SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.3 suppl.1Cinesiterapia Respiratória no doente crítico com COVID-19: A intervenção do Enfermeiro de Reabilitação - Estudo de casoElaboração de um procedimento de gestão de EPI na visitação domiciliária em contexto COVID19 índice de autoresíndice de assuntosPesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista Portuguesa de Enfermagem de Reabilitação

versão impressa ISSN 2184-965Xversão On-line ISSN 2184-3023

RPER vol.3  supl.1 Silvalde out. 2020  Epub 27-Out-2020

https://doi.org/10.33194/rper.2020.v3.s1.8.5791 

Artigos

Manter a mobilidade articular no doente critico: estudo de caso

Mantener la movilidad en las articulaciones en los enfermos críticos: estudio de caso

Maintaining joint mobility in the critical sick: case study

Ana Bernardo Beliz1 
http://orcid.org/0000-0003-4660-1955

Maria José Bule2 
http://orcid.org/0000-0002-0511-2920

Luís Manuel Mota De Sousa2  3 
http://orcid.org/0000-0002-9708-5690

1- ULSNA - Hospital de Santa Luzia Elvas

2- Universidade de Évora

3- Comprehensive Health Research Centre


RESUMO

Introdução:

A imobilidade no doente crítico é condicionada pela condição de doença ou ainda, pelo efeito de fármacos, mas, em ambos os casos, emerge como um problema na perspetiva da recuperação funcional. A diminuição da massa muscular e da amplitude articular atrasam ou dificultam os processos de recuperação da ventilação espontânea e os autocuidados. Quando o repouso no leito se impõe, os cuidados de enfermagem de reabilitação seguros são um recurso com vista à mitigação dos problemas associados à imobilidade.

Objetivo:

Avaliar resultados dos cuidados de enfermagem de reabilitação após a aplicação de uma intervenção estruturada de cuidados de mobilização articular passiva em doente crítico.

Método:

Estudo qualitativo, tipo estudo de caso. É apresentado o caso de uma pessoa adulta em situação crítica á qual foram realizadas oito sessões de mobilização articular por enfermeiro de reabilitação. Avaliada a amplitude articular com recurso a goniometria antes e após a aplicação de um programa de reabilitação. Estudo aprovado em comissão de ética.

Resultados:

Verificou-se que em 26 dias de internamento em unidade de cuidados intensivos a amplitude articular se manteve nos diferentes segmentos e houve ganhos nos movimentos de supinação do antebraço, extensão da mão esquerda e flexão do joelho direito. A realização de exercícios passivos de mobilização articular não interferiu com a estabilidade de parâmetros fisiológicos ou de adaptação à prótese ventilatória.

Conclusões:

Os resultados revelam a não ocorrência de diminuição da amplitude articular e são sensíveis aos cuidados de enfermagem de reabilitação, num plano estruturado e regular de mobilizações. Houve ganhos em saúde e a minimização das complicações associadas à imobilidade. Outros estudos devem ser realizados no sentido de parametrizar não só o plano de intervenção bem como a evidência dos resultados obtidos.

Descritores: Cuidados Intensivos; Enfermagem de Reabilitação; Acamado; exercícios terapêuticos

RESUMEN

Introducción:

La inmovilidad en pacientes críticos está condicionada por la condición de la enfermedad o por el efecto de las drogas, pero en ambos los casos surgen como un problema desde la perspectiva de la recuperación funcional. La disminución de la masa muscular y la amplitud articular retrasan o dificultan los procesos de recuperación de la ventilación espontánea y el autocuidado. Cuando se requiere reposo en cama, la atención de enfermería de rehabilitación segura es un recurso para mitigar los problemas asociados con la inmovilidad.

Objetivo:

Evaluar los resultados de los cuidados de enfermería rehabilitadores tras la aplicación de una intervención asistencial de movilización articular pasiva estructurada en pacientes críticos.

Método:

estudio cualitativo, tipo de estudio de caso. Se presenta el caso de una persona adulta en situación crítica y una enfermera de rehabilitación realizó ocho sesiones de movilización conjunta. La amplitud articular se evaluó mediante goniometría antes y después de la aplicación de un programa de rehabilitación. Estudio aprobado por el comité de ética.

Resultados:

Se encontró que en 26 días de hospitalización en la unidad de cuidados intensivos, la amplitud articular se mantuvo en los diferentes segmentos y hubo ganancias en los movimientos de supinación del antebrazo, la extensión de la mano izquierda y la flexión de la rodilla derecha. Los ejercicios pasivos de movilización articular no interfirieron con la estabilidad de los parámetros fisiológicos o la adaptación a la prótesis ventilatoria.

