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<article-id pub-id-type="doi">10.15847/citiescommunitiesterritories.jun2017.034.art04</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As sementes foram plantadas à mão]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This text proposes a reflexive exercise on the reconfigurations of the meaning and of the intervention's potential that an iconic work of public art (Wheatfield - A confrontation, Agnes Denes, 1982), realized three decades ago, acquires when 'reactivated' in our days by the initiative of the leaders of a powerful process of gentrification. A reflection on its instrumentalization, according to the interests of each of the sponsors, but also on the urban facts that are revealed through what has been lost in it.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGO    ORIGINAL</b></font></p>     <p align="right"></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4"><b>As sementes foram plantadas à mão</b></font></b> </p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"><b>the seeds were sown by hand</b></font></b></p>     <p align="center"></p>     <p></p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Marta Traquino<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a><sup> <br /> </sup></font></b></p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font></font><font size="2" face="Verdana">CIEBA - Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa; CEC - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Portugal . e-mail: <a href="mailto:marta.traquino@netcabo.pt" target="_blank">marta.traquino@netcabo.pt</a></font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">.<br />   </font><br /> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><br />   </font><br /> </p> <hr size="1" noshade="noshade" />     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SUMA&#769;RIO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este texto propõe um exercício de reflexão sobre as reconfigurações de significado e de potencial interventivo que uma icónica obra de arte pública, <i>Wheatfield - A confrontation</i> de Agnes Denes em 1982, adquire quando 'reactivada' três décadas mais tarde por iniciativa dos líderes de um poderoso processo de gentrificação. Uma reflexão sobre a instrumentalização da obra conforme os interesses de cada um dos seus patrocinadores e também sobre os factos urbanos que se revelam através do que nela se perdeu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave: </b></font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">arte pública; cidade; gentrificação; intervenção urbana</font>.</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p><b><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">ABSTRACT</font></b></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This text proposes a reflexive exercise on the reconfigurations of the meaning and of the intervention's potential that an iconic work of public art (Wheatfield - A confrontation, Agnes Denes, 1982), realized three decades ago, acquires when 'reactivated' in our days by the initiative of the leaders of a powerful process of gentrification. A reflection on its instrumentalization, according to the interests of each of the sponsors, but also on the urban facts that are revealed through what has been lost in it.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b> </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">public art; city; gentrification; urban intervention</font>.</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;De manhã cedo, no dia 1 de maio de 1982, começámos a plantar um campo de     trigo de 2 acres em Manhattan, a dois quarteirões de Wall Street e do World     Trade Center, de frente para a Estátua da Liberdade. O plantio consistiu em     cavar 285 sulcos à mão, limpando pedras e lixo, colocando depois cada     semente também à mão e cobrindo os sulcos com o solo. Cada sulco levou 2 a 3 horas.&quot; (Denes,1982: 929) </font></p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;A diferença sobre este campo de trigo foi que o solo não era rica argila,     mas aterro sujo cheio de tubos enferrujados, rochas, pneus velhos e     camadas. Não era terra cultivada, mas aterro sanitário, uma extensão do     congestionado centro da cidade de uma metrópole onde os ventos perigosos     sopravam, o tráfico rosnava e cada centímetro era propriedade preciosa.&quot; (Denes,1982: p. 928) </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Retomemos a leitura dos anteriores fragmentos de texto com a ideia de     'tempo' no pensamento. São várias as dimensões de temporalidade para as     quais remetem. Um tempo cronológico preciso (uma data) com diferentes     temporalidades (momento do dia, o dia, o mês, o ano); o começo de uma     acção; a sequência das diferentes etapas de uma plantação manual; os meses     necessários ao crescimento de um campo de trigo; a temporalidade intrínseca     à composição de um solo, por sua vez revelador de várias camadas residuais de temporalidade urbana. São fragmentos da descrição da obra<i>Wheatfield - A confrontation</i> (    <i>Campo de Trigo - Uma confrontação</i>) pela sua autora, a artista Agnes     Denes (n. 1931). Um campo de trigo com cerca de 0,8 hectares, plantado em     Manhattan no ano 1982, na área do então designado Battery Park Landfill     (hoje, Battery Park City), a dois quarteirões de Wall Street. Da plantação     à colheita, a obra decorreu de maio a agosto daquele ano (<a href="#f1">Figura 1</a>). </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f1" id="f1"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f1.jpg"/></font>    
