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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Queermuseu: criminalização da produção artística e o papel da arte nas democracias]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">Queermuseu: criminaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e o papel da arte nas democracias </font></b>     <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> Queermuseu: the criminalization of artistic production and the role of the arts in democracies </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Simone Amorim<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>] DIN&Acirc;MIA'CET-IUL, Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa<font face="Verdana">, Portugal</font></font><font size="2" face="Verdana">. e-mail: <a href="mailto:xsimoneamorimx@gmail.com" target="_blank">xsimoneamorimx@gmail.com</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Entrevista com Gaud&ecirc;ncio Fidelis, respons&aacute;vel pela exposi&ccedil;&atilde;o &ldquo;Queermuseu: cartografias da diferen&ccedil;a na arte brasileira&rdquo;, a primeira exposi&ccedil;&atilde;o <i>queer</i> da Am&eacute;rica Latina, aberta em 2017 em Porto Alegre, no Brasil. <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">No centro das emblem&aacute;ticas reflex&otilde;es da americana Judith Butler (1990), que nos anos de 1990 tornaram-se ponto de inflex&atilde;o da ressignifica&ccedil;&atilde;o do termo <i>queer</i>, est&aacute; o questionamento da estabilidade da exist&ecirc;ncia dos sujeitos em sobreposi&ccedil;&atilde;o aos seus atos, isto &eacute;, anterior ao campo cultural que articulam. &Agrave; fil&oacute;sofa feminista interessava antes a constru&ccedil;&atilde;o discursiva vari&aacute;vel dos sujeitos no e atrav&eacute;s do outro. A teoria <i>queer</i> &eacute; uma reflex&atilde;o sobre g&ecirc;nero e sexualidade, por&eacute;m, &eacute; sem d&uacute;vida uma importante ferramenta epistemol&oacute;gica para p&ocirc;r em causa a heteronormatividade em si, extrapolando o questionamento ao essencialismo dos binarismos em geral, e &eacute; enquanto tal que tem dado importantes contributos pol&iacute;ticos para a teoria social. </font></p> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Esta entrevista a Gaud&ecirc;ncio Fid&eacute;lis foi realizada no outono de 2019, na cidade do Porto. No centro da conversa estiveram as controv&eacute;rsias envolvendo a realiza&ccedil;&atilde;o da exposi&ccedil;&atilde;o &ldquo;Queermuseu: cartografias da diferen&ccedil;a na arte brasileira&rdquo;, concebida e organizada por este curador brasileiro. O objectivo foi entender, a partir do ponto de vista do seu principal agente, os epis&oacute;dios em torno da primeira exposi&ccedil;&atilde;o <i>queer</i> do Brasil e da Am&eacute;rica Latina. Nesta conversa, o curador apresenta detalhes dos acontecimentos que desmascararam uma componente conservadora e reacion&aacute;ria da sociedade brasileira, que em pleno s&eacute;culo XXI persiste enquanto caracter&iacute;stica marcante. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Gaud&ecirc;ncio Fid&eacute;lis &eacute; curador e historiador de arte, especializado em arte brasileira moderna e contempor&acirc;nea e arte das am&eacute;ricas. &Eacute; Mestre em Arte pela New York University (NYU) e Doutor em Hist&oacute;ria da Arte pela State University of New York (SUNY). Foi Diretor do Instituto Estadual de Artes Visuais do Rio Grande do Sul entre 1991 e 1993, fundador e primeiro diretor do Museu de Arte Contempor&acirc;nea do Rio Grande do Sul (RS) em 1992. Organizou e realizou a curadoria de mais de 50 exposi&ccedil;&otilde;es. Em 2005 foi Curador-adjunto da 5&ordf; Bienal do Mercosul. Foi diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) de 2011 a 2014. Foi Curador-chefe da 10&ordf; Bienal do Mercosul – Mensagens de uma Nova Am&eacute;rica, em 2015 e curador da exposi&ccedil;&atilde;o Queermuseu: Cartografias da Diferen&ccedil;a na Arte Brasileira, em 2017. Atualmente reside em Nova Iorque e &eacute; membro do Conselho do Museu Oscar Niemeyer (Curitiba, Pernambuco).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b> A primeira pergunta que eu selecionei &eacute; sobre a sua trajet&oacute;ria art&iacute;stica e profissional. Como voc&ecirc; caracteriza o seu percurso? </b></font></p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p> A minha forma&ccedil;&atilde;o inicial &eacute; de Arte, mas quando eu vou para os Estados Unidos da Am&eacute;rica (EUA) fazer o meu mestrado e posteriormente o doutorado em Hist&oacute;ria da Arte, em Nova Iorque, eu j&aacute; tinha come&ccedil;ado, l&aacute; atr&aacute;s, logo que eu me mudei para Porto Alegre. Para a minha gera&ccedil;&atilde;o as coisas eram muito prec&aacute;rias, por exemplo, pouco se falava em curadoria, quase nem se usava a palavra curadoria ainda, muito pouco. A gente j&aacute; tinha grandes figuras como o [curador de arte su&iacute;&ccedil;o] Harald Szeemann e todas essas coisas, mas era muito incipiente no Brasil, as institui&ccedil;&otilde;es eram incipientes. Ent&atilde;o, eu sou de uma gera&ccedil;&atilde;o que tem que construir o seu pr&oacute;prio espa&ccedil;o de circula&ccedil;&atilde;o. E eu tinha, olhando em retrospecto, evidentemente, uma inclina&ccedil;&atilde;o muito forte para a reflex&atilde;o te&oacute;rica, eu acredito. Da&iacute; que meu trabalho art&iacute;stico naquela &eacute;poca resultou numa produ&ccedil;&atilde;o muito conceitual. Mas quando eu vou para os EUA, bem depois - eu sou de uma gera&ccedil;&atilde;o que teve que trabalhar primeiro para depois poder fazer a sua forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica superior - eu j&aacute; tinha acho que 30 anos, e a&iacute; ficou muito vis&iacute;vel, eu j&aacute; tinha feito v&aacute;rias coisas: eu j&aacute; tinha dirigido uma institui&ccedil;&atilde;o, eu j&aacute; tinha criado um museu (com 27 anos, eu acho), que foi o Museu de Arte Contempor&acirc;nea do Rio Grande do Sul, eu j&aacute; tinha tido uma experi&ecirc;ncia institucional muito forte para uma pessoa jovem e para aquele momento. Eu decidi que, definitivamente, a minha voca&ccedil;&atilde;o era organizar exposi&ccedil;&otilde;es, trabalhar em museus e a vida institucional. Mas ironicamente, eu nunca quis seguir a carreira acad&ecirc;mica, por exemplo. Mas eu queria trabalhar em museus e escrever. Nesse per&iacute;odo todo eu estava fazendo v&aacute;rias exposi&ccedil;&otilde;es. O que acontece, e o que eu acho que &eacute; relevante para n&oacute;s e para depois como a gente chega na Queermuseu, &eacute; que quando eu comecei a organizar exposi&ccedil;&otilde;es - e hoje eu j&aacute; organizei mais de 50 - mas de uns 10 anos para c&aacute; come&ccedil;ou a ficar muito n&iacute;tido para mim que eu queria fazer exposi&ccedil;&otilde;es que questionassem, testassem, ou tangenciassem de algum modo o c&acirc;none da hist&oacute;ria da arte. No sentido de que o c&acirc;none &eacute;, a gente j&aacute; sabe, excludente, mas ele tinha implica&ccedil;&otilde;es que at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o estavam sendo investigadas ou pensadas atrav&eacute;s de exposi&ccedil;&otilde;es, e da produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento de exposi&ccedil;&otilde;es, e que est&atilde;o para al&eacute;m daquela ideia de inserir obras n&atilde;o can&ocirc;nicas nas grandes narrativas. N&atilde;o era esse o objetivo que eu buscava. Eu achava que se voc&ecirc; emula demais o c&acirc;none e quer inserir as coisas, voc&ecirc; se torna c&uacute;mplice dele. Mas ao mesmo tempo, e fa&ccedil;o essa ressalva, eu n&atilde;o sou uma pessoa contra o c&acirc;none da hist&oacute;ria da arte, por exemplo. Eu acho que o c&acirc;none &eacute; fundamental para a gente ter um norte, e para a gente poder avan&ccedil;ar em determinadas dire&ccedil;&otilde;es, em oposi&ccedil;&atilde;o, paralelo, em contraste a ele de alguma forma. Ent&atilde;o, o c&acirc;none eu acho que &eacute; indispens&aacute;vel. Eu n&atilde;o tenho uma vis&atilde;o iconoclasta de que o c&acirc;none deva ser destru&iacute;do. &Eacute; muito importante entender isso, porque uma das grandes perguntas que surgiu depois da Queermuseu foi: &ldquo;de onde voc&ecirc; tirou a ideia da Queermuseu?&rdquo; </p>     <p> <b>Tinha essa pergunta aqui escrita para lhe fazer&hellip;</b> </p>     <p> Essa pergunta est&aacute; escrita a&iacute; eu sei, sempre respondo assim, e eu acho que d&aacute; uma certa frustra&ccedil;&atilde;o no in&iacute;cio. A Queermuseu n&atilde;o surge de uma ideia, ela surge de um processo. Ela &eacute; resultado de um processo que vem se desenvolvendo ao longo dos anos e que come&ccedil;a com essas exposi&ccedil;&otilde;es em que eu elejo um assunto. Eu n&atilde;o acredito em exposi&ccedil;&otilde;es tem&aacute;ticas nem ilustrativas, s&atilde;o duas palavras que eu uso muito, mas elas s&atilde;o banidas da minha pr&aacute;xis curatorial e historiogr&aacute;fica. Eu acredito que exposi&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m que ser baseadas num conceito que cria uma plataforma. Eu n&atilde;o uso a palavra tema e tamb&eacute;m rejeito o car&aacute;ter ilustrativo. Ent&atilde;o, eu comecei a fazer estas exposi&ccedil;&otilde;es, e cito um exemplo bem objetivo: quando fui dirigir o Museu de Arte do Rio Grande do Sul n&oacute;s desenvolvemos um programa muito extenso de exposi&ccedil;&otilde;es, muito radical, muito avan&ccedil;ado. A primeira coisa que fiz foi nomear um curador chefe para o museu e realizei duas exposi&ccedil;&otilde;es (na verdade mais que duas), porque elas tinham rela&ccedil;&atilde;o com a minha forma&ccedil;&atilde;o. E, numa das exposi&ccedil;&otilde;es que eu fiz, comecei a pensar que a hist&oacute;ria da arte ocidental foi constru&iacute;da exclusivamente com base no olhar, e que os outros