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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[‘Estamos numa febre de especulação pela procura de mais-valias’: Entrevista com Rita Silva, Presidente da associação Habita]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">&lsquo;Estamos numa febre de especulação pela procura  de mais-valias&rsquo;: Entrevista com Rita Silva, Presidente da associação Habita </font></b>      <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> &lsquo;Estamos numa febre de especulação pela    procura de mais-valias&rsquo;: Interview with Rita Silva, President of Associação    Habita </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2"> Rita Cachado<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a>;    Ana Estevens <a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">II</a></font>;<font face="Verdana" size="2">    Eduardo Ascensão<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">III</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="2"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">CIES-IUL,    Instituto Universitário de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:rita.cachado@iscte-iul.pt" target="_blank">rita.cachado@iscte-iul.pt</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">II</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território,    Universidade de Lisboa. e-mail: <a href="mailto:anaestevens@campus.ul.pt" target="_blank">anaestevens@campus.ul.pt</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">III</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território,    Universidade de Lisboa. e-mail: <a href="mailto:eduardoascensao@campus.ul.pt" target="_blank">eduardoascensao@campus.ul.pt</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p>      <p> <b>Rita Silva </b> é presidente da Habita, uma associação independente que    luta pelo Direito à Habitação e à Cidade. Técnica de Desenvolvimento Comunitário,    trabalhou como investigadora e é actualmente doutoranda na área da financeirização    da habitação (CES-UC, 2017-presente). Tem sido uma das principais figuras na    luta pelo direito à habitação em Portugal nos últimos 15 anos. </p>     <p> Nesta entrevista aborda questões como a capacidade dos movimentos associativos    e ativistas influenciarem o processo político, o risco de perda de habitação    por que muitos agregados passam atualmente ou a ligação com outros coletivos    internacionais de luta pela habitação.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b> Numa perspetiva de balanço, quais considera serem os maiores ganhos do    ativismo na habitação nos últimos cinco anos? </b> </p>     <p> O ativismo tem sido fundamental para termos pequenas vitórias, e até iria    mais longe que os últimos 5 anos. Em primeiro lugar, o ativismo ajuda a colocar    os problemas da habitação na agenda pública. Depois, dentro do nosso ativismo    diário, lidamos com situações concretas, directamente com famílias, com bairros    ou com comunidades e, muitas vezes, vamos conseguindo negociar soluções particulares    para casos particulares. Agora, estruturalmente é outra história. Nos últimos    5 anos tivemos uma luta muito importante e que fez um percurso longuíssimo e    que ainda não está finalizado, que foi a questão das insuficiências do Programa    Especial de Realojamento (PER), que está completamente obsoleto e se baseava    num recenseamento demasiado antigo em relação àquilo que são as necessidades    atuais. Por exemplo, fizemos um percurso com um bairro que fez uma luta exemplar,    o Bairro 6 de Maio, e antes tínhamo-lo feito em Santa Filomena. O que sofremos    em Santa Filomena, com a política da Câmara Municipal da Amadora e o desdém    completo do governo da altura, foi um massacre. Depois, com o Bairro 6 de Maio,    continuámos esta luta e conseguimos várias coisas. Tivemos um papel importante    na vinda da Relatora das Nações Unidas para a Habitação Adequada a Portugal,    organizámos uma série de mobilizações com o bairro junto do Ministério, depois    fizemos uma queixa junto do Provedor de Justiça e ainda fizemos várias ações    junto do parlamento. Isto deu origem a que o Parlamento aprovasse um projeto    de resolução que dizia que o PER estava obsoleto e que era preciso alguma coisa    que o viesse substituir, integrando as pessoas que ainda precisavam de realojamento.    Também houve um parecer da Provedoria da Justiça que foi escrito muito em diálogo    connosco, ou seja, influenciámos bastante aquilo que foi o texto e as suas conclusões.    Influenciámos também, com ação direta, ocupando o Ministério cada vez que havia    demolições, porque era inaceitável que estas continuassem. Conseguimos pressionar    para o levantamento pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU)    das situações de precariedade. Ainda é um levantamento incompleto, mas demos    visibilidade à questão da habitação e, se calhar, juntamente com as eleições    autárquicas, acabámos por ter influência na criação da Secretaria de Estado    da Habitação e no desenvolvimento da chamada nova geração de políticas, que    tem um programa importante que é o <i>1º Direito</i>. </p>     <p> O <i>1º Direito</i> já estava na calha antes da criação da Secretaria de Estado.    