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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[João Franco e o Fracasso do Reformismo Liberal (1884-1908)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p>Rui Ramos, <b>Jo&atilde;o Franco e o Fracasso do Reformismo Liberal (1884-1908)</b>,    Lisboa, Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2001, 222 p&aacute;ginas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> A ing&eacute;nua cren&ccedil;a do positivismo historiogr&aacute;fico oitocentista    de que era poss&iacute;vel descobrir a verdade &laquo;hist&oacute;rica&raquo;    ou a &laquo;verdade&raquo; acontecida plasmada em documentos manuscritos e &uacute;nicos,    cuja heur&iacute;stica, cr&iacute;tica interna e externa e hermen&ecirc;utica    rigorosa constitu&iacute;am as pedras de toque metodol&oacute;gicas da &laquo;escola&raquo;    erudito-met&oacute;dica com s&oacute;lidas e perenes ra&iacute;zes no meio acad&eacute;mico    portugu&ecirc;s, foi facilmente desmontada ao longo do s&eacute;culo XX pela    cr&iacute;tica certeira de pensadores e de historiadores l&uacute;cidos e atentos    para os quais a media&ccedil;&atilde;o narrativa dos factos era uma constru&ccedil;&atilde;o    mental e subjectiva. Era, em suma, o reconhecimento da impossibilidade de uma    &laquo;verdade pura e externa&raquo; ao sujeito &#8212; o sujeito que ingloriamente    a procurava e que, afinal, inevitavelmente a (re)constru&iacute;a. </p>     <p>Mas, ao mesmo tempo que essa cr&iacute;tica se desenvolvia e afirmava, o grupo    dos <i>Annales</i> e a subsequente <i>Nouvelle histoire</i>, sob a forte    influ&ecirc;ncia do marxismo, edificaram uma abordagem neopositivista de base    quantitativa e nomot&eacute;tica empenhada em explicar deterministicamente a    evolu&ccedil;&atilde;o do social (nas suas facetas mais mensur&aacute;veis:    a econ&oacute;mica e a demogr&aacute;fica), relegando o indiv&iacute;duo e o    acontecimento (elementos nobres da antiga hist&oacute;ria pol&iacute;tica) para    a arca das &laquo;velharias in&uacute;teis &raquo;. Uma posi&ccedil;&atilde;o    que tendeu a ser hegem&oacute;nica nas d&eacute;cadas de 50, 60 e 70 do s&eacute;culo    XX, sofrendo a partir de ent&atilde;o uma contesta&ccedil;&atilde;o associada    ao retorno da narrativa baseada na compreens&atilde;o enquanto forma ou meio    de interpretar o passado. E, como sublinhou Rui Ramos em artigo publicado em    1991, o retorno da narrativa, do singular, do modo descritivo e da compreens&atilde;o,    significou ent&atilde;o que alguma &laquo;nova&raquo; nova hist&oacute;ria se    estava a reaproximar <i>do ponto de vista pol&iacute;tico</i> <sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.  </p>     <p>Na &laquo;hora dos retornos&raquo;, a hist&oacute;ria pol&iacute;tica sa&iacute;a    do banimento e regressava ao palco por duas vias &#8212; a &laquo;cientifica&ccedil;&atilde;o&raquo;    do pol&iacute;tico sustentada por Ren&eacute; R&eacute;mond e seus seguidores    e a apologia da narrativa hist&oacute;rico- pol&iacute;tica. Em defesa desta    escreveu Maria de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio um sugestivo ensaio em que    se distancia criticamente dos <i>resultados decepcionantes</i> (a express&atilde;o    &eacute; dela) do programa te&oacute;rico-metodol&oacute;gico de Ren&eacute;    R&eacute;mond e em que destaca as caracter&iacute;sticas fundamentais desta    op&ccedil;&atilde;o discursiva e hermen&ecirc;utica, sublinhando a dado