sentidos foram relegados a uma hierarquia mais baixa; e um dos que me interessou muito, sobre o qual escrevi um livro inclusive, foi o olfato. Escrevi O cheiro como crit&eacute;rio: em dire&ccedil;&atilde;o a uma pol&iacute;tica olfat&oacute;ria em curadoria. Eu queria muito fazer uma exposi&ccedil;&atilde;o sobre o olfato porque nunca (e estou sendo bem irrespons&aacute;vel com essas frases todas que vou dizer para voc&ecirc;), nunca tinha sido feita uma exposi&ccedil;&atilde;o de grande envergadura sobre o olfato no mundo. Pequenas coisas, obviamente, e muito pequenas coisas. Ent&atilde;o, eu queria muito fazer essa exposi&ccedil;&atilde;o. Levei quase oito anos tentando e consegui fazer. Queria faz&ecirc;-la no museu, mas ela dependia muito de patroc&iacute;nio. A&iacute; eu decidi n&atilde;o fazer porque queria fazer uma exposi&ccedil;&atilde;o de arte brasileira. E a&iacute; acabei fazendo na Bienal do Mercosul, que envolvia 22 pa&iacute;ses e ela se transformou numa das 8 grandes exposi&ccedil;&otilde;es da Bienal, todas concatenadas sobre o olfato e uma exposi&ccedil;&atilde;o de arte da Am&eacute;rica Latina. Foi fant&aacute;stico. </p>     <p> <b>Isso foi em que ano? </b> </p>     <p> Em 2014, em Porto Alegre. Na X Bienal do Mercosul. Mas o que era importante nesse neg&oacute;cio da curadoria olfat&oacute;ria era fazer uma virada epistemol&oacute;gica e parar de pensar, ou pelo menos temporariamente, ou provisoriamente, parar de pensar exclusivamente sob a perspectiva do olho. &Eacute; como se o olho estivesse aqui e voc&ecirc; decidisse olhar para o outro lado e tentar ver as coisas sob uma outra perspectiva. At&eacute; porque o olfato, e o cheiro por consequ&ecirc;ncia, tem uma intrus&atilde;o muito problem&aacute;tica para os espa&ccedil;os museol&oacute;gicos. O cheiro transita, ele &eacute; et&eacute;reo e &eacute; inquantific&aacute;vel. Ent&atilde;o ele problematiza uma s&eacute;rie de quest&otilde;es. Eu dou esse exemplo porque, ao fazer essa exposi&ccedil;&atilde;o, ela j&aacute; origina um problema, n&atilde;o sob o ponto de vista da pol&ecirc;mica, evidentemente, mas ela origina uma quest&atilde;o, que foi dif&iacute;cil para os especialistas - que ali&aacute;s s&atilde;o os que tiveram uma grande dificuldade tamb&eacute;m com a Queermuseu - de entender o modelo de exposi&ccedil;&atilde;o que eu estava utilizando. Por exemplo, as minhas exposi&ccedil;&otilde;es - isso &eacute; uma coisa que tenho evitado mas que eu enfatizei categoricamente em rela&ccedil;&atilde;o a Queermuseu - n&atilde;o s&atilde;o exposi&ccedil;&otilde;es essencialistas. Ela n&atilde;o era para representar artistas <i>queer</i>. Ela era uma exposi&ccedil;&atilde;o para discutir o que &eacute; o <i>queer</i> e quest&otilde;es <i>queer</i>, mas com a utiliza&ccedil;&atilde;o de um universo vasto de obras: que eram obras de artistas <i>queer</i>, que se intitulam <i>queer</i>, obras de artistas n&atilde;o <i>queer</i>, obras que n&atilde;o t&ecirc;m nenhuma rela&ccedil;&atilde;o com o <i>queer</i>, obras formalistas, obras n&atilde;o formalistas, obras que s&atilde;o can&ocirc;nicas, obras n&atilde;o can&ocirc;nicas… e todo esse conjunto de obras reunidas permitiriam construir essa plataforma para discutir a quest&atilde;o. E isso foi muito dif&iacute;cil para as pessoas entenderem. A Queermuseu &eacute; um museu provis&oacute;rio, que duraria pelo per&iacute;odo de dois meses da exposi&ccedil;&atilde;o. Porque a exposi&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de ter um car&aacute;ter fortemente museol&oacute;gico, muitas obras emprestadas, 90% delas emprestadas de cole&ccedil;&otilde;es de museus, exposi&ccedil;&otilde;es, cole&ccedil;&otilde;es privadas, a constru&ccedil;&atilde;o dela tamb&eacute;m &eacute; essa coisa de empr&eacute;stimos, ela de fato d&aacute; esse car&aacute;ter; ela &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea e &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o cronol&oacute;gica. Ela trabalha com justaposi&ccedil;&otilde;es de obras de per&iacute;odos, estilos, orienta&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas, voca&ccedil;&otilde;es, diversas, lado a lado. E a diversidade tamb&eacute;m trabalha em dois n&iacute;veis, a diversidade sob o ponto de vista pol&iacute;tico e das quest&otilde;es identit&aacute;rias, mas tamb&eacute;m a diversidade material, porque quando voc&ecirc; entra no museu, todas essas quest&otilde;es pol&iacute;ticas que tem l&aacute; fora - o preconceito, o racismo, a rejei&ccedil;&atilde;o &agrave; diferen&ccedil;a, a exclus&atilde;o, etc. - se refletem nos objetos. Ent&atilde;o voc&ecirc; tem de ter dentro de uma exposi&ccedil;&atilde;o como essa, eu sempre argumentei muito isso no processo, voc&ecirc; tem de ter essa diversidade, que &eacute; uma outra diversidade, a diversidade da forma, porque ela tem de refletir tamb&eacute;m a falta de diversidade l&aacute; fora. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b> Voc&ecirc; usa muito duas palavras que s&atilde;o &ldquo;plataforma&rdquo; e &ldquo;cartografia&rdquo;, cartografia meio pelo car&aacute;ter de processo, ser&aacute; isso? </b> </p>     <p> Como tem uma hist&oacute;ria dessas duas palavras no Brasil, na literatura especializada, e tem uma hist&oacute;ria, por exemplo, na &aacute;rea de curadoria, porque o Ivo Mesquita fez uma exposi&ccedil;&atilde;o muito emblem&aacute;tica chamada &ldquo;Cartografias&rdquo;, que era uma exposi&ccedil;&atilde;o de artes da Am&eacute;rica Latina, a qual eu acho que foi at&eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o muito importante no momento, ela tem um lugar na hist&oacute;ria, mas eu acho que ela n&atilde;o consegue persistir atrav&eacute;s da hist&oacute;ria, com a for&ccedil;a que ela poderia ter. Mas cartografia para mim, eu tentei descaracterizar a no&ccedil;&atilde;o cartogr&aacute;fica tradicional. Talvez uma hora eu venha escrever mais especificamente sobre isso e sobre o subt&iacute;tulo da exposi&ccedil;&atilde;o porque, ao mesmo tempo que achava que queria desestabilizar a no&ccedil;&atilde;o da palavra, ela tamb&eacute;m n&atilde;o era assim uma quest&atilde;o t&atilde;o fundamental que eu tivesse tempo de discutir. Ali&aacute;s, o tempo n&atilde;o me foi dado, porque a&iacute; a exposi&ccedil;&atilde;o fecha e eu tive que discutir outras coisas. Mas a outra palavra que voc&ecirc; mencionou, que &eacute; plataforma, eu entendo como um lugar que combina espa&ccedil;o e tempo, &eacute; um lugar para a arte, &eacute; um lugar constru&iacute;do para a arte. Uma coisa que era muito not&aacute;vel em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Queermuseu e que as pessoas falavam, antes da exposi&ccedil;&atilde;o fechar. Porque a exposi&ccedil;&atilde;o foi muito bem recebida, ela fecha abruptamente, porque os protestos, os ataques… desculpe, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o durou dois dias e algumas horas e a&iacute; ela fecha no domingo, com esses ataques do MBL [grupo ultradireitista brasileiro denominado Movimento Brasil Livre]. </p>     <p> <b>E depois teve manifesta&ccedil;&atilde;o, a favor inclusive&hellip;.</b> </p>     <p> Sim, ela fecha no domingo, e a&iacute; teve uma manifesta&ccedil;&atilde;o extraordin&aacute;ria que reuniu mais de tr&ecirc;s mil e quinhentas pessoas na frente do Santander Cultural. Aquilo n&atilde;o foi um movimento meu, ali&aacute;s foi assustador, porque eu vi que estava acontecendo aquilo, mas estava dando milh&otilde;es de entrevistas, e algu&eacute;m disse &ldquo;agora tem uma manifesta&ccedil;&atilde;o&rdquo;; e quando eu chego l&aacute;… meu deus! tinha carro de som, tinha tudo, milhares de pessoas, a comunidade acad&ecirc;mica, os artistas da exposi&ccedil;&atilde;o, o p&uacute;blico do Santander Cultural, o p&uacute;blico que est&aacute; no mailing do Santander Cultural estava l&aacute;. Era muito engra&ccedil;ado… Era como quando voc&ecirc; vai a uma abertura e est&aacute; todo mundo dentro, de repente estava todo mundo fora contra o Santander Cultural. Foi muito impressionante aquilo. E evidentemente a comunidade LGBT e LGBTQ e v&aacute;rias outras organiza&ccedil;&otilde;es voltadas para os direitos dos movimentos feministas etc, todos eles &eacute; que tinham convocado a manifesta&ccedil;&atilde;o. Mas a&iacute;, essa plataforma &eacute; um lugar. Por exemplo, as pessoas diziam que essa era uma exposi&ccedil;&atilde;o… olha que engra&ccedil;ado!, at&eacute; o momento da exposi&ccedil;&atilde;o fechar e os ataques dos setores obscurantistas, a extrema direita e os fundamentalistas se juntarem com um determinado descontentamento de especialistas, n&atilde;o se falava muito sobre o m&eacute;rito da exposi&ccedil;&atilde;o, vamos dizer assim, sob o ponto de vista negativo. Quando tudo isso conflui, h&aacute; um per&iacute;odo ali que, evidentemente n&atilde;o dura muito, porque as pessoas dos setores mais progressistas come&ccedil;aram a observar o seguinte: &ldquo;bom, n&oacute;s temos uma op&ccedil;&atilde;o aqui, n&oacute;s vamos ter que nos unir em defesa da liberdade de express&atilde;o, da democracia e de tudo o que a exposi&ccedil;&atilde;o implica&rdquo;. Ent&atilde;o a exposi&ccedil;&atilde;o tem esse m&eacute;rito. Mas naquele momento as pessoas comentavam que a exposi&ccedil;&atilde;o era um ludgar seguro. Essa &eacute; a palavra que eu ouvi muito usarem, para que as pessoas pudessem ver as coisas tranquilamente. Ent&atilde;o a plataforma&hellip; para mim, exposi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o esses lugares constru&iacute;dos para refletir sobre a arte, mas n&atilde;o sob uma vis&atilde;o idealista da arte, mas para ter uma conviv&ecirc;ncia com a arte da maneira que voc&ecirc; deseja. Claro que da&iacute; a gente n&atilde;o ia imaginar que acontecesse aquela loucura toda. </p>     <p> <b> Tem uma