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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885versão On-line ISSN 2975-884X

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.53 Lisboa jun. 2025  Epub 13-Jan-2026

https://doi.org/10.34619/9ojd-50jw 

Estudos

Entre os grãos da memória: a escrita diarística de Maria João Ruivo em Um punhado de areia nas mãos - Diário II

Between the grains of memory: The diaristic writing of Maria João Ruivo in Um punhado de areia nas mãos - Diário II

1 University of Wisconsin-Milwaukee, College of Letters and Sciences, Spanish and Portuguese Department. Milwaukee, Wisconsin 53211, USA, antunes@uwm.edu


Resumo:

Um punhado de areia nas mãos - Diário II, de Maria João Ruivo, é uma obra que explora a memória, o tempo e a subjetividade humana por meio de uma escrita fragmentada, reflexiva e intimista. A metáfora da areia representa a fragilidade e a transitoriedade das experiências, destacando também a capacidade de preservar memórias e construir sentido a partir do efémero. Essa conceção dialoga com a abordagem calviniana da coleção como tentativa de reter o que escapa e cristalizar vivências, assim como com Pierre Pachet, para quem o diário inscreve o instante e o comum na literatura, conferindo-lhes densidade afetiva e valor narrativo.

Palavras-chave: Escrita diarística; memória; fragmentação; transitoriedade; Maria João Ruivo.

Abstract:

Um punhado de areia nas mãos - Diário II by Maria João Ruivo is a diaristic work that explores memory, time, and subjectivity through a fragmented, reflective, and intimate style. The metaphor of sand represents the fragility and transience of experience, while highlighting the ability to preserve memories and construct meaning from the ephemeral. This conception resonates with Calvino’s notion of collection as an attempt to retain what escapes and crystallize moments, as well as with Pierre Pachet’s view of the diary as a way of inscribing the instant and the everyday into literature, granting them emotional depth and narrative value.

Keywords: Diaristic writing; memory; fragmentation; transience; Maria João Ruivo.

Andam faunos pelos bosques da minha sensibilidade, laicizada pela vontade de participar, sem superstições, no banquete único desta vida que é a minha.

Fernando Aires1

1. Introdução

Dedicado aos seus pais, Maria João Ruivo publicou Um Punhado de Areia nas Mãos em 2017, livro em registo diarístico que se apresenta cronologicamente dividido em dois períodos - o primeiro, de 1996 a 2009 e o segundo, de 2010 a 2016. O segundo diário, intitulado Um Punhado de Areia nas Mãos - Diário II, circunscreve-se ao período de 2016 a 2022, perfazendo os dois volumes publicados um itinerário de 13 anos de escrita diarística. Neste artigo, focar-me-ei no Diário II, publicado em 2022.

O presente trabalho propõe uma abordagem à escrita diarística de Maria João Ruivo tendo em conta a presença da metáfora da areia para evocar a fragmentação da memória e a efemeridade do tempo. A areia, como um elemento natural e perecível, coadjuva não só a simbologia da transitoriedade das experiências, mas também a possibilidade de acumular e armazenar memórias, as quais surgem na narrativa de forma delicada e quase intangível. Ao longo do diário, Maria João Ruivo constrói uma cartografia de emoções memorialísticas, onde cada grão das suas anotações forma um todo coeso, mas ao mesmo tempo fragmentado.

A análise proposta procura ainda refletir sobre a natureza da escrita diarística como forma de resistência ao esquecimento, permitindo, ao mesmo tempo, uma conexão com o momento presente retratado na edificação paralela de um espaço onde a reflexão é, simultaneamente, pessoal e universal, enformada pela busca incessante de compreensão na imensidão controversa da linha do tempo. O livro, que se configura como um diário íntimo, oferece ao leitor uma visão aprofundada da autora, não apenas como escritora, mas como a mulher que reflete constantemente sobre as suas experiências, transitando por entre quotidianos e vivências, transitoriedades e permanências assistidas por emoções entrecortadas pelas memórias. Através da metáfora da areia, Maria João Ruivo constrói uma narrativa fragmentada e reflexiva em que a memória é vista não apenas como um registo fixo, mas também como um processo dinâmico e efémero, oferecendo representações do tempo que se desviam da linearidade pré-concebida para criar cartografias de memórias pessoais e coletivas. Ao explorar a escrita como um meio de resistência ao esquecimento, a autora transforma cada grão da sua vida num ponto de reflexão e inflexão que, por sua vez, se reconstrói na preservação da identidade. A relação entre a escrita diarística e a construção da memória em Maria João Ruivo conduz-nos à procura da permanência no efémero e à renovação das experiências através do movimento da palavra escrita em constante desassossego.

