Century, 1988). This article proposes a careful textual analysis of Eliot’s techniques to determine if they encourage a misogynistic representation of the female figure as a symbol of passivity and lack of autonomy. It examines whether the use of biblical, classical, and mythological references reinforces a patriarchal view, aiming to contribute to the discussion on gender and representation in modernist literature.

Keywords: T. S. Eliot; The Waste Land; modernism; feminism; misogyny

Originalmente publicado em 1922, The Waste Land1 se tornou um marco de referência do período conhecido como Modernismo, denominação implementada para descrever as artes na Europa e na América desde a primeira década do século XX até a Segunda Guerra Mundial. O termo, conforme explana Brooker (1994), abarca figuras tão divergentes como James Joyce, Virginia Woolf, Picasso e Salvador Dalí. Aplicado a autores como Joyce, Ezra Pound e o próprio T. S. Eliot, denota também uma tendência de retorno e de reconfiguração do passado para conectá-lo ao presente, característica que, neste sentido, torna a produção literária de Eliot paradigmática. The Waste Land, em especial, visto como um dos textos mais representativos da forma moderna, incorpora uma multiplicidade de personagens e de mitos, imagens e símbolos fragmentários, cuja densidade e opacidade incitaram estudiosos a desvelar os seus mistérios desde o ano de sua publicação até os dias atuais.

Para Brooker e Bentley (1990), os estudos sobre aquela que é considerada a obra-prima de Eliot podem ser divididos de forma aproximada em três períodos, os quais se estendem dos anos 1930 aos 1950, dos anos 1960 aos 1980 e, por fim, dos anos 1980 à atualidade, todos eles com diferentes enfoques e formas de abordagem. Contudo, convém destacar aqui a perspectiva feminista, pertinente para a análise das figuras femininas que se revelam de forma numerosa em The Waste Land, desde a Sibila da epígrafe até as Filhas-do-Tamisa que integram a terceira seção do poema. Estes estudiosos emergem com novas propostas de interpretação, demonstrando um claro interesse em reconsiderar a escrita de Eliot sob uma ótica alternativa após o florescimento dos estudos de gênero e da teoria queer, principalmente a partir dos anos 1990. Porém, dada a forma de representação escolhida pelo autor, tornaram-se recorrentes as críticas quanto a um tratamento possivelmente misógino de suas figuras femininas, sejam elas míticas ou contemporâneas (Gibert-Maceda, 1995).

Para uma parcela dos estudiosos, essas personagens têm em comum um sofrimento que parece estar diretamente associado à sua identidade enquanto mulheres (Saunders, 1988), ou - situadas em seu contexto como vítimas - têm sua imagem relacionada, por meio de alusões e citações, a heroínas igualmente vitimizadas, como Cleópatra, Dido e Ofélia. Diante disto, após uma breve explanação do embasamento teórico feminista que engendrou uma reconfiguração na maneira como as obras de Eliot e, em particular, The Waste Land passaram a ser interpretadas em décadas recentes, este trabalho se propõe a uma análise cuidadosa de algumas das personagens femininas centrais - nomeadamente das três primeiras seções - que emergem no poema, buscando atestar se elas reforçam uma visão patriarcal das mulheres como símbolos de passividade e ausência de autonomia.

MULHERES DEVASTADAS: T. S. ELIOT E A CRÍTICA FEMINISTA

Em 1988, Sandra M. Gilbert e Susan Gubar publicaram The War of the Words, primeiro volume de No Man’s Land: The Place of the Woman Writer in the Twentieth Century, talvez uma das obras mais reconhecidas no que concerne à perspectiva feminista sobre T. S. Eliot e em cuja crítica também se incluem os demais autores de sua geração (James Joyce, Ezra Pound, D. H. Lawrence, Ernest Hemingway e Norman Mailer). Para as autoras, trata-se de intelectuais que, devido a certa crise de confiança diante da possibilidade de um cenário literário preenchido por mulheres - escritoras, mentoras ou artistas -, acabaram por incorporar às suas obras formas virulentas de misoginia e racismo não só como reação a um clima geral de frustração com a cultura do seu tempo, mas também em resposta à ansiedade sexual decorrente de um senso de impotência. Seriam, portanto, uma personificação da autoridade patriarcal que se opunha à emancipação feminina no início do século XX, e o tom de censura das autoras exsurge em declarações veementes como: “T. S. Eliot and D. H. Lawrence often concentrate with virtually sadistic fervor on the war between the sexes” (Gilbert & Gubar, 1988, p. 30).