observa&ccedil;&atilde;o que eu queria ver com voc&ecirc;, que &eacute; o seguinte: voc&ecirc; usa muito essa figura do espelho, em que voc&ecirc; entra num museu e ele reflete&hellip; </b> </p>     <p> Uso! Eu tive dificuldade de usar isso, porque tenho uma cr&iacute;tica &agrave; m&iacute;mesis, mas achei que valia a pena arriscar essa analogia&hellip; </p>     <p> <b> A minha quest&atilde;o &eacute; a seguinte: tem um fil&oacute;sofo do qual eu me lembrei, pensando sobre essas coisas que eu vi nos seus depoimentos, ele &eacute; sul-coreano, estuda o belo na Arte, e fala o seguinte: que um dos problemas da sociedade atual &eacute; que ela quer o que abra&ccedil;a ela. Ele est&aacute; discutindo o belo na arte e faz uma cr&iacute;tica ao artista americano Jeff Khoons e &agrave;s obras dele, que n&atilde;o fazem nada para pensar a n&atilde;o ser refletir o que j&aacute; somos e que na acep&ccedil;&atilde;o dele, a arte n&atilde;o deve abra&ccedil;ar ningu&eacute;m, a arte deve causar um conflito&hellip; ent&atilde;o eu queria que voc&ecirc; falasse um pouco sobre isso, a arte deve abra&ccedil;ar ou ela deve incomodar? </b> </p>     <p> Na verdade, essa narrativa que acaba sendo constru&iacute;da, tanto a narrativa falsa como a narrativa de que &eacute; preciso construir para fazer uma defesa da exposi&ccedil;&atilde;o e de tudo que ela implica, a liberdade de express&atilde;o, democracia, liberdade de imprensa, ela &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o que abra&ccedil;a muitas coisas, por exemplo, depois n&oacute;s come&ccedil;amos a discutir, eu levantei muito essas quest&otilde;es que eu achava que estavam inter-relacionadas, os ataques &agrave;s religi&otilde;es de matriz afro no Brasil e assim por diante. Bom, mas a&iacute;, ainda acho que a gente vai ter muito tempo, mas nunca houve muito tempo para explicar em mais detalhes determinadas coisas. O que eu queria dizer &eacute; que o objeto de arte &eacute; imperdo&aacute;vel nesse sentido, ele joga para voc&ecirc;, no sentido lacaniano, ele se transforma nesse espelho. Ou seja, &eacute; l&aacute; que voc&ecirc; para na frente dele e reflete os seus sentimentos de exclus&atilde;o, inclina&ccedil;&otilde;es de racismos, por exemplo. Porque quando voc&ecirc; decide &ldquo;essa cor &eacute; horr&iacute;vel, n&atilde;o consigo suportar&rdquo; ou &ldquo;essa obra me causa, n&atilde;o sei o qu&ecirc;&rdquo; ou &ldquo;isso n&atilde;o &eacute; arte&rdquo; ou &ldquo;isso qualquer um faz&rdquo;, essas express&otilde;es que a gente conhece tanto; na recusa do objeto, h&aacute; uma reflex&atilde;o. Se a pessoa dobrar a esquina voc&ecirc; vai ver que n&atilde;o tem como n&atilde;o haver uma equival&ecirc;ncia entre a rejei&ccedil;&atilde;o do objeto de arte e a rejei&ccedil;&atilde;o ao outro, n&atilde;o tem como, tem equival&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, &eacute; nesse sentido. Mas eu n&atilde;o acho que o objeto deva ser condescendente, ao contr&aacute;rio. Tanto que eu chamei a exposi&ccedil;&atilde;o <i>Queer</i>museu desde o in&iacute;cio, o que causou tamb&eacute;m uma outra confus&atilde;o, como um choque de imagens. A&iacute; vinham os reacion&aacute;rios e diziam assim: &ldquo;voc&ecirc; queria causar choque nas pessoas&rdquo;. N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; isso que eu estou falando. Eu estou falando em conflitos de conceitos e tamb&eacute;m… eu acredito numa coisa que &eacute;: a exposi&ccedil;&atilde;o tem uma for&ccedil;a. As pessoas pensam que a causa do problema foi a manipula&ccedil;&atilde;o, muito bem pensada daquelas cinco obras, que foram transformadas em campo de batalha. Mas tudo que aconteceu em rela&ccedil;&atilde;o a essa exposi&ccedil;&atilde;o s&oacute; foi poss&iacute;vel porque ela era o que era. Ela era uma exposi&ccedil;&atilde;o com uma montagem muito estranha, voc&ecirc; n&atilde;o vai notar nada, voc&ecirc; vai achar que ela era muito… inclusive, acad&ecirc;mica porque, por exemplo, eu n&atilde;o uso recursos museogr&aacute;ficos, n&atilde;o tem paredes coloridas, a luz &eacute; plana, as coisas est&atilde;o uma ao lado da outra&hellip; </p>     <p> <b>Por que voc&ecirc; fez essas escolhas?</b> </p>     <p> Porque, na verdade, a for&ccedil;a dela est&aacute; vindo do confronto entre as coisas. Acredito que as pessoas n&atilde;o haviam percebido o quanto &eacute; dram&aacute;tico, complicado e politicamente dif&iacute;cil voc&ecirc; colocar uma obra ao lado da outra, que a historiografia e a cr&iacute;tica e a curadoria, jamais fariam, porque isso desestabiliza o lugar, e a&iacute; n&oacute;s voltamos justamente onde me interessa: &agrave;s quest&otilde;es do c&acirc;none art&iacute;stico. Voc&ecirc; desestabiliza o lugar constru&iacute;do da leitura, ent&atilde;o, essa &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o, por exemplo, que voc&ecirc; tem obras que sa&iacute;ram de museus e que nunca foram lidas como uma exposi&ccedil;&atilde;o que poderia ter inclina&ccedil;&otilde;es <i>queer</i>. O artista muitas vezes &eacute; <i>queer</i>, ou &eacute; um artista LGBT declarado e a obra passou a vida inteira tendo uma leitura estritamente formalista, como se as pessoas tivessem vendo cor e forma, e a&iacute; quando ela migra para Queermuseu, ou melhor ainda, quando ela migra para a Queermuseu ao lado de uma outra determinada obra, essa natureza intr&iacute;nseca dela, e talvez a natureza mais verdadeira e leg&iacute;tima, se revela. E a&iacute; tudo isso combinado com mais de duzentas obras, com uma engenharia (porque ela tem essa simplicidade, paredes brancas, luz plana, onde n&atilde;o tem sombra, pra voc&ecirc; ver as coisas como elas s&atilde;o) ela tem essas justaposi&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o n&atilde;o s&oacute; planejadas lado a lado, ou seja, uma obra que fica ao lado da outra, mas tamb&eacute;m uma obra que, por exemplo, est&aacute; &agrave; frente e uma outra que est&aacute; atr&aacute;s, que se relaciona, ou transversalmente. E tem uma coisa que eu falei, que &eacute; at&eacute; meio complexa: ela tem um car&aacute;ter que &eacute; cinem&aacute;tico, que vem do cinema, de como voc&ecirc; observa as coisas e parece que as coisas t&ecirc;m uma outra movimenta&ccedil;&atilde;o, que no final se torna problem&aacute;tico. Porque um dos argumentos que eu vou fazer amanh&atilde; e &eacute; uma coisa que eu tenho escrito, &eacute; sobre animismo e como isso invadiu a nossa rela&ccedil;&atilde;o com os objetos e problematizou o nosso processo cognitivo. Ent&atilde;o as pessoas come&ccedil;am a ver os objetos como se eles pudessem, por exemplo, produzir crimes. &Eacute; isso que acontece ali na exposi&ccedil;&atilde;o e &eacute; muito s&eacute;rio, porque as pessoas tratam os objetos como se um quadro fosse sair da parede e cometer pedofilia. Isso tem a ver com uma mudan&ccedil;a que eu acho que est&aacute; acontecendo no nosso processo cognitivo, onde a gente est&aacute; percebendo as coisas como se elas tivessem vida pr&oacute;pria. E isso eu acho que tem uma conflu&ecirc;ncia muito grande ali na exposi&ccedil;&atilde;o. O problema, talvez, &eacute; que a exposi&ccedil;&atilde;o, na verdade se antecipa a isso, porque ela est&aacute; trabalhando com a percep&ccedil;&atilde;o. Mas a&iacute; &eacute; uma infeliz casualidade, de que n&oacute;s est&aacute;vamos vivendo num mundo que ia deflagrar esse ataque da exposi&ccedil;&atilde;o, justamente baseado nesse del&iacute;rio cognitivo, que &eacute; como eu chamei num texto, em que as pessoas come&ccedil;aram a tratar as coisas na exposi&ccedil;&atilde;o como se elas tivessem vida pr&oacute;pria. E um poder de cometer crime, como se a obra de arte como um ser animado pudesse cometer crime. Ent&atilde;o isso est&aacute; no centro dessa quest&atilde;o toda. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b> Como nasceu essa exposi&ccedil;&atilde;o? Em quanto tempo voc&ecirc; a organizou, se voc&ecirc; tinha essa dimens&atilde;o de ser a primeira no Brasil e na Am&eacute;rica Latina, quais eram os objetivos que voc&ecirc; tinha em mente e sobre o que &eacute;, efetivamente, a Queermuseu? </b> </p>     <p> Sim. Em algum momento, em 2010, eu comecei. Tem uma exposi&ccedil;&atilde;o que eu fiz antes, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul chamada &ldquo;Cromomuseu&rdquo;. Ela antecede a Queermuseu. N&oacute;s cobrimos as 8 grandes galerias do museu, com uma grade crom&aacute;tica extremamente elaborada e complexa de 150 cores especiais e cada uma dessas salas tinha alguma abordagem e algum foco, eram todas obras da cole&ccedil;&atilde;o do museu e sobre essa grade crom&aacute;tica que estrategicamente eu posicionei determinada obra. Voc&ecirc; n&atilde;o tinha mais a obra sobre o espa&ccedil;o branco, ou mesmo que n&atilde;o seja branco, vamos dizer, que seja baseado nos mecanismos da percep&ccedil;&atilde;o criados para a pintura holandesa, por exemplo, em que voc&ecirc; pinta as paredes de verde ou de carmim etc. Mas voc&ecirc; n&atilde;o tem mais o fundo neutro sobre o qual a obra possa n&atilde;o ter a interfer&ecirc;ncia do mundo. Ent&atilde;o a grade crom&aacute;tica &eacute; a cultura, &eacute; o objeto jogado no universo da cultura e a&iacute; voc&ecirc; tem que se ver com um problema. Voc&ecirc; tem que lidar com v&aacute;rias escolhas e voc&ecirc; destitui a obra temporariamente do lugar can&ocirc;nico dela, do lugar onde ela est&aacute; isolada do mundo da cultura, para que ela possa realmente ser institu&iacute;da e observada como uma obra de arte. </p>     <p> <b>Isso cria uma outra obra?