Conclusiones:

Los resultados revelan que no hay disminución en la amplitud articular y son sensibles a la atención de enfermería de rehabilitación, en un plan de movilización estructurado y regular. Hubo ganancias en la salud y la minimización de las complicaciones asociadas con la inmovilidad. Se deben realizar otros estudios para parametrizar no solo el plan de intervención sino también la evidencia de los resultados obtenidos.

Descriptores: Cuidados intensivos; Cuidados críticos; Rehabilitación; Rehabilitación de Enfermería y Reposo en cama

ABSTRACT

Background:

Immobility in critically ill patients is conditioned by the condition of the disease or by the effect of drugs, but in both cases, it emerges as a problem from the perspective of functional recovery. The decrease in muscle mass and joint amplitude delay or hinder the processes of recovery from spontaneous ventilation and self-care. When bed rest is required, safe rehabilitation nursing care is a resource to mitigate the problems associated with immobility.

Objective:

Evaluate the results of rehabilitation nursing care after the application of a structured passive joint mobilization care intervention in critically ill patients.

Methods:

Qualitative study, case study type. The case of an adult person in a critical situation is presented and eight joint mobilization sessions were carried out by a rehabilitation nurse. Joint amplitude was evaluated using goniometry before and after the application of a rehabilitation program. Study approved by the ethics committee.

Results:

It was found that in 26 days of admission to the intensive care unit, the joint amplitude remained in the different segments and there were gains in the supination movements of the forearm, left hand extension and right knee flexion. Passive joint mobilization exercises did not interfere with the stability of physiological parameters or adaptation to the ventilatory prosthesis.

Conclusion:

The results reveal that there is no decrease in joint amplitude and are sensitive to rehabilitation nursing care, in a structured and regular mobilization plan. There were gains in health and the minimization of complications associated with immobility. Other studies should be carried out in order to parameterize not only the intervention plan but also the evidence of the results obtained.

Keywords: Intensive care; Nursing Rehabilitation; Bedrest; Exercise therapy

INTRODUÇÃO

O contexto de cuidados ao doente crítico em unidade de cuidados intensivos (UCI) assume elevada complexidade na resposta imediata aos problemas, mas também no impacto dos cuidados tendo em vista a recuperação funcional. Considera-se que a pessoa em situação crítica apresenta falência de um ou mais sistemas orgânicos ou ainda uma situação tal que torna iminente a sua instalação e cuja sobrevivência está sujeita à utilização de meios avançados de vigilância, monitorização e terapêutica1.

O repouso no leito por tempo indeterminado é a prescrição médica mais comum em unidades de cuidados Intensivos. A imprevisibilidade do desfecho do prognóstico, do uso variado de drogas específicas e o extenso número de equipamentos e dispositivos médicos a que está ligado obrigam ao estabelecimento desta norma conduzindo-o, por consequência imediata, a situação de imobilidade 2. É de referir que as complicações associadas à imobilização potencializam o impacto da doença primária ou trauma 3.

Segundo Carinhas et.al., a atrofia muscular pelo desuso deve ser tratada de forma intensiva mesmo em adultos saudáveis 4. Em idosos a imobilidade prolongada origina complicações cardiovasculares, pulmonares, gastrointestinais, músculo-esqueléticas e urinárias3. Na literatura são também referidas a trombose venosa profunda (TVP), úlceras de pressão, infeção do trato respiratório (ITR), infeção do trato urinário (ITU) e ombro doloroso como complicações associadas à imobilidade 5.

O sistema músculo-esquelético é o mais afetado, com as ocorrências de diminuição da contração muscular, perda de força e massa muscular, atrofia, contraturas e osteoporose. Como resultado do repouso prolongado, há uma diminuição da síntese de proteína muscular, do catabolismo muscular e diminuição da massa muscular 4. Em relação à massa muscular, esta pode reduzir para metade em menos de duas semanas e associada à infeção diminuir até 1,5 kg ao dia. Mesmo em indivíduos saudáveis a imobilidade causa perda de massa muscular que, em estudos experimentais foi demonstrada ser de 4 a 5% por semana 6.

O repouso no leito quando associado à imobilidade em pessoas em situação crítica traduz se em rápidas perdas de massa muscular, de densidade óssea e de outros efeitos potencialmente adversos, como a diminuição da amplitude articular, na primeira semana de internamento em cuidados intensivos7.

