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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Habitação no Centro da Economia Política]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The issue of “housing” has generally not been granted an important role in post-war political economy. Housing-as-policy has been the preserve of social policy analysis and of a growing field of housing studies; housing-as-market has been confined to mainstream economics. This paper insists that political-economic analysis can no longer remain relatively indifferent to the housing question since housing is implicated in the contemporary capitalist political economy in numerous critical, connected, and very often contradictory ways. The paper conceptualizes this implication by identifying the multiple roles of housing when “capital” - the essential “stuff” of political economy - is considered from the perspective of each of its three primary, mutually-constitutive guises: as process of circulation, as social relation, and as ideology. Mobilizing these three optics to provide a critical overall picture of housing-in-political-economy (more than a political economy of housing), we draw on and weave together the many vital contributions of housing research to our evolving understanding of capitalism.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGO ORIGINAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">A Habitação no Centro da Economia Política</font></b>      <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> Centring Housing in Political Economy</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Manuel Aalbers<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a>;    Brett Christophers<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">II</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Department    of Geography, KU Leuven/University of Leuven, Belgium. e-mail: <a href="mailto:manuel.aalbers@ees.kuleuven.be" target="_blank">manuel.aalbers@ees.kuleuven.be</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="12"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Department    of Social and Economic Geography, Uppsala University, Sweden. e-mail: <a href="mailto:brett.christophers@ibf.uu.se" target="_blank">brett.christophers@ibf.uu.se</a>.</font><br /> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>RESUMO</b></font><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">      <p> A economia política do pós-guerra não tem, de um modo geral, atribuído um    papel importante ao tema da &ldquo;habitação&rdquo;. A habitação enquanto política tem sido    um exclusivo da análise das políticas sociais e do domínio crescente dos estudos    da habitação. A habitação enquanto mercado tem estado confinada à economia ortodoxa.    Este artigo insiste no facto de a análise da economia política não poder permanecer    relativamente indiferente à questão da habitação, já que esta está envolvida    na economia política capitalista contemporânea através de uma série de aspectos    críticos, interligados e muitas vezes contraditórios. O artigo conceptualiza    esta implicação, identificando os múltiplos papéis da habitação quando o &ldquo;capital&rdquo;    – a &ldquo;matéria-prima&rdquo; essencial da economia política – é considerado a partir    da perspectiva de cada uma das suas formas primárias e mutuamente constitutivas:    como processo de circulação, como relação social e como ideologia. Ao mobilizar    estas três ópticas com vista a facultar uma perspectiva geral crítica da habitação-na-economia-política    (mais do que uma economia política da habitação), reunimos e conjugamos os vários    contributos fundamentais da pesquisa sobre a habitação para o nosso entendimento    progressivo do capitalismo.</p> <b>Palavras-chave:</b> habitação, economia política, capital, circulação, ideologia,  relações sociais, substituição do capital.      <p></p> </font>  <hr size="1" noshade="noshade"/>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> The issue of &ldquo;housing&rdquo; has    generally not been granted an important role in post-war political economy.    Housing-as-policy has been the preserve of social policy analysis and of a growing    field of housing studies; housing-as-market has been confined to mainstream    economics. This paper insists that political-economic analysis can no longer    remain relatively indifferent to the housing question since housing is implicated    in the contemporary capitalist political economy in numerous critical, connected,    and very often contradictory ways. The paper conceptualizes this implication    by identifying the multiple roles of housing when &ldquo;capital&rdquo; – the essential    &ldquo;stuff&rdquo; of political economy – is considered from the perspective of each of    its three primary, mutually-constitutive guises: as process of circulation,    as social relation, and as ideology. Mobilizing these three optics to provide    a critical overall picture of housing-in-political-economy (more than a political    economy of housing), we draw on and weave together the many vital contributions    of housing research to our evolving understanding of capitalism. </font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Keywords:</b> housing,    political economy, capital, circulation, ideology, social relations, capital    switching.</font></p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">      <p> <font size="3"><b>1. A Economia Política e a Questão da Habitação</b></font>  </p>     <p> Historicamente, a propriedade e a terra – o uso das mesmas, o desejo de adquiri-las    e a necessidade de regular a sua transmissão – constituíram algumas das razões    fundamentais para o desenvolvimento dos estados. A propriedade e a terra foram,    e ainda são, factores determinantes do poder e da riqueza. As tensões associadas    à aquisição e manutenção do poder e da riqueza estão incorporadas num sistema    de propriedade que acarreta toda uma ordem social em que as relações de habitação    contemporâneas desempenham um papel de destaque. Parece-nos que isso é razão    de monta para que a economia política reconheça importância à habitação; é igualmente    motivo para que quem estuda a habitação reconheça o papel da economia política.  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Mas o que queremos dizer com o termo &ldquo;economia política&rdquo;? Várias correntes    de pensamento identificam-se enquanto economia política. Por vezes, o termo    é usado para referir um grupo específico de economistas heterodoxos; ou um grupo    de cientistas políticos com particular interesse em economia, no que é muitas    vezes designado por &ldquo;economia política internacional&rdquo;, ou &ldquo;economia política    comparada&rdquo;. Há ainda uma economia política diferente (apesar de relacionada    com esta) no seio da sociologia e da geografia, fortemente influenciada pelo    pensamento marxista (de que é exemplo o trabalho de David Harvey), mas não restrita    a essa influência. Aquilo que estas diversas tradições da economia política    têm em comum, e aquilo que tende a distingui-las da corrente ortodoxa da economia,    é o facto de analisarem &ldquo;a economia dentro do seu contexto social e político    em lugar de a conceberem como uma entidade isolada, conduzida pelas suas próprias    regras baseadas no interesse individual&rdquo; (MacKinnon e Cumbers 2007, 14). Neste    artigo, estamos mais interessados em recorrer a este campo interdisciplinar    da economia política fora da disciplina da economia.[<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>]  </p>     <p> No entanto, apesar da nossa afirmação inicial de que a habitação deve ser    um tema central da economia política nestes moldes, na realidade, nunca o foi.    O assunto mereceu pouca atenção de Marx, tal como dos seus predecessores clássicos    &ldquo;burgueses&rdquo; na economia política. E apesar de Engels ser autor de <i>Para a    Questão da Habitação</i> (1983 [1887], no original, <i>The Housing Question</i>)    e de discutir amplamente a questão da habitação em <i>A Situação da Classe Trabalhadora    em Inglaterra</i> (1975 [1845], no original, <i>The Condition of the Working    Class in England</i> (1987[1845]), a sua perspectiva acerca da habitação é muito    ambivalente: reconhece a sua importância social e política mas, por motivos    que discutiremos adiante, resiste a tomá-la como tema central da teoria da economia    política radical.</p>     <p> De forma semelhante, e em parte devido a essa marginalização histórica, a    questão da habitação continua a não ser encarada como importante na economia    política do pós-guerra. A habitação enquanto política tornou-se um exclusivo    da análise da política social e de um conjunto crescente de estudos da habitação,    que têm demonstrado relativamente pouco interesse nos temas que têm tipicamente    sido tratados pela economia ortodoxa. A habitação enquanto mercado também tem,    em grande medida, sido isolada no seio da economia ortodoxa. A preocupação que    esta demonstra quanto aos &ldquo;mercados livres&rdquo; e a análise insuficiente que faz    das relações de poder ou do envolvimento do Estado – para além da afirmação    de que o Estado prejudica o funcionamento dos mercados – tem funcionado em contraposição    a uma análise da habitação como componente elementar da economia política. </p>     <p> A abordagem da habitação no âmbito daquela que era até agora uma tradição    muito isolada, marxista, da economia política (cf. Berry, 1979) também tinha    tendência a restringir essa perspectiva não só a um conjunto limitado de interesses    analíticos mas também a uma visão producionista. O trabalho de Michael Ball    (1988), em particular, deu um importante contributo sobre as &ldquo;estruturas de    acesso à habitação&rdquo;, procurando romper com o producionismo marxista, ainda que    com sucesso relativo. </p>     <p> Contudo, nos últimos anos tem aumentado o reconhecimento, de base mais alargada,    da centralidade crescente da habitação para a economia política das sociedades    de capitalismo avançado, numa concepção muito além da questão da produção. Este    reconhecimento é particularmente evidente no trabalho de Schwartz e Seabrooke    (2009), que introduziram o conceito de &ldquo;variedades de capitalismo residencial&rdquo;,    trabalhando a partir da literatura sobre variedades do capitalismo na economia    política e dos debates acerca do papel da propriedade nos estados-providência,    no âmbito dos estudos da habitação. Tomando por base as variáveis simples da    taxa de habitação própria e de empréstimo à habitação no PIB, desenvolveram    quatro &ldquo;tipos ideais&rdquo; sofisticados de capitalismo residencial, cada um com o    seu conjunto distinto de políticas de habitação. Ao fazê-lo, Schwartz e Seabrooke    criaram uma perspectiva importante e esclarecedora do papel da habitação nas    diferentes variedades de capitalismo; no entanto, continua a haver necessidade    de uma conceptualização coerente e relativamente exaustiva do lugar da habitação    na economia política capitalista contemporânea mais alargada. </p>     <p> Este artigo pretende contribuir para essa conceptualização, em parte para    aproximar os argumentos, muitas vezes não dialogantes, acerca de diferentes    aspectos da economia política da habitação; em parte para enquadrar e reunir    a investigação a ter lugar nesta área; e em parte para sublinhar que a economia    política, em geral, <i>tem</i> de abordar a questão da habitação com seriedade.    