</b> </p>     <p> N&atilde;o, eu n&atilde;o acho. Eu nunca tive essa inten&ccedil;&atilde;o. As pessoas t&ecirc;m essa ideia de que as minhas exposi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o projetos muito autorais, mas eu n&atilde;o vejo assim. Eu entendo que existam esses projetos autorais, mas na verdade a minha inten&ccedil;&atilde;o era sempre problematizar o lugar do objeto art&iacute;stico em rela&ccedil;&atilde;o ao c&acirc;none, como eu tinha dito. Mas, era isso que eu queria te dizer. Eu n&atilde;o imaginava que aquela exposi&ccedil;&atilde;o fosse causar tanta pol&ecirc;mica. O p&uacute;blico em geral adorou, a exposi&ccedil;&atilde;o era deslumbrante, mas os especialistas t&ecirc;m um pouco de dificuldade, porque eles t&ecirc;m princ&iacute;pios, eles t&ecirc;m determinadas concep&ccedil;&otilde;es de determinadas obras, de obras que s&atilde;o canonizadas… vamos dizer, um Portinari, ou um Di Cavalcanti. Ent&atilde;o &eacute; muito dif&iacute;cil essa rela&ccedil;&atilde;o. Quando eu fiz a Queermuseu pensei que o g&ecirc;nero e, especificamente a express&atilde;o e identidade de g&ecirc;nero - porque as pessoas podem ter as cr&iacute;ticas que quiserem em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o, mas ela &eacute; muito espec&iacute;fica na sua terminologia, &ldquo;express&atilde;o e identidade de g&ecirc;nero sob a perspectiva da diferen&ccedil;a&rdquo; - era uma &uacute;ltima fronteira para mim, para discutir essa quest&atilde;o do c&acirc;none art&iacute;stico. Mas eu tinha uma coisa clara, em 2010. Havia sido feita uma exposi&ccedil;&atilde;o que chamava &ldquo;Ars Homoerotica&rdquo;, na Pol&ocirc;nia, no Museu Nacional da Pol&ocirc;nia, em Vars&oacute;via, que era uma exposi&ccedil;&atilde;o <i>queer</i>, do acervo, uma exposi&ccedil;&atilde;o que foi muito pol&ecirc;mica… enfim, eu conheci o curador, viajei para Los Angeles e conversei com ele, em 2012. Mas era uma exposi&ccedil;&atilde;o que ainda tinha esse vi&eacute;s essencialista, num certo sentido. E tamb&eacute;m tinha uma outra quest&atilde;o, ela era uma exposi&ccedil;&atilde;o mais hist&oacute;rica, pegava desde a arte grega at&eacute; &agrave; arte contempor&acirc;nea, que era o acervo do museu e ela se voltava muito para as quest&otilde;es do erotismo e, especialmente do erotismo masculino, a figura masculina, etc. que &eacute; mais proeminente nos prim&oacute;rdios da hist&oacute;ria da arte e isso s&atilde;o quest&otilde;es tem&aacute;ticas que eu considero, assim, que para mim j&aacute; n&atilde;o interessavam mais, mas era uma exposi&ccedil;&atilde;o muito importante porque ela era pioneira. Depois, a Smithsonian, em Washington, fez uma exposi&ccedil;&atilde;o, que tamb&eacute;m foi considerada uma grande exposi&ccedil;&atilde;o <i>queer</i> sobre o retrato na arte americana, o retrato na pintura, fotografia, etc., se chamava &ldquo;Hide/Seek&rdquo;, eu comento essas exposi&ccedil;&otilde;es no primeiro texto do cat&aacute;logo, porque uma das coisas que eu queria fazer era diferenciar. Quando eu falo que essas eram as grandes exposi&ccedil;&otilde;es <i>queer</i>, as primeiras, &eacute; porque elas se intitularam <i>queer</i>, tinham o desejo e o objetivo conceitual, art&iacute;stico e pol&iacute;tico de serem exposi&ccedil;&otilde;es <i>queer</i>. Ent&atilde;o, essa pequena hist&oacute;ria j&aacute; tinha mostrado para mim que o que eu queria fazer n&atilde;o era uma exposi&ccedil;&atilde;o essencialista. Eu queria um outro modelo que tinha muito mais rela&ccedil;&atilde;o com os modelos que eu estava fazendo, que era trabalhar em cima de obras, para construir uma plataforma para desenvolver uma determinada quest&atilde;o art&iacute;stica. Ent&atilde;o a Queermuseu se transforma nessa exposi&ccedil;&atilde;o, que os especialistas tiveram mais dificuldade, mas o p&uacute;blico ficou muito feliz. Claro, a gente tem que desconsiderar os grupos obscurantistas que atacaram a exposi&ccedil;&atilde;o, que esses s&atilde;o uma outra hist&oacute;ria. Porque as pessoas perguntavam &ldquo;onde est&atilde;o os artistas <i>queer</i>?&rdquo; tinham v&aacute;rios, a&iacute; j&aacute; &eacute; um pr&eacute;-julgamento, porque eu me lembro de uma pergunta que me foi feita numa das primeiras falas que fiz logo que a exposi&ccedil;&atilde;o fechou &ldquo;por que n&atilde;o tem artistas l&eacute;sbicas na exposi&ccedil;&atilde;o?&rdquo;. E eu respondi assim: &ldquo;mas porque voc&ecirc; acha que n&atilde;o tem? por que elas n&atilde;o se auto-intitularam l&eacute;sbicas ou por que elas n&atilde;o pensam a si mesmas como artistas l&eacute;sbicas? Eu n&atilde;o entendi bem a sua pergunta&rdquo;. Isso foi a primeira parte da minha resposta, claro que o &ldquo;eu n&atilde;o entendi bem a sua pergunta&rdquo; foi ironia, mas eu respondi para essa jovem, porque eu vi que a pergunta dela, em tese era bem intencionada. Veja bem, a exposi&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o poderia falsear a realidade. E falsificar a realidade significa o seguinte: primeiro, se voc&ecirc; conhece a hist&oacute;ria, e a hist&oacute;ria da arte em espec&iacute;fico, voc&ecirc; vai saber que a presen&ccedil;a de mulheres artistas, e mulheres artistas l&eacute;sbicas, na hist&oacute;ria da arte &eacute; m&iacute;nima. Isso est&aacute; na hist&oacute;ria, est&aacute; escrito. Ou seja, em primeiro lugar voc&ecirc; tem que vislumbrar no horizonte isso. Segundo, isso tem que ser proporcional; voc&ecirc; pode tamb&eacute;m fazer uma exposi&ccedil;&atilde;o e desequilibrar isso. Esse seria o objetivo de uma exposi&ccedil;&atilde;o inclusiva, por exemplo. Mas como eu n&atilde;o estou fazendo uma exposi&ccedil;&atilde;o para representar indiv&iacute;duos sob o ponto de vista da sua identidade, eu estou fazendo uma exposi&ccedil;&atilde;o para problematizar uma quest&atilde;o, e eu acho que isso ningu&eacute;m discute, ela realmente fez, eu n&atilde;o posso falsificar a realidade. Ent&atilde;o, por exemplo, eu n&atilde;o posso inventar, e nesse caso literalmente seria inventar, 10, 15 artistas l&eacute;sbicas para ter numa exposi&ccedil;&atilde;o que tem 85 artistas, mas elas est&atilde;o l&aacute;. Isso literalmente seria falsificar uma realidade, sob dois pontos de vista: primeiro, porque n&atilde;o corresponde &agrave; realidade, em termos de equival&ecirc;ncias; segundo, porque essa exposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o est&aacute; fazendo isso. E se eu estivesse fazendo isso, talvez pudesse fazer esse desequil&iacute;brio arbitrariamente ou propositadamente. E isso se aplicava a algumas outras situa&ccedil;&otilde;es. </p>     <p> <b>Mas essas s&atilde;o quest&otilde;es que voc&ecirc; se colocou na hora?</b> </p>     <p> N&atilde;o, n&atilde;o, eu trabalho com a obra. </p>     <p> <b> E como &eacute; que voc&ecirc; seleciona mais de duzentas obras? Como &eacute; o seu processo? </b> </p>     <p> Por exemplo, quando eu fiz a Bienal do Mercosul, ela tinha quase 650 obras, de 22 pa&iacute;ses, elas foram exaustivamente, e a&iacute; tem uma coisa que eu n&atilde;o conhe&ccedil;o nenhum curador que fa&ccedil;a, talvez exista algum por a&iacute;, mas elas foram metodicamente escolhidas para estar numa determinada posi&ccedil;&atilde;o, lado a lado. E tanto &eacute; assim, que se voc&ecirc; pegar o cat&aacute;logo da Bienal, que tem 1008 p&aacute;ginas, ele tem um texto de 1 milh&atilde;o e meio de palavras, que &eacute; o texto principal, ele comenta cada uma das quase 650 obras da exposi&ccedil;&atilde;o, e porque elas est&atilde;o lado a lado, e porque esta se relaciona com esta e porque esta se relaciona com aquela outra. E o texto da Queermuseu, do primeiro cat&aacute;logo, um dos textos, tamb&eacute;m faz isso. Ele discute obra por obra e o porqu&ecirc; de ela estar l&aacute;, quais s&atilde;o as quest&otilde;es b&aacute;sicas daquela obra, porque ela est&aacute; ao lado da outra, o que ela provoca. Isto est&aacute; l&aacute;, eu fiz o meu trabalho, as pessoas podem discordar. Bom, essa engenharia, esse quebra-cabe&ccedil;a &eacute; muito complexo porque envolve tamb&eacute;m diplomacia, voc&ecirc; tem que negociar essas obras. </p>     <p> <b>Em quanto tempo mais ou menos?</b> </p>     <p> Acho que 1 ano e meio. Mas eu quase morri. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Eu achei que era muito mais, porque s&atilde;o tantas obras&hellip;</b> </p>     <p> Mas eu estava me dedicando s&oacute; a isso. E a&iacute; eu discuti com v&aacute;rias pessoas. Por exemplo quando eu fui negociar as obras da Lygia Clark, eu discuti com o Presidente [da Associa&ccedil;&atilde;o Cultural &ldquo;O Mundo de Lygia Clark&rdquo;], o &Aacute;lvaro que &eacute; o filho dela, eu discuti porque eu queria tal e tal obra. Porque a&iacute; tem outro detalhe: eu n&atilde;o quero qualquer obra da Lygia Clark, quero esta obra espec&iacute;fica. Ent&atilde;o quando eu fui discutir com os artistas, v&aacute;rios artistas, cuja obra n&atilde;o tem nenhuma rela&ccedil;&atilde;o com o <i>queer</i> - ao contr&aacute;rio, rejeitam a no&ccedil;&atilde;o - eu fui dizer para eles que queria a obra deles numa exposi&ccedil;&atilde;o; que eu queria esta obra e n&atilde;o aquela… &eacute; sempre uma coisa muito dif&iacute;cil, que eu fiz e fa&ccedil;o. E eu s&oacute; tive um n&atilde;o - e isso est&aacute; tudo documentado nos arquivos da exposi&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o monstruosos - que foi uma obra, um v&iacute;deo do H&eacute;lio Oiticica, mas eu n&atilde;o achei que a recusa fosse pelo conte&uacute;do da exposi&ccedil;&atilde;o, foi por quest&otilde;es de restri&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> <b>Tinha outras obras do H&eacute;lio Oiticica?