Tem a ver, em parte, com a luta específica do Bairro 6 de Maio, mas há uma atmosfera    mais abrangente que leva à criação da Secretaria de Estado, que inclui o aumento    das dificuldades do acesso ao direito à habitação, o aumento das rendas, o aumento    dos despejos, a contestação social (onde nós temos um papel) e a aproximação    das eleições autárquicas. O governo do Partido Socialista (PS) sabia que a habitação    ia ser uma das questões mais importantes nas eleições autárquicas. Agora estamos    outra vez em vésperas de eleições e já temos um ministério que integra o nome    Habitação, porque sabem que é hoje um dos grandes problemas da sociedade. É    claro que o ativismo social ajuda: as pessoas sentem na pele os problemas da    habitação, e o ativismo ajuda a explicar os processos e os fenómenos porque    não é assim tão fácil compreender o que se está a passar na habitação. O nosso    ativismo é importante porque enquadra as coisas do ponto de vista político e    do ponto de vista da análise do contexto. Há processos e políticas por trás.    Há responsáveis sobre o que se está a passar; não é simplesmente porque há muitos    turistas na cidade ou porque Lisboa está na moda. Há narrativas a dizer que    o centro de Lisboa estava vazio ou que o que deu cabo do mercado de arrendamento    foi o congelamento das rendas. Nós explicamos os processos de forma mais completa    e honesta. E tivemos outras vitórias. Nós procuramos fazer lutas exemplares.    A luta que fizemos com as moradoras do número 25 da Rua dos Lagares (Mouraria),    em vésperas de eleições, foi importantíssima. Conseguimos com esta luta convencer    a Câmara Municipal de Lisboa (CML), que tinha anunciado ter 100 casas no centro    histórico para sortear aos jovens da classe média, que &ldquo;Essas 100 casas têm    de ser atribuídas às pessoas que estão a ser expulsas e que estiveram aqui sempre&rdquo;.    Diziam que não, que era impossível, porque há concursos [a respeitar] e não    sei que mais!... e afinal foi possível. Ganhámos. Por isso, vamos tendo vitórias    parciais. </p>     <p> <b> Há um maior envolvimento das pessoas que vão perdendo casa? Na Rua dos    Lagares era um edifício inteiro e era uma mobilização visível. </b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Sim, tornámo-la visível. </p>     <p> <b> Isso só acontece quando as pessoas se sentem mais apoiadas ou surge espontaneamente?    </b> </p>     <p> Há lutas que surgem espontaneamente, sem dúvida. Agora, o apoio dos coletivos    que têm experiência é fundamental. Na verdade, a experiência tem sido uma aprendizagem,    com avanços e recuos, com erros e com acertos. Apoiar os novos grupos que lutam    e passar-lhes também essa experiência é uma exigência que espero que seja útil.    As pessoas precisam de compreender o que se está a passar na habitação, assim    como as dinâmicas políticas, se não, é fácil sermos ludibriados pelos responsáveis    políticos que apresentam as coisas como inevitáveis, que tentam mesmo silenciar    as lutas. Vou dar o exemplo da Rua dos Lagares. A Rua dos Lagares começou a    mobilizar-se espontaneamente. As moradoras estavam todas com carta de despejo    na mão e começaram a ir à CML, à Assembleia Municipal, à Junta de Freguesia    e até à comunicação social. Mas a CML, na altura, disse que não havia nada a    fazer: &ldquo;é privado e nós não podemos fazer nada&rdquo;. E o presidente da Junta disse-lhes    &ldquo;Fiquem descansadas que eu vou arranjar-vos um advogado&rdquo; mas pediu-lhes que    não falassem mais à comunicação social. </p>     <p> Na verdade, foi-lhes dito que não havia nada a fazer e elas estavam completamente    desmoralizadas, a perder a força para lutar e foi importante chegar um coletivo    que não se conforma com este tipo de coisas, que conseguiu encontrar saídas    em termos de proposta política, que conseguiu encontrar formas de alargar a    luta delas, que não é só delas. É uma luta que interessa à cidade toda e que    é de todos e, isso foi importante para elas terem tido a vitória que tiveram,    que foi a CML a negociar com o privado, para renovar todos os contratos por    mais cinco anos sem aumento de renda. E com a obrigação de fazer obras porque    chovia dentro das casas. E, simultaneamente conseguimos a atribuição das 100    casas que estavam prometidas. Conseguimos isto em época pré-eleitoral, claro!    Ou seja, a vontade das pessoas em mobilizarem-se é muito importante, mas construir    solidariedades, passar do individual para o colectivo e ter tática para cada    momento é importante, assim como saber enfrentar as causas dos problemas. </p>     <p> <b> Na opinião dos movimentos de defesa da habitação, o que faltaria para    chegar a uma situação de mercado equilibrado? Se fizessem uma lista, o que é    prioritário para chegar a uma situação mais justa? </b> </p>     <p> Acho que precisamos de duas coisas fundamentais. Uma é mais habitação pública    ou mais habitação fora do mercado privado. Temos de ter um sector, um <i>stock</i>    de habitação muito maior, que pode ser habitação pública, cooperativa, de gestão    coletiva, vários modelos. E precisamos de regulação do mercado. Para mim, essas    duas questões são as fundamentais. Regulação do