passo:    &laquo;Esta passagem &#8212; dos actos individuais para a hist&oacute;ria de    conjunto &#8212; f&aacute;-la a narrativa sem o recurso a proposi&ccedil;&otilde;es    explicativas gerais ou abstractas, pelo motivo de que nenhum facto ou acontecimento,    enquanto resultante da ac&ccedil;&atilde;o humana, &eacute; explic&aacute;vel    por uma proposi&ccedil;&atilde;o geral e abstracta &#8212; ao contr&aacute;rio    dos factos f&iacute;sicos ou naturais, que s&atilde;o explicados por refer&ecirc;ncia    a uma ou v&aacute;rias leis gerais. [...] &Eacute; por isso que a verdadeira    hist&oacute;ria pol&iacute;tica, al&eacute;m de envolver algo mais e diferente    de uma teoria da ac&ccedil;&atilde;o ou uma teoria psicol&oacute;gica, s&oacute;    pode ser escrita sob a forma narrativa: trata de ac&ccedil;&otilde;es, e portanto    de acontecimentos, cujo significado apenas podemos apreender na sua rela&ccedil;&atilde;o    com outros acontecimentos ulteriores, todos eles irredut&iacute;veis, pelas    raz&otilde;es apontadas, a qualquer narrativa <sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.&raquo;  </p>     <p>Linhas de for&ccedil;a de uma concep&ccedil;&atilde;o da &laquo;nova&raquo;    nova hist&oacute;ria (re)valorizadora do pol&iacute;tico atrav&eacute;s de uma    assumida e desenvolta utiliza&ccedil;&atilde;o da narrativa e com a qual o autor    de <i>Jo&atilde;o Franco e o Fracasso do Reformismo Liberal (1884-1908)</i>    est&aacute; em sintonia &#8212; o recurso a um g&eacute;nero discursivo solto    e sugestivo &eacute;, ali&aacute;s, patente da primeira &agrave; &uacute;ltima    p&aacute;gina do ensaio, mas a preocupa&ccedil;&atilde;o de compreender a figura    em seu contexto esp&aacute;cio-temporal ressalta por de mais evidente e prefigura    uma preocupa&ccedil;&atilde;o de cientificidade poss&iacute;vel em hist&oacute;ria    e ci&ecirc;ncias sociais acompanhada, necessariamente, por algumas preven&ccedil;&otilde;es    metodol&oacute;gicas contra a tenta&ccedil;&atilde;o do relativismo historiogr&aacute;fico    que faz do (re)interpretar <i>&agrave; outrance</i> meio e fim absolutos.    Sobressai, por&eacute;m, uma ou outra fragilidade decorrente do paradigma adoptado    que deixaremos para o final. </p>     <p>Mantendo a desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s teorias explicativas    <i>a priori</i>, posi&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica de uma hist&oacute;ria    compreensiva, o autor, ao escolher Jo&atilde;o Ferreira Franco e Freire Pinto    Castelo Branco (1855-1929) e o franquismo (1906-1908) como caso espec&iacute;fico    de estudo, n&atilde;o foi certamente alheio &agrave; complexidade e sobretudo    &agrave; controv&eacute;rsia que desde a sua g&eacute;nese se desenvolveu, predominando    e prevalecendo at&eacute; agora uma interpreta&ccedil;&atilde;o &laquo;forte&raquo;    e linear urdida por advers&aacute;rios pol&iacute;ticos, por historiadores republicanos    e por outros de forma&ccedil;&atilde;o marxista, que consiste na identifica&ccedil;&atilde;o    do franquismo com o salazarismo, ou seja, na sua condi&ccedil;&atilde;o de fen&oacute;meno    precursor das ditaduras de entre guerras. Uma leitura simples(ista) e aparentemente    &oacute;bvia que tem servido para outros casos e situa&ccedil;&otilde;es, mas    que n&atilde;o pode escapar mais a um rigoroso exame cr&iacute;tico.</p>     <p>Rui Ramos empreendeu, globalmente com sucesso, esse imperativo cient&iacute;fico.    