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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885versão On-line ISSN 2975-884X

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.53 Lisboa jun. 2025  Epub 13-Jan-2026

https://doi.org/10.34619/tejo-lsar 

Entrevista

Entrevista a Cláudia Pazos Alonso

1 Financial Times, UK Desk, 1 Friday Street, London EC4M 9BT, United Kingdom. franklin.nelson1@protonmail.com


“Adoro as coisas que são silenciadas.”

Cláudia Pazos Alonso reformou-se este verão, tendo ensinado várias gerações de estudantes (inclusive eu) e publicado obras pioneiras durante muitos anos, enquanto Professor of Portuguese and Gender Studies na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e Fellow do Wadham College na mesma instituição. Ex-vice-presidente da Associação Internacional de Lusitanistas, Pazos Alonso tem-se concentrado na escrita de mulheres, nas representações do género na esfera pública e no papel da literatura na construção de identidades nacionais e pós-coloniais. Licenciou-se na Universidade de Oxford e obteve o mestrado no King’s College London, sob a orientação de Helder Macedo, antes de ensinar durante um ano no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa. Depois voltou a Oxford para o doutoramento, ensinou na Universidade de Newcastle e regressou pela última vez à dita cidade das torres sonhadoras.

Em vários artigos e livros, como Imagens do Eu na Poesia de Florbela Espanca (Alonso, 1997) ou, com Hilary Owen, Antigone’s Daughters? Gender, Genealogy and the Politics of Authorship in Twentieth-Century Portuguese Women’s Writing (Owen & Alonzo, 2011), Cláudia Pazos Alonso tem lançado luz sobre escritoras tão diversas como Francisca de Assis Martins Wood, Florbela Espanca, Judite Teixeira, Natália Correia, Clarice Lispector, Orlanda Amarílis, Hélia Correia, Lídia Jorge e Ana Luísa Amaral, entre outras. Uma das editoras da série Reconfiguring Identities in the Portuguese-Speaking World, da editora Peter Lang, também tem revisto, para tomar emprestado a frase de Adrienne Rich, obras canónicas de Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Mia Couto. Além disso, colaborou com Tom Earle e Stephen Parkinson em A Companion to Portuguese Literature (Parkinson, Alonso & Earle, 2009) e Reading Literature in Portuguese (Alonso & Parkinson, 2013), dois livros destinados a introduzir os estudantes universitários não só à riqueza da literatura em língua portuguesa como também à arte do commentary, elemento fundamental da licenciatura em Oxford.

Nasceu em Portugal, mas os seus pais viveram em vários países. Quais são as suas origens, por assim dizer?

Tenho uma história que tem a ver com a migração. Os meus avós paternos eram galegos e imigraram para Portugal na altura da guerra civil espanhola. O meu pai já nasceu em Portugal, mas recusou-se sempre a tornar o nome mais português. Portanto, o apelido continua Pazos Alonso, e não Passos. Meu pai, posteriormente, foi leitor de Português em Liverpool e Hamburgo e ingressou pela carreira diplomática, e daí se explica o facto de eu ter crescido em vários países. A minha mãe também teve uma experiência no exterior porque estudou um ano em Estrasburgo, o que na altura não era muito vulgar para uma jovem solteira. Acho que tanto um como o outro gostavam de ampliar os seus horizontes. Crescemos, eu e as minhas irmãs, em vários países, nomeadamente na Suíça, no Canadá e depois no Reino Unido. Além de Portugal, claro, o meu país natal. Tive uma educação francesa, e eu queria realmente ir estudar para Paris. Mas acabei por ficar em Oxford e não me arrependo. Ainda regressei a Portugal, mas na altura era complicado porque não havia equivalências. Tive uma equivalência à licenciatura, mas não ao mestrado, que já tinha concluído no King’s College London. Não quis repetir o mestrado e, como consegui uma bolsa para fazer o doutoramento em Oxford, acabei por voltar ao Reino Unido.

A partir de que momento é que a literatura começou a fazer parte da sua vida?

Acho que a literatura começou muito cedo, aliás, porque a minha mãe e o meu pai tinham muitos livros em casa, embora a minha mãe dissesse sempre que era para isso que serviam as bibliotecas. A minha avó materna mandava-nos livros, histórias de crianças, e eu fazia-lhe as minhas encomendinhas. Quando gostava de um livro de uma série, pedia mais. Aprendi a ler em português através dessas histórias de crianças. Depois, no Canadá, a minha mãe levava-nos, a mim e às minhas irmãs, quase todas as semanas à biblioteca e tínhamos direito a levar livros para casa. Na altura não sabia porquê, escolhia os livros que me interessavam, mas hoje verifico que acabei por ler imensas escritoras do século dezanove, inglesas, americanas e francesas. Acho que também isso faz parte da minha formação. Eu sempre quis cursar Letras.

