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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885versão On-line ISSN 2975-884X

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.53 Lisboa jun. 2025  Epub 13-Jan-2026

https://doi.org/10.34619/1oje-hirq 

Retrato

Rosa Genoni (1867-1954). Feminista, pacifista e pioneira da moda italiana

1 Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, História, Território e Comunidades/Centro de Ecologia Funcional (HTC/CFE) . Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA). Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, 1070-312 Lisboa, Portugal, nati.monteiro@netcabo.pt


Imagem:  Chiara,G. (2024, Setembro). Rosa Genoni, anticipatrice femminista e socialista dell’Italian style. QUATTRO. https://quattromilano.it/2024/09/10/rosa-genoni/  

Introdução

Rosa Genoni foi uma mulher ousada, talentosa e empreendedora, que deixou um rasto inapagável como professora, feminista, pacifista, escritora e criadora de moda. Na última década, tem sido visível o interesse por esta figura multifacetada, que abraçou as causas da educação e da emancipação feminina e lutou por uma moda italiana com identidade própria, liberta dos modelos parisienses. Contudo, a maioria dos estudos tem valorizado o seu pioneirismo no design da moda e na criação da marca Made in Italy, relegando para segundo plano o seu activismo em prol dos direitos das mulheres e de uma sociedade mais justa, pacífica e democrática.

Eugenia Paulicelli (2015, 2017a, 2017b), uma das primeiras académicas a estudar o perfil de Rosa Genoni, salienta que o feminismo de Rosa Genoni não era um simples slogan, mas sim uma prática que ela incorporou no processo de design e no estilo das peças que criou. Ela libertou o corpo das mulheres da tortura do espartilho e dos modelos que lhes limitavam a liberdade de movimentos (D’Errico, 2024). Os seus vestidos Tanagra1 pautavam-se pela elegância, a fluidez e os drapeados que, pela versatilidade das formas de usar, conferiam às mulheres uma imagem de liberdade, confiança, afirmação e poder (Manferdini, 2023; Paulicelli, 2017a). Maria Grazia Lolla (2019) defende que Rosa Genoni promoveu uma imagem da mulher intelectual em guerra aberta com os modelos impostos pelos estilistas franceses. Desafiou os preconceitos dos manuais de conduta, exaltou a identidade feminina e projectou as mulheres como sujeitos de modernização, convidando-as a participar na vida pública e a competir na cena mundial. Para alcançar tal desiderato, precisou de muita persistência, vontade férrea e grande inteligência. Considerando a época em que viveu, pode intuir-se como as lutas empreendidas por ela e pelas mulheres do seu tempo foram fundamentais para construir as sociedades de hoje, quanto aos direitos, espaços e lugares para as mulheres. Cremos que o seu percurso é exemplar e representativo de outros similares dentro do seu grupo social e sexual e que reflecte o ideal de mulher emancipada que o movimento feminista então evocava.

De aprendiza a directora e criadora de moda

Rosa Angela Caterina Genoni nasceu em Tirano, na Lombardia, numa família modesta e numerosa. Aos 10 anos começou a trabalhar como aprendiza no atelier de costura de uma tia, em Milão, a capital da indústria têxtil e do comércio da moda, em que predominava a mão-de-obra feminina. Com o desenvolvimento da indústria, do comércio, da arte e da imprensa, Milão reunia todas as condições para o lançamento da moda italiana (Paulicelli, 2017b). Foi neste ambiente que Rosa Genoni se aproximou dos meios operários e socialistas, ganhou consciência social e política e iniciou o seu activismo em prol dos direitos das mulheres trabalhadoras. Simultaneamente, continuava os estudos, em horário nocturno, a fim de progredir no mundo da alta-costura.

Aos dezoito anos, Rosa já era mestra no atelier de costura Dall’Oro e sonhava trabalhar numa casa de moda parisiense. Nos círculos feministas, conheceu Ana Kuliscioff (1854-1925), a mãe do feminismo italiano, de quem se tornou amiga, enveredando pelo activismo em prol da emancipação feminina e do pacifismo internacional. Em 1884 e 1885, foi convidada pelo Partido Operário Italiano a participar nos Congressos Internacionais de Paris sobre a condição operária. As viagens à cidade-luz permitiram-lhe conhecer alguns ateliers de alta-costura e decidiu ficar, a fim de aprender como se organizavam o sistema de moda moderno e a cadeia produtiva do processo criativo. Depressa arranjou trabalho, no qual praticou desenho técnico, aperfeiçoou técnicas de confecção e bordado, aprendeu estratégias de marketing e métodos de trabalho e viu a possibilidade de realizar os seus próprios projectos.

