1. Introdução/Contextualização
A integração entre os domínios físico e digital tem transformado profundamente as práticas artísticas contemporâneas, influenciando a criação, a produção e a fruição da arte. Este fenómeno é encapsulado pelo conceito de “figital”, que designa a fusão colaborativa de elementos materiais e digitais. Originalmente aplicado ao marketing para descrever experiências híbridas (Del Vecchio et al., 2023), o termo foi rapidamente adotado pelas artes visuais, assumindo um papel central na redefinição da criação artística (Fadeeva & Staruseva-Persheeva, 2023). O figital emergiu como uma abordagem híbrida, unindo materialidade tradicional e inovação tecnológica, expandindo a expressão criativa. Vai além da coexistência entre tangível e virtual, promovendo uma interação simbiótica. Em Thresholds (Limites; 2021), de Mat Collishaw, a realidade aumentada recria uma exposição histórica, oferecendo uma experiência imersiva que liga corpo, história e espaço virtual (Dokholova, 2023). Já em Machine Hallucinations (Alucinações de Máquinas; 2022), Refik Anadol converte dados visuais em paisagens abstratas, reposicionando o público como mediador físico-digital, desafiando noções de interatividade (Weiler et al., 2022).
Estas obras reformulam a fruição artística e a relação público-obra (Grau, 2002). Virtual Dioramas (Dioramas Virtuais; 2023), de Alexandra Ginsberg, simula ecossistemas em realidade aumentada, questionando a interação ser humanoambiente com vivências imersivas. Estas práticas, marcadas pela colaboração ser humano-máquina, contestam a autoria única, propondo a criatividade distribuída, refletindo a interdependência entre tecnologia e arte.
O conceito de “figital” distingue-se de outros, como “pós-digital” e “novos média”. O primeiro enfatiza a integração natural do digital na cultura contemporânea (Cox, 2015), enquanto o segundo foca na transformação dos meios tradicionais pela tecnologia digital, como as narrativas interativas e multiplataforma (Manovich, 2001). O figital, contudo, caracteriza-se pela fusão indissociável entre físico e digital, gerando experiências híbridas e interdependentes.
Quantum Memories (Memórias Quânticas; 2022), de Refik Anadol, utiliza a inteligência artificial (IA) para criar paisagens dinâmicas em espaços físicos, destacando a fusão material-virtual. Já Neural Street Art (Arte de Rua Neural; 2019) combina robótica e redes neurais para recriar mosaicos romanos, integrando humano, máquina e espaço num diálogo criativo. Estas práticas redefinem fronteiras físico-digitais, promovendo interações entre tecnologia, estética e público (Fadeeva & Staruseva-Persheeva, 2023). Tecnologias como IA, realidade aumentada (RA) e realidade virtual (RV) impulsionam esta evolução: em Machine Hallucinations, redes neurais transformam dados em paisagens sensoriais, evidenciando a IA como cocriadora (Dokholova, 2023); The Infinite Library (A Livraria Infinita; 2021), de Mika Johnson, usa RA e RV para tornar bibliotecas interativas, oferecendo experiências personalizadas.
Apesar do impacto crescente das práticas figitais na arte contemporânea, a sua consolidação como domínio autónomo de investigação enfrenta desafios teóricos e metodológicos. A complexidade da integração de elementos físicos, digitais e sensoriais exige uma metodologia que combine coerentemente teoria, prática e avaliação. Modelos interdisciplinares, como Sensoria de Jewitt et al. (2021), tornam-se essenciais para uma compreensão aprofundada e contextualizada das experiências sensoriais e multimodais. Contudo, a fusão intrínseca entre materiais, tecnologias digitais e estímulos sensoriais continua a dificultar a consolidação plena das práticas figitais.
Este estudo propõe uma articulação entre a taxonomia figital, a qual está a ser desenvolvida pelo autor no âmbito da tese de doutoramento intitulada Tapeçarias de Portalegre: Tecendo o Figital, e a metodologia a/r/cográfica (Veiga, 2021), que enquadra o processo criativo em torno dos eixos da estética, aptidão e função. Ao enquadrar as seis dimensões taxonómicas (integração físico-digital, experiência sensorial, experiência cognitiva, fruição, interatividade e envolvimento corporal) com aqueles três eixos, o objetivo específico é criar um quadro metodológico integrado para analisar e orientar práticas artísticas híbridas - figitais - contemporâneas, contribuindo assim para suprir lacunas existentes na análise e avaliação dessas práticas e obras. A relevância deste estudo está, assim, na necessidade de desenvolver e aprofundar métodos capazes de lidar com a complexidade crescente da fusão físico-digital na arte contemporânea, oferecendo contribuições claras para futuros desenvolvimentos teóricos e práticos.
2. Taxonomia Figital
A taxonomia figital aqui apresentada fundamenta-se na integração e na síntese crítica das contribuições teóricas de vários autores, destacando-se Lev Manovich (2001), Oliver Grau (2002), Jewitt et al. (2021), Kiousis (2002), Hansen (2003), Munster (2011) e Dewey (1934), bem como nas abordagens recentes ao conceito figital apresentadas por Del Vecchio et al. (2023) e Fadeeva e Staruseva-Persheeva (2023). A proposta aqui desenvolvida organiza-se em seis dimensões: (a) integração físico-digital, (b) experiência sensorial, (c) experiência cognitiva, (d) fruição, (e) interatividade, e (f) envolvimento corporal - todas elas fundamentais para compreender a relação físico-digital no próprio artefacto, bem como a relação entre esse artefacto e o público. Estas dimensões orientam práticas artísticas e culturais, servindo como referência para artistas, curadores e investigadores na criação e análise de artefactos híbridos. Para avaliadores, fornecem critérios objetivos, facilitando uma crítica contextualizada, útil a esta forma de arte contemporânea.
Esta taxonomia figital utiliza uma escala numérica de 10 níveis para quantificar cada uma das seis dimensões, facilitando assim a produção de análises detalhadas. Esta escala quantitativa de zero a 10 relaciona-se ainda com uma classificação qualitativa estruturada em quatro ou cinco níveis, dependendo das dimensões, com correspondência direta ao mapeamento numérico. Por exemplo, numa escala qualitativa de quatro níveis (numerados de forma crescente de um a quatro), cada
nível n corresponde ao intervalo numérico entre (n-1)*10/4 e (n-1)*10/4+10/4). Assim, propõe-se também para cada dimensão uma classificação qualitativa, em níveis específicos. A correspondência destes níveis com a escala de 10 valores é feita pela fórmula acima, permitindo caracterizações mais detalhadas das práticas figitais, evitando simplificações que comprometam a compreensão da diversidade e riqueza expressiva dos fenómenos híbridos.