Defendemos que a habitação está envolvida na economia política contemporânea    de forma crítica, interligada e muitas vezes contraditória. Recorremos para    tal a bibliografia dos estudos da habitação, uma vez que esta aborda as questões    que interessam aos economistas políticos, e fazemos a ligação destes contributos    muitas vezes fragmentados e isolados aos contributos dos raros economistas políticos    que se debruçaram sobre o tema da habitação. E propomos este argumento concretamente    ao retornar àquela que é sem dúvida a categoria central da economia política,    o &ldquo;capital&rdquo;, identificando os múltiplos (e cada vez mais materiais) papéis da    habitação, tomando o capital pela perspectiva de cada uma das suas três configurações    primárias e mutuamente constitutivas: capital enquanto processo de circulação;    capital enquanto relação social; capital enquanto ideologia. </p>     <p> Cada uma das três secções principais do artigo aborda, desta forma, a centralidade    da habitação em cada uma destas modalidades do capital. Segue-se depois uma    conclusão, que pretende reflectir acerca das prioridades e possibilidades daí    decorrentes para a investigação futura. Antes de avançarmos, é importante fazer    duas observações para o devido enquadramento. Em primeiro lugar, tendo em conta    as restrições espaciais, a nossa abordagem ao tema do arrendamento é limitada    ao arrendamento habitacional, não incluindo o arrendamento de terreno. Este    tipo de arrendamento é nitidamente um factor crucial na coordenação das economias    espaciais do ambiente construído, modelando de formas significativas – e sendo    modelado por – a economia política da habitação, incluindo a circulação de capital    (cf. Harvey, 1982, capítulo 11; Ball, 1985; Haila, 2015, capítulo 5). Do mesmo    modo, reconhecemos que, ao falarmos de preços da habitação estamos, de facto,    na maioria dos casos, a falar de uma combinação dos preços da construção e do    terreno em que esta é estabelecida. Não nos é aqui possível, no entanto, tomar    devidamente em consideração o papel do terreno isolado do da habitação. Em segundo    lugar, e ligado a isso, é importante distinguir entre a habitação <i>per se</i>    e a categoria mal definida de &ldquo;propriedade&rdquo; comummente utilizada como sinónimo    de habitação mas que, também muitas vezes, pode incluir terreno não utilizado    para a habitação. Este artigo é sobre a habitação. Posto isto, alguns dos argumentos    propostos, tais como aqueles que dizem respeito à substituição do capital, aplicam-se    igualmente a outras formas de propriedade (por exemplo, comercial), apesar de    mesmo assim podermos afirmar que, nos dias de hoje, a habitação é especialmente    material; não obstante, muitos destes argumentos não se aplicam a outras configurações    da propriedade, sendo específicos ao fenómeno da habitação. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>2. A Habitação e a Circulação de Capital</b></font> </p>     <p> Na economia política em geral, e em Marx em particular, o capital é conceptualizado    enquanto processo de circulação. Cingido ao essencial, este processo compreende    as etapas principais que passamos a elencar. Em primeiro lugar, recorre-se a    dinheiro para garantir o acesso aos meios necessários à produção de bens e serviços;    esses meios incluem frequentemente matérias-primas e, sempre, trabalho remunerado.    Em segundo lugar, esses meios colectivos são mobilizados no processo produtivo    para gerar os bens ou serviços em causa. Em terceiro lugar, estes bens ou serviços    são postos à venda (&ldquo;realização&rdquo;) no mercado em troca de dinheiro: dinheiro    este que, em teoria, inclui a quantia investida inicialmente na produção e a    mais-valia gerada na produção. Este valor – menos, <i>inter alia</i>, o das    despesas de consumo e das deduções à custa de elementos como os juros e a renda    – é depois reinvestido de novo na produção. Concluída a quadratura do círculo,    o processo é renovado. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Afirmamos, neste capítulo, que a habitação é fulcral no processo de circulação    a vários níveis-chave, e cada vez mais; por outras palavras, entendemos que    não é possível compreender a circulação de capital, pelo menos nos dias de hoje,    sem reconhecer a materialidade multidimensional da habitação neste processo.  </p>     <p> Talvez o ponto de partida mais óbvio e lógico para estabelecer este reconhecimento    seja a importante figuração da habitação, ela própria resultado do processo    produtivo: como, por assim dizer, o &ldquo;bem&rdquo; produzido pela mão-de-obra e vendido    com fins lucrativos (cf. Ball, 1988). É claro que a habitação pode ser produzida    pela mão-de-obra que pretende consumir o produto final, isto é, pode ser auto-produzida.    Contudo, quer nas sociedades capitalistas avançadas, quer nas menos avançadas,    a habitação é cada vez menos produzida e consumida pelas mesmas pessoas. O seu    lugar de criação por excelência é a produção com recurso ao trabalho assalariado.    Assim, a construção e desenvolvimento de habitação é um sector importante em    termos económicos estritos, quer seja medida em termos de valor acrescentado    da mão-de-obra e número de postos de trabalho gerados, quer em termos de contributo    para o PIB. Acresce a criação de postos de trabalho noutros sectores da habitação,    como a reabilitação e renovação, o mobiliário e os materiais, instalação de    equipamentos de cozinha e de casa-de-banho, e lojas de utilidades domésticas    (Bourdieu, 2005). Isto explica, em parte, por que motivo o sector da habitação    é muitas vezes tido como um sector económico que tem de ser estimulado para    a promoção do crescimento económico mais alargado. Tal foi notório, sobretudo,    nas primeiras décadas após a 2ª Guerra Mundial, quando as políticas keynesianas    recorreram preferencialmente ao sector da habitação como principal destinatário    do crescimento económico de iniciativa governamental (cf. Florida e Feldman,    1988). </p>     <p> A materialização física da habitação enquanto produto do trabalho representa    , no entanto, apenas uma pequena dimensão do seu significado para a circulação    de capital. Retomando a nossa imagem inicial deste processo, verificamos que    parte do valor que se obtém através da venda de produtos e serviços é devolvido    à produção. Mas nem todo. E, mesmo nos casos em que isso acontece, o valor não    fica imediatamente disponível para utilização. O valor, no capitalismo, também    tem de ser armazenado. E apesar do dinheiro, enquanto numerário, ser um veículo    para esse armazenamento, não é o único. A habitação é outro veículo de armazenamento    de capital. Ao contrário da maioria dos bens de consumo mercantis, pode valer    a pena investir não apenas na produção mas também na propriedade da habitação.    Enquanto o valor de mercado de um automóvel ou de um computador diminui automaticamente    com a sua aquisição (mesmo não sendo utilizado), o preço de mercado de uma casa    tende a manter-se estável ou a valorizar, independentemente do uso da casa,    em grande medida porque o preço do terreno que lhe subjaz não decresce com o    tempo. Esta realidade elementar – do papel da habitação associada ao terreno    como reserva de valor – tem enorme significado no conceito de circulação de    capital do mundo contemporâneo. </p>     <p> Antes de mais, consideremos a este propósito, como a própria habitação circula.    Compramos e vendemos uns aos outros. Fazemo-lo, por vezes, porque preferimos    o &ldquo;valor de uso&rdquo; de uma dada casa em detrimento do de outra. Mas podemos também    fazê-lo parcial ou exclusivamente para explorar o &ldquo;valor de troca&rdquo; da habitação,    o qual deriva do facto de haver valor armazenado na habitação associada ao terreno.    Ou seja, uma forma de obter lucro através da propriedade de habitação é vendê-la    por um preço superior àquele por que foi adquirida, tal como é possível fazer    com acções ou com obras de arte, por exemplo. A propriedade com o objectivo    de vender um produto por um preço mais elevado é referida pelos economistas    como &ldquo;especulação&rdquo;. A especulação imobiliária assume diversas formas. Em primeiro    lugar, surge o proprietário que vive numa casa mas espera vendê-la por um preço    superior e adquirir uma casa melhor. Em segundo lugar, surge o especulador puro    que compra e vende casas sem equacionar ocupá-las ou arrendá-las a terceiros.    Em terceiro lugar, temos o especulador que tenta comprar num segmento de mercado    e vendê-lo a outro, isto é, especuladores que beneficiam, e muitas vezes contribuem    para a divisão socio-espacial dos mercados de habitação. Os &ldquo;Blockbusters&rdquo; no    contexto dos Estados Unidos da América são disso exemplo, demonstrando como    os correctores de imóveis se aproveitavam do receio dos proprietários brancos    virem a ter vizinhos negros e do impacto da sua presença nos preços da habitação,    levando os proprietários a vender por valores reduzidos &ldquo;enquanto conseguiam    fazê-lo&rdquo;, vendendo depois essas casas a preços mais elevados a aspirantes a    proprietários negros, muitas vezes excluídos da compra de propriedades noutros    bairros, dispostos a pagar esse extra (Gotham, 2002). Podemos também referir    os senhorios privados de propriedades desvalorizadas, que adquirem habitações    degradadas em bairros em declínio e começam por ganhar dinheiro aproveitando-se    da propriedade – limitando a manutenção e maximizando as rendas, muitas vezes    arrendando a pessoas sem escolha no mercado de habitação (por exemplo, migrantes    sem documentação) – e depois vendendo-a a um preço superior a senhorios ou empreiteiros    que se aproveitam do fenómeno da gentrificação ou de mudanças de zonamento,    com intenção de desocupar e renovar (ou desocupar, demolir e reconstruir) a    habitação, ou a agências governamentais envolvidas na renovação urbana e em    esquemas de revitalização (Aalbers, 2006). </p>     <p> Quer a habitação seja vendida pelo seu valor de uso ou de mercado, ou ambos,    a sua circulação é determinante para a circulação de capital, no sentido mais    lato acima apresentado. Por um lado, a compra e venda de habitação tem importantes    &ldquo;efeitos em cadeia&rdquo; relativos ao processo de produção no seio da circulação    de capital - tanto em relação à produção de habitação <i>per se</i>, como à    produção de outros bens e serviços. No primeiro caso, ressalta que a circulação    da habitação existente, na maioria dos mercados, também determina os preços    da nova construção, calibrando o valor e a mais-valia que pode ser gerada na    produção de habitação [<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>]. No    segundo caso, a questão central consiste no nas indústrias subsidiárias da habitação    incluírem não apenas os sectores produtivos atrás referidos, mas também sectores    relacionados sobretudo com a transacção de habitação: agentes imobiliários,    correctores e outros intermediários, todos eles dependentes da circulação de    habitação (Bourdieu, 2005). </p>     <p> Por outro lado, a compra e venda de habitação é muitas vezes essencial para    que o capital continue a circular. Um dos grandes contributos de Marx – e um    dos aspectos mais distintivos do seu trabalho em relação aos seus predecessores    &ldquo;burgueses&rdquo; – foi perceber que a circulação pode ser interrompida periodicamente    e por todo o tipo de motivos –. O fluxo de capital não costuma ser regular,    sendo frequentemente interrompido. A &ldquo;crise&rdquo; para Marx era – tal como para David    Harvey e, para muitos economistas keynesianos ainda mais – sobretudo uma questão    de bloqueios à circulação. Um desses bloqueios prende-se com a chamada &ldquo;procura    efectiva&rdquo; e é neste contexto que as transacções de habitação são particularmente    relevantes. Um problema óbvio que o capitalismo pode enfrentar é que, simplesmente    não há procura suficiente no mercado para os bens e serviços produzidos, ou    que é possível produzir. Se os indivíduos não têm condições para comprar ou    se optarem por acumular poupanças em vez de aumentar o consumo, a circulação    é suspensa: não se obtêm mais-valias, não sendo as mesmas reinvestidas; e se    não há mais-valias, os investidores deixam rapidamente de produzir. Isto é chamado    de crise da &ldquo;procura efectiva&rdquo;. Como é que a habitação se encaixa neste caso?    