Rosa Genoni regressou a Itália em 1888, quando ainda se reproduziam os modelos parisienses. Empregou-se na Casa Bellotti como especialista de vestidos de luxo para a sociedade elegante que frequentava o Teatro La Scala. Porém, não ignorou as difíceis condições de trabalho das operárias e costureiras, dedicadas à confecção desses produtos de luxo. Militante da Liga Promotora dos Interesses Femininos, fundada em 1881 por Anna Maria Mozzoni (1837-1920), empenhou-se na luta reivindicativa dos direitos das operárias. A defesa desta causa levou Rosa e Anna a participarem no Congresso Socialista de Zurique, em 1893. Foi na revista La Difesa della lavoratrici2, o primeiro periódico italiano das mulheres socialistas, que Rosa defendeu o socialismo e o pacifismo e reivindicou os direitos das mulheres e das crianças.

Em 1895, Rosa Genoni empregou-se na Maison H. Haardt & Fils, que a enviava a Paris duas vezes por ano, para comprar modelos franceses. Quando passou a directora, começou a apresentar modelos originais inspirados na tradição cultural e artística italiana. Empenhada em divulgar a ideia de uma moda nacional, elaborou um projecto pedagógico que aplicou na Scuola Professionale Femmenile dell’Umanitaria de Milão, onde assumiu a direcção da secção de corte e costura e a docência da História do Traje Italiano, funções que exerceu até 1933, quando se demitiu para não ter de jurar fidelidade ao regime fascista.

A Exposição Internacional de Milão de 1906 foi o momento ideal para Rosa Genoni apresentar oficialmente as suas ideias sobre uma moda de matriz nacional na Secção do Vestuário Feminino. Numa primeira mostra, expôs oito vestidos, inspirados nas obras de Botticelli, Bramante, Donatello, Raffaello, Tiziano e Veronese; após um incêndio que destruiu vários pavilhões, inclusive parte da sua colecção, realizou outra exposição, mais modesta, com modelos inspirados em Botticelli, Ghirlandaio, Mantegna, Pisanello e Raffaello. A sua proposta inovadora mereceu o Grande Prémio de Artes Decorativas, atribuído por um Júri Internacional da Exposição, e os elogios de importantes críticos de arte e dos seus contemporâneos. Entre os modelos apresentados, destacou-se o vestido Primavera, inspirado na personagem Flora, da Alegoria da Primavera, de Botticelli. Decorado com bordados naturalistas e tridimensionais, foi o mais elogiado, tornando-se um ícone da moda italiana, hoje exibido no Palácio Pitti, em Florença.

Rosa Genoni sabia que a moda estava intimamente ligada à identidade de um povo e de um país. Para concretizar o seu projecto de uma moda made in Italy, havia que conferir-lhe uma identidade própria, inspirada na herança da cultura clássica, da tradição artesanal e da arte no Renascimento. Nikolina Konjevod (2024) salienta que ela entrelaçou um estilo moderno com a expressão artística e o rigor técnico, jogando com a relação entre moda e arte e utilizando ambas como expressões da criatividade e da identidade cultural italiana. A divulgação destas ideias passava pelos modelos que apresentava, vestindo figuras prestigiadas da aristocracia, da cultura e do espectáculo, mas também pela sensibilização dos industriais do têxtil e do vestuário e ainda pela escrita nas revistas de moda L’Eleganza, Margherita, Vita d’Arte e Vita Femminile Italiana. Porém, foi com a obra Per una moda italiana: Modelli, Saggi, Schizzi di Abbigliamento Femminile: 1906-1909, publicada em 1909, que lançou a matriz de uma moda made in Italy. No mesmo ano, graças ao seu empenho e tenacidade, nasceu o Primeiro Comité Promotor de “uma Moda de Pura Arte Italiana”, patrocinado por figuras da alta aristocracia e apoiado por notáveis empresários das indústrias do sector. Entre 1908 e 1912, Genoni alcançou grande sucesso, assinalado na imprensa nacional e internacional, com amplo espaço concedido às suas propostas que revolucionaram o design da alta-costura.

