Introdução
A cinetose ou enjoo de movimento (EM) é uma resposta fisiológica normal, associada à exposição do organismo ao movimento ou, com a recente introdução de tecnologias visuais (videojogos, filmes 3D e realidade virtual), associada ao movimento do ambiente visual - Enjoo do Movimento Induzido Visualmente (EMIV).1,2 Os critérios de diagnóstico do EM e do EMIV encontram-se publicados recentemente pela Sociedade Barany1 e estão descritos na tabela n.1.
Os sinais e sintomas mais comuns ocorrem durante a exposição ao movimento e são as náuseas, vómitos, fadiga, sudorese, palidez, tonturas, vertigem, cefaleias e/ou fadiga visual. (1,2
No que diz respeito à avaliação da suscetibilidade e severidade do EM, estão recomendados instrumentos de avaliação, onde se salienta a Motion Sickness Susceptibility Questionnaire - Short Form (MSSQ-Short).
O presente trabalho tem como objetivo a validação e adaptação do MSSQ-Short para a língua e população portuguesa de Portugal.
Material e métodos
Questionário Sensibilidade ao Enjoo de Movimento - (Versão Reduzida) Motion Sickness Susceptibility Questionnaire - Short Form
O MSSQ-Short é um instrumento de medida de suscetibilidade ao EM amplamente utilizado, traduzido e validado em várias línguas e que tem como objetivo avaliar a exposição dos indivíduos a situações nauseogénicas (desencadeadoras de náuseas ou perturbações gastrointestinais) como andar de carros, barcos e montanhas-russas, com indicação dos sintomas resultantes da sensibilidade ao movimento, quer em criança, quer em adulto. (3-9
Desenvolvido originalmente em 196810, tem passado por múltiplas alterações, revisões e revalidações11. A alteração mais recente consistiu numa simplificação do questionário de 54 a 18 itens, mantendo a elevada correlação com MSSQ - Long Form (r=0,93). (7
Processo de tradução e adaptação cultural de instrumentos de autoavaliação
A metodologia seguiu os princípios de boas práticas para o processo de tradução e adaptação cultural de instrumentos de autoavaliação (gráfico 1). (12
A tradução e adaptação cultural do Motion Sickness Susceptibility Questionnaire - Short Form (MSSQ-Short), seguiu estes Princípios e as etapas neles indicados.

Gráfico 1 representação esquemática da metodologia de boas práticas para o processo de tradução e adaptação cultural de instrumentos de autoavaliação.
1 - Preparação
A primeira etapa do processo teve início através do contacto com o autor do questionário (J.F. Golding a 18 de novembro de 2019), por parte do responsável do projeto, para a utilização do instrumento e pedido de colaboração para clarificar qualquer ambiguidade futura, minimizando o risco de más interpretações.
A resposta foi célere e positiva, com garantia de plena disponibilidade ao longo de todo o processo.
Nesta fase foram ainda realizadas reflexões acerca de conceitos presentes no instrumento, como “sensibilidade ao movimento” e “enjoo de movimento”, que constituem as bases conceptuais básicas do questionário, úteis para os tradutores, fortalecendo a equivalência conceptual da tradução. Foram ainda pesquisadas as traduções já existentes, as suas utilizações, bem como trabalhos de investigação desenvolvidos com recurso ao MSSQ-short, pelo autor e não só.
Nesta fase, o responsável do projeto recrutou um elemento-chave de língua portuguesa, amplamente conhecedor da área, para trabalhar de perto com o responsável do projeto, durante todo o processo de tradução e adaptação.
2- Tradução
Foram realizadas 3 traduções independentes (as normas seguidas indicam pelo menos 2), tendo por base 3 tradutores de língua inglesa com língua materna portuguesa, residentes no país, profissionais de saúde de áreas distintas: sexo feminino, 39 anos, psicologia comportamental; sexo feminino, 63 anos, medicina; sexo feminino, 45 anos, bióloga.
Foram providenciadas explicações simples sobre os conceitos do instrumento aos tradutores, por parte do elemento-chave, de forma a privilegiar a equivalência conceptual em detrimento da tradução literal. O intervalo de tempo em que decorreram as traduções foi entre 9 de abril de 2020 e 15 de maio de 2020.
