Women, the Arts, and Dictatorship in the Portuguese-Speaking Context: Tensions, Disputes, and Post-Memory Heritage é um volume de ensaios editado pela De Gruyter que, como refere o título, tem como mote central mulheres artistas e escritoras em Portugal, Brasil e países africanos de língua portuguesa, bem como os contextos ditatoriais, racistas, coloniais e patriarcais e as tensões, conflitos e heranças pós-memória individuais e coletivas. O livro abre com o poema Experiências e Evidências de uma das maiores vozes da poesia portuguesa, Ana Luísa Amaral, académica e ativista dedicada às causas da igualdade e da solidariedade social, falecida prematuramente em 2022, quando já se encontrava em curso o projeto do livro. Os onze ensaios de colaboradores de diferentes geografias e disciplinas como as artes visuais, a crítica literária e os estudos do cinema, analisam e reconfiguram os paradigmas históricos europeus, a partir de uma perspetiva multidisciplinar, interligando temas como arquivo (Merewether, 2006), memória material e imaterial, pós-memória (Ribeiro & Ribeiro, 2016), resistência, autoafirmação e trauma, tendo como eixo estruturador os estudos feministas e os estudos pós-coloniais e decoloniais (Renzo, 2019).
Este volume tem como público-alvo académicos, críticos, estudantes, agentes culturais e comunidade em geral, com interesse na criação de mulheres artistas em contexto lusófono, estudos pós-coloniais e decoloniais, estudos feministas. São também temas da obra os traumas, tensões, disputas e pós-memória, ainda hoje presentes nas nossas identidades, e o profundo impacto da repressão política, da ditadura, da guerra colonial e do seu silenciamento histórico, nas mulheres artistas (Macedo et al., 2022).
Na Introdução (pp. 1-7), por Ana Gabriela Macedo, Márcia Oliveira, Joana Passos e Margarida Esteves Pereira, são colocadas as questões centrais deste livro: De que forma as artes, nos diversos foros da produção criativa, enfrentaram esses regimes, que censuravam e reprimiam o fazer artístico? Que semelhanças e estratégias se podem identificar nas intervenções artísticas nos diferentes países, com o intuito de denunciar os regimes e promover a consciência crítica do público?.
No ensaio “Unfinished Heritages: Artistic Portuguese Post-Memory Conversations about Dictatorship and Colonial Heritage” (pp. 11-25), Margarida Calafate Ribeiro reflete sobre a pós-memória complexa dos retornados, dos filhos das Guerras Coloniais e da ditadura, a partir da interpelação de três obras: a instalação “Penélope” (2000), de Ana Vidigal, o filme “Conakry” (2013), de Filipa César, que integra uma performance de Grada Kilomba, e o “Caderno de Memórias Coloniais” (2015), de Isabela Figueiredo (p. 22). No ensaio “Postcolonial and Decolonial Feminisms: Archaeologies, Tensions, Disputes” (pp. 27-47), de Elena Brugioni, é abordada a genealogia dos estudos pós-coloniais, que se afirmam nas academias euro-americanas a partir de 1980 com autores como Edward W. Said, e se impõem no campo do feminismo com Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser (p. 27); na sua derivação latino-americana, destaca-se o pensamento decolonial de teóricos como Françoise Vergès e Walter Mignolo, que reprovam o eurocentrismo dos estudos pós-coloniais e privilegiam vozes e saberes locais.
Ana Paula Ferreira, no ensaio “From Fiction to Activism: Rounding out the Memory of Maria Lamas” (pp. 49-62), reflete sobre a vida e a obra da escritora e jornalista Maria Lamas (1893-1983), defensora dos direitos das mulheres e ativista antifascista (p. 49). No seu estudo etnográfico pioneiro “As Mulheres do Meu País” (1948-1950), publicado no contexto da ditadura do Estado Novo, promove a solidariedade entre mulheres de todas as classes e origens regionais em fotografias desafiadoras do regime. No ensaio “Djaimilia Pereira de Almeida, The Telephones: A Tribute to the ‘Literary Genre of the Diaspora’ and the Reinvention of a Narrative Poetics” (pp. 63-75), de Ana Gabriela Macedo, é analisado o livro “As Telefones” (2020) da escritora portuguesa de origem angolana. No texto, Solange e Filomena, respetivamente mãe e filha, procuram preencher o vazio corpóreo e a separação física e cultural (p. 66), celebrando uma cultura da intimidade como forma de resistência à cultura dominante que prima por negá-las e reduzi-las ao silêncio (p. 73).