Na dimensão figital, propõe-se que o valor mais baixo da escala reflete tanto o digital puro como o físico puro, indicando ausência de integração significativa entre estes elementos. O valor 10 simboliza combinação ideal, onde ambos se equilibram numa representação coerente da sua simbiose. Esta definição clarifica os extremos da escala, permitindo avaliar intensidade e qualidade da articulação físico-digital.
Esta proposta evidencia o impacto transformador da fusão entre os domínios físico e digital, demonstrando como esta integração contribui para a criação e análise de experiências estéticas e cognitivas. Ao sugerir campos específicos de análise, contribui para expandir as possibilidades criativas e críticas, e consolidase como um modelo relevante para explorar as fronteiras da arte e da cultura contemporânea. Apresentam-se de seguida as seis dimensões propostas (Figura 1).
2.1. Integração Físico-Digital
A arte figital integra o físico e o digital, desafiando fronteiras entre o tangível e o virtual. Lev Manovich (2001) define "transcodificação" como a conversão mútua entre camadas cultural e computacional dos média digitais, numa relação simbiótica. Na taxonomia figital, assumem-se como níveis mais elementares o físico e o digital nos seus estados puros, seguindo-se os simulacros complementares, em que existe uma dimensão dominante (física ou digital) e a outra é meramente acessória. Segue-se a coexistência equilibrada de ambas as componentes, demonstrando interação colaborativa sem fusão total. A transcodificação figital é evidente em obras que promovem uma transformação contínua e dinâmica, nas quais o físico e o digital evoluem conjuntamente, reconfigurando de forma constante a experiência estética e concetual. Esta relação integrada indica uma fusão perfeita entre os dois elementos, onde ambos se influenciam mutuamente para criar novas possibilidades expressivas, sensoriais e concetuais.
2.2. Experiência Cognitiva
A experiência cognitiva analisa a complexidade narrativa e simbólica das obras, na forma como podem existir interpretações que desafiam o público a explorar significados profundos. Alacovska et al. (2020) destacam o papel da arte digital em questionar normas sociais, promovendo empatia e transformação do pensamento, enquanto Dewey (1934) enfatiza a interação estética como um diálogo intelectual ativo. Neste contexto, os níveis qualitativos são os seguintes: a narrativa simples caracteriza-se por comunicações claras e acessíveis, refletindo uma ausência de complexidade narrativa, de mensagens claras e diretas e imediatas.
A exploração concetual equilibra acessibilidade e reflexão crítica. O simbolismo e a abstração destacam-se como elementos que desafiam interpretações simples, propondo múltiplos níveis de leitura e incentivando o público a decifrar significados que ultrapassam o óbvio, oferecem múltiplas leituras, exigindo descodificação de significados complexos. A reflexividade implica, adicionalmente, o desencadear de análises empáticas e reflexivas por parte do público. Finalmente, a transformação cognitiva representa o ponto culminante desta dimensão, envolvendo reinterpretações críticas que desafiam e transformam valores culturais e sociais estabelecidos, reinterpreta valores culturais e sociais, impactando profundamente as perceções do público e estimulando debates.
2.3. Fruição
A dimensão da fruição endereça a experiência do público, focando o envolvimento sensorial e intelectual que a obra desperta. Dewey (1934) defende que a fruição transcende a observação passiva, sendo uma dinâmica transformadora da perceção e da obra, enquanto Grau (2002) realça a imersão multissensorial como amplificadora da ligação entre espetador e obra.
A fruição contemplativa caracteriza-se por uma experiência de observação passiva, em que o público não intervém diretamente na obra, limitando-se à observação passiva, com um impacto emocional restrito. Em contrapartida, a fruição interativa envolve uma participação ativa, embora moderada, do público, proporcionando um nível de envolvimento em que as suas escolhas ou ações influenciam a experiência, mas sem transformar radicalmente a obra.
A absorção caracteriza-se por um envolvimento multissensorial intenso, ativando simultaneamente sentidos como a visão, a audição e o tato, o que resulta numa experiência rica e envolvente, determinando muitas vezes a alienação do público para o espaço da obra, secundarizando o espaço físico e o universo temporal em que se encontra. A fruição participativa singular reflete uma cocriação individual, com um elemento do público a transformar ativamente a obra, aprofundando a sua ligação com ela, enquanto a participação coletiva implica a ação simultânea de vários elementos do público, cada um deles exercendo uma influência específica sobre a obra.
2.4. Experiência Sensorial
A experiência sensorial avalia o envolvimento do público pelos estímulos multissensoriais, criando ligações emocionais e físicas além do visual. Grau (2002) destaca a "imersão total" como intensificadora da interação, enquanto Yu e Yao (2023) notam que ambientes imersivos transformam o observador em participante ativo. A experiência visual focada limita-se ao estímulo visual, com pouco impacto sensorial adicional. A experiência tátil-visual combina visão e tato, enriquecendo a interação, embora sem imersão plena. A experiência multissensorial ativa vários sentidos, embora de forma parcial. Já a imersão sensorial envolve todos os sentidos intensamente, criando um impacto emocional e estético profundo e duradouro, e a sinestesia imersiva provoca, adicionalmente, sensações interdependentes e interligadas entre vários sentidos.
2.5. Interatividade
A interatividade reconfigura a relação público-obra, transformando o espetador em participante ativo ou cocriador. Kiousis (2002) distingue níveis de interatividade, desde respostas automáticas a controlo total. A interatividade passiva limita-se a um papel contemplativo sem impacto na própria obra. A interatividade simples permite escolhas básicas, aumentando moderadamente o envolvimento do público. A interatividade moderada concede decisões que afetam a obra, mas sem controlo pleno. Já a interatividade avançada oferece controlo total, com o público a cocriar e moldar a experiência artística de forma significativa. A interatividade essencial acresce à anterior o facto de ser crucial para a experiência ou existência da própria obra.