mercado significa também regulação    de preços. Há muitas versões para aquilo que é a regulação de mercado. A transparência    dos preços é importante, mas nós achamos que a regulação de mercado é mais do    que isso. Isso, hoje em dia é quase um tabu. Não estamos a falar de congelamento    de rendas mas, como estamos a falar de mercados tendencialmente especulativos,    como é o da habitação, precisamos de regulação forte. Uma regulação feita pelo    Estado, que permita que os proprietários consigam ganhar o seu dinheiro, mas    que coloque limites e proteja os inquilinos. Na época fordista tivemos regulação    de mercado quando a habitação não era um <i>asset</i> financeiro. Tivemos um    mercado da habitação regulado de várias formas em muitos países. Privado mas    regulado. Não é congelamento, é regulação de preços. É regulação da especulação    e da própria venda, as mais-valias e tudo isso. Quer dizer, temos uma situação    que, esperemos, estamos no caminho de ganhar, o prédio Santos Lima (Marvila),    um prédio que nunca teve uma intervenção do senhorio, ou já não tinha para aí    há 50 anos. Foi comprado por 2 milhões de euros (o prédio é enorme) e 15 dias    depois é posto à venda por 7 milhões de euros, anunciado como inteiramente devoluto,    apesar de viverem lá cerca de 40 pessoas, 17 famílias! Ou seja, de 2 milhões    para 7 milhões em 15 dias, sem qualquer tipo de trabalho. Isto é o casino! Ou    seja, é preciso regulação. </p>     <p> <b> Em termos internacionais apareceram notícias do Santos Lima, por exemplo    no <i>Guardian. </i>Esse contacto com instâncias internacionais ajuda a uma    pressão maior? </b> </p>     <p> Acho que sim. A manifestação que fizemos a 22 de Setembro de 2018 saiu no    <i>New York Times</i> e em cerca de 10 órgãos de comunicação social franceses.    É uma forma de pressão. Não podemos trabalhar sem a comunicação social. O poder    político também trabalha com a comunicação social. Aliás, estamos numa desigualdade    enorme no acesso aos canais da comunicação social, mas vamos lutando com aquilo    que podemos. </p>     <p> Precisamos então de mais habitação pública ou fora do mercado e de regulação.    No caso português, precisamos também de parar os incentivos à especulação como    os Vistos Gold, o regime de residentes não habituais e as isenções ou incentivos    fiscais aos fundos imobiliários e às sociedades de gestão imobiliária. São políticas    concretas que, em nome daquilo a que chamam &ldquo;investimento&rdquo; (que eu coloco entre    aspas) criam desequilíbrios muito grandes na sociedade. Isto é investimento?    Comprar por 2 milhões, vender por 7 e entretanto expulsar 40 pessoas que, de    repente, não têm onde viver? Isto traz enriquecimento à sociedade? É bom para    o bem comum ou é para satisfazer determinados interesses? A reboque disto vem    alguma reabilitação, vem algum trabalho precário na área da construção. Mas    são coisas temporárias, não são muito sustentáveis e estamos a promover uma    desigualdade na sociedade que se desenvolve a partir de uma deriva enorme da    habitação para o luxo e para o <i>short term rental contract</i>. Ou seja, estes    programas têm estado a fazer com que a habitação nas principais cidades, no    Algarve, etc. deixe de ser acessível às pessoas que vivem e trabalham em Portugal.    É um mercado que está virado para o exterior. Faz-se isto em nome do investimento,    mas isto são incentivos à especulação, onde inclusivamente há muita lavagem    de dinheiro. Por isso, estes programas deviam acabar. </p>     <p> <b> Quando disse que era importante ter habitação pública ou/e habitação que    esteja fora do mercado privado, como incluiria aquilo que a Secretária de Estado    tem referido sobre o apoio à renda, o subsídio ao arrendamento? </b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> É um desconto fiscal. É um subsídio indireto porque não paga impostos. Mas    não estamos de acordo com as chamadas rendas acessíveis. Há vários tipos de    rendas acessíveis que têm sido anunciadas, mas nós não estamos de acordo com    aqueles programas de renda acessível com base na borla fiscal aos proprietários    que arrendem a 20% abaixo do preço médio de mercado, ou que tenham uma duração    superior a X anos. Nós achamos que não vai funcionar porque, nos sítios de maior    pressão demográfica, onde há mais procura de habitação, porque são os sítios    onde as pessoas trabalham e vivem, 20% abaixo do preço de mercado, neste momento,    continua a não ser acessível para os salários que existem em Portugal. Depois,    o programa do ponto de vista burocrático é pesadíssimo. É uma coisa que passa    pelo IHRU. Os proprietários têm de ter uma série de procedimentos no IHRU, as    famílias têm de concorrer à sorte, nem podem escolher onde vão viver, têm de    se inscrever para a renda acessível e depois o IHRU é que vai trabalhar aquilo    tudo. Além disso, vamos continuar a retirar receitas ao Orçamento de Estado    e nos sítios onde a renda acessível é mais necessária não vai funcionar. Os    proprietários já vieram dizer que não estão interessados (Associação de Proprietários    de Lisboa). Se calhar nos sítios onde ela não é tão necessária, se calhar até    vai haver uma coisa ou