</b> </p>     <p> N&atilde;o, na exposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o. Tinha Lygia Clark, tinha Portinari, tinha Pedro Am&eacute;rico, tinha Guignard… eu fui convencer colecionadores que tinham essas obras a emprestar e isso me causou um tumulto porque as pessoas [falavam], mas Portinari &eacute; <i>queer</i>? N&atilde;o, nunca foi! A sua obra? N&atilde;o, tamb&eacute;m n&atilde;o! Mas tem uma pintura dele na exposi&ccedil;&atilde;o, um retrato que ele fez de um m&eacute;dico, que era do movimento integralista, e que &eacute; inacredit&aacute;vel a pintura, se voc&ecirc; vir a foto e vir o que eu escrevi… e ela foi uma pintura que foi rejeitada. Foi um retrato recusado porque ele tinha justamente essas caracter&iacute;sticas afeminadas. E ele quebrou o realismo, ele quebrou o contrato entre retratado e a idealiza&ccedil;&atilde;o do retrato. Ele retratou como era o retratado e a&iacute; a pintura passa muitos anos na obscuridade, ela vai para os por&otilde;es. Depois, hoje ela est&aacute; numa cole&ccedil;&atilde;o de uma pinacoteca municipal em Porto Alegre, uma pintura de corpo inteiro, na escala do corpo. Ent&atilde;o, &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o muito complexa sobre esse ponto de vista, e ela se torna muito mais complexa quando sofre esse processo dram&aacute;tico de censura e se transforma na maior - a&iacute; eu vou usar a palavra de novo - na maior plataforma de defesa da liberdade de express&atilde;o, da democracia, dos direitos e de tudo o que diz respeito &agrave; inclus&atilde;o e que a exposi&ccedil;&atilde;o pode abarcar. Porque, por exemplo, a exposi&ccedil;&atilde;o tinha quest&otilde;es relativas &agrave; religi&atilde;o… uma das obras que foi utilizada para criar essa narrativa falsa e que foi acusada de vilip&ecirc;ndio religioso &eacute; uma obra que trata da transubstancia&ccedil;&atilde;o. Tem tamb&eacute;m &ldquo;Cruzando Jesus Cristo com a deusa Shiva&rdquo;, que &eacute; uma obra sobre sincretismo religioso. Eu falei sobre essas obras na CPI [Comiss&atilde;o Parlamentar de Inqu&eacute;rito, realizada pelo Senado federal], que eu acho que &eacute; o lugar mais p&uacute;blico, gravado em v&iacute;deo em que eu falo e fa&ccedil;o um tour sobre aquelas cinco obras para a indigna&ccedil;&atilde;o do Senador Magno Malta. Enfim, essa exposi&ccedil;&atilde;o tem essa complexidade j&aacute; inerente. </p>     <p> <b> Voc&ecirc; mencionou que trabalhou pra conseguir as obras, conversou com os artistas, falou sobre o que era a exposi&ccedil;&atilde;o. Eu imagino que voc&ecirc; tenha escrito um projeto para Lei de Incentivo, tenha buscado o patroc&iacute;nio com o Santander Cultural, etc. Teve uma s&eacute;rie de etapas, todos estavam sabendo o que era a Queermuseu. A partir de que momento se d&aacute; essa ruptura? Foi s&oacute; quando abriu a exposi&ccedil;&atilde;o ao p&uacute;blico e ela vai para a opini&atilde;o p&uacute;blica? </b> </p>     <p> N&atilde;o! Ela foi a exposi&ccedil;&atilde;o mais celebrada do Santander Cultural e teve mais de 3500 pessoas na abertura, o maior p&uacute;blico que o Santander Cultural teve desde a sua inaugura&ccedil;&atilde;o em uma abertura de exposi&ccedil;&atilde;o. Ela foi celebrada durante aqueles 32 dias que ficou aberta e teve um recorde de p&uacute;blico, mais de 30 mil visitantes naquele per&iacute;odo. O que acontece &eacute; muito mais simples do que parece, e depois, claro, muito mais complexo do que parece. O MBL [Movimento Brasil Livre] realiza esse ataque &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> <b>Eles foram os grandes respons&aacute;veis? </b> </p>     <p> Eles foram os &uacute;nicos e exclusivos respons&aacute;veis. Eles agora est&atilde;o dando entrevistas dizendo que nem conhecem a Queermuseu… &eacute; mais ou menos isso que o Kim Kataguiri e o Renan est&atilde;o dizendo, porque isso deu-lhes um preju&iacute;zo pol&iacute;tico muito grande e esse preju&iacute;zo continua aumentando, principalmente agora que eles querem ingressar em uma outra fase, que eles esgotaram a primeira fase. Eu vou dizer uma coisa que eu disse v&aacute;rias vezes e que est&aacute; em muitas entrevistas: agora eu acho que eles fizeram uma guinada para um outro lugar, que n&atilde;o &eacute; mais ben&eacute;fico, ao contr&aacute;rio, mas eu considerava o MBL um prestador de servi&ccedil;os, ou seja, eles prestavam servi&ccedil;os para os fundamentalistas, para setores obscurantistas da sociedade, para os evang&eacute;licos e assim por diante. </p>     <p> <b> Mas eu acho que at&eacute; mais seriamente para alguns setores empresariais, setores que inflam esses grupos&hellip; </b> </p>     <p> Sim, sim. Ent&atilde;o, eles encontraram na Queermuseu, num momento prop&iacute;cio, todos os ingredientes para catapult&aacute;-los numa plataforma nacional em torno da quest&atilde;o dos costumes e do universo simb&oacute;lico, que era a &uacute;ltima fronteira de ataque que eles tinham que fazer. Eles n&atilde;o tinham feito isso ainda. Eles tinham, por exemplo, iniciado l&aacute; em 2013 - eu sempre cito esse exemplo - porque quando em 2013 aquele pessoal foi para a rua e no qual o MBL estava muito envolvido, a plataforma de defesa deles era seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Quem &eacute; que vai questionar que seguran&ccedil;a p&uacute;blica &eacute; uma defesa leg&iacute;tima? Mas o que se estava construindo ali? Uma no&ccedil;&atilde;o de que voc&ecirc; precisa de seguran&ccedil;a p&uacute;blica, porque num futuro breve, quando houvesse um acirramento - como logo acontece no primeiro experimento, isso eu estou dizendo da minha cabe&ccedil;a, mas para mim &eacute; muito claro que &eacute; a interven&ccedil;&atilde;o militar no Rio de Janeiro - as pessoas j&aacute; estariam preparadas. Elas estariam achando &oacute;timo, porque legitima um discurso que foi constru&iacute;do e que n&atilde;o vai ent&atilde;o causar um estranhamento. Ent&atilde;o eles haviam feito v&aacute;rios ingressos, na &aacute;rea econ&ocirc;mica, nessa quest&atilde;o da seguran&ccedil;a p&uacute;blica, na corrup&ccedil;&atilde;o e assim por diante, porque isso est&aacute; nos playbooks do fascismo e eu considero eles um grupo de inclina&ccedil;&otilde;es fortemente fascistas - eu disse isso em todas as entrevistas que dei, que se utilizavam exaustivamente de t&aacute;ticas de mil&iacute;cias, e eu acho que eu fui a primeira pessoa que usei isso. Os parlamentares e as lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas demoraram seis meses para utilizar a palavra fascismo, que eu estava usando desde o primeiro dia, e fundamentalismo at&eacute; hoje eles t&ecirc;m dificuldade. Mas a Queermuseu oferece essa plataforma extraordin&aacute;ria e eles fazem isso de uma maneira muito eficiente, escolhem essas cinco obras, muito bem escolhidas para atingir determinados p&uacute;blicos, e inclusive, por exemplo, a mais not&oacute;ria pra mim &eacute; quando eles fazem essa acusa&ccedil;&atilde;o de um detalhe de uma pintura da Adriana Varej&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; a pintura, acusando-a de pedofilia para atingir justamente os setores da sociedade envolvidos com a defesa dos animais, a defesa do meio ambiente etc. Ent&atilde;o eles escolhem cada parcela, cada obra servia a uma parcela. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b> At&eacute; porque quando eles questionam que as obras estavam ferindo a religi&atilde;o, eles n&atilde;o pegam as obras de religi&atilde;o de matriz africana&hellip; </b> </p>     <p> N&atilde;o. Ali&aacute;s, ontem eu at&eacute; citei esse exemplo, na pr&oacute;pria pintura da Adriana Varej&atilde;o (&ldquo;Cenas do Interior&rdquo;) tem uma cena… Essa pintura pra mim faz refer&ecirc;ncia &agrave;s mazelas do colonialismo, da coloniza&ccedil;&atilde;o brasileira etc., e a&iacute; tem uma cena de dois homens brancos numa rela&ccedil;&atilde;o sexual com um homem negro, e o MBL n&atilde;o pega aquela cena, por exemplo, porque o MBL recusa sistematicamente a exist&ecirc;ncia da escravid&atilde;o, ou do racismo. Para eles n&atilde;o existe racismo, ent&atilde;o eles jamais pegariam aquela cena que, evidentemente, em tese seria mais pol&ecirc;mica se isolada do contexto. Ent&atilde;o ela aparece de vez em quando, se algum desavisado do MBL, que n&atilde;o &eacute; do n&uacute;cleo central, pega aquela imagem e a&iacute; ela circula. O pr&oacute;prio [senador] Magno Malta vai &agrave; tribuna um dia e faz um apelo &agrave; comunidade negra que se revolte contra aquilo, o que ali&aacute;s absolutamente nada acontece, porque ficou muito claro pra mim que a comunidade de afrodescendentes entendeu que aquilo era uma grande manipula&ccedil;&atilde;o. E a exposi&ccedil;&atilde;o tinha quest&otilde;es de den&uacute;ncia de racismo, que ali&aacute;s tamb&eacute;m nunca foram tocadas por eles, pelo MBL e os seus subsequentes seguidores, e n&atilde;o teve nada. Pelo contr&aacute;rio, posteriormente, quando a gente vai para o Rio de Janeiro, temos uma enorme liga&ccedil;&atilde;o com grupos envolvidos com milit&acirc;ncia de periferia, com a comunidade negra, com as religi&otilde;es afro, etc., e &eacute; tudo incr&iacute;vel. Esses detalhes - sobre os quais a gente poderia falar por horas - precisam ser entendidos para que as pessoas percebam a engenharia por tr&aacute;s disso. Mas a&iacute; depois, claro! O MBL deflagra esse processo e &eacute; seguido pelos fundamentalistas religiosos, setores ultrarreacion&aacute;rios da sociedade, fan&aacute;ticos e, especialmente, lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas que resolvem subtrair disso benef&iacute;cio de car&aacute;ter eleitoreiro, porque n&oacute;s est&aacute;vamos indo em dire&ccedil;&atilde;o a uma elei&ccedil;&atilde;o e &eacute; um projeto obscuro que depois se instala com clareza. </p>     <p> <b> Voc&ecirc; falou um pouco sobre esse momento de ruptura. Eu queria tamb&eacute;m ouvir a tua avalia&ccedil;&atilde;o sobre as institui&ccedil;&otilde;es. Claro, central &eacute; o Santander Cultural, o papel da Prefeitura do Rio, o governo do estado do Rio de Janeiro e a escola de artes visuais do Parque Lage, o pr&oacute;prio Minist&eacute;rio da Cultura que aprovou o projeto. Mas voc&ecirc; teve algum tipo de restri&ccedil;&atilde;o