A habitação, enquanto reserva de valor transacionável, fornece meios de financiamento    à procura efectiva quando as restantes fontes se esgotam. Se o mercado de habitação    flutuante sofrer uma subida de preços, a procura de produtos e serviços tende    a aumentar. A verdade é que algumas pessoas são, efectivamente, mais ricas –    aqueles que vendem em alta, com lucro. Mas mesmo aqueles que não vêem os seus    ganhos concretizados através da venda podem sentir um acréscimo de prosperidade    e gastar de acordo com isso – por vezes concretizando os ganhos nominais através    da libertação de capital, ou seja, libertando verba ao contrair mais dívida    hipotecária (Wood et al., 2013). </p>     <p> Crouch (2011) e Watson (2010) debatem esta dinâmica em termos de uma política    governamental explícita que designaram, respectivamente, por &ldquo;keynesianismo    privatizado&rdquo; e &ldquo;keynesianismo do preço da habitação&rdquo;, em que as famílias , e    não o próprio governo, são incentivadas a contrair dívida para estimular a economia,    ao abrigo dos &ldquo;efeitos da riqueza&rdquo;. O keynesianismo privatizado ou do preço    da habitação é aqui entendido como forma de alimentar a economia impulsionando    o consumo e &ldquo;compensando&rdquo; o valor do trabalho por décadas de crescimento diminuto    ou mesmo negativo. Daqui resultou que, em muitos países, a dívida hipotecária    aumentou muito mais depressa do que a taxa de aquisição de imóveis, ou até mesmo    do que os preços da habitação (Stephens, 2003; Aalbers, 2008). Isto tem enormes    implicações no modo como entendemos o impulso da circulação de capital. No Reino    Unido, por exemplo, cerca de dois terços de todos os empréstimos bancários em    2009 foram para crédito à habitação (Turner, 2013). Ao lubrificarem a circulação    já existente através da concessão de crédito, os bancos do Reino Unido substituíram    progressivamente o lado da oferta (i.e., empréstimo às empresas) por estímulos    ao lado da procura, com particular incidência sobre a dívida de crédito à habitação    [<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>]. Além disso, o recente aumento    da aquisição de habitação própria estendeu-se a agregados mais vulneráveis e    em situações laborais mais inseguras na sequência da reestruturação económica    e laboral do mercado (Ford, Burrows e Nettleton, 2001; Doling e Ford, 2003;    Smith, Searle, e Cook, 2009). Estes agregados foram confrontados com inflação    mais baixa e, logo, menos &ldquo;efeitos da riqueza&rdquo;, com um impacto proporcionalmente    menor em termos de vantagem do lado da procura – sobretudo tendo em conta que    estes agregados não dispunham de margem de segurança para compensar o decréscimo    sucessivo dos preços.[<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6">6</a>]</p>     <p> Efectivamente, muitas economias ocidentais tornaram-se tão dependentes dos    elevados (e crescentes) custos da habitação que parece difícil, tanto para os    governos como para os agregados, lidar com uma situação de descida de preços,    que é vista como uma redução das perspectivas económicas dos indivíduos e, logo,    como uma influência negativa na economia. Assim, apesar da descida do preço    da habitação poder significar maior acessibilidade à habitação, a ideia de que    &ldquo;o aumento do preço da habitação é bom&rdquo; continua enraizada, suportada pela pressão    que o eleitorado proprietário e o <i>lobby</i> do mercado da habitação exercem    para proteger os preços de uma descida. Mesmo em tempos de austeridade, o sector    da habitação ainda é visto como um veículo essencial para a promoção do crescimento    económico, para além das fronteiras dos próprios mercados da habitação (Forrest    e Yip, 2011). Por vezes, o pensamento dominante parece ser: se as pessoas acreditassem    que o preço das suas casas ainda iria subir novamente, começariam a gastar mais,    pondo em marcha a economia. Não é relevante se isso se verifica ou não; o simples    facto de as instituições do Estado agirem com base nesta crença promovendo a    circulação da habitação – e baixando temporariamente o imposto de selo, por    exemplo - significa que o efeito desse pensamento no sector da habitação, e    na economia em geral, é autêntico. </p>     <p> Se as actividades de compra e venda de habitação conseguem mitigar o problema    da procura efectiva reactivando a circulação de capital, a habitação também    constitui parte da &ldquo;solução&rdquo; para outros problemas importantes de circulação    de capital. O mais importante é o da &ldquo;sobreacumulação&rdquo;. Enquanto a falta de    procura efectiva representa produção excedentária de bens e serviços em relação    à procura, a sobreacumulação – que pode estar associada a problemas na procura,    mas não obrigatoriamente – implica a produção excessiva de valor agregado em    relação a oportunidades lucrativas de reinvestimento. Representa, portanto,    uma outra forma de suspender a circulação: se os investidores sentirem que não    conseguem lucrar com o reinvestimento da riqueza na produção de novos produtos    e serviços, optam por acumular a riqueza, o que tanto ameaça o crescimento económico    como o emprego. </p>     <p> A habitação também ajuda a evitar tendências para a crise, embora seja a produção    de habitação e não a sua transacção que contribui para tal. Como? O trabalho    de Harvey (1985) é particularmente útil neste ponto. Segundo ele, a mais-valia    é não só gerada através da produção de habitação, como a mais-valia gerada noutros    sectores económicos é também injectada no sector da habitação através de um    processo que designa por &ldquo;substituição de capital&rdquo;. O conceito de substituição    de capital, com base nos fundamentos keynesianos, tem de ser compreendido no    âmbito da argumentação geral de Harvey (1982), sublinhando que as instituições    financeiras consideram que o ambiente construído – que inclui, mas não se limita    à habitação – é um recurso em que é possível investir/desinvestir capital consoante    a maior e melhor utilização. Enquanto o &ldquo;circuito de capital&rdquo; genérico que acima    apresentámos (circulando em torno da produção de bens e serviços) corresponde    ao circuito de capital &ldquo;primário&rdquo;, Harvey sugere que podemos pensar em produção    e reprodução específicas do ambiente construído, incluindo a habitação enquanto    circuito de capital &ldquo;secundário&rdquo;. É evidente que este tipo de produção gera    mais-valias <i>sui generis</i> uma vez que põe o enfoque no trabalho. Contudo,    segundo Harvey, faz mais do que isso, funciona como tanque de transbordo para    onde a produção excedentária (i.e., sobreacumulada) de capital pode ser substituída    – e, posteriormente, depositada até que as condições de sobreacumulação se encontrem    atenuadas – quando os investidores se vêem impossibilitados de reinvestir de    forma lucrativa no circuito primário. Em suma, os investidores reagem a sinais    de sobreacumulação e procuram evitar uma crise no circuito primário investindo    no circuito secundário – apesar de acabarem por sobre-investir também na construção    (Harvey, 1985). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> A noção de substituição de capital de Harvey pode parecer desajustadamente    estrutural e abstracta, mas se observarmos as crises habitacionais concretas,    é fácil perceber como muitas delas foram causadas por sobreinvestimento nos    anos anteriores ao <i>boom</i> da habitação. Os períodos de crescimento explosivo,    tal como os períodos de quebra nos ciclos de habitação, surgem no contexto da    esfera político-económica mais vasta. Isto acontece não só porque a mais-valia    é retirada de outros sectores da economia, mas também porque isso é politicamente    incentivado. A deflação da bolha tecnológica e a inflação da bolha imobiliária    estão empírica e analiticamente relacionadas, o que constitui um exemplo claro    da substituição de capital para o circuito secundário (Ashton, 2009; Gotham,    2009; Christophers, 2011). Mas a substituição de capital também foi facilitada    pelo Estado: a disseminação da titularização do crédito imobiliário, por exemplo,    tornou-se possível com a adaptação de enquadramentos legais existentes para    financiamento habitacional às necessidades dos credores e dos bancos de investimento    que pretendiam expandir o mercado de crédito secundário para libertar capital    para outras áreas. Ou seja, para permitir a substituição de capital para dentro    e para fora do domínio da habitação (Aalbers, 2008; Gotham, 2009). Exemplos    semelhantes aconteceram com a crise do <i>subprime</i> e do crédito predatório    nos EUA (Wyly et al., 2009), a desmutualização das sociedades construtoras no    Reino Unido (Martin e Turner, 2000) e na Irlanda (Murphy, 1995) e o alargamento    do crédito à habitação a instituições de crédito ao consumo num conjunto alargado    de países (Dymski, 1999). </p>     <p>&nbsp; </p>     <p> <font size="3"><b>3. A Habitação e as Relações Sociais do Capital</b></font>  </p>     <p> Para Marx, o capital era uma relação social e um processo de circulação. Essa    relação social, tal como ele a preconizava era, antes de mais, dualista e antagónica:    os detentores do capital (proprietários dos meios de produção) de um lado e    os trabalhadores do outro.. Hoje em dia, num momento em que a habitação é tantas    vezes discutida a partir dos conceitos abstractos e despersonalizados da &ldquo;troca&rdquo;,    o enquadramento implicitamente socializado de Marx da economia política mantém-se    tão essencial como sempre foi, ainda que esta imagem dualista deva ser revisitada.    