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Motricidade

versão impressa ISSN 1646-107X

Motri. vol.13 no.spe Ribeira de Pena abr. 2017

https://doi.org/10.6063/motricidade.12875 

ARTIGO DE REVISÃO

 

A constituição dos saberes escolares da saúde no contexto da prática pedagógica em Educação Física escolar

 

The constitution of school health knowledge in the context of pedagogical practice in School Physical Education

 

João Paulo Oliveira1,2; Kadja Michele Ramos Tenório2,3; Andréa Carla de Paiva2,4; Sérgio Luiz Cahu Rodrigues2,4; Rodrigo Falcão Cabral de Oliveira2; Marcilio Souza Júnior2,*

1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco, IFPE, Garanhuns, Brasil.
2 Universidade de Pernambuco. Escola Superior de Educação Física, ESEF, Recife, Brasil.
3 Secretaria de Educação de Pernambuco, SEDUC-PE, Recife, Brasil.
4 Universidade Federal Rural de Pernambuco. Recife, Brasil

 

 


RESUMO

Neste estudo, objetivamos analisar como se caracteriza a produção científica acerca da constituição dos saberes escolares relacionados à saúde, tomando por campo investigativo, estudos vinculados ao contexto da prática pedagógica, em periódicos brasileiros da Educação Física. Metodologicamente este estudo caracteriza-se como uma revisão sistemática de abordagem qualitativa. No processo de análise dos dados, recorremos à Análise de Conteúdo categorial por temáticas, elegendo as categorias seleção, organização e sistematização como referenciais, tanto para os dados analíticos quanto para os da revisão. A análise dos estudos evidenciou na seleção, aproximações a abordagens da saúde centradas em abordagens preventivas, assim como à uma dimensão ampliada de saúde, referenciada na saúde coletiva, apresentando grande destaque para a os saberes da atividade física. Na organização, pôde-se perceber a apresentação da saúde enquanto objeto principal, tema transversal e conteúdo subjacente, em quadros ora de predominância, ora de alternância entre uma ou outra interpretação acerca da tipologia do saber a ser tratado em cada segmento de ensino. Na sistematização, ficaram evidentes diferentes formas de procedimentos metodológicos. No entanto, apenas entre os estudos que evidenciaram explicitamente como se deu o processo de sistematização, ficou clara a aproximação a referenciais teóricos para a linha de ação desenvolvida.

Palavras-chave: Educação Física – Saúde - Escola


ABSTRACT

In this study, we aimed to analyze how scientific production characterizes school related to health knowledge, mostly based in pedagogical practice studies of Brazilian Physical Education periodicals. Methodologically, this study is characterized as a systematic review of a qualitative approach. In the process of data analysis, we used Categorical Content Analysis by themes, choosing the categories selection, organization and systematization as reference, both for the analytical and the review data. The analysis of the studies evidenced measures of health centered on preventive approaches, as well as to an expanded health dimension, referenced as collective health, presenting great emphasis to the knowledge of physical activity. In the organization, it was possible to perceive health as the main object, cross-theme and underlying content, in a frame of predominance, or alternation between one or another interpretation about the type of knowledge to be discussed in each segment of education. In systematization, different forms of methodological procedures became evident. However, only among the studies that explicitly demonstrated how the systematization process took place, it was clear the approach to theoretical frameworks of the developed action.

Keywords: Physical Education, Health, School


 

INTRODUÇÃO

Em sua dinâmica como objeto de reflexão, os modelos explicativos acerca da saúde expressam-se concatenados entre contextos sociais de ordem econômica, política, filosófica e cultural em diferentes momentos da humanidade, situando-se do ponto de vista histórico, mas não necessariamente obedecendo ao critério estanque do determinismo cronológico (Barros, 2002; Restrepo, 2001; Scliar, 2007)

Em estudos da historiografia da saúde (Barros, 2002; Scliar, 2007) pode-se perceber que a percepção da humanidade acerca do processo saúde-doença, enquanto fenômeno, aponta indícios de que os saberes que lhe dizem respeito não são apenas acumulados e sistematizados historicamente. Seu uso perpassa pela reapropriação, quando não do uso integral, de determinados métodos e formas de lidar com o aspecto do cuidado individual e coletivo. Um exemplo disso é a concepção mágico-religiosa, originada no período pré-histórico e persistente até os dias atuais entre as comunidades indígenas mais afastadas nas quais a figura do pajé ou xamã é a autoridade no estabelecimento da relação entre os planos terrestre e astral na busca pela saúde e/ou reestabelecimento diante das enfermidades, tanto individuais quanto coletivas.

Ao analisar o que caracteriza a especificidade da Educação Física como esfera do conhecimento articulada historicamente ao campo da saúde, reconhecemos a pertinência da discussão acerca da constituição dos saberes escolares em seu contexto.

Tal conformidade se evidencia, à medida que a análise de estudos sobre a história da Educação Física brasileira aponta que, em diferentes momentos e contextos, a saúde, como objeto de conhecimento, especificamente a partir dos referenciais oriundos dos campos médico, militar (Almeida, Oliveira, & Bracht, 2016; Soares, 2004) e esportivo (Castellani Filho, 2010) marcou, e ainda marca, a identidade da disciplina no Brasil.

Em meados do século XIX abordar a saúde nas aulas Educação Física, tinha como um dos principais objetivos o cultivo de corpos belos, fortes, ativos e higiênicos, pelo uso dos horários escolares para o aprimoramento físico, através da Ginástica (Bezerra, 2011; Soares, 2004; Vago, 1999). No início dos anos 40 do século seguinte a ênfase se deu no ensino do Esporte como via de aquisição de saúde através da aptidão atlética (Almeida, Oliveira, & Bracht, 2016). No cenário de redemocratização do país, ao final dos anos 80 do século XX, observou-se uma série de críticas em busca da ruptura com tais paradigmas, baseando-se na análise da função social da Educação Física e da Escola como um todo. Instaurou-se um cenário de crise epistemológica (Bracht, 2007) consolidada nos anos 90 desse século e que se ampliou nos anos 2000, a partir da disseminação de estudos voltados à busca por alternativas metodológicas para o ensino da Educação Física.

Neste contexto, merecem destaque algumas abordagens que, embora convergissem na ruptura com o aspecto predominantemente biologicista da disciplina, compreendiam explícita ou implicitamente sua relação e objetivos para com o ensino sobre a saúde sob diferentes concepções: como elemento relacionado à aptidão física (Guedes & Guedes, 1994; Nahas & Corbin, 1992) ou como um conteúdo de caráter sociopolítico (Farinatti, 1994; Ferreira, 2001; Soares et al, 2014). A partir de então, alguns estudos, tais como os de Darido, Rodrigues, e Sanches Neto (2007) e Martins, Pereira, e Amaral (2007) buscaram analisar como tem se caracterizado a produção de conhecimento no tocante à temática da saúde como conteúdo a ser tratado nas aulas de Educação Física.

Tais estudos revelaram a necessidade de reflexões mais aprofundadas acerca dos rumos da produção acerca do tema, sobretudo, no que diz respeito à superação do caráter epidemiológico/descritivo das pesquisas que discutem a saúde no contexto da Educação Física escolar.

Passados quase dez anos da produção de tais estudos, vemos como interessante mapear a atualidade da discussão sobre o tema, no sentido de compreender seus rumos e as possíveis mudanças geradas desde então. Sendo assim, objetivamos analisar como tem se caracterizado a produção científica acerca da constituição dos saberes escolares relacionados à saúde na Educação Física escolar, tomando por campo investigativo, estudos vinculados ao contexto da prática pedagógica, em periódicos brasileiros da Educação Física.

 

MÉTODO

Este estudo se caracterizou como uma revisão sistemática. Ferramenta de pesquisa que, mediante uma problemática de investigação, utiliza-se da reunião de dados da literatura, através da aplicação de métodos explícitos e sistematizados de busca, os submete ao minucioso processo de apreciação crítica de seu conteúdo, e posteriormente disponibiliza uma síntese dos achados com indicação para realização de estudos futuros acerca da temática selecionada (Bento, 2014; Cordeiro et al, 2007; Gomes & Caminha, 2014).

A problemática que orientou nossa revisão pautou-se na configuração das pesquisas realizadas acerca do tema, nos referenciais teóricos norteadores, bem como no processo de constituição dos saberes escolares em questão. As questões problemas que orientaram nossa revisão foram: qual a configuração dos artigos realizados acerca da constituição dos saberes escolares relacionados à saúde? Quais os referenciais teóricos norteadores? Como se dá o processo de constituição desses saberes escolares?

Utilizamos como base de dados, os periódicos da Educação Física, a partir do sistema WebQualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), tomando como critérios de inclusão: estar classificado nos estratos A1, A2, B1, B2, B3 e B4; ser periódico brasileiro e disponível em Língua Portuguesa; e apresentar em seu escopo, afinidade com temáticas inerentes aos debates pedagógicos da Educação Física. A partir destes critérios, identificamos um total de 23 periódicos.

No entanto, observou-se que da totalidade dos periódicos escolhidos, 9 foram excluídos (Tabela 1) pelos seguintes motivos: endereços fora do ar, links que redirecionavam a outros endereços, periódicos que não permitiam a busca a partir dos descritores indexados, e mesmo quando permitiam, não apresentavam artigos que atendessem aos critérios de inclusão propostos neste estudo.

Com isso, chegamos a um total de 14 periódicos passíveis de servir enquanto base de dados para o nosso estudo (Tabela 2).

Para a seleção dos artigos, a busca foi realizada de maneira independente por 2 pesquisadores, entre os meses de fevereiro e março de 2015, considerando-se como critérios de inclusão: disponibilidade dos textos em versão digital, completa e gratuita em língua portuguesa; ter como eixo de discussão a abordagem da saúde no contexto da Educação Física escolar. Foi critério de exclusão: resumos de teses, ou dissertações e ter sido publicado entre 2008-2014.

No processo de busca pelos artigos, utilizamos as seguintes combinações de descritores por meio do operador booleano AND: Educação Física AND Saúde AND Escola; Saúde AND Escola; e Educação Física AND Saúde. Utilizamos também o símbolo de truncamento (*), recurso de busca que teve por função localizar artigos iniciados em Saúd*, no sentido de refinar ainda mais o processo de busca pelos textos. Nesta busca inicial identificamos um total de 99 artigos.

Em seguida, procedemos com a leitura de seus títulos e resumos, em caso de dúvidas recorremos à leitura completa do texto. Assim dos 99 artigos, um total de 8 atenderam a todos os nossos critérios (Tabela 3).

Dentre os critérios que motivaram a exclusão dos outros artigos, merecem destaque: a) publicação fora do intervalo de tempo estimado (30); b) ser revisão/ensaio/resenha/editorial (30); c) configurar-se como estudo de natureza epidemiológica ou descritiva para além da escola (23); d)Abordar pontos de vista de estudantes sobre a Saúde na Educação Física (6); e) fuga ao tema em questão (1); f)resumo de tese ou dissertação (1).

No momento da escolha pelos periódicos, tomamos por referência as suas posições no estrato do sistema de avaliação Qualis da CAPES , bem como seus títulos e escopos. No caso dos artigos, procedemos com a leitura de seus títulos, palavras-chave, resumos e, em persistindo a dúvida, na leitura completa do texto acompanhada por mais um terceiro ou quarto revisores.

Neste estudo a análise das evidências apresentadas pelos artigos selecionados se deu a partir de uma abordagem qualitativa, que segundo Minayo (2010), busca a explicação dos fenômenos apresentados em suas relações, trabalhando com “[...] o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes,” (p. 21) apresentados pelos dados de uma pesquisa.

Para tal, nos subsidiamos da análise de conteúdo categorial por temáticas, a qual constitui uma ação de desmembramento de textos ou mensagens, para posterior reagrupamento em categorias analíticas e empíricas (Bardin, 2011; Minayo, 2010, Souza Junior, Tavares, & Santiago, 2010). No contexto deste estudo, os processos de seleção, organização e sistematização dos saberes escolares a partir de Souza Junior (2001; 2009) foram tratados como categorias de análise.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos estudos que atenderam aos critérios de nossa pesquisa permitiu a constatação de algumas diferenças, na forma e no conteúdo dos estudos presentes nas pesquisas de Darido, Rodrigues, e Sanches Neto (2007) e de Martins, Pereira, e Amaral (2007). Estas características possibilitaram a observação de diferentes objetos/objetivos de pesquisa acerca do tema. No contexto das pesquisas selecionadas pelos autores supracitados, pôde-se perceber a presença majoritária de estudos de natureza epidemiológica, revisões e intervenções, que compreendiam a relação entre saúde e Educação Física escolar predominantemente a partir de sua dimensão biológica.

A análise dos estudos que atenderam aos critérios de nossa pesquisa permitiu subdividi-los, no que diz respeito aos tipos de estudos desenvolvidos, em investigações sobre a prática, intervenções e relatos de experiências. Entre os estudos de investigações sobre a prática, estamos considerando aqueles que se utilizaram de entrevistas com professores, no sentido de compreender a sua relação com a temática (Ferreira, Oliveira, & Sampaio, 2013; Zancha et al, 2013); os de intervenção foram aqueles que trabalharam com ideia de estudos experimentais e desenvolveram trabalho na lógica de grupos controlados em relação às características dos participantes, com fins experimentais e elaborado por sujeitos não pertencentes à realidade na qual se desenvolveu o estudo (Ribeiro & Florindo, 2010; Silva, 2011; Spohr et al, 2014); os relatos de experiências, por sua vez, disseram respeito àqueles que expuseram experiências sistematizadas no contexto da prática pedagógica, por professores pertencentes a redes de ensino (Maldonado & Bocchini, 2014; Pina, 2008)

No que tange às diferenças observadas a partir da leitura dos textos como um todo, descrevemos abaixo as particularidades expressas por cada estudo na sua relação com a temática. A partir do referencial teórico adotado, apresentamos como os estudos selecionados evidenciam o processo de constituição dos saberes escolares em saúde enquanto processo de seleção, organização e sistematização.

Segundo Souza Junior (2001; 2009) no contexto da constituição dos saberes escolares, a seleção se materializa através da busca em diferentes fontes, onde são feitas as opções referentes a quais conhecimentos da cultura geral que dizem respeito a determinado tema são passíveis ou não de serem tratados na escola evidenciando o estabelecimento de relevâncias para a escolha de um saber em detrimento de outro. Tais relevâncias, por sua vez, possibilitam a evidência de aproximações e distanciamentos em torno de que tipo de saberes o professor elege para abordar no chão da escola.

No que concerne à relevância atribuída para a abordagem da saúde (Tabela 4), a análise desenvolvida possibilitou o reconhecimento de estudos nos quais se evidenciou a escolha por uma relação com a saúde de ordem individual e natureza preventiva, amparada na mudança de comportamento frente às instâncias de risco como elemento fomentador à saúde (Ribeiro & Florindo, 2010; Spohr et al, 2014). Em contrapartida, outros estudos evidenciaram aproximações com outro modelo de abordagem acerca da saúde. Modelo este que, mesmo reconhecendo a importância dos comportamentos ligados aos aspectos individuais na relação saúde-doença, leva em consideração que esse também faz parte de um processo de determinações sociais, estabelecidas pelo contexto socioeconômico nos âmbitos coletivo e público (Ferreira, Oliveira, & Sampaio, 2013; Maldonado & Bocchini, 2014; Pina, 2008; Rufino & Darido, 2013; Silva, 2011).

(Tabela 5)

No que diz respeito à frequência dos saberes selecionados, a análise do todo possibilitou a constatação da primazia daqueles relacionados ao exercício físico/atividade física frente aos demais.

Dentre os estudos selecionados para esta revisão, a seleção de saberes voltados à atividade física e exercícios físicos foi o elemento mais evidente entre todos os estudos, apresentando diferenças quanto à relação estabelecida com o objeto da saúde, não apenas em virtude da metodologia da pesquisa, mas, como fruto da articulação entre o referencial teórico e o grau de relevância expresso para a seleção em cada contexto, de forma mais específica em alguns em relação a outros.

Em tais estudos, a especificidade da seleção da Atividade/Aptidão Física disse respeito à abordagem sobre o benefício de sua prática, tanto como elemento determinante para a saúde (Ribeiro & Florindo, 2010; Spohr et al, 2014), quanto como conhecimento imerso em múltiplas determinações – científica, sociológica, política, ideológica, filosófica - relacionadas ao processo saúde-doença, do qual a prática da Atividade Física faz parte (Pina, 2008).

Embora evidenciando outras perspectivas de saúde no contexto da seleção dos saberes escolares, nossos achados corroboram com os resultados trazidos pelos estudos de revisão de Darido, Rodrigues, e Sanches Neto (2007) e Martins, Pereira, e Amaral (2007), entre os quais se evidenciou que a discussão científica acerca da saúde no contexto da Educação Física escolar ainda guarda forte relação com abordagens pautadas maioritariamente nas dimensões biológicas da aptidão física. 

Martins, Pereira, e Amaral (2007) observaram que, como principal consequência da centralização do debate sobre a saúde na Educação Física nas dimensões da aptidão física, de natureza individual e biológica, em detrimento de outros aspectos como o social, a Educação Física descaracteriza-se frente à função social da escola como instância formativa, de cunho reflexivo, configurando-se como um fazer unicamente prático.

Estas mesmas autoras observaram que, apesar dos temas relacionados à saúde, aptidão física e qualidade de vida serem centrais nestes estudos, paradoxalmente, “os autores não realizam nenhuma discussão, reflexão ou diálogo com essas categorias. Os estudos e análises partem de categorias dadas a priori, seja por meio de tabelas e definições de órgãos governamentais, ou por dados levantados em estudos precedentes” (Martins, Pereira, & Amaral, p. 6).

Embora reconheçamos a importância e inerência acerca das instâncias biológicas que constituem a saúde, neste trabalho, procuramos entendê-la conforme o que Almeida, Oliveira, e Bracht (2016) denominam de deslocamento de uma perspectiva meramente biológica, centrada na aptidão fisico-fisiológica, rumo ao reconhecimento da complexidade das tramas que circunscrevem a vida.

Acompanhando a reflexão dos autores, compreendemos que esta ‘ampliação’ reconhece tais saberes como todo o arcabouço de conhecimentos que a humanidade mobiliza, usa, produz e reproduz na e para a realização de suas práticas cotidianas, no sentido de instrumentalizar-se para melhor se relacionar com o processo saúde-doença. Neste sentido, a saúde evidencia

a expressão da capacidade de um coletivo de criar e lutar por seus projetos de vida em direção ao tensionamento e à produção de normas que aumentem o poder de agir dos sujeitos para lidarem com as adversidades, desafios e riscos que o viver, inevitavelmente, nos impõe (Almeida, Oliveira, e Bracht, 2016 p.99).

Assim, a partir desta perspectiva, acreditamos que cabe à Educação Física em sua particularidade, articular tais saberes pela via da conexão entre os conhecimentos inerentes aos campos da saúde ampliada e da educação. Sob a forma manifesta das práticas corporais, a Educação Física pedagogiza tais saberes a partir do reconhecimento do currículo como recorte e produção específicos no interior da cultura geral. E isto implica no reconhecimento de que no contexto da saúde, os saberes transitam entre instâncias de ordem individual/biológica, mas também coletiva e pública, que se entrelaçam e se complementam mutuamente.

No que diz respeito à organização vemos em Souza Junior (2001; 2009) que, enquanto processo inerente à constituição dos saberes escolares, sua principal característica corresponde a atribuir aos saberes selecionados diferentes graus de tipologias, delimitações e quantidades, em virtude tanto das condições escolares, quando da intencionalidade do professor em tornar os saberes passíveis de compreensão e assimilação por parte dos estudantes.

No que concerne à tipologia dos saberes selecionados a análise realizada neste estudo permitiu que observássemos a evidência de três manifestações da saúde. Majoritariamente, pôde-se perceber concepções de saúde tanto como objeto principal, quanto como um tema transversal; e em menor quantidade, de forma subjacente.

Quando tratados enquanto objeto principal nas aulas de Educação Física, os conteúdos inseridos nos programas referem-se a determinantes predominantemente biológicos da saúde e do exercício, transpondo-se às aulas como justificativas de prevenção de determinados comportamentos considerados não-saudáveis (Souza Junior, 2001) como o sedentarismo e os hábitos alimentares inadequados, cuja prevalência entre o público jovem indica correlação com determinados grupos de doenças na idade adulta, especificamente doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, o diabetes e as cardiopatias.

Nesta abordagem, com base nas proposições de Nahas e Corbin (1992) e Guedes e Guedes (1994) é possível perceber o incentivo à prática da atividade física com fins voltados à aptidão física para a saúde durante, e após o período de escolarização, como sendo o objetivo principal da Educação Física escolar.

Já como tema transversal, a saúde apresenta-se como corpo de conhecimentos paralelos aos conteúdos tratados na escola, propondo conteúdos que sugerem o debate sobre a saúde em prol do desenvolvimento de atitudes saudáveis. No contexto destas atitudes, segundo os PCN (Brasil, 1998) podemos destacar a construção da autoestima e da identidade pessoal, o cuidado com o corpo, a nutrição e a valorização dos vínculos afetivos.

Neste contexto, na abordagem da saúde como tema transversal observa-se uma articulação entre as atividades corporais em instâncias como a recuperação, manutenção e promoção da saúde, considerando elementos como: benefícios, riscos, indicações e contraindicações para a prática do exercício e outras relacionadas à cultura corporal. Nestas considerações, um conjunto de conteúdos a serem sistematizados deve considerar elementos como o

[...] cotidiano postural, o tipo de trabalho físico exercido, os hábitos de alimentação, sono, lazer e interação social, o histórico pessoal de relação com as atividades corporais constituem um sujeito real que deve ser considerado na formulação de qualquer programa de saúde que envolva atividade física. (Brasil, 1998 p. 39)

A expressão da Saúde como conteúdo subjacente aos temas da Educação Física implica o seu reconhecimento como parte de um conjunto de conteúdos de natureza sociopolítica. Esta natureza segundo Soares et al (2014) se faz presente nos conteúdos abordados nas aulas à medida que tomamos como eixo da reflexão pedagógica a discussão contextualizada dos principais problemas emergentes em nossa sociedade, pois

[...] os temas da cultura corporal, tratados na escola, expressam um sentido significado onde se interpenetram, dialeticamente, a intencionalidade/objetivos do homem e as intenções/objetivos da sociedade. Tratar desse sentido/significado abrange a compreensão das relações de interdependência que jogo, esporte, ginástica e dança, ou outros temas que venham a compor um programa de Educação Física, têm com os grandes problemas sociopolíticos atuais como: ecologia, papéis sexuais, saúde pública, relações sociais do trabalho, preconceitos sociais, raciais, da deficiência, da velhice, distribuição do solo urbano, distribuição da renda, dívida externa e outros (Soares et al, 2014 p. 62).

Assim, a inclusão da saúde, enquanto conteúdo de natureza subjacente num programa de ensino em Educação Física, necessita que articulemos os conhecimentos da cultura corporal e da saúde, num sentido amplo, que não desconsiderando os elementos relacionados aos aspectos biológicos, mantenham relações com a dimensão social da saúde enquanto objeto de conhecimento (Carvalho, 2012)

No contexto de nossos achados, tais relações não se deram de forma determinista. O que se apresentou foram quadros, ora de predominância, ora de alternância, entre uma ou outra interpretação acerca da tipologia do saber a ser tratado na especificidade de cada segmento, conforme observado abaixo (Tabela 6).

No que tange à delimitação, constatamos que entre os estudos incluídos nesta pesquisa, apenas um apresentou proposições de tratamento de conteúdos para o Ensino Fundamental e Ensino Médio (Spohr et al, 2014) (12,5%), enquanto outros apresentaram conteúdos a serem abordados exclusivamente no ensino fundamental (Ferreira, Oliveira, & Sampaio, 2013; Maldonado & Bocchini, 2014; Ribeiro & Florindo, 2010; Zancha et al, 2013) (37,5%), apenas no ensino médio (Silva, 2011) (12,5%) e na Educação de Jovens e Adultos (Pina, 2008) (12,5%). Em apenas um dos estudos, o critério de organização não obedeceu a inserção da disciplina em séries ou modalidades de ensino, e sim, a idade dos estudantes (Rufino & Darido, 2010) (12,5%).

A análise dos textos também permitiu constatar que apenas três estudos (Pina, 2008; Rufino & Darido, 2013; Spohr et al, 2014) evidenciaram elementos indicadores acerca de como se daria o processo de organização ou delimitação dos saberes da saúde.

Em Spohr et al (2014) não houve explicitação de como os saberes da saúde deveriam ser articulados aos temas inerentes à Educação Física, cabendo ao professor, a partir de sua realidade a tarefa de “‘somar’ ao seu planejamento (e não substituir) o trato pedagógico de conteúdos relacionados à prática de atividade física e saúde” (Spohr et al, 2014 p. 301).

Aqui, cabe o reconhecimento de que o objetivo de possibilitar ao professor o papel de escolha acerca de qual tema da Educação Física deve articular-se aos saberes da saúde se constitui como um avanço, à medida que a relação ensino-aprendizagem acerca dos elementos da saúde implica o reconhecimento da territorialidade, inerente aos espaços nos quais estão situados os sujeitos da aprendizagem.

Ainda no que concerne à delimitação, percebemos que o texto de Ribeiro e Florindo (2010) apresenta limitações, à medida que, impossibilita a consecução dos objetivos traçados para a ação pretendida, pois “modificar comportamentos negativos associados ao aumento da obesidade em crianças e adolescentes” (Ribeiro & Florindo, 2010 p. 29) apenas em um conjunto de 14 aulas, implica em atribuir à Educação Física um papel complexo por demais. À medida que a mudança de determinados comportamentos, sobretudo no contexto de vida de determinados grupos em situação de risco social não tem como elemento determinante do processo de produção da saúde-doença apenas o interesse dos sujeitos, a saúde e passa a tomar como referência o acesso a informações, alimentação de qualidade, conquistas de direitos e condições para desfrutar do tempo livre, para o lazer e condições dignas de vida e trabalho (Brasil, 2008; Breilh, 1989).

Portanto, em virtude dos aspectos apresentados, o texto de Spohr et al. (2014) apresenta avanços na proposição de saberes a serem organizados. Contudo, contraditoriamente, à medida que imputa o papel de aumentar nível de atividades físicas e mudanças nos padrões alimentares dos estudantes - elementos circunstanciados pelos aspectos socioeconômicos, logo, determinados socialmente - a tal organização, incorre na mesma limitação apresentada por Ribeiro e Florindo (2010) implicando na possibilidade da não-efetivação dos objetivos almejados em sua proposição.

Neste ponto, o relato de experiência de Pina (2008) apresenta avanços, diante da evidência de uma organização que teve como pontos cruciais a articulação dos conhecimentos tratados com a prática social, enquanto pontos de partida e chegada e visando propiciar ao estudante a compreensão dos múltiplos determinantes que interferem na aquisição da saúde pela via do exercício físico.

Reconhecendo o que, segundo Souza Junior (2001; 2009) expressa o processo de sistematização, analisamos como os saberes selecionados e organizados passam a criar coerência com uma linha de ação, relacionada a princípios e procedimentos para o tratamento metodológico dos saberes na articulação professor - aluno no processo de socialização do conhecimento em aula. Para tal, apresentamos um panorama dos procedimentos metodológicos mais empregados na totalidade dos estudos selecionados (Tabela 7), seguida de uma análise em torno da coerência entre os objetivos, o processo de avaliação e o referencial que norteou cada abordagem (Tabela 8).

No que concerne à linha de ação apresentada, pudemos perceber que, dentre alguns estudos (Rufino & Darido, 2013; Zancha et al, 2013) não houve menção evidente sobre teorias ou abordagens pedagógicas para o ensino da saúde na Educação Física. Ainda assim, nestes estudos, foi possível observar procedimentos metodológicos voltados à abordagem do tema por meio de aulas expositivas, elaboração de pesquisas, criação de grupos de estudo em sala e fomento ao debate e experimentações corporais, como aquecimentos, exercícios aeróbicos localizados e caminhadas.

Dentre todos os textos selecionados, apenas o de Spohr et al (2014) não evidenciou como se deu a sistematização do ensino dos saberes da saúde nas aulas, situação que, embora não tenha aparecido de forma detalhada no estudo de Rufino e Darido (2013), permitiu a constatação do uso de leituras e resolução de exercícios presentes em um livro didático, enquanto com Silva (2011), utilizaram-se procedimentos tais como debates, pesquisas, tempestade de ideias e produção de material mediático audiovisual relacionado à uma abordagem crítica sobre a prática de atividade física e sua real relação com a saúde.

Na abordagem de Ribeiro e Florindo (2010) pôde-se perceber a busca pela abordagem dos saberes a partir das dimensões conceitual, procedimental e atitudinal dos conteúdos, condizente com sua aproximação aos PCN (Brasil, 1998). Como expressão da primeira dimensão, os autores relatam o incentivo à pesquisa sobre os locais apropriados para a prática de exercícios nas localidades e sobre a relação do exercício com e saúde e hábitos alimentares saudáveis, discussões que também aconteciam nas salas de aula.

Já a segunda dimensão materializava-se nos encontros, divididos em parte introdutória, que continha dinâmica de grupo e brincadeiras relacionadas ao conteúdo; parte principal, que consistia em discussões e debates; e parte final, que continha a realização de jogos, voltados a apreensão do conteúdo, e o estabelecimento de tarefas a serem realizadas em casa, voltadas à monitoração das atitudes em relação ao exercício e alimentação.

No contexto das atitudes, a terceira dimensão, os estudantes foram orientados a elaborar planos de ação, revisar e caso necessário, modificar seus hábitos diários,

[...] como caminhar até a escola ou preferir pratos coloridos, incluindo em suas refeições legumes e verduras e reduzir o tempo diário destinado a televisão, computador ou videogame [...] a revisar suas atividades diárias e seus hábitos alimentares, definindo metas e estratégias que os auxiliariam na adoção de um estilo de vida fisicamente ativo e uma alimentação saudável (Ribeiro & Florindo, 2010 p. 30-31).

Ao analisar a intervenção desenvolvida por Ribeiro e Florindo (2010) percebemos um confronto de lógicas na articulação entre objetivo e avaliação. Confronto este que, em nossa análise, se evidencia mediante a assunção dos PCN (1998) como referência para selecionar e organizar os saberes da saúde sob a lógica transversal, mas que, na sua sistematização recai numa ênfase comportamental, na qual as estratégias utilizadas concorrem para a memorização, assimilação descontextualizada e a reprodução de modelos, segundo Farias et al (2014).

Apenas considerando este dado, poderíamos compreender como equivocada a interpretação do documento por parte dos autores da intervenção. Contudo, a análise da abordagem da saúde trazida pelos PCN (Brasil, 1997; 1998; 2000) permite a constatação de que, embora o documento se paute numa compreensão de saúde em uma dimensão coletiva, aborda-a sob o viés comportamental, muitas vezes relegando ao indivíduo a responsabilidade sobre sua saúde e vendo o uso das instâncias públicas como fruto dos desleixos do cidadão, conforme apresentado no trecho abaixo, extraído do documento que versa acerca da saúde como tema transversal.

Interferir sobre o processo saúde/doença está ao alcance de todos e não é uma tarefa a ser delegada, deixando ao cidadão ou à sociedade o papel de objeto da intervenção “da natureza”, do poder público, dos profissionais de saúde ou, eventualmente, de vítima do resultado de suas ações (Brasil, 2000 p. 65)

Esta situação foi, inclusive, objeto de crítica no estudo de Cooper e Sayd (2006) por configurar-se como uma das principais fragilidades dos PCN ao abordar a saúde. Uma incoerência interna, na leitura dos autores, que se materializa à medida que o documento imputaria a cada indivíduo a responsabilização por suas condições de vida e saúde, omitindo o papel do estado neste processo, permitindo apropriações divergentes do conceito de saúde numa dimensão coletiva, elemento anunciado, mas não materializado na proposta.

No entanto entre os estudos que evidenciaram de forma mais explícita o processo de sistematização dos saberes escolares em saúde, pôde-se observar que houve aproximações entre os referenciais teóricos adotados aos objetivos e práticas desenvolvidos em cada ação pedagógica.

Dentre estes trabalhos, pudemos perceber em Pina (2008) que a sistematização dos saberes da saúde durante a unidade didática partiu da identificação do que os alunos já sabiam ou gostariam de aprender sobre o tema, a partir de perguntas tais como “o que vocês já sabem sobre exercício físico? Ele tem alguma relação com a saúde?” (Pina, 2008 p. 160) e de trabalhos em grupo, que serviriam de base para as aulas seguintes.

As ações didáticas desenvolvidas se destacaram diante do foco no diálogo professor-aluno durante toda a unidade, confrontando aquilo que os estudantes sabiam e o que aprenderam entre o início e o fim da unidade, a partir de trabalhos escritos e pesquisas. Nas aulas posteriores buscou-se, de maneira reflexiva, evidenciar principalmente os aspectos contraditórios/controversos inerentes à saúde, possibilitando a descortinação de dimensões não exploradas anteriormente.

Dimensão conceitual/científica: O que é atividade física? Por que devemos fazer atividade física? Quais os principais benefícios da prática correta e adequada de exercícios físicos? Dimensão econômica: Todas as pessoas possuem a mesma oportunidade de realizar atividade física? [...] Dimensão social: Todas as pessoas têm tempo para realizar atividade física? Quais são os principais problemas da comunidade que comprometem nossa saúde? (Pina, 2008 p. 163)

Outro elemento importante, foi a evidência da articulação entre os objetivos traçados e a avaliação sob a forma de intenções e propostas de ação, manifestas a partir de posturas práticas diante da relação com a saúde, como “Manifestar uma atitude favorável à prática de atividade física e à obtenção de saúde (intenção); Realizar atividade física nos momentos de lazer e reivindicar das autoridades competentes a erradicação dos fatores que comprometem a saúde da comunidade (proposta de ação)” (Pina, 2008 p. 166)

Em Maldonado e Bocchini (2013), a Saúde foi abordada a partir de uma dimensão crítica das práticas corporais. Contudo, isso se deu de forma pontual na abordagem do tema Esporte, utilizando-se de procedimentos como debates e aulas expositivas

[...] assistimos um documentário do canal Sportv que discutia sobre dor e lesão no esporte. Esse material trazia diversas entrevistas com atletas que ainda atuam no cenário nacional e internacional e alguns esportistas que já se aposentaram, discutindo principalmente como o esporte de alto nível causou dores, lesões e muitos machucados pelo corpo, mostrando que esse esporte competitivo não pode ser considerado saúde. [...] Em contrapartida, discutimos sobre a recomendação de atividade física para a saúde com os discentes, mencionando que as crianças devem realizar ao menos 60 minutos de atividades físicas, por pelo menos cinco dias na semana e os adultos devem praticar ao menos 30 minutos de atividades físicas, por pelo menos cinco dias na semana, com intensidade moderada. Explicamos aos alunos que praticar esporte pelo tempo correto e com intensidade moderada faz muito bem para a saúde (Maldonado & Bocchini, 2013 p. 153)

Embora fundamentados em abordagens metodológicas diferentes, a Crítico Superadora (Soares et al, 2014) e a Crítico Emancipatória (Kunz, 2004) fica clara, nos trabalhos de Pina (2008) e Maldonado e Bochinni (2013), uma abordagem crítica de saúde, à medida que, em suas ações pedagógicas, os autores buscaram, em maior ou menor grau, propiciar o exercício da problematização, análise, e posições e intervir de forma crítica e criativa sobre a realidade em discussão (Cooper & Sayd, 2006), de forma coerente com os referenciais teóricos que assumiram para a seleção e organização dos saberes escolares.

 

CONCLUSÕES

A partir da análise do processo de constituição dos saberes da saúde nos textos selecionados, constatamos que, muito mais que sua tipologia ou natureza, foram os usos e atribuições que o professor imprimiu aos saberes da saúde que definiram os rumos das ações pedagógicas. Esta análise se reforça, à medida que a materialização da constituição dos saberes escolares em saúde ratificou a presença de interfaces ora mais utilitárias, ora mais problematizadoras acerca do mesmo conteúdo, como a atividade física.

Outro elemento importante, disse respeito ao ainda elevado número de pesquisas de intervenção controlada, selecionando sujeitos de acordo com características etárias, de gênero ou outras. Não que desconsideremos sua necessidade e possibilidade de realização de intervenções. Contudo, considerando o ambiente dinâmico e heterogêneo que circunscreve a prática pedagógica em um ambiente como a Escola, a reprodutibilidade dos resultados de estudos com excessivo controle pode ser comprometida.

No que concerne aos avanços, percebemos o aumento de ações didáticas propositivas de um trato ampliado acerca da saúde, considerando elementos como sua relação com a mídia, os esportes de alto rendimento e sua interface com os determinantes socioeconômicos que circunscrevem a nossa existência.

Por fim, ressaltamos a necessidade de mais relatos de experiência oriundos da prática pedagógica, sobretudo em uma dimensão ampliada de saúde e Educação Física que abarque outras possibilidades de compreensão do fenômeno.

Tal necessidade se explica pela possibilidade de análises e contribuições para a prática de professores que, por dificuldades no contexto de sua formação, ou pela falta de aproximação com a discussão a respeito da saúde, possam vir a se sentir inseguros a abordar o tema de modo a superar o determinismo biológico historicamente imputado ao conceito de saúde.

 

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Agradecimentos:
Nada a declarar
Conflito de Interesses:
Nada a declarar.
Financiamento:
Texto resultante da análise de dados coletados na pesquisa matricial “Recortes, influências e perspectivas do campo curricular na educação física escolar: revelações dos cenários estaduais brasileiros”, financiada pelo Edital Universal n. 14/2013 do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI) – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com subprojetos vinculados e financiados em Iniciação Científica pelo Programa de Fortalecimento Acadêmico da Universidade de Pernambuco (PFA/UPE); com bolsa stricto-sensu pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e bolsa de Pós-Doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

 

 

* Autor correspondente: Universidade de Pernambuco, Rua Arnóbio Marques, 310, Santo Amaro. CEP: 50100-130. Recife, Pernambuco, Brasil. E-mail: marciliosouzajr@hotmail.com

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