A amplitude muscular está relacionada com a excursão funcional dos músculos sendo esta diretamente influenciada pela articulação cruzada por ele e para que a amplitude de movimento (ADM) se mantenha normal é necessário que os segmentos sejam movidos periodicamente 8.

As complicações referidas anteriormente, podem ser prevenidas através de uma intervenção precoce e estruturada por parte do enfermeiro de reabilitação no sentido de recuperar/manter a integridade músculo esquelética. A mobilização precoce diminui as complicações associadas às alterações da mobilidade e imobilidade, uma vez que estas se podem revelar de forma mais grave do que a patologia que lhes deu origem, reduzindo a capacidade funcional temporária4. Esta corresponde a um padrão de exercícios que se inicia com mobilizações passivas e evolui até à marcha9.

As mobilizações passivas estão indicadas em situações em que a pessoa não é capaz ou não pode mover ativamente um segmento ou segmentos do corpo sendo este realizado por uma fonte externa quer seja proveniente da gravidade, de outra pessoa, de um aparelho, ou até mesmo de outra parte do corpo da própria pessoa, em situações de coma, paralisia, ou de repouso no leito, ou para a mobilização de regiões em que se verifique inflamação dos tecidos 10. Um estudo de revisão integrativa concluiu que em contexto de cuidados intensivos os exercícios de mobilização são seguros, resultam na diminuição de complicações e do tempo de internamento e concorrem para a diminuição da morbilidade e mortalidade hospitalar dos doentes 11. Apesar de não existir consenso entre os autores são referidos benefícios dos exercícios terapêuticos iniciados precocemente 6.

Este estudo de caso tem como objetivo avaliar resultados dos cuidados de enfermagem de reabilitação após a aplicação de uma intervenção estruturada de cuidados de mobilização articular passiva em doente crítico. A conceção do estudo foi alicerçada na teoria de enfermagem de Virgínia Henderson considerando a enfermagem e os cuidados de enfermagem como a resposta às necessidades de cuidados que visam não só a saúde como também a recuperação e a independência máxima alcançável para cada pessoa 12. Foram considerados os Bilhetes de identidade dos indicadores que integram o core de indicadores por categoria de enunciados descritivos dos padrões de qualidade dos cuidados de enfermagem de reabilitação, foram incluídos como focos a rigidez articular e o movimento muscular 13.

MATERIAL E MÉTODOS

A metodologia de estudo de caso clinico integra os dados obtidos no processo assistencial com os dados de evidência científica o que permite apurar resultados de elevada qualidade dos cuidados prestados numa situação particular 14. A abordagem ao estudo de caso é de natureza qualitativa e foram seguidas as Guidelines Case Report CARE 14). O estudo de caso é um método que permite a exploração, descrição e análise de fenómenos com limites algo indefinidos sendo estes limitados pelo investigador segundo os objetivos do estudo 15,16

O contexto de cuidados é o doente crítico em UCI e o enfoque do processo assistencial são os cuidados de enfermagem de reabilitação, i.e., exercícios de mobilização. Segundo a Teoria de Virgínia Henderson o enforque foi a atividade movimentar-se, os focos (Padrões de qualidade dos cuidados de enfermagem de reabilitação) rigidez articular e movimento muscular. Os diagnósticos de enfermagem foram formulados pela CIPE versão 2,0 17.

O plano de intervenção foi elaborado a partir da revisão teórica e comporta exercícios de mobilização articular realizados diariamente com avaliação por goniometria antes e após cada sessão 18-21.

O Goniómetro é um instrumento de medida da amplitude articular através do qual é possível documentar a presença de rigidez articular. A sua precisão depende de vários fatores: adequação do goniómetro à articulação a avaliar, características específicas das diferentes articulações a medir, procedimento/protocolo a utilizar, patologia articular em causa e utilização de movimento passivo ou ativo durante a avaliação. O protocolo de avaliação deve contemplar sempre o movimento da articulação, posição, estabilização da articulação, eixo e posicionamento dos braços fixo e móvel 22.

