De todas as exposições de “arte moderna”, apresentadas pelo SPN esta é, sem dúvida, a melhor (…) Regina Santos, surge como uma promessa. (Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), 1941, p. 4)
No dia 30 de Dezembro de 1940, foi inaugurada a 5.ª Exposição de Arte Moderna no estúdio do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) em Lisboa. Mais uma “feliz iniciativa” de António Ferro, director do Secretariado desde 1933, que a crítica fez questão de enaltecer. Carlos Botelho, Regina Santos ou Ofélia Marques foram alguns dos artistas que expuseram no certame (SPN, 1940). À excepção de Ofélia Marques, todos marcaram presença na edição anterior (SPN, 1939). Regina apresentou ao todo - nas duas mostras - três pinturas a óleo, que não passaram despercebidas pela crítica. Para o matutino Diário de Notícias, a artista expôs “boa pintura” na 4.ª Exposição, merecedora de atenta observação e análise (Diário de Notícias, 1939, p. 4). Mas foram as obras exibidas em 1940 que mais impressionaram. Sobretudo Paisagem, “obra de primeira qualidade” (SPN, 1940, p. 2), que revelou uma pintora que se manifestava uma autêntica “promessa” (Diário de Lisboa, 1941, p. 4).
De facto, é preciso recuar no tempo para encontrarmos referências sobre a actividade e produção artística de Regina Santos, já que, na crítica recente, impera o silêncio. Os ínfimos apontamentos alusivos à sua vida e obra podem ser lidos, na maior parte dos casos, em notas de rodapé. E quem foi Regina Santos? (Figura 1) Artista apontada como uma promessa no panorama artístico nacional remetida ao esquecimento?
Regina Alice Santos de Jesus nasceu no dia 25 de Junho de 1904 na freguesia de Santa Justa, em Lisboa. Filha de Francisco César de Jesus, trabalhador no sector terciário, e de Bertha Santos de Jesus, ambos naturais da capital portuguesa1. Provavelmente oriunda de uma família com uma condição social e económica favorável, Regina concluiu a instrução primária em 19142, ano em que o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) - de que fará parte - foi fundado. De acordo com João Esteves (2005a), Regina Santos filiou-se no Conselho no ano de 1923. Desempenhou as funções de vogal da Comissão Directora da “Liga da Bondade” e integrou, nos dois anos seguintes, a Assembleia Geral da agremiação (Esteves, 2005a, p. 831). Na década de 1940, mais precisamente entre 1945 e 1947, esteve presente em quatro reuniões do Conselho, cruzando-se com um nome seu conhecido da cena artística: a pintora Maria Clementina Carneiro de Moura. Em 1947, as duas artistas participaram na Exposição de livros escritos por mulheres, organizada pelo CNMP (CNMP, 1947). Foram as autoras - juntamente com mais duas artistas - dos Retratos das muitas escritoras representadas. O certame esteve patente na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) em Lisboa ao longo de todo o mês de Janeiro. Foi o último evento organizado pelo Conselho. Poucos meses depois da exposição, as portas foram encerradas por ordem do regime salazarista (Costa, 2007, pp. 219-276). Com efeito, dos anos 1920 até praticamente ao final da década de 1940, Regina Santos unira a sua voz e força à de tantas outras mulheres - a grande maioria burguesas ou da classe média, republicanas, com profissões liberais - em defesa da melhoria da situação da mulher portuguesa. Preocupações várias nos planos profissional, legal ou social: desde a desigualdade salarial à elevada taxa de analfabetismo feminino e à garantia, de uma forma geral, da harmonia e do bem-estar da mulher e da criança (Esteves, 2005b, pp. 243-244).
