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Vista. Revista de Cultura Visual

On-line version ISSN 2184-1284

Vista  no.16 Braga July 2025  Epub Dec 31, 2025

https://doi.org/10.21814/vista.6518 

Projetos Visuais

Foto-Retrato, Foto-Pintura: Identidades do Cariri

i Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil


Resumo

Este é um ensaio visual analógico em filme 120mm de retratos de mestres da cultura popular no Cariri. Para ele, foram registrados: o Mestre Chico Alagoano (de fotografia lambe-lambe); o Mestre Nena, bacamarteiro; o Mestre Antônio Matheus do Reisado dos Irmãos; a Dona Maria, antiga parteira do Horto. As mesmas fotografias foram refeitas artesanalmente em forma de foto-pintura, com impressão em papel fotográfico com sais de prata, pintura a pastel e pigmentos líquidos, por dois foto-pintores, os últimos do Ceará: Mestre Júlio e Mestre Mirialdo. Nesse processo de entendimento do trabalho de retrato no interior do Ceará, com a presença de dois foto-pintores diferentes, é possível estabelecer a pluralidade do ofício na região. O registro desse processo visa não somente demonstrar a técnica, como desconstruir um imaginário de “fazedores de boneco”, que se disseminou sobre a foto-pintura nordestina. Mestre Júlio e Mestre Mirialdo, ao pintarem as mesmas fotografias dos mestres da cultura popular, desenvolvem técnicas diferentes, possibilitando, de forma rara nos dias atuais, uma análise comparada desse tipo de trabalho. É possível notar o refinamento do trabalho dos dois, em uma forma de produção complexa que é a foto-pintura, onde se pinta todo o retrato a partir de impressões a preto e branco do rosto do cliente. O presente ensaio pretende chamar a atenção de quem vê essas imagens de forma a se interessar mais pelo assunto.

Palavras-chave: memória; retrato; foto-pintura; fabulação; ensaio visual

Abstract

The present visual essay, shot on 120mm film, presents portraits of masters of popular culture in Cariri. Among those recorded are Chico Alagoano (of fotografia lambe-lambe, street photography); Mestre Nena, bacamarteiro (festive blunderbuss-shooter); Mestre Antônio Matheus of the Reisado dos Irmãos; and Dona Maria, a former midwife from Horto. The same photographs were recreated in the form of photo-paintings, produced using traditional techniques with prints on silver salt photographic paper, pastel painting, and liquid pigments, by two photo-painters, the last in Ceará: Mestre Júlio and Mestre Mirialdo. In this process of understanding portrait work in the interior of Ceará, with the presence of two different photo-painters, it is possible to establish the plurality of the craft in the region. The recording of this process aims not only to demonstrate the technique but also to deconstruct an imaginary of “doll-makers”, an imaginary that has spread around Northeastern photo-painting. Mestre Júlio and Mestre Mirialdo, when painting the same photographs of masters of popular culture, develop different techniques, allowing, in a rare way nowadays, a comparative analysis of this type of work. One can note the refinement of their work in the complex form of production that is photo-painting, where the entire portrait is produced from black-and-white prints of the client’s face. This essay aims to capture the viewer’s attention, thereby fostering a greater interest in the subject.

Keywords: memory; portrait; photo-painting; fabulation; visual essay

1. Memória Descritiva

A partir de 2018, no sertão do Cariri, uma sequência de imagens em 120mm começava a surgir: eram retratos de mestres do Cariri, detentores de saberes populares - brincantes do reisado, parteiras, profissionais da fotografia popular, bacamarteiros, entre outros. Esse trabalho, que teve início nessa época, continua até os dias atuais. Assim, o presente ensaio parte de um interesse anterior, o de registrar estas pessoas, com elementos da própria iconografia da localidade.

O uso do formato 120mm não é por acaso. Na região de Cariri, era comum, pelos chamados “fotógrafos itinerantes”, o uso do grande formato para o registro de pessoas. Estes fotógrafos de praça, hoje popularmente conhecidos como “lambe-lambe”, faziam a fotografia diretamente no papel fotográfico, sem o uso de película de acetato, e seu formato era maior que o 35mm comum. Nesse ensaio, optei por utilizar o chamado “médio formato”, em referência ao grande formato utilizado pelos fotógrafos populares. Além disso, também é uma forma de agilizar o processo, pois é mais fácil fazer as cópias para a foto-pintura, posteriormente, a partir de um material maior.