2.6. Envolvimento Corporal
O envolvimento corporal assume o corpo dos elementos do público como mediador ativo na experiência estética, destacando a fisicalidade no envolvimento com a obra. Hansen (2003) e Munster (2011) realçam a interação somática nos ambientes digitais, integrando o corpo no processo artístico para uma experiência imersiva. O envolvimento corporal leve limita-se a gestos subtis, com fisicalidade reduzida. O nível moderado já implica movimentos amplos, aumentando a participação física, mas sem plena expressividade. O envolvimento alto destaca uma expressividade intensa, com o corpo como elemento central na experiência. A interação total integra completamente o corpo na essência da obra, tornando-o um elemento essencial para a experiência artística.
3. A/r/cografia
A a/r/cografia, concebida por Veiga (2019, 2021), apresenta-se como uma metodologia de investigação criativa que articula, de forma sistemática, as dimensões da arte (art), da investigação (research) e da comunicação (communication). Inspirada na a/r/tografia de Springgay et al. (2008), esta abordagem expande e ajusta os conceitos originais, propondo uma metodologia mais abrangente e adequada às particularidades e aos desafios inerentes à média-arte digital.
A metodologia a/r/cográfica define um espaço tridimensional para a (auto)avaliação dos artefactos criados, sustentado por três eixos fundamentais: estética, aptidão ou técnica, e função ou impacto. Este espaço está representado na Figura 2.

Fonte. Retirado de “Método e Registo: Uma Proposta de Utilização da A/r/cografia e dos Diários Digitais de Bordo Para a Investigação Centrada em Criação e Prática Artística em Média-Arte Digital”, por P. A. da Veiga, 2021, Rotura - Revista de Comunicação, Cultura e Artes, (2), p. 22. (https://doi.org/10.34623/y2yd-0x57)
Figura 2 Representação do espaço tridimensional da a/r/cografia
O eixo da estética enquadra a capacidade da obra de suscitar reações cognitivas, emocionais e sensoriais no público, desde a forte aceitação ou rejeição até à apatia, procurando sempre criar uma ligação que aprofunde a interação com o espetador. O eixo da aptidão avalia a competência do criador em expressar a sua visão de forma inovadora e coerente, maximizando os recursos artísticos e tecnológicos disponíveis. Por fim, o eixo da função examina o impacto da obra no contexto social, cultural e comunicacional, considerando o seu papel transformador e a sua capacidade de estimular novas formas de interação e diálogo (Veiga, 2021).
O termo “a/r/cografia” carrega um significado simbólico, representando, através da metáfora do arco, o percurso não linear da criação artística. Este percurso distingue-se por uma abordagem excêntrica que privilegia conexões entre diferentes momentos do processo criativo, por oposição a um caminho rígido e sequencial. Contrastando com metodologias lineares, a a/r/cografia enfatiza uma exploração criativa excêntrica, embora precisa. Esta flexibilidade dinâmica manifesta-se na estrutura rizomática do método, que possibilita revisitar e reconfigurar continuamente cada etapa do processo. Assim, promove-se uma prática iterativa e adaptável, refletindo a interdependência entre criatividade, contexto e investigação (Veiga, 2021).
O método a/r/cográfico compreende sete etapas iterativas - inspiração, gatilho, intenção, concetualização, prototipagem, teste e intervenção. Estas não seguem uma sequência fixa, permitindo uma adaptação contínua ao criador e à obra, assumindo um contínuo revisitar de cada etapa. A inspiração ocorre com estímulos internos ou externos, enquanto o gatilho catalisa as primeiras explorações, colocando a criatividade em ação. A intenção orienta a concetualização das ideias, que são materializadas experimentalmente na prototipagem. O teste analisa e valida o projeto de forma restrita, conduzindo à intervenção, momento em que a obra se concretiza e é apresentada ao público.
Todo este processo é acompanhado por uma documentação sistemática, através dos diários digitais de bordo, onde se anotam inspirações, (in)decisões e reflexões, permitindo uma análise reflexiva e crítica, constituindo, assim, um registo do processo criativo. A estrutura iterativa da a/r/cografia promove a flexibilidade e a adaptabilidade, estimulando uma revisita constante a todas as etapas e assegurando a relevância, coesão e coerência com as intenções criativas (Veiga, 2021).
A a/r/cografia transcende a produção artística, funcionando como metodologia para gerar e comunicar conhecimento. Integra as dimensões estética, técnica e funcional/relacional, procurando inovação técnica e estética, e impacto sociocultural na arte contemporânea, promovendo diálogos entre criador, público e sociedade. Inspirada na a/r/tografia, distingue-se pela estrutura definida e ênfase na comunicação, sendo ideal para a média-arte digital, ao articular criação, investigação e comunicação numa prática reflexiva e iterativa, integrada no mundo atual.
4. Articulação da Taxonomia Figital com a A/r/cografia
A integração da taxonomia figital com a a/r/cografia visa estabelecer uma abordagem metodológica rigorosa para a criação e análise de obras de média-arte digital. A taxonomia figital, com seis dimensões - integração físico-digital, profundidade concetual, fruição, experiência sensorial, interatividade e interação corporal - permite avaliar as dinâmicas híbridas entre elementos tangíveis e virtuais e o seu impacto no espetador. A a/r/cografia, proposta por Veiga (2021), estrutura o processo criativo nos eixos da estética, aptidão e função. Esta articulação combina a análise sistemática da taxonomia figital com a orientação estrutural da a/r/cografia, apoiando artistas na conceção de artefactos e fornecendo a investigadores um quadro robusto para interpretar as implicações estéticas e culturais da média-arte digital. O resumo desta articulação está esquematizado na Figura 3.
4.1. Estética - Articulação com a Experiência Sensorial, a Experiência Cognitiva, a Interatividade e o Envolvimento Corporal
O eixo da estética analisa a capacidade de criar respostas emocionais e sensoriais significativas no público, identificando experiências que ressoam simultaneamente no plano emocional e intelectual. Este eixo está intrinsecamente ligado às dimensões de experiência sensorial, experiência cognitiva, envolvimento corporal e interatividade da taxonomia figital, cujas subcategorias oferecem uma estrutura analítica detalhada para avaliar e projetar a eficácia estética das criações figitais.
As subcategorias da taxonomia figital garantem o enquadramento de experiências sensoriais, indo além de estímulos isolados. Atmospheric Memory (Memória Atmosférica; 2023), de Rafael Lozano-Hemmer, exemplifica isso ao usar projeções digitais, superfícies táteis e som espacializado para transformar vibrações atmosféricas em interações imersivas, com palavras em vapor e sons que ligam emocionalmente público e ambiente, destacando o potencial transformador do figital.