E, ao contr&aacute;rio de Jos&eacute; Miguel Sardica <sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>,    investigador munido, tamb&eacute;m ele, de preceitos e de preocupa&ccedil;&otilde;es    de rigor interpretativo, que autores precedentes, como Rocha Martins, Lopes    de Oliveira, Alfredo Pimenta ou Rodrigues Cavalheiro, manifestamente n&atilde;o    seguiram, soube e p&ocirc;de explorar criticamente toda a informa&ccedil;&atilde;o    prim&aacute;ria usada a ponto de refutar a &laquo;lenda negra&raquo; mantida,    no essencial, pela recente historiografia desde a <i>Hist&oacute;ria de Portugal</i>    de A. H. de Oliveira Marques, onde se diz que Jo&atilde;o Franco foi <i>adepto    de um novo tipo de monarquia, assaz desp&oacute;tica</i> <sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>,    at&eacute; ao ensaio sin&oacute;ptico de Amadeu Carvalho Homem, que acentua    a tenta&ccedil;&atilde;o ditatorial e bismarckiana do franquismo <sup><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></sup>.  </p>     <p>Na opini&atilde;o de Rui Ramos, &laquo;a mais recente hist&oacute;ria acad&eacute;mica    do franquismo consistiu, em geral, na adapta&ccedil;&atilde;o das teorias marxistas    sobre o fascismo. Os historiadores marxistas entenderam a democracia como uma    conquista das massas e o fascismo como a reac&ccedil;&atilde;o da antiga classe    dirigente a essa conquista. Franco foi identificado como o representante de    uma oligarquia amea&ccedil;ada pela revolta da massa urbana, supostamente guiada    pelo Partido Republicano. Logo, Franco s&oacute; podia ser pr&eacute;-fascista.    Para este tipo de explica&ccedil;&atilde;o, as inten&ccedil;&otilde;es e ideias    de Franco, bem assim como as circunst&acirc;ncias e detalhes da sua vida pol&iacute;tica,    eram irrelevantes&raquo; (p. 18). E acrescenta de imediato: &laquo;O que distingue    o presente ensaio n&atilde;o &eacute; a diferente valoriza&ccedil;&atilde;o    da figura de Franco, mas a metodologia empregada no seu estudo: trata-se de    compreender a vida pol&iacute;tica de Franco at&eacute; 1908 no quadro das tradi&ccedil;&otilde;es    da monarquia constitucional, em que ele se formou como pol&iacute;tico, e n&atilde;o    do mundo sa&iacute;do da primeira guerra mundial&raquo; (p. 19). </p>     <p>Claramente sintonizado com a tese de Maria de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio,    sucintamente expressa na obra dirigida por Roberto Carneiro e Artur Teodoro    de Matos <i>Mem&oacute;ria de Portugal</i> <sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup>,    de que a governa&ccedil;&atilde;o franquista (de 20 de Mar&ccedil;o de 1906    at&eacute; tr&ecirc;s dias ap&oacute;s o regic&iacute;dio, em 1 de Fevereiro    de 1908), nascida de uma interven&ccedil;&atilde;o pessoal de D. Carlos I (1863-1908),    n&atilde;o visou abolir o sistema parlamentar, mas t&atilde;o-somente reform&aacute;-lo,    Rui Ramos deixa bem vincada no final do primeiro cap&iacute;tulo, sugestivamente    intitulado &laquo;A lenda negra do franquismo&raquo; (pp. 15- -29), a hip&oacute;tese    que colocou e que procurou demonstrar no ensaio em foco: &laquo;Franco se manteve    fiel, do princ&iacute;pio ao fim, &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o do liberalismo    da monarquia constitucional, mas os seus actos acabariam por perder-se no caos    pol&iacute;tico donde finalmente sairia a rep&uacute;blica radical de 1910&raquo;    (p. 29). E ainda adverte oportunamente que o franquismo pode, n&atilde;o