O estudo foi realizado numa unidade hospitalar da região Alentejo (Portugal), durante o mês de dezembro de 2019, integrado no estágio final do Mestrado em Enfermagem com a aprovação pelas Comissões de Ética da Instituição de Ensino e da Unidade Local de Saúde à qual pertence a instituição hospitalar. O consentimento informado foi assinado pelo representante legal do participante. Foram seguidas as diretrizes da ética para a investigação em enfermagem, assim como respeitadas as recomendações da declaração de Helsínquia e convenção de Oviedo, garantindo-se assim, o respeito pelo princípio da dignidade e da privacidade, bem como o princípio da não maleficência, vulnerabilidade e decisão livre e informada.

Os instrumentos de avaliação utilizados nas fases de avaliação inicial e de avaliação de resultados foram o goniómetro e uma grelha de observação concebida para o estudo. Foram recolhidos dados de sistema de monitorização de parâmetros fisiológicos e do processo clínico.

A intervenção foi realizada exclusivamente pela enfermeira estagiária, com supervisão de EEER em oito sessões, em dias alternados e teve a duração média de 40 minutos.

Os dados recolhidos foram analisados quantitativamente.

Apresentação do caso

Anamnese

O presente estudo de caso diz respeito a uma pessoa de 54 anos de idade, do sexo masculino, caucasiano e de nacionalidade Portuguesa. Trabalhador no setor primário i.e. agricultura, com cinco anos de escolaridade.

Foi transferido do serviço de medicina para a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI), por agravamento do estado geral, alteração do estado de consciência com alteração dos parâmetros respiratórios apresentando hipoxemia e hipercapnia revelado na gasimetria arterial. Foi necessário recorrer à entubação endotraqueal e colocação de suporte ventilatório com ventilação mecânica invasiva e, por isso, sob o efeito de sedação e analgesia. Os diagnósticos médicos são de Pneumonia Bilateral, Síndrome de Dificuldade Respiratória Aguda (ARDS), e Síndrome Coronário Agudo (SCA), com choque cardiogénico.

Nos dados do histórico de saúde constava Diabetes tipo 2, tabagismo ativo (40 cigarros/dia), hábitos etanólicos não especificados, status pós AVC isquémico em agosto de 2019.

No que diz respeito às Atividade de Vida Diárias, antes do internamento o doente não apresentava nenhuma alteração na realização das mesmas sendo por isso independente em todas elas.

O caso foi estudado do décimo ao vigésimo sexto dia de internamento. O doente esteve com ventilação mecânica invasiva durante 18 dias e dezasseis dias com sedo-analgesia contínua. O processo de desmame foi progressivo, no vigésimo segundo dia iniciou ventilação não invasiva com CPAP e manteve analgesia com Fentanilo. No último dia de contacto o doente mantinha-se já em ventilação espontânea, com oxigenoterapia a 28%. A alteração do estado de vigília motivado pela sedação e analgesia justificaram a ausência de participação nos exercícios de mobilização e a avaliação de potenciais efeitos adversos foi realizada através dos parâmetros fisiológicos em monitorização contínua. O doente manteve-se medicado com analgésico opiáceo até ao final da intervenção.

Avaliação de Enfermagem de Reabilitação

Todas as intervenções foram antecedidas e precedidas da recolha de dados dos parâmetros fisiológicos e da amplitude articular por goniometria. Apenas foi possível avaliar a amplitude articular em segmentos livres de dispositivos médicos e em segmentos cuja movimentação não estivesse associada ao risco de instabilidade. Nos ombros foi possível avaliar a amplitude articular no movimento de flexão. Em relação aos cotovelos e punhos, foi possível avaliar a amplitude articular em todos os movimentos realizados pelas articulações.

No que diz respeito aos membros inferiores, mais propriamente à articulação coxofemoral, apenas foram avaliadas as amplitudes articulares nos movimentos de flexão, abdução e adução. Nas restantes articulações previstas do joelho e tornozelo, foram avaliadas as amplitudes articulares de todos os movimentos.

A análise dos dados de avaliação conduziu à definição dos diagnósticos de enfermagem de reabilitação (quadro 1).

RESULTADOS

Os parâmetros de monitorização usados para estimar o risco e despistar efeitos adversos foram a pressão arterial (PA), a frequência cardíaca (Fc), a saturação periférica de oxigénio (SpO2) e a frequência respiratória (Fr). Os dados revelam que antes e após a intervenção de mobilização articular passiva, nos graus de liberdade permitidos nos diferentes segmentos não induziram alterações significativas nos parâmetros usados (tabela 1). Nas oito sessões realizadas não ocorreu nenhum efeito adverso mensurável nem intercorrências de adaptação à modalidade ventilatória (PSV SIMV).