O doutoramento aqui em Oxford foi sobre Florbela Espanca. Quais foram as dificuldades em fazer este projeto, e quais foram as descobertas?

Na verdade, quando fui aceite para o doutoramento, a ideia era trabalhar Eça de Queiroz e a questão da autoridade e do privilégio masculinos. Rapidamente percebi que era melhor enveredar por um outro caminho. Tinha estudado com o Helder Macedo, no King’s College, a poesia da viragem do século XX: António Nobre, passando por Camilo Pessanha, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, todos eles homens. Ora, por ironia do destino, na altura, estava a viver no Crosby Hall, que pertencia à International Federation of University Women, num ambiente só de mulheres. Acho que essas coisas em que uma pessoa não repara propriamente na altura podem ter muita influência. De facto, quando cheguei a Oxford, comecei a pensar: “Pois é, mais um autor consagrado”, e foi por isso que avancei com a Florbela. Em relação às descobertas, felizmente Maria Lúcia Dal Farra, que é a grande autoridade sobre Florbela Espanca no Brasil, já nessa altura tinha publicado uma nova edição crítica e levantado críticas bem fundamentadas à edição do Rui Guedes. E portanto isso levou-me a procurar as fontes todas, a fazer trabalho de arquivo. As minhas descobertas permitiram perceber melhor o meio cultural da época e traçar um quadro mais alargado da poesia feminina dos anos vinte.

A minha maior descoberta, na verdade, foi Judite Teixeira, que na altura ainda era uma escritora “maldita”, de quem praticamente ninguém falava. Acabei por adquirir num alfarrabista um manuscrito com alguns inéditos, que só vieram a ser publicados em 2015, a pretexto do centenário do Orpheu. Portanto, às vezes as grandes descobertas demoram muito tempo a concretizar-se.

Houve uma espécie de transição no seu trabalho para o século XX, para as escritoras contemporâneas, como Natália Correia e Lídia Jorge. Pode falar nesta mudança?

Sim, a transição processou-se de forma curiosa. Conheci a Hilary Owen, que trabalhava sobre escritoras contemporâneas. Como é sabido, durante a época do Salazar, não se podia fazer uma tese de doutoramento sobre escritores vivos. Mas eu ia lendo escritoras atuais, por exemplo a Maria Velho da Costa, que era amiga de família e madrinha da minha irmã mais nova. A minha mãe ofereceu-me um livro da Lídia Jorge, Notícia da Cidade Silvestre. De repente houve essa libertação mental que eu podia trabalhar sobre algumas delas, e foi aí que tudo começou. Também foi um caso de hasard objectif. A Hilary e eu, por coincidência, formulámos, não sabendo uma da outra, uma proposta editorial para um livro sobre mulheres escritoras dos últimos 150 anos. O editor pôs-nos em contacto uma com a outra, e decidimos trabalhar a meias. Foi daí que surgiu Antigone’s Daughters, e foi realmente um grande prazer fazer o livro a quatro mãos.

Para si, há continuidades ou diferenças entre a literatura de autoria feminina do século XIX e a de hoje?

Há determinadas continuidades que, digamos, nem sempre são muito positivas. Por exemplo, a campanha de ódio contra Francisca de Assis Martins Wood volta a repetir-se na campanha de ódio contra Judite Teixeira. Por razões ligeiramente diferentes, mas são mulheres que se estão a afirmar. São mulheres desassombradas que dizem o que pensam e que acabam por suscitar reações misóginas. Ou seja, uma mulher que sai dos eixos, digamos, escandaliza e vai ser silenciada. Mas algumas das questões levantadas pela Francisca Wood são extremamente avançadas para a época, inclusive, uma certa consciência de que os próprios homens vão ter de se modificar e de que o feminismo - palavra que ela não utiliza na altura porque ainda não era usada - vai ter de contar com alianças com os homens.

A colaboração faz parte do seu percurso, com Hilary Owen no livro Antigone’s Daughters, ou com Paulo de Medeiros na série Reconfiguring Identities in the Portuguese-Speaking World, da editora Peter Lang. É, para si, uma espécie de modelo na academia, onde se fala muito do trabalho individual?