outra. Mas este <i>slogan</i> da renda acessível é sobretudo    um <i>slogan</i>, para o Governo poder dizer que está a desenvolver programas    de renda acessível&hellip; Quem não quer uma renda acessível? Toda a gente quer, e    às tantas, damos connosco a concordar também. Mas esta renda acessível, não    é acessível, ou apenas será para quem tem rendimentos já bastante elevados e,    provavelmente não está interessado em arrendar. Nós sabemos que há muitas pessoas    que hoje estão no salário mínimo e que não conseguem ter acesso à habitação    social e, de certeza que também não conseguem aceder a habitação a 20% abaixo    do preço de mercado, porque hoje um T1 em Lisboa está a cerca de 1000€! O que    são 20% de desconto? Nem os rendimentos médios! </p>     <p> Depois ainda há o <i>Programa de Rendas Acessíveis</i> que se está a desenvolver    através do Fundo Nacional de Reabilitação Urbana, que é mais um esquema financeiro,    com a Fundiestamo, que é património público, um fundo de rentabilidade. Mas    um fundo não é uma entidade pública, é uma entidade financeirizada, que vai    ter de dar lucro e vai ter de distribuir dividendos. As instituições públicas    que tenham património que não sabem o que fazer dele, entregam a este fundo,    o fundo reabilita e supostamente coloca uma parte que pode não chegar a 50%    em renda acessível à chamada classe média&hellip; E na próxima crise, o fundo é, provavelmente    a primeira coisa a ser vendida. De repente, até aquele património que é público,    ao passar para o fundo, deixa de ser público. Ou seja, têm um prédio, uma parte    vai ser de renda acessível e a outra para o mercado livre. Estes esquemas financeiros,    para nós, não vão resolver nenhum problema. São <i>slogans</i> que estão aqui,    tal como o <i>Programa de Renda Acessível</i> (PRA) da CML, que ainda por cima    chumbou no Tribunal de Contas, que disse: &ldquo;Isto é uma parceria público-privada.    Vocês enquadraram isto mal no regime de concessões&rdquo;. Por exemplo, na Rua de    São Lázaro (Martim Moniz), que tem os comerciantes em diferendo com a Câmara,    quem é que ganhou o concurso para a renda acessível ali? Foi a <i>Stone Capital</i>,    que é um fundo de investimento imobiliário que faz reabilitação de luxo. Pode    ter outro nome, mas é tudo do grupo <i>Stone Capital,</i> que está a criar muitas    inimizades em muitas zonas da cidade. E, pelo que sei, este primeiro concurso    do PRA, que foi anunciado há anos e continua sem existir, teria uma parte de    mercado privado, outra parte de renda acessível, por concurso. Entretanto os    investidores acharam que o negócio não era muito rentável. A Câmara, durante    muito tempo não conseguia vender o projeto e tiveram de se alterar algumas condições    do programa para acomodar os interesses destes investidores. Ainda não sei muito    bem qual é a percentagem de habitação acessível, qual é a percentagem de habitação    de mercado, mas parece-nos que agora é mais maleável, de forma a acomodar os    interesses e as rentabilidades que hoje em dia os Fundos estão à espera de ter    no mercado. O Estado e as Câmaras, em vez de porem orçamento público no desenvolvimento    de programas públicos, andam a tentar resolver o problema da habitação com investimento    privado e financeiro. Andam a tentar resolver o problema com a fonte do problema.    Nós achamos que não vai funcionar. </p>     <p> A Nova Geração de Políticas de Habitação padece do mesmo problema. O <i>1º    Direito</i> não tem orçamento suficiente – não sabemos se terá no futuro, mas    toda a discussão sobre o défice e as restrições orçamentais, da nossa austeridade    permanente, demonstra que o Estado está indisponível para alterar a estrutura    do seu orçamento – e obriga a que as Câmaras ou outras entidades tenham que    entrar pelo menos com 50% a 65%, e muitas vezes que se endividem. Ou seja, cabe    principalmente às Câmaras uma parte muito importante do financiamento. As Câmaras    atualmente têm, em geral, dificuldades financeiras e, eventualmente vão buscar    capacidade financeira ao IMT (Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas    de Imóveis) e ao imobiliário (Lisboa e Porto devem ser excepções que têm, por    este motivo, bastante capacidade financeira). Mas, em geral empurram-se as Câmaras,    que tantas competências novas estão a receber sem o pacote financeiro adequado,    para mais endividamento. </p>     <p> A política de habitação é toda à base de esquemas financeiros. Outra medida    que está na Nova Geração é a necessidade de trazer para Portugal os chamados    REITs, os <i>Real Estate Investment Trusts </i>que foram aprovados muito recentemente    com o novo regime jurídico daquilo que eles chamam de SIGIs, as Sociedades de    Investimento e Gestão Imobiliária, que são os REITs à portuguesa. São entidades    que compram <i>stock</i> de habitação e são cotadas em bolsa. O seu objectivo    é rendimento. Eles acham que isto vai melhorar, ou mesmo, resolver o problema    da habitação. Acham que vão resolver assim o problema?! Outra grande narrativa    por parte dos promotores é a de que há um problema de habitação e, por isso    é preciso aumentar a oferta. Vamos construir mais. Construir porque não temos    <i>stock</i> e porque o mercado está ao rubro e precisamos mais <i>stock</i>    e, ainda querem incentivos do Estado para poderem construir mais para, supostamente,    resolver o problema da habitação e da oferta. Sempre com a premissa de que é    um mercado em que, aumentando a oferta, o preço baixa. Mas na habitação já se    provou vezes sem conta que tal não acontece assim: antes da crise havia muita    habitação, construiu-se muito, tínhamos muito mais habitação do que famílias,    havia 700 mil casas vazias e o preço não baixava, só subia. São mercados tendencialmente    especulativos, que precisam de regulação e financiamento público. </p>     <p> [A percentagem para habitação do] Orçamento de Estado para 2019 foi 0,2% do    PIB ou 0,8% do orçamento total. Não tem nada a ver com aquilo que é o orçamento    para a Saúde ou para a Educação. Estamos a falar de um direito fundamental e    não querem aumentar o orçamento da habitação! Lançam-se datas uns anos lá para    a frente, como é conveniente... </p>     <p> <b> E sobre este novo tipo de arrendamento &lsquo;vitalício&rsquo;, o Direito Real de    Habitação Duradoura? </b> </p>     <p> Ainda não sabemos muito bem o que pensar sobre isso. A pessoa dá 20% à partida    mas as pessoas que tiverem 20% para dar de entrada numa coisa, normalmente preferem    comprar... </p>     <p> <b> Quando o apresentaram, o ministro disse que era um direito real mas transacionável.    Portanto, é unipessoal mas é transmissível, é pouco claro... </b> </p>     <p> Só a prática dirá o que vai ser isso mas nós notamos que há uma grande atividade    da parte dos Fundos, das sociedades, das imobiliárias a pedirem coisas ao Estado:    &ldquo;Queremos mais incentivos, queremos mais fiscalidade favorável&hellip;&rdquo; Estão cheios    de incentivos, mas mesmo assim dizem que querem mais para que a coisa possa    ser realmente rentável. Por outro lado, talvez seja um esquema para as pessoas    que já não se conseguem endividar pela totalidade do custo de um imóvel (e hoje    em dia os empréstimos estão um bocadinho mais difíceis), e podem, se calhar,    ir para um esquema financeiro de pedir 20% ao banco, sendo famílias que não    querem estar em contratos de 1 ano, que são renovados por 3 anos, querem ter    uma vida estável. Não temos a certeza de qual será a intenção. Também não é    muito agradável ficar com uma prestação ao banco e uma renda para pagar. Ou    seja, é sempre tudo à volta de esquemas financeiros de intervenção no mercado,    numa abordagem completamente neoliberal, e lamento que pessoas que neste momento    estão no poder e são responsáveis por estes assuntos tenham, na verdade, uma    receita totalmente neoliberal e financeirizada. Não se revêm como sendo neoliberais,    nem se auto-intitulam como tal, mas as suas receitas são neoliberais. </p>     <p> <b> Há uma dissonância entre o que defendem textualmente e os instrumentos    que depois usam para o aplicar? </b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Acho que sim. Começaram com muita abertura aos movimentos e agora há um fechamento.    As pessoas que estão à frente destes processos, pelo menos em Lisboa e a nível    nacional, começaram com uma abordagem muito aberta mas depois foi havendo um    fechamento. As políticas estão reféns do mercado e do investimento privado.    A regulação é tabu, o orçamento adiado constantemente. </p>     <p> <b> Mudando um pouco de assunto, na atividade de atendimento do Habita, de    aconselhamento a agregados em situação de carência habitacional muito grave,    quais são os principais problemas-tipo que aparecem? </b> </p>     <p> Os principais problemas que nós acompanhamos são despejos. Perda de habitação    de muitas formas. Nós começámos com os bairros de barracas ou degradados a serem    demolidos, mas hoje em dia, a maioria dos casos são de pessoas em &lsquo;não renovação    de contrato&rsquo;, em despejo porque se atrasaram no pagamento de renda em 3 meses,    que vivem em sobrelotação e não têm casa ou, pessoas que estão numa situação    limite em que a única solução que encontram é ocupar uma casa vazia, pública.    Por isso, aquilo com que nós lidamos hoje em dia são, sobretudo, pessoas que    estão em situação de perda de habitação. Chamemos-lhe despejos, chamemos-lhe    oposição à renovação de contrato, chamemos-lhe desocupação, chamemos-lhe demolição.    Tudo isso é perda de habitação. Quem nos procura são sobretudo mulheres e são    pessoas ao nível dos salários médios e baixos&hellip; 600, 700, 800€, mas muitas no    salário mínimo. Há muitas famílias monoparentais, também migrantes. Não nos    podemos esquecer que 25% das pessoas que trabalham em Portugal estão no salário    mínimo e sentimos que são essas que não têm acesso a nada. Nem ao social, nem    ao acessível, nem ao mercado, nem ao banco. Ou vão para uma situação de sobrelotação,    e acho que a sobrelotação não é muito falada mas está a crescer. Há muitas casas    sociais que estão sobrelotadas porque são famílias que não conseguem ter mobilidade    social, os filhos crescem, não vivem melhor do que os pais e ficam a viver com    os pais e com os avós, ou voltam para a casa dos pais porque tentaram o mercado    de arrendamento e já foram despejados. E essas