Quadro 1 Diagnósticos, intervenções e indicadores de resultado em enfermagem 

Diagnósticos Intervenções Indicadores de resultados
Movimento muscular diminuído Vigiar parâmetros fisiológicos estimadores da tolerância à posição: PA, Fc, Fr, SatO2
Monitorizar força muscular através da escala de avaliação manual Medical Research Council Muscle Scale bi-semanal
Executar técnicas de posicionamento terapêutico no leito 2/2 horas
Manter a amplitude articular nos segmentos
Manter a integridade tegumentar
Manter parâmetros fisiológicos estabilizados
Risco de rigidez articular Monitorizar parâmetros fisiológicos estimadores da tolerância ao exercício: PA, Fc, Fr, SatO2
Avaliar a amplitude de movimentos (goniometria) bi-semanal
Avaliar a integridade articular: palpação, observação
Executar mobilização articular passiva 5-10 repetições/segmento, diariamente
Manter a amplitude articular nos segmentos
Aumentar a amplitude de movimentos aos limites articulares fisiológicos
Limitar/eliminar eventos adversos

Tabela 1 Avaliação de parâmetros fisiológicos pré e pós mobilização articular 

Nº. de sessões 1 2 3 4 5 6 7 8
Internamento/dias 10 11 16 17 18 22 23 26
PA mmHg Pré 132/86 130/85 130/60 92/ 44 126/60 104/55 120/60 90/47
PA mmHg Pós 105/70 105/64 108/51 100/46 110/74 112/54 108/51 110/50
Fc Pré 104 83 66 62 63 70 66 63
Fc Pós 111 74 61 60 66 67 61 70
SpO2 (%) Pré 100 100 98 98 99 100 100 99
SpO2 (%) Pós 100 100 98 98 99 100 100 100
Fr Pré 28 18 18 12 14 16 16 17
Fr Pós 27 24 16 14 16 20 16 20

A avaliação da amplitude articular com goniometro foi realizada na primeira, quarta, sexta e oitava sessões. As oito sessões de mobilização articular passiva foram eficazes pois verificou-se que no doente com internamento de vinte seis dias em UCI, medicado com sedo-analgésicos e na maioria dos dias com ventilação invasiva, não ocorreu diminuição da amplitude articular e houve melhoria na amplitude da supinação do antebraço (i.e. 100 ), na extensão da mão esquerda (i.e. 50) e na flexão do joelho direito (i.e. 100) (tabela 2). Salienta-se a importância destes resultados pelo contexto especifico do caso i.e. doente critico, com ventilação invasiva e sedo-analgesiado. Contudo, não foi possivel avaliar a força muscular por ausência de resposta a estímulos.

Tabela 5 Amplitude articular após intervenção de mobilização passiva 

Goniometria em graus Nº sessão
Segmento Movimento 1 4 6 8
Ombro D Flexão 145 145 145 145
Ombro E Flexão 145 145 145 145
Cotovelo D Flexão 140 140 140 140
Extensão 0 0 0 0
Cotovelo E Flexão 145 145 145 145
Extensão 0 0 0 0
Antebraço D Pronação 60 60 60 60
Supinação 80 90 90 90
Antebraço E Pronação 90 90 90 90
Supinação 70 70 70 70
Punho D Flexão 90 90 90 90
Extensão 70 70 70 70
Adução 45 45 45 45
Abdução 20 20 20 20
Punho E Flexão 90 90 90 90
Extensão 65 70 70 70
Adução 45 45 45 45
Abdução 20 20 20 20
Anca D Flexão 82 82 82 82
Extensão 10 10 10 10
Adução 15 15 15 15
Abdução 30 30 30 30
Anca E Flexão 105 105 105 105
Extensão 10 10 10 10
Adução 15 15 15 15
Abdução 40 40 40 40
Joelho D Flexão 130 140 140 140
Extensão 0 0 0 0
Joelho E Flexão 135 135 135 135
Extensão 0 0 0 0
Tornozelo D Flexão 20 20 20 20
Extensão 15 15 15 15
Tornozelo E Flexão 20 20 20 20
Extensão 15 15 15 15

DISCUSSÃO

O internamento em UCI tem múltiplos fatores que colocam em risco a falência de um ou mais órgãos ou sistemas, e esta condição é verificável no caso estudado, i.e., ARDS e SCA. O processo assistencial de enfermagem requer competências especializadas e um modelo de conceção de cuidados que oriente o raciocínio clinico no sentido das boas práticas, em ambientes de elevada complexidade como as UCI, tal como os autores concluíram após revisão sistemática da literatura 23. Os cuidados de enfermagem de reabilitação em doentes em UCI com ventilação mecânica invasiva têm resultados favoráveis na eficácia do tratamento e na prevenção de complicações 24.

