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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.3 no.6 Lisboa dez. 2012

 

EDIÇÕES

PUBLISHING

Correr em Paralelo: Dois Livros e Dois Títulos de Eduardo Batarda

Running in Parallel: Two Books and Two Titles from Eduardo Batarda

 

Carlos Correia*

*Portugal, artista visual. Licenciatura em Artes Plásticas (ESAD, Caldas da Rainha); Projecto Individual em Pintura (Ar.Co); Mestrado em Artes Visuais / Intermédia (Universidade de Évora); Doutorando em Belas Artes na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Endereço para correspondência

 

 

RESUMO:
O presente artigo propõe um ponto de vista sobre as ligações da obra do pintor Eduardo Batarda com o Livro e com a criação literária. Partindo de dois livros por si produzidos, bem como de dois longos títulos de pinturas da sua autoria, iremos mostrar como os primeiros podem ser entendidos enquanto Livros de Artista e os segundos enquanto criações literárias.

Palavras chave: Livro, pintura, criação, reprodução, cópia.

 

ABSTRACT:
This article proposes a viewpoint on the links of Eduardo Batarda’s works with Book and with literature. Starting from two books produced by him, as well as from two long titles of his own paintings, we will show how the formers should be understood as Artist Books and the seconds as literary creations.

Keywords: Book, painting, criation, reproduction, copy.

 

 

O Pintor

Eduardo Batarda nasceu em Coimbra em 1943. Durante três anos (1960-1963) estudou Medicina nessa mesma cidade, mas viria a trocar este curso pelo de Pintura, que concluiu na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1963-1968). Rumou depois a Londres, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, para estudar no Royal College of Art (1971-1974). Regressou a Portugal e foi Professor na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Assumindo desde cedo uma posição crítica em relação ao mundo da arte, tem sido através de um requintado sentido de humor que Eduardo Batarda tem marcado a sua presença no panorama artístico nacional, alcançando uma posição de destaque que é hoje consensual. Está representado nas mais importantes colecções portuguesas e recebeu alguns dos mais destacados prémios do nosso país. Fez crítica de arte, foi autor de muitos dos textos que acompanharam as suas exposições. O tom mordaz e, por vezes, autodepreciativo que apresenta nos seus textos e entrevistas tem sido uma imagem de marca. No texto de apresentação da exposição que o Centro de Arte Manuel de Brito lhe dedicou em 2009, há uma frase da sua autoria que julgamos poder servir como exemplo da sua postura: "fiz sempre o possível por agradar, por fazer o que julgo importante para pertencer ao meio, por ser aceite e integrado. Parece-me um bocadinho injusto, e desde há tanto tempo, ser o único mau artista do meu país."

 

O artigo

Propomos uma reflexão sobre dois pontos menos comentados da obra de Eduardo Batarda: dois livros produzidos pelo pintor, bastante diferentes entre si mas unidos pela proposta de qualquer um dos dois poder ser entendido enquanto Livro de Artista; e dois títulos que o artista atribuiu a outras tantas pinturas datadas de 2009 e dos quais ressalta a relação crítica entre a imagem e a palavra que, desde sempre, tem pontuado a obra deste artista. Pretendemos, desta forma, abordar o tema do Livro de Artista na obra de Eduardo Batarda, cuja produção mais divulgada junto do grande público consiste na pintura – seja ela de telas que se encaixam no cada vez mais escorregadio conceito de abstracção, seja de aguarelas de cariz mais figurativo (Figura 1).

 

 

Antes de entrarmos na discussão das referidas obras, parece-nos conveniente fazer uma sucinta abordagem à noção de Livro de Artista. Para tal, enunciaremos dois artistas que, no decorrer das respectivas carreiras, recorreram ao Livro de Artista como meio de expressão.