A epígrafe de Fernando Aires (1928-2010), que evoca imagens de liberdade, introspeção e celebração da existência, dialoga intimamente com o livro de Maria João Ruivo - filha do autor. Fernando Aires escreveu cinco volumes de diários reunidos em Era Uma Vez o Tempo. Diário (1982-2010), publicado em 2015 sob a coordenação de Maria João Ruivo. No prefácio, Eugénio Lisboa, 2015 afirma:

[Era Uma Vez o Tempo é] um convite irresistível: façamos como o autor deste diário singularmente belo - ouçamos a música subtil das palavras, escutemos os acontecimentos (ou nem tanto) desse presente que hoje é passado, reflictamos sobre o canto profundo que se esconde em passagens, às vezes, na aparência, tão anódinas… No silêncio, a sós connosco, habitemos aquele mundo rico, cheio de murmúrios, pensamentos, emoções - que foi o mundo do diário de Fernando Aires. (Lisboa, 2015, p. 15)

Entendido como uma tentativa de organização e objetivação do registo, o diário reveste-se do movimento textual que se amplia e se redimensiona, podendo assumir-se também como uma autobiografia. Conforme afirma José Leon Machado, o diário é “por excelência a forma de um homem se dizer, se confessar” (Machado, 2015, p. 756), acompanhando os registos do quotidiano nos quais se incluem a reflexão memorialística e a emoção, como afirma Rosa Maria Goulart a propósito de Diário II: “Se tivesse de resumir em duas palavras as linhas de força deste diário, diria ‘memória’ e ‘emoção’” (Goulart, 2022, p. 9).

Confessando-se renitente quanto à possibilidade de publicar os seus diários, Maria João Ruivo partilha com os leitores as suas inquietações quando recebeu um telefonema da editora a confirmar:

Vão publicar o meu livro. Lá irei para acertar os pormenores. Quando desliguei, senti uma espécie de pânico. Um monte de dúvidas assaltou-me. Valeria alguma coisa este meu livrito urdido durante tanto tempo? Publicar é uma enorme responsabilidade. Não podemos, depois, voltar atrás. (…)

Todavia não nego que senti uma enorme felicidade. E uma grande dor, por não poder partilhar esta notícia com o meu Pai. (Ruivo, 2022, pp. 28-29)

Penetrar no mundo da escrita de Maria João Ruivo é participar na dimensão espácio-temporal da reflexão e da análise contínuas, num projeto aberto ao desafio da interpretação, da emoção e da reflexão sugeridas pelo próprio título, no qual o movimento da palavra se insinua na imagem do punhado de areia encerrado nas suas mãos - deslocação que transforma a escrita em poética-diarística, como sugere Anabela Almeida: “É poesia o que nos chega através das páginas deste Diário que ficará inscrito no que de melhor, no feminino, se tem feito no género, em língua portuguesa” (Almeida, 2023, p. 19).

2. O movimento da palavra entre mãos

De entre as várias simbologias atribuídas à mão, destaca-se a que simboliza o “esforço da concentração espiritual” e o “livre desenvolvimento da experiência interior dentro de um microcosmo que escapa ao condicionamento espacial e temporal” (Chevalier & Gheerbrant, 1982, p. 589), uma imagem que permite pensar a escrita de Maria João Ruivo como um processo que revela a palavra em constante deslocação - palavras entre mãos, instáveis, transitórias, moldadas pelas oscilações do pensamento, da memória pendular e das impressões do instante. Esta dinâmica torna-se evidente na forma como a autora articula as suas memórias e reflexões, uma vez que, em cada entrada do diário, projeta fragmentos de si, instantes que se consolidam apenas para logo se esvanecerem. Nessa fluidez, o gesto de escrever revela-se uma tentativa de capturar o que está sempre em trânsito - memórias que se reconstroem, ideias e afetos que se transformam e se dissipam sob o domínio implacável da voracidade do tempo imposta por Cronos. Escrever é, para Maria João Ruivo, o movimento incessante da procura que se equilibra na brevidade do instante, como afirma na primeira entrada de Diário II, datada de 28 de maio de 2016:

Penso muitas vezes no porquê de regressar a este registo. Se a escrita assim, marcada pelo tempo que é meu, valerá a pena. Às vezes acho que as palavras estão gastas. Refiro-me àquelas que são minhas e que uso para me contar. Mas as palavras fascinam-me. Ir em busca delas. Trocar uma por outra, ouvir-lhes os ritmos, as sonâncias, os segredos e os mistérios que encerram é o que me traz aqui uma e outra vez.

Depois de alguns períodos de abandono, sinto um apelo e regresso, tentando ser fiel a mim própria neste pacto que fiz com a realidade dos meus dias. E a escrita torna-se, então, a minha procura de uma qualquer eternidade. Porque não quero estiolar como aquela árvore que vejo ali ao fundo (…).