A exposição Black Ancient Futures (Futuros Negros Antigos; 2024), no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, é também demonstrativa destas dimensões com esculturas, videoarte e instalações multissensoriais. Abordando racismo, misticismo e diásporas africanas, integra simbolismo e transformações concetuais, enriquecendo a experiência do público. Equilibra reflexão política e estética, demonstrando como a experiência cognitiva torna a arte crítica e envolvente.
A interatividade transforma o público em cocriador ativo da obra. Na interatividade física, exemplificada por 2Poetic AI (2021), da TeamLab, gestos e movimentos criam projeções digitais personalizadas, criando cenários únicos. Já a interatividade cognitiva alia estes gestos a um envolvimento intelectual, exigindo interpretação e atribuição de significados. Esta combinação físico-mental, alinhada à cocriação da a/r/cografia, fomenta uma experiência artística colaborativa entre obra e público.
O envolvimento corporal destaca a fisicalidade como essencial na interação com a obra, unindo corpo humano aos ambientes físico e digital. Na participação plena, o público molda o resultado final, como em We Live in an Ocean of Air (Vivemos num Oceano de Ar; 2018-2019), de Marshmallow Laser Feast. Esta obra usa realidade virtual, tato e olfato para criar um ecossistema imersivo, onde o movimento dos participantes interage com elementos digitais, refletindo a interdependência ser humano-ambiente e articulando físico, sensorial e virtual. A integração destas dimensões no eixo da estética da a/r/cografia permite nelas detalhar uma relação simbiótica que amplifica a experiência artística.
Esta abordagem interdisciplinar define o eixo da estética como um espaço que une inovação tecnológica, expressão sensorial e reflexão crítica, reconfigurando a prática figital num campo que alia imersão sensorial a experiência cognitiva. Pelas subcategorias da taxonomia figital, o eixo da estética é crucial para a criação e a análise críticas de obras que ligam o público de forma multidimensional, impulsionando interações entre tecnologia, estética e cultura, e desafiando o público a repensar a arte contemporânea com novas formas de envolvimento emocional e intelectual.
4.2. Aptidão - Articulação com Integração Físico-Digital, Experiência Sensorial, Experiência Cognitiva, Interatividade e Envolvimento Corporal
Este eixo da a/r/cografia constitui a base essencial para a análise da capacidade de investigação, conceção e execução das obras, integrando processos, materiais e tecnologias que viabilizam a sua realização. Este eixo vai além de uma função operativa ao articular dimensões fundamentais como a integração físico-digital, e quatro outras dimensões já referidas acima: a experiência sensorial, a experiência cognitiva, a interatividade e o envolvimento corporal. Estas categorias oferecem uma abordagem sistemática e multifacetada, agora sob o prisma da aptidão (técnica e artística) permitindo redefinir a prática artística contemporânea ao alinhar experiências sensoriais e intelectuais com mediação tecnológica.
A integração físico-digital emerge como uma dimensão central, possibilitando a fusão harmoniosa de elementos tangíveis e virtuais e criando um contínuo sensorial que proporciona ao público novas formas de interação.
O eixo da aptidão, ao integrar estas dimensões e subdivisões, reconfigura a prática figital como um campo de inovação técnica, com impactos estéticos e concetuais. A ligação entre fruição contemplativa, interatividade física, cognitiva e participação plena oferece um quadro amplo para expandir a experiência artística, ligando o público de modo sensorial e intelectual. Assim, o eixo técnico não só analisa a criação, mas redefine paradigmas da relação arte-tecnologiacorporeidade, reforçando a sua relevância atual.
A convergência destas dimensões culmina em experiências artísticas impactantes. Um exemplo integrador é a exposição AI: More Than Human (IA: Mais do que Humano; 2019), que articula plenamente a integração físico-digital, a interatividade e o envolvimento corporal. Esta exposição combina instalações híbridas que exploram a relação entre IA e humanidade, utilizando projeções interativas, som espacializado e visualizações em tempo real para criar um ambiente que liga o público a temas contemporâneos de forma reflexiva e emocionalmente envolvente.
4.3. Função - Articulação com Fruição e Experiência Cognitiva
O eixo da função/relação enquadra o impacto social, cultural e comunicacional das obras de arte, explorando como estas transcendem o seu caráter estético para se afirmarem como agentes de transformação cultural, social e experiencial. Este eixo estabelece relações significativas com o público e o contexto em que se insere, articulando-se intrinsecamente com as dimensões de fruição e profundidade concetual da taxonomia figital.
A função relaciona-se com duas dimensões taxonómicas relevantes: a fruição e a experiência cognitiva. A dimensão da fruição é exemplificada em The Infinity Room (A Sala Infinita; 2019), de Refik Anadol, uma instalação que combina projeções digitais e espelhos infinitos, criando um ambiente imersivo que transcende a fisicalidade do espaço, oferecendo uma experiência híbrida. Quando aplicada à interatividade, esta integração permite respostas dinâmicas a gestos e movimentos do público, transformando a experiência artística em algo tangível e imediato, intensificando o envolvimento sensorial.
A fruição participativa assume um papel central ao convidar o público a uma participação ativa e frequentemente cocriativa, permitindo que os espetadores moldem diretamente o resultado final da obra. Esta dimensão é particularmente relevante no eixo função/relação, pois transforma a obra num espaço de cocriação e partilha de significado. Um exemplo paradigmático desta abordagem é Me+You (Eu+Tu), de Es Devlin (2021), que convida os visitantes a gravar mensagens pessoais que se integram numa instalação interativa em tempo real. Este tipo de interação promove um vínculo emocional e reflexivo entre o público e a obra, enfatizando o papel do espetador como cocriador e ampliando o impacto relacional da experiência artística.
A experiência cognitiva, central no eixo da função/relação, avalia como narrativas e simbolismos das obras validam ou transformam paradigmas culturais e sociais. Assim, a arte pode reforçar contextos ou impulsionar mudanças, questionando paradigmas. Earth Speakr (Orador da Terra; 2020), de Olafur Eliasson, exemplifica isso ao integrar narrativas simples e simbolismos numa aplicação que dá voz a objetos, relacionando o público a temas ambientais e culturais de modo acessível e profundo, unindo experiência cognitiva e fruição participativa, determinando experiências transformadoras.
