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</front><body><![CDATA[ <p>Concei&ccedil;&atilde;o A. Martins e Nuno G. Monteiro (orgs.), <b>A Agricultura:    Dicion&aacute;rio das Ocupa&ccedil;&otilde;es,</b> vol. 3 de Nuno Lu&iacute;s    Madureira (coord.), <b>Hist&oacute;ria do Trabalho e das Ocupa&ccedil;&otilde;es</b>,    Oeiras, Celta Editora, 2002, 421 p&aacute;ginas. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil recensear um dicion&aacute;rio, que, por defini&ccedil;&atilde;o,    n&atilde;o tem um argumento, n&atilde;o desenrola uma narrativa, n&atilde;o    discute uma tese. Podemos come&ccedil;ar por dizer, com toda a verdade e justi&ccedil;a,    que est&aacute; muito bem feito, &eacute; de grande utilidade e ser&aacute;    certamente uma obra de refer&ecirc;ncia indispens&aacute;vel para o estudo da    hist&oacute;ria das ocupa&ccedil;&otilde;es agr&iacute;colas e da agricultura    em geral. </p>     <p>Este dicion&aacute;rio descreve um amplo acervo vocabular estruturado em tr&ecirc;s    cap&iacute;tulos, segundo os principais vectores das rela&ccedil;&otilde;es    de produ&ccedil;&atilde;o: a posse da terra (&laquo;Propriet&aacute;rios, lavradores,    rendeiros&raquo;, com 29 entradas); o trabalho agr&iacute;cola nas suas variadas    especializa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas (&laquo;Trabalhadores &raquo;,    com 61 entradas); com 44 entradas, os &laquo;Outros&raquo;, a variedade de ocupa&ccedil;&otilde;es    n&atilde;o directamente agr&iacute;colas, mas imbricadas nas rela&ccedil;&otilde;es    sociais e na cadeia de valor da agricultura, seja no fabrico e na manuten&ccedil;&atilde;o    dos meios de produ&ccedil;&atilde;o (e. g., albardeiro, carpinteiro, ferrador),    noutras esferas de produ&ccedil;&atilde;o relacionadas (e. g., ca&ccedil;ador,    carvoeiro, lagareiro), na presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os (e. g.,    agr&oacute;nomo, alugador de m&aacute;quinas, veterin&aacute;rio), nas trocas    e na circula&ccedil;&atilde;o do produto agr&iacute;cola (e. g., a&ccedil;ougueiro,    almocreve, negociante), ou ainda na administra&ccedil;&atilde;o e no controle    da ordem agr&aacute;ria (e. g., couteiro, guarda, partidor, recebedor). Ao todo,    s&atilde;o 334 entradas principais, dando conta de perto de um milhar de variantes,    debulhadas de um diversificado conjunto de fontes de informa&ccedil;&atilde;o    que v&atilde;o dos forais &agrave; literatura neo-realista, passando pelas fontes    paroquiais, fiscais e estat&iacute;sticas, pela bibliografia etnogr&aacute;fica    e historiogr&aacute;fica e, claro, pelos principais dicion&aacute;rios de refer&ecirc;ncia.    Um quarto cap&iacute;tulo &eacute; dedicado &agrave; an&aacute;lise etimol&oacute;gica    dos nomes de ocupa&ccedil;&otilde;es, indicando desde quando se encontram documentalmente    atestados.</p>     <p> Os verbetes oscilam desde algumas linhas com defini&ccedil;&otilde;es concisas    at&eacute; pequenos ensaios de s&iacute;ntese com v&aacute;rias p&aacute;ginas,    incluindo pontos de situa&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica sobre o t&oacute;pico    descrito. E, deste ponto de vista, as quest&otilde;es relativas &agrave; propriedade    e &agrave; posse da terra mereceram um tratamento bastante favorecido: as entradas    deste cap&iacute;tulo contam, em m&eacute;dia, mais de 4 p&aacute;ginas, ao    passo que as dos outros dois cap&iacute;tulos rondam apenas metade dessa extens&atilde;o.    Al&eacute;m desta diferen&ccedil;a, indiciam-se tamb&eacute;m varia&ccedil;&otilde;es    no n&iacute;vel de especializa&ccedil;&atilde;o: as 29 entradas do primeiro    cap&iacute;tulo contam com 7 autorias (em m&eacute;dia, 4 entradas por autor),    tantas como as que assinam as 44 entradas do terceiro cap&iacute;tulo (6 entradas    por autor), ao passo que as 61 entradas sobre trabalhadores s&atilde;o subscritas    por apenas 5 autores (12 entradas por autor). Em parte, tal dever-se-&aacute;    terminol&oacute;gico, que corresponde &agrave;s tarefas t&eacute;cnicas, mais    especializadas do que as rela&ccedil;&otilde;es de propriedade e as posi&ccedil;&otilde;es    a elas associadas. Mas podemos ler estas assimetrias como indicadores do desenvolvimento    relativo destas linhas tem&aacute;ticas na nossa investiga&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica sobre a agricultura, que tem sublinhado muito mais as problem&aacute;ticas    do regime senhorial, das estruturas agr&aacute;rias, dos contratos agr&aacute;rios,    da distribui&ccedil;&atilde;o da riqueza e das elites propriet&aacute;rias do    que a do trabalho agr&iacute;cola, da sua organiza&ccedil;&atilde;o e tecnologia.    