Hoje é por isso que escrevo. Porque olhei para aquela árvore e vi-a numa agonia lenta e dolorosa. (Ruivo, 2022, p. 13)

A mão que escreve é também aquela que molda o pensamento. Como um escultor que manipula a argila, Maria João Ruivo manuseia as palavras, sabendo que nenhuma forma é definitiva. Esta conceção interage com a ideia de que a mão, enquanto símbolo do “livre desenvolvimento da experiência interior”, não busca a permanência, mas sim a consciência do efémero. Neste sentido, a escrita diarística de Maria João Ruivo atua como um gesto que reconhece a sua própria impermanência no acolhimento do que é provisório como parte essencial do processo criativo.

Ao oscilar entre a confissão e o silêncio, o diário cria territórios onde a palavra se inscreve em movimento, permitindo ao leitor aproximar-se do texto e, através desse encontro, recuperar vestígios de pensamentos que se formaram e se dissiparam como pegadas na areia. O diário de Maria João Ruivo não se oferece como um discurso fechado, mas sim como um espaço de e em trânsito, onde as palavras permanecem abertas ao eco e à reinterpretação:

Refletir é fundamental. O pensamento é aquilo que nos permite analisar o mundo - o nosso mundo interior e aquele que existe à nossa volta e do qual fazem parte os outros. E é muito importante que essa reflexão se faça acompanhar também dos afetos, porque é essa junção entre a capacidade de análise e a nossa sensibilidade que nos enriquece, que nos permite conhecermo-nos por dentro o melhor possível e, ao mesmo tempo, perspetivar o outro e compreendê-lo na sua grandeza e também nas suas fragilidades, porque é disso que é feita a nossa mais genuína humanidade - de forças e de fraquezas, de tentações e redenções, de quedas e da possibilidade de nos reerguermos. Por isso é tão importante sermos capazes de parar para pensar. Sobre nós, o outro e as infinitas possibilidades que a vida nos vai colocando no caminho. (Ruivo, 2022, p. 50)

Apenso à ideia da marcação concreta do tempo uma questão formal que assiste o diário: o fluxo da narrativa de Maria João Ruivo regista não apenas momentos vividos, mas também silêncios, pausas e hesitações que se constituem como fugas que incrementam a circulação da palavra e do sentir que, livremente, atingem dimensões temporais que extravasam a precisão da data. Essa forma de escrita em (des)contínuo semeia a palavra entre mãos como expressão de temporalidades fragmentadas em que o presente se combina com o passado e com as expectativas impostas pelo futuro. Neste espaço de travessia - um lugar onde a autora habita o intervalo entre lembrança e projeção alojado na concha das mãos - Maria João Ruivo reconhece que este diário é “afinal, um percurso daquilo que faço, penso e sinto”. (Ruivo, 2022, p. 53)

Há também a coragem de enfrentar o Tempo, que é uma tremenda barreira. Porque é dele que é feita a Vida, mas também a Morte. Tempo que se esvai, roubando-nos o Passado e que, ao fazê-lo, nos via retirando, dia a dia, o Futuro possível. (Ruivo, 2022, p. 14)

Maria João Ruivo revela-nos o seu modo particular de ser e de sentir, transportando-nos para a virtualidade do diálogo e da busca incessante de mundos em (des)construção, mundos que se apresentam unificados pelo movimento íntimo da palavra em direção à consciência da autora que, passando pelo crivo da sua subjetividade, é partilhada com os leitores sem receios e com a dignidade da consciência urdida em palavras puras de sentires, afetos, memórias e desejos que vão construindo a narrativa acompanhada também de silêncios feitos de vida e de morte partilhados com os leitores, como é o exemplo da entrada do dia 27 de maio de 2017:

Faz hoje anos que morreu o Chico. Vinte e oito. Pôs fim à vida, no seu cantinho da música, onde passou momentos tão bons com os amigos. Não gosto de falar nisso. Era amigo lá de casa desde sempre, e pôs fim à vida sem que nenhum de nós se apercebesse de que andava desesperado. Nunca saberemos explicar o mistério de uma morte procurada. (…) Nesse sábado tínhamos ido em grupo para fora da cidade e quando chegámos a casa, tarde da noite, tivemos esta notícia tremenda. Durante bastante tempo senti uma espécie de remorso por não lhe ter dito para ir connosco. Achei que poderia ter passado a hora daquela loucura. Ou se calhar não. As sombras que guardava em si e que nós não chegámos a conhecer viriam dar cabo dele num dia qualquer. Mas não me conformo ao pensar que, enquanto nos divertíamos, na alegria da nossa juventude, o Chico, com 27 anos, acabou com a vida que tinha para viver. (Ruivo, 2022, pp. 40-41)

