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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p><b>Poblete, Juan (org.) (2018), <i>New Approaches to Latin American Studies</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Vin&iacute;cius Mendes</b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-1327-9640">https://orcid.org/0000-0002-1327-9640</a></p>     
<p>Mestrando em Sociologia na Faculdade de Filosofia, letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, Universidade de S&atilde;o Paulo Rua do Lago, 717, Diretoria e Administra&ccedil;&atilde;o, Cidade Universit&aacute;ria, S&atilde;o Paulo-SP, CEP 05508-080, Brasil <a href="mailto:vinicius.mendes@usp.br">vinicius.mendes@usp.br</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>New Approaches to Latin American Studies</b></p>     <p><b>Juan Poblete</b></p>     <p><b>Poblete, Juan (org.) (2018), <i>New Approaches to Latin American Studies</i>. New York: Routledge, 292 pp.</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>O momento em que narrativas, projetos, pesquisas e mesmo pr&aacute;ticas alinhadas ao pensamento p&oacute;s-colonial (ou decolonial) ganham cada vez mais um espa&ccedil;o pr&oacute;prio nas academias latino-americanas &ndash; para al&eacute;m dos paradigmas te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos herdados de outras regi&otilde;es colonizadas do mundo &ndash;, parece ser tamb&eacute;m aquele em que os pr&oacute;prios par&acirc;metros da investiga&ccedil;&atilde;o se tornam elementos a serem investigados. &Eacute; nesse sentido que o termo &ldquo;giro&rdquo; (<i>turn</i>), que atravessa os 16 artigos reunidos na colet&acirc;nea <i>New Approaches to Latin American Studies</i> &ndash; organizada por Juan Poblete e publicada em 2018 &ndash;, n&atilde;o se refere apenas a essa abordagem como um todo, mas tamb&eacute;m a uma mir&iacute;ade de novos conceitos, objetos, fen&ocirc;menos e sujeitos que, afastados dos focos das pesquisas existentes at&eacute; ent&atilde;o, podem fornecer imagens ainda desconhecidas da Am&eacute;rica Latina.</p>     <p>S&atilde;o 21 autores de diferentes pontos do continente americano que, lecionando e pesquisando de Buenos Aires at&eacute; Los Angeles, atravessam temas centrais ao pensamento latino-americano. Da mesma forma, a colet&acirc;nea privilegiou uma certa interdisciplinaridade aos ambientes acad&ecirc;micos da regi&atilde;o: re&uacute;ne soci&oacute;logos como Pablo Alabarces e Ana Wortman (Universidad de Buenos Aires), antrop&oacute;logas como Nancy Postero (University of California) e historiadores como Roberto Cavooris (University of California). No entanto, a maior parte dos cap&iacute;tulos foi escrita por te&oacute;ricos e pesquisadores dos campos da literatura e da cultura, como Claudia de Lima Costa (Universidade Federal de Santa Catarina), Nelson Maldonado-Torres (Rutgers University), e o pr&oacute;prio organizador, Juan Poblete (University of California).</p>     <p>Todos os cap&iacute;tulos sugerem um poss&iacute;vel giro sobre algum pilar epistemol&oacute;gico &ndash; da &eacute;tica (Erin Zivin, University of Southern California) &agrave; subalternidade (Gareth Williams, University of Michigan), dos estudos culturais (Mabel Mora&ntilde;a, Washington University) &agrave; <i>performance</i> (Angela Marino, University of California). Assim, o livro se apresenta, antes de ir aos fen&ocirc;menos em si, como uma s&eacute;rie de projetos epistemol&oacute;gicos &ndash; ainda que seja elaborado por pesquisadores e professores latino-americanos e estadunidenses imbricados em outro projeto: aquele que leva o nome de Latin American studies (estudos latino-americanos, em portugu&ecirc;s), e que se concentra nas universidades estadunidenses, dando-lhes o r&oacute;tulo de latino-americanistas (porque estudam a regi&atilde;o a partir dos Estados Unidos da Am&eacute;rica &ndash; EUA), o que n&atilde;o dispensa cr&iacute;ticas como as feitas por Silvia Rivera Cusicanqui (2010).<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p>     <p>Neste projeto, alguns conceitos-chave que permearam o pensamento latino-americano at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o poderiam passar inc&oacute;lumes, porque pautam debates importantes h&aacute; pelo menos duas d&eacute;cadas &ndash; como os de Estado-na&ccedil;&atilde;o, modernidade e democracia, que s&atilde;o reavaliados &ndash; enquanto outros surgem inevitavelmente no horizonte &ndash; tais como transnacionalismo, feminismo e cultura popular.