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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.4 no.8 Lisboa dez. 2013

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

A imagem como oásis: o lugar e a paisagem perdida

The image as an Oasis: the place and the lost landscape

 

Beatriz Basile da Silva Rauscher*

 

*Brasil, artista visual. Graduada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) São Paulo; mestre em Artes pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), SP; doutora em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre RS com Estágio de doutorado na Université Sorbonne Nouvelle – Paris III, Paris, França.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal de Uberlândia. Programa de Pós-graduação em Artes. Grupo de Pesquisa Poéticas da Imagem UFU / CNPq. Av. João Naves de Ávila, 2121 – Bairro Santa Mônica – Bloco IV Uberlândia – MG – CEP: 38408-100, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Na análise da obra Ituporanga de Caio Reisewitz (Brasil, 1967), considerei a experiência do contato com o trabalho; a recorrente abordagem fotográfica da paisagem brasileira na produção do artista e seu discurso sobre o processo de criação, para observar de qual modo a instalação promove o deslocamento do lugar contemplativo, para um lugar social, em um sentido político e crítico.

Palavras-chave: Caio Reisewitz / paisagem / instalação / site-specific.

 

ABSTRACT

In the analysis of the work of art called Ituporanga, by Caio Reisewitz (Brasil,

1967), I took into consideration the experience felt through the contact with the work, the recurrent photographical approach to the Brazilian landscape in the production developed by the artist, and his discourse about the processes of creation, in order to understand how the art installation promotes the displacement from the contemplative place, to a social place.

Keywords: Caio Reisewitz / landscape / art installation / site-specific.

 

Introdução

No bairro paulistano do Belenzinho, no verão de 2010, foi forjado um lugar de frescor em meio à aridez de asfalto e do concreto da megacidade: um lugar para contemplar a natureza. O dispositivo da crença: uma fotografia de uma cachoeira impressa em 78 partes e colada na monumental janela do espaço multiuso do SESC Belenzinho (centro de cultura esporte e lazer). O artista: Caio Reisewitz, que tem como uma das marcas de sua produção fotográfica a abordagem rigorosa da paisagem natural brasileira. Num primeiro momento, restituir a experiência ancestral da desmesura da natureza parece ser o objetivo principal do investimento poético dessa instalação, intitulada Ituporanga (Figura 1). Veremos de que modo o dispositivo opera na ambiguidade do paradisíaco e melancólico simultaneamente.

 

 

Para pensar o dispositivo, colocarei em questão os modos com que o artista aciona aspectos diversos do sitio para reconstituir, através da imagem, a experiência da natureza e ir mais além. Considerei como ferramenta teórica os três paradigmas de site-specificity, esquematizado por Miwon Kwon, ou seja, o "fenomenológico, social/institucional e discursivo" (Kwon, 2008:173), noções que se sobrepõe operando simultaneamente em várias práticas artísticas contemporâneas. "Ituporanga" é um vocábulo tupi-guarani que, através da junção dos termos y'tu ("cachoeira") e porang ("bonito"), significa "cachoeira bonita". A toponímia brasileira é repleta de palavras em tupi-guarani, assim, nossa geografia, batizada pelos índios, sempre ressoa, melancolicamente, a ideia de um paraíso perdido. Reisewitz tira partido poético dos nomes dos lugares que fotografa, fazendo convergir com as belas imagens de serras, rios e florestas a ideia de natureza intocada e selvagem que tais nomes evocam.

A aura do passado está também nas referências que o artista afirma (2010) constituírem seu olhar: a pintura de paisagem dos artistas viajantes europeus do século XVIII e brasileiros do século XIX, e as fotografias de paisagens do século XIX, tanto as da coleção de D. Pedro II como as do fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923). Percebo, no entanto, que, para que as belas paisagens façam sentido diante da atual devastação da natureza e para que o artista possa ser absolvido de uma possível acusação de "mero esteticismo", suas paisagens estabeleceram pontes com o ecológico, mesmo como subtexto de seu discurso.

Considero a obra de Reisewitz permeada pelas ambiguidades, expressas por Cauquelin a propósito da função da paisagem como objeto cultural que reassegura a percepção do espaço e do tempo, pois, na atualidade, a paisagem pode ser fortemente evocada nas "tentativas de 'repensar' o planeta como eco-socio-sistema", ao mesmo tempo em que nos leva ao "reconforto de uma paisagem-natureza, abrigo da pureza e refugio" (2007:12). Toda a obra de Reisewitz é assim: tomando partido da natureza do fotográfico, ele coloca as qualidades do visível e do verdadeiro em tensão. Vejo, ainda, que, em Ituporanga, a partir de um determinado dispositivo situacional, o artista irá inflexionar os aspectos do contemplativo em relação ao reflexivo na construção de um site discursivo no sentido de Kwon.

 

1. Lugar físico: "a janela"

A fisicalidade do lugar é determinante em Ituporanga. Entrando no átrio do prédio do SESC, a janela de vidro, em sua monumentalidade, é presença contundente. Mas não é só: seu recorte em retângulos está rebatido no chão de vidro que a espelha e, ao mesmo tempo, deixa ver a piscina olímpica no andar de baixo do edifício. Chão e parede de vidro colocam em jogo espelhamentos recíprocos (Figura 2).

 

 

A visão da cachoeira refletida no piso se encontra com a água da piscina, como se nela desaguasse. A obra em contexto, exige a presença corporal do espectador "em imediatidade sensorial da extensão espacial e duração temporal [...] mais do que instantaneamente 'percebida' em epifania visual por um olho sem corpo" (Kwon, 2008 :167). Se a criação de Reisewitz está baseada na experiência corporal da arquitetura do lugar, esta transborda para a obra, tanto pela radicalização do aspecto dimensional da imagem – já, em certa medida, presente no programa do artista – quanto pela escolha do elemento água como objeto de referência da natureza na paisagem. O que o artista quer com a imagem da grande queda d'água é capitalizar para o trabalho as qualidades físicas do site, realocar as contingências do contexto no significado interno do objeto artístico, e, para isso apela a um modelo de percepção de ordem fenomenológica.

"Por esta janela me dou conta da paisagem" diz Cauquelin (2007: 136). A janela é o instrumento paisagístico por excelência, pois produz o encolhimento necessário para manter o desmesurado e a força eruptiva da natureza à distância (ibidem).

Reisewitz incorpora à Ituporanga a janela como dispositivo do olhar e da crença, não para colocar a natureza à distância e sim para torná-la mais próxima. Isto se produz pela tomada fotográfica: o artista neutraliza o ponto de vista do homem diante da grande queda d'água. Seu olhar se constrói a partir de um ponto de vista ideal, frontal e flutuante. Ao excluir a dimensão do humano na representação da paisagem, quer forjar sua presença e confrontá-la com seu deslocamento pelo espaço da instalação. Assim, de posse da paisagem enunciada pela fotografia, o artista a amplia, divide em partes e imprime em substrato translúcido, para aderi-la aos retângulos de vidro da janela, provocando a ilusão de que a natureza, em toda a sua força, está mais perto, porém, lá fora.

 

2. Lugar social: "o bairro; a instituição"

As práticas artísticas contemporâneas, informadas pelo pensamento contextual desafiaram "'a inocência' do espaço e a concomitante pressuposição de um sujeito/espectador universal (apesar de possuidor de corpo físico) tal como defendia o modelo fenomenológico" (Kwon, 2008:168). Trata-se das práticas de teor crítico-institucional que levarão em conta, nas suas produções, os padrões sociais do espectador. A observação da interação dos frequentadores do SESC, em contato com o trabalho, fez-me acreditar que o artista se perguntou "onde?" e "para quem?", ao conceber esta instalação-paisagem.

Com um número extraordinário de frequentadores, o Belenzinho é a maior unidade do SESC. Certamente, Reisewitz considerou o potencial de visibilidade do trabalho ao direcioná-lo para o local de intenso fluxo dentro do edifício, ou seja, o gigantesco átrio, um vão livre do centro da torre do edifício de quatro andares, sobre a piscina. A concepção de Ituporanga levou em conta a conexão com este público (nem sempre atento às artes plásticas), possível pela experiência coletiva associada ao lazer. Em oposição ao espaço institucional convencional, que isola a obra de arte do mundo externo, aqui, o trabalho coloca ativamente essa aproximação.

Ituporanga foi instalada por ocasião da inauguração do novo complexo, período das férias de verão, que tornava seu parque aquático de seis piscinas, com capacidade para duas mil pessoas, um especial atrativo. Assim, o local imprime marcas a esse trabalho. Acredito ser o artista sensível a este contexto potencializador de relações e interações público-obra. A janela não seria um dispositivo paisagístico engenhoso na obra sem a função de oferecer espetacularmente o deleite da paisagem aos usuários do espaço e dos eventos que se programam ali.

 

3. Lugar discursivo: "da consciência; da evasão"

Seria a possibilidade discursiva operada pelo sítio capaz de tirar a obra Ituporanga de uma derrapagem no espetacular? Para Kwon, a busca por um engajamento tem entre as suas preocupações a integração da arte mais diretamente no âmbito social, seja para reendereçar problemas sociais urgentes ou para relativizá-la como apenas uma entre muitas formas de trabalho cultural, tratando as preocupações estéticas e históricas da arte como questões secundárias. Expandindo a arte na cultura; borrando a divisão arte /não-arte.

Kwon chama de arte site-oriented trabalhos que se caracterizam por uma determinação discursiva, na qual a obra é informada por uma gama mais ampla de disciplinas e se sintoniza com discursos populares. Podemos verificar esses aspectos a propósito da criação da obra: o artista, sobre esse processo, indica a pesquisa histórica realizada para conhecer as características originais – hidrográficas e topográficas – do bairro Belenzinho; sobre os primeiros habitantes do lugar, os índios Guaianases, e sobre o fato de que, em épocas mais recentes, o bairro era área de banhos, de lazer e de desfrute do ar puro. Lugar de "riachos e cachoeiras que desembocavam no rio Tamanduateí" (Reisewitz, apud Ursaia, 2010). Assim, ao remeter ao passado do próprio lugar da obra, antecipa (e orienta) os sentidos e efeitos que o trabalho quer acessar.

Aspectos identitários do bairro, tomados de sua história como lugar, sobrepostos ao enquadramento institucional de caráter comunitário, convergem para o discurso eleito pelo artista, que seleciona o conteúdo que pretende gerar. Assim, o passado industrial do bairro, motivo de orgulho pela sua importância econômica, é preterido em favor da ideia de uma arcádia paradisíaca, como lugar do ócio bucólico e de prazer. Kwon ainda afirma que o site-oriented, diferentemente dos modelos anteriores, "não é definido como 'pré-condição', mas antes é 'gerado' pelo trabalho (frequentemente como "conteúdo"), e então 'comprovado' mediante sua convergência com uma formação discursiva existente" (2008: 171).

 

Conclusão

Assim, em oposição ao modelo de recepção generalizante, Reisewitz propõe um modo de apreciação orientado para uma comunidade (clientela) do centro que encomenda a obra. Aqui, antes que uma relação conflituosa ou contraditória, o artista adere ao projeto da instituição ao modelar os significados do seu trabalho aos aspectos identitários do lugar. Em uma dupla via de interesses, enquanto a instituição emoldura a obra em termos sociais e políticos, a própria obra imprime singularidade ao lugar (Kwon, 2008: 170).

Acredito que as várias camadas de sentidos, relacionadas aos lugares que Ituporanga põe em movimento, não seriam possíveis nas meras paisagens fotográficas de Reisewitz. A eficácia política da instalação é por em pauta, intersubjetivamente, através de uma paisagem contemplativa, o discurso ecológico da urgência da preservação da natureza, para uma determinada comunidade que está apenas em busca de se aliviar do calor.

Seria possível ainda questionar esta eficácia, considerando que os temas ecológicos estão muito presentes na mídia e já parecem incorporados no discurso corrente, mas, ao encontrar a ancora localizacional no discusivo, Ituporanga associa o prazer contemplativo, oportunizado pela paisagem (natureza como miragem), à culpa pela sua inexistência de fato. Se há um sentido ativista em Ituporanga, é enfatizar e "expandir a natureza social da produção e recepção de arte" (Kwon, 2008:171) levando mais adiante algo já presente no programa da obra de Reisewitz: a melancolia pela paisagem perdida.

 

Referências

Cauquelin, Anne (2007) A invenção da paisagem. (Tradução de Marcos Marcionilo) São Paulo: Martins Fontes. ISBN 978-85-99102-53-4        [ Links ]

Kwon, Miwon (2008) "Um lugar após o outro: anotações sobre site-specificity". Revista Arte & Ensaios n.17, pp.167-187. (Tradução de Jorge Menna Barreto) Rio de Janeiro: UFRJ. ISSN: 1516-1692.         [ Links ]

Reisewitz, Caio; Chaia, Miguel (2010) "Conversa entre Caio Reisewitz e Miguel Chaia" in: Reisewitz, Caio (2010) Caio Reisewitz: parece verdade ( curadoria de Fernando Cocchiarale). São Paulo: Cosac Naify. ISBN 978-85-7503-707-2        [ Links ]

Ursaia, Renata (2010). Ituporanga. Ensaio documentário sobre instalação do artista Caio Reisewitz no SESC Belenzinho, em dezembro de 2010 [Consult. 2013-06-26] Disponível em http://vimeo.com/20557999        [ Links ]

Sobre o Sistema SESC. [Consult. 2013-08-12] Disponivel em http://www.sesc.com.br/portal/sesc/o_sesc/        [ Links ]

 

Artigo completo recebido a 5 de setembro e aprovado a 24 de setembro de 2013.

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: beatriz.rauscher@gmail.com (Beatriz Rauscher)

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