Pode-se afirmar que a obra supracitada representa o culminar de discussões que puseram fim àquilo que Gibert-Maceda denomina “um longo período de aclamação reverencial” à produção literária de Eliot (Gibert-Maceda, 1995, p. 61) e que também desencadearam acusações de misoginia, racismo e elitismo contra homem e escritor. Afastadas aqui as questões relativas à biografia do autor, vale destacar outras publicações deste período que contribuíram para novas abordagens quanto aos seus escritos, nomeadamente The Waste Land, e à posição da mulher nas relações sociais. Um dos pontos questionados se refere ao uso da linguagem empregada na representação feminina, descrita como “a destructive talk, garrulous chatter, or mere nervous babble, characterised by incoherence and/or vulgarity” (Gibert-Maceda, 1995, p. 63). Neste sentido, ao analisar a fala fragmentada ou desconexa de personagens como a amiga de Lil (Eliot, 1999, II.139-172) e as Filhas-do-Tamisa (Eliot, 1999, III.292-306), Koestenbaum observa uma aproximação entre as técnicas de discurso empregadas na literatura experimental modernista e o discurso da histeria, em que coincidem as rupturas, descontinuidades e espaços vazios, e assim assevera: “(The Waste Land) has pronounced affiliations with the discourse of the female hysteric” (Koestenbaum, 1988, p. 114).

Desta forma, o efeito produzido seria uma hierarquia de discursos com uma evidente desvalorização das vozes femininas do poema. Ademais, o uso de alusões, versos em línguas estrangeiras, formas fragmentárias e arcaicas e outras técnicas experimentais teriam como intuito tornar a linguagem opaca e acessível apenas a um grupo seleto e elitista de leitores, em sua maioria homens, o que ao final justificaria a famigerada constatação de Joyce: “(The Waste Land) ends (the) idea of poetry for ladies” (Gilbert & Gubar, 1988, p. 156). Conforme elenca Chisholm (1984), a isto se somam outros argumentos que fortalecem as acusações de misoginia no poema, incluindo: uma associação aparentemente íntima entre sexualidade e imagens negativas, as recorrentes representações de violência contra mulheres e as descrições depreciativas das personagens, a exemplo da forma como Lil (Eliot, 1999, II.142-163) é apresentada ao leitor. Sob esta perspectiva, as figuras femininas se resumiriam a mulheres tão devastadas quanto o cenário sem vida em que estão dispersas.

De outra via, certa parcela dos críticos buscou um posicionamento mais ponderado, argumentando que figuras masculinas e femininas sofrem e destroem-se igualmente em The Waste Land, um artifício possivelmente utilizado pelo autor para questionar estruturas sociais de opressão que agem sobre todos em igual medida. Brooker (1994) argumenta que, ao longo do poema, o poeta se demonstra disposto a encontrar a união entre valores masculinos e femininos, uma combinação frutífera apesar da reconhecida tensão em suas relações, e neste sentido Christ complementa: “among the most striking characteristics of Eliot’s poetry is the way in which it fragments not just female bodies but all bodies, and frequently in a way that makes their gender ambiguous” (Christ, 1991, p. 29).

De fato, é possível apontar autores que, nas últimas duas décadas, se propuseram a ir além das tradicionais acusações de misoginia no que concerne às figuras femininas de Eliot e identificaram em The Waste Land a analogia de uma sociedade decadente povoada por indivíduos subjugados e sem voz, na qual as mulheres representam a incapacidade de comunicação do mundo moderno e a opressão que a todos subjuga (Hasan & Hussein, 2015; Warwood, 2013). Isto parece exemplificar aquilo que Laity (2004), no início do século atual, previa como uma espécie de viragem nos estudos eliotianos, promovendo não a hostilidade e a incompreensão, mas leituras que reconheçam T. S. Eliot como uma figura complexa e ambivalente, capaz de impelir o leitor a participar do processo de construção de significados em sua poesia sob o prisma da dinâmica entre gêneros.