Os exercícios de mobilização articular passiva realizados nos segmentos livres de dispositivos médicos não causaram alterações significativas nos parâmetros vitais monitorizados nem outros incidentes adversos e estes resultados são consonantes com as indicações sobre segurança das mobilizações em doentes críticos 11,25.

O período de dezasseis dias de internamento sem perda de amplitudes articulares e com aumento em dois segmentos revela-se um importante contributo na mitigação das complicações da imobilidade tal como verificado em estudos com doentes críticos em UCI 25,26. Um estudo randomizado que envolveu 54 doentes internados em UCI com ventilação invasiva superior a 48 horas concluiu que planos de mobilização realizados por enfermeiros melhoram a força muscular, a força de preensão, diminuem o delírio, não agravam marcadores inflamatórios e reduzem o tempo de internamento 27. Também num estudo de avaliação funcional dos doentes no momento da alta em UCI concluiu que os cuidados de enfermagem de reabilitação precoces têm impacto na funcionalidade 28.

A sedação e a analgesia são medidas farmacológicas frequentes em UCI e visam não só o controlo da dor como também a adequada adaptação à prótese ventilatória, mas condicionam a reatividade e a participação do doente e nessa condição os efeitos dos exercícios de mobilização articular devem ser estudados no sentido da especificação de critérios como a intensidade e a duração. A fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva (FAUCI) está associada a danos significativos na estrutura e função do corpo, limitação de atividades e restrição de participação. A reabilitação precoce está associada a uma menor probabilidade de desenvolver situações de FAUCI 29.

Implicações para a prática e políticas de saúde

A mobilização precoce em pessoas internadas em unidade cuidados intensivos, sob ventilação mecânica é segura, viável e benéfica 30-32, com diminuição dos dias de ventilação e redução dos dias de internamento na UCI (33) e melhoria da função muscular32,34, neste sentido, devem realizados esforços sistemáticos para mudar a cultura da UCI de modo a priorizar a mobilização precoce na prática clínica usando uma abordagem interprofissional e várias estratégias, nomeadamente, a implementação de diretrizes de segurança; uso de protocolos de mobilização; formação e educação interprofissional 31,32.

Atendendo aos benefícios da mobilização precoce em pessoas submetidas a ventilação invasiva 11 é fundamental refletir e intervir nas barreiras modificáveis através de esforços estruturados para alcançar uma mudança cultural multidisciplinar, de modo a diminuir a intervenção designada de repouso no leito nas pessoas internadas em UCIs 35.

Limitações

Destaca-se como limitação do estudo o fato de os dados serem referentes a uma única pessoa, não se podendo fazer inferências para a população em geral. Este estudo retrata restritamente a experiência do EEER na intervenção dirigida a um doente em situação crítica com suporte de ventilação invasiva em que foram enunciados os diagnósticos de enfermagem Risco de rigidez articular e Movimento muscular diminuído.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo corrobora a importância da mobilização precoce em doentes críticos, nas fases de sedação e de ventilação invasiva. Períodos longos de imobilização como o que foi estudado têm impacto nas estruturas músculo-esqueléticas e a perspetiva de os mitigar fará reduzir as alterações na funcionalidade aquando da alta. A intervenção do EEER permitiu manter a amplitude articular da maioria das articulações, tendo verificado melhoria na amplitude da supinação do antebraço (i.e. 100 ), na extensão da mão esquerda (i.e. 50) e na flexão do joelho direito (i.e. 100).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Ordem dos Enfermeiros. Regulamento n.º 125/2011. 2011. p. 8648 - 51. [ Links ]

2 Topp R, Ditmayer M, King K, Doherty K, Hornyak J. The effect of bed rest and potential of prehabilitation on patients in the intensive care unit. Adv Crit Care [Internet]. 2002; 2(Musculokeletal):[263-76 pp.]. [ Links ]

3 Guedes LPCM, de Oliveira MLC, Carvalho GdA. Efeitos deletérios do tempo prolongado no leito nos sistemas corporais dos idosos - uma revisão. Rev Bras Geriatr Gerontol [Internet]. 2018; 21:[516-23 pp.]. [ Links ]