pessoas ocupam. E nós apoiamos    estas pessoas que ocuparam porque, se as pessoas não têm alternativas e há várias    centenas de casas vazias em muitos concelhos, mas sobretudo em Lisboa, casas    degradadas, e sendo que as pessoas arranjam as casas&hellip; Aqui [a ocupação] é considerada    tabu, o pior pecado que se pode fazer. Mas o que tem mesmo de nos preocupar    é a falta de alternativas com que um agregado familiar se depara. É isso que    o faz ocupar. </p>     <p> Por outro lado, temos muitas pessoas cujo principal problema neste momento    é a oposição pelo senhorio à renovação de contrato, porque os senhorios querem    retirar a casa do arrendamento para vender (estamos numa febre de especulação    pela procura de mais-valias) ou aumentar muito a renda. Ou seja, o proprietário    que pratica atualmente uma renda de 400€ vê que pode perfeitamente vir a pedir    uma renda de 1200€, em Lisboa, ou vender e fazer a mais-valia da vida dele e    não renova. </p>     <p> Os contratos já estão liberalizados (precarizados) desde os anos 1990. O dito    &ldquo;congelamento&rdquo; das rendas e contratos por tempo indeterminado já se aplicava    a pouca gente. Os contratos eram de 5 anos mas, na altura não se colocava a    questão da precariedade dos contratos de arrendamento porque eles se renovavam    automaticamente. Não era um assunto. Hoje em dia não, quando chegam aos 5 anos    interrompem. E agora também já há muitos contratos de 1 ano, 2 anos, até de    6 meses já vimos. Agora há uma nova lei que vem dizer outra vez que os contratos    podem ser de 1 ano, mas que depois têm de ser renovados por 3&hellip; não se percebe    também porque é que contratos são de 1 ano e depois renovados por 3. Mas há    muitos senhorios que preferem interromper os contratos, provavelmente para vender    ou para passar para outro escalão de rendimentos completamente diferente. </p>     <p> <b> Tirando Lisboa, qual é o contexto urbano e político, europeu ou outro,    no qual mais podemos aprender quanto aos resultados da interação entre o ativismo    e a política da habitação? </b> </p>     <p> Essa pergunta é difícil porque há um retrocesso por todo o lado. Ou seja,    vivemos numa fase de capitalismo financeirizado em que a habitação se tornou    um dos elementos centrais dos esquemas financeiros e da acumulação. É um ativo    central para fixar dinheiro e para o <i>value store, </i>assim como para alavancar    mais crédito. E isto é um fenómeno global que se intensificou depois da crise    financeira. A crise financeira tem origem num processo de financeirização da    habitação através do crédito <i>subprime</i> . Depois há uma enorme concentração    de riqueza e de sobreacumulação que precisa ser resolvida, e aplicada em algum    lado. Há procura por aplicações financeiras, mas o imobiliário é a mais eficaz    e dá menos trabalho que uma nova fábrica. Então aplicam-se os capitais em imóveis    que estão ali à mão de semear e que só tendem a aumentar de preço. Depois, [esse    investimento imobiliário] é importante para alavancar mais crédito, numa época    de juros baixos serve de garantia. Tudo isto está a fazer com que seja uma marca    da nossa época a disputa de um lugar para viver e provavelmente vai-se agravar.    Sinto que há um retrocesso em todo o lado. </p>     <p> Mas diria que a Holanda ou a Áustria são dos sítios mais interessantes. A    Holanda está numa luta desde há dois anos, porque estão chocados com o facto    de, repentinamente, terem contratos de arrendamento de 5 anos. Nós já os temos    desde os anos 1990 e achávamos que isto era uma coisa normal. Para eles, contratos    de 5 anos é a precariedade. Têm grandes percentagens de habitação sem fins lucrativos:    por exemplo, Amesterdão tem quase 40% em habitação social. Infelizmente já não    é pública, são as <i>Housing Associations</i>, o que é um retrocesso porque    era melhor quando o modelo era de habitação pública. Agora com as <i>Housing    Associations</i> , há uma certa tendência para se procurar a classe média em    vez dos mais pobres, fazer o acessível em vez do social. </p>     <p> Na Áustria, ou pelo menos em Viena, pelo que sei, dois terços da habitação    ou é <i>affordable</i> ou é social e, um terço é de mercado livre. E todas as    novas urbanizações estão sujeitas a quotas importantes de habitação acessível    e social ou de mercado controlado. Mas, neste momento todos estes sítios estão    em luta porque, em todos os países – de acordo com o contexto social, político    que têm – há retrocessos que vão sendo feitos, às vezes mais lentamente, outras    vezes mais depressa. Por exemplo, Inglaterra tinha imensa habitação municipal,    pública, as <i>Council Housing</i>, tinha um programa de habitação lindíssimo    que vem do pós-guerra, depois foi praticamente todo destruído nos anos 1980    pela Thatcher, e agora há lutas importantes em Londres pela defesa do que resta    e dos direitos dos inquilinos... Em Espanha também se passam lutas interessantes    contra os despejos, por causa da questão hipotecária, mas agora também por causa    do arrendamento. O foco está a recair sobre estas grandes sociedades de gestão    de investimento imobiliário que estão a explorar as famílias no arrendamento.    