obstante    isso, ter aberto horizontes para al&eacute;m do Estado liberal, porquanto &laquo;os    actores hist&oacute;ricos s&atilde;o guiados pelas suas perspectivas, mas os    acontecimentos n&atilde;o s&atilde;o o simples resultado de premedita&ccedil;&atilde;o:    s&atilde;o antes o desenlace de m&uacute;ltiplas ac&ccedil;&otilde;es contradit&oacute;rias,    de modo que a situa&ccedil;&atilde;o final pode n&atilde;o ser a desejada por    nenhum dos agentes ou sequer a que melhor serve os seus interesses&raquo; (p.    29). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sem pretender apresentar uma biografia hist&oacute;rica de Jo&atilde;o Franco,    apesar de o livro aparecer editado pelo Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais    na colec&ccedil;&atilde;o breve &laquo;Biografias&raquo;, o autor n&atilde;o    descurou a detalhada e variada informa&ccedil;&atilde;o biogr&aacute;fica que    nos ajuda a situar Franco no seu tempo e na sua traject&oacute;ria espec&iacute;fica    de vida, com origens numa aldeia do Fund&atilde;o (Portugal quase raiano e profundo),    no seio de uma fam&iacute;lia nobre alinhada politicamente pelo Partido Regenerador    do carism&aacute;tico Fontes Pereira de Melo e marcado, at&eacute; sair de Coimbra    com o diploma de Direito, por um conjunto de prefer&ecirc;ncias e valores em    que pontificaram a educa&ccedil;&atilde;o liberal e os ensinamentos pr&aacute;ticos    de seu pai (cacique local ao servi&ccedil;o de Fontes), a necessidade da ac&ccedil;&atilde;o    como princ&iacute;pio de utilidade e o positivismo jur&iacute;dico como matriz    comum a toda a sua gera&ccedil;&atilde;o e &agrave;s seguintes. Rui Ramos desenvolve,    ali&aacute;s, muito bem os aspectos essenciais da forma&ccedil;&atilde;o de    Franco para bem demonstrar que, sendo ele filho de seu tempo e de suas circunst&acirc;ncias    particulares, o peso deste factor nos tr&ecirc;s momentos considerados fundamentais    da sua vida pol&iacute;tica &#8212; a &laquo;ditadura&raquo; de 1895, a &laquo;cruzada    moral&raquo; de 1903 e a &laquo;ditadura&raquo; de 1907 &#8212; foi decisivo    e impeditivo de actos pioneiros ou antecipadores da mundivid&ecirc;ncia pol&iacute;tica    dos anos 10 e 20 do s&eacute;culo XX. </p>     <p>No cap&iacute;tulo III, &laquo;As reformas pol&iacute;ticas de 1895&raquo;    (pp. 65-103), no IV, &laquo;O franquismo na oposi&ccedil;&atilde;o (1901- -1906)&raquo;    (pp. 105-136), e no V, &laquo;O franquismo no poder (1906- -1908)&raquo; (pp.    137-169), Rui Ramos tece num estilo cron&iacute;stico muito do seu agrado e    agrad&aacute;vel para o leitor comum (n&atilde;o especialista) a narrativa da    demonstra&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica da sua hip&oacute;tese oportunamente    formulada. Franco, quer na importante, ainda que ef&eacute;mera e frustrante,    experi&ecirc;ncia governativa como ministro do Reino do gabinete regenerador    de Hintze Ribeiro (22 de Fevereiro de 1893 a 7 de Fevereiro de 1895), quer na    &laquo;travessia do deserto&raquo; de 1901 a 1906 ap&oacute;s a sua sa&iacute;da    do Partido, onde desde sempre militara, com um punhado de amigos que haveriam    de ajud&aacute;-lo a fundar o Partido Regenerador Liberal, quer na fase vertiginosa    e atribulada em que ascendeu, finalmente, ao poder pela m&atilde;o do rei, o    seu lema e o seu fim tanto no discurso como nas suas propostas de reforma pol&iacute;tico-administrativa    exibem uma coer&ecirc;ncia e uma continuidade de