Obras, como The Anticipation of the Night (Antecipação da Noite; 2023), de Refik Anadol, que transformam dados climáticos em visualizações dinâmicas, combinam fruição participativa e transformação concetual, ligando o público às mudanças ambientais num diálogo crítico individual e coletivo.
5. Estudo de Caso Texel2048Loom
A obra Texel2048Loom, desenvolvida no âmbito desta mesma investigação, combina IA com a tradição têxtil, realçando o ADN visual das tapeçarias de Portalegre - a sua identidade visual e simbólica - que, à semelhança do ADN biológico, codifica informação passível de adaptação a novos contextos tecnológicos.
A obra Texel2048Loom, desenvolvida pelo autor, integra taxonomia figital e a/r/cografia, funcionando como exercício estético, exploração técnica e investigação ética sobre a recodificação do património cultural em ambientes digitais.
O projeto combina uma estética visual inovadora com uma reflexão crítica sobre os desafios éticos da mediação tecnológica na preservação da memória cultural. Esta dimensão ética, intrínseca ao processo criativo documentado a/r/cograficamente, revela tensões e escolhas em cada decisão técnica e concetual.
Como criador e teórico, o autor abordou questões de autenticidade, representação e legitimidade na transformação do património. A valorização do “erro computacional”, em vez de uma mimese realista, reflete uma postura ética que reconhece as limitações dos algoritmos, rejeitando a neutralidade tecnológica e assumindo o caráter interpretativo da recodificação digital.
A legitimidade foi tratada com rigor através da a/r/cografia, problematizando a relação com as tapeçarias de Portalegre. O autor propôs uma recontextualização dialógica, respeitando a tradição, enquanto a reimagina via algoritmos. A estrutura tripartida da obra evoca as fases da tecelagem - urdir, entrelaçar, finalizar -, traduzidas numa gramática visual contemporânea que preserva a memória dos gestos originais.
O paradoxo entre especialização técnica e democratização foi resolvido com interfaces que, mantendo a complexidade, permitem ao público, independentemente da literacia digital, participar na reinterpretação do património. Assim, a obra distribui a criação de significado entre autor, sistema e público.
A sustentabilidade da memória cultural foi assegurada por um registo a/r/cográfico detalhado, criando um meta-arquivo que garante a persistência do conhecimento além da obsolescência dos suportes. Esta integração de taxonomia figital e a/r/cografia oferece um modelo ético e prático para a preservação digital, focado na continuidade dinâmica dos processos culturais em ambientes híbridos.
Um modelo de machine learning, treinado com imagens de tapeçarias de Portalegre, foi utilizado para captar cores e texturas, valorizando o erro computacional em detrimento do realismo (Figura 4).
Após gerar várias imagens sintéticas, foram extraídas linhas estruturais com a biblioteca OpenCV1 (Python), servindo de base à composição. A obra organizase em três ecrãs interativos, inspirados na metáfora do tear: o primeiro apresenta linhas difusas em preto e branco, provenientes das imagens sintéticas, sugerindo o início criativo da tecelagem; o segundo exibe linhas definidas, extraídas de tapeçarias originais e imagens geradas, que reagem ao movimento do público, simbolizando a plasticidade cultural; o terceiro transforma essas linhas em partículas manipuláveis por gestos, captados via Mediapipe2, permitindo interação em tempo real, numa referência à ação manual no tear. O movimento cíclico das linhas animadas liga o artesanal ao digital, preservando dinamicamente o ADN cultural. Assim, Texel2048Loom reinterpreta a tradição com tecnologia, evidenciando o potencial do património cultural para criar novas experiências estéticas e comunicativas.
O desenvolvimento do Texel2048Loom pelo autor configura um laboratório metodológico singular, no qual os quadros teóricos da taxonomia figital e da a/r/cografia foram simultaneamente aplicados e afinados. Esta obra configura-se como uma manifestação prática desta articulação metodológica e integração sinérgica do físico e do virtual. Constitui, assim, um caso de investigação baseada na prática, caracterizado por um processo recursivo de retroalimentação entre teoria e criação, como postulado pela a/r/cografia.
A singularidade metodológica deste projeto reside na sua natureza generativa. Durante o desenvolvimento da obra, guiado pelos princípios a/r/cográficos de experimentação iterativa e reflexão crítica, tornou-se evidente a necessidade de explorar as dimensões figitais da experiência. Esta convergência metodológica transformou o Texel2048Loom num exemplo paradigmático de metodologia incorporada, onde o processo criativo se revelou, simultaneamente, um espaço de investigação e de reformulação teórica. A documentação exaustiva de todo o processo, um pilar central da a/r/cografia, não só viabilizou a criação da obra, mas também permitiu a teorização concomitante sobre a integração metodológica. Desta forma, o Texel2048Loom afirma-se tanto como objeto artístico quanto como manifesto metodológico.
5.1. Aplicação da Análise A /r/cográfica ao Desenvolvimento
A aplicação da a/r/cografia no projeto Texel2048Loom destaca-se na integração da tradição têxtil com IA, estabelecendo um “arco” contínuo entre o físico e o digital. Esta metodologia ultrapassa a simples união concetual, promovendo um fluxo dinâmico de interação, transformação e registo que liga tradição às tecnologias contemporâneas. O processo utiliza três algoritmos de redes neurais:
Variational autoencoder (VAE): modelos generativos probabilísticos que comprimem cada imagem num espaço latente contínuo e regularizado, capturando assim os padrões visuais essenciais das tapeçarias e permitindo a sua amostragem e reconstrução controlada para análise ou reinterpretação estilística (Kingma & Welling, 2013).
Residual network (ResNet): rede convolucional profunda com ligações residuais que mitigam o vanishing gradient (gradiente evanescente), referese a um fenómeno em redes neurais profundas, onde os gradientes utilizados para atualizar os pesos das camadas anteriores durante o treino diminuem exponencialmente à medida que se propagam para trás na rede. Isto significa que as camadas iniciais da rede recebem gradientes muito pequenos, o que resulta em uma atualização insignificante dos pesos e, consequentemente, em uma aprendizagem lenta ou até mesmo nula; esta arquitetura extrai e hierarquiza contornos, texturas e demais elementos estruturais, produzindo representações robustas dos motivos presentes nas obras (He et al., 2016).