1. Livros e artistas

Não descartando a possibilidade da existência de outras interpretações, parecem-nos ser essencialmente duas as actuais classificações da natureza do Livro de Artista: temos, por um lado, os investigadores que consideram que um Livro de Artista deve ser passível de ser reproduzido e/ou editado sem limitações, excluindo desta forma os livros produzidos por processos artesanais. Segundo estes autores, o que o artista diz num Livro de Artista não pode ser dito de outra forma ou por outro médium. Entre os investigadores que defendem estas posições encontram-se Anne Moeglin-Delcroix, Ulisses Carrión, Clive Phillpot, entre outros. Um bom exemplo deste tipo de obra parece-nos ser Twentysix Gasoline Stations, obra datada de 1966 e da autoria do pintor Ed Ruscha (Figura 2). Esta obra é, por muitos, considerada pioneira no universo dos Livros de Artista. Figura 2. Ed Rusha, Twenty Six Gasoline Stations, 1966.

 

 

Por outro lado temos quem defenda que os Livros de Artista estão mais próximos do livro-objecto, apresentando-se quase sempre em edições muito reduzidas ou mesmo únicas. Como diz José Tomás Féria "No livro-objecto a narrativa literária é substituída por uma narrativa plástica; a estrutura livro dá lugar à estrutura plástica, nascendo uma outra forma expressiva" (Féria, s.d.). Stephen Bury considera mesmo que os Livros de Artista "são livros, ou objectos com a aparência de livros" (Bury, 1995). Os livros produzidos pelo pintor Anselm Kiefer encontram-se nos antípodas dos da autoria de Ed Ruscha e, consequentemente, mais próximos desta noção de livro-objecto (Figura 3).

 

2. Dois Livros

Os livros que trazemos a discussão encontram-se separados cronologicamente por cerca de trinta e sete anos: o primeiro, O Peregrino Blindado data de 1973 (Figura 3) e o segundo, Eduardo Batarda, de 2010 (Figura 4). Apesar de ambos terem sido publicados pela galeria que representa o artista (Galeria111), nenhum dos dois é catálogo ou livro de arte. O segundo cumpre também estas duas tarefas, mas passa a ser mais do que isso precisamente pelo facto de nele conter intervenções de cariz literário da autoria do próprio artista.

 

 

O facto de qualquer um dos dois livros terem sido impressos por processos mecânicos e facilmente reprodutíveis, a aliar à entidade que os editou, pode levantar algumas dúvidas quanto à sua natureza, pois é mais comum uma galeria editar catálogos e livros de arte sobre os artistas que representa. Mas se atentarmos à descrição de Livro de Artista defendida pelos investigadores referidos no primeiro dos dois grupos que apresentámos no ponto anterior, essas dúvidas serão dissipadas. E isto fica a dever-se, acima de tudo, ao seguinte: o que Eduardo Batarda quis dizer com estes livros, não o podia ter dito de outra forma ou em outro suporte.

O livro O Peregrino Blindado é uma obra de difícil classificação. Apresenta-se como sendo da autoria de José Lopez Werner e como tendo sido ‘traduzido e adaptado’ por Batarda Fernandes. Banda desenhada? Reprodução de pinturas em papel sob a forma de um livro? É certamente, um Livro de Artista, pois preenche muitos dos requisitos atrás enunciados. Sobre esta obra diz João Pinharanda o seguinte:

O Peregrino Blindado é uma obra complexa, onde o paradoxo e a contradição irrompem como processos conceptuais. Um conjunto heterogéneo de vozes e de discursos manifesta-se na sua autoria, num mosaico de pseudónimos e heterónimos (Pinharanda, 2011:18)

O segundo livro em questão não é apenas composto pelos dois títulos já referidos. Não deixando de funcionar também como um catálogo, é mais do que isso, pois nele o artista diz coisas que não poderia dizer de outra forma. Aqui surge uma aparente contradição, pois os títulos dos quais falámos são também apresentados nas habituais etiquetas que costumam acompanhar as obras em exposições. Mas acontece que no referido livro surgem uma série de outras intervenções literárias do pintor e, estas sim, carecem do suporte livro para existirem. O livro começa com o texto de apresentação da exposição que o Centro de Arte Manuel de Brito (CAMB) dedicou ao pintor em 2009. É um texto no qual o autor passa em revista a sua carreira, empreendendo uma viagem pelas obras expostas, não deixando de tecer duras críticas tanto a si mesmo e ao seu trabalho, como ao mundo da arte no qual este se desenvolveu. Esta passagem constitui um bom exemplo dessa postura:

O curioso é que um pintor como eu, considerado "comercial" e retrógrado pelo meio, seja tratado como "difícil" ou inabordável pelo público, que foge com aflição do meu trabalho. Há quem o leve "à experiência" e o devolve à galeria (Batarda, 2009:17)

Surgem depois os longos títulos já referidos (abordados mais à frente) e há ainda lugar para uma intervenção/conversa do crítico Detlev Schneider, personagem criada por Eduardo Batarda. Esta é, do princípio ao fim, pontuada pela ostentação de uma inteligência acutilante e cáustica quanto baste, não deixando (como era manifesta intenção do pintor) de ‘entreter e divertir’ (Batarda, 2009: 7). Como catálogo que também é, o livro apresenta reproduções das pinturas expostas na já referida exposição do CAMB. Resumindo, o que nos leva a sugerir a possibilidade de considerar esta publicação como Livro de Artista e não um mero catálogo, é essencialmente o seguinte: o livro foi escrito pelo artista na sua totalidade e apresenta três obras autónomas: os dois títulos e a entrevista ficcionada.

 

3. Dois títulos

Quanto aos títulos de duas pinturas que Eduardo Batarda pintou em 2009 (Figura 5, Figura 6, Figura 7), podemos dizer que, de tão longos e ricos, são passíveis de serem considerados obras de pleno direito. Estes dois títulos aparecem no livro Eduardo Batarda de 2010 e, a fim de termos uma ideia da sua natureza literária, podemos dizer que um deles começa na página 23 e termina na página 29 e o segundo começa na página 31 e estende-se até à 37. Ainda que estes dados possam não representar muito mais do que apenas as inusitadas dimensões dos referidos títulos, podemos desde já adivinhar que estes vão muito além do que habitualmente se espera de um título. Nestas duas intervenções, Batarda recorre à sua reconhecida erudição e debita um interminável número de referências, da alta e da baixa cultura, de modo a apresentar ao espectador um atlas do que pela sua cabeça passou durante a execução das referidas pinturas. Poema, colagem, título, seja qual for o termo escolhido para tentar enquadrar estas divagações, elas permanecem inclassificáveis.

 

 

 

 

Será, porventura, essa impossibilidade de classificação que lhes eleva o estatuto e as coloca, ainda que num desequilíbrio permanente, no limiar do que poderíamos designar por obra de pleno direito; não já um mero título que existe apenas para servir uma causa maior (nomear a pintura a si afecta), mas sim para existir enquanto obra autónoma.

 

Conclusão

Encontramo-nos, assim, perante dois pontos específicos retirados da obra de um pintor; dois pontos que se abrem ao universo dos livros e das intrincadas relações que entre pintura e escrita podem ser estabelecidas. Saliente-se o uso de um muito particular e exemplarmente bem articulado processo de montagem que tudo organiza (uma e outra vez o corpo sem órgãos) e que faz funcionar uma máquina que só o artista sabe manejar e que apenas ele sabe para que serve. Serão Livros de Artista? Bom, Eduardo Batarda é, sem dúvida, um artista e os livros foram criados por si.

 

Referências

Batarda, Eduardo (2010) Eduardo Batarda. Lisboa: Galeria 111.         [ Links ]

Bury, Stephen (1995) The Book as a Work of Art, 1963-1995. Scolar Press.         [ Links ]

Féria, José Tomás, (s.d.) Livros de Artista [Consult. 2012-07-13]. Disponível em http://livrosdeartista.ibn-mucana.com        [ Links ]

Pinharanda, João et al, (2011) Outra Vez Não – Eduardo Batarda. Porto: Fundação de Serralves / Assírio & Alvim.

 

Artigo completo recebido a 8 de setembro e aprovado a 23 de setembro de 2012.

 

 

Endereço para correspondência

Correio eletrónico: corrcarlos@gmail.com (Carlos Correia).

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