A “fotografia popular Cariri”, como é conhecida, tem como expressão, e se manifesta, principalmente, em fotografias de ex-votos, por fotógrafos lambelambe e seus cenários (ou fotografias), os monoculistas e os fotos-pintores. A partir de 2005, esses estilos e trabalhos fotográficos começaram a desaparecer. A competição com o digital, o aparecimento das fotografias a cores, a dificuldade para comprar os insumos para o serviço, entre outros, são alguns dos fatores que prejudicaram e aceleraram a extinção dessas atividades. Poucos mestres ainda vivem hoje, e poucos menos ainda conseguem transmitir esse conhecimento.

A fotografia de ex-votos é uma prática que contém aspectos da religiosidade popular, que se manifestava nos ex-votos escultóricos. Esses últimos, geralmente, são esculturas de partes do corpo, feitas em madeira, que mimetizam uma doença ou pedido de alguma graça. Ao ser atendido, o fiel deve demostrar ao santo a sua fé e colocar diante dele seu “voto” que foi alcançado. Assim, o ex-voto escultórico era um duplo da pessoa e da sua doença. Essa concepção logo chegou à fotografia. Os romeiros ainda hoje têm o costume de fazer imagens de corpo inteiro, ou da parte que alcançou a graça (por exemplo, uma mão, um peito, etc.), e deixam essas fotografias na casa do santo ou na casa de milagres.

Existiam também os monóculos, que eram uns aparatos fotográficos que continham uma película 35mm, revelada em positivo, e que para vê-la era necessário se aproximar dos “monóculos”, que continham a fotografia dentro. Tal aparato tinha uma lupa em uma de suas extremidades, possibilitando visualizar a imagem. Essa pesquisa se interessa em conviver com esses profissionais, aprender com eles a forma de fazer seus ofícios. Dessa maneira, em primeiro lugar, se pretende reproduzir esse conhecimento tal qual o faziam em sua época. Partindo disso, e em um segundo momento, tem como objetivo atualizar essas práticas. Aqui nesse ensaio visual apresenta-se um pouco dessa pesquisa no campo da foto-pintura.

2. Ensaio

A primeira sequência de fotografias é composta por quatro imagens fotográficas. Na Figura 1 estão retratados: Chico Alagoano, um antigo fotógrafo lambe-lambe; Mestre Nena, bacamarteiro; Mestre Antônio Matheus do Reisado dos Irmãos; e Dona Maria, uma antiga parteira do Horto.

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2018

Figura 1 Chico Alagoano e Mestre Nena (cima); Dona Maria e Mestre Antônio Matheus do Reisado dos Irmãos (baixo) 

A escolha desses mestres se fez por seu contato com saberes manuais e populares. São pessoas reconhecidas como mestres da cultura, a nível local e estadual. Portanto, são portadores de saberes que se transmitem pela oralidade (a maioria dessas pessoas são analfabetas ou semianalfabetas), repassados de geração em geração. Os fotógrafos da região também transmitiam seus saberes de forma compartilhada, na prática do dia a dia.

As imagens foram feitas com uma câmera de médio formato, de 120mm. Revelado de forma artesanal, esse mesmo material foi reproduzido analogicamente, em papel próprio para foto-pintura e entregue a Mestre Júlio, um foto-pintor de renome nacional. A Figura 2 apresenta o trabalho do mestre.

Créditos. Mestre Júlio, 2024

Figura 2 Chico Alagoano e Mestre Nena (cima); Dona Maria e Mestre Antônio Matheus do Reisado dos Irmãos (baixo) 

As mesmas imagens em 120mm foram enviadas a uma segunda pessoa, o foto-pintor Mirialdo, residente de Juazeiro do Norte, surgindo um novo ensaio apresentado na Figura 3.

Créditos. Mestre Mirialdo, 2024

Figura 3 Dona Maria e Mestre Antônio Matheus do Reisado dos Irmãos (cima); Mestre Nena e Chico Alagoano (baixo) 

Mestre Júlio e Mestre Mirialdo são ambos do Ceará, mas é possível ver na Figura 1 e na Figura 2 que utilizam traços distintos, pois as mesmas fotografias deram origem a foto-pinturas diferentes, traduções distintas. Vale dizer que ambos também usam materiais diferentes: Mestre Júlio trabalha com tinta a pastel e Mestre Mirialdo prefere tinta líquida, fazendo alguns detalhes com pincel. Os diferentes materiais produzem imagens que não coincidem, mas o traço de diferenciação mais característico entre ambos é de estilo - cores, tom de pele, vestimenta e fundo. Olhares opostos em muitos detalhes.