Acho que a colaboração é uma mais-valia, porque, quando duas ou mais cabeças se põem a trabalhar em conjunto, o resultado é quase sempre melhor. The sum is more than the parts. Além de ser muito prazeroso - porque a pesquisa é uma atividade solitária. Poder trabalhar em conjunto com pessoas que nos oferecem outras perspetivas é muito enriquecedor. Ao longo da carreira, pelo menos no Reino Unido, havia sempre esta ideia de que uma monograph - livro escrito só por uma pessoa - era o mais importante. Eu sempre rejeitei esse modelo. Aliás, na época do livro com a Hilary, estava a trabalhar em part-time, portanto fazia sentido colaborar porque eu tinha menos disponibilidade.

Em relação à série com o Paulo de Medeiros, havia uma lacuna em termos do que era publicado sobre a África Lusófona em inglês. Portanto, criar uma série era uma forma de reunir e divulgar os estudos mais interessantes e pioneiros. Gostei muito, também, das várias colaborações que tive com o Fabio Mario da Silva, que me desafiou a voltar a Florbela e depois a Judite Teixeira. E também me agradou muito colaborar com várias outras pessoas, inclusive em colóquios. Montar um congresso, trabalhar com colegas, por exemplo no contexto da Associação Internacional de Lusitanistas, também é um desafio que nos ajuda a permanecer sempre curiosos e com novas ideias. Os últimos que organizei em parceria, com apoio da Faculdade, do Wadham College e do Instituto Camões, foram “Celebrating a public intellectual: Natália Correia (1923-2023)” e “Unfinished Revolutions” para marcar os cinquenta anos do 25 de Abril.

Qual o significado de ensinar e desenvolver os estudos portugueses fora de Portugal e do mundo lusófono?

Trabalhar em Oxford ofereceu-me muitas oportunidades. Aliás, o modelo do tutorial para mim também é colaborativo, porque não é um ensino top-down, em que o professor está a falar ex-catedra, mas realmente é um diálogo com os nossos alunos e alunas e uma aprendizagem de parte a parte. O significado fundamental é que tive muito mais liberdade a nível dos currículos do que o que teria ocorrido em Portugal. Pude logo desde o início inserir imensas escritoras nos meus currículos e recusei-me, como era costume na altura, a trabalhar só sobre Portugal e Brasil. De imediato entraram também no currículo autores da África Lusófona e, de certa forma, tenho vindo a atualizar sempre os meus currículos. O texto mais recente que neste momento estou a lecionar é Lisboa, Luanda, Paraíso, um romance magnífico de Djaimilia Pereira de Almeida que saiu em 2018. Além disso, tive o privilégio de contribuir para a expansão da Sub-Faculty of Portuguese, de que sou atualmente Diretora, e que continua a ser o único Departamento de Português independente do Espanhol no Reino Unido.

Já falou na África Lusófona e na lacuna que preencheu a série da editora Peter Lang. De que forma é que os estudos portugueses têm mudado ao longo dos anos?

É muito interessante esta pergunta. Começo por falar do que está a ocorrer no Reino Unido, porque tenho acompanhado mais de perto, mas também darei uma palavra sobre Portugal. Em relação ao Reino Unido, tem havido, nos últimos anos, dentro do âmbito lusófono, vários seminários e colóquios sobre práticas decoloniais. Isso é muito importante, para continuarmos a refletir e pensarmos inclusive num unconscious bias. Por exemplo, muitas vezes estamos a falar de estudos decoloniais, mas continuamos a citar homens brancos. É essencial dar a palavra justamente a um leque de vozes mais diversificadas. Em relação a Portugal, ao longo de muitas décadas, a academia permaneceu quase que impermeável aos estudos feministas. Hoje vejo um grande esforço, há uma tentativa de modernizar currículos, mas ainda há muita coisa por fazer. O papel de Faces de Eva foi pioneiro a esse nível; é uma revista que tenho acompanhado desde a primeira hora com todo o interesse.

Enquanto mulher, teve de lidar com algumas dificuldades ao longo da carreira?

Obviamente. Sou apenas a quarta mulher Fellow (pertencente ao quadro permanente) no meu colégio, o Wadham; ou seja, só outras três colegas é que conseguiram um lugar permanente antes de mim. Na verdade, houve dez anos entre a terceira - a minha colega de História, Jane Garnett - e eu. Dez anos em que todos os lugares foram para homens. Estar em minoria é sempre complicado e, no meu caso, estar em minoria como mulher e como estrangeira. Obviamente que nem sempre foi fácil, mas, pronto, as coisas têm vindo a progredir. Também convém lembrar que o mundo dos colégios era um universo muito masculino. O Wadham foi um dos primeiros a aceitar estudantes do sexo feminino; este ano estamos a celebrar cinquenta anos desde o ingresso da primeira leva de alunas. Estudei num outro colégio, o Magdalen. Quando ingressei na licenciatura, em 1984, havia menos de cinco anos que as mulheres tinham sido admitidas nesse colégio. É preciso reconhecer que, nesse aspeto, não é só Portugal que está em evolução. Oxford também mudou muito nos últimos quarenta anos, e nitidamente para melhor.

