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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[História de Angola da Pré-História ao Início do Século XXI: 2.ª ed]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Agostinho Neto Faculdade de Ciências Sociais ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Pinto, Alberto Oliveira</b></font></p>     <p><font size="3"><b>História de Angola da Pré-História ao Início do Século XXI,    2.ª ed.,</b></font></p>     <p>Lisboa, Mercado de Letras, 2017, 830 pp.</p>     <p>ISBN 9789728834265</p>     <p><b>Maria da Conceição Neto*</b></p>     <p>* Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Agostinho Neto, Avenida Ho Chi    Minh, n.º 56, Caixa Postal n.º 1649, Luanda, Angola.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Alberto Oliveira Pinto é mestre e doutor em História de África pela Faculdade    de Letras da Universidade de Lisboa, com vários ensaios publicados. É também    um homem da literatura, membro da Associação Portuguesa de Escritores e da União    dos Escritores Angolanos, e já recebeu prémios em Portugal (Associação Portuguesa    de Escritores, 1990) e em Angola (Prémio Sagrada Esperança, 1998). Os livros    mais recentes incluem <i>Imaginários da História Cultural de Angola</i> (Prémio    Sagrada Esperança, 2016) e <i>A Criança Branca de Fanon. Ensaio Ego-Histórico    sobre o Facto Colonial Angolano</i>. Esta pequena nota biográfica, que os leitores    facilmente poderão ampliar, justificaria por si só a expectativa criada pela    sua <i>História de Angola</i> -<i> da Pré-História ao Início do Século XXI</i>,    agora em 2.ª edição.</p>     <p>O título é ambicioso e excessivo para o que a obra nos apresenta, como veremos,    mas talvez se deva aos interesses do editor, de olhos no mercado. O livro contém    20 capítulos, um prefácio do consagrado historiador e professor de história    de África Elikia M’bokolo e um posfácio do historiador e crítico de arte Adriano    Mixinge. Além das breves notas do autor à 1.ª e 2.ª edições, há um índice remissivo    e um &ldquo;Mapa de reis, governadores, altos-comissários e presidentes&rdquo; de Portugal,    da colónia de Angola e de alguns antigos Estados africanos. Esta 2.ª edição    não difere da 1.ª na estrutura nem no conteúdo (com muito poucas alterações).    O maior número de páginas deve-se à inclusão de uma resenha de opiniões elogiosas    sobre a 1.ª edição (pp. 21-27), uma nota do autor à 2.ª edição (pp. 29-30) e    um índice remissivo (pp. 803-820).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Desde o início, Oliveira Pinto avisa que, apesar de &ldquo;susceptível de consulta    e de leitura por outros académicos&rdquo; este &ldquo;não é, de modo algum, um livro académico&rdquo;    pois &ldquo;destina-se a qualquer leitor&rdquo; (p. 33). E faz bem em dizê-lo, já que a    obra será estimulante sobretudo para quem não conhece o tema, incentivando o    interesse por factos ali abordados e chamando a atenção para datas, episódios    e personagens ignorados ou esquecidos do grande público. Uma boa ideia, considerando    esse público, é a sintética cronologia que abre cada capítulo. O livro, porém,    apresenta demasiadas lacunas e insuficiências para servir de guia num nível    mais especializado, como o ensino universitário. Ao assumir que não fez um &ldquo;livro    académico&rdquo;, o autor justifica também a quase total ausência de referências de    suporte às afirmações e interpretações que apresenta. É um ponto de vista defensável    numa obra de divulgação, evitando o recurso constante a notas de rodapé. Mas    em obras deste tipo é usual indicar, por exemplo, as leituras fundamentais para    cada capítulo. Deixar apenas uma bibliografia final, onde tudo se mistura -    fontes primárias, obras de referência, literatura de ficção - não resolve o    problema da necessária indicação das fontes mais confiáveis e pouco ajuda o    leitor que queira avançar na exploração dos temas.</p>     <p>Apresentado o livro no geral, há que reconhecer o óbvio: na ausência de sínteses    da história de Angola (excetuando sínteses parcelares, como as que Jill Dias    (1825-1890) e Aida Freudenthal (1890-1930) redigiram há 20 anos para a <i>Nova    História da Expansão Portuguesa</i>) esta proposta de panorâmica geral de Alberto    de Oliveira Pinto terá por um bom tempo público garantido, em países de língua    portuguesa, ao trazer uma apreciável soma de informações (sobretudo na primeira    metade do livro, anterior ao século XVIII) e usar um tom narrativo suficientemente    atraente para manter o interesse pela leitura. Precisamente por tentar preencher    um vazio evidente, não lhe faltaram os elogios, antes de leituras mais atentas    lhe apontarem as debilidades. As críticas vieram sobretudo de colegas que investigam    e ensinam história de Angola e não entendem a omissão de bibliografia fundamental    (o século XVII sem Beatrix Heintze?