O capital é constituído por relações sociais e a habitação, segundo a nossa    perspectiva, está envolvida de forma múltipla nas configurações e dinâmicas    dessas relações. Conceber a habitação apenas como mercadoria é cair exactamente    no tipo de fetichismo que Marx atacou e segundo o qual as relações entre as    pessoas – as pessoas que constroem, detêm, arrendam e vivem nas habitações –    são reduzidas a um estatuto política e analiticamente destituído, próprio das    relações entre coisas. </p>     <p> Como começar então a estabelecer de forma sistemática o conceito de habitação    e de capital enquanto relação social para além de Marx? Um ponto de partida    lógico é a manifestação das próprias relações sociais desequilibradas resultantes    das desigualdades de riqueza geradas pelo capital. Como vimos, na circulação    de capital o valor é acumulado, distribuído e armazenado sob a forma que designamos    por &ldquo;riqueza&rdquo;. Essa riqueza assume diversos formatos, entre eles o numerário    e os valores mobiliários (muitas vezes mantidos em pensões). Mas tem especial    significado o facto de em muitas sociedades capitalistas ser a propriedade residencial    o principal tipo de riqueza/bem individual, não obstante verificar-se mesmo    tempo que muitas - em alguns países, a maioria - famílias não são detentoras    de qualquer tipo de propriedade residencial. Desta forma, é na habitação que    se tornam mais visíveis e materializáveis as grandes desigualdades das sociedades    capitalistas de que tanto ouvimos falar na actualidade. Por outras palavras,    as relações sociais e suas dissonâncias estão amplamente registadas na paisagem    física da habitação. A habitação, não apenas devido a expressões territoriais    típicas de desigualdade em vilas e cidades segregadas, é claramente representativa    da produção capitalista dos que têm– estritamente em termos de posse de riqueza    – e dos que não têm (Wilson, 1987; Massey e Denton, 1992; Van Kempen e Özüeken,    1998). Estes últimos assumem diversas formas, é claro, entre elas os residentes    em favelas, sendo a maioria (senão todos) arrendatários e aqueles para quem    a &ldquo;propriedade&rdquo; de habitação tem menos significado prático do que conceptual,    quer porque as suas casas têm um valor de uso e de troca reduzido, quer porque    o credor hipotecário é o proprietário efectivo. Mas existem duas outras categorias    dos que &ldquo;não têm&rdquo; particularmente ilustrativas da forma como a habitação reproduz    relações sociais de desigualdade. Uma é os sem-abrigo (cf. Somerville, 1992;    Fitzpatrick, 2005); a outra é o crescente exército de serviçais domésticos internos,    não apenas nas cidades do Sul Global mas cada vez mais em cidades como Londres    e Nova Iorque (Jelin, 1977; Sassen, 1996; Lutz, 2002), uma classe cuja rematerialização    remete para a era Vitoriana e para o período colonial, com as suas próprias    desigualdades sociais acentuadas (Hecht, 1981; Higgs, 1983). Estas pessoas não    conseguem, em geral, suportar os custos da sua própria habitação, sendo obrigados    a servir nas casas e nas vidas daqueles que podem, erguendo-se também no espaço    físico e social da casa a divisória social que os separa. </p>     <p> Da mesma forma que a habitação claramente cristaliza as &ldquo;deslocalizações&rdquo;    das relações sociais, também reproduz e reforça essas perturbações no sentido    explícito de <i>deslocalização</i> espacial. A má localização da habitação pode,    por exemplo, aumentar o tempo de deslocação casa-trabalho e prejudicar o acesso    a boas escolas, a melhor ambiente, a transportes e a um leque de outros serviços,    espaços comerciais e de lazer, entre outros. Pode ainda aumentar a exposição    ao crime, à poluição ambiental, a inundações e a uma série de outros problemas.    A literatura sobre os chamados &ldquo;efeitos de vizinhança&rdquo; tem evidenciado repetidamente    esta questão (cf. Briggs, 1997; Friedrichs, Galster e Musterd, 2003; Van Ham    et al., 2011), embora sem reconhecer suficientemente que as relações espaciais    da habitação não são constitutivas num sentido socialmente abstracto, mas são    elas próprias e em todas as circunstâncias, o resultado de processos sociais    condicionados por questões de poder (Aalbers, 2011; Slater, 2013). A localização    da habitação influencia não só o seu valor de uso mas também o seu valor de    troca - ou seja, o cenário geofísico da habitação funciona e afecta tanto as    relações sociais do capital, como os processos de circulação de capital abordados    na secção anterior. </p>     <p> Entretanto, as desigualdades sociais manifestadas através da posse de património    imobiliário podem revelar-se potencialmente problemáticas para o capital. Em    parte, por motivos mencionados anteriormente e relacionados com problemas de    realização e de procura efectiva (quanto mais desigual é a propriedade, mais    o &ldquo;keynesianismo do preço da habitação&rdquo; depende da procura por uma minoria privilegiada).    Mas é igualmente problemático porque, <i>ceteris paribus</i>, a propriedade    correlaciona-se com o acesso e o custo da mesma, sendo o acesso comportável    à habitação uma condição <i>sine qua non</i> da própria reprodução do capitalismo    e das suas relações sociais. Sem a saudável reprodução social do trabalho, a    circulação fica suspensa. </p>     <p> Em suma, a habitação é central à reprodução social e não apenas porque é na    esfera doméstica que muito do trabalho de reprodução social ocorre. O – literal    -imperativo vital que a habitação representa para a reprodução social ajuda    a explicar, em parte, a persistência e o peso do discurso acerca do &ldquo;direito&rdquo;    à habitação, por oposição ao &ldquo;direito&rdquo; de compra e venda (Lefebvre, 1996; Bengtsson,    2002; Rolnik, 2013; Aalbers e Gibb, 2014). Além disso, a questão da reprodução    social e sua viabilidade também se relaciona com a habitação de uma forma que    evidencia uma questão socio-relacional que sobressai na discussão da habitação    de feição capitalista: a do conflito social. Em última análise, há certamente    tanta desigualdade enraizada, nomeadamente em diferentes níveis de riqueza habitacional,    que os não-ricos da sociedade vão tolerar e, ao mesmo tempo contribuir para    a circulação e reprodução do capital. Tudo isto ajuda a explicar um outro aspecto    crucial do papel da habitação na negociação das relações sociais do capital.    Dada a importância da habitação para a reprodução social e ( portanto) económica,    os Estados intervencionistas recorreram muitas vezes ao aprovisionamento habitacional,    quer sob a forma de propriedade física subsidiada, quer através de alguns tipos    de &ldquo;benefícios&rdquo; enquanto componentes dos seus programas redistributivos. Estes    programas visam, assumidamente, reequilibrar e redistribuir – ainda que modestamente    - as relações sociais enviesadas endémicas ao capital e por ele intensificadas    (e cristalizadas, é claro no desigual acesso à habitação e à sua posse); e fazendo    isto eles visam igualmente, de forma mais ou menos explícita, suavizar a reprodução    social. Existem aqui algumas semelhanças com os métodos e objectivos dos &ldquo;capitalistas    do bem-estar&rdquo; do sector privado do final do século XIX e início do XX, que providenciavam    habitação aos respectivos trabalhadores. Também eles estavam cientes de que    o capital estaria em risco se a riqueza não fosse redistribuída deste modo.    Engels desconfiava deste tipo de assistência - por reter os trabalhadores e    travar uma mobilidade que podia servir como poder negocial - mas reconhecia    os propósitos produtivos (para o capital) que ela servia. </p>     <p> Pensar na habitação apenas como reserva de riqueza, como pré-requisito de    reprodução e ferramenta de redistribuição equivale a ignorar que a exploração    social ocorre também na habitação. Foi demonstrado que essa exploração centrada    na habitação ocorre de diversas formas: nas infames práticas de exclusão no    acesso ao crédito para habitação (Harvey e Chatterjee, 1974; Jackson, 1985;    Squires, 1992; Aalbers, 2011); na distribuição não equitativa das empresas públicas    de habitação e outros <i>gatekeepers</i> urbanos (Pahl, 1975; Pearce, 1979;    Henderson e Karn, 1984); nos empréstimos predatórios e execuções hipotecárias    resultantes da crise do <i>subprime</i> (Squires, 2004; Immergluck, 2009; Saegert,    Fields e Libman 2009; Wyly et al., 2009); na falta de direitos ou conhecimento    dos migrantes, legais e ilegais, em habitações precárias e de custo elevado,    tanto nos sectores de habitação própria (&ldquo;compradores de emergência&rdquo;) como nos    de arrendamento (Teijmant e Schepens, 1981; Karn, Kemeny e Williams, 1985; Aalbers,    2006); no aparecimento da classe de serviçais domésticos já referida (Hecht,    1981; Lutz, 2002); nas expropriações fabricadas pelos arquitectos da gentrificação    urbana (Smith, 1979; Marcuse, 1985; Lees, Slater e Wyly, 2008); e nos despejos    efectuados (Desmond, 2012) e no monopólio de rendas exorbitantes cobradas por    proprietários privados (Berry, 1981; Harvey, 1985; López-Morales, 2011; Fields    2015).O facto de o aluguer de propriedade privada poder ter um carácter explorador    devido às suas características frequentemente monopolistas explica, em parte,    o esforço recorrente do Estado para controlar os preços de arrendamento residencial.    O aluguer é uma relação social contractual; a regulação e o controle de aluguéis    , que podem assumir diversas configurações, constituem, por isso, outra ferramenta    indirecta de redistribuição, em contextos em que a habitação é vista como facilitadora    da deslocalização de tais relações. Em determinados momentos, alguns estados    – muitas vezes em articulação com o controle directo sobre a expansão do parque    habitacional local – regulamentaram o sector de arrendamento privado (e os preços    do aluguer em particular), levando os senhorios a optar por saírem do negócio    da habitação devido ao escasso lucro e conduzindo ao declínio do mercado de    arrendamento privado (Harloe, 1985). </p>     <p> Embora o sector de arrendamento privado possa ser vulnerável à exploração,    sobretudo na ausência de protecção aos inquilinos, também pode ser visto como    uma parte crucial do parque habitacional que potencialmente oferece maior flexibilidade    aos inquilinos nas situações em que tanto o arrendamento de habitação social    como a aquisição são inacessíveis ou pouco atractivas – quer devido à existência    de listas de espera, insuficiência de rendimentos, exigências no crédito à habitação,    restrições de cidadania ou indisponibilidade para investir a longo prazo. Trata-se    de um sector que desafia a ampla generalização (Allen e McDowell, 1989). Os    mercados de arrendamento privado são, muitas vezes, o único segmento acessível    ao grosso dos recém-chegados ao mercado da habitação, incluindo migrantes e    imigrantes, jovens, ex-presidiários, entre outros. Na Alemanha, por exemplo,    tem-se demonstrado que a existência de um mercado de arrendamento privado -    com rendas e outras variáveis devidamente reguladas - pode ser lucrativo para    os proprietários, ao mesmo tempo que garante a redução da exploração dos inquilinos    (Kleinman, 1996). No entanto, as reformas neoliberais orientadas para o mercado    que se fizeram sentir nos países capitalistas nas últimas décadas levaram à    eliminação da regulação do arrendamento em muitos países, dando rédea solta    aos mercados &ldquo;livres&rdquo; nos quais, num paradoxo aparente, os preços monopolistas    conseguem prosperar. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> É legítimo questionar se o termo &ldquo;exploração&rdquo; é o mais correcto nesta perspectiva.    