4 Carinhas MJA, Eusébio APV, de Carvalho LNMCdv, Lopes TMC, Braga RJVdA. Guia Orientador de Boas Práticas - Cuidados à pessoa com alterações da mobilidade - posicionamentos, transferências e treino de deambulação. Ordem dos Enfermeiros ed2013. 76 p. [ Links ]

5 Silva DCS, Nascimento CF, Brito ES. Efeitos da Mobilização Precoce nas Complicações Clínicas Pós-AVC: Revisão da Literatura. Rev Neurociênc [Internet]. 2013; 4(22):[620-7 pp.]. [ Links ]

6 Silva APPd, Maynard K, Cruz MRd. Efeitos da Fisioterapia motora em doentes críticos: revisão de literatura. Rev Bras Ter Intensiva [Internet]. 2010; 1:[85-91 pp.]. Available from: http://www.scielo.br/pdf/rbti/v22n1/a14v22n1. [ Links ]

7 Parry SM, Puthucheary ZA. The impact of extended bed rest on the musculoskeletal system in the critical care environment. Extrem Physiol Med [Internet]. 2015:[1-8 pp.]. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4600281/. [ Links ]

8 Kisner C, Colby LA. Exercícios Terapêuticos. Fundamentos e Técnicas. 4.ª Edição ed. Brasil2005. 813 p. [ Links ]

9 Grap MJ, Mc Fetridge B. Critical care rehabilitation and early mobilisation: an emerging standard of care. Intensive Criti Care Nurs [Internet]. 2012; 28(2):[55-7 pp.]. [ Links ]

10 Kisner C, Colby LA. Exercicios terapêuticos: fundamentos e técnicas. 4ª ed. Barueri SP: Manole; 2005. [ Links ]

11 Cerol P, Martins J, Sousa LMMd, Oliveira I, Silveira T. Mobilização precoce em pessoas submetidas a ventilação mecânica invasiva: Revisão integrativa da literatura. Rev Port Enferm Reabil [Internet]. 2019 Mai 2020; 2(1):[49-58 pp.]. [ Links ]

12 Tomey AM, Alligood MR. Teóricas de Enfermagem e a Sua Obra. (Modelos e Teorias de Enfermagem). 5.ªEdição ed. LOURES2004. [ Links ]

13 Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação da Ordem dos Enfermeiros. Bilhetes de identidade dos indicadores que integram o core de indicadores por categoria de enunciados descritivos dos Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem de Reabilitação. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros; 2018. Available from: https://www.ordemenfermeiros.pt/media/9748/enfermagem-reabilitacao.pdf. [ Links ]

14 IMI LLC. CARE- Case Report Guidelines Portland Oregon USA: IMI LLC; 2019 [Available from: https://www.care-statement.org/writing-a-case-report. [ Links ]

15 Yin RK. Estudo de caso: Planejamento e métodos. 4 ed. Porto Alegre: Bookman; 2010. [ Links ]

16 Creswell JW. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2010. [ Links ]

17 Conselho Internacional de Enfermeiros. CIPE versão 2: classificação internacional para a prática de enfermagem. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros; 2011. [ Links ]

18 Coelho C, Barros H, Sousa L. Reeducação da função sensoriomotora. In: Marques-Vieira C, Sousa L, editors. Cuidados de enfermagem de reabilitação à Pessoa ao longo da vida. Loures: Lusociência; 2017. p. 227-52. [ Links ]

19 Lourenço MJ, Ferreira Ó, Baixinho CL. Terapêutica de posição - Contributo para um cuidado de saúde seguro. Loures: Lusodidacta; 2016. [ Links ]

20 Thibaut A, Wannez S, Deltombe T, Martens G, Laureys S, Chatelle C. Physical therapy in patients with disorders of consciousness: Impact on spasticity and muscle contracture. NeuroRehabil. 2018;42(2):199-205. PubMed PMID: 128962685. Language: English. Entry Date: 20180411. Revision Date: 20190201. Publication Type: Article. [ Links ]

21 Toubarro F. Função sensoriomotora. In: Marques-Vieira C, Sousa L, editors. Cuidados de enfermagem de reabilitação à Pessoa ao longo da vida. Loures: Lusodidacta; 2017. p. 159-66. [ Links ]

22 Maria Eugénia Rodrigues Mendes Coord. Instrumentos de recolha de dados para a documentação dos cuidados especializados em Enfermagem de Reabilitação Lisboa: Ordem dos Enfermeiros; 2016. Available from: https://www.ordemenfermeiros.pt/media/9811/docinstrurecolhadadosenfreabilita%C3%A7%C3%A3o_vf.pdf. [ Links ]

