Existe uma tendência profunda para a simplificação dos fenómenos sociais, com olhares que se fixam em determinadas amplitudes, esquecendo outras, eventualmente mais significativas. Esta simplificação parece resultar da tentativa de reduzir a análise, de forma a que se consiga mais rapidamente extrair um pensamento ou uma solução para determinado problema.
No prefácio de umas das obras seminais da complexidade, Introdução ao Pen samento Complexo, Edgar Morin (1990/2005) pede ao pensamento, enquanto entidade suprema, que “dissipe as brumas e as trevas” (p. 5), de forma a que se estabeleçam as regras que nos governam e, assim, encontrar a luz que revela o conhecimento. Porém, a palavra “complexidade”, que compõe a nossa existência em todas as suas dimensões, só nos traz “incómodo”, “confusão” e a incapacidade para que de modo simples possamos compreender o mundo. Defende Morin (1990/2005) a premissa que baliza todo o seu vasto trabalho de reflexão, de que “os modos simplificadores de conhecimento mutilam” (p. 5). Tal acontece uma vez que não nos é permitido penetrar nas múltiplas camadas que constituem a realidade e os seus fenómenos, produzindo-se um tipo de cegueira que não permite inteirarmo-nos das profundezas. O tempo cada vez mais escasso de que dispomos será, por certo, um dos fatores que leva a esta brevidade no olhar.
Numa primeira definição, Morin (1990/2005) diz-nos que é complexo o que não pode ser definido numa palavra, para logo de seguida nos indicar algo que num tempo de incertezas profundas nos pode surpreender: o conhecimento completo é impossível. Os filósofos têm dado testemunho dessa verdade absoluta ao longo do tempo e que Adorno (1964/2005) sintetiza, quando afirma que a totalidade é a não verdade. Retomando a complexidade, lembramos Norman (2011), quando se questiona porque é que as coisas não são simples, respondendo simplesmente “porque a vida é complexa”, acentuando que essa característica é estruturante nas sociedades e parte integrante da sua construção.
Assim sendo, e corroborando essa perspetiva, somos levados a afirmar que a compreensão do mundo e a tentativa de resolvermos os problemas de forma mais assertiva, exige que sejamos recetivos a um olhar plural, capaz de nos iluminar nas costuras que a vida tece. Nenhuma perspetiva isolada é capaz de abarcar a totalidade dos sistemas e relações que se interligam de maneira dinâmica e não raras vezes imprevisível. Por isso, diferentes saberes e experiências precisam de dialogar entre si, oferecendo interpretações complementares, eventualmente divergentes e paradoxais, mas sempre enriquecedoras. Valorizar essa pluralidade é reconhecer que a realidade é feita de nuances, contradições e interdependências que só se revelam plenamente quando observadas sob diversos pontos de vista. Só esse olhar é capaz de nos aproximar da verdade, o que quer que isso possa significar.
Cremos poder afirmar que este pensamento é extensível a todas as áreas de intervenção da humanidade. Porém, interessa-nos aqui um dos fenómenos mais complexos e simultaneamente mais fascinantes que tem percorrido e sedimentado a própria história da humanidade: a moda. Os domínios e amplitudes que abarca, bem como a envolvência manifestada, entenda-se dimensão social, económica, tecnológica, ambiental, cultural, entre outras, atribuem à moda uma certa aura. Este status confere-lhe um estatuto de amplo espectro, envolvendo múltiplos e variados domínios, desde a produção das matérias-primas, produção, comunicação, distribuição, ambiente, estética, tendências... Domínios que pela sua variedade entrelaçam os indivíduos num enredo pulverizado por todos os efeitos daí decorrentes. Espelho do que fomos, somos e seremos - passado, presente e futuro -, a moda tem demonstrado ao longo do tempo a capacidade de ir marcando indelevelmente o quotidiano, fixando o Zeitgeist de cada momento, moldado por um sem número de circunstâncias que constroem o quotidiano.
Convocando Berlim (2012), roupas e acessórios funcionam como bens que permeiam a existência da humanidade, relacionando a função de adorno com a magia, a identidade e comunicação. Pela sua importância individual e coletiva, a moda é um conceito multifacetado espelhando a nossa circunstância e sonhos que nos alentam. Na verdade, um espelho da nossa personalidade individual e coletiva, enquanto raça humana, com um propósito. Um desses propósitos, e certamente um dos mais determinantes, é o impacto ambiental que provoca. Calcula-se que existe uma produção anual superior a 100 milhões de toneladas. Lembre-se que para além da produção de roupa ter vindo a aumentar de forma significativa, a sua utilização tem diminuído muito consideravelmente, pelo menos desde 2000 (Ellen McCartney Foundation, como citado em Muller & Mesquita, 2018).
O título deste número da Vista, “Moda e Múltiplos Olhares”, abre uma janela capaz de possibilitar a exploração de horizontes múltiplos, numa análise diversa sobra as vastas problemáticas que configuram a moda e numa perspetiva mais alargada, o vestuário. Enquanto expressão visível do “eu”, ator social, o que vestimos traduz um “sou assim”, a dimensão visual da personalidade. Somos o único animal que muda de pele todos os dias, com todas as implicações que daí advêm, nomeadamente ambientais. Com a moda se projeta o futuro, o momento que se vive, a experimentação de novos materiais, posturas estéticas...
Ou seja, uma moda que se possa alongar, tocando franjas e dimensões complementares na enorme diversidade que a caracteriza. Desta forma, pretendeu-se que para além das áreas ditas normalizadas, pudéssemos também fomentar e enquadrar cruzamentos, numa perspetiva multi, inter e transdisciplinar, que fossem capazes de novas roupagens e relações de intersecção. Os múltiplos olhares que associamos a esta chamada de trabalhos subentende essa capacidade de se explorarem caminhos que possam fixar diferentes abordagens, de forma a reunirmos um universo de pensamento, capaz de nos fornecer um olhar plural.










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