MULHERES APRISIONADAS: A REPRESENTAÇÃO FEMININA EM THE WASTE LAND

Em sua proposta de análise de The Waste Land, Brooker e Bentley (1990) ressaltam a multiplicidade de perspectivas do poema como uma de suas características essenciais. Isto significa que ao leitor é apresentada uma justaposição de pontos de vista sobre a mesma ideia ou objeto, tornando-o consciente dos limites de compreensão de cada indivíduo e da importância de mover-se entre diferentes perspectivas a fim de apreendê-las simultaneamente. A representação feminina é um exemplo concreto disto, apresentando-se como um verdadeiro “retrato cubista” em que estão compreendidas, ao mesmo tempo, facetas divergentes: desde figuras históricas como Cleópatra até mulheres contemporâneas na privacidade do seu quarto ou num pub movimentado. Diante desta ampla galeria de figuras humanas, resta ao leitor questionar: como elas contribuem para o poema e o que as distingue - ou as une?

Uma das interpretações mais recorrentes na crítica literária identifica em The Waste Land os temas subjacentes da perda e desolação como resultado dos horrores decorrentes da Primeira Guerra Mundial. Neste contexto, Marie, a primeira figura feminina com a qual o leitor é confrontado na abertura de “The Burial of the Dead”, exsurge como uma possível alusão à inocência - “when we were children” (Eliot, 1999, I.13) - e também como um prenúncio de perda: “And I was frightened. / He said, Marie, / Marie, hold on tight. / And down we went” (Eliot, 1999, I.15-16). Frequentemente apontada como símbolo de uma aristocracia europeia em crise (Saunders, 1988), sua insegurança e hesitação antes de ir “para o sul no inverno” (Eliot, 1999, I.18) antecipam a entrada da Rapariga dos Jacintos (Eliot, 1999, I.36), episódio em que o poeta - à luz de Tristão e Isolda, de Wagner - introduz o tema da comunicação falha entre amantes (Brooker & Bentley, 1990). Este tema, por sua vez, leva o leitor adiante até a figura de Madame Sosostris - famosa vidente, porém “muito constipada” (Eliot, 1999, I.43-44) -, retratada de forma quase caricaturesca, o que dá às suas predições um tom pouco credível mesmo sendo “a mais sabedora mulher da Europa” (Eliot, 1999, I.45).

Destarte, nesta primeira seção de The Waste Land e, conforme se verá, também naquelas que se seguem, essas figuras parecem representar um misto de memória e desejo - “mixing / memory and desire” (Eliot, 1999, I.2-3). Conforme apontado por Davidson, são mulheres que - apesar de tradicionalmente associadas à sexualidade e à fertilidade - não se reduzem a meros objetos de desejo, mas são elas também detentoras de desejos que são expostos ao longo do poema e que invariavelmente levam à frustração, à apatia e à violência; em suma, “the narrative world Eliot gives us as an alternative to the little life of dried tubers is driven by desires, but not often happily” (Davidson, 2005, p. 127).

A perspectiva feminina, de caráter privado e sexualizado, se perpetua em “A Game of Chess”, onde duas figuras contrastantes dominam a cena. Primeiro, uma mulher sem nome (Eliot, 1999, II.77-138), talvez num quarto conjugal, lança perguntas nervosas e preenchidas de pânico e não obtém resposta do amante silencioso. O ambiente rico em detalhes e perfumes ganha ares claustrofóbicos, e os cabelos soltos (Eliot, 1999, II.133) fazem sua caracterização oscilar entre a loucura e o erótico, enquanto as alusões do poeta a identificam com figuras femininas de final nefasto, em que se destaca o estupro de Filomela (Eliot, 1999, II.99-103). A solidão dessa mulher ansiosa se coaduna com a triste vida doméstica de Lil (Eliot, 1999, II.139-172), cuja aparência e condição social são reduzidas a termos depreciativos e cujo discurso é assombrado pelo aborto e pela expectativa da chegada de Albert, o marido.

