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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>COMENTÁRIO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">O Estado e a habitação numa encruzilhada? </font></b>      <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> State and housing at the crossroads? </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Nuno Serra<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal. e-mail: <a href="mailto:nuno.serra@gmail.com" target="_blank">nuno.serra@gmail.com</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>      <p>      <p> Há cerca de doze anos, quando a crise financeira não tinha ainda desabado    sobre a economia e a sociedade portuguesa – e, portanto, antes ainda da sua    transmutação em «crise das dívidas soberanas» – muito dificilmente se poderia    antever o tipo de problemas e de questões que hoje se colocam no domínio da    habitação e das políticas de alojamento. </p>     <p> De facto, em resultado de uma política habitacional centrada na generalização    do crédito para aquisição de casa própria, desde meados dos anos oitenta, e    com a execução de um programa público criado para acabar de vez com as barracas    nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, já no início dos anos noventa, julgar-se-ia    que a endémica situação de «crise habitacional» estaria finalmente superada    em Portugal. Ou seja, o que as tímidas políticas de promoção direta não conseguiram    durante décadas fora aparentemente alcançado através do mercado, numa combinação    entre o acesso fácil a crédito abundante e com baixas taxas de juro e medidas    de natureza fiscal orientadas para a bonificação pública dos empréstimos. O    acesso à propriedade, através da expansão da casa própria como forma preferencial    de ocupação, fortalecia essa ideia, de um problema estrutural finalmente ultrapassado.  </p>     <p> Hoje, porém, existem fundadas razões para que se possa falar no surgimento    de uma nova «crise de habitação», que resulta da convergência de diversos fatores,    incluindo dinâmicas inesperadas ou mais difíceis de antever, como sucede com    a explosão da procura turística, sobretudo nas grandes cidades, e a consequente    proliferação do alojamento local. Isto é, dinâmicas que se somaram ao efeito    de medidas com impacto no mercado habitacional, de que são exemplo os <i>Vistos    Gold</i> ou as alterações, no sentido da maior liberalização, ao mercado de    arrendamento. Isto para já não falar, evidentemente, do papel que a recuperação    da economia, do mercado de trabalho e dos rendimentos tiveram, depois dos anos    de austeridade e de «ajustamento», na revitalização da procura e na reativação    da construção e reabilitação do edificado. Ou seja, fatores que, no seu conjunto,    permitem compreender por que razão se assiste a um novo ciclo de subida dos    preços da habitação, tanto na esfera da compra como do arrendamento, a par de    novas dinâmicas de escassez de oferta, de exclusão e de insolvência, ou mesmo    de expulsão de agregados familiares com menores rendimentos para a periferia    das grandes cidades ou para concelhos limítrofes das áreas metropolitanas. </p>     <p> Os tempos que atravessamos são, contudo, bastante mais complexos. Ao mesmo    tempo que surgem estes sinais, hoje já evidências, de uma nova crise habitacional,    emergem igualmente indícios da possibilidade de estar em curso uma mudança de    paradigma das políticas de habitação, suscetível de estabelecer uma rutura com    abordagens avulsas e descoordenadas, a persistência de modelos serôdios de promoção    habitacional ou intervenções públicas há muito marcadas pelo minimalismo em    termos de política social. É pelo menos isso que parece anunciar a Nova Geração    de Políticas de Habitação, recentemente aprovada pelo Governo e que não pode    seguramente deixar de ser interpretada, também, enquanto tentativa de resposta,    mais robusta, integrada e transversal, à atual crise de alojamento. Ou, ainda,    mas neste caso há muito sentida como em falta na arquitetura jurídica e institucional    do Estado Social português, a elaboração e discussão de uma Lei de Bases da    Habitação, cujo atraso em alcançar a luz do dia é bem revelador do lugar secundário    que o setor tem ocupado no quadro das políticas sociais em Portugal e da consciência,    acumulada, de défice de Estado, neste importante domínio da intervenção social    pública, em termos de universalidade e acesso. </p>     <p> É perante este quadro mais geral que o conjunto de textos e reflexões reunidos    na presente edição da revista «Cidades: Comunidades e Territórios» reflete,    de forma certeira, substantiva e oportuna, o ponto de encruzilhada em que a    questão da habitação hoje se encontra e que é determinado, em ampla medida,    pela capacidade que a Nova Geração de Políticas de Habitação venha a demonstrar    para dar uma resposta robusta e consequente aos problemas e desafios que se    lhe colocam. E desse ponto de vista o contributo destas reflexões situa-se essencialmente    em três planos. </p>     <p> Procede-se, por um lado, e com uma perspetiva de futuro, à avaliação crítica    das políticas que têm caraterizado a atuação do Estado no setor, procurando-se    evidenciar as razões do seu relativo insucesso e as limitações dos modelos preferencialmente    seguidos até aqui. Para além da recorrente propensão para soluções minimalistas    no âmbito da promoção direta de alojamentos, que circunscreve as respostas públicas    às situações mais prementes de carência habitacional, é assinalada a preferência,    também ela recorrente, de atuar através do mercado, sendo nestes termos questionada    a efetiva capacidade de desmercadorização da habitação e de regulação da iniciativa    privada. </p>     <p> Em segundo lugar, desenvolve-se nesta edição uma análise crítica, construtiva    e exigente das medidas de política habitacional que consubstanciam a Nova Geração    de Políticas de Habitação. Com efeito, sem deixar de reconhecer o mérito subjacente    à estruturação de uma abordagem integrada, transversal e multidimensional (há    quanto tempo não dispúnhamos de uma «política de habitação» com estas caraterísticas?),    identificam-se os seus riscos, incertezas e fragilidades. É aliás neste ponto,    sobretudo neste ponto, que a relação entre o atual estado de crise do alojamento    e a intencionalidade política melhor espelham a ideia de encruzilhada. </p>     <p> Por último, deve assinalar-se o facto de várias reflexões integrantes deste    número constituírem igualmente um importante contributo para que, perante a    incerteza quanto à eficácia das políticas propostas, a «saída» da encruzilhada    se faça, o mais possível – e atendendo nomeadamente às limitações orçamentais    com que o país se defronta – pelo caminho melhor sucedido. É neste sentido,    por exemplo, que se salienta a relevância dos processos de envolvimento e participação    das comunidades, a adequada articulação de escala ao nível da governação das    políticas de habitação ou a importância de melhorar a recolha e sistematização    de informação, a par de uma maior mobilização do conhecimento e da investigação.  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Estamos pois perante um número da «Cidades: Comunidades e Territórios» que    soube captar bem o «espírito do tempo» e que, mobilizando as aprendizagens do    passado e assinalando as exigências do futuro, identifica muitos dos aspetos    essenciais para uma efetiva mudança da política de habitação em Portugal.</p> </font>       ]]></body>

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