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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O estado da habitação em Portugal: Uma trajetória promissora mas ainda excessivamente em aberto]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Instituto de Ciências Sociais ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>COMENTÁRIO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">O estado da habitação em Portugal: Uma trajetória  promissora mas ainda excessivamente em aberto </font></b>      <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> The state of housing in Portugal: A promissing,    however excessively open trajectory </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">João Ferrão<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Instituto    de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:joao.ferrao@ics.ulisboa.pt" target="_blank">joao.ferrao@ics.ulisboa.pt</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>      <p> Quando, em 2014, Marco Allegra e a sua equipa começaram a preparar a candidatura    do projeto exPERts a um concurso de apoio à investigação da Fundação para a    Ciência e a Tecnologia, estavam certamente longe de imaginar que o tema da habitação    iria ocupar, muito em breve, um lugar central na agenda política portuguesa.  </p>     <p> Os temas de investigação, como muitos outros aspetos da vida coletiva, têm    modas, caracterizando-se pela alternância entre momentos de interesse e fulgor    e outros de relativa marginalização ou quase esquecimento. Claro que há fatores,    internos à própria academia mas sobretudo relacionados com a evolução das sociedades    e das economias, que permitem compreender esses vários ciclos de emergência,    apogeu e ocaso de determinados temas. E também é certo que a proposta inicial    do projeto exPERts não tinha como objeto a questão genérica da habitação, mas    sim um foco mais restrito e específico: o papel dos peritos nas políticas públicas    através da análise do Programa Especial de Realojamento (PER). A verdade é que,    num misto de intuição informada, ocorrência de circunstâncias não previstas,    sentido de oportunidade e capacidade de leitura sistémica da situação, o projeto    e a equipa colocaram-se no centro de um debate vivo e crescentemente alargado    de um tema recorrente na história da sociedade portuguesa, mas intermitente    na história da produção científica nacional. </p>     <p> A chamada questão da habitação, no seu sentido mais amplo, é, aliás, um espelho    privilegiado das relações que ao longo do tempo se estabelecem entre as esferas    política, económica e social, refletindo a evolução de opções políticas, dinâmicas    económicas e reconfigurações sociodemográficas, bem como as inevitáveis tensões    e conflitos que sucessivamente se vão gerando entre interesses, valores, necessidades,    prioridades e soluções divergentes, contraditórios ou mesmo antagónicos. </p>     <p> A questão da habitação está pois, de novo, no centro dos debates político    e público, das agendas académica e mediática, das políticas públicas e dos movimentos    ativistas. Contudo, o regresso de um tema ao centro das controvérsias e dos    palcos de decisão, ação e confronto não é, evidentemente, uma mera reemergência:    com o passar do tempo, mudaram os contextos ao nível internacional e nacional,    modificaram-se os atores em presença e as relações de poder entre eles, alteraram-se    as perspetivas analíticas e metodológicas. Mas reemergir significa também que    existe um passado e um legado que não desapareceram: problemas e dinâmicas recorrentes    ganham agora uma nova visibilidade e ´velhos` princípios e direitos são resgatados,    permitindo retirar partido de ciclos de debate e intervenção anteriores. </p>     <p> A ´questão da habitação` é pois uma questão renovada, não uma nova questão:    ela nunca desapareceu, ela aliás esteve sempre bem presente do lado dos perdedores    e dos seus apoiantes. Mas renasce hoje aos olhos de todos como algo demasiado    relevante para que possa ser ignorado ou considerado como um problema menor,    uma disfunção setorial e geograficamente localizada, uma questão em vias de    solução através de mecanismos de mercado eficazes e de políticas públicas de    habitação eficientes. </p>     <p> Os artigos e as entrevistas incluídos neste número temático da revista <i>Cidades.    Comunidades e Territórios</i> constituem um sólido contributo para um novo ciclo    de debate e de intervenção política que tenha a questão da habitação no seu    centro, mas que olhe para ela a partir de um enquadramento mais amplo e enriquecido.    Em suma, como um problema estrutural, cuja genealogia é necessário conhecer,    a exigir reformas estruturais, para as quais urge construir bases adequadas    e duradouras. </p>     <p> O estado da habitação que aqui é apresentado privilegia, inevitavelmente,    determinados eixos de análise e domínios de proposta, com destaque para as dinâmicas    do mercado de habitação num contexto de crescente gentrificação, &ldquo;turistificação&rdquo;    e financeirização, para a relação entre ação pública e mercado em termos de    regulação, financiamento e provisão de habitação, e para o papel dos mecanismos    de governança, do tipo de conhecimento mobilizado, da aprendizagem e capacitação    institucional, do debate público, das práticas de participação cidadã, da experimentação    e do enquadramento legal no desenho e concretização de políticas de habitação    e planeamento urbano eficientes, democráticas e justas. </p>     <p> O desafio é enorme. A ambição também. Este número temático é, portanto, um    bom ponto de partida para um debate sério e ousado sobre o que queremos e o    que não queremos quando falamos de habitação como um direito social num contexto    de crescente financeirização, globalização e coalescência dos mercados, de que    o fundiário, o da construção, o imobiliário e o habitacional representam uma    parte muito relevante pelo modo como interferem no quotidiano dos cidadãos,    mas também pela diversidade de interesses privados e públicos a eles associados.    Este é o repto que os autores e as entrevistadas nos deixam. Esta é a caminhada    que o número temático prossegue, retirando partido do legado deixado por outros    ao mesmo tempo que nos convoca para a construção de um percurso que tem recebido    contributos muito relevantes desde 2017, mas cuja trajetória futura se mantém    excessivamente em aberto.</p> </font>       ]]></body>

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