&hellip;) que teria evitado não poucos erros e o    relativo alheamento de conceções historiográficas menos descritivas e mais problematizantes.    Note-se que a bibliografia não poupa espaço para incluir literatura de ficção,    de Júlio Verne a Bocage, de Castro Soromenho a Reis Ventura e Pepetela.</p>     <p>Nos limites desta recensão não cabe comentar, capítulo a capítulo, os erros    factuais, as insuficiências bibliográficas, as opções temáticas ou as conceções    historiográficas subjacentes a essas opções. Erros à parte, é normal que Oliveira    Pinto defenda as suas escolhas. O que, porém, não é &ldquo;normal&rdquo; são os graves desequilíbrios    no tratamento dado a diferentes períodos, regiões e temas, que impedem esta    obra de ser &ldquo;abrangente&rdquo; ou &ldquo;exaustiva&rdquo; (adjetivos do próprio autor), ou de    ser apresentada como uma súmula da investigação contemporânea sobre história    de Angola.</p>     <p>Não se justifica, por exemplo, que o século XVIII ocupe pouco mais de 50 páginas    (pp. 421-476) e quase exclusivamente consagradas à área Kongo (a sul e a norte    do rio Zaire) e aos &ldquo;governos pombalinos&rdquo; e outros aspetos da pequena colónia    portuguesa de então. A produção historiográfica das últimas três décadas permitiria    um panorama muito diferente, disponibilizando fontes e estudos sobre regiões    de Angola fora do controlo português e daquele quadrante noroeste cuja &ldquo;supremacia&rdquo;    historiográfica (devida, precisamente, às fontes existentes) já não tem tanta    justificação depois do século XVII. Considerando o que o tráfico transatlântico    de escravos implicou de dinâmicas, relacionamentos mais ou menos distantes,    crises e ajustamentos, no território de Angola e zonas vizinhas (e não se entenderá    a &ldquo;história de Angola&rdquo; sem elas), são autores inadmissivelmente ausentes Joseph    Miller (<i>Way of Death</i>) e José Curto, para indicar os mais óbvios. Ao século    XIX, para o qual a historiografia vem cobrindo, também há décadas, quase todo    o território angolano, são dedicadas 140 páginas (pp. 477-617). Ou seja, o livro    reserva a estes dois séculos apenas 200 das suas mais de 700 páginas. Assim,    quando precisamente se entra no período em que podemos, com mais segurança,    integrar na &ldquo;história de Angola&rdquo; regiões e povos que virão a constituir &ldquo;Angola&rdquo;    atual, o autor volta as costas à bibliografia essencial e parece reduzir o seu    interesse pelos processos em curso nas sociedades africanas independentes.</p>     <p>Alguma disparidade entre povos e áreas geográficas seria sempre inevitável,    dado o contraste entre zonas &ldquo;ricas&rdquo; e zonas onde a escassez de fontes disponíveis    deixa vazios dificilmente superáveis. Porém, não seria difícil referir com mais    destaque as regiões do leste, do centro e do sul. Esta é uma &ldquo;história de Angola&rdquo;    centrada no noroeste angolano, incluindo a colónia portuguesa que, até meados    do século XIX, se limita a uma parte dessa região, à excepção do eixo Benguela-Caconda,    mais a sul. O argumento de falta de estudos para o resto do território, legítimo    para épocas anteriores, não faz sentido para os séculos XVIII e XIX. O autor    ignorou tanto a bibliografia contemporânea como a ajuda de documentação publicada    desde os tempos coloniais sobre as terras &ldquo;do sul&rdquo; (como os dois volumes de    <i>Ao Sul do Cuanza</i> ou <i>A Famosa e Histórica Benguela</i> de Ralph Delgado).    Autores notoriamente ausentes são (numa indicação sumária, já que facilmente    se encontrarão as referências <i>online</i>) Maria Emília Madeira Santos, Beatrix    Heintze (para além de duas obras citadas) Roquinaldo Ferreira, Mariana Cândido,    Linda Heywood, Jan Vansina (<i>How Societes are Born</i>), entre outros. Um    exemplo bastará: apesar de ser o comércio de marfim, cera, oleaginosas e, depois,    borracha, a alimentar a economia de Angola quando declina o tráfico de escravos,    nos capítulos XIV, XV e XVI que cobrem a segunda metade do século XIX não se    mostra interesse pela expansão dos Cokwe nem pelo comércio de longa distância    dos Ovimbundu ou dos Bazombo.</p>     <p>Quanto ao século XX, com cerca de 150 páginas, bastaram 17 para &ldquo;resolver&rdquo;    o período 1961-1974 (pp. 710-727), no qual esperaríamos ver, por um lado, o    desenrolar da guerra pela independência (várias organizações, várias frentes    e formas de luta) e, por outro lado, mudanças legislativas, económicas e sociais    que acompanharam a resposta militar portuguesa e sem as quais não se entende    a sociedade angolana na altura da independência. De novo, mais do que apontar    os erros factuais, criticaremos a ausência de autores obrigatórios: John Marcum,    René Pélissier (<i>La colonie do Minotaure</i>), Christine Messiant, Marcelo    Bittencourt, Jean-Martial Mbah, Didier Péclard, Franz Heimer, entre outros.