O activismo feminista, pacifista e social

Em Abril de 1908, Rosa Genoni participou no I Congresso Nazionale delle Donne Italiane, em Roma, discursando na secção Arte e Literatura Feminina, a favor de uma moda nacional. Entrelaçando feminismo, moda e trabalho feminino, salientou que o sentido da arte e da beleza era um património do engenho italiano que devia ser reconhecido e valorizado para a afirmação estética dos vários ramos das artes decorativas. Mostrou-se confiante no renascimento das indústrias artesanais complementares do vestuário feminino e no crescimento das escolas profissionais e preconizou a união entre associações femininas, institutos, artistas e artífices, em prol de uma moda de pura arte italiana (Taricone, 2001). Envergando o vestido Tanagra, distinguiu-se pela modernidade e sofisticação, foi muito aplaudida, e a princesa Letícia Bonaparte quis conhecê-la e ouvi-la sobre os seus projectos.

Com o eclodir da Grande Guerra em 1914, perante a opção intervencionista ou neutralista, Rosa Genoni não teve dúvidas. Na Conferência “La donna e la guerra” deixou clara a posição pacifista, afirmando que às mulheres competia baterem-se pela paz e pela neutralidade. Para reforçar a sua posição, traduziu o opúsculo de Henri Lambert “La Guerra Europea - Un altro aspecto della questione e la sua soluzione”, o que lhe valeu um aviso sério da polícia. Entretanto, com a chegada a Milão dos primeiros refugiados da guerra, vindos sobretudo da Bélgica, fundou a Pro Umanità para lhes prestar os primeiros socorros. Acolheu-os no Pavilhão Bonomelli e na Umanitária e promoveu campanhas de sensibilização, concertos e espectáculos para angariar donativos para os refugiados, os prisioneiros e os órfãos de guerra (Schiavon, 2015).

Em 1915, Rosa Genoni participou no Congresso Internacional das Mulheres, promovido pela International Women Suffrage Aliance realizado em Haia, para debater os meios de alcançar a paz, a justiça e a igualdade de direitos políticos. Fez parte da mesa inaugural do Congresso, ao lado das mais eminentes figuras do feminismo internacional. Estiveram representadas 150 organizações feministas, com 1136 delegadas e 300 visitantes e observadoras de doze países neutros e beligerantes. Sob a presidência da sufragista Jane Addams (1860-1935), o Congresso aprovou vinte resoluções que que defendiam a arbitragem internacional na resolução dos conflitos, o controlo democrático das relações internacionais, a abolição do direito de conquista em favor do direito dos povos à autonomia, a redução dos armamentos, a criação de um organismo internacional com mediação permanente e a inclusão e participação das mulheres em todas as decisões políticas. A fim de reatar os laços do internacionalismo feminista e derrotar o nacionalismo exacerbado que incendiava a Europa, foi criada a Comissão Permanente pela Paz Futura que, em 1919, se transformou na Women’s International League for Peace and Freedom (WILPF). Rosa Genoni e Rosika Schwimmer (1877-1948) propuseram que as resoluções do Congresso fossem apresentadas aos governos da Europa e dos EUA, a fim de os pressionarem a negociar a paz. Nos meses seguintes, Rosa Genoni, Rosika Schwimmer, Chrystal Macmillan (1872-1937) e Jane Addams concretizaram esta missão diplomática, acreditando que o seu esforço resultaria numa paz justa e duradoura. Após o fim da guerra, Genoni continuou a luta pacifista. Participou nos Congressos de Zurique e de Viena, realizados pela WILPF para acompanhar as negociações dos Tratados da Paz, tendo sido escolhida como delegada oficial à Conferência de Paris (Monteiro, 2019, 2022)

À semelhança do que aconteceu noutros países beligerantes, Rosa Genoni não foi bem recebida no regresso a Itália. As pacifistas, acusadas de derrotismo e de traição à Pátria, foram perseguidas, presas ou exiladas. Apesar da vigilância apertada, ela não hesitou em criar o comité italiano da WILPF, com a sede na sua casa, onde promoveu iniciativas com a Secção Feminina do Partido Socialista e manteve contactos internacionais. Empenhada numa educação pacifista, organizou uma Escola de Verão com cursos para jovens e adultos. Em 1922, amargurada e triste com a situação política do país, comunicou a Emily Balch (1867-1961), secretária da WILPF, que, por razões de segurança, anularia a Escola de Verão desse ano. Os fascistas tinham destruído o local onde iria decorrer e impunham a substituição de alguns oradores, cujas ideias eram contrárias ao regime. O evento foi transferido para Lugano, na Suíça, com a participação dos oradores convidados, entre os quais se contavam Bertrand Russel, Gaetano Salvemini, Hermann Hesse e Hermann von Brackenburg Baravalle.