prop&oacute;sitos que o articulam    com todos os que no seu partido e noutros quadrantes (progressistas e at&eacute;    republicanos) propugnavam por uma correc&ccedil;&atilde;o de v&iacute;cios e    de fragilidades do sistema mon&aacute;rquico-constitucional. </p>     <p>Num sexto e &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, &laquo;Franco depois do franquismo:    o apoliticismo liberal&raquo; (pp. 171-181), antes das &laquo;Conclus&otilde;es&raquo;    (pp. 183- -193), o autor sublinha o facto, para ele incontorn&aacute;vel, de    Jo&atilde;o Franco se ter limitado a exercer uma autoridade que lhe vinha directamente    do rei &#8212; morto este, findara, por completo, a sua capacidade e legitimidade    de interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, exilando-se para a Riviera francesa,    onde digeriu o fracasso da sua experi&ecirc;ncia reformista e n&atilde;o mais    voltou &agrave; vida pol&iacute;tica activa, limitando-se a preparar para a    posteridade o seu testemunho memorial&iacute;stico, de que se conhece apenas    a compila&ccedil;&atilde;o de cartas que D. Carlos lhe escreveu. E a elogiosa    carta dirigida em 1929 a Ant&oacute;nio de Oliveira Salazar (1889-1970) ap&oacute;s    ter apreciado o relat&oacute;rio que este elaborara como ministro das Finan&ccedil;as,    convertida na grande prova da afinidade do franquismo com os regimes ditatoriais    do s&eacute;c. XX, n&atilde;o representou a ades&atilde;o ao Estado Novo, ainda    nem sequer nascido, mas apenas a preocupa&ccedil;&atilde;o de um moribundo (Franco    morreria pouco depois) pelo estado da <i>res publica</i> portuguesa. </p>     <p>Nas &laquo;Conclus&otilde;es&raquo;, Rui Ramos   centra-se em dois t&oacute;picos fundamentais.   Debate, no primeiro, a pretensa   rela&ccedil;&atilde;o, postulada pela historiografia   at&eacute; hoje, entre a &laquo;ditadura&raquo; de 1907 e as ditaduras surgidas    ap&oacute;s 1918 em   pa&iacute;ses como a It&aacute;lia, a R&uacute;ssia e Portugal,   para concluir que n&atilde;o pode   confundir-se o &laquo;autoritarismo&raquo; de   Franco com a rejei&ccedil;&atilde;o do liberalismo,   porque &laquo;as origens do esp&iacute;rito reformista   que animava Franco n&atilde;o estavam   na rejei&ccedil;&atilde;o do liberalismo, mas   sobretudo na tentativa de realizar as   solu&ccedil;&otilde;es para que apontava o debate   liberal. Politicamente formado na intersec&ccedil;&atilde;o   do radicalismo universit&aacute;rio   e da esquerda constitucional com o   oportunismo fontista, Franco era, social   e culturalmente, um membro da   elite liberal, preso &agrave;s ideias e aos costumes   dessa elite&raquo; (p. 184). No segundo,   tenta explicar o fracasso do   reformismo liberal, avan&ccedil;ando com   tr&ecirc;s tipos de raz&otilde;es: a primeira consiste   em argumentar que, por um   lado, os liberais queixavam-se de estarem   sozinhos no pa&iacute;s rodeados por   b&aacute;rbaros e indiferentes e, por outro,   n&atilde;o se consideravam em perigo; a   segunda deriva da anterior e consistiu   na manifesta falta de cautela na disputa   de preemin&ecirc;ncias e privil&eacute;gios a   que a elite liberal se entregou de forma   infrene e assanhada; a terceira   decorre da posi&ccedil;&atilde;o delicada de Franco,   que come&ccedil;ou por governar com o   apoio dos progressistas de Jos&eacute; Luciano   de Castro para, em 1907, ao   entrar em &laquo;ditadura&raquo;, ter permanecido   &laquo;no poder unicamente porque o   rei, no &acirc;mbito das suas prerrogativas   constitucionais, assim o decidiu&raquo;   (p. 191), tendo sido este o seu grande   trunfo e a sua maior fragilidade. </p>     <p>Uma &laquo;Cronologia&raquo; sucinta, mas muito oportuna e esclarecedora, e    uma &laquo;Bibliografia&raquo; completa e &uacute;til rematam o ensaio, que    merece, para concluirmos, uma aprecia&ccedil;&atilde;o global fixada em algumas    breves notas. </p>     <p>E a primeira nota a destacar respeita &agrave; estrat&eacute;gia discursiva    usada pelo autor, que lhe permite agarrar bem o leitor atrav&eacute;s de um    vasto naipe de imagens e de outros efeitos liter&aacute;rios, mas n&atilde;o    serve com igual efic&aacute;cia a demonstra&ccedil;&atilde;o cabal e cient&iacute;fica    da hip&oacute;tese formulada logo no in&iacute;cio do estudo. Um recurso mais    extensivo e frequente &agrave; cita&ccedil;&atilde;o de fontes variadas e reveladoras    da mentalidade, do temperamento e dos vectores essenciais da ac&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica de Jo&atilde;o Franco daria uma consist&ecirc;ncia maior a uma    hip&oacute;tese bem concebida e bastante veros&iacute;mil. </p>     <p>Uma segunda nota traz &agrave; cola&ccedil;&atilde;o a tese do reformismo liberal    que pode ser, em nossa opini&atilde;o, substitu&iacute;da, com maior proveito    de inteligibilidade, pelo reformismo democr&aacute;tico e autorit&aacute;rio    para significar que o segmento da &laquo;elite liberal&raquo; a que Jo&atilde;o    Franco se associou j&aacute; n&atilde;o se limitava a reproduzir a matriz liberal    de vintistas e de cartistas e ia mais longe, apostando num claro refor&ccedil;o    da democratiza&ccedil;&atilde;o do sistema mon&aacute;rquico- constitucional    &agrave; luz do bin&oacute;mio positivista da ordem e do progresso &#8212; o    mesmo, ali&aacute;s, que fundamentou a aposta revolucion&aacute;ria e regeneradora    do republicanismo portugu&ecirc;s da <i>gera&ccedil;&atilde;o activa, ou gera&ccedil;&atilde;o    de 90</i>. E esta inflex&atilde;o democr&aacute;tica e at&eacute; socializante    (socialismo ut&oacute;pico/filantr&oacute;pico e org&acirc;nico) n&atilde;o    foi, nem tinha de ser, incompat&iacute;vel com t&aacute;cticas e derivas autorit&aacute;rias    que convertessem o Executivo em motor indispens&aacute;vel de moderniza&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica, econ&oacute;mica e social de Portugal. Paul Deroul&egrave;de,    no &uacute;ltimo quartel de Oitocentos, na Fran&ccedil;a da III Rep&uacute;blica,    proclamara que se podia ser democrata sem ser parlamentarista. Proclamara a    possibilidade doutrin&aacute;ria de uma democracia autorit&aacute;ria (compar&aacute;vel,    <i>mutatis mutandis</i>, ao presidencialismo norte e sul-americano). Os republicanos    viriam a ser bastante contaminados por este desiderato, apesar de nunca o terem    assumido completamente, salvo em raros e ef&eacute;meros epis&oacute;dios &#8212;    a governa&ccedil;&atilde;o de Pimenta de Castro com a cumplicidade de Manuel    de Arriaga e a <i>Rep&uacute;blica Nova </i>de Sid&oacute;nio Pais <sup><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></sup>    &#8212;, mas sempre patente, desde o manifesto de 1890 do Partido Republicano    Portugu&ecirc;s (PRP) a configurar um partido &uacute;nico de vanguarda revolucion&aacute;ria    at&eacute; &agrave; <i>praxis</i> do PRP/Partido Democr&aacute;tico liderado    por Afonso Costa (1911-1918). Jo&atilde;o Franco esbo&ccedil;ou sinais de que    lhe agradaria esse caminho, mas n&atilde;o tinha perfil psicol&oacute;gico,    nem bojo ideol&oacute;gico suficiente, nem t&atilde;o-pouco um bloco coerente    de apoio que o impulsionassem decididamente por a&iacute;. </p>     <p>Uma terceira e &uacute;ltima nota para   sublinhar que as raz&otilde;es apontadas   por Rui Ramos para o fracasso do   suposto reformismo liberal s&atilde;o muito   espec&iacute;ficas, insuficientes e perdemse   no universo multifactorial (pol&iacute;tico,   social, econ&oacute;mico, psicol&oacute;gico, religioso, etc.) que entretece    dinamicamente   o processo hist&oacute;rico e para   a explica&ccedil;&atilde;o do qual se inventaram   as no&ccedil;&otilde;es operat&oacute;rias de estrutura e   de conjuntura, que, em nossa opini&atilde;o,   permanecem &uacute;teis, se bem usadas.   Com efeito, h&aacute; m&uacute;ltiplos factores   estruturais e conjunturais que   n&atilde;o podem deixar de ser tidos em   conta e da&iacute; que nos pare&ccedil;a indispens&aacute;vel   evoluir para uma s&iacute;ntese   operativa dos aspectos articul&aacute;veis e   complementares de diferentes achegas   &#8212; a narrativa como base da hist&oacute;ria   compreensiva praticada por Rui   Ramos e outros historiadores; a historiografia   total orientada para o pol&iacute;tico   por Ren&eacute; R&eacute;mond e seus colaboradores;   a &laquo;erudito-met&oacute;dica&raquo;, util&iacute;ssima,   se aplicada apenas &agrave; heur&iacute;stica e &agrave;   cr&iacute;tica rigorosa das fontes. N&atilde;o se   trata, obviamente, de uma receita,   mas de uma preven&ccedil;&atilde;o te&oacute;rico-metodol&oacute;gica   global face &agrave; quase intang&iacute;vel   complexidade do humano e do   social.</p>     <p align="right">   Armando Malheiro da Silva</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Cf. Rui Ramos, &laquo;A causa    da hist&oacute;ria do ponto de vista pol&iacute;tico&raquo;, in <i>Pen&eacute;lope</i>,    Lisboa, 5 (1991), pp. 27-47.</p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a> </sup>Cf. Maria de F&aacute;tima    Bonif&aacute;cio, <i>Apologia da Hist&oacute;ria Pol&iacute;tica: Estudos sobre    o S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s</i>, Lisboa, Quetzal Editores, 1999, pp.    71-72.</p>     <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> V. Jos&eacute; Miguel Sardica,    <i>A Dupla Face do Franquismo na Crise da Monarquia Portuguesa, </i>Lisboa,    Edi&ccedil;&otilde;es Cosmos, 1994.</p>     <p> <sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> Cf. A. H. de Oliveira Marques,    <i>Hist&oacute;ria de Portugal desde os Tempos mais Antigos at&eacute; ao Governo    do Sr. Pinheiro de Azevedo</i>, vol. 2, Lisboa, Palas Editores, 1977, 4.&ordf;    ed., pp. 110 e ainda 112-114.</p>     <p> <sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> V. Amadeu Carvalho Homem,    <i>Da Monarquia &agrave; Rep&uacute;blica</i>, Viseu, Palimage, 2001, pp.    125-134. </p>     <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> V. <i>Mem&oacute;ria de Portugal:    o Mil&eacute;nio Portugu&ecirc;s</i>, dir. Roberto Carneiro e Artur Teodoro    de Matos, Lisboa, C&iacute;rculo de Leitores, 2001, p. 477.</p>     <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> V. Armando B. Malheiro da    Silva, <i>Sid&oacute;nio e Sidonismo: Hist&oacute;ria e Mito</i>, disserta&ccedil;&atilde;o    de doutoramento, 2 vols., Braga, Universidade do Minho, 1997.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body>
</article>