Neste excerto, o leitor é convidado a sentar-se ao lado da Maria João e com ela comungar a amargurada memória provocada pela morte, numa comunhão íntima com a palavra imbuída de simbioses de total afeto, dor e sentir que transmove o leitor para o seu colo e ali o mantém cativo nos mundos que, carinhosamente, partilha. Esta proximidade tão íntima e cristalina que circula entre autora e leitores abre portas para que ambos comunguem de todos os grãos de areia de que se faz o punhado que a autora encerra nas suas mãos. No entanto, embora esta ideia possa sugerir estagnação, aquilo a que na realidade se assiste é à deslocação da palavra e das reflexões, que circulam por entre temas variados desde aqueles que a memória teima em lembrar aos que se situam na intimidade de quotidianos, por exemplo, quando se refere aos filhos ou aos alunos. Além da partilha de temáticas atuais preocupantes e de cariz filosófico, ou a desilusão de um mundo que se mostra confundido, são também desvelados mundos outros, povoados de pequenos mas encantadores grãos de areia que fazem sorrir e que provocam uma felicidade interior, como aquela sentida aquando da subida ao Pico da Castanheira com os Urban Sketchers em 18 de maio de 2019:

Nunca cá tinha vindo. Vivemos numa pequena ilha, queixamo-nos da limitação, sentimo-nos, por vezes, circunscritos, mas na verdade nem conhecemos tudo aquilo que nos rodeia. Subimos por um atalho cheio de frescura, até ao cimo da colina e, bem lá no topo, foi um deslumbramento. (Ruivo, 2022, p. 67)

O cheirinho a hortelã silvestre e a toada dos chocalhos das vacas, que se ouve no cimo da colina, transportam-me ao Poço do Cavalo. Agora penso que ainda não falei dele neste meu Diário e isso é desconcertante para mim. Às tantas lembramo-nos de que há coisas que nos marcaram tanto, que não queremos tocar-lhes para que não se esfumem e percam a forma com que ficaram gravadas dentro de nós. (Ruivo, 2022, p. 68)

Açoriana, natural da ilha de São Miguel, a vivência ilhoa revela-se não apenas como um pano de fundo geográfico, mas também como uma matriz simbólica que atravessa e pontua a sua escrita. A insularidade paisagística e humana vivida pela autora reverte-se numa escrita que assume a fluidez como essência, na qual as palavras se entrelaçam como ondas, criando movimentos (des)contínuos entre o visível e o invisível, o real e o imaginário. Nesse espaço de transição, a autora dá voz a experiências que se dissolvem nas margens do quotidiano, imergindo nas profundezas do ser e na vastidão do mar interior. Cada palavra, assim, torna-se um reflexo do próprio tempo e espaço, fluindo livremente, como quem se perde e se encontra na sua própria jornada. Em Um punhado de areia nas mãos - Diário II, essa condição evoca não só a instabilidade da areia que escorre pelos dedos, mas também o vai-e-vem das marés, o sopro inquieto dos ventos atlânticos e o constante jogo entre contenção e dispersão humana. A imagem da palavra que se desdobra na tensão entre fixar e deixar escapar, como se cada frase estivesse sujeita à erosão suave e persistente do tempo, enforma memórias, afetos e reflexões, assumindo a autora a sua própria condição insular - uma existência marcada pela convivência com a imprevisibilidade e pela consciência de que o efémero não é apenas perda, mas também movimento e renovação. Desta forma, a palavra entre mãos emerge como metáfora de uma escrita que se equilibra na instabilidade e encontra, nessa oscilação, a sua mais profunda autenticidade como se depreende das palavras da autora:

“Como eu amo esta cidade e esta Ilha! É um amor cheio de contradições, como o são sempre os amores, dividida que estou entre a atração e a fuga; o partir e o ficar; e este mar que une ou nos cerca.” (Ruivo, 2022, p. 68)

“Acho que o amor pelo mar é o que de mais ilhéu existe em mim.” (Ruivo, 2022, p. 111)