ou san&ccedil;&atilde;o posterior por n&atilde;o ter executado na Lei Rouanet [lei de incentivo &agrave; cultura]? E, por &uacute;ltimo, essa coisa do <i>crowdfunding</i> e da organiza&ccedil;&atilde;o das pessoas em oposi&ccedil;&atilde;o ao movimento organizado do MBL. </b> </p>     <p> A&iacute; tem v&aacute;rias etapas, primeiro o Santander Cultural&hellip; Num primeiro momento eu n&atilde;o daria tanta import&acirc;ncia &agrave; atitude do Santander Cultural agindo como uma institui&ccedil;&atilde;o. Foi mais uma rea&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos na respectiva dire&ccedil;&atilde;o, que respondem a interesses escusos e &agrave; sua vontade pr&oacute;pria. O que eu entendo ali &eacute; que… claro, eu n&atilde;o estou dizendo com isso que essas pessoas n&atilde;o s&atilde;o a institui&ccedil;&atilde;o…, mas n&atilde;o foi uma decis&atilde;o de pol&iacute;tica institucional. &Eacute; um erro de decis&atilde;o que acaba sendo assumido pela institui&ccedil;&atilde;o. O Superintendente, na minha opini&atilde;o, deveria ser sumariamente demitido, embora seja funcion&aacute;rio do banco. Ele n&atilde;o foi porque o Santander Cultural entende que o dano p&uacute;blico seria ainda maior. Mas eles n&atilde;o medem as consequ&ecirc;ncias. Do que eu acompanhei, eu vou contar isso no meu livro em mais detalhes&hellip; porque s&atilde;o fatos muito precisos, ent&atilde;o se eu fizer afirma&ccedil;&otilde;es muito categ&oacute;ricas, fica complicado. Mas eu entendo que quando S&atilde;o Paulo, no meio daquela crise com os ataques do MBL pergunta para Porto Alegre &ldquo;como est&aacute; a situa&ccedil;&atilde;o a&iacute;? devemos fechar?&rdquo; Eu tenho certeza de que ele disse que sim, tenho ind&iacute;cios que isso aconteceu&hellip; Eu estava em casa e s&oacute; fiquei sabendo depois, pelo telefone. O Carlos Trevi s&oacute; me ligou uma hora e meia depois e me pergunta se eu n&atilde;o gostaria de falar com ele. Eu disse: n&atilde;o h&aacute; nada para falar, n&oacute;s n&atilde;o temos nada para falar! Desliguei o telefone e nunca mais falei com ele. Na verdade, ele ainda me ligou um dia depois dizendo que eu n&atilde;o deveria dar entrevistas e a&iacute;, eu nem vou dizer o que eu disse a ele&hellip; Eu creio que numa atitude intempestiva ele disse &ldquo;eu sou a favor de fechar&rdquo; e a&iacute; o Santander Cultural fecha. Porque eles t&ecirc;m que o consultar, porque ele &eacute; o Superintendente local, e ent&atilde;o eles cometem um erro inomin&aacute;vel. Mas tamb&eacute;m porque eles n&atilde;o preveem que por tr&aacute;s daquela exposi&ccedil;&atilde;o, para a infelicidade deles, tinha um curador que iria sair numa campanha. Eu decidi em 5 segundos quando li aquela nota, o comunicado oficial do Facebook. A&iacute; eu leio e chego no meio, quando eu li a frase &ldquo;a exposi&ccedil;&atilde;o foi cancelada&rdquo;, eu pensei: n&atilde;o, eu n&atilde;o li direito, vou ler de novo!, eu li. E a&iacute; quando eu realmente me dei conta, a sensa&ccedil;&atilde;o que tive foi inimagin&aacute;vel. &Eacute; uma coisa que passou pelo meu corpo todo e n&atilde;o sei descrever, eu nunca tinha tido e espero que nunca v&aacute; ter na minha vida. Mas eu me recuperei em 5 minutos, at&eacute; porque o telefone come&ccedil;ou a tocar e nunca mais parou. Naquelas 72 horas eu fiquei dando entrevista sem parar, sem dormir inclusive. Para todos os organismos internacionais, o New York Times j&aacute; me ligou no in&iacute;cio do dia seguinte, quando j&aacute; tinha come&ccedil;ado a extrapolar na imprensa nacional. A primeira entrevista foi O Globo, que me ligou. Eu estou contado esses detalhes porque acho importante entender como essa coisa acontece, ela &eacute; org&acirc;nica. Eu nunca procurei a imprensa. E quando passou aqueles segundos, em que me dei conta do que aconteceu, eu peguei uma folha de papel - eu tinha feito a Bienal do Mercosul, ent&atilde;o tinha muito contacto com a imprensa, da Am&eacute;rica Latina como um todo, inclusive. Eu n&atilde;o atendi o telefone num primeiro momento, e anotei em algumas frases a narrativa que eu ia colocar em curso, o que era importante: eles n&atilde;o me consultaram, foi uma decis&atilde;o unilateral, isso tudo foi claro pra mim, &eacute; um processo de censura declarado. A&iacute; eu atendi o primeiro telefonema, que foi O Globo… teve &oacute;rg&atilde;o de imprensa que esperou seis horas para falar comigo. Mas isso foi importante, porque esta era a minha ponte com a sociedade. Eu decidi que ia contra-atacar esclarecendo a sociedade, e de uma maneira exaustiva, que foi o que fiz durante um ano. </p>     <p> <b> Voc&ecirc; disse que na sua avalia&ccedil;&atilde;o o controle n&atilde;o &eacute; uma pol&iacute;tica do Santander Cultural, mas voc&ecirc; n&atilde;o acha que est&aacute; inserido no que essas empresas est&atilde;o fazendo com a estrat&eacute;gia de marketing por meio do patroc&iacute;nio &agrave;s artes e &agrave; cultura, a deturpa&ccedil;&atilde;o das leis de incentivo?&hellip; </b> </p>     <p> N&atilde;o. Eu acho que &eacute; importante clarificar duas coisas. N&atilde;o &eacute; num primeiro momento, mas logo se transforma, se materializa, ou seja, porque voc&ecirc; tem que entender o lado pragm&aacute;tico… se eles pensassem no preju&iacute;zo, porque depois eles tiveram que investir milh&otilde;es em marketing para tentar contrabalan&ccedil;ar o estrago, que n&atilde;o parou nunca mais. Ou seja, se eles olhassem pragmaticamente, eles n&atilde;o fariam isso. Mas, sob o ponto de vista institucional, essa atitude intempestiva vai se encontrar com a natureza conservadora do Santander Cultural. A gente precisa esclarecer isso bem, porque isso que &eacute; adotado pelo Santander Cultural… agora os bancos t&ecirc;m manuais de censura pr&eacute;via, eles entregam para o curador dizendo: voc&ecirc; pode fazer isso, n&atilde;o pode fazer aquilo, etc. O primeiro que criou isso foi o Ita&uacute;, j&aacute; faz tempo. Que &eacute; o grande patrocinador, lembrando que o Ita&uacute; nunca tinha censurado uma exposi&ccedil;&atilde;o. O maior patrocinador da Am&eacute;rica Latina em Arte nunca tinha censurado uma exposi&ccedil;&atilde;o. E quando ent&atilde;o me diziam &ldquo;isso &eacute; a l&oacute;gica dos bancos&rdquo;, eu fiz quest&atilde;o de dizer &ldquo;n&atilde;o &eacute;!&rdquo;. Veja bem, voc&ecirc; pode fazer todas as cr&iacute;ticas aos bancos, mas esse epis&oacute;dio tem outros fatores que precisam ser considerados. Tem que entender primeiro o epis&oacute;dio. Sen&atilde;o pode correr o risco de criar uma teoria, que logo em seguida vai desabar, porque l&aacute; no in&iacute;cio ela tem uma pequena falha. Mas, de fato, o Santander Cultural se revela uma institui&ccedil;&atilde;o ultraconservadora. &Eacute; bom lembrar que o Santander Cultural no Brasil &eacute; independente do Santander Cultural Espanha, juridicamente. Ent&atilde;o essa decis&atilde;o foi tomada aqui. E at&eacute; onde eu sei, de uma fonte segura, causou uma profunda irrita&ccedil;&atilde;o, porque o estrago foi internacional. &Eacute; a mesma marca. E o Santander Cultural Espanha tem, inclusive, uma cole&ccedil;&atilde;o de arte muito bonita. A outra coisa &eacute; que esses indiv&iacute;duos que estavam no comando, nas presid&ecirc;ncias, s&atilde;o indiv&iacute;duos que al&eacute;m de n&atilde;o gostarem de arte, obviamente, n&atilde;o t&ecirc;m nenhum escr&uacute;pulo e nenhuma considera&ccedil;&atilde;o por uma institui&ccedil;&atilde;o que j&aacute; tinha, na &eacute;poca, 17 anos de exist&ecirc;ncia. Ou seja, como &eacute; que o Santander Cultural constr&oacute;i o seu prest&iacute;gio? Exclusivamente com as leis de incentivo fiscal? N&atilde;o. &Eacute; com o empr&eacute;stimo de centenas e dezenas de obras que eles usaram na exposi&ccedil;&atilde;o, graciosamente emprestadas. Inclusive, da Queermuseu. O prest&iacute;gio do p&uacute;blico que vai l&aacute;. O prest&iacute;gio dos curadores, dos artistas. Isso &eacute; um capital que eles acumularam durante 17 anos e que eles apertaram um bot&atilde;o e em 5 minutos implodiram. E a outra coisa que eu acho que &eacute; preciso dizer em rela&ccedil;&atilde;o ao Santander Cultural &eacute; que ele n&atilde;o consegue entender o que significa uma institui&ccedil;&atilde;o. Ou seja, eu descaracterizei o Santander Cultural como uma institui&ccedil;&atilde;o logo no segundo dia, porque institui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode cometer um crime contra a arte e contra a cultura. Ela est&aacute; neste momento destitu&iacute;da do seu car&aacute;ter institucional, ela n&atilde;o institucionaliza mais nada. E eu digo, todas as vezes que me perguntam, o Santander Cultural &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o censora e os artistas que, ingenuamente ou n&atilde;o, participam ainda (porque muita gente se recusa) das atividades do Santander Cultural, eles est&atilde;o do outro lado da classe art&iacute;stica. Porque com o hist&oacute;rico que o Santander Cultural construiu, que eu acho que uma grande parcela da comunidade art&iacute;stica reconhece, n&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel que ele exista como institui&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> <b>Fale um pouco dos outros, da prefeitura, do Parque Lage&hellip;</b> </p>     <p> Bom, eu recebo logo em seguida um telefonema surpreendente, porque eu n&atilde;o tinha contato com o Evandro Salles, do Museu de Arte do Rio (MAR), dizendo assim: &ldquo;Gaud&ecirc;ncio, n&oacute;s vamos trazer a exposi&ccedil;&atilde;o para c&aacute;, n&oacute;s queremos&rdquo;, eu fiquei&hellip; assim&hellip; Porque naquele momento eu nem estava pensando em reabrir a exposi&ccedil;&atilde;o, eu estava pensando em construir uma esp&eacute;cie de resist&ecirc;ncia. Mas fui agindo meio intuitivamente, at&eacute; porque eu n&atilde;o tinha alternativa. E a&iacute; eu peguei um avi&atilde;o, fui ao Rio conversar com eles e come&ccedil;ou todo o planejamento. </p>     <p> <b>Enquanto isso as obras ficam l&aacute; no Santander Cultural?