A história de Maria Leonor Ribeiro da Fonseca Calixto Machado de Sousa começa a 11 de Novembro de 1932, em Lisboa. É uma das netas de Maria Lamas. Comungavam da coragem, sentida por quem as conhecia - o que desde logo seria de família, ou então construída ao longo de uma vida de trabalho público e muito destacado profissionalmente.
“Quando eu nasci, a minha avó tinha 39 anos. Fui a primeira neta, e penso que ela logo de início transferiu para mim muitos dos seus sonhos de alguma coisa que em 1932 era ainda vedado às mulheres, a possibilidade de uma educação aberta, de uma carreira profissional, de uma liberdade que os preconceitos da época não aceitavam como próprios de uma mulher” (Machado de Sousa, 2002, p. XIII). É assim que começa o texto de Maria Leonor, no livro que a editorial Caminho lançou em 2002, com aquela que seria a reportagem mais “emblemática” alguma vez realizada em Portugal e monumental marco do jornalismo e da literatura portuguesa do século XX: As Mulheres do Meu País.
Fazer-lhe o retrato está para a sua biografia como uma das figuras estudadas por Maria Leonor está para a história da literatura portuguesa, e mesmo para além dela. Falamos de Camões, de Inês de Castro, de D. Sebastião, entre outros vultos.
O primeiro grande salto no tempo. Eis que vamos apanhá-la na cerimónia de jubilação, corria o ano de 2002, exactamente no dia dos seus anos, rodeada pela família. Belo aniversário esse, passado no Palácio Rosa, sede da Academia Portuguesa de História, da qual era membro. Como no poema camoniano, “Chove nela graça tanta,/ que dá graça à formosura./ Vai formosa e não segura”. O poeta não conheceu Maria Leonor, senão veria que ela não tinha medo de nada. ‘Segura’ podia ser o seu segundo nome, fosse por herança familiar fosse por construção social e cultural.
Considerada uma autoridade científica ao longo da sua carreira universitária, dedicada ao ensino e à investigação, Maria Leonor começou por estudar numa universidade e desenvolver toda a vida académica numa outra. Não é mistério para ninguém que se licenciou em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa (Julho de 1954) e ingressou no corpo docente da Universidade Nova de Lisboa (UNL) em Fevereiro de 1974.
A Literatura ‘Negra’ ou de ‘Terror’ em Portugal (Séculos XVIII e XIX) é o seu primeiro livro, que corresponde à sua tese de licenciatura, publicada em 1956, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Se pudéssemos vestir-lhe um género (uma categoria de moda), como se faz com uma personagem, seria uma gótica em intersecção com o steam punk inspirado no século XIX. Anos depois esta obra foi revista e aumentada. A professora doutora Maria Leonor Machado de Sousa desenvolveu ao longo do seu percurso vários trabalhos sobre o gótico, não só na nossa literatura, como na inglesa e norte-americana. O seu curriculum é extraordinário. Fez o doutoramento em Ciências Literárias (Literatura e Cultura Anglo-Portuguesa) na Universidade Nova de Lisboa, com louvor e distinção (1977). Concorreu para Professora Extraordinária de Literatura Inglesa na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas em Junho de 1979, tendo sido aprovada por unanimidade. Em Dezembro do mesmo ano, passou a Professora Catedrática, com nomeação definitiva em 1982.
Encontramos assim Maria Leonor na origem dos primeiros cursos de Estudos Ingleses, tanto de graduação como de pós-graduação, abertos no final da década de 1970 na UNL, sendo a primeira mulher a exercer uma cátedra de Estudos Ingleses em Portugal. No campo das actividades docentes, leccionou as disciplinas de Problemas da Cultura Portuguesa (séculos XVIII e XIX), Literatura Portuguesa (século XIX), Cultura Inglesa, Literatura Inglesa I (séculos XVIII e XIX) e o Seminário de Estudos Anglo-Portugueses (no mestrado com o mesmo nome), pelo qual Maria Leonor Machado de Sousa foi responsável desde a sua criação, em 1981, até 1989. Entre 1980 e 1984, esteve à frente da Linha de Acção de Estudos Anglo-Portugueses do Centro de Estudos Comparados, da qual foi presidente, e de onde resultou a actual unidade de investigação CETAPS (Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies). Foi ainda directora da Revista de Estudos Anglo-portugueses, a partir de 1990, data da sua criação, publicação indexada na Scopus.
No livro de homenagem a Maria Leonor Machado de Sousa, Estudos Anglo-Portugueses, com organização de Carlos Ceia, Isabel Lousada e Maria João da Rocha Afonso (Ceia et al., 2003), há uma primeira parte toda ela tecida e dedicada a Maria Leonor por quatro autores/as. Teresa Pinto Coelho assina um dos quatro textos, intitulado “Maria Leonor Machado de Sousa e os Estudos Anglo-Portugueses: tradição e inovação”, onde Maria Leonor é referida como a grande impulsionadora do estudo de temas portugueses na literatura inglesa como Inês Castro, D. Sebastião e Camões.
