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CIDADES, Comunidades e Territórios

On-line version ISSN 2182-3030

CIDADES  no.48 Lisboa July 2024  Epub July 29, 2024

https://doi.org/10.15847/cct.36369 

TESTEMUNHO

Vítor Matias Ferreira. Da Expo’98 aos ‘Grandes Trabalhos’

1DINÂMIA’CET-Iscte, Instituto Universitário de Lisboa, Portugal, paulo.tormenta@iscte-iul.pt


Vítor Matias Ferreira (1938-2023) participou no projeto ‘Grandes Trabalhos - Operações arquitetónicas e urbanísticas depois da Exposição Internacional de Lisboa de 1998’ (Tormenta Pinto & Brandão, 2024), entre 2018 e 2022, integrando, já aposentado, uma equipa de investigadores do DINÂMIA’CET-Iscte que pretendiam retomar a investigação realizada na década de 1990, sobre os impactos do grande evento nacional de fim de século.

O seu regresso ao tema, com uma distância temporal de duas décadas, seria uma oportunidade para colocar em perspetiva as interrogações e críticas realizadas durante a execução do projeto da Expo’98, numa altura em que acumulava as funções de deputado municipal em Lisboa, com as de professor de sociologia no Iscte e de investigador do Centro de Estudos Territoriais (CET), do qual foi fundador. A incontornável referência de Matias Ferreira viria a ser decisiva no enquadramento deste projeto de investigação, que tinha como objetivo estudar os efeitos da cultura urbanística da Expo’98, enquanto modelo de intervenção caracterizador da paisagem urbana das primeiras décadas do século XXI, em Portugal.

O trabalho pioneiro de Matias Ferreira no debate científico sobre a condição urbana adquirira relevância no período revolucionário, em que não só estudou os movimentos sociais (Matias Ferreira, 1975), como também participou nas políticas urbanas traçadas por Nuno Portas em matérias de habitação. Ainda em 1974, logo após a Revolução de Abril, Matias Ferreira participou na reunião ocorrida em Lisboa, em 22 e 23 junho, para traçar os alicerces do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL). O seu percurso científico viria a adquirir tangências conceptuais com o trabalho desenvolvido por outras personalidades que também estiveram presentes na mítica reunião de Lisboa, como é caso de Bernardo Secchi (1934-2014), Jordi Borja (1941), Manuel de Solà-Morales (1939-2012), Manuel Castells (1942), Marcial Echenique (1943), ou Paolo Ceccarelli (1934). Os intercâmbios internacionais contribuíram para o apuramento discursivo em torno dos fenómenos urbanos, evidenciado uma vertente humanista e renovadora em relação ao funcionalismo mais ortodoxo do movimento moderno. O alicerce teórico de Matias Ferreira viria a edificar-se na senda de um regresso aos postulados da sociologia e da ecologia urbana, que estruturaram a Escola de Chicago a partir dos anos 30, nos Estados Unidos da América, e que mais tarde se generalizaram também à Europa do pós-guerra.

A sua tese de doutoramento, A Cidade de Lisboa: De Capital do Império a Centro da Metrópole (1987), afirmou-se como alicerce científico de uma linha de pesquisa sobre a evolução dos processos de organização territorial e de diferenciação social da área da grande Lisboa. A compreensão da dimensão metropolitana do território em torno do estuário do Tejo é apresentada por Matias Ferreira com base numa leitura regional, permitindo-lhe descrever as interdependências geográficas e sociais da urbe metropolitana. Estes princípios irão estruturar toda a consciência crítica em torno da preparação da Expo’98.

O início da década de 1990 foi marcado pela presidência de Jorge Sampaio na Câmara Municipal de Lisboa. Nesse período são dados passos no sentido da consolidação do planeamento estratégico (1992) do município e da definição de um novo Plano Diretor Municipal (1994), capaz de lançar novas premissas urbanísticas para a cidade, em substituição dos instrumentos vigentes ainda baseados na revisão no plano de Meyer-Heine (1967).

