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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.52 Lisboa dez. 2024  Epub 27-Maio-2025

https://doi.org/10.34619/8vr3-q5gc 

Recensões

Bento, A., Barata, F., Pinto. H., Ortiz, P., & Cunha, S. M. (Coord.) (2024). 50 anos de Abril. 5 anos FEM. Causas. Resistências. Conquistas Feministas. Feministas em Movimento (82 pp.)

iUniversidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, 1070-312 Lisboa, Portugal. Email: anaribeiro@campus.fcsh.unl.pt


50 testemunhos de resistência e memória, de conquistas alcançadas e dos desafios que a luta feminista ainda enfrenta (Bento et al., 2024, p. 9)

Esta coletânea, organizada e publicada pela associação FEM - Feministas em Movimento, celebra o meio século de democracia em Portugal e o quinto aniversário da organização, fundada em 2019, dedicada à promoção da igualdade de género e dos direitos das mulheres. Simbolicamente, reúne cerca de cinquenta autoras e cinquenta contributos, que incluem memórias, textos biográficos, ilustrações, poemas, letras de canções, apresentações de livros e peças de teatro. A diversidade não se limita aos formatos e conteúdos que revelam tanto o quotidiano doméstico de mulheres anónimas, como as ações daquelas que se destacaram na esfera pública, desde as históricas às contemporâneas. Reflete também a pluralidade das autoras, nascidas antes e depois do 25 de Abril, em distintos contextos económico-sociais, com várias nacionalidades, profissões e vivências. Esses diferentes fios entrelaçados dão forma e cor à temática ‘Causas. Resistências. Conquistas Feministas’, situada no contexto de transição para a democracia e alinhada com a crescente tendência internacional de valorizar a dimensão de género nos processos sociais e políticos fundacionais (Monteiro et al., 2024).

O livro é dividido entre os contributos dedicados à FEM e aqueles apresentados pelas diversas autoras (em nome individual ou pertencentes a coletivos), os quais são acompanhados de uma breve nota biográfica. A ilustração da capa é de Marta Nunes.

Para descrever a criação da associação e ilustrar o seu percurso, os dois textos iniciais - “Prefácio” e “Cinco anos de vida: Parabéns FEM!” -, juntamente com as fotos de algumas das ações em que as/os associadas/os estiveram envolvidas/os, são complementados pelos quatro textos que encerram a coletânea e que apresentam alguns dos projetos da associação: “BIBLIOFEM”, “Campanha ‘Não é não’“, “Empoderamente” e “Lisboa + Igualdade: Atendimento e Prevenção da Violência Doméstica e de Género - Um Percurso de Apoio”.

A FEM surge do cruzamento entre “academia e ativismos” (Bento et al., 2024, p. 11), com o objetivo de “acrescer, um pouco mais, na luta que há muito se trava rumo à igualdade” (Bento et al., 2024, p. 11). Embora recém-criada, viu-se diante da necessidade de responder rapidamente aos desafios exponenciais enfrentados pelas mulheres durante a pandemia. Esta situação impulsionou a sua atuação e ampliou o impacto da associação, por exemplo, com o “Estudo sobre as Consequências da Crise Pandémica na Vida das Mulheres Professoras” (Bento et al., 2024, p. 12) ou através da resposta direta ao recrudescimento da violência, especialmente no espaço doméstico, facilitado pelo confinamento habitacional e o isolamento social. Os textos evidenciam que a atuação da FEM se concentra (mas não se limita) na Área Metropolitana de Lisboa, abrangendo não apenas ações diretas, mas também a realização de estudos e a formulação de propostas de políticas municipais e nacionais. Fica destacado que a associação tem privilegiado a participação em projetos e estudos em parceria com outras ONG - nacionais e internacionais - e ainda com autarquias, cooperativas, universidades e organismos públicos de âmbito municipal e nacional, como o Conselho Municipal para a Igualdade de Lisboa e a Comissão Nacional para a Cidadania e a Igualdade de Género.

Por sua vez, os contributos das autoras, caracterizados pela diversidade, como já mencionado, partem do legado da Revolução de Abril para oferecer uma análise crítica das experiências de mulheres de várias geografias, sistematicamente negligenciadas pela história oficial, incluindo aquelas que, sendo agentes e motores da História, têm sido apagadas da narrativa dominante (Beleza, 2012). Relatam vivências do quotidiano privado e anónimo, as consequências da fome - “no aniversário, era um ovo estrelado a dividir por quatro irmãos” (Bento et al., 2024, p. 18) -, do analfabetismo, da violência, da guerra, da emigração e das vidas à margem, como no caso das mulheres ciganas ou das refugiadas. Incluem também as experiências de mulheres que, atuando na esfera pública, foram invisibilizadas. Algumas dessas mulheres ousaram combater o fascismo na clandestinidade, como Helena Lopes da Silva (Bento et al., 2024, pp. 33-34) ou as “raparigas do Movimento de Unidade Democrática Juvenil” (Bento et al., 2024, p. 40), e denunciar a prisão e tortura a que foram submetidas, como Aurora Rodrigues (Bento et al., 2024, p. 22). É igualmente mencionada a projeção internacional de eventos e figuras, como o processo judicial das Três Marias, que, em 1974, “espoletou o primeiro movimento internacional de solidariedade feminista” (Bento et al., 2024, p. 32), não esquecendo o impacto da revolução feminista da juventude iraniana após a morte de Mahsa Amini, em 2020, “espancada pela polícia dos costumes porque trazia o véu mal colocado” (Bento et al., 2024, p. 39), ou o percurso da primeira-ministra portuguesa Maria de Lourdes Pintasilgo, reconhecida em instâncias internacionais mas amplamente desvalorizada em Portugal, cuja visão “ultrapassava os limites de um país pequeno” (Bento et al., 2024, p. 37). Alguns textos apresentam ainda uma reflexão prospectiva sobre os direitos das mulheres com o intuito de “semear futuro” (Bento et al., 2024, p. 30), por exemplo, “Uma mensagem às mulheres de 2074” (Bento et al., 2024, p. 51).

É interessante notar que essas narrativas, na sua singularidade, reverberam as vivências de tantas outras mulheres. Esta ideia de memória, mas também de homenagem coletiva, presente em vários contributos, é explorada em “Maria Lamas” (Bento et al., 2024, p. 36). A autora de A Mulher no Mundo (publicado em 1952) reflete sobre a responsabilidade sentida de representar todas as mulheres: “Era como se todas as mulheres que existiram, desde o aparecimento da espécie humana, estivessem presentes, em austera expectativa…” (Bento et al., 2024, p. 36).

Um dos pontos fortes desta coletânea é, assim, a diversidade de vozes, perspetivas e experiências, que, promovida pela FEM - Feministas em Movimento, confirma o compromisso da associação com uma luta feminista plural, intersecional e inclusiva, onde as mulheres se revelam não apenas testemunhas privilegiadas da história, mas protagonistas atuantes, responsáveis por impulsionar mudanças, apresentar soluções e reivindicar a sua posição de cidadãs de pleno direito nos processos sociais e políticos.

Referências

Beleza, T. P. (2012). Prefácio (Forward). In N. Monteiro (Ed.), Maria Veleda (1871-1955) - Uma professora feminista, republicana e livre-pensadora (pp. 11-17). Gente Singular Editora. [ Links ]

Bento, A., Barata, F., Pinto, H., Ortiz, P., & Cunha, S. M. (Coords.) (2024). 50 anos de Abril. 5 anos FEM. Causas. Resistências. Conquistas feministas. Feministas em Movimento. [ Links ]

Monteiro, R., Biroli, F., & Alcañiz, M. (2024). Introdução. Transições democráticas, direitos das mulheres e igualdade de género (Introduction. Democratic transitions, women’s rights, and gender equality). ex ӕquo, 50, 11-17. https://doi.org/10.22355/exaequo.2024.50.02 [ Links ]

Aceito: 12 de Fevereiro de 2025

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