3. A metáfora da areia

Italo Calvino, no seu livro intitulado Coleção de areia, afirma que “[h]á uma pessoa que faz coleção de areia (…) como toda a coleção, esta também é um diário: diário de viagens, claro, mas também de sentimentos, de estados de ânimo, de humores; (…) isto é a necessidade de transformar o escorrer da própria existência numa série de objetos salvos da dispersão - para o caso das coleções - ou numa série de linhas escritas, cristalizadas fora do fluxo contínuo dos pensamentos” (Calvino, 2002, pp. 12-13). A metáfora calviniana da coleção contribui de forma significativa para a compreensão da escrita diarística de Maria João Ruivo, na qual o gesto de recolher - seja areia, palavras ou fragmentos de vivência - revela a tentativa de reter o efémero, organizando a existência em camadas de reflexão sensível, fixadas na linguagem. Tal como o colecionador, o escritor de diário e, consequentemente, a escrita diarística representam a perseverança de, durante anos, levar por diante essa reunião de textos - que também se conjugam como uma coleção -, na tentativa de “distanciar de si o barulho das sensações deformantes e agressivas, o vento confuso do vivido, e ter afinal para si a substância arenosa de todas as coisas, tocar a estrutura siliciosa da existência” (Calvino, 2002, p. 15). Em Diário II, Maria João Ruivo olha com profunda resiliência e atenção para todas as areias que concentra nas suas mãos-cheias de tudo, delas extraindo as constelações de sentires que partilha, modestamente, com os leitores. Areias compostas de grãos todos diferentes, mas alimentados pelo mesmo veio subterrâneo da terra vulcânica e do mar profundo que as aceita, isto é, a ilha que está solidamente presente na sua escrita. Tentando decifrar o diário desta colecionadora de grãos de areia, o leitor interroga-se múltiplas vezes acerca do que está escrito naquele areal de palavras-grãos enfileirados ao longo de anos, pois talvez “fixando a areia como areia, as palavras como palavras possamos chegar perto de entender como e em que medida o mundo triturado e erodido ainda possa encontrar nelas fundamento e modelo” (Calvino, 2002, p. 16).

Na sua aparente simplicidade, a areia transporta um significado profundo devido à sua capacidade de ser moldada e penetrada, abraçando as formas que sobre ela se impõem. Essa característica torna a areia um símbolo multifacetado, representando não apenas a flexibilidade e a adaptabilidade, mas também uma série de conceitos relacionados com a condição humana e a experiência temporal. A sua plasticidade remete para a ideia de um espaço fluido e maleável, onde o sujeito, na sua procura por significado e identidade, encontra campo fértil para a projeção dos desejos, esses mesmos desejos que se metamorfoseiam ao longo do tempo, guiados pelos cambiantes da experiência e pela constante reinvenção do ser. Eles surgem assim como impulsos criadores que vão para além do simples anseio, tornando-se forças que moldam e redefinem a própria essência do indivíduo num processo de transformação contínua. Além disso, a areia carrega a noção de transitoriedade e efemeridade, uma vez que, devido à sua própria natureza, os grãos dispersam-se facilmente e são levados pelo vento, pela água ou pelo simples movimento do tempo. Essa fragilidade e impermanência da areia simboliza igualmente a transitoriedade da vida humana. Da mesma forma que os grãos de areia se esvaem por entre os dedos das mãos, os momentos da vida também se tornam fugazes e incontroláveis. A areia não apenas recorda a natureza efémera da existência, mas também nos alerta para a inevitabilidade do fluxo do tempo e para a dificuldade em mantermos ou fixarmos qualquer experiência de forma permanente. Porém, apesar da sua transitoriedade, a areia também carrega o poder de registar e conservar através da formação de camadas que se sobrepõem ao longo do tempo, construindo recetáculos de lembranças que, embora fragmentadas e dispersas, continuam a suportar os vestígios de momentos passados. A metáfora da areia como memória convida-nos a refletir sobre como as histórias pessoais se constroem a partir de pequenos fragmentos que muitas vezes nos escapam por entre os dedos das mãos, mas que, na sua totalidade, constituem uma moldura única e essencial sobre a nossa trajetória. Assim, a areia não apenas se revela um símbolo de perda ou de esquecimento, mas também representa a capacidade de reconstruir e de dar forma às lembranças, como se cada grão fosse uma parte da identidade e da história preservada na sua imperfeição e vulnerabilidade, refletindo a forma como a memória opera - não como uma recordação fixa e estática, mas como um processo contínuo de recolhimento, reconstrução e ressignificação do que foi vivido. A sua plasticidade e transitoriedade simboliza ainda a fragilidade da experiência humana e a capacidade de transformação e adaptação ao longo do tempo. Na sua fluidez, a areia lembra-nos que, embora o tempo passe e tudo se desfaça, sempre haverá algo de duradouro a ser encontrado no que resta, mesmo que seja apenas um pequeno grão de memória ou uma subtil impressão de existências. Neste contexto de maleabilidade, ela remete para a ideia de nascimento e de criação, de ponto de partida de qualquer existência, lembrando-nos de que, tal como o areal, somos constituídos por múltiplos fragmentos e experiências que se entrançam e se plasmam ao longo do tempo. O prazer que experimentamos no contacto com a areia remete-nos para a busca de repouso, de segurança, de regeneração, numa tentativa de regressus ad uterum (Chevalier & Gheerbrant, 1982, p. 79), expressão de origem latina que significa literalmente “regresso ao útero” e que se refere ao retorno ao ponto de origem, ao começo da vida ou ao estado primordial de onde algo ou alguém emerge. A expressão pode ainda sugerir o regresso à fonte, ao lugar de segurança e proteção, o desejo de voltar à inocência, à experiência e ao sofrimento, assim como a reflexão sobre temas relacionados com o renascimento, a renovação ou a busca de uma reconciliação com a própria identidade. É uma poderosa imagem literária que simboliza transitoriedade, efemeridade e memória, como exemplificam as palavras de Maria João Ruivo sobre um momento da sua infância, num dia frio de abril de 2019:

Os dias escorrem, lentos e lúcidos, como lagos vidrados pela geada matinal.

Tanto que se tem passado nestes dias que eu queria que fossem, ainda, a Primavera da minha vida. Fere-nos perceber que a vida passou por nós quase sem que a víssemos e só quando ela se afastou é que a vislumbramos lá longe, já enevoada pela distância do nosso olhar. Com que mágoa, então, nos apercebemos de como tudo poderia ter sido fruído de uma outra forma! Hoje foi esta angústia. Este peso nos ombros do quanto fui feliz! (Ruivo, 2022, p. 66)

Maria João Ruivo regista momentos que se podem considerar comuns, mas que ganham densidade emocional à medida que se acumulam, compondo a sua cartografia afetiva. Assim como um punhado de areia não pode ser preso entre as mãos, a autora reconhece que a sua escrita não consegue fixar plenamente as memórias. Contudo, cada registo contribui para a edificação de um mosaico identitário que desafia o esquecimento, promovendo a reflexão sobre a tentativa constante de apreender mundos - processo incompleto, fugaz e disperso comparável ao ato de recolher areia, testemunhando a luta constante do ser humano para juntar as peças que formam a sua compreensão sobre a realidade, mas, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que esse esforço é, muitas vezes, infrutífero ou incompleto. Na nossa procura para perceber o mundo que nos rodeia, o nosso entendimento é inevitavelmente parcial e fragmentado e sempre composto por momentos que se perdem no tempo, impossíveis de serem retidos de forma integral. Além disso, a metáfora da areia reflete também a transitoriedade e a incerteza que marcam a nossa relação com as culturas como um fluxo incessante de fragmentos que nunca permanecem estáticos, modificando-se constantemente influenciados por contextos, encontros e ruturas. Essa fluidez implica igualmente uma busca constante por identidade, em que a construção de sentido é temporária e está sujeita às forças que moldam o tempo e o espaço, refletindo a fragilidade e a impermanência de nossas próprias noções culturais, como denotam as palavras da autora:

Vivemos num mundo de barulho, a um ritmo frenético, e as coisas, para ganharem consciência, precisam de calma e de algum silêncio que as faça dar fruto, lentamente, com paciência. Mas a vida moderna não perdoa. Há uma pressa tão grande de se viver tudo, que se vai morrendo por dentro. Todos falam, mas ninguém quer ouvir; todos querem visibilidade, mas não olhamos para os outros nos olhos; em reuniões familiares ou parlamentares defende-se muito o direito dos pobres e dos desfavorecidos ao mesmo tempo que se consulta no telemóvel o resultado do jogo de futebol ou se desliza o dedo frenético em busca do vazio das redes sociais. (…)

Por isso adoro estar em casa do Eduíno de Jesus2, a sua torre de marfim, um caos de livros e de quadros, onde se respira o ar puro e limpo que vem de um tempo sem tanta poluição visual, sonora e metal. (Ruivo, 2022, p. 112)

Ao tentarmos entender e absorver as diversas influências culturais que nos cercam, enfrentamos o mesmo desafio de quem tenta prender a areia entre as mãos. Cada experiência cultural, cada memória, cada impressão que tentamos armazenar é moldada pelo tempo, pelas circunstâncias e pela subjetividade. Assim, a compreensão de mundos torna-se num processo contínuo de ganhos e perdas, de acumulação e dispersão, em que as formas que tentamos dar à nossa identidade cultural são constantemente desfeitas pela transitoriedade da vida. A ideia de que o processo de acumulação é incompleto também se estende à forma como a autora articula a memória e a identidade no seu diário. Como a areia, as memórias e as impressões culturais que formam a compreensão de nós mesmos são múltiplas, fragmentadas e fugazes. Tentamos, ao longo da vida, recolher e organizar esses fragmentos, mas, no final, o que permanece é um mosaico de pequenas peças que não se encaixam perfeitamente, mas que, juntas, formam uma narrativa única e pessoal, sugerindo que a nossa relação com a cultura e com a memória deve ser marcada pela aceitação da transitoriedade e da imperfeição.