<p>&nbsp;</p>      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A temática proposta para este dossier fez-me regressar ao campo de trigo de     Denes como assunto de reflexão, pois penso que se trata de uma das obras     mais significativas enquanto exemplo da tomada da relação entre     &quot;arte-tempo-cidade&quot; como sua própria matéria constituinte. É também um     exemplo fundamental para o questionar sobre quando a designação de 'arte     pública' parece não bastar para nomear determinadas acções artísticas em     contextos urbanos e a designação de 'intervenção urbana' parece ser mais     ajustada. Talvez pelo modo como se integrou no corpo da cidade,     introduzindo no quotidiano desta outros gestos efectivos para outros     sentidos alternativos aos dominantes, tal foi a pertinência do seu     potencial metafórico. No entanto, e provavelmente também devido a este     potencial, <i>Wheatfield - A confrontation</i> viria, três décadas mais     tarde, a ser alvo de interesse por parte dos responsáveis de um dos     processos de gentrificação de maior escala na Europa durante a última     década, sendo subvertida a uma espécie de estratégia de <i>marketing</i> na     promoção da fase final deste. Em 1982, esta obra de Denes foi pioneira na     prática artística com preocupações ecológicas, partindo do confronto com a     realidade urbana existente no local da sua intervenção. Em 2015, Denes     recebeu o convite para a sua 'reactivação' em Porta Nuova, o novo distrito     financeiro de Milão, integrada num programa local de actividades de     'agricultura urbana' promovido pela Fondazione Riccardo Catella, fundação     cultural que faz parte da Hines Itália, a líder da gestão, do     desenvolvimento e do investimento imobiliário no referido processo de     gentrificação. Assim, o campo de trigo de Denes foi ainda mais monumental     (<a href="#f2">Figura 2</a>), cerca de quatro vezes maior do que em Manhattan, mas a sua     possibilidade interventiva, conforme o seu conceito de origem, foi     dissimulada pelos modos como os patrocinadores o instrumentalizaram. </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f2" id="f2"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f2.jpg"/></font>    
<p>&nbsp;</p>      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Desde o final dos anos 60, Agnes Denes tem desenvolvido intervenções de     grande escala em espaços exteriores (de cidades a florestas) com livre     acesso público. É um dos poucos casos de mulheres artistas com trabalho     reconhecido num âmbito de uma prática artística que foi maioritariamente     protagonizada por homens durante as décadas de 60 e 70 nos E.U.A., a     prática dos <i>earthworks</i> (<i>trabalhos de terra</i>) realizados em     terrenos baldios pós-industriais ou em vastas paisagens de deserto e     montanha dificilmente acessíveis. Walter De Maria, Robert Smithson ou     Michael Heizer, são alguns dos nomes mais conhecidos representativos desta     prática que na categorização da História da Arte Contemporânea podemos     encontrar enquadrada nos movimentos da <i>Earth Art</i> ou <i>Land Art</i>,     ou também da <i>Environmental Art</i> (<i>Arte Ambiental</i>). No entanto,     Denes sempre procurou demarcar o seu trabalho da relação com grupos,     tendências ou movimentos artísticos. Embora também intervindo na paisagem,     as suas obras eram orientadas segundo pressupostos ecológicos assentes numa     forte base filosófica e conceptual. Para ela, os outros artistas (como os     referidos anteriormente) utilizavam a paisagem como uma extensão do seu     ateliê, dispondo de meios técnicos para mover toneladas de terra e criar     grandiosos 'desenhos' e 'esculturas' dificilmente experienciáveis por     pessoas que não apenas os profissionais necessariamente envolvidos na sua     produção ou as que tivessem a possibilidade para aceder aos seus remotos     locais. Diferentemente, Denes sempre procurou a implicação da sociedade no     desenvolvimento das suas propostas, tomando os 'bens-comuns' como assunto     de investigação e assim revolucionando as possibilidades da 'arte pública'.     Um modo de actuação afim ao de outras mulheres artistas que nas décadas de     60 e 70 do século XX tomaram a paisagem como meio para o seu trabalho, mas     introduzindo nos processos criativos uma atenção crítica sobre actividades     quotidianas, como o 'cuidar' e o 'tratar', para o questionamento e mudança     sociais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     A partir daqui, muito haveria a desenvolver sobre a contextualização histórica, artística, cultural, social e política de    <i>Wheatfield - A confrontation</i>, considerando a época da sua realização     em Manhattan, no entanto, este texto não se irá orientar segundo uma     perspectiva historicista da Arte (ou, pelo menos, não de um modo facilmente     entendível como tal) mas sim pelas interrogações que, logo no início deste     meu regresso a esta obra de Denes, me suscitou a relação entre as duas     imagens seguintes (<a href="#f3">Figura 3</a> e <a href="#f4">Figura 4</a>): </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f3" id="f3"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f3.jpg"/></font>    
<p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f4" id="f4"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f4.jpg"/></font>    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Quando me lembrei de <i>Wheatfield - A confrontation</i> por relação com o     tema deste dossier, não sabia ainda da sua recente 'reactivação' em Milão. Ao fazer uma breve pesquisa na Internet partindo das palavras-chave '    <i>Wheatfield</i>-<i>agnes-denes</i>' fui surpreendida por uma mistura de     imagens de campos de trigo que percebi serem representativas de diferentes     situações urbanas em duas épocas distintas. Nestas destacavam-se (em     imagens repetidas ou com variantes) duas figuras femininas, supostamente     protagonistas em cada um dos casos. Uma destas, evidentemente, era Agnes     Denes, cuja figura eu podia reconhecer das fotografias da obra de 1982, em     Manhattan. Sobre a outra figura, numa fotografia que poderia ser de uma     produção de moda, eu não tinha qualquer referência por relação com a obra     de Denes. A partir desta imagem cheguei então ao campo de trigo em Milão, em 2015, mas pelo caminho da pesquisa dei por mim a visitar o    <i>website</i> da marca de moda italiana Trussardi e a ver o catálogo da     colecção Outono Inverno 2016-17... Não porque me tivesse dispersado do     assunto em causa, mas porque a figura feminina que parecia ocupar o lugar     de Denes no campo de trigo em Milão era Beatrice Trussardi, presidente da     Fondazione Nicola Trussardi, um dos três patrocinadores da obra. Percebi     então o porquê da minha dificuldade em relacionar a sua indumentária com a     acção da colheita do trigo a que a imagem se referia, esta representada     pelo raminho que Beatrice Trussardi segura nas mãos. Se a primeira das duas     imagens é um documento da obra original, realizada em coerência com os seus     fundamentos constituintes, a segunda é ilustrativa da publicidade de um     evento que mimetizou a obra original em representação dos ideais e negócios     dos patrocinadores que a 'reactivaram'. Percebi também que não conseguia     entender como era possível que esta obra de Denes, pelos valores     ecológicos, éticos, políticos, artísticos e sociais que a sustêm (ou     sustinham), se associasse a marcas de moda como a Trussardi, ou a um     processo de gentrificação tão poderoso e abrasivo como o de Porta Nuova, no     qual a Nike, o Unicredit, a Samsung, a Google, o China Construction Bank, o     HSBC, o Leading Luxury Group... têm residência. Sobre as suas intenções     relativas ao campo de trigo em Manhattan, Denes refere: </font></p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;A minha decisão de plantar um campo de trigo em Manhattan em vez de     projectar apenas uma outra escultura pública, surgiu de uma preocupação de     longa data e da necessidade de chamar a atenção para as nossas prioridades     equivocadas e a deterioração dos valores humanos. Manhattan é a ilha mais     rica, mais profissional, mais congestionada e, sem dúvida, mais fascinante     do mundo. A tentativa de nela plantar, manter e colher 2 acres de trigo,     desperdiçar bens imóveis valiosos e obstruir a maquinaria indo contra o     sistema, foi um atrevimento que fez do campo de trigo o poderoso paradoxo     que eu procurava para uma chamada de atenção (...) <i>Wheatfield</i> era um     símbolo, um conceito universal, representava o alimento, a energia, o     comércio mundial, a economia. Referia-se à má gestão e à fome no mundo.&quot; (Denes,1982: p. 928) </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Denes não pôde estar presente em todas as etapas da realização do campo de trigo em Milão. A Fondazione Nicola Trussardi realizou um pequeno vídeo    [<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">2</a>]como apresentação da     artista, no qual se justifica a sua ausência, revela o seu contentamento     pelo convite que lhe foi dirigido, relembra o que está em causa na sua     obra, e num breve momento em que as palavras se misturam com riso, diz que,     se a deixarem, fará à distância uma macro-gestão do campo de trigo. Nos     diversos meios das redes sociais, são inúmeros os registos disponíveis     relativos à divulgação do evento em Milão, nomeadamente por parte de     entidades locais. De um modo geral, o que referem sobre a obra de Denes     evidência como a realização do campo de trigo foi apropriada como meio de     promoção dos domínios de actividade dos seus patrocinadores. Noutros vídeos também realizados pela Fondazione Nicola Trussardi [<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>], relativos aos momentos     do inauguração do campo, do semear e da colheita do trigo, percebe-se o     aparato propagandista com que foi revestida a obra de Denes. A participação     pública foi circunscrita a uma área previamente delimitada no terreno, como     um 'recinto' dentro da própria obra, como uma 'amostra' desta quando a     totalidade do terreno deveria de ser a sua suposta constituição (<a href="#f5">Figura 5</a>).     O seu significado original de um fazer conjunto sem o estabelecimento de hierarquias foi assim enfraquecido. </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f5" id="f5"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f5.jpg"/></font>    
<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Ao recordar como foi o processo de trabalho durante os quatro meses do     campo de trigo em Manhattan, Denes refere numa entrevista recente: </font></p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;Dediquei 16 horas por dia, e eu tinha voluntários porque não tinha     dinheiro. E senti que tinha de alimentar os voluntários, para retribuir a     sua ajuda. Então, quando eu terminava no campo, de dirigi-lo, executá-lo,     fotografá-lo, tinha de ir para casa e fazer sanduíches para os voluntários     na manhã seguinte. Assim foi sete dias por semana, o compromisso total, e a preocupação com o campo.&quot; (Denes, 2015 [<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>])</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     A área do campo de trigo em Milão teve cerca de 5 hectares mas a quase     totalidade do trabalho, do semear à colheita (de março a outubro de 2015)     foi desempenhada pelos trabalhadores da Confagricoltura (Confederação Geral     Italiana de Agricultura de empresas agrícolas de pequena e média dimensão,     a união mais representativa dos agricultores em toda a Itália), outro dos     três patrocinadores do evento (<a href="#f6">Figura 6</a>). Foram transportados para o local     15.500 metros cúbicos de terra de cultivo, foram semeadas 1.250 kg de     sementes de trigo do tipo Odisseo com a adição de cerca de 5.000 kg de     fertilizante. Os tractores utilizados, último modelo desenvolvido pela     empresa Same Deutz-Fahr, permaneceram no campo de trigo após a necessidade     da sua função, ficando assim em exposição para efeitos da sua publicidade     (como é visível na <a href="#f5">Figura 5</a>). </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f6" id="f6"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f6.jpg"/></font>    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     No <i>website</i> da Confagricoltura (<a href="http://www.confagricoltura.it/ita/" target="_blank">http://www.confagricoltura.it/ita/</a>),     num breve artigo sobre a importância do seu envolvimento no evento,     salienta-se que a obra de Denes se realizou em alinhamento com a programação da Expo Milano 2015 cujo tema foi<i>Nutrire il Pianeta, Energia per la Vita</i> (    <i>Alimentar o Planeta, Energia para a Vida</i>). Esta intenção tinha sido     expressa no convite dirigido a Denes, o que, naturalmente, a terá motivado     pela oportunidade em reafirmar através da sua obra, no âmbito de tal tema, o apelo ao retorno à simplicidade e à essência da terra. Como é referido no<i>website</i> da Fondazione Nicola Trussardi    [<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>], com base nos escritos de     Denes de 1982, &quot;<i>Wheatfield</i> chama a atenção do público para valores     como a partilha de alimentos e de energia, a protecção da terra e a     promoção do crescimento social e económico de forma a preservar a qualidade     de vida ideal para indivíduos e comunidades&quot;. Contudo, embora o tema da     exposição se tenha fundamentado numa suposta ética de sustentabilidade     ecológica, um gigante da fast-food como a McDonald's teve presença por     entre as várias nações representadas. Foi um dos patrocinadores necessários     à realização da exposição (outros foram a Coca-Cola, a Lindt, a Ferrero     Rocher...) para suportar os custos que acabaram por ir muito além do previsto no plano inicial. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     A Confagricoltura salientou também a experiência da participação pública na     obra de Denes como alusiva à especificidade da dimensão histórica da     agricultura em Itália e, por este motivo, o seu orgulho em colaborar na     realização de um evento capaz de levar este assunto a um vasto público.     Como em outros artigos da imprensa local, o acontecimento do campo de trigo     no centro de Milão é referido como algo de único, surpreendente e     inimaginável para os milaneses, o que parece ser revelador de uma certa     amnésia de memória colectiva, pois no ano de 1925, durante o regime do     Fascismo Italiano e por iniciativa do seu líder, Benedito Mussolini, foram     plantados campos de trigo em cidades italianas no âmbito da campanha que se     designou Battaglia del Grano (Batalha do Trigo). Através de uma série de     acções de política autárquica, esta campanha teve por objectivo a     fomentação da auto-suficiência nacional da produção de trigo, fonte     essencial de alimento para a nação, levando ao aumento do rendimento médio     de grão por hectare de modo a reduzir a necessidade da importação de pão. O     próprio Mussolini cultivou também o trigo ao lado dos agricultores, em     tronco nú, como documentam fotografias da época, propagandistas do seu     regime político. Na década de 40, ainda sob o poder deste, uma outra     iniciativa foi promovida com o objectivo de reduzir a grave crise alimentar     italiana, acentuada no início da II Guerra Mundial, levando ao cultivo de     terrenos em áreas urbanas, como por exemplo em jardins públicos, designados     Orti di Guerra (Hortas de Guerra). As debulhadas tinham lugar nas praças     principais da cidade, com todo o aparato característico de um evento     fascista, não faltando as bandeiras do regime e a benção de bispos e     cardeais. Assim aconteceu também em Milão naquela altura, na Piazza del     Duomo, bem perto da actual Porta Nuova (<a href="#f7">Figura 7</a>): </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f7" id="f7"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f7.jpg"/></font>    
<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Também a Fondazione Nicola Trussardi, na apresentação de <i>Wheatfield</i>     no seu <i>website</i>, assinala o projecto como uma experiência     estreitamente ligada à história e tradições da agricultura em Itália.     Fundada em Milão em 1996, a fundação é uma instituição sem fins lucrativos     para a promoção da cultura contemporânea. Assume-se como uma agência para a     produção e difusão de arte contemporânea em diversos espaços da cidade e     desde 2003 tem vindo a previligiar a criação de eventos artísticos     temporários capazes de contribuir para a visibilidade internacional de     Milão. Tem desenvolvido colaborações com prestigiadas instituições de arte     contemporânea noutros países, como a Tate Modern (Londres) ou a Kunsthaus     de Zurique. O âmbito da sua acção apresenta-se no seu <i>website</i>     legitimada por um texto do curador, crítico e historiador de arte Hans     Ulrich Obrist (2010), no qual este valoriza a estratégia em recusar uma     localização institucional fixa em favor de outros espaços, como edifícios     ou locais icónicos da cidade, explorando assim as possibilidades da     permanente reconfiguração desta, contrapondo a experiência do contemporâneo     com as diferentes camadas do seu passado. A cidade tida como um 'palco' ou     um material a moldar renovadas vezes. Deste modo, segundo Obrist,     estabelece-se através da arte um diálogo entre passado e presente que leva a uma percepção mais consciente e significativa deste último. No caso de    <i>Wheatfield</i> em Porta Nuova, como se terá estabelecido este diálogo?     Para o modo de actuação da F.N. Trussardi, a grande quantidade de público é     o que comprova a pertinência das suas escolhas. No seu <i>website</i> é     referido que <i>Wheatfield</i> atraiu mais de 5.000 visitantes,     especialmente nos momentos da participação pública que tiveram um carácter     de evento festivo, com oferta de comida e bebidas no recinto delimitado     para o efeito, dentro do campo de trigo. Se no caso de outros projectos     artísticos produzidos pela F.N. Trussardi, como refere Obrist, os artistas     abriram (ou reabriram) certos sítios na cidade de modos imprevistos, o     mesmo não se pode dizer relativamente ao caso da obra de Denes. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Em 1982, em Manhattan, <i>Wheatfield - A confrontation</i> pôde ter a força     de significado que a tornou um marco na arte contemporânea exactamente pelo     seu carácter interventivo enquanto confronto face à realidade existente no     local da sua realização, abordando urgentes questões do estado do mundo.     Apesar da obra ter sido uma encomenda do Public Art Fund, Denes teve     liberdade de escolha sobre o local onde a realizar, o que foi determinante     para as intenções que a moviam, até porque o seu entendimento de 'arte     pública' não seguia pressupostos convencionais. O poder de intervenção que     o campo de trigo teve em Manhattan foi devido ao facto de ser, à partida,     uma impossibilidade naquele local. No desafio da concretização desta     impossibilidade, residia o potencial da criação artística enquanto     desbravadora de alternativas para o pensamento e para a acção na sociedade     da época. O posicionamento específico do campo de trigo em relação à cidade     representava grande parte do significado da obra. Denes reflectiu sobre     várias possibilidades até escolher o districto financeiro de Battery Park     Landfill, tomando-o como um exemplo da má gestão de terra (<a href="#f8">Figura 8</a>): </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f8" id="f8"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f8.jpg"/></font>    
<p>&nbsp;</p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;Foi uma loucura. Era impossível. Mas chamaria a atenção das pessoas para     repensarem as suas prioridades e perceber que, a menos que os valores     humanos fossem reavaliados, a qualidade preciosa da vida, mesmo a própria     vida, estava talvez em perigo. Colocá-lo no sopé do World Trade Center, a     um quarteirão de Wall Street, de frente para a Estátua da Liberdade, seria     um cuidadoso lembrete do que esta terra tinha representado e espero que ainda o seja.&quot; (Denes,1982: p. 928) </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;O absurdo de tudo isto, os riscos que assumimos e as dificuldades que     sofremos, faziam parte do conceito básico. A arte trata de cavar fundo.     (...) Confrontar um altamente rico complexo, eficiente onde o tempo é     dinheiro e dinheiro é regras. Enfrentar o congestionamento da cidade da     competência, sofisticação e crime contra os campos abertos e as terras     agrícolas intocadas. (...) O que já sabemos contra tudo o que ainda temos que aprender.&quot; (Denes,1982: pp. 928-929) </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em Manhattan não havia nenhuma garantia de que a terra pudesse ser fértil o     suficiente para o trigo germinar. Foi uma batalha diária que Denes travou     pelas suas mãos com as dos voluntários, Em Milão, o campo de trigo     encontrou um terreno à sua espera, já preparado, na área de espaço que no     actual planeamento urbano de Porta Nuova se destina a um parque público     (ainda por finalizar). Com a obra de Denes foi também inaugurada a via que     o atravessa, o que deu ao campo de trigo uma configuração de local para     passear, muito diferente do campo denso e coeso que aconteceu em Manhattan,     como um 'verdadeiro' campo de trigo (<a href="#f9">Figura 9</a>). Em parceria com os     planeadores de Porta Nuova, os patrocinadores aproveitaram a imensa área de     espaço ainda disponível, com escala adequada à realização de um evento de     grande visibilidade, tendo assim definido previamente o local da realização     da obra antes de dirigir o convite à artista (<a href="#f10">Figura 10</a>). A diferença que     esta estabeleceu no título parece fazer justiça a este facto, pois se em     Manhattan se designou <i>Wheatfield - A confrontation</i>, em Milão     designou-se apenas <i>Wheatfield</i>. No primeiro caso, a obra apropriou-se     temporariamente da cidade (antes de começar a construção de complexos de     luxo no local), no segundo caso, a obra foi estrategicamente apropriada por     um abrasivo processo de gentrificação na cidade já na fase final. Também em     Manhattan foram necessários apoios institucionais para a sua realização     (como já referido, foi uma encomenda da Public Art Fund, e teve a     cooperação do The New York State Council on the Arts, The New York State     Urban Development Corporation, The Battery Park City Authority e American     Cyanamid Co.), no entanto, o propósito do campo de trigo enquanto     intervenção artística e a pertinência dos conceitos e valores que propunha,     não foram camuflados sob a sobreposição deliberadamente imposta pela     visibilidade mediática dos patrocinadores, nem configurada segundo     programas promotores dos seus interesses de negócios, como aconteceu em     Milão. </font></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f9" id="f9"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f9.jpg"/></font>    
<p>&nbsp;</p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="f10" id="f10"></a><img src="/img/revistas/cct/n34/n34a04f10.jpg"/></font>     
<p>&nbsp;</p>      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Do que é que realmente tratou a 'reactivação' da obra de Denes em 2015? É a     pergunta que me fiz no momento em que olhei, lado a lado, as duas     fotografias de Agnes Denes e Beatrice Trussardi nos campos de trigo     (anteriormente referidas). É um facto que as urgentes questões ecológicas     para as quais Denes alertava há três décadas atrás, tendo optado por     intervir num terreno de imenso valor imobiliário, são hoje ainda mais     urgentes. No entanto, em Milão, <i>Wheatfield</i> foi como um evento de     carácter espectacular para promover o pré-definido 'espaço público' a     estrear no novo distrito financeiro, sustido por poderosas empresas e     bancos provavelmente com papel activo na desconsideração pelo 'comum' dos     bens-comuns para a qual Denes tem procurado alertar com várias das sua     obras, nomeadamente <i>Wheatfield - A confrontation</i>. </font></p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Wheatfield</i>     em Milão foi também, e sobretudo (como anteriormente já referido),     publicitado como parte do programa anual das actividades cívicas e     culturais da Fondazione Riccardo Catella. Esta fundação, activa desde 2007, apresenta-se no seu    <i>website</i>[<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6">6</a>] com     a missão de &quot;promover a cultura da responsabilidade social em actuar no     território, criando consciência nacional sobre assuntos globais e     desenvolvendo projectos cívicos para promover território urbano&quot;. Expressa     a sua preocupação com as alterações climáticas, salientado a importância de     um programa cultural dedicado ao tema da propriedade de investimento     sustentável e responsável, conforme os princípios de responsabilidade e     sustentabilidade do mercado nos domínios da gestão territorial e     imobiliária em Itália. Define a sua acção como exemplo das melhores     práticas em desenvolvimento territorial através de eventos, debates e     publicações. Obviamente, a sua acção destina-se a acrescentar valor ao     planeamento urbano em causa, pois trata-se da fundação cultural que faz     parte da Hines Itália (anteriormente referida), líder deste plano. É de     salientar que a família Catella actua no desenvolvimento e gestão de     propriedades imobiliárias, através da sua empresa Coima XXI, já desde a     década de 70. Assim, actuando 'em casa', a Fondazione Riccardo Catella     promove a constituição de uma smart community (comunidade inteligente) em     Porta Nuova, considerando tratar o conceito desta a partir de uma dimensão     humana e não apenas de tecnologia ou eficiência de energia, promovendo o     objectivo de desenvolver modelos para a qualidade de vida dos cidadãos aplicáveis a outras cidade italianas. </font></p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Wheatfield</i>     foi integrado no projecto Micoltivo: the Green Circle (Micoltivo: o Círculo     Verde) promovido por esta fundação. Este projecto constituiu-se por um     percurso pedestre circular que articulava quatro etapas: o campo de trigo     de Denes (com os dois momentos de participação pública, em 28 de fevereiro     durante a sementeira e em 9 de julho durante a colheita); uma exposição     sobre o próprio projecto da fundação nas suas instalações; uma horta e     pomar onde se realizam actividades educativas para crianças e famílias     sobre cultivo e nutrição, desenvolvidas em colaboração com o restaurante     que funciona na fundação; quiosques interactivos, de carácter informativo,     instalados junto das entradas na área de Porta Nuova. Pergunto-me se em     algum momento deste percurso pedestre, com todo o carácter didáctico que o     definiu, terá sido proposta aos participantes a reflexão sobre o porquê da     realização da obra de Denes naquele local específico, e o seu confronto com     a realidade envolvente, com as opções arquitectónicas dominantes, os seus     usos, as suas possibilidades, as suas consequências, os seus     antecedentes... Por exemplo, um exercício de reflexão sobre a relação entre     a horizontalidade do campo de trigo e a verticalidade do Bosco Verticale     (Bosque Vertical), a construção mais mediática no local que consiste em     duas torres gémeas de apartamentos de luxo com 'jardins' nas muitas e     amplas varandas de cada andar, da autoria do arquitecto Stefano Boeri. Se tais exercícios localmente reflexivos fossem praticados pela    <i>smart community</i> que a Fondazione Riccardo Catella se orgulha de     apadrinhar, talvez a sua divulgada intenção sobre o campo de trigo como     gerador de uma força condutora para um sentido de comunidade e compromisso     social na nova área residencial de Porta Nuova, pudesse ganhar expressão     para além das actividades de <i>urban gardening</i> dos residentes aos fins de semana.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Considerações finais</b> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Como no início referi, por outras palavras, uma revisitação à obra     Wheatfield - A confrontation pareceu-me fazer sentido na relação com o tema     deste dossier, « arte-tempo-cidade », por se tratar de uma obra artística     que integrou como própria matéria constituinte uma determinada experiência     de temporalidade por confronto com a especificidade urbana em que se     inseriu. Porém, ao ter conhecimento sobre o contexto da sua recente     'reactivação' em Milão logo no início deste estudo, outros aspectos me     pareceram mais pertinentes a ter em conta na actualidade, os quais se     prendem à ideia da vulnerabilidade que a obra adquiriu quando reapropriada     noutra cidade de um outro país, num contexto urbano de três décadas mais     tarde sob um processo de 'requalificação urbana'. O que mudou entretanto no     que respeita ao poder que cabe a planeadores urbanos, patrocinadores,     fundações culturais derivadas de monopólios familiares e respectivos     curadores no modo como, em parceria, instrumentalizam obras de 'arte     pública' que são à partida um meio garantido de visibilidade mediática? O     que pode uma icónica obra de arte pública, concebida há três décadas,     revelar sobre o contexto urbano de hoje onde é 'reactivada' ? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     A ideia de vulnerabilidade que sugiro prende-se com o facto de como certas     características que originalmente constituiram a força interventiva de     Wheatfield - A confrontation vieram a possibilitar que se tornasse « a     cereja no topo do bolo » para a publicidade do 'espaço público' concebido     pelo plano de gentrificação de Porta Nuova. Nomeadamente, as grandes     dimensões da sua instalação (ou seja, um meio ideal para grande     visibilidade mediática) e o tema da sustentabilidade ecológica. Contudo, é     exactamente através desta vulnerabilidade que Wheatfield tem hoje o     potencial de evidenciar aspectos que definem o tipo de relação que se     estabelece entre regeneração urbana e 'arte pública' quando orientada pelo     favorecimento de negócios privados em detrimento do bem-comum. O próprio     tema da sustentabilidade ecológica pode ser tomado aqui como um barómetro     de tal relação. A este respeito, é esclarecedor o que refere Guido Anselmi,     investigador em Economia e Política Urbanas, com base no estudo do caso de     Porta Nuova, ao lembrar como a « sustentabilidade ecológica » se tornou um     termo em moda aliado do aumento de arrendamentos e de políticas     autoritárias nos sectores da imobiliária e construção: </font></p>     <p>     <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;(...) Mais especificamente, neste caso, o discurso ecológico actua como     catalisador de uma nova forma de desenvolvimento livre de valores. É     bastante semelhante ao modelo pós-político proposto por Swyngedouw (2010):     a convergência de rendas elevadas e a renovação eco-chic garantem que o     projecto é, para todos os efeitos, afastado do discurso político, porque é suposto haver aclamação universal para estes dois objectivos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Como o caso referido mostra, 'sustentabilidade' na renovação urbana é um     termo multifacetado, pode ser um esforço real para melhorar a qualidade de     vida ou pode ser apenas a última palavra de moda, camuflando o     inflacionamento financiado do arrendamento base. A fim de garantir a     sustentabilidade ecológica, temos também de ter em conta a sustentabilidade     política de um determinado projecto, nomeadamente o quanto são     transparentes e responsáveis para com os cidadãos locais as instituições de governação que lideram o esforço de renovação.&quot; (Anselmi, 2015) </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O aprofundamento deste tópico levaria a reflexão que aqui proponho a entrar     por um âmbito de investigação sobre a complexidade das relações de poder e     interesses entre sistema político e agentes do sector imobiliário     italianos, sendo inevitavelmente necessário tomar perspectivas de análise a     partir de domínios que não são da minha competência, como o da Economia e     Políticas Urbanas. Levaria também a enveredar pela investigação sobre a     relação entre um processo de gentrificação e a consequente exclusão social     que tem vindo a ser desenvolvido há mais de uma década, não possível sem o     devido trabalho de campo realizado a longo prazo. Contudo, procurei estudos     críticos por parte de investigadores competentes neste âmbito,     desenvolvidos no local, no sentido de deixar ao leitor que possa ter     interesse a sugestão de uma via para o esclarecimento detalhado sobre as     especificidades da evolução do processo de regeneração urbana de Porta     Nuova. Neste sentido, proponho a leitura do livro Fight-Specific Isola:     Art, Architecture, Activism and the Future of the City, publicado por Isola     Art Center/Archive Books: Milan 2013, nomeadamente a leitura do capítulo     &quot;Acting in the emerging void. Notes on gentrification at Isola&quot;, escrito pelos investigadores urbanos Mara Ferrari e Davide Caselli (pp. 335-361). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     A intenção da reflexão aqui proposta centra-se sobretudo na consideração     dos modos como a obra artística em causa se apresentou fisicamente nos dois     diferentes contextos urbanos da sua realização, contemplando a relação     entre os seus conceitos de origem com os processos de construção e os     aspectos de mediatização específicos de cada um dos dois momentos (em 1982     e em 2015). Como referido no início, trata-se de uma obra de referência na     História da Arte Contemporânea e, como tal, sobre a sua primeira     realização, em Manhattan, existe abundante reflexão publicada (é até uma     obra usualmente referida nos manuais de História da Arte do séc. XX), pelo     que não houve intenção de reincidir numa abordagem ao panorama da criação e     produção artísticas nos E.U.A. daquela época. Apesar da necessária evocação     de dados sobre o contexto de origem da concepção da obra, estes são tomados     como via para introduzir a problemática da sua 'reactivação' recente e     facilitar a compreensão do que esta pode revelar face a um determinado     modelo de regeneração urbana que se impõe nas cidades europeias dos nossos     dias. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     O questionamento que me provocou a relação entre a imagem de Agnes Denes em     Wheatfield - A confrontation de 1982 e a imagem de Beatrice Trussardi em     Wheatfield de 2015 (Figs. <a href="#f3">3</a> e <a href="#f4">4</a>, respectivamente) levou assim,     essencialmente, a um exercício reflexivo sobre memória e urbanidade. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">REFERÊNCIAS </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Anselmi, G. (2015), « Political Conflict and Financialized &#8216;Eco-Chic&#8217; Urban     Renewal, A Case From Milan », in J.M. Condie, A. M. Cooper (Eds.),         <i>         Dialogues of Sustainable Urbanisation: Social Science Research and         Transitions to Urban Contexts        </i>     . Penrith, N.S.W.: University of Western Sydney, capítulo 41. Disponível     em:     <a         href="https://ugec.org/files/2015/08/Dialogues-of-sustainable-urbanisation-Social-science-research-and-transitions-to-urban-contexts-6.pdf" target="_blank"     >         https://ugec.org/files/2015/08/Dialogues-of-sustainable-urbanisation-Social-science-research-and-transitions-to-urban-contexts-6.pdf    </a> </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1686906&pid=S2182-3030201700010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Caselli, D., Ferrari, M. (2013), « Acting in the emerging void. Notes on     gentrification at Isola », in F         <i>         ight-Specific Isola: Art, Architecture, Activism and the Future of the         City        </i>     , Isola Art Center/Archive Books: Milan, pp. 335-361.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1686907&pid=S2182-3030201700010000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Denes, A. (1982) « The Dream », <i>Critical Inquiry</i>, Vol. 16, No. 4     (Summer 1990), The University of Chicago Press, pp. 919-939. Disponível em:     <a         href="https://feministartpractices.files.wordpress.com/2014/07/denes_dream.pdf" target="_blank"     >         https://feministartpractices.files.wordpress.com/2014/07/denes_dream.pdf    </a>     .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1686909&pid=S2182-3030201700010000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Obrist, H.U. (2010), &#8220;Avere Fame Di Vento&#8221;, in M. Gioni (Ed.),         <i>         What Good Is the Moon. The Exhibitions of the Fondazione Nicola         Trussardi        </i>     , Fondazione Nicola Trussardi and Hatje Cantz, Milan and Ostfildern, pp.     7-10. Disponível em:     <a         href="http://www.fondazionenicolatrussardi.com/the_foundation/creation_of_temporary_events.html" target="_blank"     >         http://www.fondazionenicolatrussardi.com/the_foundation/creation_of_temporary_events.html    </a>     .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1686911&pid=S2182-3030201700010000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     Nota: </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Todas as citações no texto têm tradução livre pela autora.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido: 01-02-2017; Aceite: 09-06-2017.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">NOTAS</font></p>     <p><font color="#FF0000" size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font color="#000000"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">2]</a></font></font> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Disponível em             <a href="https://vimeo.com/122103330" target="_blank">                 https://vimeo.com/122103330</a>.        </font></p>              <p><font color="#FF0000" size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font color="#000000"><a name="3" id="32"></a>[<a href="#top3">3]</a></font></font> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por exemplo, dísponíveis em             <a href="https://vimeo.com/151787367" target="_blank">                 https://vimeo.com/151787367            </a>             e             <a href="https://vimeo.com/144112441" target="_blank">                 https://vimeo.com/144112441</a>.        </font></p>           <p><font color="#FF0000" size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font color="#000000"><a name="4" id="4"></a>[<a href="#top4">4]</a></font></font> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Disponível em             <a href="http://www.interviewmagazine.com/art/agnes-denes/" target="_blank"> http://www.interviewmagazine.com/art/agnes-denes/</a>. </font></p>                   <p><font color="#FF0000" size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font color="#000000"><a name="5" id="5"></a>[<a href="#top5">5]</a></font></font> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Disponível em             <a href="http://www.fondazionenicolatrussardi.com" target="_blank">                 http://www.fondazionenicolatrussardi.com</a>.        </font></p>                   <p><font color="#FF0000" size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font color="#000000"><a name="6" id="6"></a>[<a href="#top6">6]</a></font></font> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Disponível em             <a href="http://www.fondazionericcardocatella.org/" target="_blank">                 http://www.fondazionericcardocatella.org/</a>.        </font></p>      ]]></body>
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