Como estudiosa e apreciadora de histórias de terror, gostava desse lado emocionante e negro da vida. Era muitíssimo culta, mas sem ser distante e tinha conversava com toda a gente. E depois, tinha aquele ar imponente, mas era muitíssimo divertida. Familiarmente, é o que se recorda mais dela. Era uma pessoa sempre muito bem vestida, com ar muito senhorial, mas de convivência muito leve. Passavam-se horas na conversa com Maria Leonor. Sociável, gostava de trocar ideias. E sabia ouvir os outros, ouvia com atenção. A centralidade que a literatura ocupava na sua vida nem sempre se instalava com a família à mesa das refeições. Quer dizer, podia-se falar de literatura, se viesse à baila, mas também de telenovelas, de que era apreciadora. Era uma mulher imensamente culta e muito curiosa, interessante e interessada, sabia muito sobre muitas coisas.
Ainda no livro de homenagem, Justino Mendes de Almeida, em “Maria Leonor Machado de Sousa, estudiosa de Camões”, fala das páginas que ela dedicou às “heroínas paralelas”’ - mas quem seriam as heroínas da Maria Leonor? As de carne e osso. A sua maior heroína era a avó, Maria Lamas, por quem tinha uma admiração enorme. Muita coisa, avó e neta, teriam em comum: se metiam qualquer coisa na cabeça, faziam.
Muito adorada dentro da família - ajudando muito familiares suas -, a nossa retratada era uma pessoa moralmente conservadora, a favor do casamento pela Igreja e para a vida; mas, por outro lado, tinha uma mente aberta. Os outros podiam fazer o que quisessem.
Primeira vice-reitora da Universidade Aberta (1988), foi também a primeira mulher a presidir à Biblioteca Nacional de Portugal, entre 1990 e 1996. Fez parte de variadíssimas associações, com cargos diversos, convidada de tantas conferências, participando igualmente em muitos júris (mestrado, doutoramento, agregação). Depois daquela obra inaugural sobre a literatura negra em Portugal, seguiram-se tantas outras, entre as quais salientamos: The Ghost. Edição anotada (1976); O Horror na Literatura Portuguesa (1979); Fernando Pessoa e a Literatura de Ficção (1979); D. Inês e D. Sebastião na Literatura Inglesa (1980); Inês de Castro na Literatura Portuguesa (1984); Mito e Criação Literária (1985); Inês de Castro. Um tema português na Europa (1987).
Dos inúmeros artigos e participações em conferências e comunicações no após 1979, encontramo-la na apresentação de vários catálogos de exposições levadas a cabo na Biblioteca Nacional, como A Moda em Portugal através da Imprensa 1807-1991 ou Maria Lamas, 1893-1993, onde lemos escrito pela sua pena:
Maria Lamas teve ideais e lutou por eles. Na vida como na obra, procurou sempre transmitir a verdade vista ou vivida, pensando que ao apontar uma realidade negativa, conseguiria despertar nos outros os sentimentos de solidariedade que sempre presidiram à sua actuação. A vida, a escrita e a política, tudo foram meios para denunciar injustiças e tentar repará-las, servindo um esforço a cuja violência nunca procurou fugir e da qual nunca se queixou. Foi nesta atitude que eu, a sua neta mais velha, me habituei a vê-la desde que me contava histórias, através do percurso longo que felizmente foi a sua vida. (…) A exposição que o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro agora apresenta, na linha de várias outras comemorativas de efemérides semelhantes, procura transmitir um pouco daquilo que foi Maria Lamas, na vida e na actividade profissional: acima de tudo, e como ela gostava que a vissem, uma lutadora. (Machado de Sousa, 1993, p. 9)
Maria Leonor teve dois desgostos tremendos na vida, pois perdeu dois filhos já adultos. Mesmo quando foi abalada pela doença, reagiu a tudo com uma coragem e uma serenidade que são mencionadas por quem a conheceu. Era aquilo a que hoje se chama uma mulher de contrastes. Em Julho de 2020 chegava às livrarias uma nova edição de Inês de Castro, actualizada com novas investigações e ainda com recuperação de obras inesianas desconhecidas. A nossa heroína, Maria Leonor, depois de dar muita luta à doença, despediu-se num final de Verão, com a sua missão cumprida: trabalhar na defesa e incentivo dos estudos anglo-portugueses e dos estudos camonianos, passando o testemunho a discípulos/as. Ser uma boa antepassada, enfim. Todos/as lhe agradecemos por isso.
Corria o mês de Maio de 2021 quando Maria Leonor Machado de Sousa, professora emérita da NOVA FCSH, foi condecorada pela Rainha de Inglaterra com a Excelentíssima Ordem do Império Britânico2 (MBE, Member of the Most Excellent Order of the British Empire, distinção estabelecida em 1917 pelo rei Jorge V, que autoriza o uso do título a seguir ao nome), em homenagem ao seu prestigiado contributo para as artes e ciências. No mês de Setembro de 2021, a NOVA FCSH comunicava o falecimento da sua professora catedrática jubilada Maria Leonor Machado de Sousa3. No ano seguinte, a Revista de Estudos Anglo-Portugueses (n.º 31) foi dedicada à sua memória4.