</b> </p>     <p> Ent&atilde;o, esse &eacute; um detalhe importante. O Santander Cultural promoveu um sequestro das obras. No momento em que cancela a exposi&ccedil;&atilde;o ele deveria devolver as obras aos seus emprestadores imediatamente. Acionar a produ&ccedil;&atilde;o e fazer isso, ele ret&eacute;m as obras por mais de um m&ecirc;s, sob o protesto de todo mundo. Como se fosse numa cena de crime, tudo cercado com fitas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Voc&ecirc; tinha acesso?</b> </p>     <p> N&atilde;o, n&atilde;o. Mas eu tamb&eacute;m me recusei a dialogar com o Santander Cultural, porque n&atilde;o havia di&aacute;logo com eles. Eu tinha que enfrent&aacute;-los publicamente. Mas eles teriam que tomar as provid&ecirc;ncias para fazer a devolu&ccedil;&atilde;o, porque eles romperam com o Acordo de Empr&eacute;stimo. O Acordo de Empr&eacute;stimo &eacute; um acordo que obedece a par&acirc;metros internacionais, &agrave;s vezes voc&ecirc; tem taxas de manuten&ccedil;&atilde;o etc., mas voc&ecirc; faz um empr&eacute;stimo gracioso. E assim que as institui&ccedil;&otilde;es funcionam em toda parte do mundo, e o Santander Cultural recebe essas obras de empr&eacute;stimo e ret&eacute;m por mais de um m&ecirc;s. Ele s&oacute; come&ccedil;a o processo de retorno, simbolicamente, no &uacute;ltimo dia em que a exposi&ccedil;&atilde;o fecharia. Sob toda uma batalha judicial que estava acontecendo, inclusive o fato de que a exposi&ccedil;&atilde;o estava sendo, enquanto estava l&aacute;, difamada, os artistas atacados e o Santander Cultural retendo essas obras, mandando a mensagem para a sociedade de que essas obras eram objeto de crime, que elas eram desabonadoras. Ali&aacute;s, o que est&aacute; numa das frases da nota infeliz que eles lan&ccedil;am, porque eles condenam as obras, moralmente. Bom, a&iacute; quando o Museu de Arte do Rio resolve levar a exposi&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;a o planejamento. N&oacute;s chegamos a planejar o lan&ccedil;amento e rapidamente a gente sentiu que come&ccedil;ou a haver um probleminha, que partiu n&atilde;o se sabe bem de onde… a gente imagina mas enfim, mas ela vai parar no gabinete do Prefeito. E a longa hist&oacute;ria curta &eacute; que eu estava em Minas [Gerais] fazendo uma palestra e estava falando com a Clarissa Diniz sobre a reuni&atilde;o que teria no outro dia no MAR, e soube que a Secret&aacute;ria [Municipal de Cultura] iria e que haveria uma interven&ccedil;&atilde;o. Eles estavam sentindo que haveria uma interven&ccedil;&atilde;o, mas eles me disseram isto: &ldquo;n&oacute;s vamos segurar a exposi&ccedil;&atilde;o&rdquo;. &Agrave;s sete da manh&atilde;, antes de ir para a palestra, eu falo com o presidente do MAR ao telefone e digo para ele: &ldquo;Gradim, &eacute; o seguinte, eu acho que voc&ecirc;s devem fazer a defesa da exposi&ccedil;&atilde;o por quest&atilde;o de princ&iacute;pio institucional, mas se a situa&ccedil;&atilde;o ficar como ela est&aacute; parecendo que vai ficar, voc&ecirc;s recuem&rdquo; - inclusive, porque eles estavam sinalizando que pediriam demiss&atilde;o em massa, porque era insustent&aacute;vel que uma institui&ccedil;&atilde;o fosse censurada e assim por diante – &ldquo;voc&ecirc;s devem recuar, porque na minha opini&atilde;o, a Queermuseu ter&aacute; um outro lugar&rdquo;. Eu juro que disse com essas palavras e n&atilde;o conhe&ccedil;o curador que faria isso: a Queermuseu ter&aacute; um outro lugar e o MAR n&atilde;o existir&aacute; se houver uma interven&ccedil;&atilde;o da Prefeitura, nesses termos que eles est&atilde;o colocando que eu n&atilde;o posso nem dizer para ti porque vou dizer no meu livro. Ent&atilde;o foi isso que eles fizeram. Mas eu acho que a coragem do MAR fica muito definida. Teve muita gente que criticou o MAR sobre isso, mas eu n&atilde;o porque acompanhei todo o processo e sei como foi, porque eles lan&ccedil;aram uma nota - apesar de tudo, apesar das amea&ccedil;as do prefeito - dizendo &ldquo;n&oacute;s somos a favor que a exposi&ccedil;&atilde;o fosse feita aqui&rdquo;. E eles foram em frente ainda, alt&iacute;ssimo risco. As amea&ccedil;as que ele [Prefeito Marcelo Crivella] fez foram assim: &ldquo;amanh&atilde;, todos os evang&eacute;licos estar&atilde;o aqui e tchau para o museu&rdquo;, foi assim. Bom, quando sai essa not&iacute;cia, algu&eacute;m me diz assim: &ldquo;Voc&ecirc; viu que o Diretor do Parque Lage disse que vai levar a exposi&ccedil;&atilde;o para o Rio? Eu disse, quem? Porque eu n&atilde;o conhecia o F&aacute;bio [Szwarcwald], eu s&oacute; disse &ldquo;Ah, que &oacute;timo&rdquo; e fui fazer outra palestra e foi isso que aconteceu. Ele n&atilde;o falou comigo, enfim, mas a&iacute; nesse meio tempo eu sou chamado pelo [coletivo art&iacute;stico] 342, a Paula [Lavigne] fala comigo, pede que eu v&aacute; ao Rio. Eu estava numa outra palestra em S&atilde;o Paulo (naquela miss&atilde;o&hellip; era uma palestra por dia&hellip;), eu disse &ldquo;n&atilde;o vai dar tempo!&rdquo;. Eu acabei chegando l&aacute; era dez e meia da noite. J&aacute; tinha um est&uacute;dio preparado, 150 pessoas estavam l&aacute;, inclusive o F&aacute;bio, e foi quando eu conversei com ele. E foi uma coisa assim, vamos conversar amanh&atilde;, e foi isso. A&iacute; n&oacute;s gravamos aquele v&iacute;deo em defesa da liberdade de express&atilde;o, contra a censura, que atingiu uma visualiza&ccedil;&atilde;o absurda, mais de cinco milh&otilde;es e quinhentos e tantos mil compartilhamentos. Mas a campanha j&aacute; estava em curso e ela cresce, cresce, cresce&hellip; </p>     <p> <b>E n&atilde;o teve nenhuma restri&ccedil;&atilde;o do Governo do Estado do Rio de Janeiro?</b> </p>     <p> N&atilde;o. Ao contr&aacute;rio. No outro dia o F&aacute;bio convida o Secret&aacute;rio [Estadual de Cultura, Andr&eacute; Lazaroni], e ele est&aacute; na reuni&atilde;o, e a reuni&atilde;o foi &oacute;tima. Tudo correu bem, mas houve depois algumas interfer&ecirc;ncias no final, porque quando o [Secret&aacute;rio] Leandro [Monteiro] assume a Secretaria, o Leandro tem muitas dificuldades com a exposi&ccedil;&atilde;o, e num determinado momento ele demite o F&aacute;bio nas v&eacute;speras da exposi&ccedil;&atilde;o, o que ocupou a imprensa nacional. Eu liguei para o ex-secret&aacute;rio e para o Leandro e disse que se ele n&atilde;o fosse restitu&iacute;do imediatamente, a exposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ia acontecer com a outra diretora, que eu nem conhecia. Porque voc&ecirc; n&atilde;o pode pegar uma exposi&ccedil;&atilde;o daquela envergadura, com aqueles empr&eacute;stimos, com aquela complexidade, com seguro, com toda a engenharia, com a quest&atilde;o pol&iacute;tica que tem por tr&aacute;s e dali a quinze dias abrir, com uma pessoa que desconhece a exposi&ccedil;&atilde;o. E eles restitu&iacute;ram o F&aacute;bio [Szwarcwald] naquela noite. Essa &eacute; a verdadeira hist&oacute;ria. Ela mais ou menos circula pela imprensa. Houve tamb&eacute;m um movimento forte do 342 contra a demiss&atilde;o dele, que colaborou imensamente. Mas eu tamb&eacute;m dei esse telefonema, porque cabia a mim como curador tomar uma decis&atilde;o independente da quest&atilde;o pol&iacute;tica. Ent&atilde;o a&iacute; s&atilde;o teorias conspiracionais, voc&ecirc; poderia me perguntar: houve alguma interven&ccedil;&atilde;o do [Prefeito Marcelo] Crivella? Porque foi um desafio ao [Prefeito Marcelo] Crivella fazer a exposi&ccedil;&atilde;o no Rio. Quando o Crivella faz aquele v&iacute;deo acusando a exposi&ccedil;&atilde;o de pedofilia, eu acionei ele judicialmente (porque n&atilde;o tem nada que eu n&atilde;o tenha feito), porque achei que tinha que fazer uma defesa, e n&atilde;o era uma defesa do m&eacute;rito da exposi&ccedil;&atilde;o, eu tenho at&eacute; feito essa ressalva muito contundentemente. Eu n&atilde;o defendi o m&eacute;rito da exposi&ccedil;&atilde;o enquanto ela estava fechada. Eu defendi antes, obviamente como curador, nas dezenas de entrevistas que dei antes de a exposi&ccedil;&atilde;o fechar. Mas quando a exposi&ccedil;&atilde;o fechou a discuss&atilde;o para mim era outra. A discuss&atilde;o era sobre liberdade de express&atilde;o, sobre democracia, sobre esse crime contra a arte e contra a cultura brasileiras, sobre a criminaliza&ccedil;&atilde;o da arte e assim por diante. Em defesa dessas quest&otilde;es eu utilizei todos os recursos dentro da lei que eu achava que deveriam ser utilizados, com base na Constitui&ccedil;&atilde;o. Judicializar, eu achei que era importante, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico (MP), todas as a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas que n&oacute;s fizemos. E a&iacute; n&oacute;s organizamos tamb&eacute;m, durante o processo pr&eacute;-abertura da Queermuseu v&aacute;rios eventos no Rio, para dar um substrato para a exposi&ccedil;&atilde;o e dar mais visibilidade, e evidentemente o <i>crowdfunding</i>, que foi muito preparado. E ele &eacute; muito bem-sucedido porque tem uma das causas mais leg&iacute;timas e populares que voc&ecirc; pode imaginar, que &eacute; reabrir uma exposi&ccedil;&atilde;o pelas m&atilde;os da sociedade brasileira e ali&aacute;s, muitas pessoas perguntaram isso: &ldquo;voc&ecirc;s fizeram isso porque n&atilde;o tinham patroc&iacute;nio?