Esse simples trabalho mostra a pluralidade do ofício, quando haviam muitos atelieres na região nordeste, com diversos mestres, cada um com seu um estilo. A produção diária desses espaços era de 100 fotos. Um trabalho feito a muitas mãos, onde uma pessoa reproduzia as fotografias, outra fazia as roupas, uma outra se dedicava aos cabelos, e uma última a afinar, ou seja, fazer os detalhes da fotografia. Por se tratar de um trabalho de muitas etapas, onde cada pessoa dominava apenas um aspecto, a morte de alguém significava que todo o processo se perdia, pois ninguém sabia fazer a parte do outro. Encontrar mestres que sabem as diversas etapas é raro, pois consiste numa impressão do rosto da pessoa, em preto e branco, onde tudo o resto é fabulado pelo artista. O foto-pintor interfere e faz uma nova imagem, como pode ser visto nas figuras seguintes (Figura 4, Figura 5, Figura 6, Figura 7, Figura 8, Figura 9, Figura 10, Figura 11, Figura 12, Figura 13, Figura 14, Figura 15 e Figura 16). Já na Figuras 17 e na Figura 18 se encontram foto-pinturas respectivamente do Mestre Júlio e do Mestre Mirialdo.

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 4 Foto-pintura de Chico Alagoano 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 5 Foto-pintura de Chico Alagoano 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 6 Foto-pintura de Chico Alagoano 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 7 Foto-pintura de Chico Alagoano 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 8 Foto-pintura de Chico Alagoano 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 9 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 10 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 11 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 12 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 13 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 14 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 15 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 16 Foto-pintura de Mestre Nena 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 17 Foto-pinturas de Mestre Júlio 

Créditos. Tiago Pedro Pereira, 2024

Figura 18 Foto-pinturas de Mestre Mirialdo 

Esse estilo de imagem se tornou muito popular no sertão do Cariri, pois como era barato caiu no gosto da população. Os vendedores caminhavam território a dentro oferecendo o serviço, coletavam imagens de documentos dos clientes e enviavam aos ateliers de foto-pintura. Meses depois, preferencialmente em dia de colheita, traziam a foto-pintura feita e faziam a cobrança. Ainda hoje é possível encontrar nas casas interioranas exemplares desse oficio.

Existem aspectos da foto-pintura que ainda nos encantam. Um deles é que uma arte que trabalha com a mentira. A fotografia tendeu por muitos anos, enviesada por algumas teorias, a trabalhar com a verdade. O isto foi barthiano (Barthes, 1980/1984) se tornou cânone no que se entendia por uma fotografia correta. A foto-pintura não se preocupa com esses aspectos, pois é principalmente fabulativa, cria-se uma nova identidade para o retratado segundo os gostos de quem a encomenda. É uma fotografia dos desejos. O cliente escolhe como quer ser lembrando, escolhendo as vestimentas, as cores do cabelo, da pele, dos olhos. Esse foi um dos aspectos que a colocou como uma arte menor. Hoje se entende como esse entendimento é equivocado - é uma arte que ajudou a retratar a maioria da população humilde, sendo, portanto, um ofício que guardou os rostos dos que ficavam à margem da história oficial, os rostos dos trabalhadores (Benjamin, 1940/1994), os verdadeiros motores da história.

Referências

Barthes, R. (1984). A câmera clara: Nota sobre a fotografia (J. C. Guimarães, Trad.). Nova Fronteira. (Trabalho original publicado em 1980) [ Links ]

Benjamin, W. (1994). Teses sobre o conceito de história. Brasiliense. (Trabalho original publicado em 1940) [ Links ]

Recebido: 01 de Maio de 2025; Revisado: 23 de Junho de 2025; Aceito: 23 de Junho de 2025

Tiago Pedro Pereira é doutorando em comunicação na Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil). É mestre pela mesma instituição. Ele se graduou em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (Brasil). Fez uma pós-graduação em Cinema na Escola de Cinema e Televisão de San Antonio de Los Baños (Cuba) - na especialidade de Documentário. Email: tiagofelps@gmail.com Morada: Rua Capitão Melo, Nº 3921, Apt 401, Bloco A - Bairro São João do Tauape, CEP. 60120095, Fortaleza, Ceará

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