LightGAN, variante mais leve das generative adversarial networks (redes antagónicas generativas): é composta por um gerador e um discriminador otimizados para treino eficiente, aprende o “ADN visual” das tapeçarias de Portalegre e, a partir dele, sintetiza composições que preservam a paleta cromática, traço e gramática formal com elevado realismo, mas a um custo computacional reduzido (Liu et al., 2021).
O Texel2048Loom convida o público a interagir, influenciando a reinterpretação do património têxtil pelos algoritmos. Este diálogo humano-tecnológico cria novas camadas simbólicas, revitalizando a tradição num ecossistema digital através de ciclos de realimentação.
Registo como arquivo vivo: cada etapa, análise das tapeçarias, criação de imagens e extração de linhas via OpenCV, é documentada, formando um arquivo evolutivo com dados visuais, decisões criativas e interações. Este registo, parte integrante da criação na a/r/cografia, preserva iterações e “erros” para análise do percurso entre passado e novas expressões.
Ponte entre tradição e digital: o VAE reinterpreta padrões, a ResNet identifica estruturas e o LightGAN cria composições híbridas, unindo a essência artesanal à inovação. A transição visual, de preto e branco a cores, simboliza a fusão entre o digital e a riqueza têxtil, expandindo a tradição.
Gesto e ciclo: as linhas animadas, extraídas das composições, replicam o ritmo do tecer, trazendo cadência ancestral ao digital. O registo contínuo documenta cada alteração, evidenciando “arcos” sucessivos que prolongam a memória cultural.
A a/r/cografia no Texel2048Loom combina interação, tecnologia e tradição num processo vivo, reescrevendo a história têxtil em diálogo com o futuro, sem perder as suas raízes.
5.2.1. Através da A /r/cografia
A análise de Texel2048Loom pela a/r/cografia de Veiga (2021) revela três eixos fundamentais: estética, aptidão e função, proporcionando uma visão global do processo criativo, da concetualização à prototipagem e intervenção final.
No eixo estético, a apropriação do imaginário das tapeçarias de Portalegre por algoritmos de IA (VAE, RESNET, LightGAN) cria uma experiência visual reflexiva, recorrendo a composições abstratas e variações subtis de cor e forma, envolvendo o público e evocando a herança cultural de forma poética.
No eixo da aptidão, a obra recorre a sistemas de visão por computador para detetar e traduzir os movimentos do público em alterações visuais, evidenciando um elevado rigor técnico. Documentada iterativamente em diários digitais de bordo, esta abordagem ilustra a flexibilidade rizomática da a/r/cografia, que promove ajustes contínuos até se obter uma interação dinâmica entre o gesto humano e a resposta algorítmica.
Por fim, no eixo da função, Texel2048Loom ultrapassa a dimensão estética ao revitalizar a tradição em contexto tecnológico, incentivando a participação ativa do público. Assim, reforça a dimensão relacional do método a/r/cográfico, abrindo espaço para a reinterpretação do património, a reflexão sobre a coautoria e a redefinição da função social da arte na era figital.
5.2.2. Através da Taxonomia Figital
Para aferir rigorosamente o grau de hibridização físico-digital e o impacto estético-cognitivo de Texel 2048 Loom, aplicou-se a taxonomia figital desenvolvida nesta investigação. Esta grelha analítica quantifica seis dimensões nucleares numa escala contínua de zero a 10, traduzindo-as depois em níveis qualitativos padronizados. A síntese numérica apresentada na Tabela 1, complementada pelo gráfico radar, oferece uma leitura simultaneamente pormenorizada e comparativa do desempenho da obra, destacando os seus pontos fortes e evidenciando os domínios onde subsiste potencial de aprofundamento.
Integração Físico-Digital - 9: a captação gestual em tempo real alimenta algoritmos generativos que projetam respostas visuais imediatas nos três ecrãs físicos, formando um circuito dinâmico corpo-código-espaço (Figura 5). A inexistência de feedback tátil/atuadores impede o valor máximo.
Experiência Sensorial - 3: a obra opta por uma estimulação sensorial contida, confinando-se quase exclusivamente ao campo visual. Não explora componentes sonoras, táteis ou olfativas, produzindo uma experiência subtil e deliberadamente minimalista.
Experiência cognitiva - 8: a obra questiona a recodificação algorítmica das tapeçarias de Portalegre, abordando memória cultural, autenticidade e tecnologia, conduzindo a uma forte “transformação cognitiva” (ver Figura 6).
Interatividade - 7: a resposta imediata implica uma coautoria efetiva; cada ação contribui para a configuração da composição, respeitando limites algorítmicos previamente definidos, posicionando-se ao nível “avançado”.
Envolvimento corporal - 6: o corpo atua como gatilho essencial, mas a participação permanece predominantemente gestual; existe margem para maior performatividade ou feedback bidirecional (ver Figura 7).
Fruição - 7: metamorfoses cromático-formais aliadas a uma interface intuitiva proporcionam uma experiência envolvente: o público desfruta das mutações enquanto participa ativamente na sua génese (ver Figura 8).
6. Aplicabilidade do Modelo em Diferentes Contextos Artísticos Figitais
A integração metodológica entre a taxonomia figital e a a/r/cografia, desenvolvida no âmbito do projeto Texel2048Loom, revela um elevado potencial de transferibilidade para diversos contextos de prática artística figital. Esta abordagem combina uma estrutura analítica robusta com uma aplicação prática flexível, permitindo a sua adaptação a múltiplas áreas de intervenção artística e cultural.
No âmbito das instalações interativas de base patrimonial, a metodologia proposta assume-se como um instrumento de análise crítica e um guia processual. A sua capacidade de mediar entre artefactos históricos e tecnologias digitais facilita a criação de experiências imersivas que respeitam a integridade cultural dos objetos, promovendo, simultaneamente, uma interação inovadora com o público. No domínio da dança e das performances mediadas tecnologicamente, a metodologia destaca-se pela sua abordagem à captação e tradução de gestos humanos em respostas algorítmicas. Este processo oferece contributos significativos para a articulação entre movimento corporal e mediação digital, sistematizando a interação entre expressão corporal e respostas tecnológicas, com a taxonomia figital a permitir a avaliação da eficácia dessa integração.