Em vez de procurar uma totalidade ou uma verdade absoluta, a autora convida o leitor a valorizar o processo de acumulação em si, com todos os seus fracassos, perdas e reconstruções na beleza da jornada para a construção contínua de sentidos a partir dos fragmentos que conseguimos recolher, tal como sugerem as suas palavras:

A vida é um carrocel. Gira, gira e nós vamos na roda, como cavalos à desfilada.

Para onde foi o tempo de ser tempo? (Ruivo, 2022, p. 84)

A noite derrama-se pela minha praça, trazendo a brisa do mar que faz adejar levemente o verde dos metrosíderos. Os lampiões acendem-se.

Subitamente, tenho uma saudade profunda de mim e de um tempo em que tinha o meu Pai naquela vontade apaixonada e intensa de viver. Saudades da doçura e do sorriso da minha Mãe, antes de ela se ter perdido de nós. O tempo passou tão depressa como a noite a derramar-se pela minha praça. (…) Vontade de partir. E de ficar. (Ruivo, 2022, p. 100)

Ao tecer as páginas do seu diário, Maria João Ruivo aceita a natureza transitória das suas anotações, encontrando, paralelamente, na escrita um gesto de permanência. Os seus registos quotidianos espelham-se nas observações de Calvino, uma vez que ambos constatam que, embora a areia escape pelos dedos, algo permanece - seja na impressão deixada na pele, seja nas páginas que tentam fixar esses grãos dispersos. Desta forma, ao transformar os grãos da vida em palavras, a autora cria narrativas que desafiam e celebram a força da resistência ao esquecimento - fio condutor para se pensar a condição humana intricada desde a fragmentação da memória à efemeridade do tempo.

4. Considerações finais

De acordo com Pierre Pachet,

[l]e journal intime ne s’inscrit pas hors du temps, bien au contraire, mais il fait de cette substance un usage qui lui est propre. (…) Ce qui intéresse le plus le diariste (et le lecteur), c’est (…) l’épreuve d’une variabilité à travers une permanence, ou plutôt c’est de constater que la variabilité de l’âme n’est pas infinie, quelle se déploie à l’intérieur d’un cycle qui est, au fond, celui des saisons de l’âme, parallèles aux saisons de l’âme. (Pachet, 2001, p. 65)

Das palavras de Pachet destaca-se a ideia de que o diário íntimo está profundamente ligado ao tempo, sendo por ele moldado. O autor enfatiza que o diário não rompe com a temporalidade, mas utiliza-a de forma particular, registando a tensão entre mudança e constância das vivências interiores. Para Pachet, o diarista explora a variabilidade da alma dentro de ciclos (im)previsíveis, nos quais as emoções seguem um ritmo semelhante ao das estações do ano. Essa ciclicidade revela que a instabilidade emocional é, paradoxalmente, uma forma de permanência. O diário íntimo permite ao escritor e ao leitor reconhecer padrões na experiência subjetiva, funcionando como um espaço onde o tempo e a alma se entrelaçam em movimentos repetitivos. Assim, a escrita íntima não apenas regista o presente, mas também revela como esse presente se repete e se transforma, tornando-se, desse modo, um testemunho das marés emocionais que marcam a condição humana.

Um punhado de areia nas mãos - Diário II inscreve-se no ato de refletir sobre a memória e o tempo através da forte carga simbólica atribuída à imagem da areia que, devido à sua natureza fluida, funciona como uma poderosa analogia para os mecanismos da memória, caracterizados pela dificuldade de retenção integral e pela constante reconstrução das lembranças. O “journal intime” referido por Pachet intensifica essa reflexão sobre a memória e o tempo, sendo o formato fragmentado construído a partir de anotações breves e registos de momentos casuais, evidência das tentativas de capturar instantes fugazes, conferindo-lhes uma dimensão simbólica que transcende o quotidiano. Nas páginas de Diário II, assim como os grãos de areia são inevitavelmente dispersos pelo vento, as memórias e a vida também escapam ao controle pleno do sujeito. No entanto, é justamente essa impossibilidade de retenção total que torna significativa a tentativa de recordar e entender mundos, ainda que de forma incompleta.

A relação entre a fragmentação da memória e a efemeridade do tempo está presente na constante tensão entre o desejo de permanência e a inevitável dissolução das experiências que se edificam não apenas no que é recordado, mas também no que se perde ou se reconstrói. Nesta perspetiva singular sobre a condição humana, ao destacar que a memória é tanto uma ferramenta de preservação quanto de ressignificação do passado, revela-se o seu papel essencial na construção da identidade e na forma como percebemos o tempo.