Engels acreditava que não. No seu entender, o proprietário-senhorio simplesmente    &ldquo;enganava&rdquo; o trabalhador (e inquilino); apenas o capitalista fabril &ldquo;explorava&rdquo;    o trabalhador, roubando-lhe tempo de trabalho não pago. Este foi um dos principais    motivos para que Engels considerasse a questão da habitação como apenas um &ldquo;mal&rdquo;    secundário. Tal como ele a via, tornava-se inútil lutar para abolir tais males    – como defendeu o Proudhon– enquanto se mantivesse o modo de produção capitalista    que lhes estava na origem. Segundo Engels, eliminar os juros sobre as hipotecas    serviria apenas para dar vantagem ao capitalista industrial face ao senhorio,    não ao trabalhador face ao capitalista industrial. Também não se trata de uma    questão de semântica: a exploração, tanto para Engels como para Marx, só poderia    ocorrer na produção, porque era apenas na produção que valor era gerado, e não    na troca ou no circuito secundário do capital. </p>     <p> Estas questões ajudam a enquadrar aquilo que veio a tornar-se, nas décadas    de 1970 e 1980, num aceso e influente debate sobre a relação entre a habitação    e a dimensão específica da diferença social enfatizada por Marx e Engels: a    questão da classe. De um lado, os marxistas insistiam que a posição ocupada    por alguém no mercado imobiliário resulta da sua posição no mercado de trabalho,    ou seja, a classe social determina a situação em termos de habitação (Ball,    1986; Barlow e Duncan, 1988). Do outro lado, os weberianos sustentavam ser esta    uma leitura redutora e que desvalorizava a capacidade de a habitação moldar,    e não apenas cristalizar, as relações sociais. Em vez disso, eles sugeriam a    possibilidade de a posição social derivar antes da posição habitacional, ou    seja, do posicionamento no mercado de habitação a determinar a classe social    (Rex e Moore, 1967; Pahl 1975; Saunders, 1984). Por exemplo, Pahl (1975), argumentou    que os ganhos de capital resultantes da habitação iriam atenuar as desigualdades    resultantes do mercado de trabalho e criar uma divisão entre proprietários e    arrendatários. Saunders (1984) levou a perspectiva weberiana mais longe, afirmando    que o mercado da habitação gera uma nova divisão de classes. Com o tempo, surgiu    uma perspectiva mais equilibrada das chamadas &ldquo;classes habitacionais&rdquo;: Murie    e Forrest (2001), por exemplo, que apontam para uma reciprocidade fundamental:    a situação habitacional é dependente da classe (mercado de trabalho), mas a    própria habitação também transforma esta divisão de classes. </p>     <p> Aquilo que é claro, e essencial, é que estas relações sociais segmentadas    e o papel da habitação na sua criação/reprodução, não podem reduzir-se apenas    às dimensões de classe. A raça/etnia e género cruzam-se com a questão da classe    de forma evidente e nas formas mais variadas e complexas, criando o variado    panorama de diferenças sociais e de desigualdade que associamos às sociedades    capitalistas. É evidente que os cientistas sociais têm demonstrado a produção    destes cruzamentos de forma muito mais ampla, não se restringindo apenas à habitação.    Porém a relação íntima que a habitação tem com o que conscientemente referimos    aqui como processos de exploração aparenta ser particularmente emblemática deste    tipo de cruzamentos. Mais do que em qualquer outro caso, isso tornou-se evidente    na crise financeira recente e no seu epicentro, o <i>subprime</i>, situação    em que a raça/etnia e género estiveram intrinsecamente ligadas à classe social    nas situações predatórias sistematicamente desiguais de financiamento e execução    hipotecária (Squires, 2004; Wyly et al., 2009; Aalbers, 2012; Ashton, 2012;    Roberts, 2013). </p>     <p> Em suma, sabemos, e a economia política é forçada a reconhecê-lo, que a habitação    é cenário privilegiado para o exacerbar da desigualdade social de origem múltipla.    Encerrando esta secção, apontamos para um eixo que é palco destas desigualdades    e que ainda não foi abordado: o eixo geracional. Esta questão é complicada porque    deve ser analisada a partir de mais do que uma perspectiva. A desigualdade entre    gerações é certamente uma delas: com a desregulação generalizada dos mercados    imobiliários e financeiros, que nas últimas décadas estimularam a ocupação pelos    proprietários e o enorme aumento do preço real da habitação em grande parte    do mundo capitalista as gerações mais velhas concentraram, inevitavelmente,    a sua riqueza na posse habitacional, tirando daí um benefício desproporcional.    Contudo, as desigualdades no seio destas gerações mais velhas também são importantes,    uma vez que não desaparecem com elas – através de vários mecanismos de herança    pré e pós-óbito, as desigualdades são transmitidas aos descendentes (Allen et    al., 2004; Helderman e Mulder, 2007), e são amplificadas à medida que cresce    o fosso entre os beneficiários da riqueza habitacional e aqueles que não conseguem    ter acesso à mesma, sobretudo nesta fase, em que o acesso ao crédito à habitação    pós-crise diminuiu, aumentando a dependência sobre a transferência de riqueza    intergeracional (Forrest e Yip, 2011). Igualmente significativo é o facto de    estas relações sociais fracturantes estarem a ser transmitidas a uma geração    que, aparentemente, está muito mais obcecada do que qualquer outra anterior    com a ideologia da casa própria. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>4. A Habitação e a Ideologia do Capital</b></font> </p>     <p> Na mesma medida em que é um processo e uma constelação de relações sociais,    o capital é claramente uma instituição ideológica. De acordo com as imagens    feitas por críticos e defensores ao longo de mais de dois séculos, esta instituição    ideológica tem três componentes críticas. A primeira é a centralidade absoluta    da propriedade privada, sendo o monopólio da mesma, segundo Harvey (2002: 97),    &ldquo;quer o início, quer o fim de toda a actividade capitalista&rdquo;. A segunda é a    primazia dos mercados, caracterizada pela &ldquo;livre&rdquo; concorrência enquanto mecanismo    preferencial na distribuição de recursos. E a terceira é o imperativo da acumulação    da riqueza. &ldquo;Acumulai, acumulai! Eis Moisés e os profetas!&rdquo;, como Marx afirmou    acerca da ideologia capitalista no primeiro volume de O <i>Capital</i>. O argumento    que iremos desenvolver nesta secção é o de que a habitação é fundamental para    esta ideologia, pelo menos por duas razões. Primeiro, porque a ideologia em    questão é indiscutivelmente mais explícita e pronunciada na habitação do que    em qualquer outro domínio. Ou seja, a ideologia da habitação é a epítome da    ideologia capitalista alargada, tendo em conta que a propriedade privada, os    mecanismos de distribuição do mercado e as estratégias de acumulação são especialmente    privilegiados. Em segundo lugar, porque a habitação não só simboliza, como também    reforça essa ideologia capitalista mais ampla: é na e através da habitação que    tem lugar muito do trabalho político de reprodução e reforço da ideologia do    capital. A propriedade privada é uma instituição ideológica que é mais dominante    e absoluta no capitalismo, mas que também existe em muitas outras configurações    de Estado/mercado. A propriedade privada não é verdadeiramente &ldquo;privada&rdquo;, porque    está protegida pelo Estado e porque confere um poder muito público sobre os    recursos e outros bens (Gray, 1992: 304). Efectivamente, os direitos de propriedade    privada pressupõem a existência de estados, sendo apresentados como naturais    e normais, apesar de serem virtualmente insignificantes se não validados pelo    aparelho estatal, pela via legal ou pelo monopólio do Estado sobre a violência.    Nos estados &ldquo;pré-modernos&rdquo;, o Estado e os proprietários poderosos faziam valer-se    sobretudo do monopólio da violência, mas nas sociedades capitalistas a lei é    a instituição soberana por excelência no que se refere à incorporação da ideologia    dos direitos de propriedade privada nas relações sociais mais amplas. Nos casos    em que a instituição da lei se revela insuficiente para impor os direitos de    propriedade privada, os detentores de propriedade tenderão a mobilizar o monopólio    estatal da violência, como exemplificam os casos de despejo de ocupantes ilegais.    Mais do que uma questão de poder sobre um objecto, a propriedade privada refere-se    sobretudo à capacidade de excluir o acesso de terceiros ao seu uso (Davies,    2007). </p>     <p> Apesar de parecer distante o tempo em que a terra e a propriedade eram <i>condicio    sine qua non</i> à participação política formal, em muitos lugares do mundo    as comunidades ainda são, ou novamente, efectivamente governadas por associações    de proprietários e outras configurações privadas de governo baseadas na propriedade    de habitação (McKenzie, 1994; Atkinson e Blandy, 2005). Neste sentido, a propriedade    privada não é apenas uma questão de poder sobre um objecto ou a capacidade de    excluir o acesso de terceiros ao mesmo; está também relacionada directamente    com a participação política. Mesmo nos dias de hoje, a aquisição de habitação    confere em alguns casos direitos de cidadania. Recentemente, Espanha tem despertado    atenções por tentar rejuvenescer o seu mercado imobiliário através da oferta    de uma segunda cidadania a quem adquire propriedade de valor superior a €160.000.    Mais longe dos holofotes, algumas dezenas de países tão diversos como a Letónia,    a República Checa, a Áustria, o Panamá, as Bahamas, St. Kitts e Nevis (cf. Grabar,    2012), e de certo modo também os EUA (O&rsquo;Toole, 2012), têm tido um programa ou    política do tipo &ldquo;cidadania-por-investimento&rdquo;. A ideia - e, para alguns filósofos    e criadores de políticas públicas, o ideal – de uma democracia capitalista baseada    na propriedade (Rawls, 1971; Daunton, 1987; O&rsquo;Neill e Williamson, 2012) não    é apenas um artefacto histórico, mas também prática corrente em alguns países.  </p>     <p> A propriedade privada, enquanto artefacto material e ideologia, tem sido contestada    e está no topo de batalhas ideológicas no seio do capitalismo, como ilustram    os movimentos sociais ligados à ocupação ilegal e ao direito à habitação, por    exemplo. Além disso, os debates sobre a privatização, a neoliberalização e a    financeirização da habitação estão no cerne das discussões sobre a ideologia    e prática capitalista, de um modo geral (Aalbers, 2008; Ronald, 2008; Saegert,    Fields e Libman, 2009; Rolnik, 2013). Há vários motivos para isso e um deles    é o facto de a habitação estar directamente ligada a cada indivíduo, família    e comunidade, bem como no centro daquilo que os estados e os mercados, públicos    e privados, fazem, e do debate acerca do que devem fazer. Dado que as dicotomias    do Estado e do mercado, do público e do privado são, pela sua própria natureza,    problemáticas na esfera da habitação, esta constitui um contexto particularmente    convulsivo para o estudo da economia política dos capitalismos realmente existentes.    A fetichização da ideologia, não apenas da propriedade privada mas também da    acumulação de riqueza e dos mercados, tem um papel central no projecto político    de expansão da casa própria (Kemeny, 1981; Ronald e Elsinga, 2012), que caracterizou    a grande maioria dos estados capitalistas – recentes e antigos – do pós-Guerra,    sobretudo desde os anos 1980 e (nos antigos estados socialistas) 1990, com as    importantes excepções da Alemanha e da Suíça (Kleinman, 1996; Lawson, 2009).    