Esses anos que antecedem a Expo’98 são vistos como oportunidade para rever a lógica inter-relacional dos planos urbanos e a sua incapacidade para produzir a cidade social, multifuncional, promotora da cidadania. Os desequilíbrios que se colocavam à época - entre o centro urbano nono-funcional dominado pelo terciário, e a fragmentação extensiva das áreas suburbanas com predominância habitacional - careciam de uma estratégia que não podia ser enquadrada estritamente no plano urbanístico. Tornava-se necessário encontrar outras lógicas de planeamento, que figuras próximas de Vítor Matias Ferreira tais como Nuno Portas ou Manuel de Solà Morales, enquadraram com a designação de ‘projeto urbano’ - sistema multiescalar e interdisciplinar cruzando a urbanística com a economia e com as ciências sociais.

O compromisso nacional com a Expo’98 comprometeu as definições do plano diretor para a área onde viria a ser construído o futuro Parque das Nações. Uma mancha de pouco mais de trezentos hectares e sem nenhuma função atribuída ficou expectante, no lado oriental da cidade, aguardando a definição funcional por parte do governo. Mais tarde viria a ser constituída a empresa Parque Expo, com atribuições excecionais para gerir toda a intervenção associada à Expo’98, na circunscrição daquela área de intervenção.

O relevante trabalho que desenvolveu no acompanhamento da preparação do grande evento de fim de século foi uma oportunidade para descrever e caracterizar, do ponto de vista urbanístico e social, as transformações que ocorriam em Lisboa nesse período, marcado também pelas alterações socioeconómicas impulsionadas pela adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE). O Observatório que monta com Francesco Indovina, denominado ‘Expo’98 em Lisboa - Observar enquanto se realiza’, constituiu-se como uma plataforma relevante para monitorizar a mudança da cidade naquele particular momento.

Com Indovina, Matias Ferreira consolida a linha de pesquisa sobre os movimentos sociais e sua relação com o planeamento regional da cidade. A dimensão metropolitana do território que havia estudado na sua tese de doutoramento serviu como lente analítica para observar as expectativas que se colocavam à época em relação às transformações que se encontravam em curso.

Através do Observatório da Expo’98 foi possível questionar a grande escala e a estratégia para inverter o ciclo das décadas anteriores associadas a políticas de excessiva ocupação económica do centro da cidade, e de densificação social das suas periferias, com efeitos de segregação das comunidades em relação ao seu direito de fruição de uma cidade de proximidade, mais densificada e plural na sua oferta programática em termos de habitação, comércio e serviços. As descontinuidades geradas pelo processo de industrialização da segunda metade do século XX e pela expansão suburbana de Lisboa, pressupunham uma ação mitigadora que, em contraponto, fosse capaz de definir uma nova problematização urbana, alinhada por três vetores centrais - ambiente, património e espaço público.

Na base colocavam-se questões sobre a capacidade catalisadora da Expo’98 para melhorar a coesão territorial da região, e em particular do município de Lisboa, à época com inúmeras carências habitacionais e de reabilitação do edificado e do espaço público. A tudo isso somava-se a necessidade de repensar a relação da cidade com rio e com o seu porto comercial, tema que Matias Ferreira abordou de forma mais específica no livro que coordenou, intitulado Lisboa a Metrópole e o Rio (1997).

A linha de rumo traçada por Matias Ferreira percecionava o evento, não só na sua dimensão celebrativa, mas como oportunidade transformadora e definidora de um novo entendimento urbano. Este princípio foi gerando desconfortos junto dos protagonistas da intervenção, chegando a questionar-se o seu patriotismo em relação ao grande investimento em curso.