A memória não retém unicamente experiências, mas também as reorganiza, atribuindo-lhes novos sentidos à luz do presente. Assim, o ato de recordar transforma-se num processo ativo, no qual o passado é continuamente revisitado e reinterpretado, permitindo que o sujeito compreenda a sua própria trajetória em constante diálogo com as emoções, os ciclos da vida e as estações da alma. Essa perceção reflete-se na obra de Maria João Ruivo, na qual os momentos descritos, embora por vezes breves e efémeros, ganham significados profundos, consolidando a ideia de que a memória é um espaço onde o efémero encontra certa permanência simbólica. Neste contexto, ressalta-se ainda a inscrição da memória individual na memória coletiva, na qual os fragmentos de lembranças, dispersas e imperfeitas, não contam apenas a história pessoal da autora, mas também ecoam experiências humanas universais. A escrita de Maria João Ruivo denota ainda uma tensão constante entre o desejo de fixar o passado e a perceção de que essa tarefa é sempre parcial e imperfeita. Essa ideia é particularmente forte nas páginas do seu diário, transformando a escrita num espaço de resistência, onde os fragmentos de memória ganham forma e significado, atribuindo sentido ao que foi vivido.

Um punhado de areia nas mãos - Diário II oferece uma reflexão sobre a memória e o tempo, a fragmentação e a transitoriedade que caracterizam a experiência humana. A obra de Maria João Ruivo revela que, mesmo diante da inevitável perda de momentos e lembranças, a escrita emerge como uma tentativa significativa de resistir ao esquecimento, preservando na palavra escrita os grãos que constituem a identidade e a existência individual de afetos entrelaçadas:

Pai, agora o nosso encontro é isto. Eu a escrever, seguindo os teus passos, insegura, como quando aprendi a andar e te dava a mão, na certeza de que nunca me deixarias cair. (Ruivo, 2018, p. 63)

As palavras serão sempre limitadas para falar de ti, minha pequenina-grande Mãe. (Ruivo, 2022, p. 40)

Olho para ti, Mãe, e penso no quanto queria ter uma máquina do tempo! Poder voltar atrás, ouvir o teu falar doce e tranquilo e as tuas gargalhadas cristalinas e alegres

Olho-te e sei que já não me conheces. (Ruivo, 2022, p. 161)

Então, estendo-te a mão, tentando resgatar-te das sombras e das ruínas dos antigos caminhos por onde te perdeste. (Ruivo, 2022, p. 162)

Referências

Aires, F. (2015). Era uma vez o tempo. Diário (1982-2010) [Once upon the times. Diary (1982-2010)]. Opera Omnia. [ Links ]

Almeida, A. (2023, 5 a 18 de abril). Maria João Ruivo. O Tempo de um Diário. Jornal de Letras. 19. [ Links ]

Calvino, I. (2002). Coleção de areia [Collection of sand]. Companhia das Letras. [ Links ]

Chevalier, J., & Gheerbrant, A. (1982). Dicionário de símbolos [Dictionary of symbols]. José Olympo. [ Links ]

Goulart, R. (2022). Prefácio [Preface]. In M. J. Ruivo, Um punhado de areia nas mãos - Diário II (pp. 9-11). Letras Lavadas. [ Links ]

Lisboa, E. (2015). Ver mais claro em si mesmo… [See more clearly in yourself...]. In F. Aires, Era uma vez o tempo. Diário (1982-2010) (pp. 11-15). Opera Omnia. [ Links ]

Machado, J. L. (2015). Posfácio [Afterword]. In F. Aires, Era uma vez o tempo. Diário (1982-2010) (pp. 755-764). Opera Omnia. [ Links ]

Pachet, P. (2001). Les Baromètres de l’âme. Naissance du journal intime. Hachette Littératures. [ Links ]

Ruivo, M. J. (2018). Um punhado de areia nas mãos. Diário [A handful of sand. Diary]. Letras Lavadas. [ Links ]

Ruivo, M. J. (2022). Um punhado de areia nas mãos - Diário II [A handful of sand. Diary II]. Letras Lavadas. [ Links ]

1Era uma vez o tempo. Diário (1982-2010). Opera Omnia, 2015, p. 21.

2Poeta açoriano, contemporâneo de Fernando Aires. Ao longo de Diário II são várias as referências à amizade que unia os dois escritores e que permanece na relação entre Eduíno de Jesus e Maria João Ruivo.

Recebido: 31 de Março de 2025; Aceito: 05 de Junho de 2025

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