&rdquo; Eu acho que a gente teria patroc&iacute;nio, porque a m&iacute;dia que a exposi&ccedil;&atilde;o tem &eacute; absurda. Mas a decis&atilde;o que a gente tomou e que veio de mim foi assim: n&oacute;s agora vamos reabrir essa exposi&ccedil;&atilde;o pelas m&atilde;os da sociedade brasileira. &Eacute; esta a mensagem pol&iacute;tica que n&oacute;s vamos mandar. E a&iacute; saiu a ideia do <i>crowdfunding</i>. S&oacute; que os <i>crowdfundings</i>, com exce&ccedil;&atilde;o daquele &ldquo;Jornada para a Democracia&rdquo; da [ex-presidente] Dilma [Rousseff], nunca tinham atingido um patamar acima de 600mil [reais] e n&oacute;s precis&aacute;vamos de 800mil, no m&iacute;nimo. Quem ia fazer o <i>crowdfunding</i> do MAR seria a ‘Catarse', e a&iacute; acabou que o pessoal da ‘Benfeitoria' se aliou e n&atilde;o nos cobraram taxas, eles queriam se envolver no processo, e ali&aacute;s, estrategicamente foram muito bem, eles bateram o recorde. Eles achavam que era imposs&iacute;vel ultrapassar a faixa dos 350 - e eu me lembro que tive uma conversa com o F&aacute;bio e disse que tinha que ser 700 para come&ccedil;ar, mas n&atilde;o vai dar, as pessoas v&atilde;o levar um susto e tamb&eacute;m n&atilde;o vai chegar o dinheiro, ent&atilde;o vamos colocar 690 - mas aquilo foi considerado uma loucura. A gente planejou muito bem e quando apertamos o bot&atilde;o do <i>crowdfunding</i> ele estava preparado para ser bem-sucedido. Quando eu comecei a fazer aquelas palestras eu j&aacute; estava dizendo para as pessoas: &ldquo;n&oacute;s vamos reabrir a exposi&ccedil;&atilde;o, ser&aacute; atrav&eacute;s de um <i>crowdfunding</i> e n&oacute;s precisamos da colabora&ccedil;&atilde;o de voc&ecirc;s&rdquo;. Em cada lugar que eu ia fazia isso. Ent&atilde;o, eu realmente me imbu&iacute; dessa tarefa e decidi que ela seria bem-sucedida. E acreditava que se ela fosse, isso seria um s&iacute;mbolo para um momento futuro que eu j&aacute; estava antecipando. Eu disse: &ldquo;se preparem, vai bater na porta de todo mundo, as universidades ser&atilde;o atacadas daqui a semanas&rdquo;. E a&iacute; eu vi que as pessoas olharam, eu tinha alguma mediunidade? N&atilde;o. Por ter sido diretor do MARGS [Museu de Arte do Rio Grande do Sul], depois a Bienal, eu j&aacute; estava sentindo que a Queermuseu era apenas o come&ccedil;o. </p>     <p> <b> George Y&uacute;dice refere que &ldquo;a performatividade hoje &eacute; aplicada ao social, inaugura uma nova epistemologia do engajamento social&rdquo;. Eu gostaria que voc&ecirc; falasse um pouco sobre como v&ecirc; a possibilidade dessa n&atilde;o heteronormatividade, a prop&oacute;sito do <i>queer</i>, se isso tem entrada no espa&ccedil;o da cidade neoliberal de hoje. Acho que a exposi&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m deu elementos para se pensar as cidades, as pessoas, as institui&ccedil;&otilde;es e a arte. A arte pode alguma coisa, dentro desse estado de coisas que a gente vive? O exemplo &eacute; do Brasil, mas eu acho que isso extrapola tamb&eacute;m para os reacionarismos e conservadorismos atuais na Europa&hellip; Como voc&ecirc; pensa a est&eacute;tica <i>queer</i> no espa&ccedil;o da cidade hoje? </b> </p>     <p> Isso &eacute; muito importante. Escrevi um texto - deve ter sido em 2014, foi publicado em um dos livros te&oacute;ricos da Bienal - que era sobre o que chamei de curadoria n&atilde;o heteronormativa, a&iacute; j&aacute; d&aacute; aquele estremecimento. Curadoria n&atilde;o heteronormativa n&atilde;o &eacute; uma ideia de que voc&ecirc; s&oacute; vai fazer exposi&ccedil;&otilde;es com artistas e obras com inclina&ccedil;&atilde;o LGBT, n&atilde;o! &Eacute; de que voc&ecirc; vai, de novo, inverter o pensamento, fazer uma invers&atilde;o reflexiva e talvez uma mudan&ccedil;a epistemol&oacute;gica, porque a heteronormatividade &eacute; pervasiva. Assim como a quest&atilde;o do olfato, para mim tamb&eacute;m era isso. A&iacute; eu escrevi isso, mas na &eacute;poca, eu escrevi meio assim, eu tenho esse h&aacute;bito de escrever coisas que acho que s&atilde;o mais especulativas e que eu sei que daqui a pouco vou elaborar mais, &eacute; um processo. V&aacute;rias vezes durante a Queermuseu eu disse que as pessoas tinham que pensar de uma maneira mais <i>queer</i>, e tamb&eacute;m fui criticado pelo uso dessa palavra. Inclusive, por me manter atrelado &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o da palavra em ingl&ecirc;s. Porque ela tem um hist&oacute;rico tamb&eacute;m e eu sou meio ortodoxo no sentido da minha rela&ccedil;&atilde;o com a l&iacute;ngua. Ent&atilde;o eu acreditava que deveria me manter fiel &agrave; palavra. Existem outras, e estou ciente de todas as tentativas de re-situar ela de outra forma, num contexto da l&iacute;ngua portuguesa, e assim por diante, no Brasil, por exemplo. Mas penso que n&oacute;s ter&iacute;amos que ultrapassar determinadas barreiras, cognitivas inclusive, conceituais e pol&iacute;ticas e ideol&oacute;gicas e enfrentar a quest&atilde;o <i>queer</i> pela contribui&ccedil;&atilde;o extraordin&aacute;ria que ela tem que dar sob o ponto de vista da sua amplitude semiol&oacute;gica. Eu penso que a Queermuseu obviamente tinha o papel de traduzir isso a partir de obras, imagens. Eu considero a Queermuseu uma exposi&ccedil;&atilde;o de imagens, mesmo com obras tridimensionais. Considero que a gente devia pensar a Queermuseu como um mundo das imagens. E eu creio que esse entendimento do mundo a partir de uma perspectiva <i>queer</i>, assim como por exemplo, a partir de outros sentidos que n&atilde;o sejam exclusivamente aquele do olhar, no caso do olfato, ou do tato e assim por diante. O tato &eacute; meio autom&aacute;tico para n&oacute;s porque somos n&atilde;o s&oacute; obrigados a tocar nas coisas, mas muitas vezes proibidos de tocar nas coisas, como &eacute; o caso de objetos museol&oacute;gicos. A consci&ecirc;ncia do tato para n&oacute;s &eacute; quase que inerente, enquanto que o olfato &eacute; perturbador. E esses lugares da perturba&ccedil;&atilde;o s&atilde;o importantes porque, para mim eles est&atilde;o dentro do territ&oacute;rio da desobedi&ecirc;ncia civil. Que ali&aacute;s, &eacute; uma coisa que sofreu uma distor&ccedil;&atilde;o e se transformou num campo de batalha e de ataques, inclusive de setores da extrema direita e em dire&ccedil;&atilde;o aos setores mais progressistas da sociedade. A Hannah Arendt tem um texto de 1970, sobre desobedi&ecirc;ncia civil, na revista The New Yorker, e ela fala que a desobedi&ecirc;ncia civil &eacute; fundamental porque &eacute; o mecanismo contra-jur&iacute;dico num certo sentido, e que permite a manifesta&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as sob o ponto de vista qualificado, se eu tivesse que resumir numa frase um artigo de 30 p&aacute;ginas. Ent&atilde;o &eacute; muito importante essa perturba&ccedil;&atilde;o. Veja bem que eu estou no universo da arte, ela ingressa nesse territ&oacute;rio e trazer isso para dentro de uma exposi&ccedil;&atilde;o &eacute; importante para mim. E qualquer manifesta&ccedil;&atilde;o <i>queer</i>, o que &eacute; muito ampla, um guarda-chuva que seja, o que &eacute; muito amplo, e que consegue ingressar em territ&oacute;rios da arte, da cultura e diversos outros setores, ela &eacute; muito instrumental para n&oacute;s termos outras avenidas de pensamento e de interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Eu sou simp&aacute;tico &agrave; ideia de inserir o <i>queer</i> na sigla LGBT, ou seja, LGBTQ, porque as outras denomina&ccedil;&otilde;es s&atilde;o mais restritivas e o <i>queer</i> &eacute; mais amplo, ele consegue abarcar algumas coisas que as outras n&atilde;o conseguem. Isto est&aacute; na literatura, n&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m nenhuma novidade. Mas eu entendo que para muitas pessoas ela &eacute; um inc&ocirc;modo porque como sai muito do universo identit&aacute;rio e essencialista, parece que fica uma coisa meio despolitizada. Eu percebo isso na cabe&ccedil;a das pessoas, mas n&atilde;o acho assim. Eu acho que &eacute; o contr&aacute;rio, mas veja bem que n&atilde;o &eacute; consenso. &Eacute; um pouco isso que a exposi&ccedil;&atilde;o objetivava. </p>     <p> Eu queria concluir com uma coisa, que &eacute; o seguinte (eu posso dizer uma frase que &eacute; muito categ&oacute;rica e eu vou fazer uma defesa dela, tenho feito e tenho vencido essa defesa): eu penso que a Queermuseu inaugura para a sociedade brasileira, de forma definitiva, um debate sobre g&ecirc;nero e sexualidade no Brasil. As pessoas poderiam dizer que isso j&aacute; existia. Mas era restrito, no &acirc;mbito da academia, nas pautas da comunidade LGBT, no movimento feminista, evidentemente, mas n&atilde;o na escala extraordin&aacute;ria que a Queermuseu projeta, onde l&aacute; no interior algu&eacute;m ordenhando as vacas est&aacute; discutindo a exposi&ccedil;&atilde;o, nos anivers&aacute;rios, nas festas de fam&iacute;lia, casais se separaram por causa da exposi&ccedil;&atilde;o, outros se conheceram por causa da exposi&ccedil;&atilde;o. As pessoas ficaram um ano debatendo esse assunto. Por qualquer via que fosse, pelo bem ou pelo mal, elas estavam debatendo esse assunto. Ent&atilde;o ela inaugura isso de uma maneira definitiva e, ao mesmo tempo faz isso a partir de um di&aacute;logo que se considerava at&eacute; ent&atilde;o imposs&iacute;vel, que uma exposi&ccedil;&atilde;o de arte pudesse fazer isso. E derruba uma outra barreira que &eacute; a seguinte: exposi&ccedil;&otilde;es de arte s&atilde;o extremamente elitistas, destinadas a um grupo restrito de iniciados e elas n&atilde;o podem ser debatidas no espa&ccedil;o p&uacute;blico, na arena p&uacute;blica. E a Queermuseu derruba essa barreira. </p>     <p> <b>A Queermuseu cumpriu seus objetivos?</b> </p>     <p> Sem d&uacute;vida! Eu acho que a grande contribui&ccedil;&atilde;o que ela d&aacute; &eacute; justamente instituir esse debate e fazer esse debate atrav&eacute;s da arte. Ou seja, goste ou n&atilde;o goste de arte, as pessoas t&ecirc;m que passar por ele, n&atilde;o tem jeito.</p> </font>     ]]></body>

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