No livro A cidade da Expo’98 (Matias Ferreira & Indovina, 1999), que coordenou com Indovina, expôs cientificamente estas ideias, descrevendo justamente a expectativa de que o projeto urbano da Expo pudesse estabelecer uma continuidade à escala metropolitana. À medida que a obra da exposição avançava, ficava mais claro que a intervenção se encerrava na regeneração da área oriental da cidade e no recinto expositivo, desenhado sobre o Mar da Palha como bibelot monumentalizado da nova imagem de Lisboa, enquanto referência de Portugal no limiar da globalização.

Para Matias Ferreira, o modelo de Barcelona, que esteve presente na formulação da Expo’98, deveria ser visto não só na imagem transformadora da Vila Olímpica, mas na descentralização dos equipamentos pelo território metropolitano da cidade, criando centralidades indutoras de vida urbana.

Passados vinte e cinco anos desde a grande intervenção, assiste-se atualmente à absorção da operação ao nível local, com os territórios ribeirinhos a reconverterem-se e a ficarem consolidados, o que seria inevitável dada a polaridade gerada na zona oriental da cidade. O sucesso da reconversão da área oriental de Lisboa acabou por funcionar como laboratório para o ensaio de um modelo de cidade, que foi replicado através do programa Polis em 28 cidades de norte a sul do país, através de operações de requalificação urbana e paisagística.

No caso concreto da capital, verifica-se que o excessivo centralismo continua a gerar dependência por parte dos territórios metropolitanos, onde extensas áreas pós-industriais (Almada, Barreiro, Seixal), continuam em espera, descorando o seu valor ambiental e ecossistémico, aguardando um desígnio imobiliário transformador, na maior parte dos casos.

A atual carência habitacional, tal como na segunda metade do século XX, volta a gerar pressão urbanística sobre os municípios desta região, trazendo para cima da mesa desequilíbrios semelhantes àqueles que se verificavam nas décadas de 1980 e 1990. Na conclusão da investigação em torno dos ‘Grandes Trabalhos’, Matias Ferreira insistia na vulnerabilidade deste território no plano social e ambiental, evidenciando a necessidade de se repensar a organização política metropolitana. O esperado debate sobre a regionalização poderia ser a pedra de toque para se questionar as competências, os processos de descentralização efetiva e os níveis de articulação, nomeadamente entre os municípios das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

Neste sentido, a visão lúcida de Matias Ferreira continua a inspirar a investigação no âmbito das cidades, quer através do seu método de análise e visão ampla dos temas urbanos, quer na convicção de uma cultura científica sobre as relações da urbe inspirada na democracia e na igualdade social (Matias Ferreira, 2004), tal como a que está na base identitária do DINÂMIA’CET-Iscte.

Referências

Ferreira, V.M, Indovina, F. (cood.) (1999). A Cidade da Expo'98. Uma Reconversão na Frente Ribeirinha de Lisboa?, Lisboa: Ed. Bizâncio. [ Links ]

Ferreira, V.M. (1975). Movimentos Sociais Urbanos e Intervenção Política. Col. Cidade em Questão 4. Lisboa: Edições Afrontamento. [ Links ]

Ferreira, V.M. (1977). Da Reconquista da Terra à Reforma Agrária. Lisboa: Editora A Regra do Jogo. [ Links ]

Ferreira, V.M. (1987). Lisboa, de Capital do Império a Centro da Metrópole. Lisboa: Edições Dom Quixote. [ Links ]

Ferreira, V.M. (2004). Fascínio da Cidade. Memória e Projecto da Urbanidade. Lisboa: Ler Devagar e CET. [ Links ]

Santos, M.L.L, Lima, M.P. & Ferreira, V.M. (1976). O 25 de Abril e as Lutas Sociais nas Empresas. Lisboa: Edições Afrontamento . [ Links ]

Tormenta Pinto, P., Brandão, A. (Ed.) (2024). Os Grandes Trabalhos e o Desejo da Cidade de Exceção: Duas décadas de transformação urbana e arquitetónica em Portugal. Porto: Circo de Ideias. [ Links ]

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