Mesmo o facto de um sexto das entradas relativas a trabalhadores ser directamente    relacionado com a viticultura (al&eacute;m das abundantes men&ccedil;&otilde;es    que lhe s&atilde;o feitas em entradas menos espec&iacute;ficas) &laquo;trai&raquo;    o car&aacute;cter excepcional das investiga&ccedil;&otilde;es de Concei&ccedil;&atilde;o    Andrade Martins nesta divis&atilde;o do trabalho historiogr&aacute;fico, n&atilde;o    menos importante do que essa outra divis&atilde;o regional de que falam os organizadores    na introdu&ccedil;&atilde;o e que tem privilegiado o Sul &#8212; entenda-se,    o Alentejo &#8212; at&eacute; nas op&ccedil;&otilde;es iniciais do projecto    que gerou esta obra. </p>     <p>A extensa bibliografia final, com umas seis centenas de refer&ecirc;ncias a    fontes e bibliografia citada, n&atilde;o &eacute; decerto menos &uacute;til    do que os conte&uacute;dos acima resumidos. N&atilde;o pretendendo a exaustividade    de um invent&aacute;rio, &eacute; certamente a mais ampla e actualizada recolha    ao dispor dos investigadores e estudiosos da nossa hist&oacute;ria agr&aacute;ria.    Estranha-se, no entanto, uma lacuna como a da mem&oacute;ria de Joaquim Pedro    Fragoso de Sequeira sobre as gadanhas, nas <i>Mem&oacute;rias Econ&oacute;micas</i>    da Academia das Ci&ecirc;ncias (t. 5, 1815), em que encontramos uma das mais    interessantes e minuciosas descri&ccedil;&otilde;es de sempre do trabalho da    ceifa nas lez&iacute;rias do Ribatejo e no Alentejo, incluindo os contratos    de trabalho, os gestos e os instrumentos e at&eacute; a receita do gaspacho,    preven&ccedil;&atilde;o contra as insola&ccedil;&otilde;es de que morriam muitos    ceifeiros, onde, al&eacute;m do mais, se ganharia o voc&aacute;bulo &laquo;rei&raquo;,    aparentemente usado pelos &laquo;ratinhos&raquo; para designarem o seu &laquo;capataz&raquo;,    que Sequeira usa no sentido de &laquo;manageiro &raquo;. Tamb&eacute;m Ant&oacute;nio    Henriques da Silveira, no t. 1 das mesmas <i>Mem&oacute;rias</i> (1789), apesar    de referenciado nas fontes, poderia ter sido mais bem explorado. Ganhar-se-ia,    por exemplo, o termo &laquo;posseiro&raquo;, como sin&oacute;nimo de &laquo;senhorio&raquo;    (noutras fontes, &laquo;maior senhorio&raquo; ou &laquo;mor senhorio&raquo;)    nas rela&ccedil;&otilde;es de arrendamento das herdades do Alentejo, em sentido    semelhante ao do &laquo;possoeiro &raquo;, que o verbete restringe aos forais    manuelinos da Beira, Entre Douro e Minho e Tr&aacute;s-os-Montes e &agrave;s    rela&ccedil;&otilde;es de aforamento. E algum vocabul&aacute;rio de conota&ccedil;&atilde;o    pejorativa dos argumentos pol&iacute;ticos parece ter sido esquecido: por exemplo,    termos como &laquo;monopolista&raquo;, aplicado tanto a rendeiros de m&uacute;ltiplas    herdades no Alentejo como a negociantes de cereais, e &laquo;atravessador&raquo;,    no &acirc;mbito do com&eacute;rcio interno dos bens agr&iacute;colas, tiveram    uma fun&ccedil;&atilde;o pragm&aacute;tica de designa&ccedil;&atilde;o (negativa)    de pap&eacute;is e posi&ccedil;&otilde;es sociais, demasiado importante para    poder ser ignorada num levantamento do vocabul&aacute;rio social sobre as ocupa&ccedil;&otilde;es.    Certamente o porvir do escrut&iacute;nio por especialistas de diversos terrenos    n&atilde;o deixar&aacute; de referenciar id&ecirc;nticas lacunas, inevit&aacute;veis    em trabalho desta envergadura e que em futuras edi&ccedil;&otilde;es poder&atilde;o    ser completadas.</p>     <p> Resta abordar a quest&atilde;o do modelo de livro pelo qual os organizadores    deste volume optaram. O formato de dicion&aacute;rio destoa do adoptado pelos    outros volumes publicados desta <i>Hist&oacute;ria do Trabalho e das Ocupa&ccedil;&otilde;es</i>    e parece introduzir alguma discrep&acirc;ncia de crit&eacute;rios na sua coordena&ccedil;&atilde;o    geral. Por se tratar de uma cr&iacute;tica &oacute;bvia, merecem elogio os organizadores    deste volume e o coordenador da obra, que tiveram a coragem de se lhe exporem.    