Hoje em dia temos a Internet e as redes sociais. Acha que a literatura é tão poderosa enquanto intervenção cultural, ou meio cultural, como era?

Essa é uma excelente pergunta. Neste momento, além de tudo o mais, temos uma cultura muito visual, que passa, obviamente, pelo cinema - e já temos estudos de cinema bem estabelecidos aqui, graças aos meus colegas Claire Williams e Gui Perdigão - e mais recentemente uma cadeira de opção que coteja escritoras e artistas plásticas, desenvolvida por outra colega, Luísa Coelho. Vivemos no seio de uma cultura muito mais visual, temos de aceitar isso. Temos de aceitar que a escrita hoje em dia - é o caso, por exemplo, de Djaimilia Pereira de Almeida ou Isabela Figueiredo, que jogam com fotografias - não é só a palavra. Mas considero obviamente que a palavra continua a ter muito relevo. O que talvez me aventurasse a dizer é que os textos curtos que circulam através da Internet têm cada vez mais peso. Tenho uma amiga, Elizabeth Challinor, que publica poesia na Internet, por vezes escrita em trânsito no telemóvel. Circula e tem os seus leitores. Já dizia a Ana Luísa Amaral que a poesia tem a ver com a beleza e que todos nós precisamos de beleza e todos nós temos direito à beleza. A palavra poética não é só funcional, mas tem um papel a cumprir que tem a ver com os afetos; há textos que nos tocam e fazem com que a leitura possa inclusive incentivar-nos para ir para a ação.

Em termos do futuro estudantil, tem medo do impacto da inteligência artificial? Já detetou a inteligência artificial nos ensaios?

Sim, sim. Neste momento, vamos ter de desenvolver uma política concertada para lidar com o ChatGPT. Obviamente que vai ser preciso repensar e vai haver uma adaptação. Tive uma discussão com os meus filhos, que me diziam: “Será que vai continuar a haver poesia quando basta pedir ao ChatGPT para fazer um soneto?” Fizemos uma tentativa em conjunto, e o soneto é relativamente fácil porque tem um esquema métrico e, mesmo ao nível das rimas, é altamente codificado. Mas saíram imensas asneiras pelo meio. Portanto, acho que vai demorar um certo tempo a nível da produção. A nível dos alunos, acho que eles próprios vão ter de se compenetrar de que [o ChatGPT] pode ser muito útil como ferramenta, mas o professor por enquanto ainda consegue distinguir o que é que sai do punho de um aluno ou de uma aluna e o que é que sai de um computador. Aprender a pensar pela própria cabeça, eis o valor incalculável da educação, fomentado pelo sistema de tutorials. E nisso creio que o ChatGPT não nos chega aos calcanhares.

Neste momento trabalha sobre o quê?

Na próxima semana vou fazer uma palestra num colóquio sobre life-writing: o caso em que me vou concentrar é Natália Nunes, sobre a qual Teresa Sousa de Almeida, aliás, tem trabalhado. Vou fazer uma pequena intervenção sobre a literatura de viagem com base num texto fascinante, Uma portuguesa em Paris, que nunca voltou a ser publicado. Eu adoro essas coisas, falar sobre textos que praticamente não são conhecidos; para mim é sempre um desafio. A minha curiosidade intelectual chama-me sempre para aí. Um projeto de maior fôlego que pretendo desenvolver é sobre as representações da escravidão antes e depois da abolição em Portugal, no Brasil e em Cabo Verde. Comecei logo por um texto considerado fundacional para a literatura cabo-verdiana, embora tivesse sido escrito por um português: o romance O Escravo, de Evaristo de Almeida (1856). É um livro que ainda poucas pessoas conhecem em Portugal, embora já tenha três edições. É um romance extraordinário, inclusive pela forma como, a páginas tantas, põe em cena a voz de uma escrava. Convém pensar porque é que esse romance foi tão negligenciado em Portugal - adoro as coisas que são silenciadas porque nos dão uma visão outra de cada época, e acho imprescindível recuperá-las.

Prepara-se para depois do verão e o fim da sua longa estadia em Oxford. Tem outros planos?

Eu tenho montes de caixotes cheios de livros e outros tantos de papéis que vou ter de transferir do meu gabinete para casa, porque um dos privilégios de Oxford é ter um gabinete cheio de livros e com muitos papéis; ou seja, um espaço próprio como reivindicava Virginia Woolf. A triagem vai demorar uns seis meses! Além disso, a minha ideia é passar mais tempo em Portugal. Continuo a pertencer ao grupo de trabalho Intertextualidades, do Instituto de Literatura Comparada da Universidade do Porto. Sempre passei temporadas em Lisboa, e espero continuar a ter contacto com colegas da Universidade de Lisboa e das mais variadas instituições por este mundo fora (Brasil, França, Estados Unidos, etc.), colegas e amigos que vão regularmente a Portugal. Há sempre a Biblioteca Nacional, não é verdade?! Portanto, não me vejo realmente a parar completamente, mas gostaria de fazer um pequeno hiato para ter tempo para pensar. Um dos luxos que havia quando comecei a minha carreira era tempo para pensar e escrever. O período de aulas era oito semanas, três vezes por ano e ao longo dos últimos trinta e tal anos, cada vez mais este período fora de aulas é preenchido com obrigações que não nos permitem dedicar-nos à pesquisa como gostaríamos.

Obteve a nacionalidade britânica há uns anos?

Sim. Durante muito tempo não senti a necessidade de ter uma dupla nacionalidade. Sentia-me portuguesa. Convivo muito bem com o facto de ser uma imigrante no Reino Unido; não tenho qualquer problema. Como já disse, os meus avós também foram emigrantes. Agora realmente temos de distinguir isso da questão legal, e a questão legal é que, depois do Brexit, achei por bem proteger os direitos adquiridos e sobretudo, acautelar, digamos, questões de ordem jurídica e financeira. Para mim era uma questão de bom senso. Tal como uma das minhas irmãs adquiriu a nacionalidade cabo-verdiana quando começou a viver em Cabo Verde. Os meus filhos têm dupla nacionalidade e também convivem muito bem com isso. Se eu tivesse de rejeitar a minha identidade portuguesa, aí sim, teria alguns problemas de consciência.

Nasceu sob a ditadura. No ano passado, Portugal marcou cinquenta anos de democracia. Tem visto o que acontece em Portugal com uma certa distância, mas o que significa essa passagem do tempo? O que tem visto em termos de mudanças?

Obviamente que vi imensas mudanças e no geral, para melhor, sobretudo em relação aos direitos da mulher. No que diz respeito à questão das mentalidades, a evolução é sempre um pouco mais lenta. O facto é que Portugal era um país muito fechado, um país católico muito fechado, inclusive a nível académico. Como disse, não havia equivalência possível para mim; portanto, para continuar os meus estudos, foi mais fácil voltar à Inglaterra. O contributo das escritoras tem sido essencial para uma tomada de consciência mais generalizada. Basta pensar no conto “Marido”, de Lídia Jorge, sobre a violência doméstica. O debate sobre o aborto foi muito longo e penoso, mas é um direito essencial para as mulheres; aliás, o Franklin bem sabe do que estou a falar, visto que se debruçou sobre o tema na obra de Paula Rego e Lídia Jorge. E o que mais me aflige atualmente é que ainda há muito racismo sistémico em Portugal. Os meus sobrinhos têm dupla nacionalidade, portuguesa e cabo-verdiana, e penso muito naquilo com que têm de lidar. A minha sobrinha, que é de Belas Artes, trabalhou no McDonalds enquanto estudava, e as histórias que ela me contou discretamente acerca das micro-agressões no dia a dia de teor racista são impressionantes. Gostaria de sublinhar que ainda há muito trabalho por fazer pela frente. Hoje em dia continua a ser fundamental, e na verdade absolutamente imprescindível, falar das intersecções entre género e raça. Ao fim e ao cabo, como dizia o poeta António Ramos Rosa, em resposta ao contexto que se vivia na década de 1960, “Não posso adiar o coração”.

Referências

Alonso, C. P. (1997). Imagens do Eu na Poesia de Florbela Espanca [Images of the Self in the Poetry of Florbela Espanca]. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. [ Links ]

Alonso, C. P., & Parkinson, S. (Eds.) (2013). Reading Literature in Portuguese. Routledge. [ Links ]

Owen, H., & Alonso, C. P. (2011). Antigone’s Daughters? Gender, Genealogy and the Politics of Authorship in Twentieth-Century Portuguese Women’s Writing. Bucknell University Press. [ Links ]

Parkinson, S., Alonso, C. P., & Earle, T. F. (Eds.) (2009). A Companion to Portuguese Literature. Boydell & Brewer. [ Links ]

Recebido: 10 de Junho de 2025; Aceito: 16 de Junho de 2025

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