</p>     <p>Isso se v&ecirc; no cap&iacute;tulo de Nicole Fabricant (Towson University) e Nancy Postero sobre o &ldquo;giro ind&iacute;gena&rdquo;: pesquisadores de diversas abordagens se debru&ccedil;aram sobre os ind&iacute;genas latino-americanos sempre teorizando o &ldquo;diferente&rdquo;, seja comparando-o a partir de categorias (g&ecirc;nero, classe, etc.) ou discursos hegem&ocirc;nicos (a modernidade, principalmente). Se, por um lado, esse trabalho tem valor, por outro reproduz a mesma percep&ccedil;&atilde;o colonial da diferen&ccedil;a, deixando de lado investiga&ccedil;&otilde;es que possam dar conta da rela&ccedil;&atilde;o dos ind&iacute;genas com o capitalismo, por exemplo. Um caso inevit&aacute;vel parece ser o dos aimar&aacute;s em La Paz, na Bol&iacute;via, que, como sugere a literatura sobre o tema (Espinoza, 2013;<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> Rea Campos, 2016<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>), s&atilde;o atores fundamentais do mercado de trocas dentro e fora das fronteiras nacionais. Essa abordagem &eacute; um giro que ainda est&aacute; por acontecer.</p>     <p>Em outros cap&iacute;tulos, no entanto, como o que trata do giro da mem&oacute;ria, todo esse esfor&ccedil;o de apresenta&ccedil;&atilde;o do percurso te&oacute;rico e emp&iacute;rico dos conceitos acaba com tentativas de respostas. Michel Lazzara (tamb&eacute;m da University of California) mostra, por exemplo, como o conceito de &ldquo;mem&oacute;ria&rdquo; &ndash; depois das ditaduras militares no Cone Sul e do per&iacute;odo de viol&ecirc;ncia na Col&ocirc;mbia &ndash; pode, agora, construir realidades mais palp&aacute;veis: acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, transpar&ecirc;ncia e responsabiliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Poblete, por sua vez, oferece uma densa descri&ccedil;&atilde;o dos estudos em torno do conceito de transnacionalismo em diversas pesquisas feitas nos anos 2000 para, ent&atilde;o, endossar a cr&iacute;tica de que os autores transnacionalistas &ldquo;sobrestimaram a capacidade de alguns Estados nacionais em recriar pol&iacute;ticas de inimizade cujos migrantes, agora constitu&iacute;dos como advers&aacute;rios amea&ccedil;ando o futuro da na&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o os atores centrais&rdquo; (p. 45).<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> O giro transnacional que prop&otilde;e, visto a partir do contexto de migrantes latino-americanos nos EUA, &eacute; dar aten&ccedil;&atilde;o a &ldquo;pontos em comum&rdquo; (<i>points of commonality</i>) e a &ldquo;espa&ccedil;os pol&iacute;ticos compartilhados&rdquo; em que, superando as dicotomias, os &ldquo;migrantes&rdquo; e os &ldquo;nativos&rdquo; encontrariam &ldquo;zonas de contato, fric&ccedil;&otilde;es e interdepend&ecirc;ncia&rdquo; (p. 47).</p>     <p>Em outros cap&iacute;tulos, por&eacute;m, esse trabalho de recupera&ccedil;&atilde;o dos conceitos, objetos, fen&ocirc;menos e sujeitos &eacute; feito apenas para que o giro possa se realizar: &eacute; o que faz Pablo Alabarces sobre a ideia de &ldquo;cultura popular&rdquo; &ndash; refor&ccedil;ando, para isso, o pr&oacute;prio fato de ser um autor que escreve e leciona a partir da Argentina, pa&iacute;s onde nasceu. Presa primeiro aos textos frankfurtianos e ao sistema emissor-receptor e depois &agrave; cr&iacute;tica contumaz de Jesus Mart&iacute;n-Barbero sobre as media&ccedil;&otilde;es entre meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa e os espectadores, a virada na ideia de &ldquo;cultura popular&rdquo; na Am&eacute;rica Latina depende de &ldquo;algo mais&rdquo;. Falar dela &eacute;</p>     <p>(...) falar de pr&aacute;ticas e representa&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o ou podem estar para al&eacute;m da m&iacute;dia de massa, da simples refer&ecirc;ncia da cultura de massa entendida como os modos variados pelos quais bens simb&oacute;licos s&atilde;o produzidos, distribu&iacute;dos e consumidos com a media&ccedil;&atilde;o da &ndash; especialmente eletr&ocirc;nica &ndash; ind&uacute;stria cultural. (p. 51)</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Essas pr&aacute;ticas e representa&ccedil;&otilde;es parecem ser encontradas na dan&ccedil;a e na m&uacute;sica populares, na sexualidade, no espa&ccedil;o, no trabalho, nas festas, na religiosidade, no conservadorismo popular e, por que n&atilde;o, na pol&iacute;tica comunit&aacute;ria &ndash; todas ausentes da media&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, mas onde o giro j&aacute; est&aacute; em curso.