As vantagens amplamente difundidas da propriedade - incluindo, mas não se limitando    aos chamados &ldquo;efeitos de riqueza&rdquo; (Case, Quigley e Shiller, 2001); a &ldquo;poupança-no-tijolo&rdquo;    para (e a redução de encargos durante) a reforma, com o respectivo corte nos    gastos públicos com os idosos (&ldquo;protecção social baseada em activos&rdquo;) (Regan    e Paxton, 2001); cidadãos &ldquo;melhores&rdquo;, mais envolvidos e capacitados (Rohe, Van    Zandt, e McCarthy, 2002), são genericamente características menos intrínsecas    à propriedade imobiliária do que consequências de um projecto político de incentivo    à casa própria em detrimento da posse de outros bens. Este não é apenas um projecto    político no sentido mais geral do político, mas também no sentido estrito do    que os políticos e os partidos políticos fazem. </p>     <p> Foi Engels quem advertiu contra o aburguesamento da classe trabalhadora, dado    que iria minimizar a sua autonomia, tornando-a dependente do rendimento do trabalho    e diminuindo assim a probabilidade de iniciar uma revolução. É precisamente    por este motivo que os políticos de diversos quadrantes promoveram o acesso    da classe trabalhadora à casa própria (muitas vezes em conjunto com a suburbanização):enquanto    bastião de luta contra o comunismo e a revolta, dando aos residentes da classe    trabalhadora uma participação no sistema, tornando-os dependentes do trabalho    assalariado e localizando-os mais longe dos centros urbanos de movimentos oposicionistas    .O alargamento do acesso à casa própria também pode erodir o apoio a vários    tipos de intervenção do Estado Social. Kemeny (1995) e Castles (1998) demonstraram    que a expansão da propriedade em países com mercados de arrendamento tradicionalmente    maiores e sistemas de pensões mais robustos, e muitas vezes com financiamento    público, tem sido acompanhada pelo enfraquecimento do apoio à intervenção do    Estado assistencial em geral, e dos sistemas públicos de pensões em particular.    Chamaram a este efeito a &ldquo;verdadeira grande concertação&rdquo; &ldquo;grande <i>trade-off</i>&rdquo;,    sugerindo que a situação habitacional das pessoas é crucial para o apoio ao    Estado-providência e, assim sendo, as políticas de habitação são fundamentais    para a economia política dos estados capitalistas avançados. O ideal político    de &ldquo;bem-estar baseado em activos&rdquo; - na realidade, a riqueza baseada em activos    habitacionais -, sugere sem dúvida - explícita ou implicitamente - que a redistribuição    do Estado pode diminuir se um maior número de agregados de baixo rendimento    corresponder a proprietários capazes de colher os enormes benefícios do acesso    à habitação própria (Rega e Paxton, 2001; Doling e Ronald, 2010).O fomento político    do acesso à habitação própria assume diversas configurações, mas talvez nenhuma    mais transparente do que as iniciativas de privatização habitacional – desde    o <i>Right-to-Buy</i>, no Reino Unido, e a privatização-habitacional-enquanto-amortecedor    em muitos antigos estados socialistas, até aos diversos esquemas de demolição    de -habitação-social-para substituir-por-habitação-privada difundidos nos países    capitalistas avançados (Clapham et al., 1996; Forrest e Murie,1998; Murie et    al., 2005). Estas políticas estão revestidas de uma linguagem assente na ideia    de &ldquo;devolver a propriedade ao mercado&rdquo;, apesar de, com a excepção da restituição    da propriedade privada que constituiu uma minoria das privatizações nos antigos    estados socialistas, a maioria destas propriedades não foi produzida enquanto    mercadoria, como bens para o mercado de troca. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Todos estes esquemas de privatização resultam de processos políticos e têm    consequências sociais e económicas, não só para os desalojados pela privatização    mas também para os novos proprietários – que são predominantemente de baixos    ou moderados rendimentos e quase nunca localizados de forma a beneficiar totalmente    da sua condição de proprietários, ou de suportar os custos de manutenção de    uma casa - bem como para os agentes imobiliários, credores hipotecários e outros    beneficiários do aumento da circulação no mercado imobiliário. A circulação    estimulada pela privação é, com efeito, uma questão fulcral, pois é na privatização    que podemos melhor testemunhar a indissolubilidade das três modalidades do capital    e do efeito de mediação exercido pela habitação: a privatização da habitação    reflecte e reproduz as ideologias do capital; aumenta a circulação do capital,    convertendo o capital público &ldquo;morto&rdquo; em privado e líquido; e, nesse processo,    representa uma reorganização explícita das relações sociais, um processo de    &ldquo;fechamento&rdquo; socioeconómico através do qual a acumulação privada e individualizada    é favorecida pela expropriação de recursos públicos (Hodkinson, 2012a). </p>     <p> Reconhecer este facto é compreender por que motivo a habitação é frequentemente    discutida em termos dos seus três grandes segmentos ou regimes de propriedade:    habitação própria, arrendamento público ou social e arrendamento privado. Como    nas sociedades capitalistas é a habitação própria que tem ganho destaque, quer    em termos ideológicos, quer económicos –através de benefícios fiscais, por exemplo    – os outros regimes de propriedade foram sendo ideológica e materialmente comprimidos,    mesmo em estados nominalmente sociais-democratas, onde a igualdade face à propriedade    tem sido anunciada enquanto filosofia política nuclear (Kemeny, 1981; Christophers,    2013). Com o capitalismo e as suas diferentes correntes, tais como o neoliberalismo,    o ordoliberalismo e o capitalismo do Estado-providência, as &ldquo;coisas&rdquo; tendem    cada vez mais a ser vistas como mercadorias, e esse é certamente o caso da habitação.  </p>     <p> As diferentes formas mercantilizadas da habitação - sobretudo a habitação    própria - tornam-se naturalizadas e normalizadas, enquanto que as formas não    mercantilizadas ou parcialmente mercantilizada de propriedade são alteradas    e desnormalizadas, apesar de todas as formas de habitação serem produto de um    contexto e de uma ideologia específica (Kemeny, 1981). O arrendamento social    é o mais &ldquo;anormal&rdquo; de todos, mas até o arrendamento privado tem vindo a desvalorizar-se    em termos ideológicos. De acordo com a crescente centralidade dos mecanismos    de distribuição do mercado na ideologia capitalista (neoliberal), o apetite    dos estados pelo uso da regulação do arrendamento enquanto forma de contornar    as forças do mercado no sector privado de arrendamento tem vindo a diminuir    (tal como observado na secção anterior) de forma acentuada em muitos países.    Embora as categorias de propriedade atrás mencionadas serem úteis para descrever    e analisar a habitação, essa distinção tripartida não é tão óbvia como parece    (Barlow e Duncan, 1988; Lee e Murie, 1999) e é, em si mesma, de pendor ideológico.    A habitação de arrendamento público e social inclui diversos tipos de habitação    geridos numa base sem fins lucrativos, tanto de propriedade de instituições    públicas como de organizações privadas sem fins lucrativos ou híbridas, que    recebem subsídios governamentais. Porém, nem toda a denominada habitação social    é construída com o apoio do Estado e uma grande parte da habitação que não é    classificada como pública ou social é construída com o apoio do Estado, ou gerida    numa base sem fins lucrativos, tal como a habitação propriedade de empresas    de desenvolvimento comunitário e associações mutualistas de habitação, nos EUA.    Acresce o facto de os inquilinos da habitação pública ou social não serem os    únicos destinatários dos subsídios do Estado, uma vez que muitos arrendatários    do mercado privado e indivíduos com habitação própria estão em situação semelhante.    No caso dos EUA, Wyly e DeFilippis (2010) até argumentaram que todas as habitações    e, em particular as que são ocupadas pelos proprietários, são habitações públicas,    uma vez que são apoiadas por fundos públicos, sobretudo na forma de dedução    fiscal dos juros hipotecários, dos quais beneficiam sobretudo os proprietários    mais abastados. Refira-se também o apoio fiscal do Estado e outros incentivos    às empresas de construção civil, que acentuam a dicotomia entre a habitação    pública e privada. </p>     <p> Foi nestes moldes que Singapura classificou a maior parte do seu parque habitacional:    como habitação social e ocupada pelo proprietário (Chua, 1997). Além dos limites    ténues em que se apoia, a segmentação convencional tripartida da habitação deve    também ser problematizada à luz da grande diversidade dentro de cada segmento    e os diferentes significados que cada segmento possui em diferentes lugares    (Ruonavaara, 1993). Em lugares onde a habitação de arrendamento público e social    é marginal, ela tende a ser mais marginalizada, empobrecida e estigmatizada    do que em países onde representa pelo menos um terço do parque habitacional.    Faz toda a diferença quando este segmento é visto como residual para os mais    pobres dos pobres, ou quando é um segmento para &ldquo;as massas&rdquo;, isto é, destinado    a pessoas em todas as circunstâncias de vida. Wacquant (2009) compara a habitação    pública às prisões, naquilo que é uma tese provocadora e difícil de extrapolar    além das fronteiras dos EUA. Afirma que, em ambos os casos, se trata de um sistema    penal em que os pobres são alojados nas piores condições e em que aqueles que    vivem em habitação pública se têm tornado cada vez mais candidatos a passar    pelo sistema prisional, sobretudo quando se trata de residentes do sexo masculino    e de um grupo étnico ou cor diferente dos grupos dominantes na sociedade. </p>     <p> A diversidade dentro do segmento ocupado pelo proprietário também é significativa    (cf. Hamnett, 1999). A distinção mais comum aqui apontada é entre a propriedade    imediata e a propriedade através do crédito à habitação. Tendo em conta a facilidade    de retoma da habitação pelos credores ( como se estivessem a resgatar o que    já era deles por direito) quando há pagamentos em atraso, faz todo o sentido    que muitos proprietários afirmem que estão a &ldquo;arrendar ao banco&rdquo;. É evidente    que as diferenças entre proprietários imediatos e entre proprietários-arrendatários    do banco também podem ser muito significativas. Muitos proprietários nas antigas    repúblicas socialistas receberam de forma gratuita as casas que antes arrendavam    ou puderam adquiri-las por um preço simbólico; ainda assim, muitas vezes adquiriam    propriedade em más condições ou para a qual não tinham capacidade de garantir    a manutenção; e por vezes não podem fazer obras estruturais de reparação, uma    vez que as suas propriedades estão inseridas em conjuntos habitacionais de média    e grande dimensão, com problemas estruturais que afectam todo o edifício (Murie    et al, 2005). De forma semelhante, alguns proprietários com crédito à habitação    têm valores mensais de pagamento do empréstimo e custos de manutenção acessíveis,    ao passo que outros estão vinculados a empréstimos (&ldquo;empréstimos predatórios&rdquo;,    designadamente) que não conseguem pagar (Squires, 2004; Wyly, 2009). </p>     <p> Por último, existem outros segmentos habitacionais para além dos três principais,    incluindo, mas não apenas (e frequentemente em sobreposição): a habitação gratuita    (geralmente disponibilizada por familiares); a habitação como parte de um contrato    de trabalho (incluindo os já referidos serviçais domésticos, bem como amas e    residentes em habitação fabril ou empresarial, mas também expatriados); segundas    habitações (que não são ocupadas pelos proprietários e que são, amiúde, terceiras    ou quartas habitações e assim por diante); ocupação ilegal (ou seja, habitação    ocupada por não-proprietários); subarrendamento (&ldquo;inquilinos de quarto&rdquo;, como    estudantes e outros jovens, bem como pessoas economicamente desfavorecidas e    migrantes)[<a name="top7" id="top7"></a><a href="#7">7</a>]; parques de caravanas    (mais de 10% da população em países como os EUA); uma série de configurações    de habitação institucional (presidiários, mas também muitos estudantes, população    sénior, pessoas com perturbações mentais e físicas, entre outras); e, claro,    os &ldquo;não-habitantes&rdquo;, ou seja, pessoas sem-abrigo, nem todos a dormir na rua    (ou, pelo menos, nem sempre) e muitos também integrando o grupo dos &ldquo;institucionalizados&rdquo;.    