Porque, pelo menos no estado presente da hist&oacute;ria da agricultura em Portugal,    me parece ter sido esta a op&ccedil;&atilde;o acertada. Como os organizadores    sugerem na introdu&ccedil;&atilde;o, &eacute; muito discut&iacute;vel a pertin&ecirc;ncia    da escala nacional para uma hist&oacute;ria do trabalho e das ocupa&ccedil;&otilde;es    agr&iacute;colas, dada a enorme variabilidade regional e a sedimenta&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica dos modos de repartir a posse da terra e de praticar a agricultura,    que inevitavelmente se repercutem nas formas de classifica&ccedil;&atilde;o    das ocupa&ccedil;&otilde;es. Por maioria de raz&atilde;o, dificilmente essa    diversidade essencial se presta a uma narrativa hist&oacute;rica unificada e    coerente da evolu&ccedil;&atilde;o do trabalho e das ocupa&ccedil;&otilde;es    agr&iacute;colas. </p>     <p>Com efeito, estas classifica&ccedil;&otilde;es sociais s&atilde;o espacialmente    espec&iacute;ficas, porque diferentes estruturas agr&aacute;rias, t&eacute;cnicas    e pr&aacute;ticas agr&iacute;colas requerem o desempenho de diferentes pap&eacute;is,    distribuem diferentes posi&ccedil;&otilde;es e constroem diferentes identidades    sociais. Mais ainda, o mesmo voc&aacute;bulo designa muitas vezes posi&ccedil;&otilde;es,    pap&eacute;is e identidades sociais vari&aacute;veis. N&atilde;o se trata s&oacute;    da variabilidade normal, mesmo nas menos amb&iacute;guas classifica&ccedil;&otilde;es    sociais, mas de uma ampla dispers&atilde;o sem&acirc;ntica e pragm&aacute;tica    atrav&eacute;s de diferentes contextos esp&aacute;cio-temporais. &laquo;Lavrador&raquo;    n&atilde;o designa o mesmo tipo de actor nem de posi&ccedil;&atilde;o na estrutura    social na pena de Brian O&#8217;Neill e na de Jos&eacute; Cutileiro, respectivamente    sobre uma comunidade rural transmontana e uma outra alentejana na segunda metade    do s&eacute;culo XX. Mas t&atilde;o-pouco o objecto social descrito por &laquo;lavrador&raquo;    &eacute; exactamente o mesmo na comunidade estudada por Cutileiro nos anos 60    do s&eacute;culo passsado &#8212; onde estava normalmente reservada aos &laquo;latifundi&aacute;rios    &raquo;, propriet&aacute;rios de v&aacute;rias herdades &#8212; e nos textos    sobre o Alentejo da segunda metade do s&eacute;culo XVIII &#8212; cujo vocabul&aacute;rio,    num verdadeiro registo de luta social pela classifica&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima    para fins pol&iacute;ticos, opunha aos &laquo;lavradores de profiss&atilde;o,    filhos e netos de lavradores&raquo; esses &laquo;monopolistas de herdades&raquo;    que, numa traject&oacute;ria lan&ccedil;ada decisivamente nessa &eacute;poca    e concretizada com o acesso &agrave; propriedade plena ap&oacute;s a reforma    agr&aacute;ria liberal, foram uma das origens sociais dos &laquo;lavradores    &raquo; descritos por Cutileiro.</p>     <p> Por isso, a op&ccedil;&atilde;o por um modelo de texto hist&oacute;rico que    procurasse sintetizar toda essa diversidade cairia facilmente quer em generaliza&ccedil;&otilde;es    mal fundamentadas e com grande desperd&iacute;cio de informa&ccedil;&atilde;o,    quer num mosaico de descri&ccedil;&otilde;es parciais de coer&ecirc;ncia problem&aacute;tica    e, no estado presente da investiga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, necessariamente    lacunares. O formato de dicion&aacute;rio, sacrificando conscientemente a consist&ecirc;ncia    de um argumento global, permitiu valorizar por inteiro a informa&ccedil;&atilde;o    recolhida no &acirc;mbito do projecto, contextualizando- a nos textos explicativos    e relacionando- a de modo complexo atrav&eacute;s das remiss&otilde;es cruzadas    que os atravessam. Este dicion&aacute;rio constitui, assim, um instrumento que    n&atilde;o substitui uma hist&oacute;ria do trabalho agr&iacute;cola, mas sistematiza    a informa&ccedil;&atilde;o dispersa para come&ccedil;ar a pens&aacute;-la. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right">Rui Santos</p>      ]]></body>
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