</p>     <p>Mabel Mora&ntilde;a, diretora de Latin American studies na Washington University (EUA), em seu cap&iacute;tulo sobre a recep&ccedil;&atilde;o dos estudos culturais na Am&eacute;rica Latina e a sua consequente virada em meio ao p&oacute;s-colonialismo, chega a conclus&otilde;es semelhantes: &agrave; medida que as categorias r&iacute;gidas de an&aacute;lise foram se enfraquecendo &ndash; como na&ccedil;&atilde;o, cultura nacional, identidade e cidadania &ndash;, houve na Am&eacute;rica Latina, tamb&eacute;m por causa desse arcabou&ccedil;o dos estudos culturais, uma hibridiza&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica e uma abertura a conhecimentos alternativos &agrave; modernidade liberal euroc&ecirc;ntrica. Al&eacute;m disso, os estudos culturais serviram, ao menos do ponto de vista da an&aacute;lise, para dissolver os muros que separavam a &ldquo;alta cultura&rdquo; da &ldquo;cultura popular&rdquo;:</p>     <p>A no&ccedil;&atilde;o de cultura inclui agora um largo espectro que vai da ind&uacute;stria cultural &agrave;s comunica&ccedil;&otilde;es; da arte, pol&iacute;tica, literatura, publicidade e consumo aos esportes, &eacute;tica, movimentos sociais, filosofia e folclore. (p. 98)</p>     <p>Mais &aacute;cida &eacute; a cr&iacute;tica de Gareth Williams, ao apontar a virada decolonial latino-americana dos anos 1990 para c&aacute;, alicer&ccedil;ada sobre o conceito de colonialidade de An&iacute;bal Quijano, como produto de um &ldquo;crioulismo&rdquo; que se expressara antes em Jos&eacute; Mart&iacute; e na sua ideia de &ldquo;Nuestra America&rdquo;, uma das primeiras tentativas de diferencia&ccedil;&atilde;o entre latino-americanos (do M&eacute;xico para sul) e americanos do Norte (Canad&aacute; e EUA), e que se identificou com a leitura indigenista de Karl Marx feita por Jos&eacute; Carlos Mari&aacute;tegui. Assim, &ldquo;Quijano (...) retorna para o pensamento do p&oacute;s-independ&ecirc;ncia calcado essencialmente em no&ccedil;&otilde;es de cidadania, identidade, diferen&ccedil;a e representa&ccedil;&atilde;o&rdquo; (p. 83).</p>     <p>Mas h&aacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o ainda maior que atravessa o conjunto dos textos: a suposi&ccedil;&atilde;o de que a Am&eacute;rica Latina &eacute; uma regi&atilde;o dada, como a divis&atilde;o que se encontra em Mart&iacute; e que, da poesia &agrave; milit&acirc;ncia, recai sobre o Rio Grande. Ao contr&aacute;rio, n&atilde;o apenas a territorialidade dessa latinidade, isto &eacute;, sua localiza&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica, mas a sua pr&oacute;pria latinidade, que constr&oacute;i um sujeito &ldquo;latino-americano&rdquo;, poderiam ser objetos de reflex&atilde;o de muitas dessas viradas. Talvez essa seja, de fato, o pr&oacute;ximo grande giro do pensamento cr&iacute;tico da e sobre a regi&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Rivera Cusicanqui, Silvia (2010), <i>Ch&rsquo;ixinakax utxiwa: una reflexion sobre practicas y discursos descolonizadores</i>. Buenos Aires: Tinta Limon.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Espinoza, Fran (2013), &ldquo;Bolivia, elite sectorial chola y elite politica: las ambivalencias de su relacion&rdquo;, <i>Anuario de Accion Humanitaria y Derechos Humanos</i>, 11, 141-160.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Rea Campos, Carmen Rosa (2016), &ldquo;Complementando racionalidades: la nueva pequena burguesia aymara em Bolivia&rdquo;, <i>Revista Mexicana de Sociolog</i>i<i>a</i>, 78(3), 375-407.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Todas as tradu&ccedil;&otilde;es apresentadas s&atilde;o da responsabilidade do autor.</p>      ]]></body>
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