O desejo mais uma vez se revela trágico para essas personagens, assim como para aquelas da seção seguinte, conforme já se antevia nos primeiros versos do poema: “hold on tight” (Eliot, 1999, I.16). Em “The Fire Sermon”, a sombra de Filomela mais uma vez assoma e dá indícios do destino das personagens centrais da seção, a Datilógrafa e as Filhas-do-Tamisa, cujo estupro já se anunciava nos versos 102 e 103 (“And still she cried, and still the world pursues, / ‘Jug Jug’ to dirty ears”), ecoados pelos versos 203 a 206 (“Twit twit twit / Jug jug jug jug jug jug / So rudely forc’d. / Tereu”), conforme sugere Goodspeed-Chadwick (2009). No primeiro episódio, a sucessão de acontecimentos indecorosos se reduz a uma mera sequência de rimas que refletem a melancolia da personagem - “tired… undesired… no defence… indifference” (Eliot, 1999, III.236-242) - e é finalizada com apatia: “‘Well now that’s done: and I’m glad it’s over’” (Eliot, 1999, III.252). Neste diapasão, as três Filhas-do-Tamisa (III.292-306) são introduzidas nesse cenário desolador com uma canção de lamento - “Weialala leia / Wallala leialala” (Eliot, 1999, III.277-278; 290-291) - e reagem à violação com indiferença: “I made no comment. What should I resent?” (Eliot, 1999, III.299).

É interessante ressaltar que a segunda seção de The Waste Land foi originalmente intitulada “In the Cage” por Eliot, já que esta parece ser a condição comum a todas as figuras femininas previamente suscitadas: aprisionadas num estado de sofrimento do qual não são causadoras, nem podem se livrar (Saunders, 1988). Em oposição às figuras masculinas, sujeitos ativos que promovem a infertilidade da terra, a passividade aparentemente as define, já que lhes resta apenas a opção de exprimir o seu pesar. E, no entanto, mesmo vitimizadas, são as suas vozes que se sobrepõem no poema e denunciam uma trajetória descendente - de um cenário fictício, de uma sociedade em crise, de uma cultura em declínio. Apesar de não serem heroínas, o seu sacrifício parece estar intimamente relacionado à redenção desta terra infértil, e é este sofrimento que remete o leitor à figura feminina que introduz The Waste Land e, possivelmente, fala por todas aquelas que se seguem: a Sibila de Cumas.

SIBILA DE CUMAS: UM ELO UNIFICADOR?

É com as palavras de outra personagem feminina aprisionada que o poeta inicia The Waste Land: “For I myself once saw the Sibyl with my own eyes, at Cumae, hanging in a bottle; and when the children said to her, ‘Sibyl, what do you want?’ she replied, ‘I want to die.’” (Bacon, 1958, p. 262). Retirada do Satiricon de Petrônio, a passagem faz referência à Sibila de Cumas narrada por Ovídio em Metamorfoses, onde é presenteada com a imortalidade por Apolo, mas, ao esquecer-se de pedir-lhe também a juventude, vê-se castigada pelo deus após recusar-lhe sua virgindade. Oráculo capaz de profetizar os destinos dos homens, a personagem se vê condenada ao envelhecimento contínuo até nada restar de si além de sua voz.

A Sibila de Eliot é convencionalmente vista como a representação de uma sociedade que perdeu seus valores; onde as artes morreram e os indivíduos não anseiam pelo conhecimento ou pela beleza; onde a falta de comunicação cria um senso de isolamento, e desejos não se satisfazem; há apenas degradação, e o tom de apatia e negação ecoa por todos os episódios de The Waste Land (Bacon, 1958). Penoso símbolo de memórias e desejos, ela renega o amor de um deus e se encontra suspensa entre a terra e o paraíso, ansiando pela morte. É, portanto, “a metaphor of the condition of all the characters in Eliot’s twentieth-century waste land, whether they want death as an escape from life, or as a way to new life” (Bacon, 1958, p. 262).

Fio que interliga as figuras femininas, o seu sofrimento se replica na sequência de seduções, estupros e frustrações do poema. Indo além, Hay (1982) sugere uma possível analogia entre a Sibila e Tirésias, uma personagem de corpo decrépito - “I Tiresias, old man with wrinkled dugs” (Eliot, 1999, III.228) - e traços femininos - “Old man with wrinkled female breasts” (Eliot, 1999, III.219) -, mas também fadada a saber demais sobre todas as coisas. Autores como Ahlawat apontam que, oscilando entre os dois gêneros (ou duas vidas) - “throbbing between two lives” (Eliot, 1999, III.218) -, Tirésias evoca a agonia da Sibila, que, assim como o poema, existe num estado liminar entre “dois mundos”, entre passado e presente (Ahlawat, 2021, p. 32), sem a perspectiva de um fim próximo. Para Hay, a Sibila e Tirésias reverberam uma mensagem de intenso desalento e desespero e, juntos, oferecem uma clara negação: “the examined life is not worth living” (Hay, 1982, p. 52).