Na arte generativa e bioarte, a metodologia configura-se como um modelo eficaz para a documentação e análise de sistemas dinâmicos e evolutivos. A sua estrutura analítica, proporcionada pela a/r/cografia, suporta a exploração de comportamentos emergentes, enquanto a taxonomia figital oferece uma ferramenta para avaliar a complexidade e o impacto desses sistemas.
No domínio da arte pública interativa e das intervenções urbanas digitais, a metodologia oferece um quadro concetual que enfrenta as complexidades técnicas, logísticas e sociais inerentes a estes projetos. O desenvolvimento de sistemas reativos ao movimento do público serve como fundamento para a sua adaptação a ambientes urbanos, sendo a taxonomia figital um instrumento que apoia a análise da participação e do engagement das audiências.
No âmbito de contextos museológicos híbridos, a combinação entre taxonomia figital e a/r/cografia possibilita lidar com desafios entre a conservação do património e a introdução de inovações digitais. A metodologia contribui para a documentação e seguimento das estratégias de mediação digital, usando a taxonomia figital como meio de análise da eficácia das soluções postas em prática. A implementação prática, comprovada em Texel2048Loom, revela que a ligação entre taxonomia figital e a/r/cografia forma um quadro metodológico sólido e ajustável, apto a direcionar todas as etapas do processo criativo. Esta abordagem integrada afirma-se como um recurso polivalente, passível de ser usado em diversas práticas artísticas e contextos de pesquisa, incentivando uma análise crítica e uma prática renovadora no domínio da arte figital.
6.1. Aplicação da Análise A/r/cográfica ao Desenvolvimento
A convergência físico-digital, alcançada através da articulação entre a a/r/cografia e a taxonomia figital, possibilita uma leitura holística de Texel2048Loom. Ao cruzar os vetores processuais e relacionais da a/r/cografia com as categorias quantitativas da taxonomia figital, obtém-se um retrato consistente da obra nos seus múltiplos planos: material, virtual e simbólico. A pontuação reduzida na experiência sensorial (3) contrasta com a elevada valorização cognitiva (8), sublinhando que o dispositivo privilegia sobretudo o pensamento metafórico e a camada concetual, em detrimento de uma imersão sinestésica. Ainda assim, os índices de envolvimento corporal (6) e interatividade (7) evidenciam uma participação do público que, embora já significativa, poderia beneficiar de uma amplificação da componente físico-digital - por exemplo, pela introdução de estímulos hápticos ou sonoros que reforcem a continuidade entre o espaço tangível e o ambiente virtual. Por fim, o equilíbrio entre fruição (7) e profundidade cognitiva (8) confirma uma experiência simultaneamente acessível e intelectualmente densa, capaz de convocar tanto a emoção como a reflexão crítica do espetador.
Do ponto de vista do processo criativo, a a/r/cografia demonstra como cada eixo fundamental, estética, aptidão e função, foi explorado ao longo das diferentes fases de desenvolvimento da obra, reforçando o seu caráter iterativo e experimental. A taxonomia figital sublinha a natureza híbrida de Texel2048Loom, quantificando interatividade e envolvimento corporal, e destacando a coautoria tecnológica. Esta abordagem integrada evidencia a coesão concetual da obra, que, focada em estímulos visuais, reflete sobre a preservação e reinvenção do património. Assim, liga tradição têxtil e algoritmos de visão por computador, validando metodologias mistas que avaliam o processo criativo e a qualidade interativa da arte figital.
6.2. Nível Figital Alcançado
Com base na análise dos três eixos da a/r/cografia e nos valores atribuídos, conclui-se que Texel2048Loom atinge um avançado grau de figitalidade. A obra ultrapassa a mera coexistência entre os domínios físico e digital, estabelecendo uma simbiose que os liga de forma natural e enriquecedora.
A articulação entre algoritmos e gestos humanos converte esta obra num modelo do potencial figital para revitalizar o património cultural, tornando-o dinâmico, inclusivo e participativo. Em paralelo, ao envolver o público no processo criativo e converter conceitos complexos em experiências emocionais e acessíveis, a obra comprova a eficácia da sua metodologia. Deste modo, Texel2048Loom posicionase não apenas como criação artística contemporânea, mas também como evidência da a/r/cografia enquanto recurso inovador na produção artística atual.
7. Vantagens e Limitações da Integração da Taxonomia Figital com a A/r/cografia
A articulação entre taxonomia figital e a/r/cografia afirma-se como um referencial metodológico para analisar e criar práticas que associam dimensões físicas e digitais. Embora apresente vantagens, esta junção enfrenta igualmente limitações teórico-metodológicas e empíricas, evidentes no estudo de caso Texel2048Loom. Nesta secção, elencam-se os principais benefícios e as restrições identificadas, distinguindo o que decorre dos modelos do que deriva da sua aplicação prática.
7.1. Vantagens
A convergência entre a taxonomia figital e a a/r/cografia destaca-se pela articulação coerente entre análise e prática artística, com a primeira a fornecer um quadro concetual para avaliar as componentes físico-digitais e a segunda a estruturar um processo iterativo de criação, reflexão e documentação. A taxonomia figital mapeia a fusão entre físico e digital, classificando interatividade, envolvimento corporal e profundidade concetual, enquanto a a/r/cografia organiza o processo criativo em sete etapas de concetualização, experimentação e avaliação, promovendo um diálogo contínuo entre teoria e prática. Esta integração estimula a participação do público como coautor, valorizando a experiência sensorial e o envolvimento corporal, com a taxonomia a destacar a interatividade e a a/r/cografia a refletir sobre o impacto estético e emocional para ajustar a obra com base no feedback.
Fomenta ainda a experimentação com configurações figitais, integrando tecnologias como visão por computador e elementos culturais, esbatendo fronteiras entre físico e digital para impulsionar a hibridização artística. Adaptável a diversos contextos, combina a análise teórica da taxonomia com a sistematização prática da a/r/cografia, aplicando-se a diferentes áreas da criação híbrida. O artefacto Texel2048Loom exemplifica estas vantagens ao usar visão por computador, captação de gestos e a reinterpretação das tapeçarias de Portalegre, com a taxonomia a avaliar interatividade e profundidade concetual e a a/r/cografia a documentar e analisar reflexivamente o processo criativo.