Para além das causas sociais, como já referido, Regina dedicou-se às artes, em particular à pintura e ao desenho. Anos depois do primeiro contacto com o Conselho, concretamente em 1931, inscreveu-se no Curso de Pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa3. Foi aluna de Veloso Salgado e colega de Estrela Faria4. Entre 1933 e 1935, participou nos Concursos da Academia Nacional de Belas Artes para a atribuição do Prémio Lupi5. Foi galardoada com o Prémio de Pintura em 1935, ano em que também concluiu o curso6. A estreia na cena artística deu-se no ano seguinte, em 1936, na 33.ª Exposição Anual de Pintura na SNBA (Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), 1936b). Apresentou dois óleos: Pintura e Retrato. Sobre Retrato o Diário de Notícias escreveu: “O Retrato que firma é gracioso e aliciante. E bonito” (1936, p. 6). Nesse ano participou ainda na 2.ª Exposição de Arte Moderna, onde expôs três pinturas a óleo (SNBA, 1936a). Entre 1938 e 1939, Regina participou na II Missão estética de férias, organizada pela Academia Nacional de Belas Artes de Lisboa (SNBA, 1938), na 4.ª Exposição de Arte Moderna e na 36.ª Exposição Anual da SNBA (SNBA, 1939). Em 1939, para além da pintura a óleo apresentada na 4.ª Exposição de Arte Moderna, como já foi sublinhado, Regina expôs um desenho - Cabeça (estudo) - no Salão Anual de Pintura da SNBA. Em 1940, foi um dos vários artistas convidados a participar na Exposição do Mundo Português. Nas palavras de José-Augusto França, no total “doze arquitectos, dezanove escultores e quarenta e três pintores operaram na exposição” (França, 2009, p. 153). Até meados da década de 1950, a pintora marcou presença em aproximadamente uma dezena de certames e concebeu ilustrações para algumas publicações periódicas como a Atlântico: revista luso-brasileira7. A destacar a participação na 1.ª Exposição Geral de Artes Plásticas (SNBA, 1946), organizada anonimamente por uma unidade antifascista, o Movimento de Unidade Democrática, e a participação na mostra 14 Anos de Política do Espírito (Ribeiro, 1948). Em 1955, marcou presença na Exposição Iconográfica das Pescas em Lisboa, no âmbito do IV Congresso Nacional de Pesca (Instituto Superior Técnico (IST), 1955). Sobre a participação de Regina Santos na Exposição Geral de 1946, Jorge de Sena escreveu:
Desnecessário se torna pôr em relevo a importância desta Exposição Geral de Artes Plásticas (…) outra receita, essa muito popular entre os modernos, é bem documentada pela alegoria - Ciclo - de Regina Santos (…). Sabe-se o mal que aos artistas, principalmente aos modernos, tem feito a sua inevitável actividade de ilustradores avultosos. E o talento de Regina Santos pode, nesta exposição, verificar-se no desenho aguarelado, Portinho, uma das melhores peças da secção “Desenho, etc.”, pelo equilíbrio espacial e tonal da composição. (Sena, 1946, p. 8)
Regina Santos apresentou uma pintura a óleo intitulada Ciclo e o desenho Portinho, destacado por Jorge de Sena. Na pintura a óleo assinada e datada de 19468, a artista representa uma paisagem marítima. Reconhece-se uma perspectiva interessante do porto de Peniche. As embarcações, de tamanhos vários e dispostas sem ordem aparente, estão em grande número. As pinceladas são regulares e sistemáticas e, à excepção do azul do mar, de intensidade de cor variada, sendo porém os tons neutros que predominam na composição. A sublinhar dois elementos característicos desta cidade representados - não integralmente - neste cenário marítimo: a Fortaleza de Peniche e, ao fundo, a Igreja de São Pedro, construída no final do século XVI. Terá sido esta obra exposta na Exposição Geral de 1946? Sabe-se que foi apresentada em 1951 - com o título Porto de Pesca - na II Exposição Comemorativa do Cinquentenário da Fundação da SNBA (SNBA, 1951) e em 1955 na mostra, já referida, no Instituto Superior Técnico. Em 1956, Regina foi uma das artistas representadas no certame 30 anos de cultura portuguesa 1926-1956 (Secretaria Nacional de Informação (SNI), 1956). Foi a última vez que marcou presença numa exposição. Nunca expôs individualmente.
Ao longo da década de 1950, até ao final da seguinte, Regina Santos foi professora do ensino técnico e comercial. Como Clementina Carneiro de Moura, exerceu a docência em algumas escolas da capital como a Escola Industrial Josefa de Óbidos (Diário de Notícias, 1969, p. 10). Nos anos 1960, foi condecorada com o grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública9. Faleceu no dia 11 1956 de Maio de 1969, vítima de doença. Tinha 64 anos10. O Diário de Notícias noticiou a sua partida, sem fazer qualquer referência à actividade artística. Foram três décadas dedicadas à pintura e ao desenho, com especial enfoque na Pintura de Paisagem11. Praticou outros temas como o Retrato.
Regina Santos também dedicou largos anos da sua vida à luta pelos direitos das mulheres, à justiça social e, enquanto professora, a ensinar os outros. Revelam-se neste breve Retrato, e pela primeira vez, vários elementos que ajudam a compreender melhor o seu percurso. Principalmente o percurso artístico. Um trabalho a que se pretende dar continuidade.