23 Carvalho RF, Cruz I. Nursing evidence-based practice guidelines for cardiac tissue perfusion in ICU - Systematic Literature Review. JSNCare [Internet]. 2020 2020-03-26; 12(1). Available from: http://www.jsncare.uff.br/index.php/jsncare/article/view/3296/829. [ Links ]

24 Farinho JS, Ferreira RF. Reabilitação respiratória da pessoa com ventilação mecânica invasiva. Rev Ibero-Am Saúde Envelhec [Internet]. 2019; 4(3):[1619-34 pp.]. Available from: http://www.revistas.uevora.pt/index.php/saude_envelhecimento/article/view/328/483. [ Links ]

25 Vieira JV, Ferreira RF. Mobilização precoce da pessoa submetida a ventilação mecânica invasiva. Rev Ibero-Am Saúde Envelhec [Internet]. 2018; 4(2):[1387-99 pp.]. Available from: http://www.revistas.uevora.pt/index.php/saude_envelhecimento/article/view/239. [ Links ]

26 Cerqueira AVB, Grilo EN. Prevenção das consequências da imobilidade na pessoa em situação critica. RPER [Internet]. 2019; 2(1):[78-89 pp.]. [ Links ]

27 Winkelman C, Sattar A, Momotaz H, Johnson KD, Morris P, Rowbottom JR, et al. Dose of Early Therapeutic Mobility: Does Frequency or Intensity Matter? . Biol Res Nurs [Internet]. 2018; 20(5):[522-30 pp.]. [ Links ]

28 Azevedo PMDdS, Gomes BP, Pereira JATP, Carvalho FMN, Ferreira SPC, Pires AI, et al. Dependência funcional na alta dos cuidados intensivos: relevância para a enfermagem de reabilitação. Rev Enf Ref [Internet]. 2019; serIV(20):[37-45 pp.]. Available from: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-02832019000100005&nrm=iso. [ Links ]

29 Anekwe DE, Biswas S, Bussières A, Spahija J. Early rehabilitation reduces the likelihood of developing intensive care unit-acquired weakness: a systematic review and meta-analysis. Physiother [Internet]. 2020 2020/06/01/; 107:[1-10 pp.]. Available from: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031940619301282. [ Links ]

30 Dub R, Nydahl P, Hermes C, Schwabbauer N, Toonstra A, Parker AM, et al. Barriers and strategies for early mobilization of patirnts in intensive care units. Ann AM Thorac Soc [Internet]. 2016; 13(5):[724-30 pp.]. [ Links ]

31 Hodgson CL, Capell E, Tipping CJ. Early Mobilization of Patients in Intensive Care: Organization, Communication and Safety Factors that Influence Translation into Clinical Practice. Crit Care [Internet]. 2018 2018/03/20; 22(1):[77 p.]. Available from: https://doi.org/10.1186/s13054-018-1998-9. [ Links ]

32 Dub R, Nydahl P, Hermes C, Schwabbauer N, Toonstra A, Parker AM, et al. Barriers and strategies for early mobilization of patirnts in intensive care units. Ann AM Thorac Soc [Internet]. 2016; 13(5):[724-30 pp.]. [ Links ]

33 Lai C-C, Chou W, Chan K-S, Cheng K-C, Yuan K-S, Chao C-M, et al. Early Mobilization Reduces Duration of Mechanical Ventilation and Intensive Care Unit Stay in Patients With Acute Respiratory Failure. Arch Phys Med Rehabil [Internet]. 2017 2017/05/01/; 98(5):[931-9 pp.]. Available from: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003999316312977. [ Links ]

34 Yue M, Ma Z-Y, Lei M-J, Cui C-Y, Jin Y. Early mobilization for mechanically ventilated patients in the intensive care unit: a systematic review and meta-analysis2018; 5(4):[301 p.]. Available from: https://content.sciendo.com/view/journals/fon/5/4/article-p301.xml. [ Links ]

35 Sibilla A, Nydahl P, Greco N, Mungo G, Ott N, Unger I, et al. Mobilization of Mechanically Ventilated Patients in Switzerland. J Intensive Care Med [Internet]. 2020 Mai 2020; 35(1):[55-62 pp.]. Available from: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0885066617728486. [ Links ]

Recebido: 03 de Junho de 2020; Aceito: 20 de Outubro de 2020

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons