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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Contrastes e Continuidades - Migração, Etnicidade e Integração dos Guineenses em Portugal]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p>Fernando Lu&iacute;s Machado, <b>Contrastes e Continuidades &#8212; Migra&ccedil;&atilde;o,    Etnicidade e Integra&ccedil;&atilde;o dos Guineenses em Portugal,</b> Oeiras,    Celta Editora, 2002, 464 p&aacute;ginas. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Se para definir esta obra tiv&eacute;ssemos de escolher um dos voc&aacute;bulos    do t&iacute;tulo, a op&ccedil;&atilde;o recairia, inevitavelmente, no termo    continuidade(s). Continuidade num trabalho rigoroso e s&oacute;lido que Fernando    Lu&iacute;s Machado vem desenvolvendo h&aacute; mais de dez anos em torno de    quest&otilde;es como a integra&ccedil;&atilde;o dos imigrantes e, especialmente,    a identifica&ccedil;&atilde;o dos seus &laquo;espa&ccedil;os de etnicidade&raquo;    no contexto da sociedade portuguesa, continuidade relativamente ao aprofundamento    de determinadas tem&aacute;ticas (e. g., politiza&ccedil;&atilde;o da etnicidade)    que, inicialmente, se revelaram temas pioneiros na an&aacute;lise cient&iacute;fica    da imigra&ccedil;&atilde;o em Portugal, continuidade, enfim, em termos de aprofundamento    de um caso de estudo (os guineenses) ao qual &eacute; aplicado o modelo anal&iacute;tico    constru&iacute;do pelo autor (os cap&iacute;tulos 3 e 4 s&atilde;o, neste dom&iacute;nio,    os mais did&aacute;cticos) ap&oacute;s an&aacute;lise do quadro migrat&oacute;rio    da Guin&eacute;-Bissau e dos percursos dos migrantes (cap&iacute;tulo 2) <sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.  </p>     <p>Este modelo anal&iacute;tico, explicitado de forma elegante na segunda metade    do cap&iacute;tulo I, est&aacute; assente em pressupostos bem definidos, concebendo    &laquo;a etnicidade <sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> como um    espa&ccedil;o de contrastes e continuidades&#8230;&raquo; (p. 63) em rela&ccedil;&atilde;o    ao grupo de refer&ecirc;ncia (a <i>maioria</i> da sociedade de destino), constru&iacute;do    a partir de dois eixos estruturantes (simplificadamente, o <i>social</i> e    o <i>cultural</i>). </p>     <p>Cada um destes eixos estruturantes &eacute;, por sua vez, decomposto em tr&ecirc;s    dimens&otilde;es que, no caso social, correspondem &agrave; <i>composi&ccedil;&atilde;o    de classe</i> (a que o autor atribui um car&aacute;cter prim&aacute;rio, uma    vez que condiciona, &laquo;mais do que as outras, a posi&ccedil;&atilde;o particular    de cada minoria nesse espa&ccedil;o e a possibilidade de essa posi&ccedil;&atilde;o    se alterar no tempo...&raquo;) (p. 39), <i>&agrave; localiza&ccedil;&atilde;o    residencial e &agrave; estrutura et&aacute;ria e sexual</i>. Relativamente    ao eixo cultural, as tr&ecirc;s dimens&otilde;es consideradas s&atilde;o a <i>l&iacute;ngua</i>,    a <i>religi&atilde;o</i> e a <i>sociabilidade</i>/<i>padr&otilde;es matrimoniais</i>,    que assumem o car&aacute;cter de centralidade atribu&iacute;do &agrave; composi&ccedil;&atilde;o    de classe no eixo social. </p>     <p>A operacionaliza&ccedil;&atilde;o do modelo, pensado para um contexto caracterizado    por uma popula&ccedil;&atilde;o maiorit&aacute;ria e v&aacute;rias popula&ccedil;&otilde;es    minorit&aacute;rias, mas pass&iacute;vel de aplica&ccedil;&atilde;o noutras    situa&ccedil;&otilde;es, permite verificar a relev&acirc;ncia da etnicidade    para as diferentes popula&ccedil;&otilde;es a que &eacute; aplicado o modelo    &#8212; quanto maiores forem os contrastes sociais e culturais das minorias    relativamente &agrave; maioria, mais relevantes s&atilde;o as perten&ccedil;as    etno-raciais. Trata-se de um modelo virtuoso, claramente formulado do ponto    de vista te&oacute;rico e operacionaliz&aacute;vel (o autor identifica as vari&aacute;veis    que sustentam as seis dimens&otilde;es consideradas) (p. 36), que permite localizar    os v&aacute;rios grupos minorit&aacute;rios presentes em Portugal (popula&ccedil;&otilde;es    dos cinco PALOP, luso-africanos, novos luso-africanos, ciganos e indianos) no    espa&ccedil;o metaf&oacute;rico da etnicidade tanto em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; maioria &#8212; tomada como refer&ecirc;ncia &#8212; como uns em rela&ccedil;&atilde;o    aos outros (p. 47). </p>     <p>N&atilde;o obstante, h&aacute; dois aspectos que merecem um coment&aacute;rio    adicional, que, num dos casos, &eacute; at&eacute; iniciado pelo pr&oacute;prio    autor.</p>     <p> Em primeiro lugar, a designa&ccedil;&atilde;o dos eixos estruturantes como    <i>cultural</i> e, sobretudo, como <i>social</i>, ainda que justificada,    sobretudo no contexto de uma an&aacute;lise sociol&oacute;gica, pressup&otilde;e    alguma simplifica&ccedil;&atilde;o que justificaria uma discuss&atilde;o mais    aprofundada. Porque a obra, pela tem&aacute;tica de que trata e pelo tipo de    argumenta&ccedil;&atilde;o que desenvolve, interessa, evidentemente, a um p&uacute;blico    mais abrangente do que o correspondente aos soci&oacute;logos, antrop&oacute;logos    e estudantes das duas disciplinas, talvez tivesse valido a pena explicitar melhor    por que &eacute; que uma dimens&atilde;o demogr&aacute;fica e uma dimens&atilde;o    espacial (geogr&aacute;fica) aparecem amalgamadas num &uacute;nico eixo apenas    designado como social. Mesmo aceitando a argumenta&ccedil;&atilde;o de Fernando    Lu&iacute;s Machado de que a localiza&ccedil;&atilde;o de classe dos membros    das minorias, de resto muito bem discutida no cap&iacute;tulo 3, com uma interessante    cr&iacute;tica ao conceito de subclasse (<i>underclass</i>), tem um papel    mais relevante na identifica&ccedil;&atilde;o do seu posicionamento no espa&ccedil;o    da etnicidade do que as outras dimens&otilde;es, tal n&atilde;o &eacute; suficiente    para relegar as restantes duas componentes para uma situa&ccedil;&atilde;o de    &laquo;outras dimens&otilde;es sociais&raquo; (p. 41). Ainda que esta observa&ccedil;&atilde;o    se prenda com preocupa&ccedil;&otilde;es inerentes &agrave; minha pr&oacute;pria    filia&ccedil;&atilde;o disciplinar, n&atilde;o se trata de qualquer essencialismo    geogr&aacute;fico, mas t&atilde;o-s&oacute; de valorizar o espa&ccedil;o enquanto    dimens&atilde;o aut&oacute;noma que condiciona e &eacute; condicionada pelos    processos sociais, como, de resto, &eacute; relevado pelo pr&oacute;prio autor.    Isto acontece quer na an&aacute;lise espec&iacute;fica da localiza&ccedil;&atilde;o    geogr&aacute;fica &#8212; estando n&oacute;s de acordo relativamente &agrave;    menor concentra&ccedil;&atilde;o residencial dos imigrantes em Portugal e &agrave;s    caracter&iacute;sticas inter&eacute;tnicas de muitos bairros degradados da AML    <Sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></Sup> &#8212; e da mobilidade espacial    dos migrantes (cap&iacute;tulo 3), quer no cap&iacute;tulo 6, quando se debru&ccedil;a    sobre a menor incid&ecirc;ncia (percebida pelos pr&oacute;prios) de racismo    nos bairros residenciais, afirmando que este &laquo;ser&aacute; mais prov&aacute;vel    quando os membros dessas minorias formam enclaves habitacionais no meio da popula&ccedil;&atilde;o    maiorit&aacute;ria do que quando est&atilde;o dispersos&raquo; (p. 373). Em    s&uacute;mula, partilhamos a opini&atilde;o de outros investigadores <sup><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></sup>    de que a teoria social cr&iacute;tica deve incorporar o espa&ccedil;o como dimens&atilde;o    aut&oacute;noma e n&atilde;o subordinada, combinando-a com outras &#8212; social,    econ&oacute;mica, cultural&#8230; &#8212;, de modo que se obtenham explica&ccedil;&otilde;es    mais completas para os fen&oacute;menos da sociedade. </p>     <p>Um segundo aspecto prende-se com a identifica&ccedil;&atilde;o de &laquo;localiza&ccedil;&otilde;es    m&eacute;dias&raquo; das diferentes minorias, e dos guineenses em particular,    no espa&ccedil;o metaf&oacute;rico da etnicidade. Esta quest&atilde;o &eacute;,    no entanto, muito bem tratada pelo autor, que destaca o facto de as minorias    n&atilde;o serem homog&eacute;neas nas v&aacute;rias dimens&otilde;es que comp&otilde;em    os dois eixos configuradores do espa&ccedil;o da etnicidade. Assumindo as limita&ccedil;&otilde;es    do conceito de comunidade, designadamente pelo facto de pressupor uma vis&atilde;o    falsamente homogeneizadora dos elementos que integram os grupos (p. 436), Machado    d&aacute; um importante realce &agrave;s diferen&ccedil;as internas existentes    nos grupos minorit&aacute;rios, em termos de composi&ccedil;&atilde;o de classe,    rela&ccedil;&otilde;es de g&eacute;nero, filia&ccedil;&atilde;o religiosa e    outros (p. 37). De resto, a an&aacute;lise do grupo correspondente ao caso de    estudo (guineenses) &eacute; sempre segmentada em termos de composi&ccedil;&atilde;o    et&aacute;ria, sexual e profissional, para al&eacute;m de distinguir as situa&ccedil;&otilde;es    de <i>luso-guineenses</i> (guineenses de nacionalidade portuguesa ou portugueses    de origem guineense) e <i>imigrantes</i> (migrantes laborais guineenses propriamente    ditos) e de ter em considera&ccedil;&atilde;o as diferen&ccedil;as entre as    v&aacute;rias &laquo;etnias&raquo; guineenses presentes em Portugal (pap&eacute;is,    manjacos/ mancanhas, mu&ccedil;ulmanos e crioulos) <sup><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></sup>.  </p>     <p>No quadro de uma imigra&ccedil;&atilde;o selectiva, que incide mais particularmente    sobre os grupos mais urbanos e escolarizados (p. 102), &eacute; destacado o    perfil mais favorecido e &laquo;pr&oacute;ximo&raquo; da maioria no caso dos    luso-guineenses (perten&ccedil;a aos segmentos favorecidos das classes m&eacute;dias    urbanas, n&iacute;veis de instru&ccedil;&atilde;o mais elevados, maior significado    das fam&iacute;lias mistas ex&oacute;genas), as origens urbanas, o catolicismo    e a &laquo;criouliza&ccedil;&atilde;o&raquo; dos pap&eacute;is e os menores    recursos sociais de manjacos e mu&ccedil;ulmanos, mais concentrados nas actividades    da constru&ccedil;&atilde;o civil e com rela&ccedil;&otilde;es mais intensas    com a Guin&eacute;. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se este posicionamento cr&iacute;tico de Fernando Lu&iacute;s Machado relativamente    &agrave;s perspectivas homogeneizantes e simplificadoras que tendem a atribuir    um perfil comum a grupos de migrantes marcados por diversas clivagens internas    &eacute; extremamente enriquecedor, &eacute; pena que n&atilde;o tenha aprofundado    um pouco mais a discuss&atilde;o em torno das pr&oacute;prias diferencia&ccedil;&otilde;es    internas da sociedade maiorit&aacute;ria. Efectivamente, n&atilde;o s&atilde;o    apenas as popula&ccedil;&otilde;es minorit&aacute;rias que s&atilde;o marcadas    pela diversidade interna; a assun&ccedil;&atilde;o da maioria enquanto referencial    comum, relativamente homog&eacute;neo, em rela&ccedil;&atilde;o ao qual se identificam    <i>contrastes</i> e <i>continuidades</i>, merecia uma discuss&atilde;o cr&iacute;tica    mais aprofundada. Na verdade, os contrastes &laquo;m&eacute;dios&raquo; podem    esconder continuidades entre maioria e minoria neste ou naquele dom&iacute;nio    espec&iacute;fico (em termos de g&eacute;nero ou posicionamento na estrutura    de classes), e vice-versa. </p>     <p>Se o modo como &eacute; concebido o modelo anal&iacute;tico tem, em nosso entender,    uma aceita&ccedil;&atilde;o mais un&acirc;nime devido ao seu car&aacute;cter    inovador no contexto portugu&ecirc;s e &agrave;s suas virtudes em termos de    clarifica&ccedil;&atilde;o e identifica&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o da    etnicidade e de possibilidade de aplica&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica, a    proposta de leitura do autor relativamente &agrave; rela&ccedil;&atilde;o entre    posicionamento no espa&ccedil;o da etnicidade e n&iacute;vel de inser&ccedil;&atilde;o    na sociedade de destino deixa um campo mais alargado para debate. </p>     <p>Em termos concretos, o autor estabelece uma ponte entre o posicionamento das    diversas popula&ccedil;&otilde;es migrantes nos dois eixos estruturantes da    etnicidade (simplificadamente, o <i>social</i> e o <i>cultural</i>) e os    seus n&iacute;veis de integra&ccedil;&atilde;o na sociedade de destino. Nas    suas palavras, &laquo;etnicidade e integra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o,    portanto, realidades necessariamente antag&oacute;nicas. Se isso acontece nas    situa&ccedil;&otilde;es de duplo contraste, em que contrastes sociais e contrastes    culturais se refor&ccedil;am mutuamente e a etnicidade se constitui como clivagem    &laquo;estrutural &raquo;, nas situa&ccedil;&otilde;es de baixo contraste a    etnicidade &eacute; apenas uma diferen&ccedil;a adicional num sistema mais amplo    de diferen&ccedil;as&#8230;&raquo; (p. 70). Completando esta ideia, atrav&eacute;s    do esclarecimento do significado de cada uma das dimens&otilde;es da etnicidade,    Machado refere que &laquo;a integra&ccedil;&atilde;o tende a ser menor nas minorias    em que, apesar das continuidades culturais, o padr&atilde;o de condi&ccedil;&otilde;es    socioecon&oacute;micas prevalecentes deixa muitos dos seus membros em situa&ccedil;&atilde;o    de pobreza ou vulnerabilidade &agrave; pobreza do que naquelas que, embora culturalmente    contrastantes e fechadas sobre si pr&oacute;prias, n&atilde;o conhecem condi&ccedil;&otilde;es    socioecon&oacute;micas desfavorecidas&raquo; (p. 70). Ao assumir que integra&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; sin&oacute;nimo de homogeneiza&ccedil;&atilde;o cultural    (p. 38) e ao enfatizar os contrastes sociais desvantajosos enquanto elemento    de aprofundamento da exclus&atilde;o das minorias &eacute;tnicas, parece- nos    que o trabalho deixa um pouco impl&iacute;cita nas entrelinhas a valoriza&ccedil;&atilde;o    de um ideal de integra&ccedil;&atilde;o <sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup>,    assente, basicamente, na elimina&ccedil;&atilde;o das desvantagens sociais (contrastes    &laquo;para baixo&raquo; experimentados pelas minorias) e no esfor&ccedil;o    para limitar a reprodu&ccedil;&atilde;o intergeracional destas. O final do cap&iacute;tulo    1 &eacute; relativamente elucidativo quanto a este aspecto, ao estabelecer uma    rela&ccedil;&atilde;o entre uma sociedade potencialmente marcada por situa&ccedil;&otilde;es    de racismo e xenofobia e o agravar dos contrastes sociais e culturais, que tender&atilde;o    a dificultar o processo de integra&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es    migrantes. Nas palavras do autor, &laquo;aumentando os n&iacute;veis de igualdade    de oportunidades e de participa&ccedil;&atilde;o social e pol&iacute;tica dos    membros das minorias migrantes&#8230; os contrastes hoje marcantes dariam lugar    a continuidades n&atilde;o s&oacute; sociais, mas tamb&eacute;m culturais&raquo;    (p. 74). Refira-se que, na perspectiva apresentada, os contrastes culturais,    mesmo que possam atenuar-se na sequ&ecirc;ncia de um processo capaz de gerar    continuidades sociais mais fortes, n&atilde;o representam uma limita&ccedil;&atilde;o    &agrave; integra&ccedil;&atilde;o, correspondendo apenas a tra&ccedil;os de    distin&ccedil;&atilde;o entre grupos de popula&ccedil;&atilde;o, no contexto    de uma sociedade marcada pela pluralidade. Apenas num cen&aacute;rio de agravamento    das situa&ccedil;&otilde;es de exclus&atilde;o (refor&ccedil;o dos contrastes    sociais), apresentado ao fechar do trabalho, o potencial processo de maior &laquo;fechamento    &raquo; das minorias &eacute;tnicas, hetero e autopercebidas como &laquo;estranhas&raquo;    &agrave; sociedade global, contribuiria para transformar a diferencia&ccedil;&atilde;o    cultural &laquo;numa clivagem estrutural socialmente disruptiva&raquo; (p. 441).  </p>     <p>A este debate, que relaciona a integra&ccedil;&atilde;o com os dois eixos sustentadores    da etnicidade, gostar&iacute;amos de acrescentar um terceiro pilar que, no contexto    de uma sociedade marcada por possibilidades acrescidas de mobilidade real e    virtual, tende a assumir uma import&acirc;ncia crescente: a dupla perten&ccedil;a.    Isto &eacute;, o &laquo;jogo em dois tabuleiros&raquo; referido pelo autor (o    da sociedade guineense e o da sociedade portuguesa), mais marcado entre manjacos    e mu&ccedil;ulmanos, tem implica&ccedil;&otilde;es sobre o processo de integra&ccedil;&atilde;o    no destino, podendo mesmo falar-se em &laquo;dupla integra&ccedil;&atilde;o&raquo;,    uma vez que hoje as l&oacute;gicas de perten&ccedil;a e presen&ccedil;a n&atilde;o    v&atilde;o necessariamente a par. Neste sentido, parece-nos importante que os    acad&eacute;micos portugueses que trabalham no dom&iacute;nio das migra&ccedil;&otilde;es    discutam os processos de inser&ccedil;&atilde;o nas sociedades de destino tendo    em considera&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m o contexto relacional, efectivo    ou virtual, que se estabelece com o contexto de origem. Afinal, talvez resida    aqui o nosso maior <i>contraste</i> de perspectiva&#8230;</p>     <p align="right"> Jorge Maca&iacute;sta Malheiros</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Nos cap&iacute;tulos 5, 6    e 7 s&atilde;o tratados temas espec&iacute;ficos &#8212; literacia, racismo    e dimens&atilde;o pol&iacute;tica da etnicidade &#8212; que assumem particular    relev&acirc;ncia no contexto dos debates contempor&acirc;neos sobre imigra&ccedil;&atilde;o    em Portugal. Estes tr&ecirc;s cap&iacute;tulos, que, embora continuem a dar    algum privil&eacute;gio ao caso de estudo guineense e remetam, nos seus encerramentos    respectivos, para uma linha de discuss&atilde;o em termos de contrastes e continuidades,    assumem uma perspectiva mais ampla e mais aut&oacute;noma face ao modelo de    an&aacute;lise predefinido do que as componentes precedentes do texto. Ganha-se    em termos de abrang&ecirc;ncia tem&aacute;tica, mas perde-se alguma coer&ecirc;ncia    interna. Talvez tivesse sido poss&iacute;vel reduzir um pouco estes tr&ecirc;s    cap&iacute;tulos, at&eacute; porque uma parte do seu conte&uacute;do n&atilde;o    &eacute; inteiramente nova em termos do trabalho do autor. </p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a> </sup>Este conceito, discutido de    uma forma cr&iacute;tica, na continuidade de trabalhos anteriores de Fernando    Lu&iacute;s Machado, &eacute; definido como &laquo;a relev&acirc;ncia que, em    certas condi&ccedil;&otilde;es, assume, nos planos social, cultural e pol&iacute;tico,    a perten&ccedil;a a popula&ccedil;&otilde;es &eacute;tnica ou racialmente diferenciadas.    Essa perten&ccedil;a traduz-se e &eacute; veiculada por tra&ccedil;os como l&iacute;ngua,    religi&atilde;o, origem nacional, composi&ccedil;&atilde;o social, padr&otilde;es    de sociabilidade, especificidades econ&oacute;micas e outros&#8230;&raquo; (p.    29).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> V., a este prop&oacute;sito,    Malheiros, &laquo;Minorias &eacute;tnicas e segrega&ccedil;&atilde;o nas cidades    &#8212; uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao caso de Lisboa no contexto da Europa    mediterr&acirc;nica&raquo;, in <i>Finisterra</i>, XXXIII (66), CEG, 1998,    pp. 91-118.</p>     <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> V., a este prop&oacute;sito,    Edward W. Soja, <i>Postmodern Geographies &#8212; The Reassertion of Space    in Critical Social Theory,</i> Londres, Verso, 1989.</p>     <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> Embora a categoriza&ccedil;&atilde;o    das &laquo;etnias&raquo; assente em crit&eacute;rios discut&iacute;veis, incluindo,    por exemplo, os &laquo;mu&ccedil;ulmanos&raquo; (categoria de base religiosa),    mais do que um grupo &eacute;tnico tradicional, a forma como esta est&aacute;    constru&iacute;da acaba por ter vantagens operativas, sintetizando a informa&ccedil;&atilde;o    e facilitando a sua leitura.</p>     <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> Em momento anterior do texto,    Machado faz uma apresenta&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica muit&iacute;ssimo    interessante das teses multiculturalistas e dos seus limites, nomeadamente a    hipervaloriza&ccedil;&atilde;o da perten&ccedil;a de cada indiv&iacute;duo a    uma determinada comunidade pretensamente caracterizada por uma cultura &laquo;&uacute;nica&raquo;    e espec&iacute;fica, relativamente inalter&aacute;vel, e o facto de todos os    processos de acultura&ccedil;&atilde;o serem impostos pelas culturas dominantes    (p. 24).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
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