O ensaio “Post-Utopia, Post-Conflict Literary Trends in Twenty-First-Century African Literatures: The Cases of Ana Paula Tavares and Conceição Lima” (pp. 77-100), de Joana Passos, centra-se nas escritoras Ana Paula Tavares (Angola) e Conceição Lima (São Tomé e Príncipe), que representam uma contrapartida às referências eurocêntricas (p. 77). Na sua escrita surgem novas tendências, como a recuperação de mitos antigos ou figuras históricas silenciadas, a evocação de saberes, ritos e rituais antigos locais, a autoafirmação cultural e o imaginar de futuros diferentes (p. 80). No ensaio “An Independent Spirit”: The Work of Sarah Affonso (1899-1983) and the Changing Cultural Terrain of Mid-Twentieth-Century Portugal” (pp. 101-113), de Ellen W. Sapega, é analisado o percurso artístico da pintora à luz do contexto sociopolítico (p. 104). Affonso foi uma das poucas artistas a serem incluídas no cânone da história da arte portuguesa deste período (p. 101), tendo iniciado a sua carreira durante a época da República (1910-1926), quando as mulheres começaram a adquirir uma maior liberdade e direitos. Mais tarde, no final dos anos 1930, já no período da ditadura do Estado Novo, deixou de pintar pela falta de apoio, o que torna evidentes os constrangimentos impostos a mulheres artistas pela sociedade patriarcal (p. 112).
No ensaio “Inventing a Language of Her Own: Writing in Teresinha Soares’ Artistic Practice” (pp. 115-127), Giulia Lamoni analisa a obra “Eurótica” (1970), e alguns textos da publicação “Acontecências: Crónicas dos Anos 60, 70 e 80” (2017), da artista brasileira. A sua obra multifacetada questiona o papel da mulher numa sociedade patriarcal em transformação e reivindica um direito ao prazer feminino, à sexualidade e à liberdade, antecipando as relações entre arte e movimentos feministas no Brasil no final dos anos 1970 e início dos 1980 (p. 116), e desafiando o statu quo repressivo dos anos de chumbo ditatoriais no Brasil (1968-1974) (p. 5). Márcia Oliveira, no seu ensaio “Poetics of Survival: (Critical) Process and Archive in Rosana Paulino’s ¿História Natural?” (pp. 129-144), analisa este livro de artista, de 2016. Oliveira entende o arquivo original do qual Paulino se apropria criativamente, como fundador do imaginário colonial e imperial que continua a funcionar na cultura e identidades dos territórios anteriormente colonizados (pp. 137-138). Em simultâneo, o arquivo recriado por Paulino é compreendido como um processo crítico e prática material que reinterpreta e questiona narrativas visuais históricas e científicas, coloniais e patriarcais, do passado e do presente, utilizadas como instrumentos para legitimar o regime.
O ensaio “Bertina Lopes: Cartographic Notes on a Transnational Artist” (pp. 145-165), de Maria Luísa Coelho, tem como foco principal a obra desta artista moçambicana, pioneira da pintura africana contemporânea, que só recentemente, devido ao esforço feminista, tem vindo a ser divulgada e estudada (p. 145). Segundo Coelho, é necessária uma perspetiva cartográfica crítica, transnacional, mais inclusiva em relação à análise tradicional determinada por fronteiras nacionais e cronologias mas sem omitir as suas especificidades culturais e as diferenças, que adote um processo de descolonização concetual (p. 160). Margarida Esteves Pereira, no ensaio “Archival images of the Estado Novo in Portuguese Film: A Gendered Perspective in Brandos Costumes [Alberto de Seixas Santo] (1975), Natal 71 [Margarida Cardoso] (1999) and Natureza Morta [Susana de Sousa Dias] (2005)” (pp. 167-186), analisa a forma como imagens de arquivo, forjadas num regime ditatorial, podem ser apropriadas pelos realizadores para, a partir de uma perspetiva crítica de género, criticar esse regime e contribuir para o não esquecimento (pp. 168-169). O arquivo é entendido como uma estrutura de poder de um determinado regime, uma construção social que não é universal nem permanente, um dispositivo aberto para as interpretações e contextualizações sempre novas que lhe podemos atribuir (pp. 183-184).
Rui Miranda, no seu ensaio “Yvone Kane, Memory, Mourning, and Melancholia: Unresolved Pasts and ‘Lost Futures’” (pp. 187-212), discute o modo como a realizadora Margarida Cardoso revisita neste filme processos de memória, luto e melancolia, num país africano pós-colonial e neoliberal, sem nome, onde as ideologias dos sonhos comunistas já findaram e os fantasmas do período colonial ainda assombram. O passado do papel das mulheres na história da libertação é revisitado e interrompe as narrativas históricas falocêntricas, quando a personagem Rita recupera a história de Yvone Kane, uma mulher líder do movimento anticolonial, assassinada em circunstâncias suspeitas após a independência (p. 208).
Por último, salienta-se que a obra Women, the Arts, and Dictatorship in the Portuguese-Speaking Context é um valioso contributo para o conhecimento aprofundado das mulheres artistas e escritoras no contexto lusófono em regime de ditadura, em matéria das artes, dos estudos feministas e do pós-memória, constituindo uma ferramenta fundamental para o seu entendimento e para a urgência de recordar, entre as gerações mais novas, aqueles que lutaram contra a ditadura, bem como o valor e a alegria da liberdade.