Berlim também tem novas dinâmicas de luta muito interessantes. Fazemos parte    de uma aliança europeia de movimentos que lutam pela habitação e nós achamos    muito importante esta troca, esta partilha, este intercâmbio de aprendizagem    para perceber melhor os processos que são globais, mas têm especificidades e    responsáveis locais e nacionais. </p>     <p> <b> E quanto a respostas locais, como algumas restrições impostas pela administração    da Ada Colau em Barcelona ou o caso de Berlim, que vai agora restringir o alojamento    local? </b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Berlim está com uma luta que acho que é a mais interessante de todas, que    é a pressão para um referendo para a renacionalização de 200 mil apartamentos    que foram privatizados para fundos financeiros, mais especificamente REIT&rsquo;s.    Ou seja, anteriormente a Alemanha resolveu entregar por atacado milhares, quase    um milhão, de casas a fundos de investimento e, neste momento há uma certa regulação    de rendas: um senhorio não pode aumentar a renda mais de 10% entre um contrato    e outro, enfim, as rendas ainda são reguladas. Mas tem havido muita pressão    e truques para se aumentar as rendas. Vai haver uma manifestação em muitas cidades    alemãs no dia 6 de Abril [de 2019], e neste momento estão a discutir ao nível    político a renacionalização de cerca de 200 mil casas em Berlim. Enquanto nós    aqui [o Governo] estamos a dizer, na Nova Geração de Políticas de Habitação,    que deve trazer os fundos, os <i>REITs</i>, eles lá estão a renacionalizar ou    estão a pensar nisso. Quanto à Ada Colau, acho que tem tido dificuldades porque    não tem maioria, é muito complicado fazer as coisas avançar. Ela disse que vai    aplicar multas brutais aos fundos que estão a especular ou que têm casas vazias.    Não sei se vai concretizar mas espero que sim. Ou seja, vai aplicar multas aos    fundos e aos bancos e está a tentar, a todo o custo, desenvolver mais habitação    pública porque a Espanha tem muito pouca habitação pública. Aqui, a CML diz:    &ldquo;nós já temos muita habitação social, não precisamos de mais, precisamos de    habitação para a classe média&rdquo;. </p>     <p> <b> E que classe média é essa? O ordenado médio são 900€&hellip; não dá para pagar    uma renda de 1200€. </b> </p>     <p> Também não sei. Como não definiram o que é a classe média, não sei, mas sei    que o <i>target</i> é sempre a classe média&hellip; penso que tem que ver com questões    políticas. Imagino que as pessoas também gostam de se identificar como classe    média, mesmo quando têm salários de miséria. Mas temos de olhar para os salários    e ver onde andam&hellip; são muito baixos, 1000€ com filhos é muito pouco. Mas mesmo    essas soluções chamadas de acessíveis estão muito longe de responder em número    às necessidades. Às vezes, em Lisboa, há 3 mil candidaturas para meia dúzia    de casas. </p>     <p> <b> Lisboa tem de facto uma quantidade apreciável de habitação pública mas    depois os concelhos à volta não têm. </b> </p>     <p> Exato. Além dos concelhos à volta não terem e isso aumentar a pressão também    em Lisboa, esta cidade já tem uma pressão maior, naturalmente, e a habitação    social existente não é suficiente. As listas têm vindo a aumentar. E hoje em    dia, a vereadora Paula Marques deve ter uma pressão enorme. </p>     <p> <b> A ideia de algum modo veiculada passaria, nalguns casos, por pôr os candidatos    à renda acessível de classe média em bairros de habitação social. </b> </p>     <p> Com que propósito é que se tira habitação social para a transformar em habitação    de renda acessível? Só se for para, mais uma vez, se tentar dissociar a renda    do rendimento das pessoas. Vai-se começar a retirar dos bairros habitação que    está no regime de arrendamento apoiado, portanto em função do rendimento da    pessoa, para entrar no regime de renda acessível? Imagino que a Câmara vá dizer    que é para a miscigenação dos bairros. Mas então, vamos promover a mistura social    também nos bairros onde o luxo está a querer tomar conta de tudo, no Braço de    Prata, na Matinha, no Parque das Nações e em toda a nova construção ou reabilitação.  </p>     <p> Pelo contrário, neste momento não precisamos de reduzir o <i>stock</i> de    habitação social, precisamos de o aumentar. Faz todo o sentido que a renda continue    a ser calculada em função do rendimento da pessoa porque o mercado de trabalho    e a instabilidade laboral que temos a isso obriga: as pessoas hoje têm um salário    de 800€, amanhã estão desempregadas, depois com sorte reempregam-se mas, de    repente nascem filhos e um salário de 1000€ começa a ser praticamente nada<b>&hellip;</b>  </p>     <p> No entanto, considero que a política de habitação em Lisboa não se faz só    com o pelouro da habitação. Faz-se sobretudo com o pelouro do urbanismo. E ao    dissociar-se o urbanismo da habitação, a habitação fica a tentar apanhar os    cacos do que o urbanismo tem feito. [O que tem feito gira em torno da] estratégia    de tornar Lisboa um grande <i>hub </i>turístico, imobiliário, das<i> start ups,    </i>do luxo,<i> </i>dos <i> global residents e toda essa </i>lenga-lenga neoliberal.    