Em suma, as designações comummente aceites para os diferentes segmentos habitacionais    e diversos residentes espelham distinções socialmente construídas e profundas    entre &ldquo;os que têm&rdquo; e &ldquo;os que não têm&rdquo;, entre residentes (e trabalhadores) merecedores    e não merecedores, proprietários e sujeitos à propriedade, públicos e privados,    do Estado e do mercado. Todos estes conceitos estão ideologicamente carregados    e são política e economicamente reproduzidos, reflectindo e reincorporando a    ideologia e a economia política do capital. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>5. Conclusão: A Questão da Habitação Revisitada</b></font>  </p>     <p> Não obstante a nossa preocupação em formular neste artigo uma conceptualização    generalizável da habitação em economia política, estamos cientes de ter enfatizado    certas dinâmicas em prejuízo de outras. Tal facto parece-nos, contudo, inevitável.    Em vez de encarar estes desequilíbrios como algo de negativo, consideramos preferível    encará-los sob uma luz positiva e facilitadora : enquanto questões a serem mais    exploradas, em termos teóricos e empíricos, em relação ao enquadramento heurístico    provisório aqui desenvolvido. É importante também sublinhar que não apresentamos    a economia política enquanto método, mas antes como perspectiva necessária para    enquadrar, contextualizar e, em última análise, compreender o papel da habitação    na sociedade. Uma perspectiva político-económica pode ser mobilizada em articulação    com um vasto conjunto de métodos e modos de análise, tanto quantitativos como    qualitativos, quer do género empírico, quer mais hermenêutico e discursivo.    Uma abordagem político-económica aberta não privilegia determinados métodos;    mas impele o investigador a incorporar sempre os elementos empíricos, teóricos,    políticos e de mercado da habitação no seu contexto político-económico – para    não analisar a habitação isolada do seu contexto societal. </p>     <p> Os economistas políticos comparativistas, por exemplo, julgarão provavelmente    que prestámos pouca atenção ao Estado e ao seu papel na modelação de diversos    efeitos habitacionais em diferentes conjunturas político-económicas, históricas    e geográficas. Sem dúvida que procurámos demonstrar que, em relação a cada uma    das três &ldquo;modalidades&rdquo; de capital, o papel da habitação na economia política    mais ampla está muito ligado ao papel do Estado. Mas é claro que há uma grande    variação no modo como a habitação entra em cada economia política nacional (e,    em certa medida, local). A habitação é um elemento nuclear na configuração político-económica    nacional e local, o que implica que a habitação seja diferente em todo o lado,    dotada de diversos significados e implicações. Termos comuns como &ldquo;habitação    própria&rdquo; e &ldquo;habitação social&rdquo; podem até ter significados diversos em contextos    diferentes. Além disso, os estados podem estabelecer novas ligações, por vezes    inesperadas, entre as diversas modalidades (apoios sociais baseados em activos,    por exemplo). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> A nosso ver, contudo, tal não contradiz a pertinência genérica das modalidades    identificadas, mas antes aponta para a necessidade de reforçar o conteúdo do    enquadramento apresentado, designadamente através de estudos comparativos do    papel que a habitação desempenha em várias economias políticas, baseando-se    em estudos comparativos existentes que levaram em devida conta a habitação,    bem como uma ou mais modalidades de capital em causa (cf. Kemeny, 1981; Harloe,    1985; Allen et al., 2004; Lawson, 2006; Ronald, 2008; Schwartz e Seabrooke,    2009; Aalbers, 2011).Entretanto, os economistas políticos mais interessados    em mudar o mundo do que em interpretá-lo ficarão, sem dúvida, insatisfeitos    pela nossa diminuta discussão da habitação em termos de economias políticas    progressistas ou diferentes (inclusive não-capitalistas). Que alternativas existem    ao aprovisionamento mercantilizado de habitação de pendor capitalista? De que    modo podem ser desenvolvidas? E que tipo de reconfigurações político-económicas    de larga escala exigem? Apesar de não sermos ingénuos ao ponto de imaginar que,    ao &ldquo;resolver&rdquo; a questão da habitação estaremos a resolver os problemas gerais    do capitalismo – a fantasia proudhoniana que até Engels ridicularizou – insistimos,    ainda assim, que não é possível haver mudança socioeconómica progressiva com    impacto e sustentabilidade sem que a questão da habitação seja devidamente abordada    (cf. Turner, 1976; Ward, 2002; Harvey, 2012; Hodkinson, 2012b). </p>     <p> Acreditamos que uma hipótese particularmente aliciante em termos da figuração    da mudança político-económica é o enfoque crítico sobre as contradições da habitação    no âmbito do capitalismo e nos espaços de mudança que essas contradições podem    criar (Dymski, 2001; Harvey, 2014). A nosso ver, não é coincidência que Harvey    identifique a habitação como o principal <i>locus</i> das múltiplas contradições    do capitalismo. Não menos importante é a contradição entre o valor de uso e    o valor de troca da habitação, bem como as tensões que resultam de esperar e    encorajar o primeiro a ser entregue por um sistema que prioriza sistematicamente    o segundo (cf. Christophers, 2010).Mas a habitação manifesta e, efectivamente    cria muitas outras contradições. O enquadramento aqui desenvolvido pretende    ajudar a expor estas contradições à análise crítica. Isto é possível na medida    em que as diferentes modalidades de capital analisadas em relação à habitação    estão intimamente ligadas entre si (como fizemos notar em vários pontos, apesar    de os termos discutido, na maioria das vezes, de forma isolada). Acima de tudo,    estas modalidades dependem umas das outras para reforço mútuo: o capital não    poderia e não iria circular do mesmo modo se não existissem as ideologias distintivas    que o caracterizam. É precisamente na confluência destas modalidades - e a implicação    da habitação nas mesmas - que as contradições tendem a surgir. Fomos explicitamente    confrontados com uma delas: designadamente, o facto de as relações sociais desiguais    resultantes da circulação de capital e, expressas em riqueza habitacional, tenderem    a colocar em risco a reprodução social necessária à normal circulação do capital.    Existem, contudo, muitas outras contradições em termos do papel da habitação    na economia política contemporânea. Explorá-las e compreendê-las constitui um    passo fundamental na configuração de futuros (habitacionais) diferentes. </p>     <p> Encarar a habitação seriamente também implica trazê-la para o futuro da economia    política, não só em termos do estudo das instituições político-económicas, mas    também em termos das políticas e da política. Neste sentido, a nossa conceptualização    da habitação enquanto elemento nuclear da economia política apela também à reintegração    da habitação-enquanto-política com a habitação-enquanto-mercado. A habitação    tem um papel de tal modo vital nas economias políticas existentes, que já não    há justificação (se é que alguma vez houve) para que os economistas políticos    cedam a sua análise a economistas que ignoram ou reduzem a importância do poder,    da política e do Estado, ou numa esfera da habitação/política social à parte,    em que a economia política mais vasta é igualmente invisível. De modo semelhante,    os investigadores da área dos estudos da habitação também deveriam fazer um    esforço maior para conectar as suas análises e argumentos às questões da economia    política – não porque a economia política seja necessariamente a abordagem privilegiada    às questões habitacionais, mas porque a habitação não pode ser discutida de    forma adequada fora do contexto da sua economia política. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>Agradecimento</b></font> </p>     <p> Gostaríamos de agradecer a Phil Ashton, Mirjam Büdenbender, Rodrigo Fernandez,    Andrea Lagna e Tom Slater pelas leituras e comentários de uma versão anterior.    Os argumentos aqui desenvolvidos, sobretudo quaisquer falhas, são da nossa exclusiva    responsabilidade. O trabalho de Manuel Aalbers teve o Apoio do <i>European Research    Council</i> (bolsa n.º 313376). </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><b>References</b></font> </p>     <p> Aalbers, M. B. (2006) &ldquo;‘When the banks withdraw, slum landlords take over&rsquo;:    The structuration of neighbourhood decline through redlining, drug dealing,    speculation and immigrant exploitation.&rdquo; <i>Urban Studies 43</i> (7): 1061-1086.  </p>     <p> Aalbers, M. B. (2008) &ldquo;The financialization of home and the mortgage market    crisis.&rdquo; <i>Competition &amp; Change</i> 12 (2): 148-166. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Aalbers, M. B. (2011) <i>Place, Exclusion, and Mortgage Markets</i>. Wiley-Blackwell,    Oxford.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695052&pid=S2182-3030201900010001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Aalbers, M. B., (ed. 2012) <i>Subprime Cities: The Political Economy of Mortgage    Markets</i>. Oxford: Wiley-Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695054&pid=S2182-3030201900010001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Aalbers, M. B. and Gibb, K. (2014) Housing and the Right to the City: Introduction    to the Special Issue. <i>International Journal of Housing Policy</i> 14 (3):    207-213.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695056&pid=S2182-3030201900010001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Allen, J. and McDowell, L. (1989) <i> Landlords and Property: Social Relations    in the Private Rented Sector </i> . Cambridge: Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695058&pid=S2182-3030201900010001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Allen, J., Barlow, J., Leal, J., Maloutas, T., and Padovani, L. (2004) <i>Housing    &amp; Welfare in Southern Europe</i>. Oxford: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695060&pid=S2182-3030201900010001400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Ashton, P. (2009) &ldquo;An appetite for yield: The anatomy of the subprime mortgage    crisis.