</p>     <p>Não se trata de exigir um saber enciclopédico ou obra definitiva, que não existe    em história, mas de reconhecer que qualquer história de Angola &ldquo;condensada num    só livro&rdquo; (p. 31) deve trazer ao leitor um quadro equilibrado e o mais abrangente    possível. Como justificar a não utilização de bibliografia que permitiria cumprir,    apesar de inevitáveis lacunas, esse objetivo?</p>     <p>Fica também por explicar a distinção &ldquo;Angola&rdquo; e &ldquo;Cabinda&rdquo; nos títulos (ver    capítulo XII e seguintes). Deduz-se das indicações do próprio autor que pretendeu    escrever uma história das sociedades existentes no espaço que veio a ser ocupado    pelo país (atual) Angola, cujas fronteiras não faz sentido projetar para o passado.    Por isso, não se entende destacar &ldquo;Cabinda&rdquo; a partir de certa altura quando,    na mesma época (século XVIII), também o reino do Kongo não era &ldquo;Angola&rdquo;, nem    a Matamba o era, nem Kasanje, Mbalundu ou Viye nem, na verdade, a maior parte    do que no futuro faria parte da colónia portuguesa. Além disso, Oliveira Pinto    parece usar &ldquo;Angola&rdquo;, em capítulos seguintes, para designar o limitado espaço    dominado por Portugal ou com relações diretas com ele. Introduz-se, assim, um    elemento de confusão no leitor sobre o que é &ldquo;história de Angola&rdquo;, ou &ldquo;história    da colónia portuguesa de Angola&rdquo;, ou &ldquo;história da presença portuguesa em Angola&rdquo;,    confusão que, noutras ocasiões, o próprio autor rejeitou.</p>     <p>O índice remissivo (pp. 803-820), instrumento inegavelmente útil, ganhará em    ser revisto em próximas edições. Nele se encontram &ldquo;telefones&rdquo; e &ldquo;queimadas&rdquo;    mas não chefes políticos referidos no texto como Ndunduma, Ekwikwi II e o seu    sucessor Numa, Sihetekela, e outras personalidades e lugares importantes.</p>     <p>Grandes desequilíbrios cronológicos, regionais e temáticos (as questões económicas    perdem, de longe, para as literárias&hellip;) pesam sempre negativamente em obras deste    tipo e impedem que possamos considerar o livro de Oliveira Pinto uma boa &ldquo;síntese&rdquo;    da história de Angola, muito menos um &ldquo;manual&rdquo; para universitários. Os programas    de História de Angola em vigor em universidades angolanas há décadas, ou as    atas publicadas de várias conferências internacionais de História de África    e de História de Angola, algumas organizadas ou co-organizadas pelo Ministério    da Cultura angolano, revelam uma história (e uma historiografia) mais diversificada    do que o autor faz supor.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Propositadamente mencionamos Angola, pois é estranho que Oliveira Pinto, visitando    Luanda várias vezes, ignore o que tem sido publicado, de angolanos e não angolanos,    pelas editoras Kilombelombe, Nzila, Mayamba, Mulemba e pelo próprio Arquivo    Nacional de Angola. Não se trata de sobrevalorizar a modesta historiografia    angolana, mas da obrigação de conhecer não só resultados de investigações como    reflexões metodológicas que, dentro e fora de Angola, vêm permitindo aprofundar    a sua história.</p>     <p>São muitas as dificuldades no caminho de quem pretenda fazer obra deste género,    sintetizando o melhor da historiografia existente e, simultaneamente, cartografando    os vazios que se fazem sentir, quer se considerem horizontes geográficos, temporais    ou epistemológicos. O insucesso de tentativas anteriores (p. 31) justificou    os aplausos ao facto de Alberto Oliveira Pinto ter enfrentado o desafio e publicado    a sua &ldquo;história de Angola&rdquo;. Para muitos poderá ser uma útil iniciação, com informação    interessante e nem sempre fácil de obter fora de restritos círculos académicos.    Mas o resultado ficou muito aquém do anunciado e do que poderia ter sido, se    o autor se libertasse mais dos seus trabalhos anteriores e explorasse melhor    a vasta bibliografia existente (estudos de caso, sínteses parciais, edições    críticas de fontes, debates metodológicos) dentro e fora dos espaços de língua    portuguesa. Isso permitiria, também, evitar muitos dos erros veiculados no texto.    Fundamentalmente, é preciso que não se confunda a síntese histórica, mesmo assumidamente    provisória e lacunar, com um repositório de factos mais ou menos interessantes,    temperados com digressões literárias, adjetivação e comentários libertos da    obrigação de se justificarem. Citando o autor (p. 30), &ldquo;a concretização de projectos    mais abrangentes sobre a história de Angola&hellip; continua a ser uma premência&rdquo;.    E, acrescentamos, uma promessa adiada.</p>      ]]></body>
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