Neste momento está a acontecer o MIPIM [Feira de Imobiliário internacional]    e estão lá responsáveis e vereadores da CML como o vereador Duarte Cordeiro.    E estão a participar em reuniões que se chamam, por exemplo, &lsquo;Como tornar Lisboa    e Porto em <i>hubs</i> de investimento internacional&rsquo;. Por outro lado, o Plano    Diretor Municipal de Lisboa é muito liberalizado; a aprovação em série de planos    de pormenor que respondiam sobretudo a interesses de grandes grupos económicos,    como por exemplo, toda a zona ribeirinha ao longo do Tejo, para cá da Expo,    foi virada para os interesses do Banco Espírito Santo (BES), mostrando mais    uma vez onde estão as prioridades. Quando a prioridade é a atração de investimento    à custa da gentrificação e da expulsão e da especulação - e se deixa para trás    a reabilitação de centenas de casas vazias nos bairros sociais, ou o desenvolvimento    de resposta pública na medida suficiente, ou a regulação à séria - as crises    vão estoirando&hellip; nós vamos ter de continuar a ser uma pedra no sapato em relação    a isso. </p>     <p> <b> Sugere a obrigatoriedade de os investimentos urbanísticos terem um canal    que chegue também à manutenção da habitação pública? </b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Por exemplo! E desenvolver respostas de habitação pública para compensar os    efeitos gentrificadores do resto da política camarária. Mas a CML tem tido dificuldade    em desenvolver um programa de renda controlada público, tem de ir buscar esquemas    financeiros e parcerias público-privadas&hellip; É uma pena que uma cidade enriquecida    com esta dinâmica toda, em que até há dinheiro e terrenos públicos, ache que    têm de ser os privados a fazer. Porque não aplicam as receitas municipais em    programas de renda controlada em edifícios de propriedade pública? Porque tiveram    de recorrer a parcerias público-privadas e buscar a Stone Capital para fazer    o programa de renda acessível? E porque é que em projetos de construção e reabilitação,    não obrigam a quotas de habitação a renda controlada? E porque é que dão tantas    isenções fiscais a quem reabilita para especular e para expulsar? </p>     <p> E no entretanto há situações muito complicadas. Temos tido despejos de pessoas    que ocupam [fogos públicos vagos] que há anos andam a tentar alguma solução,    a falar com a CML, concorrem todos os anos [a habitação pública] mas não conseguem    ter resposta. Tivemos agora um despejo de uma mulher com crianças, a Mariama.    Antes, a Madalena. E antes, a Patrícia, ou a Rita. E antes, várias outras famílias    monoparentais, com salários mínimos. Dá para comer e viver? Este perfil é o    que mais ocupa [fogos vagos] e estão a ser expulsas, sem alternativas, sem uma    análise social dos casos. Expulsas de habitação pública que estava fechada&hellip;    E esta expulsão é feita às vezes sem aviso. A Mariama não recebeu nenhuma notificação.    A Madalena estava a trabalhar (ela é cabeleireira) e os filhos, menores, foram    despejados pela polícia sem a mãe estar presente. Ela estava a trabalhar e vinha    a caminho. As crianças da Mariama estavam completamente traumatizadas no dia    do despejo. Choravam muito&hellip;. Isto está a ser feito com o acordo e com a ordem    camarária. Isto é inaceitável. </p>     <p> <b> E sobre a situação no Porto? O vereador do urbanismo nas últimas declarações    falou da questão do investimento, que não estava preocupado que as pessoas tivessem    de andar horas em transportes. </b> </p>     <p> O Porto está a sofrer exatamente os mesmos processos que Lisboa e, sendo uma    cidade mais pequena, pode transformar-se num gigantesco parque hoteleiro. Ainda    há lá muita gente a viver, mas estão sob ataque. Agora morreu uma pessoa num    incêndio que está a ser investigado porque parece que teve mão criminosa, e    há suspeitas de que tinha a ver com a vontade do proprietário de despejar as    pessoas. São pessoas que se queixavam de <i>bullying.</i> Entretanto, o edifício    ardeu e está a ser investigado pela Polícia Judiciária. Mas isto a propósito    das pessoas fazerem grandes distâncias&hellip; O novo passe de 40 euros é importante,    tínhamos um sistema de passes terrível, mas é uma espécie de contrapartida pelas    pessoas terem que ir viver cada vez mais longe.<b> </b>É uma espécie de <i>trade-off</i>    pelo que acontece em termos de acesso à habitação... Mas é muito triste que    as cidades se vão esvaziando dos seus moradores, da sua diversidade, e que se    segmente cada vez mais entre o luxo e a monocultura do turismo, para um lado,    e os pobres lá para traz da colina, por outro. Uma cidade mais desigual significa    uma sociedade mais desigual e isto terá, com certeza, consequências. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Financiamento</b></font> </p>     <p> Entrevista realizada a 13 de Março de 2019. Transcrição de Leandro Gabriel    (CEG-IGOT, ULisboa).Este trabalho resulta das atividades do projeto &ldquo;exPERts    Making sense of planning expertise: housing policy and the role of experts in    the Programa Especial de Realojamento (PER)&rdquo; (financiado pela FCT; PTDC/ATP-EUR/4309/2014).</p> </font>       ]]></body>

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