&rdquo; <i>Environment &amp; Planning A</i> 41 (6): 1420-1441. </p>     <p> Ashton, P. (2012) &ldquo;‘Troubled assets&rsquo;: The financial emergency and racialized    risk.&rdquo; <i>International Journal of Urban &amp; Regional Research</i> 36 (4):    773-790. </p>     <p> Atkinson, R. and Blandy, S. (2005) &ldquo;Introduction: International Perspectives    on The New Enclavism and the Rise of Gated Communities.&rdquo; <i>Housing Studies</i>    20 (2): 177-186. </p>     <!-- ref --><p> Ball, M. (1985) <i>Land Rent, Housing, and Urban Planning: A European Perspective</i>.    London: Croom Helm.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695065&pid=S2182-3030201900010001400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Ball, M. (1986) &ldquo;Housing analysis: Time for a theoretical refocus?&rdquo; <i>Housing    Studies</i> 1(3): 147-165. </p>     <!-- ref --><p> Ball, M. (1988) <i> Rebuilding Construction: Economic Change and the British    Construction Industry </i> . London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695068&pid=S2182-3030201900010001400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Barlow, J. and Duncan, S. (1988) &rdquo;The use and abuse of housing tenure.&rdquo; <i>Housing    Studies</i> 3 (4): 219-231. </p>     <p> Bengtsson, B. (2001) &ldquo;Housing as a Social Right: Implications for Welfare    State Theory.&rdquo; <i>Scandinavian Political Studies</i> 24 (4): 255-275. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Berry, M. (1979) <i>Marxist Approaches to the Housing Question</i>. Birmingham:    University of Birmingham.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695072&pid=S2182-3030201900010001400016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Berry, M. (1981) &ldquo;Posing the housing question in Australia: Elements of a    theoretical framework for a Marxist analysis of housing.&rdquo; <i>Antipode</i> 13    (1): 3-14. </p>     <!-- ref --><p> Bourdieu, P. (2005) <i>The Social Structures of the Economy</i>. Cambridge:    Polity.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695075&pid=S2182-3030201900010001400018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Briggs de Souza, X. (1997) &rdquo;Moving up versus moving out: Neighborhood effects    in housing mobility programs.&rdquo; <i>Housing Policy Debate</i> 8(1): 195-234. </p>     <p> Case, K. E., Quigley, J. M., and Shiller, R. J. (2005) &rdquo;Comparing Wealth Effects:    The Stock Market versus the Housing Market.&rdquo; <i>Advances in Macroeconomics</i>    5 (1): 1534-1601. </p>     <p> Castles, F. J. (1998) &rdquo;The really-big trade-off: Home ownership and the welfare    state in the New World and the Old.&rdquo; <i>Acta Politica</i> 33 (1): 5-19. </p>     <!-- ref --><p> Chua, B. H. (1997) <i>Political Legitimacy and Housing: Stakeholding in Singapore</i>.    London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695080&pid=S2182-3030201900010001400022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Christophers, B. (2010) &ldquo;On voodoo economics: theorizing relations of property,    value, and contemporary capitalism.&rdquo; <i>Transactions of the Institute of British    Geographers</i>, NS 35: 94-108. </p>     <p> Christophers, B. (2011) &ldquo;Revisiting the Urbanization of Capital.&rdquo; <i>Annals    of the Association of American Geographers</i> 101 (6): 1347-1364. </p>     <p> Christophers, B. (2013) &ldquo;A monstrous hybrid: the political economy of housing    in early-twenty-first century Sweden.&rdquo; <i>New Political Economy</i> , 18: 885-911.  </p>     <!-- ref --><p> Clapham, D., Hegedüs, J., Kintrea, K., and Tosics, I., eds. (1996) <i>Housing    Privatisation in Eastern Europe</i>. 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London: Faber and Faver.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695089&pid=S2182-3030201900010001400028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Davies, M. (2007) <i>Property: Meanings, Histories, Theories</i>. Abingdon:    Routledge-Cavendish.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695091&pid=S2182-3030201900010001400029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Desmond, M. (2012) &ldquo;Eviction and the Reproduction of Urban Poverty.&rdquo; <i>American    Journal of Sociology</i> 118(1): 88-133. </p>     <!-- ref --><p> Doling, J. and Ford, J., eds. (2003) <i> Globalisation and Home Ownership:    Experiences in Eight Member States of the European Union </i> . Delft: DUP Science.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695094&pid=S2182-3030201900010001400031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->  </p>     <p> Doling, J. and Ronald, R. (2010) &ldquo;Home ownership and asset-based welfare.&rdquo;    <i>Journal of Housing and the Built Environment</i> 25 (2): 165-173. </p>     <!-- ref --><p> Dymski, G. A. (1999) <i> The Bank Merger Wave: The Economic Causes and Social    Consequences of Financial Consolidation </i> . 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<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Forrest, R. and Yip, N.-M., eds. (2011) <i>Housing Markets and the Global    Financial Crisis</i>. Cheltenham: Edward Elgar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695112&pid=S2182-3030201900010001400043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Friedrichs, J., Galster, G., and Musterd, S. (2003) &rdquo;Neighbourhood effects    on social opportunities: the European and American research and policy context.&rdquo;    <i>Housing Studies</i> 18 (6): 797-806. </p>     <p> Gotham, K. F. (2002) &ldquo;Beyond Invasion and Succession: School Segregation,    Real Estate Blockbusting, and the Political Economy of Neighborhood Racial Transition.&rdquo;    <i>City and Community</i> 1 (1): 83-111. </p>     <p> Gotham, K. F. (2009) &ldquo;Creating Liquidity Out of Spatial Fixity: The Secondary    Circuit of Capital and the Subprime Mortgage Crisis&rdquo;, <i>International Journal    of Urban and Regional Research</i> 33 (2): 355-371. </p>     <p> Grabar, H. (2012) &ldquo;Buy a house, get a visa: Coming soon everywhere?&rdquo; <i>The    Atlantic Cities</i> Nov. 27 <a         href="https://www.citylab.com/equity/2012/11/buy-house-get-visa-coming-soon-everywhere/3959/" target="_blank"     > https://www.citylab.com/equity/2012/11/buy-house-get-visa-coming-soon-everywhere/3959/</a>    [visited Nov. 13, 2018]. </p>     <p> Gray, K. (1991) &ldquo;Property in thin air.&rdquo; <i>The Cambridge Law Journal</i> 50    (2): 252-307. </p>     <!-- ref --><p> Haila, A. (2015) <i>Urban Land Rent: Singapore as a Property State</i>. Oxford:    Wiley-Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695119&pid=S2182-3030201900010001400049&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Hamnett, C. (1999) <i>Winners and Losers. Home Ownership in Modern Britain</i>.    London: UCL.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695121&pid=S2182-3030201900010001400050&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Harloe, M. (1985) <i>Private rented housing in the United States and Europe</i>.    New York: St. Martin&rsquo;s. </p>     <!-- ref --><p> Harvey, D. (1982) <i>The limits to capital</i>. Oxford: Blackwell &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695124&pid=S2182-3030201900010001400052&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p> Harvey, D. (1985) <i> The Urbanization of Capital. Studies in the History    and Theory of Capitalist Urbanization </i> . Oxford: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695125&pid=S2182-3030201900010001400053&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Harvey, D. (2002) &ldquo;The Art of Rent: Globalization, Monopoly and the Commodification    of Culture.&rdquo; <i>Socialist Register</i> 38: 93-110. </p>     <!-- ref --><p> Harvey, D. (2012) <i>Rebel Cities: From the Right to the City to the Urban    Revolution</i>. London: Verso.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695128&pid=S2182-3030201900010001400055&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Harvey, D. (2014) <i>Seventeen Contradictions and the End of Capitalism</i>    . London: Profile Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695130&pid=S2182-3030201900010001400056&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Harvey, D. and Chatterjee, L. (1974) &rdquo;Absolute rent and the structuring of    space by governmental and financial institutions.&rdquo; <i>Antipode</i> 6 (1): 22-36.  </p>     <!-- ref --><p> Hecht, J. J. (1981) <i>The Domestic Servant Class in Eighteenth-Century England</i>.    Westport, CT: Hyperion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695133&pid=S2182-3030201900010001400058&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Helderman, A. and Mulder, C. (2007) &ldquo;Intergenerational Transmission of Homeownership:    The Roles of Gifts and Continuities in Housing Market Characteristics.&rdquo; <i>Urban    Studies</i> 44 (2): 231-247. </p>     <p> Henderson, J. and Karn, V. 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(1995) &ldquo;‘The really big trade-off&rsquo; between home ownership and welfare:    Castles&rsquo; evaluation of the 1980 thesis, and reformulation 25 years on.&rdquo; <i>Housing,    Theory and Society</i> 22 (2): 59-75. </p>     <!-- ref --><p> Kleinman, M. (1996) <i> Housing, Welfare and the State in Europe: A Comparative    Analysis of Britain, France and Germany </i> . Cheltenham: Elgar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695149&pid=S2182-3030201900010001400070&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Lawson, J. (2006) <i>Critical Realism and Housing Studies</i>. London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695151&pid=S2182-3030201900010001400071&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->  </p>     <p> Lawson, J. (2009) &ldquo;The transformation of social housing provision in Switzerland    mediated by federalism, direct democracy and the urban/rural divide&rdquo;. <i>International    Journal of Housing Policy</i> 9 (1): 45-67. </p>     <p> Lee, P. and Murie, A. (1999) &ldquo;Spatial and social divisions within British    cities. Beyond residualisation.&rdquo; <i>Housing Studies</i> 14: 625-640. </p>     <!-- ref --><p> Lees, L., Slater, T., and Wyly, E. (2008) <i>Gentrification</i>. London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695155&pid=S2182-3030201900010001400074&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->  </p>     <!-- ref --><p> Lefebvre, H. (1996) <i>Writings on Cities</i>. Oxford: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695157&pid=S2182-3030201900010001400075&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> López-Morales, E. (2011) &ldquo;Gentrification by Ground Rent Dispossession: The    Shadows Cast by Large-Scale Urban Renewal in Santiago de Chile.&rdquo; <i>International    Journal of Urban and Regional Research</i> 35 (2): 330-357. </p>     <p> Lutz, H. 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(2001) <i>Asset-based Welfare: International Experiences</i>.    London: IPPR.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695179&pid=S2182-3030201900010001400090&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Rex, J. and Moore, R. (1967) <i>Race, community, and conflict</i>. London:    Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695181&pid=S2182-3030201900010001400091&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Roberts, A. 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