7.2. Limitações
Apesar das vantagens, a combinação da taxonomia figital com a a/r/cografia revela limitações divididas em dois eixos: teórico-metodológicos, ligado às características dos modelos, e específicos do estudo de caso Texel2048Loom, relacionado com a aplicação prática. A taxonomia figital, concebida para analisar a relação físico-digital, é menos aplicável a projetos exclusivamente digitais ou físicos, restringindo-se a contextos híbridos. Embora mencione a estimulação sensorial, carece de diretrizes detalhadas para experiências multissensoriais, como som ou tato, além do visual, podendo exigir abordagens complementares em projetos mais amplos.
Faltam também categorias específicas para questões éticas e culturais, como autoria digital ou impacto sociocultural, limitando a análise, apesar da reflexão crítica possibilitada pela a/r/cografia. A integração dos modelos, com a taxonomia focada em dimensões figitais e a a/r/cografia em criação e reflexão, pode criar sobreposições ou desafios de coerência sem ferramentas unificadoras.
Em Texel2048Loom, a interação corporal captada por visão por computador enfatizou o digital via projeções, sem materialidade física, afetando o equilíbrio físico-digital, enquanto a experiência, centrada no visual, sugere potencial para incluir som, odor ou textura, uma limitação prática, não teórica.
8. Conclusão
Este estudo avaliou a integração entre a taxonomia figital e a a/r/cografia como metodologias para práticas artísticas figitais, analisando o seu impacto teórico e prático, bem como limitações e potenciais refinamentos. A aplicação destas abordagens em artefactos híbridos, como o Texel2048Loom, demonstrou a sua eficácia na estruturação e orientação do processo criativo, evidenciando o potencial de inovação proporcionado por esta abordagem.
A combinação entre a taxonomia figital e a a/r/cografia provou ser um modelo integrado que harmoniza as dimensões física e digital na criação artística. Enquanto a taxonomia figital permite uma análise detalhada das interações híbridas, a a/r/cografia complementa-a ao estruturar o processo criativo em torno dos seus três eixos concetuais: estética, aptidão e função. Esta abordagem promove não apenas a coerência interna das obras, mas também a sua capacidade de interação com o público e o contexto cultural.
Este estudo explorou a integração da taxonomia figital e da a/r/cografia como metodologias para práticas artísticas figitais, avaliando o seu impacto teórico e prático, além de limitações e possíveis aprimoramentos. Aplicadas ao Texel2048Loom, estas abordagens revelaram-se eficazes na estruturação do processo criativo, destacando o seu potencial inovador.
A combinação das duas metodologias forma um modelo coeso que une as dimensões física e digital. A taxonomia figital analisa detalhadamente as interações híbridas, enquanto a a/r/cografia organiza o processo criativo em estética, aptidão e função, promovendo coerência e interação com o público e o contexto cultural.
O Texel2048Loom, artefacto figital central neste estudo, exemplifica esta integração ao combinar componentes físicos e digitais na sua conceção e fruição. Embora apresente um predomínio digital, a sua materialidade e interatividade reforçam a natureza figital, evidenciando a capacidade das metodologias para lidar com ambiguidades e fronteiras mutáveis na arte contemporânea, além de demonstrarem flexibilidade para análises diversas.
A continuidade deste trabalho exige a validação da metodologia por meio de mais estudos de caso, explorando diversas tipologias de arte híbrida para revelar novas dimensões ou lacunas. Adicionalmente, criar ferramentas digitais de suporte pode democratizar as práticas figitais, otimizando a sua aplicação. A integração da taxonomia figital e da a/r/cografia aporta um modelo valioso à média-arte pós-digital, estruturando o processo criativo e ampliando os horizontes da arte contemporânea. Ao vislumbrar a coexistência enriquecedora entre tradição e tecnologia, este estudo sublinha o potencial das artes figitais como campo dinâmico de experimentação, reflexão e transformação cultural.
8.1. Refinamentos Futuros, Revisão e Expansão
O estudo de caso Texel2048Loom demonstrou o valor da integração entre a taxonomia figital e a a/r/cografia, tanto como instrumento analítico quanto como base operacional para práticas híbridas. No entanto, a aplicação empírica identificou lacunas que requerem resolução antes de se expandir este modelo a outros contextos artísticos.
A análise das criações revelou que a predominância do vetor visual é insuficiente para abarcar a complexidade das experiências figitais, sendo necessário expandir a taxonomia com subcategorias que integrem contributos sonoros, táteis, cinestésicos e olfativos, possibilitando uma avaliação multissensorial. Paralelamente, é fundamental formalizar indicadores ético-culturais que permitam avaliar impactos socioculturais, autoria algorítmica, acessibilidade, sustentabilidade ambiental e responsabilidade social. Adicionalmente, propõe-se a criação de um eixo autónomo dedicado à reinterpretação simbólica e à memória, destinado a examinar como a identidade e o património coletivo são transformados por algoritmos, assegurando a sua legitimidade. Para obras predominantemente virtuais, é crucial estabelecer intervalos analíticos específicos que garantam coerência quando a materialidade física é reduzida, bem como critérios que elucidem zonas de interseção complexa onde múltiplas dimensões se sobrepõem, prevenindo lacunas interpretativas.
A consolidação desta taxonomia revista deve assentar num programa de protótipos incrementais, testando variáveis específicas, como a introdução progressiva de feedback háptico, antes da sua integração definitiva. É igualmente necessário replicar esta abordagem em contextos socioculturais diversos, incluindo museus regionais, iniciativas comunitárias e espaços públicos urbanos, para avaliar a sensibilidade do modelo a valores locais e às expectativas de públicos heterogéneos. Este processo deve ser complementado por mecanismos de recolha longitudinal que permitam aferir a persistência do impacto e a evolução das perceções dos utilizadores ao longo do tempo.
Face à rápida evolução tecnológica, nomeadamente em áreas como inteligência artificial, realidade aumentada e virtual, a taxonomia deverá constituir um repositório dinâmico, sujeito a atualizações periódicas. Este processo deve ser suportado por comunidades de prática transdisciplinares e por um sistema de controlo de versões que garanta a rastreabilidade das alterações e a compatibilidade retrospetiva entre versões sucessivas.
Com a integração destas extensões multissensoriais, ético-culturais e simbólicas, e preservando a robustez já demonstrada pela a/r/cografia, o modelo revisto configura-se como um quadro holístico capaz de acompanhar a complexidade das práticas artísticas pós-digitais, promovendo abordagens inclusivas, sustentáveis e culturalmente responsáveis.










text in 