Na década de 1920, Genoni e o marido, o advogado Alfredo Podreider, financiaram a instalação e funcionamento de uma Oficina de Costura e Malhas na prisão feminina San Vittore, em Milão. Seguiram-se uma clínica de ginecologia e obstetrícia e o Asilo Nido para acolher as parturientes e as crianças nascidas na prisão, estruturas sociais que funcionaram até à II Guerra Mundial.

Rosa Genoni foi uma mulher de causas. A par da revolução na moda italiana, formou gerações de profissionais, foi militante socialista, feminista e pacifista, defendeu a educação e a emancipação das mulheres e empenhou-se na construção de uma sociedade mais justa e democrática. Por fim, seguiu com interesse o projecto de uma Federação Europeia e, em 1948, participou nos encontros dos apoiantes desta ideia, por almejar uma paz duradoura entre os povos e os países.

Referências

Manferdini, S. (2023, 29 de Agosto). Rosa Genoni, la sartoria artistica e l’origine del Tanagra. Andare oltre l’abito, la moda como discorso sociale. Harper’s Bazaar. https://www.harpersbazaar.com/it/cultura/costume/a44709225/rosa-genoni-storia/Links ]

D’Errico, E. (2024, 1 de Maio). La donna che odiava i corsetti. Racontare Rosi. https://www.raccontarerosi.com/l/la-donna-che-odiava-i-corsetti-di-eleonora-d-errico/Links ]

Lolla, M. G. (2019). “All that is solid melts into air, all that is holy is profaned”: The secular modernity of Rosa Genoni. Oblio. Osservatorio Bibliografico della Letteratura Italiana Otto-novecentesca, 36, 139-156. [ Links ]

Genoni, R. (1909). Per una moda italiana: Modelli, Saggi, Schizzi di Abbigliamento Femminile: 1906-1909. Alfieri & Lacroix. [ Links ]

Konjevod, N. (2024, 13 de Maio). Pioneer of Italian fashion: Artist-designer Rosa Genoni. Daily Art Magazine. https://www.dailyartmagazine.com/fashion-artist-designerLinks ]

Monteiro, N. (2019). Falar de paz em tempo de guerra. Feminismo, pacifismo e nacionalismo. Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, 41, 67-85. [ Links ]

Monteiro, N. (2022). A Mobilização das Mulheres Portuguesas durante a Grande Guerra (1914-1918) [Tese de doutoramento, Universidade Nova de Lisboa]. RUN. http://hdl.handle.net/10362/147307Links ]

Paulicelli, E. (2015). Rosa Genoni. La moda è una cosa seria: Milano Expo 1906 e la Grande Guerra. Deleyva Edittore. [ Links ]

Paulicelli, E. (2017a, 28 de Novembro). Draping the Feminist Revolution. On Rosa Genoni’s Tanagra Dress. VESTOJ Magazine. https://vestoj.com/draping-the-feminist-revolution/?curator=FashionREDEFLinks ]

Paulicelli, E. (2017b). GENONI, Rosa. Enciclopedia Dizionario Italiano. In Dizionario Biografico degli Italiani. https://www.treccani.it/enciclopedia/rosa-genoni_%28Dizionario-Biografico%29/Links ]

Schiavon, E. (2015). Interventiste nella Grande Guerra. Assistenza, propaganda, lotta per I diritti a Milano e in Italia. Mondadori Education. [ Links ]

Taricone, F. (2001). Il Consiglio Nacionale delle Donne Italiane. In G. Accardo (Coord.), La ‘questione femminile’ dall’Unità d’Italia a Giolitti. Universitá di Roma Tre. http://www.donneconoscenzastorica.it/vecchio/testi/accardidonne/actutconsigliog.htm Links ]

1 Rosa Genoni inspirou-se nas figuras femininas de terracota de Tanagra, cidade da Beócia na Grécia Antiga.

2Este periódico pode ser consultado online na Biblioteca Gino Bianco. https://www.bibliotecaginobianco.it/?e=flip&id=75

Recebido: 28 de Julho de 2025; Aceito: 09 de Setembro de 2025

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