3- Tradução de consenso - reconciliação
Reconciliação entre as 3 traduções, numa só tradução, resolvendo discrepância e/ou preferências de linguagem entre os tradutores, o que envolveu discussão entre elemento-chave e tradutores, com input do responsável do projeto. Tratou-se de um processo simples, sem necessidade de tradução alternativa ou recurso a outro tradutor independente.
4- Retro tradução
Consistiu no processo de retro tradução da tradução de consenso, de novo para a língua inglesa. Trata-se de um passo de qualidade, com vista a demonstrar a qualidade da tradução, com ausência de perda conceptual do instrumento.
Foram realizadas 2 retro traduções independentes, tendo por base 2 tradutores de língua portuguesa com língua materna inglesa, residentes no país, de áreas distintas: sexo feminino, 50 anos, jornalista e sexo feminino, 45 anos, professora de inglês.
Aos tradutores foi igualmente solicitada uma tradução conceptual, em detrimento de uma tradução literal.
5- Revisão da retro tradução
Ponto para obtenção de conforto das retro traduções, resultando numa retro tradução de consenso e confronto com instrumento original, de forma a assegurar que a equivalência conceptual da tradução foi mantida. Este processo foi realizado em equipa, entre o responsável do projeto e o elemento-chave, de forma a refinar a tradução.
Por fim, a retro tradução de consenso foi enviada para o autor do MSSQ. Foram discutidos pontos de significado entre as palavras “Movement” vs “motion” e “Kindergarden” vs “children´s playground”. Além destes aspetos gramaticais o autor do MSSQ considerou que a retro tradução era de elevada qualidade e que mantinha os mesmos significados e interpretação da versão original.
6- Harmonização
Harmonização das versões de consenso e a versão original, assegurando a equivalência conceptual. Este ponto é um processo de qualidade adicional. Foi realizado por reflexão em equipa, após considerações do autor, entre o original e o consenso obtido.
7- Entrevista cognitiva
Apresentação da versão final da tradução MSSQ- versão reduzida a dez indivíduos portugueses, utentes da consulta ORL-vertigem e cinco profissionais de saúde de áreas distintas. Mais especificamente os cinco profissionais de saúde, eram do sexo feminino com idades entre 38 e 64 anos e os dez utentes da consulta de ORL-vertigem, eram dois do sexo masculino com idades de 57 e 63 anos e oito do sexo feminino com idades compreendidas entre 20 e 68 anos.
Foi verificado o nível de compreensibilidade do instrumento. Este passo teve como objetivo identificar aspetos eventualmente confusos e necessidade adequar nível conceptual. Este processo foi levado a cabo pelo elemento-chave do projeto.
8- Revisão / reflexão da entrevista cognitiva, resultados e finalização
Processo realizado pelo responsável do projeto. Não se registou necessidade de modificação ou reorganização de itens. Não foram encontradas frases ou palavras que causassem qualquer dificuldade, ou sentida qualquer estranheza por parte dos entrevistados.
9- Prova de leitura
Leitura pelos autores para identificação de eventuais gralhas ou erros de ortografia, assim como considerações ao aspeto de apresentação gráfica do questionário final.
10- Relatório final
Construção do presente documento que se materializa neste artigo.
Resultados
A reconciliação entre as três traduções para Português de Portugal pode ser consultada no anexo 1, constituindo a versão final da Questionário de Suscetibilidade ao Enjoo de Movimento - versão reduzida, em português de Portugal. A grelha de análise do conteúdo das três traduções, das três retro traduções, da tradução de consenso e da retro tradução de consenso encontram-se na figura 1 e figura 2.
Discussão e conclusão
A versão em português de Portugal da MSSQ-short foi obtida seguindo os princípios de boas práticas para o processo de tradução e adaptação cultural de instrumentos de autoavaliação. A realização de uma entrevista cognitiva permitiu verificar a compreensibilidade do instrumento e confirmar a inexistência de aspetos confusos ou menos claros na sua interpretação.
Agradecimentos
Ao autor da MSSQ, JF GOLDING, pela disponibilidade e revisão científica da escala final. Aos tradutores Ana Batalha, Sílvia Dolores, Laurinda Santos, Cláudia Santos e Sofia Romão.
Conflito de Interesses
Os autores declaram que não têm qualquer conflito de interesse relativo a este artigo.
Confidencialidade dos dados
Os autores declaram que seguiram os protocolos do seu trabalho na publicação dos dados de pacientes.
















