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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.3 no.5 Lisboa jun. 2012

 

OBSERVAR

Enquadramento: Observar

Context: Observing

 

João Paulo Queiroz*

*Conselho editorial; Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Portugal.

Endereço para correspondência

 

 

O observador observa-se.

Este é o começo chocante da possível crise da meta-linguagem do homem sobre o homem. Uma "invenção recente" (Foucault, 1998: 421), o homem descobre que é falado. E interroga: quem me fala?

A História desdobra-se sobre si e torna-se crítica de si mesma: o rosto do homem pode desvanecer-se como um rosto de areia, alerta Foucault.

Este rosto é o contraponto da paisagem da luz e da montanha. É o que está do lado de lá, nos numerosos retângulos da capela Scrovegni (Giotto): está, por exemplo, no plano de fundo do painel correspondente à lamentação de Cristo. Lá está uma montanha, montanha observada sob um céu de inverno – e uma árvore sem folhas permite saber o instante da observação. Esses instantes de observação vão transformar-se em descrições análogas, diagramas, projetos, enciclopédias, metodologias.

Falo, enfim, da Luz e da Montanha, que Cristina Pastó propõe na aproximação à pintura de Jordi Fulla. O instante da observação, instante frágil, parece atravessar todas as suas telas e desenhos, e ser, diria, o seu motivo, ou antes, motivação. É uma ênfase humana, com a persistência na tecnologia pré digital (Jordi Fulla é um artista plástico, e isso é hoje um statement há 15 anos atrás não imaginável). Fulla apresenta imagens que parecem incluir um ponto de vista técnico sobre o redor, não o sendo, de maneira óbvia.

Hoje, na copiosidade de imagens, digitais ou outras, onde a densificação presente na internet, por exemplo, eleva ao infinito as possibilidades de internediação icónica junto de cada um de nós, descobre-se o paradoxo dos paradoxos: na vida moderna há um imenso aborrecimento:


L' ennui, fruit de la morne incuriosité,
Prend les proportions de l'immortalité

(Baudelaire, LXXVI, Les fleurs du mal).

Na desproporção do aborrecimento o sujeito tona-se nulo, menos que uma pedra, menos que um vestígio. Viver hoje é um exercício de submersão na distração. A fotógrafa Anna Malagrida (no artigo deste capítulo de Marta Negre e Joaquim Cantalozella) escolhe mostrar, nas suas fotografias, que ao voyeur moderno há "poucas coisas para ver." Mostra-se, com impiedade, que ao rectãngulo de Giotto sucede uma janela modernista, onde, do lado de lá, se mostra um (pouco) fascinante mundo onde nada acontece, para além do que o observador, moderno e sistemático, permite – um quotidiano onde faz sentido a ausência de sentido. Nas janelas, montras, casas, hoteis, passa-se tudo o que há para contar, e que é bastamente absurdo, nulo, e, ao mesmo tempo, e sem contradição, desproporcionadamente significativo. É que a meta-linguagem ocorre sempre numa janela, uma vista delimitada, um retângulo.

Rosa Cohen reflete na obsessão de Peter Greenaway pelo plano da apresentação, e pela projeção. Greenaway coloca en abyme a própria pintura, com os seus observadores. Observadores que se sucedem ao longo do tempo, na cadeia de gerações: quantos já observaram a Última ceia de Leonardo? Quem observa a Ronda da noite, de Rembrandt? Quem realmente dispõe as figuras presentes nas Bodas de Canaã, de Veronese, senão a necessidade de as mostrar ao mesmo observador? Qual o personagem que suspende a ação dos circunstantes em Las meninas, de Velazquez? Greenaway aponta o sujeito e torna-o o novo autor de novas meta-linguagens, shakespeareanas, infinitas na reflexão entre o que está lá e o que o observa.

Alfredo Nicolaiewsky apresenta Vera Chaves Barcellos. A artista debruça-se sobre o "olho gelatinoso que nos contempla" (Abraham Moles) em busca de sentidos diferentes, alternativos às narrativas mediatizadas. A televisão surge como avatar da janela, fonte para um voyeurismo inesperado e imprevisível, como se uma janela real se tratasse: a televisão pode enfim ver-se a si mesma.

Rafael Sánchez Carralero reflete no seu artigo sobre a radicalidade plástica de Lucio Muñoz. Este pintor descobre que a representação se pode anular na busca da intensidade da própria representação. Que a pintura é mais pintura quando deixa de o ser, quando a tinta e a cor é substituída pela matéria das coisas. Ou, por outras palavras, quando o mapa (portulano) se alarga até cobrir, e igualar, o território. Quando a analogia da representação se torna total.

Flocos de neve que se transformam em ácido sobre ferro, e gravam a sua infinitude fractal, que une distâncias, são-nos trazidos por Eugenia Agusti, no seu artigo sobre Antònia Vilà. Aqui o território alarga-se a uma espécie de livro de areia (Jorge Luís Borges): os flocos de neve têm formas pentagonais infinitas e ao mesmo tempo são convocados para as suas infinitas representações, em grafismos que cobrem paredes, que formam nuvens, que mordem as páginas de livros – há que não desistir de representar o infinito.

 

Referências

Foucault, Michel (1998) As palavras e as coisas. Lisboa: Edições 70. ISBN 972-44-0531-1         [ Links ]

 

 

Artigo completo submetido em 20 de janeiro e aprovado em 8 de fevereiro de 2012.

 

Endereço para correspondência

Correio eletrónico: joao.queiroz@fba.ul.pt (João Paulo Queiroz).

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