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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885versão On-line ISSN 2975-884X

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.53 Lisboa jun. 2025  Epub 12-Jan-2026

https://doi.org/10.34619/edae-oqxe 

Nota de Abertura

Em memória... Uma rede transnacional que uniu as mulheres ibéricas e hispano-americanas

1 Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, História, Território e Comunidades/Centro de Ecologia Funcional (HTC/CFE). Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA). Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, 1070-312 Lisboa, Portugal. nati.monteiro@netcabo.pt


É com prazer sempre renovado que apresentamos mais um número da Revista Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, um projecto que continuamos a manter vivo e dinâmico, convencidas de que, na encruzilhada do tempo presente, é cada vez mais importante resgatar a memória das mulheres que, de alguma forma, contribuíram para o progresso social, político, científico e cultural das sociedades em que viveram e nos legaram um património de valores em que nos podemos rever e que devemos preservar. Cremos também ser urgente fazer uso das evidências científicas trazidas pelos Estudos sobre as Mulheres, Feministas e de Género para opor uma forte resistência à onda autoritária, apostada em suprimir direitos e agravar desigualdades.

Cada exemplar de Faces de Eva é devedor de muitas vontades, trabalho e dedicação. Agradecemos o contributo das coordenadoras e das investigadoras e investigadores que responderam ao nosso apelo para nos darem a conhecer a mexicana Elena Arizmendi (1884-1949) e as suas trajectórias como enfermeira, humanista, revolucionária e feminista, bem como das organizações feministas suas contemporâneas. Agradecimentos que são extensivos às autoras e autores dos estudos e dos textos que ilustram as várias secções da revista. Para o investigador Douglas C. Nance um agradecimento especial pela cedência da fotografia de Elena Arizmendi que ilustra a contracapa da Revista.

Elena Irene Arizmendi Mejia é a figura que homenageamos, pelo seu activismo social e político e pelo pioneirismo na criação de redes transnacionais que uniram as feministas dos países ibéricos e hispano-americanos. Um tema pouco estudado entre nós e que aqui revisitamos, ainda que brevemente, para que a sua memória continue viva. As pontes construídas entre as feministas dos dois lados do Atlântico criaram vínculos, permitiram a circulação de ideias, estimularam os debates intelectuais e políticos e incentivaram a participação pública e a intervenção em encontros nacionais e internacionais. Os artigos que compõem o dossiê desta Revista, traçam o perfil de uma mulher rebelde que rompeu com as normas de uma sociedade patriarcal e misógina e construiu um percurso de vida livre, independente e nada convencional para a sua época. Informam também sobre as redes feministas nacionais e internacionais que criou e a que pertenceu e os contextos sociais e políticos em que actuou.

Exilada nos EUA, fundou em 1915 a Revista Feminismo Internacional para dar voz às mulheres e unir as feministas latino-americanas. Ali conviveu com as figuras mais emblemáticas do feminismo anglo-saxónico e, após a sua participação na I Conferência Pan-americana de Mulheres, realizada em Baltimore em 1922, apercebeu-se das tensões entre os projectos feministas norte-americanos e os dos países do Sul e da necessidade de reconsiderar as especificidades das mulheres hispano-americanas e alinhar as suas propostas com as mulheres de países culturalmente mais próximos.

Nesse mesmo ano, fundou a Liga Internacional das Mujeres Ibéricas e Hispanoamericanas (LIGA), um projecto que tinha como objectivo “reunir la fuerza dispersa de figuras y organizaciones feministas de todos los países iberoamericanos” (Nuñes Rey, 2005, p. 539). A intenção era criar uma alternativa à hegemonia dos feminismos anglo-saxónicos que desvalorizavam os feminismos sul-americanos, apesar da sua diversidade e dinamismo, num tempo em que as mulheres participavam activamente nos debates sobre feminismo, sufragismo, nacionalismo e internacionalismo.

Em 1923, em parceria com Sofia Villa de Buentello (1892-1958), Arizmendi fundou também a Unión Cooperativa Mujeres de La Raza que, de certo modo, acabou por se fundir com a LIGA. Elena convidou a escritora feminista Carmen de Burgos (1867-1932), vulto incontornável da cultura espanhola, para a presidência da LIGA, ficando ela no lugar de secretária. A LIGA teve representações na maioria dos países da América Latina, inclusive no Brasil, cuja responsável era Avelina de Souza Salles, directora da Revista Feminina. Na Europa, havia representações em Espanha, França e Portugal. As fontes sobre a representação portuguesa são escassas, contudo atestam a sua existência, aliás confirmada pelos estudos de Ángeles Ezama Gil (2013a). A Cruzada das Mulheres Portuguesas foi a organização filiada na LIGA, tendo como presidente Elzira Dantas Machado (1865-1942) e, como secretária, Ana de Castro Osório (1872-1935). Em Espanha, a filiada na LIGA foi a Cruzada de Mujeres Españolas, fundada por Carmen de Burgos em 1920, por incentivo de Castro Osório. As duas mulheres estavam unidas por uma grande amizade e pelos ideais que professavam. Terá sido Carmen a convidar Ana e Elzira a juntarem-se à rede feminista da LIGA e das Mujeres de la Raza.

A partir de 1924, A Revista de la Raza acolheu a secção Feminismo Internacional, tornando-se a porta-voz da LIGA. Ana de Castro Osório publicou ali alguns artigos em que elogiava as qualidades colonizadoras dos povos ibéricos na América, com relevo para a obra dos portugueses no Brasil (Ezama Gil, 2013b). O último artigo foi dedicado ao livro de Carmen de Burgos La Mujer Moderna y sus Direchos. Ana visitou Carmen em Espanha, em 1920 e 1928, tendo sido apresentada às mulheres ilustradas da sociedade madrilena, sobretudo professoras e dirigentes feministas (Nuñes Rey, 2005, p. 488). Ana de Castro Osório foi a feminista portuguesa que mais contactos estabeleceu com as feministas da Europa, do Brasil e dos países hispano-americanos, tornando-se a figura mais presente neste movimento transnacional dos feminismos da primeira vaga. A sua escrita ultrapassou fronteiras, suscitou debates e partilhou ideais com uma comunidade feminista e literária transatlântica.

REFERÊNCIAS

Ezama Gil, A. (2013a). La Liga Internacional de Mujeres Ibéricas y Hispanoamericanas y la Cruzada das Mujeres Españolas de Carmen de Burgos. In M. Almela, M. G. Lorenzo, H. Guzmán & M. Sanfilippo (Coords.), Mujeres en la Frontera (pp. 53-82). UNED. [ Links ]

Ezama Gil, A. (2013b). Ana de Castro Osório, una mujer que traspasó fronteras: sobre unos textos olvidados en la española Revista de la Raza. Revista de Escritoras Ibéricas, 1, 101-128. https://doi.org/10.5944/rei.vol.1.2013.1152Links ]

Núñes Rey, C. (2005). Carmen de Burgos. Colombine en la Edad de Plata de la literatura española. Fundación José Manuel Lara. [ Links ]

Recebido: 02 de Setembro de 2025; Aceito: 04 de Setembro de 2025

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