E assim Eliot povoa a sua terra devastada com mulheres - tradicionalmente associadas à fertilidade - num espaço onde cadáveres se acumulam. Contudo, mais do que meramente representar a queda do homem ocidental e de um mundo “androcêntrico”, como sugerem Gilbert e Gubar (1988, p. 89), o que seria uma forma implícita de subestimar o papel da mulher, o autor coloca em destaque uma variedade de figuras femininas com vozes e histórias próprias. Ainda que, de acordo com Brooker e Bentley (1990), The Waste Land se resuma a um conjunto de significados que coexistem sem, contudo, formar uma mensagem única e pura, a perda, o declínio e a morte são aspectos que permeiam diferentes momentos do poema e podem ser simbolizados pelas mulheres nele retratadas. Aprisionadas em suas jaulas, talvez sejam elas também representantes da prisão existencial em que estava inserido o homem moderno após a ruína da Primeira Guerra Mundial e à qual possivelmente alude o poeta na seção final: “We think of the key, each in his prison / Thinking of the key, each confirms a prison” (Eliot, 1999, V.414-415).

Com The Waste Land, T. S. Eliot certamente parece estar distante da “escrita feminina” proposta por autoras feministas consagradas como Hélène Cixous (1976, p. 875). Contudo, é relevante destacar que, naquele que é considerado um dos principais poemas do século XX, da “armadilha do silêncio” (Cixous, 1976, p. 881) desponta um coro de vozes femininas que, mesmo nas profundezas do seu sofrimento, revela ao leitor uma multiplicidade de perspectivas e realidades a serem exploradas.

CONCLUSÃO

Mais de cem anos após a data de sua publicação, o que resta claro é que The Waste Land continua a incitar discussões acirradas e a desafiar seus leitores a encontrar novas formas de decifrar os seus enigmas. Com o florescer dos estudos feministas, as opiniões se dividiram no que diz respeito à representação das personagens femininas em T. S. Eliot, que continua a ser elevado por sua genialidade ou criticado por sua misoginia em igual medida. Especialmente a partir dos anos 1990, por influência dos estudos de gênero e da teoria queer, novas abordagens se disseminaram com base em aspectos como raça, classe e sexualidade masculina, levando estudiosos contemporâneos a identificar em Eliot uma figura complexa cuja obra ganha novas ramificações sob o prisma da dinâmica de gêneros.

Ainda que a crítica feminista tenha tradicionalmente apontado uma tendência em The Waste Land de categorizar mulheres como criaturas dignas de pena, desprezo ou condescendência, seria possível interpretar a violência que circunda as personagens femininas do poeta não como exemplos de uma manifesta misoginia, mas como a justificada representação de aspectos subjacentes a todo o poema. Logo, não seria o caso de afirmar que o autor incita atitudes misóginas, mas, pelo contrário, convida o leitor a questioná-las - individualmente e em sociedade. Em vez de reforçar estruturas patriarcais, o sofrimento seria validado pela relevância dessas personagens enquanto porta-vozes dos temas que permeiam o cenário inóspito de The Waste Land.

Interpretações feministas continuam a ser pertinentes e profícuas na medida em que promovem o exame cuidadoso e crítico de uma obra que mantém sua relevância e continua a repercutir no cenário da literatura contemporânea. No caso de The Waste Land, é possível postular a favor de um retrato feminino multifacetado, que engloba sofrimento e passividade, mas que também traz em si as sementes da renovação: a possibilidade de gerar novas estruturas de interpretação, criar novos retratos, imaginar novos horizontes para essa Terra Devastada que ainda revela tanto a explorar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Nota

1Todas as citações de The Waste Land em língua original e no português foram retiradas da obra Eliot (1999).

Recebido: 31 de Julho de 2023; Aceito: 21 de Junho de 2024

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